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Luciano Pires -
Download do Programa

Bem-vindo ao LíderCast, o podcast para quem quer saber mais sobre liderança. Apresentação Luciano Pires.

Luciano: Bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No programa de hoje, falo com Sidnei Alcântara Oliveira. Segunda participação no LíderCast, com uma história que começa com um sequestro, mas um sequestro transformador e uma vida dedicada ao estudo das relações humanas, desembocando no conceito de mentoria.

Este não é um programa de entrevistas, não tem perguntas programadas, nem roteiro definido, é um bate-papo informal com gente que faz acontecer, que vai para lugares onde nem eu e nem o meu convidado imaginamos. Por isso eu não me limito a fazer perguntas, mas eu dou os meus pitacos também. Você entendeu aí? Isto aqui não é uma entrevista, é um bate-papo. O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa assim que ela é lançada, os não-assinantes receberão os programas gratuitamente, mas um por semana. Para assinar, acesse o cafebrasilpremium.com.br.

Muito bem, mais um LíderCast. Este aqui é para cumprir promessa. Da última vez que eu falei com essa figura aqui foi em 2015, foi no LíderCast 6, que a gente termina com uma promessa, vamos voltar aqui para retomar a partir de um determinado ponto. Bom, chegou a hora, vamos retomar isso aqui. Eu vou ter que repetir a pergunta, porque eu sei que de lá para cá seu nome mudou, não é?

Sidnei: Meu nome mudou.

Luciano: Então eu vou fazer pergunta de novo, vamos lá. Eu preciso saber seu nome, sua idade o que é que você faz.

Sidnei: Bom, Sidnei Oliveira. Atualmente tenho acrescentado Alcântara, que é o nome da minha mãe, então Sidnei Alcântara Oliveira, mas hoje mais conhecido ainda como Sidnei Oliveira.

Luciano: E a gente sabe porque, não é. É porque você tem um homônimo que é dono de um laboratório farmacêutico, que anuncia no Programa do Ratinho.

Sidnei: É, eu tenho um homônimo, que ele além de gostar muito do nome dele, ele tem bastante dinheiro, então ele patrocina o nome dele, coloca em jogos da seleção, coloca nos produtos dele. Então, é uma concorrência importante, então eu preciso criar algum diferencial. Então o Alcântara entrou aí mais recentemente, nesse período que nós estamos falando, já tem uns três anos, não é, rapaz? Três anos, você está certo.

Luciano: Em junho vai dar três anos.

Sidnei: É e eu acabei incluindo aí o Alcântara, ainda não coloquei nos meus livros, mas é um projeto futuro.

Luciano: A idade e o que você faz.

Sidnei: Ah, sim. A minha idade hoje é 55 e eu hoje sou escritor, trabalho bastante com formação de mentores, tenho trabalhado com esse novo conceito, tenho escrito bastante sobre isso. Então inclusive no momento de aproveitar aqui a volta para celebrar mais um lançamento de um livro, é o oitavo livro da série. Então eu tenho feito esse trabalho de escritor.

Luciano: Então, quando o Sidnei esteve aqui, três anos atrás, a gente se sentou, ele contou uma história grande, que foi da origem do trabalho dele que é junto com a origem dos trabalhos de internet no Brasil, quando começou tudo lá atrás, ele era um dos pioneiros lá e contou a história toda. E chegou até o momento em que ele estava trabalhando com a questão de gerações, escrevendo livros sobre gerações e tudo o mais e parou e a gente foi seguir a vida. E, claro, a gente nunca perdeu contato, somos bons amigos, sempre nos encontrando. E agora chegou a hora, porque ele fez umas mudanças interessantes na vida dele e a gente vai retomar.

Mas vamos voltar para onde a gente parou lá atrás. A gente termina aquele programa dizendo que quero voltar, saber mais da história do sequestro e a gente não falou a respeito, então já vamos. Quem quiser saber a parte anterior do sequestro, por favor, é o LíderCast número 6, Sidnei Oliveira, escuta a primeira parte e nós vamos partir para a segunda parte aqui agora.

Sidnei: Bom, é legal a gente fazer uma pequena linha do tempo, porque a gente assiste, então tem que ver no último capítulo. Então a gente comentou bastante sobre minha trajetória do banco, que eu fiz uma trajetória grande no banco e daí quando eu já tinha alcançado a diretoria do banco, ainda era muito jovem, eu fiz a escolha de sair e ir empreender na internet. Aí toda aquela história de criar o site de busca, que é o Achei, todo mundo sempre pergunta, o Achei, que depois foi comprado por uma entidade que comprou o Achei e comprou o Cadê e juntou tudo. Foi uma iniciativa e depois teve a bolha da internet, nesse momento eu já não estava mais conectado a esse projeto e aí é que começa a mudança grande. Porque até então eu já tinha sido executivo dentro de uma grande empresa, tinha montado um site. peguei a onda, cresceu esse site, vendi esse site e agora, faz o que da vida?

Nesse momento foi quando eu fui convidado novamente para voltar para o mercado financeiro, já não era só mercado financeiro, mas eu me associei novamente a uma outra iniciativa, aliás, a mesma iniciativa do ex-dono do banco que eu trabalhei durante 20 anos. Ele havia vendido o banco. É o Banco Real, ele vendeu o Banco Real, montou uma outra frente de negócio e me convidou para trabalhar nessa frente de negócio, na área de produtos, na área de marketing. E eu, obviamente, me associei porque é muito legal esse momento de volta para casa. Voltei como executivo desse conglomerado.

Luciano: Que idade?

Sidnei: Nessa época, eu estava fazendo 40. Já tinha uma história, eu já tinha um monte de casos para contar, uma vontade aí de voltar a escrever. Eu tinha escrito, lá na década de 90, os primeiros ensaios, eu escrevi alguns livros falando sobre gestão, mas era muito focado em banco, então toda a minha trajetória era dentro do banco, eu escrevi quando eu ainda estava no banco. Então eu tinha escrito, eu gostava da ideia, ela me seduzia e eu gostava desse momento. Mas é evidente que não dá para fazer uma transição assim diante de tantas transições. Minha primeira escolha, óbvio, foi voltar para esse outro banco, ficar como executivo, você faz um remember de ser executivo, só que nesse momento aconteceu uma coisa diferente. Primeiro que eu voltei depois de uma história de sucesso dentro da internet. Então eu já tinha participado da mídia, os primeiros cases de empresas vendidas eram muito significativos, a mídia estava descobrindo a internet. Então eu já tinha participado de entrevistas, já tinha entrado em capa de revista.

Luciano: O brand Sidnei.

Sidnei: O brand Sidnei estava muito falado e não existia ainda o nosso amigo lá, o nosso amigo ainda gastando energia com o seu próprio brand. Então, eu seduzido por essa ideia, eu gostava muito, quer dizer, aquele momento de você estar sendo visto, reconhecido é como se fosse assim, poxa, finalmente eu fui reconhecido publicamente pelo meu trabalho e estava trabalhando dentro do banco como executivo. E aí todos aqueles pacotes que executivo recebe, sabe, carro, mordomia, secretária, sala, eu voltei ao pacote, agora em grande estilo e com história, então eu estava muito seguro de mim.

E ainda tinha a história da internet, então eu era muito requisitado, gente me chamava para ser conselheiro de empresa. E eu estava no meu momento, sabe aquele momento que você fala pronto, agora é a minha vez? Cara, hoje eu olho isso e falo, que bobeada, porque é óbvio que você acha que você é inatingível, acha que você é seguro, você facilita. Eu não me dei conta que eu estava sendo vigiado. Foi uma época bem complexa, porque havia no Brasil ali naquele momento uma onda de sequestros.

Luciano: Que ano era?

Sidnei: 2001. Em 2001 tem uma onda de sequestros, foi antes das torres gêmeas, então nós estamos falando do início de 2001. Novo século, eu seguro de mim, tipo, poxa, eu já venci na vida. É uma sensação assim, eu não vou dizer nem que a palavra arrogância é suficiente, sabe.

Luciano: É mais.

Sidnei: Acho que é mais do que arrogância, porque é uma segurança de infalibilidade, de que você é o dono.  É assim, cara, você é inatingível, a gente é tomado por isso, você fica contaminado por isso, você acredita realmente em tudo isso. Tanta gente falando isso, você começa a acreditar e você começa a ser dono dessa verdade. Hoje a gente olha, a gente percebe quão fútil que é essa verdade.

Bom, não me dei conta que o meu nome estava muito falado. Evidentemente, quem está trabalhando na indústria do sequestro, estava olhando os nomes e o meu nome acabou entrando no target deles. Em um dado momento, eu saindo do escritório em que eu estava, eu fui abordado.

Luciano: E que horas isso?

Sidnei: Era umas seis da noite. Eu fui abordado e assim, a primeira sensação é aqueles assalto relâmpago, que bate na porta do carro, “dá carteira, dá celular” e tudo e passa adiante. Não foi o que aconteceu, eles pediram assim, “não saia do carro, entra no banco de trás”. Eu entrei no banco de trás, falei, cara, daí primeira ideia: sequestro relâmpago. E eles me colocaram um capuz e aí foram cinco dias emocionantes que aconteceram.

Luciano: Estavam armados?

Sidnei: Estavam.

Luciano: Você viu a arma, tudo?

Sidnei: Vi a arma. Eu lembro de ter visto uma pessoa e eu entrei no banco de trás, eles já me abaixaram, me colocaram o capuz na cabeça, aí eu vi que entraram mais duas pessoas no carro e já começamos a andar de carro. A minha primeira sensação é de que era um sequestro relâmpago. Quer dizer, me pegaram, vão querer pegar cartão, arrancar dinheiro, o máximo que eles puderem e vai ser por aí. Não foi o que aconteceu, era um sequestro mesmo, me levaram para um cativeiro. Hoje eu até tenho isso mais entendendo como funciona o processo do sequestro, vendo outros cases que a mídia trouxe, você começa a fazer as conexões e fala então foi isso o que aconteceu comigo. Porque você perde muito a noção durante o evento, durante o episódio. Então acabei indo para o cativeiro, fiquei com eles lá durante cinco dias, que se a gente olha assim parece que foram mais de dois meses. Você perde noção do tempo, perde noção do que é dia, do que é cedo, do que é tarde, você perde noção de alimentação. É uma experiência realmente bastante intensa, você não tem aqueles grandes insights durante a experiência, não. Você faz uma revisão da tua vida.

Luciano: Eu acho que a maior encrenca que você deve ter é a hora que você está abaixado lá, que os caras estão te levando, é você ter diante de você aquela interrogação gigantesca, eu não tenho a menor ideia do que vai acontecer. Para um cara acostumado com planejamento, para de repente, não sei aonde estão me levando, não sei o que vão fazer comigo. Eu não sei e aí te botam sentado num lugar e fica aí.

Sidnei: É uma sensação de queda. Não tem muito mais, é isso, você está caindo e você não sabe onde, nem o que, nem quando. Você está caindo. É uma sensação assim solta, você fala, bom, tudo o que tem seguro na minha vida não existe. E eles me jogaram dentro do carro, andamos um punhado, não lembro precisar quanto tempo, depois saímos, muita violência, arrasta, empurra, xinga.

Luciano: Faz parte do processo, não é? Para te desestabilizar totalmente.

Sidnei: É e aí me jogaram numa sala que, sendo bem franco, não é muito maior do que esta aqui em que a gente está, viu.

Luciano: É um cubículo.

Sidnei: Um cubículo fechado, sem janela, escuro. Tinha uma lampadinha, bem fraquinha assim, no canto, que de vez em quando eles acendiam e  apagavam, acendiam e apagavam, só ficava nisso. Não tinha muito efeito diferente desse, acendia e apagava, me deixaram um tempo bem grande num nada.

Luciano: Sozinho.

Sidnei: É um quarto escuro, nada. E às vezes você está meio assim, bom, não tem o que fazer e você acha que está dormindo ou não, de repente a luz acende, você imagina, sempre gera uma expectativa de que algo vai acontecer, a luz acende, não acontece nada, depois a luz apaga. E isso aconteceu durante um bom punhado de tempo.

Luciano: Cara, isso é uma técnica, não é? Isso é técnica, isso não é por acaso.

Sidnei: É, não, eu acho que tem todo um planejamento para deixar a gente, não sei, emocionalmente afetado.

Luciano: Desestabilizar.

Sidnei: E funciona, não tenha dúvida que você vai perdendo a noção, você vai perdendo a noção do que você tem, do que você não tem, onde você estava. Sabe aquela coisa de ficar olhando, onde que eu estava, que eu estava indo, o que alguém está pensando? Porque eu iria chegar em algum lugar, eu tinha uma viagem programada, eu passaria a semana fora. Quem está sendo acionado, quem não está sendo? Então você fica…

Luciano: Minha família, você começa a se preocupar pelos outros.

Sidnei: Você começa a pensar assim, o que aconteceria na vida depois disso? Em alguns momentos isso se transformou em filosofia na minha cabeça, porque você começa a pensar assim, eu acho que quando a gente morre é meio isso que acontece, você vai para um escuro e você pode até ficar pensando: o que aconteceu fora da minha vida quando eu deixei de estar lá? Então você pensa, não tenha dúvida que vêm esses pensamentos, aconteceu comigo todo esse processo.

Hoje está mais claro para mim que eu devo ter ficado uns dois dias nessa situação, sem ninguém falar nada, porque ninguém falava nada, ninguém exigia nada. De vez em quando eu gritava, pedindo “vamos falar, me liberta, me diz o que é” e silêncio, simplesmente assim, tipo você foi colocado numa caixa e ninguém reage, exceto a luz, que acendia e apagava e também, de vez em quando, entrava, eles tinham uma portinhola dessas de cachorrinho, era uma portinhola embaixo da porta onde eles simplesmente jogavam ali um prato com pão e uma água, uma garrafa dessas de água. Não faziam nada diferente, o pão também não tinha nada, era simplesmente um pãozinho desses pão francês, jogava ali e jogava a garrafa de água, mais nada. As necessidades era tudo ali no quartinho, tudo, qualquer coisa. Você acaba não fazendo quase nada também, assim não tem momento que eu vou ai, preciso usar o banheiro, não, você não faz.

Luciano: Você fica travado.

Sidnei: Trava, teu corpo realmente trava.

Luciano: Você perde a noção de dia, noite, se é de dia, se é de noite, você não sabe mais?

