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Ciça Camargo -

Luciano         Muito bem, mais um LíderCast. Vamos ali descobrir como é que essa pessoa veio parar aqui. Eu recebo diariamente dezenas, centenas de e-mails de todo o tipo, a maioria absoluta são aqueles caras tentando vender porcaria. Mas, de vez em quando entram uns e-mails meio malucos assim de um povo aí, um belo dia eu recebo um e-mail aqui cujo título era o seguinte: o dia que eu dei para o Luciano Pires. E eu olhei aquilo e falei que história é essa? E o e-mail começa mais ou menos assim: bom, eu queria ser… eu tenho certeza que você recebe muitos e-mails, eu queria ter certeza que você ia ler esse aqui, por isso eu botei um título bem, como é que eu vou dizer, bem chamativo e não tinha como não ler e no fim eu li o e-mail dela, era uma festa, uma história muito legal e o que ela deu para mim na verdade foi que ela resolveu assinar o Café Brasil Premium, então ela estava dando a contribuição para mim, mas foi muito engraçado aquilo, a gente entrou em contato e eu acabei descobrindo eu ela tinha um trabalho muito interessante, daí surgiu o convite, então estamos aqui hoje, você sabe quais são as três perguntas fundamentais do programa, que são aquelas únicas três que você não pode errar: seu nome, atenção, sua idade e o que é que você faz? Como é mulher, se não quiser dizer a idade, até a gente abre exceção, mas é importante dizer, tá?

Tiemi             Não… Meu nome é Tiemi Yamashita, tenho 44 anos e o que eu faço? Sou uma caçadora de desperdícios.

Luciano         Caçadora de desperdícios? Essa é excelente. E aí? Que loucura foi aquela? Você sempre faz assim nos e-mails? Manda uma loucura daquela? Aliás o e-mail, você sabe o que eu fiz com aquele e-mail que você mandou, você mandou o e-mail para mim descrevendo…

Tiemi             O motivo.

Luciano         … o motivo e descrevendo qual era o impacto que o trabalho do Café Brasil tinha na sua vida. Eu peguei aquele teu e-mail, mandei para a minha agência e falei não preciso mais de briefing, então em vez de eu passar briefing para vocês, leiam esse e-mail aqui, está escrito nele tudo aquilo que eu quero que as pessoas entendam quando ia tentar vender o valor, qual é o valor do meu trabalho, ela descreveu aqui item por item do ponto de vista de alguém que consome aquilo, então muito obrigado pela dica, já deu uma baita ajuda aqui. Você nasceu onde?

Tiemi             Nasci aqui em São Paulo.

Luciano         Em São Paulo?

Tiemi             Isso.

Luciano         É paulista mesmo daqui?

Tiemi             Sou.

Luciano         É? Seu pai e sua mãe?

Tiemi             Meu pai é de….. minha mãe é de Assis, meu pai é de Martinópolis.

Luciano         São brasileiros.

Tiemi             São, porque eu sou descendente de japoneses.

Luciano         Então, mas eles nasceram aqui, seu pai e sua mãe.

Tiemi             Eles nasceram aqui, eu já sou a terceira geração.

Luciano         Como é que é? Eu nunca sei.

Tiemi             Sansei. Quem veio, os meus avós vieram de navio, então foram os imigrantes, eles são considerados isseis, que são japoneses mesmo, nascidos no Japão que imigraram para cá, os meus pais nasceram aqui, aí são nisseis, de ni é dois, e eu sou a terceira geração, sansei.

Luciano         Seu filho vai ser o quê?

Tiemi             Yonsei.

Luciano         E depois o neto?

Tiemi             Não sei. Eu acho que é Nonsei, porque ele vai pela numeração para poder saber a geração.

Luciano         O que seu pai e sua mãe faziam?

Tiemi             Meu pai, a história do meu pai é bem bacana, minha grande inspiração, ele , então, nasce em Martinópolis, trabalha na lavoura com a família, meus avós, depois ele vem para a cidade, vem aqui para São Paulo, quando começa a industrialização assim, estavam surgido as empresas e precisava de operário, aí a mão de obra vinha do interior para trabalhar e meu pai começou a trabalhar numa empresa de ônibus, ele começou lavando peça, ajudando a lavar peça. Só que ele era muito interessado e aprendeu a montar o motor, então aí ele se profissionaliza, só fez um técnico, mas de montagem de motor diesel, e aí ele segue uma carreira nesse sentido de mecânico, a minha grande inspiração porque quem me ensinou a trabalhar foi o meu pai.

Luciano         Mas ele montou empresa própria dele ou ele trabalhou?

Tiemi             Depois, ele trabalhou durante muito tempo numa empresa grande, que faz pavimentação na cidade e aí depois de um tempo ele partiu para abrir a própria empresa dele…

Luciano         Ele montou o quê? Uma retífica?

Tiemi             Montou uma retífica de motor junto com a família, aí nós somos em quatro filhos e eu sou a mais velha, então tinha 15 anos quando começa essa empresa com o meu pai.

Luciano         Como é que era o nome da retífica?

Tiemi             Paca Diesel.