Sidnei: Não. Quando terminou, eu tive a sensação de que tinha passado tipo um dia inteiro, entendeu? A minha sensação era assim, passei a NOITE toda naquela realidade e me libertaram de manhã. Essa foi a primeira sensação que eu tive, quando eu estava fora. E depois que eu tive a noção que foram cinco dias, aí que eu comecei a fazer as conexões. Mas você vive num looping, é como se tivesse acordando e dormindo, acordando e dormindo, você não sabe se passou a hora, nem nada, então é uma sensação extremamente desagradável e essa sensação de que é programado, é feito de um jeito, tem todo um roteiro técnico para levar você a uma condição. Então foi uma experiência, hoje é uma experiência marcante, hoje inclusive é uma das primeiras vezes que eu estou detalhando o que aconteceu, é raro eu fazer isso. Pouquíssimas pessoas têm detalhes do que aconteceu na minha trajetória, eu não converso muito sobre isso, justamente porque teve um impacto importante na minha vida mesmo.

Luciano: Mas depois que você passa dá para a gente olhar de fora e essa conversa aqui pode ajudar um monte de gente até a nem cair nessa, não é? Você, num determinado momento, eles te abordaram, aí chega uma hora que eles te abordaram, o que é? Tiraram você de lá e vamos conversar?

Sidnei: Ah, bom, assim, olhando a linha do tempo do sequestro, pensando em cinco dias, eu imagino que lá para o quarto, quinto dia, não, pelo terceiro dia, na verdade, eles entraram na sala, a luz acendeu, aí entrou na sala um cara xingando, xingando, xingando, me bateu, deu porrada, deu chute, deu soco no estômago e foi embora.

Luciano: Você viu?

Sidnei: Não, não, sem rosto, é sempre com uma máscara, a pessoa com uma máscara, essa máscara esconde tudo. E bateu. E passou. Nada. Só veio, bateu, xingou e bateu. Passou mais um tempo, veio de novo, entrou, bateu de novo. Aí teve um momento de me bater e fiquei apanhando sistematicamente, sem pena, um ou dois caras, a sensação que eu tinha é que eram duas pessoas diferentes, por causa de tamanho e por forma de bater, mas xingava, batia, xingava, batia. Aí foi esse o segundo momento.

Luciano: Sem pedir nada. Sem falar nada. Só xingava e batia.

Sidnei: Não, não, não falavam nada. Eu, em alguns momentos eu tentava argumentar algo tipo o que vocês querem, me fala, a gente resolve. Tipo, você tenta abrir canal de comunicação, eles batiam mais e cala a boca e batia.

Luciano: Deixe eu só detalhar, esse bater deles era um bater com cuidado para não te machucar, digo assim, bate na cara para abrir um rombo tudo, não tem cuidado? Eu quero saber se era um bater técnico ou era um bater de bater.

Sidnei: Você está perguntando, agora eu não sei se é técnico ou não, mas assim, me machucaram mas não arrebentou, por exemplo, não tirou nenhum supercílio meu, não sangrou a boca, mas machucava, batia assim, tipo, por dentro machucou, o dente batia tal.

Luciano: Batia no rosto?

Sidnei: Batia no rosto. Eu me lembro de muito soco no estômago, era muito, aquele de tirar o fôlego, você dobra, muitas vezes fizeram isso. Chute na perna, chute no braço, isso sim, nunca com material, nunca me bateram com pau, com nada, era com a mão, eles batiam com a mão, sempre que vinha o cara bater, vinha um outro que ficava lá, segurando uma arma, então tinha sempre um cara na porta, segurando uma arma e o outro que vinha, batia. E isso, sim, foi sistemático. Eu me lembro de talvez umas oito vezes isso acontecer durante o período. Entre um e outro eu não sei precisar quanto tempo tinha, mas eu lembro que assim, batia, batia quando você está quase recuperando, ou tipo está absorvendo aquele hematoma, entrava de novo, acendia a luz e batia de novo. E assim, em algum momento eu entendi que isso também fazia parte de algum roteiro.

E eu imaginei assim, em alguns momentos, não eram todos, não, mas em alguns momentos eu ligava o dane-se, tipo não posso fazer nada a não ser apanhar, tal, imaginando que eles estão resolvendo alguma coisa. Em outros, eu achei que eles estavam já acionando família, acionando, bem provável, o banco, eu até imaginei que o interesse era muito ligado ao banco e depois eu fiquei sabendo que, sim, tinha a ver com o meu nome em conexão com o banco, havia uma lista de outros colegas que estavam no tracking deles para sequestrar.

Tinha a ver com o banco e eles acionaram o banco, não acionaram minha família. Para a minha família, o bizarro dessa história, como eu iria viajar e eu iria para uma área e fazenda, onde não tinha internet, não tinha celular e já estava dizendo, eu vou para o trabalho, de lá nós vamos pegar o helicóptero e já vamos para a viagem. Eles já estavam sabendo, minha família já estava acostumada.

Luciano: Achou que você estava viajando.

Sidnei: Achou que eu estava viajando.

Luciano: O banco nem entrou em contato com eles para dizer?…

Sidnei: Não, não, não. Eles não acionaram a minha família e eles sabiam disso, eles sabiam que eu ia viajar, sabiam aonde eu tinha conta, o que eu tinha, quem que aciona no banco. Eles sabiam tudo.

Luciano: Profissionais.

Sidnei: Em alguns momentos, eu até agradeço que eram profissionais, porque se fossem amadores eu acho que talvez eu não estivesse conversando com você hoje. Não sei, essa é uma sensação, mas é tentar olhar positivo a experiência.

Luciano: Sabe que eu estive agora nos Estados Unidos, em Richmond, na Virgínia e eu fui visitar o museu do holocausto e aí não dá para te contar o que é, primeiro porque o assunto me interessa demais, segundo porque eu fui o primeiro cara que entrou no museu no dia, o museu abriu, eu era o primeiro. E o museu tem um esquema que é o seguinte, ele apaga as luzes totalmente e a luz acende automaticamente quando entra o primeiro cara. E a luz vai acendendo conforme você vai entrando. E eu fui o primeiro cara do museu e eu estava me preparando, vou entrar e o lugar que eu entrei era um vão escuro, era uma caverna escura, não tinha nada, só quando eu entrasse é que acenderia a luz e eu não sabia disso. Eu falei, bom, deixe ver o que vai acontecer aqui, quando eu entro na primeira sala, a luz acende – pá! – e eu estou dentro de um galpão com os presos, os judeus presos, com o pijaminha listrado e todos eles, bonecos em tamanho natural, todos ele enfiados naquela gaveta, tudo parado lá, aquele monte, cara. Eu tomo um susto, eu vou até publicar no programa aqui, eu vou botar o videozinho que eu fiz nesse momento. Uma porrada que eu tomei ali, aquilo já me quebrou inteiro lá e depois eu fui ler a explicação, e eles contando ali: este aqui é o começo do processo de desumanização, é quando eles querem transformar essas pessoas em algo não humano. Então eu vou escrever um número no teu braço, eu vou te encher de porrada, você não vai ter dignidade nenhuma e você deixou de ser um ser humano, agora você é um objeto, que eu posso fazer e desfazer. É um processo psicológico de desmanche, que, em certa medida, é o que eles estavam fazendo com você, eles estavam tirando, desumanizando.

Sidnei: Eu acho que é uma referência muito bacana, porque ela impacta muito, você desmonta completamente as perspectivas. Na verdade, você começa a não olhar perspectivas, você começa a acreditar realmente que dali, é assim, que aquilo é o início da morte. Em um dado momento, você está apanhando, está sofrendo lá, você começa a perde conexão com o que é o mundo, você começa a desconectar o mundo e fala bom, o mundo vai ter que se virar, eu não participo mais disso, eu fui sorteado e alguém está tentando tirar vantagem disso.

E eu fazendo as análises assim, não era muito racional, não. Hoje eu até consigo falar racionalmente, na hora você não raciocina muito, não. Você começa a desistir mesmo. Não é desistir, a palavra, talvez assimilar a possibilidade. É como se eu estivesse aceitando que acabou. Isso é um crescente, o início do processo é muito racional e depois você vai perdendo a racionalidade à medida que você recebe socos, quando você tenta argumentar alguma coisa. E eu fui argumentando até a hora que eu vi que não adiantava mais. Pareceu para mim, em algum momento, que quanto mais eu tentasse argumentar, mais eu apanhava, então talvez até por um reflexo de não querer levar tanta pancada, ficava quieto e você emudece, tentando não sofrer mais, apanhar mais.

Isso durou um tempo, eu falei para você, umas oito, nove vezes nessa sequência que eu não sei precisar quanto é. Nunca ninguém conversando. Aí, um dia entrou uma outra pessoa assim, aí uma pessoa meio com uma fala mansa.

Luciano: O good cop, te mandaram o bad cop que te encheu te porrada, agora chegou a vez do good cop.

Sidnei: É, entrou uma pessoa com a fala mansa, assim.

Luciano: Homem, sempre homens.

Sidnei: Sempre homens. Pelo menos eu não tive nenhuma percepção de mulher nessa experiência. Ele entrou com uma fala mansa, uma conversa. “Bom, muito bem, estamos aqui agora, porque agora a gente tem que resolver. O teu pessoal não está resolvendo a contento, então você vai ter que resolver.” O meu pessoal, eu estou entendendo quem eles estavam acionando. Depois a gente fecha todo o círculo. “O teu pessoal não está resolvendo e você é quem vai resolver.”

Aí me sentaram, colocaram uma banquetinha, um laptop, ligaram o laptop.

Luciano: Dentro da salinha ainda?

Sidnei: É, na porta da salinha, assim tipo na antessala. Eu não vi muito mais do que o que seria o corredor da salinha. Deu a entender que era uma casa, quando eu saí dessa salinha, deu para perceber que era num lugar próximo do aeroporto, porque dava para ouvir barulho de avião, mas só fora, dentro da salinha, não, ela estava fechada. Realmente, lembra muito isso aqui. Então eu percebia barulho de avião, não sabia dizer se era próximo ou não, era alguma região próxima.

Luciano: Congonhas ou Cumbica. Você não chegou a saber.

Sidnei: Na época, quem foi sequestrado também, o Diniz foi sequestrado e eu me lembro do Washington Olivetto, que foi sequestrado e ele ficou numa casa ali no Brooklin. Tive a sensação de que era o mesmo grupo, porque o grupo dele também era um grupo muito profissional e ele ficou também, imagino o quanto ele sofreu. Então foi assim, foi muito próximo daquele momento, mas a referência foi o dele depois. Depois do que aconteceu comigo, a referência foi ele. Então isso me deu uma imagem assim, se eu tivesse que dar uma referência, eu via a casa, a polícia foi lá, desmontou o cativeiro, era uma casinha ali no Brooklin, não era nada muito nítido. Então eu fiquei com aquela imagem como talvez tenha sido por ali, mas isso é minha referência, nunca soube exatamente onde eu estive.

Nós ficamos, eles sentaram, colocaram o laptop, eles abriram o meu sistema no banco, já estava aberto o sistema no banco e falando “bom, agora, você tem esses limites de crédito, você vai pegar esses limites de crédito transferir para a conta” e aí eu fui obedecendo. Não fui obedecendo abertamente, eles fizeram um jogo psicológico meio feio, eles pegaram um jornal a foto do meu filho entrando no colégio, eles bateram uma foto do meu filho, dizendo o teu filho está aqui, eles bateram uma foto e me trouxeram assim, uma pessoa do lado do meu filho, o meu filho estava caminhando para o colégio e eles deram um jeito de bater a foto, falando “se você não fizer o que a gente manda, a gente vai trazer teu filho aqui, vai bater nele na tua frente”, foi essa frase que eles falaram. Então assim colocavam a foto, eu percebi que a foto era tipo do dia anterior, meu filho num colégio, uma pessoa dizendo que está aqui, tipo “estamos aqui com o teu filho, se você quiser, a gente vai trazer ele para cá, então obedeça”. Eu falei “eu vou fazer tudo o que vocês pediram”. Eles tinham todos os acessos em banco meus, entrei em tudo o que eu tinha disponível, tudo o que era recurso disponível, mesmo de limite de crédito que eu pudesse acionar a partir dali, eu fiz. A primeira coisa que acontece quando você faz isso, o banco liga para “está confirmado”. E eles tinham um script do que eu tinha que falar, então me deram um cartãozinho para eu responder para o gerente que ligou.

Luciano: Isso no teu celular?

Sidnei: No celular meu que estava com eles.

Luciano: Eles tiveram o cuidado de carregar o celular e deixar ele carregadinho, tudo certinho, aguardando a ligação.

Sidnei: Sim, tudo. Aguardando a ligação que iria ser feita. Aí foi muito rápido, que eu abri tudo, eles já tinham as senhas e o que eles não tinham de senha é porque dependia de algum elemento humano meu, eu tinha que estava fazendo ali na hora e tinha o gerente, na hora que eles fizessem, o gerente, provavelmente, iria ligar para confirmar, operadora de cartão de crédito e eu só tinha que dizer sim. Eu na hora fiquei até tranquilo, porque assim, “bom, se eu estou liberando esse dinheiro, eu vou transferir, eles vão transferir de um lugar para outro, depois a gente rastreia”. Então eu estava assim, tudo bem, depois a gente rastreia. Eles fizeram eu pedir limite de crédito a mais para o gerente, tipo aumenta o meu limite aí e tal. Bom, levantamos um recurso importante, na época.

Luciano: Como ninguém no banco sabia, o gerente teu não sabia que você tinha sido sequestrado.

Sidnei: Ninguém sabia.

Luciano: Então entrou todo mundo no jogo.

Sidnei: Todo mundo, assim, é ele que está pedindo, então vamos embora. E nesse momento é interessante, que aí foi contra mim todo o efeito bonito que eu estava, porque eu era reconhecido, estava numa posição de executivo importante, tinha um histórico importante, portanto o meu cacife dentro de bancos era bastante significativo, eu tinha histórico de ter empreendido, então agora falou assim, é, a gente não acreditou em você então agora a gente vai acreditar, então tinha muito movimento que deu para levantar uma quantia importante. E eu liberei. Liberei, na verdade, você não tem liberdade, na verdade, você só seguiu o que eles pediam.

Terminou esse processo, eu falei, bom, agora… agora… Agora, me colocaram de volta no quartinho, acenderam e apagaram a luz mais vezes, uma vez a pessoa entrou e me bateu novamente, teve mais uma vez depois disso. Daí assim, a coisa fica meio confusa porque você fala, não sei, não tenho mais o que oferecer, se eles não estão pedindo, eu não sei. A única frase que ele tinha dado é “teu pessoal não está colaborando”, então eu supus que alguém não estava cumprindo exigências. E fiquei ali, aguardando tipo o que vem depois. Entraram, me bateram, xingaram, dizendo que eu tinha mais coisa, que eu tinha mais coisa escondida, que eu tinha que revelar coisas. E eu só pude dizer, não, não tenho, vocês pegaram tudo o que eu podia revelar. Daí desligaram, passou um silêncio de novo, um tempo de acende a luz e apaga só.

E aí eu me lembro, e aí é recordação de ouvir, foi a única vez que eu ouvi alguma coisa do lado de fora da cabine, dizendo assim “Tem que liberar o escritório! Tem que liberar o escritório! Tem que liberar o escritório!” Passou instantes, a pessoa encapuzada entra “Vamos embora! Vamos embora! Vamos embora!” E me coloca o capuz na cabeça. E me colocou o capuz na cabeça, eu falei, bom, agora acabou, seja lá o que for, acabou, ou eles estão me liberando ou estão me queimando, vão me apagar. E a sensação não era de liberdade, não. A sensação era de apagar, assim, o meu psicológico estava dizendo, acabou. Pelo menos acabou, eu paro de apanhar e agora acabou. Eu percebi que eles me jogaram dentro do carro, no porta-malas e eu fiquei no porta-malas. Então, assim, jogaram dentro do porta-malas e aí a gente rodou, aí entrou com o carro, rodou, rodou. Não se falava nada, eu não ouvia nada, só rodou. De vez em quando passa num buraco, assim uma direção mais rude, mais violenta e uma hora o carro parou. E assim, cada vez que o carro parava, você ficava com uma sensação, ou é farol ou tal. Aí uma hora ele parou, eu ouvi barulho de terra, de carro andando, da roda numa terra, alguma coisa assim. E parou e nada, silêncio, não tinha nada, de vez em quando um barulho de um carro passando e ficou um tempo assim. Tipo, não acontecia nada, ninguém falava nada, ninguém entrava, abria o porta-malas, nada. Simplesmente, nada. Um silêncio. E silêncio, silêncio. E eu pensei em várias coisas na hora, vão tocar fogo no carro, sei lá, vão jogar esse carro numa ribanceira, mas nada acontecia..

Daqui a pouquinho eu ouço um cachorro latindo. Um barulho de uma charrete ou de um cavalo, alguma coisa assim. Aí o cara dando bronca no cachorro e o cachorro devia estar latindo para o carro, eu imagino que eu devia estar com um fedor enorme, por isso talvez o cachorro veio. Aí apareceu, o cara veio no carro, olhava, eu percebi que alguém mexeu no carro e aí eu comecei a gritar. “Tira daqui, tira daqui!” Aí o cara reparou “Quem está aí? Quem está aí?” Eu falei “Me tira daqui!” Eu só gritava “Me tira daqui! me tira daqui!” E passou um tempo sumiu, o cachorro foi embora, sumiu todo mundo assim, sumiu. Daqui a pouquinho bate no capô, bate a polícia, entendeu? Bate a polícia assim “Tem alguém aí? Aqui é o comandante Não sei o quê, Sargento Não sei o que”, falou uma patente lá. Aí eu comecei a dizer o nome, me tira daqui, meu nome é isso, trabalho com isso, eu estou sequestrado e comecei a gritar. Eu falei bom, se for o bandido, ele vai abrir, levantar e atirar, eu não sabia, mas era a polícia, que viu o carro abandonado. Aí depois a gente fecha tudo, o cara da charrete viu, o cachorro veio, começou a latir, ele viu o carro todo aberto, o carro estava abandonado num canto assim, num lugar lá perto de Embu-Guaçu, aquela região, ele ficou assustado e chamou a polícia, disse que tinha alguma coisa, alguém dentro do carro. Ele chamou a polícia, graças a Deus. O carro estava todo detonado e eu estava no porta-malas, a polícia abriu, arrombaram o carro. Aí a polícia primeira coisa que fez foi tentar me identificar, eu sem documento, nem nada. E aí me levaram para a delegacia e começaram a fazer as conexões.

A primeira conexão evidente que eu fiz foi tentando ligar para a minha família, mas eu não tinha celular, nem nada, quando eu liguei para a minha família, a primeira coisa, meu filho que atendeu, “Pai, como é que está? Você volta quando?” E assim, eles ainda estavam…

Luciano: Não sabiam.

Sidnei: E eu falei assim, “Não, eu estou chegando, mais tarde eu chego aí.” Eu não falei para eles o que era, porque assim, na hora que eu liguei em casa, o meu filho atendeu e ele falou “Pai, você vai voltar quando, é hoje ou é amanhã?” Eu falei “Não, filho, eu volto amanhã”. Aí eu já disse amanhã, porque qualquer coisa, eu não sabia exatamente o que ia acontecer, falei “Não, eu volto amanhã, eu estou chegando e tal.” E eu percebi que eles não sabiam de nada. Ah, que bom, alguém foi poupado nisso. Aí liguei, logo em seguida liguei no banco, na segurança do banco, eles já estavam sabendo e aí a polícia entrou no circuito. Aí veio o pessoal fez corpo de delito e começa todo um procedimento de sequestro. Eu pedi para não jogar nada na imprensa, aí já foi assim, manteve o sigilo. Como tinha vários sequestros acontecendo, eles não queriam divulgar tanto. E eu falei, ótimo, não quero mesmo. E aí fui para o hospital, me deram um soro, passei uma tarde tomando soro, porque estava desidratado, desnutrido. Fiquei tomando soro, o pessoal do banco fazendo as perguntas, o pessoal tentando tirar alguma coisa, mas assim, em algum momento falaram, não tem jeito, ele não vai ter informação. E eu falava mesmo, realmente, não tenho, as informações que eu tenho, basicamente, eu acabei de falar agora e não tinha muito o que passar para eles.

Luciano: E a senha, “tem que limpar o escritório” significa tira o sequestrado velho que está vindo o novo aí.

Sidnei: É, o meu imaginário é assim tipo estavam trazendo o Washington Olivetto. Hoje, assim o meu delírio, porque foi muito na sequência, cara. Foi assim tipo na semana seguinte veio a público que o Washington estava, então, no meu imaginário, eu não tenho, óbvio que você não consegue conectar, mas o meu imaginário, dentro desse episódio foi dizer o seguinte estavam liberando o escritório porque estava vindo mais um. E, realmente, estava tendo uma onda de sequestros incrível. Estavam vários sequestrados, principalmente aqui na capital. Então eles estavam liberando o escritório. O escritório era a salinha, estava vindo alguém.

Eu não lembro dessa época se houve desfecho de escritório com assassinato, eu não me lembro,  não tenho registro se teve pessoas que saíram da experiência mortas, mas é bem provável, mas eu não tenho esse registro.

Luciano: Mesmo que pegassem o grupo, você não ia reconhecer ninguém. Você nunca conseguiu ver nada de ninguém, nada?

Sidnei: Não, não vi. Aí você vai construindo, porque você precisa de um enredo para explicar isso para você. Quando eu saí da experiência, a primeira coisa que eu fiz foi voltar para casa, vi meu filho, vi minha filha, está tudo bem, deu assim,  pronto. Mas eu precisei me reconstruir, aí eu saí, peguei o carro, falei eu acabei de chegar de viagem, mas eu vou viajar também, preciso me reconstruir, a palavra era essa, reconstruir. Peguei o carro e fui até a Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso.

Luciano: Sozinho?

Sidnei: Sozinho. Eu precisava, eu dirigi num dia mil e poucos quilômetros, estrada, só porque eu precisava ir, colocava música no rádio e tocava música. Foi uma ida, fiquei quase que dez dias na Chapada e eu ia todos os dias para a Chapada, peguei um hotel, saía do hotel, ia para a montanha mesmo, ficava lá, passava o dia na montanha, ora meditando, ora pensando e ora lendo. Eu acho que eu li uns vinte livros naqueles dez dias. Foi um período de reconstrução, porque você perde a noção da realidade, você precisa reconstruir mesmo. E, em termos de imagem do evento, eu me lembro do evento do Abílio Diniz, que foi próximo, que depois teve o do Abílio Diniz e aí capturaram todo aquele grupo, que era um grupo mais politizado. Então a imagem que eu tenho dos sequestradores é um grupo, é aquela imagem do pessoal do Abílio Diniz. Não sei se era, mas você tem que criar algumas imagens, então você explica para você mesmo com algumas imagens. Eu, quando vejo filmes que envolvem esse tipo de ação de sequestro, sempre me impacta bastante, mas não foi esse o grande impacto que teve no primeiro momento, não. O primeiro grande impacto foi, eu não consigo mais andar de carro e ver moto chegando. Era assim, dava um pânico de andar de carro, demorei um tempo para andar de carro, depois durante um período eu comecei a andar de carro blindado. Até recentemente eu andava de carro blindado. Tudo por conta da vivência. Eu estou sem carro blindado agora tem o que, um ano que eu estou sem carro blindado, que eu estou com carro normal, andando de Uber, tal.

Luciano: É que agora você virou escritor, cara, você é um pé-rapado.

Sidnei: É, talvez a pessoa fala assim, ah, não ele é só um escritor

Luciano: Ninguém vai querer, pô, esse pé-rapado aí ninguém quer nada com ele, não.

Sidnei: Bom, acabamos de registrar detalhadamente o evento. Eu nunca tinha feito isso em nenhum processo para falar. A sua salinha me lembra o ambiente em que eu estava, então…

Luciano: Deixa eu te dar umas porradas aí..

Sidnei: É, só precisa abrir a porta, apaga, acende a luz aqui, mas é uma vivência.

Luciano: Você está me contando aqui, agora eu estou tentando imaginar, evidentemente que não dá nem para chegar perto disso aí, mas eu imagino que, você falou um negócio no meio do caminho que para mim eu achei fundamental nesse processo todo de desconstrução, é quando tiram de você qualquer propósito, cara. Você fala, para onde vai? Não sei. Porque a única coisa que eu quero é ficar vivo aqui, mas eu não posso fazer nada. O que eu posso fazer para ficar vivo? Vou tomar… que cuidado você vai tomar, se a tua função é ficar lá, tomar porrada e me passa o dinheiro, passei, o que mais você tem que fazer? Mais nada. Eu não posso fazer nada, eu não tenho nenhum recurso, não posso me defender, não posso inventar uma história aqui, não posso inventar um negócio, não posso, nem diálogo eu tenho com os caras.

Sidnei: Eu vi uma cena esta semana na TV, o acidente no centro da cidade com aquele prédio e talvez a imagem mais significativa é aquele bombeiro tentando resgatar uma pessoa e quase…

Luciano: Trinta segundos.

Sidnei: E aquela pessoa que estava lá, pendurada, pronta para ser resgatada cai junto com o prédio. E está todo mundo procurando ainda ele, eu não sei qual foi o desdobramento final disso, mas eu fiquei imaginando, quando eu vi a primeira vez a cena, o que passou na cabeça daquela pessoa enquanto estava caindo. Assim, foram, sei lá, três, cinco segundos, dez segundos no máximo o tempo de duração. O que passa na cabeça dele, é uma sensação de não ter controle de coisa alguma, nem consigo imaginar um pensamento. Então é uma sensação dessa que a gente tem durante o episódio, você perde mesmo a humanidade, o propósito, dessignifica tudo, tipo ok, acabou. Então a minha experiência mais perto do que eu imagino que seria uma morte, não sei, uma sensação de morte mesmo, mas muda a gente.

Luciano: Pois é, eu não tenho dúvida nenhuma. Esse é um daqueles grandes momentos de impacto na vida da gente, que você está seguindo num caminho e tem uma virada, esse teu caminho é tua virada, você dá uma virada. E você deve voltar lá da tua viagem lá de cura, você deve voltar com outros objetivos, outra cabeça, é outro Sidnei que vem de lá.

Sidnei: Ah, foi. Nesse momento foi quando eu comecei a falar, é o seguinte, não quero mais ser executivo. Minha pegada talvez não seja ser esse empresário que vem de uma empresa tal, que tem o busto na sede da empresa, porque isso aí era muito icônico para mim, na época. Não quero mais ser esse empresário. Aliás, o que eu quero ser, de verdade?

E aí que a gente começa uma reconstrução do caminho que é o caminho da essência. Quando eu decidi ser escritor, eu tinha uma coisa muito infantil, eu assistia muitos seriados, você gosta de seriados, eu gostava muito de Perdidos no Espaço, que é um que você gosta muito, mas tinha um seriado, em particular, que era o Jeannie é um Gênio. E eu me lembro, eu era muito criança quando passava esse seriado e eu prestava atenção no final do seriado, que sempre terminava o seriado com o nome do produtor, quem criou aquilo, quem escreveu aquilo. E o nome era Sidney Sheldon. Eu já tinha isso, falei Sidney Sheldon escreve isso. A Disney se escreve com as mesmas letras de Sidney, isso também me falava, era um escritor de contos infantis. Caramba, tem algo nisso. E eu gostava de escrever desde da infância, eu gostava de desenhar e de escrever. O que acontecia, eu falava, eu preciso escrever, mas viver de escrever não é fácil. Então, voltando do sequestro falei, cara, eu quero ser escritor. Tudo bem, mas não é muito tarde para você começar? E o que você faz com a tua vida? Você tem que recuperar a tua vida financeira, a vida continua, você já construiu uma vida. Eu tenho que montar uma estratégia para ser escritor. E comecei a pensar o que a minha vivência poderia representar, em termos de história. Vou falar sobre o sequestro. Não, eu estava impactado demais para falar sobre isso. Não é sobre isso. Então eu vou falar sobre ser empresário. Não sei se é essa a melhor experiência, não.

Daí eu comecei a fazer uma análise da minha vida e eu percebi que desde sempre eu fui um jovem precoce, ou seja, me expuseram de maneira interessante na vida. Eu sempre foquei em criar coisas para o jovem, tanto o programa universitário quanto o site de buscas. A motivação era sempre o jovem. Eu já tinha 40 anos de idade, eu falei, bom, sou jovem, mas não jovem do mesmo jeito e mudou um pouco esse jovem. Eu tinha meu filho, olhava meu filho, minha filha e falei, eles têm um drive diferente. É sobre isso que eu quero fazer, vou trabalhar com esse jovem, ajudar esse jovem a alcançar posições melhores na empresa e não cometer as falhas que eu cometi. Esse foi o DNA da minha motivação. Só que eu não entendia nada de RH, não entendia nada de mercado, de comportamento. Não sou psicólogo, eu sou publicitário. Falei, cara, eu vou ter que estudar muito. Só que com 40 anos você começar de novo, você tem que voltar a ser um aprendiz.

Então a minha estratégia na época foi me desconectar de qualquer iniciativa executiva, eu acabei me desconectando do banco em que eu estava, foi uma escolha novamente difícil, porque aí tinha o impacto violento financeiro.

Luciano: Até porque você estava duro.

Sidnei: Muito. Bastante.

Luciano: Aquele dinheiro todo que foi embora, aquilo não voltou de jeito nenhum. Não tinha um seguro sequestro, não tinha nada disso.

Sidnei: Não, não. E não havia, na época não existia seguro sequestro. Hoje, eu sei que alto executivos têm o seguro sequestro, têm uma série de proteções. Na época, isso não era uma realidade e eu não fui nem beneficiado com qualquer realidade dessa natureza. Mas eu falei, não, eu sei empreender, vou empreender, vou aprender esse ramo.

E eu tinha um amigo que já trabalhava no ramo de formação de liderança, ele já tinha uma história bem sedimentada na área de formação de liderança e ele estava num momento de vida onde ele queria se desconectar da consultoria em que ele trabalhava  e queria montar a própria consultoria. O meu acordo com ele foi muito, eu diria assim inocente e pequeno, eu diria assim puro, porque tinha uma amizade muito legal e o acordo foi mais ou menos assim: você sabe fazer programa de liderança, você tem vivência nisso, mas nunca vendeu isso, porque sempre tinha consultoria vendendo. Eu sei vender, sei montar marca, sei administrar empresa, sei montar empresa. Então eu entro cuidando disso, você entra entregando o produto, montando o produto. Com o tempo, eu vou aprendendo o produto e eu também entrego o produto e a gente ganha mais dinheiro com isso. E, por incrível que pareça, funcionou. Então eu adotei um papel de aprendiz dele, ele seria, na minha concepção atual, um mentor nessa área. Começamos a criar um mercado para nós, porque ele tinha um nome e tinha o produto, ele sabia entregar muito bem, inclusive ele entrega muito bem até hoje, ele tinha uma competência incrível em sala de aula, mas ele nunca tinha se aventurado na venda desse serviço no mercado. O mercado tem toda uma estrutura, você trabalha nesse mercado há anos e eu também não sabia, então a gente foi aprender a fazer preço, a convencer o cliente, desenvolver soluções. E assim foi um período de um ano, praticamente, prospectando, tentando, desenhando, idealizando um monte de coisa, mas não fechando nada. Chega uma hora que acabou todo o tipo de possibilidade de recurso, tanto meu quanto dele, quando você começa a pensar, poxa, não é por aí, acho que eu estou errando feio o caminho. Isso foi em 2001 para 2002. Aliás, aquele ano foi um ano difícil para mim, porque a minha mãe faleceu pouco antes, eu já tive o impacto do falecimento da minha mãe. Posteriormente, eu tive o sequestro, me desconectei do banco. No momento em que nós começamos a empresa, caíram as torres gêmeas e ele falou meus contratos todos estão caindo. E a gente começou do zero absoluto. Um ano depois nós conseguimos fechar o primeiro contrato e aí começamos a trabalhar em programas de liderança. Eu sempre na posição de aprendiz, então eu carregava pastinha, fazia PowerPoint, preparava todo o ambiente, segurava o microfone para ele.

Luciano: Isso aos 40 e cacetada, com todo o ex-poderoso, ex-diretor do banco.

Sidnei: Sim, sim, eu virei estagiário, não foi nem trainee, foi estagiário. Heroicamente, assim tipo era romântico, eu gostava muito da ideia de fazer esse movimento de trabalhar e de aprender esse mercado. Então tinha terminologias do RH que ele falava, eu nunca tinha ouvido na minha vida, PDCA, Nine Box, gestão por competência. Eu nem sabia o que era competência. Então, imagina que você está completamente virgem num mercado zero e eu estava nessa forma em 2002, 2003, ele conhecia bastante do assunto, então eu fui assim, cara, foi um intensivo de vida que eu tive que remodelar.

Luciano: Você definiu um time frame para isso? Você definiu que eu vou mergulhar nisso como um trainee por seis meses, um ano, dois anos. Você tinha um time?

Sidnei: Sim, o meu acordo com ele foi um acordo de cinco anos. Então eu falei, em cinco anos a gente tem a empresa, a gente monta, eu vou aprender o que posso, então é essa a minha contraparte, a gente vai viver do giro disso aqui, mas é a contraparte, passados cinco anos, a gente conversa, mas o meu movimento é, eu vendo a minha parte da empresa para você e eu monto a minha. Então tinha um frame aí e tinha um plano.

Luciano: Você consegue imaginar a molecada que está ouvindo a gente aqui falar? Ouvir você falar numa proposta de cinco anos, para eles isso é uma vida. Como assim cinco anos? Cinco anos é uma vida inteira, bicho e para nós cinco anos é algo… Eu me lembro quando eu montei o esquema tanto do Café Brasil quanto do podcast e tudo o mais, eu tinha muito claro na minha cabeça, isso aqui não vai dar nada antes de cinco anos, cinco, sete anos de investimento para eu imaginar que possa ter algum retorno. E sempre foi assim, mas eu vejo a dificuldade a molecada hoje. Você fala, cara, cinco anos. Fala para minha filha, são cinco anos. Você está louco, cara, como cinco anos? Eu quero agora, eu quero já.

Sidnei: Então, mas tem uma coisa que eu sempre falo, não se acelera o curso do rio, ele vai na velocidade dele e não tem jeito. Então naquela altura, eu entendi assim, nós fizemos um acordo de cinco anos, eu falei, em cinco anos a gente viabiliza a empresa, entra no mercado, eu vou me esforçar malucamente para absorver tudo isso aí. E a minha jogada era assim, eu vou aprender, mas eu tenho um legado da minha vivência como gestor, como líder, como diretor, eu tenho essa vivência como empresário, isso tudo tem que servir de alguma maneira dentro desse modelo de liderança futura, porque as empresas vão mudar, o mundo está mudando. E aí você começa a pensar, vai mudar tudo, a internet realmente está mudando, o comportamento das pessoas em relação ao trabalho muda, porque eu vim mudando. Eu tinha um comportamento todo estruturado no banco, quando a gente montou o site, eu fui trabalhar, o meu primeiro funcionário vinha de bermuda e de skate. E ele era muito bom, mas vinha com bermuda, skate e ficava com os fones de ouvido. E eu via isso acontecendo e eu via a produção então esse movimento, eu falei, isso vai se espalhar, essa realidade vai se espalhar. Mas eu antes disso eu preciso entender o que é isso que está acontecendo.

Então foi um período aí de cinco anos de muito trabalho, onde eu acabei, obviamente, em algum momento indo para a sala de aula para entregar programas, não era nada ligado a livros, nem nada, simplesmente era aprendizado e eu diria que um intensivo mesmo. Em muitas ocasiões eu fui realmente o cara que segurou o microfone para o meu antigo sócio. E quando eu falo segurar o microfone, é assim, para você segurar o microfone você precisa quanto de competência? Era segurar o microfone e pronto. Em alguns momentos eu tive que entrar na frente e ele me colocou na condição, você vai entrar na frente, me deu aquele pânico, tipo deu branco, entra você que a gente vai dar problema aqui com cliente, entra você. E ele falou, cara, se você não entrar agora, você não vai entrar nunca mais, eu não deixo você entrar nunca mais. Então teve um momento assim de impacto. E aí eu fiz, errei bastante, fiz muita bobagem, mas eu comecei a perceber que dependia muito de mim, de eu me envolver com o processo, acreditar nisso e estudar.

Bom, eu fui estudando, estudando e em dado momento, lá perto do final do quinto anos, eu já estava defendendo com o meu sócio posicionamento da empresa em relação ao mercado. Ele muito focado nas lideranças, então um pessoal mais veterano, os líderes. Ele muito focado e eu sempre defendendo, vamos entrar nesse programa aqui de trainee? Não, trainee a gente não trabalha, trabalha com a liderança. Não, mas olha, tem esse programa de estagiário. Não, não, estagiário… E aí a gente começou, obviamente, a ter caminhos distintos, porque eu queria muito desenvolver o jovem.

Luciano: A garotada.

Sidnei: Não só pela garotada, mas eu falei, gente, eu já fui esse jovem e deram a chance para mim e eu cresci quando me deram a chance. Então, o meu motivador pessoal era “eu tive essa chance, as empresas precisam chegar ao potencial desse jovem”. Isso começou a se transformar em teoria. Durante os programas, à medida que eu amadureci na entrega também, os próprios clientes queriam que eu entregasse, ou ele, então a gente começou a dividir programas, faturamos muito mais por conta disso, evidente. Montamos um time de pessoas para entregar nossos programas, então a empresa se consolidou. Até o momento em que eu queria muito teorizar na direção dos mais jovens, que naquele momento ninguém falava muito de jovens, pelo menos não enquanto desenvolvimento de competência, de comportamento. Falavam de instrumentação, aquele treinamento técnico, mas não se trabalhava muito o jovem. Eu falei, esse jovem é diferente, eu falava isso para ele, falava na sala. Ele brigava comigo assim, não, Sidnei, você não pode falar isso, você não pode teorizar, porque nenhum guru escreveu sobre isso, da onde que você está tirando essas teorias? Eu falei, cara, da minha vida. Não, mas você tem que escrever isso de outra forma, tem que ter a fonte, tem que ter os gurus que escreveram e aí você tira do guru lá e aí você teoriza. Se não tem isso, não vale. Eu falei, não, cara, não é assim, o mundo mudou, as coisas estão diferentes e eu vou dizer para você, eu estou olhando esse jovem, esse jovem é diferente.

E aí começou o DNA do que virou depois a teoria da geração y. Eu comecei a falar muito e em sala de aula era quase impossível eu não defender que havia alguma coisa diferente no comportamento do jovem. E, obviamente, comecei a concentrar meus estudos nessa direção. Aqui no Brasil não tinha muita informação sobre isso, aliás, nem pesquisa, nem nada, mas havia em Singapura uma iniciativa educacional que mostrou um jovem um pouquinho diferente. Existiam alguns movimentos na Europa com relação ao comportamento do jovem um pouco mais leniente, um pouco mais superficial. E muito nos Estados Unidos também falando sobre isso. Ninguém tinha dado um nome para isso ainda.

E aí eu comecei a trocar, nesse momento eu já tinha uma conexão internacional bacana, então a gente tinha fóruns de discussões sobre o jovem. Eu comecei a discutir com várias pessoas e a gente começou a perceber que existia algum comportamento nítido sobre esse jovem fundido pela internet, ou seja, ultraestimulado pela informação, pela tecnologia, que a gente até experimentou junto, mas ele parecia algo diferente, realmente, o seu comportamento era diferente. Eu comecei a teorizar sobre, comecei a escrever sobre isso. Na época eu não era escritor ainda, comecei a teorizar na sala de aula, o meu sócio não queria que eu falasse sobre isso, porque falou isso é coisa passageira, isso vai passar. Falei, não, não, cara, isso é mais efetivo, porque a gente tem mais elementos por aí.

Eu estudando de um lado, teorizando, ele não concordando, foi fácil chegar no final do cinco anos e falar, bom, acho que nós já chegamos aos nossos cinco anos, então eu vou vender minha parte para ti e vou seguir o meu caminho. Então isso foi em 2007, bateu exatamente o prazo de cinco anos, achamos uma fórmula de transferência, tínhamos clientes e tudo o mais e aí eu comecei 2008, então nós estamos fazendo dez anos agora, eu comecei 2008 de novo. Aí montei uma salinha.

Luciano: Logo no ano da crise.

Sidnei: É, então. Não, a crise foi no final de 2008, então eu comecei 2008 assim, janeiro de 2008 cheio de vontade.

Luciano: Eu comecei em abril. Eu saí da empresa onde eu estava e mergulhei de cabeça no Café Brasil em abril, com todos os planos do mundo em abril de 2008. Em setembro o mundo acaba.

Sidnei: Então, eu estava todo cheio de energia, montei uma salinha, falei agora eu vou ter a liberdade. Alguns clientes estavam comigo, continhas pontuais, pequenas, mas falei, é o suficiente para eu começar e o meu grande lance vai ser escrever. Então, agora eu vou ter o tempo.

Luciano: Com que idade você estava? Dez anos atrás.

Sidnei: Ah, 45 anos. E eu falei, bom, agora eu vou escrever, porque daí eu vou ter o tempo. Como eu não tinha que administrar toda a empresa, todo o negócio, falei, não, deixo com ele agora e eu vou ter só eu, com a minha empresa, então eu vou ter tempo para escrever.

E aí, cara, eu comecei a escrever. Você vê, começou a surgir o DNA do escritor. Eu tinha publicado algumas coisas, comecei a escrever e preparar o meu livro. Falei, não, todo escritor tem que ter um livro, porque se eu tiver um livro, aí a coisa vai fluir, porque daí eu vou escrever a minha teoria e não interessa se tem um guru ou não tem um guru que já escreveu. Óbvio que eu tenho a influência de muitos gurus ou de pensadores, mas eu tinha que escrever a minha percepção e a minha versão.

Luciano: Esse, na verdade, seria o seu terceiro livro, terceiro ou quarto livro?

Sidnei: Não, esse seria o meu sétimo livro.

Luciano: Ah, então você já tinha seis livros feitos antes por um outro Sidnei.

Sidnei: É, o Sidnei executivo do banco, que falou sobre banco. O meu primeiro livro que teve repercussão chamava Reengenharia de Processos, Agite antes de Usar. Estava na onda da reengenharia, na década de 90, então eu criei da minha versão da reengenharia. Depois eu falei sobre banco, sobre o gerente do banco, sobre a relação chefe e funcionário. Assim eu passeava pelo assunto. Hoje eu olho esse material, gente, eu tinha o DNA, mas eu estava absolutamente desprovido de conteúdo, era tanta bobagem que eu escrevia. Bobagem, não, inocência. É um livro que eu leio hoje, se você quiser, um dia eu te mostro o livro, mas é um livro que eu olho e falo, gente, é uma criança.

Luciano: Coisa ingênua.

Sidnei: Uma ingenuidade grande.

Luciano: Outro dia eu estive com o Murilo Guerra, e o Murilo falando para mim, cara, é impressionante a diferença que a maturidade faz na gente. Eu olho para as coisas que eu falava, como eu falava bobagem. Cara, essa semana eu me encontrei com Walter Longo, fiquei com ele algumas horas, bicho, eu saí de lá com a cabeça completamente diferente e estava claro para mim, é porque eu estava na frente de um cara que tinha uma vivência muito maior que a minha, então como a maturidade muda a cabeça da gente, a ponto de você olhar para trás, falar meu,…Está legal, tem um valor, aquilo tudo te trouxe aqui, aquilo tudo faz parte de uma construção, mas era uma coisa muito ingênua. Os primeiros programas que eu fazia aqui também, cara, quanto murro em ponta de faca, cara, quanta coisa heroica. Você vê aquela coisa da juventude, vamos mudar. Poxa, é um pouquinho mais complexo.

Sidnei: É, eu quando fiz o livro, é uma ingenuidade, mas tinha coisas que você fala, já estava lá. Eu lembro que um dos livro que eu escrevi na época do banco eu falei sobre o gerente do futuro. E eu falei umas coisas meio estranhas na décadas de 90 e eu já era conhecido no mercado bancário, então a Febraban, na hora que eu falei que eu ia escrever, era o terceiro livro, eu já tinha escrito dois livros anteriores, o Reengenharia Agite antes de Usar estava dando um impacto muito grande, porque a reengenharia era técnica, corte de pessoa, eu falei, gente, tem que envolver as pessoas antes de simplesmente mudar o processo. Então criou-se uma expectativa em cima da minha percepção do que seria o gerente do futuro. E eu escrevi nesse livro, em 93, que no futuro o banco ia ser diferente, que o gerente não ia ter o poder que tinha na época, que quase tudo ia ser aprovado por computador, que na verdade quem iria pagar as contas era o próprio cliente, através de interface tecnológica, esse cliente iria tirar o próprio empréstimo, ele iria decidir aonde aplicar, o próprio cliente iria fazer tudo e o gerente seria mais um promoter de produtos do que realmente a figura que diria, olha, você precisa de empréstimo, eu vou conseguir autorização, você quer investir, o melhor caminho é esse. Eu falei, isso ia acontecer. Falei, as agências vão perder o sentido de agência, no futuro a maioria das pessoas vai querer fazer o próprio gerenciamento da sua conta. Eu comecei a falar umas bobagens disso em 93. Na época, o pessoal da Febraban não gostou muito, não apoiou o livro, mas eu lancei mesmo assim no mercado. Então eu tenho um livro em que eu digo o que seria o banco do futuro. E hoje eu olho os bancos que nós estamos vivendo o tempo das fintechs, onde banco hoje é um aplicativo no celular, essencialmente é isso. E eu olho, falo, gente, estava lá a ideia. E eu fico assim, eu olho para trás e falo o que era a inocência, porque eu olho o texto, a forma de escrever é inocente. Eu gostei da segunda palavra que você usou.

Luciano: Ingenuidade.

Sidnei: Ingenuidade, quer dizer, a gente tinha. E eu vejo, às vezes, a criança nisso. Ela é ingênua, mas é uma ingênua que se você pegar a pureza do que ela está querendo, muitas vezes a solução está ali. Essa solução vai acontecer.

Luciano: E, de novo, não tem como acelerar o curso do rio, não é isso? A velocidade das águas do rio. E faz parte, cara, é assim mesmo, a gente faz a cagada lá atrás e aprende em cima dela e é a evolução. Isso vale para tudo, vale até para você reler um livro, não é? Eu li um livro há dez anos, eu leio o mesmo livro hoje, é outro cara lendo, é outro significado, é outro tudo.

Sidnei: É outro Luciano que está lendo.

Luciano: De certa forma, isso traz algumas agonias. Acabei de viver isso aqui esta semana, cara. Eu publiquei agora, semana passada, no Facebook, um texto onde eu repetia a oração ao Pocotó, de lá da minha origem, em 2004, eu faço a oração ao Pocotó e tal. E antes de apresentar a oração, eu apresento um cenário de como é que o mundo cultural brasileiro estava, da baixaria, aquela coisa toda. E eu escrevo o texto inteirinho, quanto termina o texto inteirinho eu falo, muito bem, este texto foi publicado pela primeira vez em 2004, nós estamos em 2018, passaram-se 14 anos e o texto está absolutamente válido. Então colocando neste contexto que nós estamos falando da evolução, você fala, cara, eu evoluo como pessoa, eu amadureço etc. e tal, mas o problema que eu me queixava em 2004, ele continua em 2014. Talvez eu esteja entendendo ele de uma outra forma, mas o problema está aí, continua igual. Vamos voltar para o assunto da semana aqui: o prédio que cai. O prédio que é abandonado, invadido e cai. Hoje eu estou botando um post aqui que mostra a foto da escada que tem no hall de entrada em 1960, lindíssimo, parece uma cena daquele seriado Mad Men, maravilhosa a escada. E tem outra foto da escada semana passada, um horror aquilo lá. Tivemos uma tragédia, o prédio pega fogo e cai, dentro do prédio tinha lá os moradores, que estavam invadindo etc. e tal. Cara, esse é o processo, há 17 anos foi abandonado, não é um problema que aconteceu agora, é um problema que corre há 17 anos. Então essa é uma grande agonia que eu vivo hoje em dia. Cara, o problema não é novo, nós não estamos lidando com uma encrenca nova, ela é antiga, bicho.

Sidnei: Nós temos um câncer comportamental na sociedade, que é a indiferença e a omissão. E esse câncer não se resolve. Tem a parte da corrupção? Sim, mas ela só frutifica por conta da indiferença e da omissão. As pessoas se omitem, as pessoas não reagem diante de algumas coisas, ou então pensam, não, para eu reagir, eu tenho que ser reacionário. Aí tem essa ideia, eu só vou mostrar que eu estou reagindo se eu levantar a bandeira, gritar. Não é isso, muitas vezes é você simplesmente tomar uma decisão, ter uma atitude, não pode haver espaço para tanta indiferença assim. Nós estamos vivendo um tempo de indiferença, cada um cuidando do seu.

Luciano: Você não acha que tem uma dose de incompetência brutal também nesse processo? Eu me preocupo, eu quero agir e a hora que eu ajo eu faço uma cagada gigantesca, porque eu sou absolutamente incompetentes.

Sidnei: Perfeito, mas o ser humano é um ser interessante, quando ele falha e ele tem consciência da falha dele, ele melhora a competência dele, porque se eu fiz aquilo e errei, eu tenho a oportunidade de fazer novamente e não errar o mesmo erro. Se eu for imbecil, ou for burro, eu vou errar o mesmo erro, aí é tolice.

Luciano: E me explica o problema de 17 anos, então. O problema que tem 18 anos, que tem 17 anos e que todo mundo sabia que o prédio ia cair.

Sidnei: Indiferença.

Luciano: E o prédio cai.

Sidnei: É a indiferença. Tem gente ocupando lá: eu não vou fazer nada, não é comigo, é com fulano. A indiferença é disfarçada, a gente dissimula a indiferença jogando para os outros, jogando a coisas, está fora, não é comigo. Eu estou na rua, estou vendo alguma coisa, isso não é comigo. Você vai andar com o pet na rua hoje, uma coisa que eu aprendi a andar com o pet, você sempre pode levar um guardanapinho para pegar a sujeira do pet. Quanta gente não pega e você pergunta… ah, não mas isso é público, a rua é pública. Tipo, a rua é pública então a gente pode fazer, pode soltar? Não, você tem que ser ativo com qualquer coisa no seu alcance. Então alguém que vai passear com o seu pet e não vai preparado para pegar a sujeira que o pet está fazendo, ele está jogando isso aí para quem? Para a cidade, para a prefeitura. Ah, a prefeitura é que não limpa a cidade, está uma sujeira! Sim, você está pondo a sujeira na cidade. Você cuida da sua sujeira? Então essa indiferença social faz com que tudo floresça de uma forma negativa. Aquela teoria das janelas quebradas sempre volta na minha cabeça. Eu imagino que você já publicou alguma coisa. Eu já publiquei no meu blog a teoria das janelas quebradas é um dos fenômenos sociais do nosso tempo, quer dizer, e quem está nos ouvindo põe no Google teoria das janelas quebradas, que você vai entender.

Luciano: No Café Brasil você vai achar o podcast.

Sidnei: Tem um podcast só para isso.

Luciano: Em que a gente fala a respeito e que, resumidamente, é o seguinte. Você abandona num prédio, se as pessoas perceberem que o prédio está abandonado, elas vão jogar pedra e vão quebrar as janelas. Por isso, prédios abandonados têm as janelas quebradas, não é? O abandono, a sensação do abandono, leva à depredação como uma ação humana. Então a primeira coisa que você tem que fazer é o seguinte, não deixe que pareça que está abandonado.

Sidnei: E não é só a questão do abandono, é aquela questão da não atitude. Então se você entra num lugar que está tudo limpinho, papel no chão não tem, você está cuidando daquele lugar, parece que constrange a pessoa que quer fazer isso e ela não faz isso.

Luciano: Por isso que o brasileiro que joga lixo no chão aqui, quando vai para Nova York, ôpa, espera um pouquinho, não vou jogar, porque aqui eu estou vendo que está tudo arrumadinho.

Sidnei: Então, eu não quero ser a pessoa que está fazendo do jeito errado. Então pensando no pensamento social, é evidente que se a gente tiver boas práticas coletivas, elas se disseminam e também más práticas coletivas se disseminam. Então isso se amplia quando você vê uma sociedade que não faz nada, quer dizer, o governante, o gestor que está lá, sabendo que o prédio não ia ter utilidade, ele devia ter colocado à venda, se fosse um gestor público, porque aquilo lá é um prédio público, ele deveria ter tomado alguma coisa. Ah, não, mas não é comigo, isso é com fulano, quer dizer, eu estou delegando para os outros, você está se omitindo.

Luciano: Até porque se ele tentasse vender, apareceria um vereador que ia entrar com um processo contra ele, dizendo que não pode vender um prédio público, porque ele está dando aquilo, porque ele vai vender para o primo dele. Ontem eu terminei um post desse assunto, dizendo exatamente o que vai acontecer: vai ser criada uma CPI para porra nenhuma e a discussão do que fazer vai se perder numa discussão ideológica sem tamanho, e não vai acontecer nada e vai cair o próximo prédio, que a gente sabe que a situação dele está ruim.

Sidnei: Não, e agora que vem o assunto, todo mundo começa a levantar e percebe, tem 100 prédios na mesma situação.

Luciano: A Globo News vai lotar de especialistas, vão aparecer todos os especialistas, discutindo o assunto e a coisa não vai. Pega outro problema, vamos discutir educação no Brasil, cara. Todos os especialistas discutindo e a gente continua na rabeira da rabeira há 20 anos, há 30 anos. Cara, não é de olhar para trás e falar, bicho, será que não vai dar certo?

Sidnei: Será que a gente não aprendeu nada?

Luciano: Será que é isso que o Brasil é, cara? Será que esse congresso podre que nós estamos vendo aí é o melhor que nós podemos fazer? Essa coisa é que me incomoda, será que aquilo é o melhor? Cara, o melhor que nós podemos fazer é aquilo que está lá, não dá para fazer melhor.

Sidnei: Eu tenho a esperança de que todos esses traumas recentes, que eu diria que nos últimos cinco anos houve muitos traumas, eu tenho uma esperança talvez um grau de otimismo um pouquinho acima da média, mas eu tenho esperança que, sim, a gente melhore um pouco a qualidade este ano.

Luciano: Especialmente pelo didatismo disso tudo, não é? É didático, o que nós estamos vendo é tudo didático.

Sidnei: Foi. E então eu tenho uma esperança que socialmente a gente faça escolhas um pouco melhores. Vai ter gente de sempre lá? Vai, não tem jeito, porque existe uma inércia social e não tem jeito, não muda. Mas eu acredito, sim, que nós vamos fazer escolhas melhores em algum nível, assim um pouco melhor. Se a gente fizer várias vezes um pouco melhor, uma hora a gente está melhor.

Luciano: Você viu quantas narrativas estão morrendo, cara? Não dá para você falar mais hoje assim que no Brasil só vai preso preto, puta e pobre. Não dá mais.

Sidnei: Não.

Luciano: Porque quando você fala isso, espera um pouquinho, tem uns caras na cadeia aí há algum tempo. Caiu essa narrativa, essa narrativa morreu. E eu não sei se tem volta. Eu acho que não tem mais volta, cara, eu acho que daqui para a frente, não tem mais volta.

Sidnei: Não da mesma forma, não se convence mais pelo mesmo tempo. Quer dizer, efeitos como o do ex-Presidente Collor, que volta. Eu não tenho certeza, parece que ele está querendo concorrer de novo, é isso?

Luciano: É, já disse lá que ia voltar. Uma piada.

Sidnei: É, eu não sei. Bom, está um devaneio geral, mas eu acho que isso não volta da mesma maneira. Tem gente que às vezes se surpreende, fala ah, não, porque o Palocci está preso, aí o pessoal, como assim está preso ainda? Tipo, já virou surpresa. Não, porque esqueceram. Sim, mas ele ainda está preso. Não, mas ele está preso assim bonitinho, legal. Não, não, não, ele está preso, preso ainda.

Luciano: O ex-governador do Rio aparece com algema no pé e na mão.

Sidnei: É, o Cabral está preso, preso. Ela não está assim, ah, é na casa dele, com uma tornozeleira. Tem alguns com tornozeleira? Tem, mas está preso. Então, mudou-se alguma coisa. Não é o suficiente? Não, mas alguma coisa vem mudando e esse processo diria que é assim, aí é um processo de amadurecimento social que a gente ainda vai sofrer algumas coisas na construção da nossa sociedade. Sim, ainda tem muita coisa para avançar? Sim, mas nós temos oportunidade.

E aí vem um pouco do discurso que eu falo com o jovem, porque nessa trajetória, aquela hora que eu falei assim, agora eu vou começar, eu descobri que não é fácil ser escritor no Brasil. Você conhece bem isso e eu estou querendo só retomar a linha do tempo, porque senão a gente divaga na política. Eu sei que eu comecei a juntar tudo o que eu tinha, a teorizar e aí eu escrevi o livro. Rapaz, como é complicado você lançar um livro sendo desconhecido. Eu tive algumas pessoas que me deram conselhos bons e um deles foi muito pontual em dizer, Sidnei, olha, o que vende livro no Brasil é um tema conhecido e buscado, ou um autor reconhecido, ou alguém reconhecido. Quando você tem um tema conhecido com autor conhecido, normalmente, é best-seller. Fora isso, é difícil você conseguir publicar algo no Brasil, sem um desses dois movimentos. Eu falei, ok. E aí ele foi muito honesto comigo, falou, Sidnei, você não é conhecido e seu tema também não, então é bem provável que você tenha que bancar a sua primeira edição. E eu, na época, não tinha condição de bancar a primeira edição e nem era meu interesse. Falei, não, se é para eu bancar a primeira edição, eu não vou fazer esse caminho, vou fazer diferente. Eu tenho muitas conexões, tenho muitos amigos, vão me apresentar e eu vou fazer aquelas apresentações de alto nível. Eu já montei um site, eu já fui, vou usar minhas conexões. Foram 16 editoras que disseram, solenemente, não a esse assunto, que não é um assunto relevante.

Luciano: Que era gerações, não é?

Sidnei: Geração y. Na verdade, eu estava ainda com o nome geração y. Falei, não, quero falar do jovem. Não, ninguém se interessa por jovem. Jovem, assim, realmente havia uma cultura de não interesse. Mas esse jovem é diferente… eu era quase um Dom Quixote, eu me sinto às vezes um defensor de uma coisa que ninguém falava. E alguns conselheiros vieram falar comigo, pessoas que trabalhavam no ramo de RH, eu já tinha cinco ou seis anos no RH, fazendo programas de liderança, alguns vieram até falando assim frontalmente, Sidnei, não entra nessa, porque você vai ter o nome marcado a um tema que vai morrer, é um tema que começa e morre. Eu falei assim, tudo bem, mas eu tenho que alertar as pessoas sobre… mas, cara, você vai ser carimbado com um tema e depois você nunca mais descola isso de você. Eu falei, mas se o tema vai crescer. Não, mas esse tema dura agora, daqui a pouquinho não tem mais e acabou esse assunto, é tema da moda. Eu falei, não, não é moda. Porque nessa altura o assunto, eu já tinha colocado mais de 40 artigos na internet, estavam espalhados por aí, eu defendendo, pedindo para as empresas darem atenção nobre para os seus jovens potenciais e afirmando coisas esquisitas, na época. Dizendo, olha, o jovem não vai ficar no emprego muito tempo, ele vai pedir para sair, olha, o turnover das empresas vai aumentar, o engajamento vai diminuir muito. Vocês não estão entendendo que esse jovem que está saindo da faculdade agora é diferente, ele não vai tolerar um monte de práticas que a gente tem.

Bom, passado 16 editoras, eu já estava em 2009, já tinha passado 2008 todinho, veio a crise que só ajudou mais ainda no final. Eu continuei fazendo um ou outro programa de liderança, só que aí eu já virei aquele consultor o que vier eu faço. Teve um episódio em 2009 de desespero, porque depois da crise você não consegue fechar tantos negócios assim e eu virei um multiconsultor, tentando vender o livro, mas multiconsultor, eu fui ajudar a desenvolver o site do Padre Marcelo Rossi. Ele tinha já uma iniciativa, mas queria mudar essa iniciativa e amigos em comum, alguém chegou e falou, não, Sidnei, você vai ajudar, se você puder ajudar a montar um centro para cuidar do site. O padre, na época, estava com bastante repercussão e estava montando lá a catedral dele, aquela igreja grande, estava num processo lá e o site ajudaria, mas ele precisava de uma solução diferente da que ele tinha. Acho que uma pessoa tinha montado o site para ele, mas essa pessoa começou a usurpar do nome dele para benefício próprio, uma bagunça lá. E eu falei, bom, a gente pode montar uma equipe aqui para você e preparar a equipe e já era um processo de mentoria, não tinha esse nome na época mas já era um processo de que é assim, eu não vou montar o site e administrar o site como um consultor, vamos fazer o seguinte, nós vamos montar pessoas aqui, eu vou preparar essas pessoas para cuidar do site. A gente ajuda a montar o site. Então até isso eu acabei fazendo, enquanto eu tentava vender o meu livro. E eu descobri, no final de 2009, que eu não ia conseguir. E aí tinha uma iniciativa na internet chamada Clube de Autores, não sei se já ouviu falar.

Luciano: Não.

Sidnei: É um site que você monta o teu livro, põe o teu livro em pdf lá, faz a capa e ele fica montado. Quem quiser compra o livro e ele sai impresso, então você recebe pelo correio, você faz uma compra online e recebe o livro pelo correio. Era uma iniciativa que estava começando, de amigos meus. E falaram, você não quer colocar aqui? Era de graça. Eu falei, bom, ninguém quer o meu livro, eu vou fazer uma coisa inteligente, eu sou uma pessoa de publicidade, já trabalhei nesse mercado, quer dizer, eu tinha que usar a minha bagagem. Eu vou fazer o meu livro aqui, vou comprar 200 livros, vou montar 200 livros físicos e vou distribuir pela imprensa. Aí eu vou entregar para cada um que for possível. Eu vou entregar para cada jornalista, eu vou fazer o meu pitch principal.

Luciano: Seu PR.

Sidnei: Porque é assim, esse assunto vai entrar. E eu preparei 200 livros, fiz dedicatória para 200 jornalistas, a dedo. Levei boa parte dos livros, não mandei pelo correio, não. Fui lá na portaria entregar. Olha, isso aqui tem que entregar para o fulano, eu não entreguei para nenhum pessoalmente, porque eu realmente não era conhecido.

Luciano: Não conseguia nem chegar lá.

Sidnei: Não chegava, eles tinham um filtro enorme, mas garantir, eu falei, bom, pelo menos 200, isso vai gerar alguma pauta e aí se gerar pauta e me deixarem falar, aí eu vou ser ouvido. Cara, foi maravilhoso, mas ninguém deu uma linha do assunto [risos].

Luciano: Cara, é impressionante, o meu livro, O Diário de um Líder foi exatamente isso. Eu fiz 200 livros, um por um, cara. Com o nome do cara, um por um, mandamos 200 e não aconteceu absolutamente nada.

Sidnei: Nada. Não deu uma pauta, cara, nada.

Luciano: O meu deu, sim. Eu dei uma entrevista na TV Web do pastor não sei o que, saiu num blog do Zé Mané não sei o que, quer dizer, nada. Nada.

Sidnei: Não, é nada. É um nada que você fala assim, frustrante. Eu terminei assim o final de 2009 assim, cara, não vai dar certo. Mas o meu livro eu pus no meu site e nada. Era um nada. Eu falei, bom, vai terminar 2009 e eu vou ter que pensar. Eu já estava considerando, inclusive, voltar para o mercado.

Luciano: Vamos tricotar um pouquinho aqui de escritor com escritor assim. Como é que é aquela sensação de você parar para pensar, cara, não deu nada, será que é porque eu sou um bosta, bicho? Será que é porque o meu trabalho é ruim, cara? Como é que eu faço o vídeo e boto no YouTube e dá 200 views, cara? Eu achando que o vídeo ia arrebentar e deu 200 views. Cara, será que eu sou um merda? Como é que você lida com isso?

Sidnei: Cara, eu me senti, a autoestima é uma montanha-russa, cara. Porque é assim, em um dado momento você lê, eu reli meu livro. Eu olhava, a cada negativa de uma editora, óbvio que a primeira coisa que eu falava, não, é o nome do livro, não, é a cor do livro, não, não, é o título do livro, não, é  texto do livro, deixa eu ler. Eu passava para algumas pessoas, não, é muito legal o que você escreve. É legal, mas precisa vencer uma barreira e não conseguia.

Luciano: O meu livro, o Meu Everest, que é o meu maior sucesso a história e tudo o mais…

Sidnei: Ah, não, você não sabe o peculiar, me falaram do seu livro para dizer o porquê que o meu não dava.

Luciano: Botaram o meu como exemplo?

Sidnei: Deram. Se você tivesse ido para o Everest, você tinha algo para contar, mas você vai querer falar de jovem, cara, você nem é jovem.

Luciano: O meu livro O Meu Everest chama-se O Meu Everest e conta a história, a minha, o meu relato da minha viagem etc. e tal. Ele foi recusado por uma editora porque ele estava excessivamente na primeira pessoa.

Sidnei: Excessivamente na primeira pessoa. É, isso eu não ouvi.

Luciano: Cara, bicho, é o relato da minha viagem, eu fiz a viagem e eu estou contando a minha viagem e você não quer fazer o livro porque está na primeira pessoa. Cara, aí quando eu ouvi isso aí, eu falei, eu desisto, cara, eu não sei mais como é que funciona, eu desisto.

Sidnei: Eu diria que para mim era uma inocência, porque você fala, bom, alguém vai olhar o meu trabalho, vai gostar.

Luciano: Você pensa no conteúdo, você pensa que o mérito é o conteúdo, não é?

Sidnei: E teve um editor que foi muito assertivo para me aconselhar. Ele tem uma editora, é um nome muito conhecido no mercado editorial, foram pessoas influentes que me conectaram a ele e ele leu o meu livro, gostou e falou Sidnei, eu vou te falar sinceramente, você escreve bem e todo autor é apaixonado pelo próprio livro, todo autor gosta do próprio livro. Só que, como empresa, a gente tem que pensar se isso vai vender ou não vai vender, porque a gente põe o dinheiro na frente, investe na frente, com gráfica, com distribuição, com estocagem. A livraria deixa o livro lá, se vender, ótimo, senão ela devolve, ela não paga pelo livro que ela não vende, ela só paga por aquilo que ela vendeu. Então para o editor é um custo muito grande. Quando ele me explicou o negócio, então não é a questão muito de você gostar do teu livro, ou se o conteúdo é bom ou não, a questão é que é um negócio. E para vender o livro é o autor que vende, não é a editora, não é a livraria. Quem vende o livro é o autor, então você tem que vender o teu livro. Eu falei assim, tá, mas eu preciso ter o livro, antes, quer dizer, eu estou com um problema antes, eu não tenho o livro. Falou, não, você tem que vender o livro e esse processo é um processo que você, como autor, tem que divulgar o teu livro, falar do teu livro, fazer palestra. E aí ele falou, você tem que sair rodando, fazendo palestra. Eu falei, pô, então é isso. Porque eu achei que era o contrário, falei, eu lanço o livro, o livro explode e vão me chamar. Ele falou, não, você tem que fazer. Eu falei assim, bom, mas fazer palestra depende do pessoal me chamar, eu não posso meu autoconvidar. Ele falou, não, mas tem muita gente que precisa de alguém falando, você tem que estar disponível. Eu, sim, mas o meu tempo. Ele falou, então, você tem que estar disponível.

Quando eu entendi um pouco esse processo, eu comecei a entender assim, eu vou ter que fazer palestras pro-bono, grátis. Rapaz, aí eu comecei a fazer palestra, cara, reunião de condomínio, eu vou fazer palestra. Qualquer coisa, qualquer pretexto eu entrava no processo, não remunerava, se às vezes pagasse o custo estava valendo. Continuei no esforço de apresentar o livro. Como eu disse, 16 editoras não foi num dia, foi durante meses. Algumas me dava esperança e eu falava, agora vai e sempre vinha negativa.

Luciano: A autora do Harry Potter passou por cinco editoras, até que a quinta comprou o livro dela. Foram cinco editoras até alguém aceitar o Harry Potter. Paulo Coelho lançou o dele, vendeu 900 exemplares do Diário de um Mago e aí ele foi no editor, falou cara, só isso? O cara falou, bicho, se conforma, você quer ganhar dinheiro, vá aplicar no mercado de ações, porque como escritor você não vai ganhar nada. Aí ele tira um período de férias lá no deserto de Nevada, volta e fala eu vou investir nesse negócio, troca de editora – pum! – aparece uma foto lá do Presidente dos Estados Unidos com o livro debaixo do braço, cara, aí a coisa explode.

Sidnei: Eu gosto da ideia do pum! Eu sempre estudei esses fenômenos, que são mimetizações, como é que a coisa alavanca, o que é que “starta”. E óbvio que eu estava querendo o meu start, como todo mundo. E óbvio que eu ouvi da JJ Rowlins, você falou cinco, eu não tenho certeza, da última vez que eu ouvi eram doze.

Luciano: Não, foram cinco.

Sidnei: Que seja, ela foi em várias e recebeu não. O Diário de um Mago, óbvio que todos os escritores tinham uma história de ser recusados sistematicamente. Falei, bom, então eu estou no caminho, porque eu estou sendo recusado. E eu estava esperando o momento meu. Teve o momento e aí eu queria mais era registrar como é que foi, porque recentemente. com o novo livro é que eu contei para as pessoas que foi assim. Aliás, para a pessoa envolvida, que é o meu editor atual. Eu recebi uma ligação e a pessoa que fazia o papel de editor da editora chegou e disse para mim o seguinte, Sidnei, olha, nós temos um autor aqui na nossa editora que a gente já publica que ele está renovando o livro dele e ele queria escrever também no livro dele que fala de educação, ele queria colocar coisas, aspectos da geração y e nós olhamos pela internet, tem muito texto teu, mas não temos nenhum livro e ele queria referenciar na bibliografia dele o teu nome de alguma maneira. Então você tem um livro? Eu falei, não, eu tenho um livro. Então, mas a gente queria referenciar. Não, eu mando o livro. E eu mandei o livro. O livro do Clube de Autores, o pdf lá. Mandei o livro. Ele falou, mas não tem uma editora. Qual é a editora? Eu falei, não, eu ainda não tenho uma editora, é uma iniciativa pessoal. Ele falou, ah, vamos fazer o seguinte, vem aqui conversar comigo. Aí eu fui conversar com ele. Quando eu cheguei lá, a pessoa que se chama Maurício, olhei, falei, cara, te conheço. Ele falou, eu também te conheço. E a gente descobriu que a gente foi contemporâneo no Banco Real, ele era da diretoria internacional, então de vez em quando a gente se encontrava nos fóruns do banco. E eu trabalhava no Brasil, a gente se conhecia lá, mas assim se conhecia, a gente nem tinha interação. Ah, trabalhou, Banco Real, legal, então e aí? Ele falou, então, olha, eu li o livro que você mandou e eu acho que dá para a gente publicar ele. Tem que fazer uma ou outra mudança aqui e tal, mas é palavra de editor, você decide o que você quer fazer. E eu já estava lá, eu fui ver a editora, falei, bom, eu não conhecia vocês. Ele falou, não, a gente começou agora, a gente está com esse autor aí. Eu falei, ah, e quem é o autor? Não, é um autor nosso, a gente queria montar a editora, tinha que começar com alguém, a gente começou com esse autor. Ele não deu a palavra de quem era o autor, mas assim, tudo bem, se você não quiser, a gente não referencia, mas eu acho que eu posso fazer o seguinte, a gente está começando agora, eu queria ver se a gente lança alguns livros, o seu pode ser um livro que a gente lança e já dá, o autor vai lançar logo depois de você ele já referencia o livro, para a gente é até interessante e tal. Eu falei, assim, bom, está bom. Eu não consegui nenhuma editora grande, vai ter que ser tipo. Você topa publicar com a gente? Eu falei, claro, a resposta é, pô, eu queria ser publicado, topo, claro e tal. E tudo bem, esqueci dessa história de quem era o autor. Porque era assim, era uma editora querendo publicar o livro, nem vi se eles tinham muitos livros, nem nada. Não tinha, era uma editora relativamente recente.

Luciano: Como é o nome dela?

Sidnei: Eu dou no final. Mas essa editora era uma editora pequena, iniciante, devia ter alguns anos, um ou dois anos, três anos, eu não sei exatamente.

Luciano: Repete o nome.

Sidnei: Editora Integrare. Era uma editora relativamente recente. Aí eu falei, tudo bem. Aí começamos o processo, todo entusiasmado porque finalmente eu ia ser publicado. Passamos a revisão, capa, desenho, refaz. Aquele livro que eu tinha lá no clube de autores, não, suspende esse livro, vamos fazer ele de novo, vamos chamar do quê? Aí ficou o nome Geração Y mesmo, porque nessa altura o mercado já começava a borbulhar o assunto. E aí nós lançamos o livro em maio de 2010. Então nós estamos completando oito anos desse livro.

No dia do lançamento do livro aparece esse meu ex-colega do banco, ele é casado com a filha do autor que ele estava falando que queria usar meu livro como referência em algum nível lá da publicação dele. Então ele era casado com a filha desse autor e ele falou para mim, não, o autor vai no dia do lançamento do livro, porque ele quer te prestigiar no lançamento do livro.

Luciano: Catzo! Quem é o autor?

Sidnei: O autor era Içami Tiba.

Luciano: Grande Içami Tiba, cara.

Sidnei: E assim, no dia do lançamento, primeira pessoa na fila, eu assustado porque ele estava com o meu livro, cheio de marcação, e post-it. Eu olhei, aí eu olhava e falava é o Içami Tiba. O Içami Tiba veio no meu lançamento, assim quem trouxe o Içami Tiba aqui, não é? Aí o editor veio, olha, esse aqui é meu sogro, Içami Tiba, ele é o autor. Eu falei, você jura que o meu livro está sendo bibliografado no livro do Içami Tiba? Aí o Içami Tiba veio, nós conversamos, ele falou, Sidnei, eu acompanho o seu trabalho já faz um tempo, já vi o seu trabalho, pessoas já falaram, eu já tinha lido os seus textos.

Luciano: Uma gentileza, não é, cara? Que pessoa fantástica.

Sidnei: Foi de uma doação assim. E eu não tinha noção disso. Bom, lançamos o livro. O livro veio ao encontro de tudo o que o mercado estava querendo ouvir falar sobre gerações. Havia uma fonte invisível, que eram os jovens nas universidades, precisando trabalhar isso e muitos queriam fazer TCC sobre o tema Geração Y, porque aí nessa altura a mídia estava já falando bastante. E o meu livro veio assim, o primeiro livro falando disso abertamente. Então na hora que o livro veio, explodiu, pegou um primeiro momento, não deu dois meses depois o editor me chamou com uma champanhe, falou Sidnei olha, está aqui o que eu queria te dizer que você é o primeiro best-seller da Integrare e tem o selo best-seller. Falei, o que quer dizer isso? Ele falou assim olha, cada categoria tem um número x de livros vendidos, o seu já passou essa categoria. Eu não me lembro na época se eram 20 ou 25 mil assim em três meses. E assim, a gente quer saber se você vai escrever mais. Eu falei, eu quero escrever, eu tenho muita coisa, porque não deu para colocar tudo em um livro, nós tiramos uma parte. Então escreve. Aí eu lancei o Geração Y 2, que é o da capinha azul. Então tem dois livros.

Luciano: Não deu vontade de voltar naquelas doze lá e fazer assim nhém nhém nhém nhém nhém [risos]?

Sidnei: Cara, é assim, o Geração Y 2 nós lançamos ele com a edição esgotada. No dia do lançamento, assim ele esgotou a primeira edição de cara, então nós lançamos o livro na segunda edição, para você ter uma ideia do segundo livro. E bom, aí eu me empolguei, porque eu falei, bom, agora eu vou trabalhar. E eu falei, eu vou lançar um livro por ano com vocês. Vou lançar um livro por ano. O Geração Y alavancou o meu nome, eu passei a aparecer no mercado, muita gente me falando sobre como lidar com esse jovem estranho, esquisito, esse bicho esquisito. E aí muitas das minhas teorias começaram a fazer sentido e as empresas começaram a olhar as teorias e começaram a ver coerência, tanto nacional como internacional.

Aí, bom, sabe aquele momento da alavancagem? Surgiu esse primeiro momento, eu comecei, bom, agora eu tenho que merecer tudo isso porque não adianta nada ganhar a fama e não fazer a cama. Então comecei a trabalhar, estudar mais e teorizar mais e venho fazendo isso desde então, nesses últimos dez anos. Então a gente está num período de reavaliação, lancei mais e continuei falando de jovem, mas uma coisa me pediam, como lidar com esse jovem. E eu comecei a teorizar o veterano. Quer dizer, esse veterano que é o FY, que a gente brinca algumas vezes, que é o forever young, comecei a teorizar baseado, justamente, na condição do aumento da expectativa de vida. E eu comecei a pensar, eu preciso dar uma razão para o veterano, eu tenho que dar uma nova motivação. O veterano de hoje é diferente do veterano da nossa juventude. Quando eu tinha 20 anos de idade, um veterano de 50 anos já estava encerrando.

Luciano: Sim, era um senhorzinho.

Sidnei: Eu não diria que senhorzinho no sentido de caquético, mas sim ele já não tinha motivação.

Luciano: Eu tenho foto. Eu tenho a foto do meu avô com 54 anos, comigo no colo, cara, é um senhorzinho, é um “véinho” com cinquenta e pouco. Olha hoje, cara.

Sidnei: Eu gosto de usar filmes. Filmes mostram essa realidade. Todo mundo deve lembrar um filme significativo, Indiana Jones. O terceiro filme da série Indiana Jones mostra o Indiana Jones, que é o Harrison Ford, contracenando com o pai dele, que é o Sean Connery. E a gente lembra da situação do Indiana Jones ainda jovial e o pai dele velhinho assim, velhinho no sentido com chapeuzinho, andando sempre com guarda-chuva, tanto é que tem a cena clássica, que ele derruba um avião com o guarda-chuva, que ele assusta lá os pássaros, mas ele é o papel do velhinho. O Sean Connery, naquele filme, ele estava representando uma pessoa com 52 anos de idade, ele tinha 52 anos de idade, ele não estava representando alguém com 80, que é o nosso referencial atual. Outro filme, De Volta para o Futuro, o Christopher Loyd, que a gente vê, aquele cientista maluco e tudo o mais.

Luciano: O Doutor Doc Brown.

Sidnei: Ele tinha 47 anos naquele filme. Cara, eu vi esses dias, esse final de semana eu vi o filme Independence Day, que tem agora a versão dois, 20 anos depois. Então é de 96 e depois de 96, 20 anos, agora é 2016. Tem uma figura lá que é o pai do cientista, que é um senhorzinho judeu naquele filme. Então ele é o pai, ele é aquele conselheiro que dá a ideia de jogar o vírus. Todo mundo que viu Independe Day vai lembrar do pai de um dos protagonistas lá, ele é papel de pai mesmo e naquela época ele é um velhinho. Naquele filme, você deve lembrar da imagem dele.

Luciano: Lembro.

Sidnei: Ele tem 59 anos, você olha aquilo, fala, cara, isso era 59. Aí eu vi o filme 20 anos depois, ele ainda está vivo e ele protagonizou novamente. Você olha e fala, cara, ou ele não mudou nada, ou ele foi teletransportado, porque passaram-se 20 anos, os demais envelheceram, ele não, ele continua igual. Então, a realidade do veterano do passado é diferente de hoje.

Olhando a nossa juventude, eu me lembro de pessoas com 50, 55 anos que entregavam o jogo e falavam, se vira.

Luciano: Vão me aposentar, não é? Aquela ideia do pijama e chinelo.

Sidnei: Vou descansar. Ele não entrava mais no jogo e o jovem, por vacância tinha que entrar no jogo. O que aconteceu, nesses últimos 30 anos aumentou a expectativa de vida em pelo menos mais 15, na média. Então hoje, a gente com muita facilidade fala 80. Falava 65 com muita facilidade, hoje a gente acha que 80 é a idade velhinha.

Luciano: Você quer um modelo ideal? Você pega avião que nem um louco aqui, não pega? A fila agora, que era a fila dos 60, que era prioridade, eu quando fiz 60 fiquei acanhado, falei, cara, como é que eu vou entrar na fila? Agora a fila é 80, agora eles falam, é acima de 80.

Sidnei: Sim, agora tem duas filas. Primeira prioridade acima de 80, agora vem a segunda prioridade. Cara, que esquisito. Tem primeira prioridade, segunda prioridade. Quer dizer, isso são sinais de que alguma coisa está se alterando.

Então, o jovem antes era obrigado a entrar no jogo porque os veteranos saíam do jogo, naturalmente, de um jeito ou de outro saía-se. O veterano de hoje está com 50 anos, 55, ele olha para a frente, a perspectiva não é mais de 10, 15 anos, que era a perspectiva de quem tinha 50 há 30 anos. Imagina, uma pessoa com 55 anos há 30 anos olhava, falava, bom, a maioria das pessoas morre com 65, eu vou fazer o seguinte, 65 é a idade limite, o que vier a mais é lucro, então eu vou começar a usufruir a vida, ele dedicava a atenção dele em usufruto da vida mais do que em aventura. Casos de exceções sempre houve, mas a maioria saía do jogo. Hoje você tem uma pessoa na casa dos 50, 55, o que ele está olhando, cara, a média é 80, então o que eu tenho pela frente não são mais 5, 10 anos, eu tenho pela frente mais 25, 30. Pô, 25, 30, eu estou com 55, é mais que dois terços do que eu já vivi. Então eu tenho mais dois terços do que eu já vivi pela frente, não posso parar, eu não saio. E o que é perverso, porque não é só isso e aí vem uma conta matemática que eu já fiz várias vezes.

Há 30 anos a gente falava 65 como balizador, hoje a gente fala 80, subiram 15. Uma pessoa com 50 anos hoje consegue colocar mais 30 nessa conta, porque é 80. Nos próximos 30, qual vai ser a idade? Se fosse uma conta de padeiro, daqui a 30 anos o normal é a gente falar 95, tá? 95 é o padrão. Se a gente assumir isso como uma verdade, significando que vai ter tecnologia para isso, disposição e tudo o mais, significa que eu tenho pela frente, eu estou com 55, eu não tenho pela frente mais 30, eu tenho pela frente mais 40, 45. Cara, 40, 45 significa que eu estou na metade. Não significa que eu estou nos dois terços finais, eu estou na metade. Isso muda tudo, porque eu me enxergo com 50 anos com muita disposição, diferente do que eu via meu pai ou meu avô. Eu me enxergo com vontade de recomeçar ou começar novas possibilidades.

Esse cenário mudou tudo, porque o que acontece com um veterano hoje na casa dos 45, 50, 55 anos, ele não sai do jogo. Ele se reinventa, ele se redesenha, ele entra na faculdade. Alguns dados que eu tenho colocado no mercado falando justamente sobre isso, quer dizer, boa parte dos estudando no nível universitário hoje, boa parte, eu diria aí na casa do 30% estão com mais de 40 anos de idade. Por quê? Porque eu quero continuar no jogo, eu não vou sair do jogo, eu não posso sair do jogo porque tem muita vida pela frente, não tem razão previdenciária que resolva essa conta. Não tem razão, não interessa que lado você queira defender, se pode ter previdência com mais ou menos, não tem razão financeira que resolva essa equação, não tem. No mundo todo não tem e no Brasil também não vai ter. A gente tem que achar uma solução que é de trabalho, de me envolver com trabalho. A gente já começa a ver isso hoje, quando você vê veteranos com 60, 65 anos ainda no mercado. Entrando no mercado ou continuam rodando no mercado. Não na mesma posição? Não necessariamente.

Luciano: Até porque, qual é a alternativa? Se eu faço 60 anos de idade, 65 e decido, bom, muito bem, cheguei num ponto, parei. Qual é a alternativa? Vou fazer o quê? Vou viajar? Cara, isso custa dinheiro pra cacete. Vou curtir minha vida, isso custa dinheiro, entendeu? E esse dinheiro não está aí. Se eu moro na Europa, nos Estados Unidos, estou numa outra estrutura, talvez eu até estivesse preparado, tivesse condições. Nos Estados Unidos, me aposento aos 65 e vou curtir minha vida. Lá você consegue. Você tem um poder do dinheiro muito maior do que aqui. Eu consigo comprar um carro lá muito mais fácil do que eu compro aqui. Eu compro uma casa muito mais fácil do que eu compro aqui. Tudo muito mais fácil lá. Aqui, bicho, eu amanhã tenho que matar um leão.

Sidnei: Mas é interessante o que acontece com o ser humano, mesmo que eu tivesse uma solução financeira para mim, para essa realidade aqui ou lá, não interessa tem uma coisa que é de propósito de vida e eu preciso continuar. Até Hollywood já começou a falar sobre isso, aquele filme Senhor Estagiário mostra bem isso. O De Niro começa o filme dizendo o seguinte, olha, a vida é feita de amor e de trabalho. Bom, eu estou aposentado e minha mulher morreu, o que eu faço da vida? E aí ele começa a citar tudo o que ele já fez, jogou pife-pafe, já fez yoga, aprendeu Mandarim, já viajou, ele falou, gente, eu já fiz tudo e ainda estou vido, eu quero alguma outra coisa. E o filme todo transcreve sobre ele virar estagiário novamente e usar a experiência dele nesse processo.

Luciano: Você acha que vem um choque relacional, tipo choque do petróleo, choque  das torres gêmeas, um choque relacional? Tipo essas duas, eu não quero chamar de gerações, eu quero chamar esses dois momentos. esse mundo de jovens e esse mundo de pessoas maduras vão ter que aprender a conviver de um jeito que é diferente de tudo o que houve até hoje.

Sidnei: E eu acho que é isso o que tem acontecido em algumas experiências muito bem realizadas e outras um desastre total, uma competição para ver quem manda melhor. O que acaba acontecendo hoje é justamente esse conceito de gerações que a gente falava lá, ele é muito mais perene do que a gente imaginava, por quê? A expectativa de vida aumentou e continua aumentando. Já existem empresas, o Google e outras empresas que estão trabalhando diretamente na ideia da vida eterna. De alguma forma, quando eu olho Hollywood apresentando as suas versões do futuro, a gente vê muito essa questão de transformar a nossa realidade, baixar, dar um download na nossa vida para um chip e colocar isso num lugar e vai virar numa matriz. Quer dizer, as pessoas estão trabalhando com a ideia de que eu não vou morrer, e aí? As pessoas não pensam muito sobre como é que vai viver e qual vai ser a realidade que suportará a vida depois de tanto tempo, então algumas coisas são muito sintomáticas. Como eu comentei, eu estou com 55 anos, eu já tenho no meu drive a percepção que eu não vou ser idoso com 60. Você tem a carteirinha de idoso já, Luciano?

Luciano: Eu não tenho a carteirinha, mas já tenho 61,

Sidnei: Mas você já está parando na vaga de idoso?

Luciano: Não paro porque não tenho carteirinha. E outra, dá uma vergonha do cacete, você chega lá e para e desce do carro de bermuda e nego olha, fala, esse desgraçado ai, ocupando espaço.

Sidnei: Hoje tem um processo de bullying. É engraçado que a nossa geração é uma geração infeliz, não é? A gente tinha que ter carteirinha para provar que a gente era maior de idade, agora tem que ter carteirinha para provar que você é maior que maior de idade. A gente pegou uma geração, mas eu brinco com isso com as pessoas, eu falo assim, então, quem tem hoje 50, 55 anos tira o cavalinho da chuva, que você não vai ser idoso com 60 e provavelmente não vai tirar carteirinha, porque não vai poder tirar. Então, minha recomendação para você, Luciano, vai lá tirar carteirinha logo, para garantir o teu, porque isso vai mudar nos próximos anos. Vai mudar por coerência, você acabou de dizer, é constrangedor você parar numa vaga de idoso, tipo as pessoas vão olhar para você de maneira estranha.

Luciano: Deixa eu te dar uma dica, outro dia estava uma discussão boa na minha família, de novo a fila do avião. Então quando você vai embarcar no avião, hoje tem pelo menos três filas, você tem a fila comum, normal, você tem uma fila por lei onde estão as grávidas, os “véinho”, criança de colo etc. e tal e você tem a fila do pessoal que tem um cartão de milhagem etc. e tal. A fila dos “véinho” é a fila do direito adquirido, a lei me deu esse direito. A fila do cartão é o direito conquistado, eu conquistei porque eu trabalhei por isso etc. e tal. Então, entrar na fila do direito adquirido, eu bato o olho e falo, cara, mas eu não vou entrar, essa fila aqui é para quem tem problema de locomoção, para quem está velhinho. Eu não estou velhinho, cara, eu não tenho problema de locomoção, portanto eu não me sinto bem nessa fila. Mas eu me sinto perfeitamente bem na fila de quem tem cartão milhagem, porque foi conquistado. Então isso dá um nó na cabeça, eu tenho todo o direito de estar na outra fila porque a lei me dá esse direito, eu poderia estar lá, de cabeça erguida. Mas na minha cabeça fica, não, cara, muda de fila, vai na outra, deixa essa aqui para quem precisa e usa a fila que você conquistou com o teu trabalho.

Sidnei: Então, mas tem uma coisa bizarra também, você está reparando que a fila de quem tem direito adquirido está aumentando?

Luciano: Ôpa.

Sidnei: Tem ficado cada vez maior, mas são as pessoas estão aproveitando? Não, na verdade, estão aumentando e a gente não está percebendo. Vaga de idoso dentro de shopping tem aumentado e o pior, você olha e fala, não é possível que tem tanto idoso e tem. Antes, você falava, tinha vaga de idoso, ninguém ocupava e se ocupasse você ficava desconfiado, é algum malandro que está colocando, hoje, não, eles estão dirigindo, eles estão aí. Quer dizer, a frase mais legal é ninguém está morrendo. O que eu costumo desesperar o jovem e falar assim, cara, primeiro, eles não estão morrendo, então esquece direito de herança, porque não vai sobrar para você, eles ainda estão usando o dinheiro que poderia um dia ser a tua herança, não vai ter esse direito.

Então o que acabou conduzindo esse processo é assim a gente começar a ver a realidade dos forever young, os FY da vida, que são os veteranos. Ele muda a atitude dele e ele precisa de um novo propósito. Uma coisa que eu percebi é que você pode até ter arrumado uma solução financeira que te suporte de alguma forma. Você abaixa o padrão de vida, diminui exigência, sei lá, você acha uma solução financeira, mas você ainda precisa da razão de existir. Você precisa do trabalho. Quando você realmente para, você para, usufrui por um tempo, vai viajar, vai curtir e tudo bem, mas depois de um tempo, isso não é uma coisa que dura, você não pode viver de férias os próximos 25 anos.

Luciano: Até morrer, esperando morrer, não é?

Sidnei: É. Você não pode. Você tem que ter alguma ação, porque quando a pessoa efetivamente quer fazer isso e tenta fazer isso, ela percebe que ela começa a adoecer, deprime, entram outros elementos e ela adoece e, normalmente, a pessoa acaba morrendo mais rápido. Então, essa matemática é que eu falo, eu tenho que continuar fazendo algo, e tudo bem, fazer algo é legal. O veterano fazer algo, a gente pode direcionar ele e é daí que começou a surgir um outro conceito, junto com o conceito geracional, que é a ideia de dar um novo propósito para os veteranos, que é transformá-los em mentores. Ou seja, pegar a tua vivência, que tem muito significado, muito valor e disponibilizar essa vivência para o mais jovem.

Esse jovem que nós criamos aí nos últimos 25, 30 anos não foi exposto da mesma maneira que a gente, ele foi turbinado, ele foi vitaminado com informação, deram para ele tecnologia de informação, mas ele não foi experimentado, porque quando o veterano está no jogo, ele faz no lugar do jovem, a tendência do veterano errar é menor que a do jovem, então a tendência nossa é confiar mais no mais veterano do que no jovem. Só que tem um problema, quando é que a gente vai confiar no jovem? É esse o dilema.

Luciano: Quando ele virar veterano.

Sidnei: Mas não é uma questão por decurso de prazo. Aí nem quando ele virar veterano vai acontecer. Tem um exemplo que eu costumo usar em palestra que é a história, você vai numa farmácia, tem dois farmacêuticos lá. Um mais veterano, 45 anos, formado, farmacêutico e o outro um jovem de 25 anos de idade, ele também é formado, os diplominhas, todos uniformizados. Os dois estão ali, você vai tomar uma injeção de benzetacil, quem você quer que aplique?

Luciano: Eu quero o “véinho” [risos].

Sidnei: Não é o velhinho, 45 anos nem é tão “véinho”, mas você quer a pessoa que te passa a sensação de mais vivência naquela experimentação.

Luciano: E nesse mundo de mi-mi-mi, vão dizer que você está sendo preconceituoso, que você está sendo jovemfóbico. Não, isso é da construção do ser humano. Aquele cara deve ter dado tanta injeção em tanta gente, que ele se tornou excelente nisso. O garoto está aprendendo ainda.

Sidnei: A tendência de ele errar é menor e é em mim que vai doer, então…

Luciano: A bunda é minha, exatamente.

Sidnei: Então, a bunda é minha, essa é a brincadeira que fazem, a bunda é minha, eu dou para quem eu quiser. Então, mas esse efeito a gente faz em tudo, rapaz. Você vai saltar de paraquedas, tem um que saltou mil vezes, um que saltou cem, quem você quer que te acompanhe? Você vai andar com dois motoristas e vai depender deles para uma viagem grande. Um já viaja há 20 anos o outro acabou de tirar carta, com quem você vai? Então isso é natural, a gente delega o desafio que vai nos atingir para quem tem mais vivência, isso é natural. Só que tem uma coisa, quando é que o jovem de 25 anos efetivamente vai aplicar uma injeção? Quando ele tiver 45 anos? Não, quando ele aplicar a injeção. Ele não consegue ter a vivência de aplicar injeção enquanto não aplicar injeção. Significa que ou eu tiro mais veteranos do jogo e por falta de alternativa o jovem vai aplicar, era o que acontecia há 30 anos, hoje o veterano não sai do jogo porque ele tem mais 50 anos pela frente, então ele não sai do jogo assim. de propósito ele não vai sair e o jovem tem um problema. Quando que o jovem aplica a bendita injeção? E quando eu falo aí parece que eu estou defendendo só o jovem. Não, o jovem só vai aplicar injeção quando alguém oferecer o objeto, a oportunidade para ele aplicar injeção. Significa que alguém vai ter que ter a coragem, vai ter que ter o desprendimento de falar, não, deixa ele fazer. A única coisa que pode funcionar legal nisso é justamente a gente colocar um elemento novo. Você está lá para tomar injeção, tem o de 45, que você acha que a injeção não é dolorida e tem o jovem de 25. E você, naturalmente, vai pedir pelo de 45, é o caminho natural. Agora vamos pensar a seguinte situação, se o de 45 falar assim, olha, ele também precisa aprender a aplicar, deixa ele aplicar? A tendência sua é dizer, não, espera aí, mas é melhor que ele aprenda com outro e não comigo, eu não sou cobaia. Mas e se o veterano falar o seguinte, olha, ele aplica, mas eu vou estar na sala junto, eu não vou aplicar, mas eu estou ali, te dá mais segurança?

Luciano: É, continua sendo minha bunda, mas claro que dá.

Sidnei: Continua sendo o jovem, mas parece que o fato de o veterano estar ali te dá a segurança que, na verdade, você está querendo. Eu sei que eu preciso tomar injeção, sei que alguém tem que aplicar, tem que ter técnica, ambos têm, mas parece que se der algo errado o veterano tem mais elementos. Ótimo, e se o menino estiver e o veterano estiver junto? Mas o veterano está junto não para aplicar, ele está junto…

Luciano: Para orientar.

Sidnei: Não, não é para orientar, o menino já está orientado, ele já aprendeu isso, só que ele precisa praticar. O ato de ter um veterano do lado me dá um pouco mais de segurança, dizendo bom, se der algo errado, o veterano está ali, ele entra no circuito. É esse o movimento de segurança que o veterano pode dar. Nessa hora, se acontece desse jeito, o menino vai aplicar, o veterano vai te dar a segurança para você correr o risco, porque, pelo menos, o veterano está ali, ele vai ganhar a vivência e o veterano teve um papel fundamental de mentor. O mentor não é quem faz, o mentor é que está dando segurança para quem está correndo o risco. Não, não, vamos lá, eu estou aqui por perto, qualquer coisa eu interfiro. Você só precisa dar essa segurança.

Luciano: A alternativa é ter tanta bunda que o “véinho” não dê conta. Aumentar o número de bunda [riso], Vem cá, meu velho, já estouramos nosso tempo aqui.

Sidnei: Mas daqui a três anos a gente continua essa conversa [riso].

Luciano: A gente continua. Só para a gente terminar, você acaba de lançar um livro agora, chama-se Cicatrizes.

Sidnei: Os Desafios de Amadurecimento no Século 21. A gente está falando justamente disso.

Luciano: Tem tudo a ver com essa coisa.

Sidnei: Como a gente está num contexto em que é difícil amadurecer, mas a gente tem cicatrizes. A cicatriz é uma marca do amadurecimento. Não existe amadurecimento que acontece com facilidade. Amadurecimento acontece com marcas que a gente lembra, eu preciso dessas marcas, eu preciso da falha, eu preciso da vivência. Ou seja, eu tenho que ter a vivência significativa. A cicatriz é isso. Então a gente está, neste momento eu estou assim fechando o assunto mentoria com o terceiro livro sobre o assunto, que teve o Conectados, mas Muito Distraídos, teve o Mentoria, que foi o livro que deu origem a esse assunto aqui no Brasil e tem agora o Cicatrizes, que fecha a teoria do amadurecimento. A gente trabalha hoje muito o amadurecimento, mesmo.

Luciano: E você está à frente de uma escola de mentoria. Para a gente entrar em contato, vamos lá. Como é que é, estou interessado em acompanhar você, como é que eu faço?

Sidnei: Bom, tem algumas coisas que são naturais do site, então primeiro é o Sidneioliveira.com.br é o meu site pessoal. Sidnei não é com y, é Sidnei com i no final, d mudo. Lá do site viaja para outro lugar. Tem o site da escola de mentores, então escoladementores.com.br a pessoa pode entender um pouco mais sobre mentoria, ver os trabalhos, o que a gente tem desenvolvido na escola, que aí eu acabei empreendendo, nesses últimos dois anos, a iniciativa. Hoje é uma escola que tem um grupo perto de 400 mentores já formados no mercado e nas empresas já bate mais de mil mentores, então é um assunto que está em crescimento, dá para conversar a partir disso.

Luciano: Alô, você que está nos ouvindo aqui, o mentor é uma coisa, coach é outra. São coisas diferentes. Não vamos entrar nessa aqui, senão dá outro programa, tá? Mas é só para dizer, são duas coisas diferentes.

Sidnei: No site da escola inclusive tem um vídeo que só versa sobre isso, coach trabalha competência, mentor trabalha maturidade, são focos diferentes. Então tem essas duas iniciativas, acho que é mais fácil usar pelas redes sociais, no Instagram acho que é onde eu estou mais constantemente é Sidneioliveiraescritor e lá eu tenho colocado bastante consistência e bastante trabalho publicado a partir disso. Tem o blog na Exame, hoje eu tenho um blog lá na Exame com o meu nome, é o blog Sidnei Oliveira, onde eu tenho defendido essas ideia, pré-escrevendo os próximos livros. Já estou escrevendo o próximo livro. Eu vou lançar esse mas já estou preparando o próximo, que vai falar justamente dessa geração nova, os milênios, geração z, o final da geração y e o pessoal da geração z chegando.

Luciano: Imagino o que vem aí.

Sidnei: Tem muita coisa, a gente está estudando bastante, eu imagino que dentro de um ano a gente consiga publicar aí o novo livro.

Luciano: Meu caro, bem-vindo. Logo mais a gente vai ter que se juntar e fazer mais um, cara. O terceiro da série.

Sidnei: Espero que a gente esteja… olha, muita gente que assiste o seu LíderCast me encontra nas palestras, rodando o Brasil, ah, eu ouvi você no LíderCast, é muito interessante a repercussão. Então, de novo aqui com você, contente por estar aqui, Luciano, você é um amigo. admiro o teu trabalho e vejo o teu crescimento também. Então, quem está nos ouvindo, olha, entre, divulgue, espalhe isso aí, porque a gente tem que espalhar o que é do bem.

Luciano: E fica esperto aí, porque nós dois, com 80 anos de idade vamos estar aqui fazendo o quinto.

Sidnei: A gente vai estar fazendo mais um… Lembra do primeiro LíderCast? Vai estar falando assim. Não acho que a gente vai estar falando com aquela voz caricata de velhinho, não vai estar desse jeito, porque a gente, realmente, está diferente.

Luciano: Grande abraço.

Sidnei: Abraço.

Luciano: Muito bem, aqui termina mais um Líder Cast. A transcrição do programa você encontra no lidercast.com.br. O LíderCast chega a você com o apoio da Albaugh Brasil, que está revolucionando o mercado com uma linha completa de agroquímicos genéricos. Sim, cara, genéricos de qualidade, combinando proteção, rentabilidade ao agricultor e respeito ao meio-ambiente. Conheça as soluções Albaugh em bit.ly/escolhainteligente. Para ter acesso a esta temporada completa, assine o Café Brasil Premium no cafebrasilpremium.com.br, um ambiente educacional sem ser chato nem superficial, que já conta com mais de mil assinantes recebendo todo mês conteúdos voltados ao crescimento pessoal e profissional. Conheça, que vale a pena, cafebrasilpremium.com.br.

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