Luciano         É eu tive muito contato com ela, quando a gente lançou os anéis de pistão, perfect circle, que tinha que entrar nesse mercado que para nós era totalmente…

Tiemi             Retífica?

Luciano         … é, era um mercado totalmente diferente e novo de tudo e a gente foi mergulhar para entender como é que funcionava, então provavelmente passamos por lá, a gente foi visitar vocês. Sua mãe?

Tiemi             E a minha mãe foi dona de casa, não, primeiro assim, quando ela era jovem, ela trabalhava como operária nessas empresas de tecelagem que eu falei e eles… muitos descendentes quando vieram para a cidade ficaram trabalhando como operários e depois ela casa, casa com o papai e aí ela vai se dedicar à família, porque teve quatro filhos, então ela era uma dona de casa e uma gestora, porque mamãe me ensina tudo sobre empreendedorismo, meu pai ensinou a trabalhar e minha mãe empreendedora e aí quando o papai vai abrir a empresa, ele não abre a empresa ah porque meu sonho é abrir a empresa, perde tudo e aí precisa tomar uma decisão de abrir a empresa, é tudo ou nada e aí a minha mãe é a que dá maior apoio para ele e aí começa uma nova história, acho que para a nossa família e para a minha mãe também que eu descubro a minha mãe como uma empreendedora, ate…

Luciano         Ela começa a trabalhar junto com o seu pai?

Tiemi             … sim, ela e o meu pai e os filhos, eu sou a mais velha, mas assim, a família começa a se unir nesse empreendimento que é o grande sonho do meu pai que é a retífica de motor diesel dele e aí a minha mãe se descobre uma empreendedora, uma gestora incrível.

Luciano         Com 40 anos?

Tiemi             Exatamente, papai estava com 42, eles têm quatro anos de diferença, então a mamãe…

Luciano         38, é…

Tiemi             … isso, exatamente e aí ela dá a grande guinada, o meu pai dá a grande guinada na vida dele, minha mãe também dá uma grande guinada e eu assisto a tudo isso.

Luciano         Com 15 anos.

Tiemi             Com 15 anos, trabalhando junto, quer dizer, eu redescobri no meu pai um profissional, porque eu não conhecia, eu só conhecia aquela pessoa que chegava em casa à noite, que cheirava a graxa e aí esse é o meu pai, a minha mãe era dona de casa e quando eu começo a trabalhar com o meu pai, porque a gente perde tudo, então precisa… não tem…

Luciano         Perderam tudo por quê?

Tiemi             … perdemos tudo porque quando ele saiu da empresa, ele trabalhava registrado direitinho e depois ele com o sócio decidiu abrir uma retífica, aí dura uns três anos, não dá certo…

Luciano         Mais uma história do empreendedor que se arrebenta.

Tiemi             … é, não dá certo…

Luciano         Que ano era isso? 29 anos atrás, é isso aí, 29.

Tiemi             … não… quando abre a empresa já está com 30 anos, então isso é uma história de cinco anos antes, 35 anos atrás. E aí é aquela história, a gente só consegue a liberdade depois que a gente perde a segurança, então ele tinha a segurança do emprego, quando perde aquilo e aí ele vai fazer o quê? Está tudo perdido, já não tem mais nome, já não tem mais emprego, não tem mais nada e… mas aí tinha o sonho de abrir a própria retífica e era vai ou vai, primeiro tentou em sociedade, não deu certo, aí abriu sozinho, assim com a família, com a minha mãe.

Luciano         Como é que é perder tudo para alguém que cresceu na cultura japonesa? Fala para mim, como é para um brasileiro perder tudo, a gente sabe como é que é, como é que é para alguém que tem a cultura japonesa perder tudo?

Tiemi             É bem complicado, tem uma pressão bem grande, uma questão de orgulho e honra que é muito forte dentro disso, mas também tem um fator importante que assim, na cultura japonesa o homem, quando chega nessa idade dos 42 anos, é quase uma passagem, é um momento em que acontecem algumas coisas e ele pode dar a grande guinada, então tem até uma festa, que quando ele entra nesse momento, os amigos dão uma festa para ele, quando ele sai desse momento, desse período de 40 até 42 anos, depois ele dá uma festa também, porque é um período crítico, é um período que coisas muito importantes vão acontecer na vida da pessoa, isso é a cultura japonesa que tem disso e foi justamente nesse período, mais ou menos, que acontece, então é assim, quando a gente fala de empreendedorismo, as pessoas falam olha, as histórias são bonitas e tal, mas o momento, são momentos de decisão que a gente não sente o empreendedor. A gente sente que fracassou. Na verdade o empreendedorismo depois de 30 anos a gente conta uma história de empreendedorismo, mas na hora deu tudo errado, o que eu fiz de errado? Eu tenho quatro filhos para criar, meus filhos…. como vai ser agora? O que eu vou fazer com o que eu tenho? Acho que tem essa questão que algumas pessoas passam por isso e é muito importante passar por isso, porque quando você acha que tem alguma, ah porque eu tenho um pouco de dinheiro, porque pelo menos eu tenho isso, a gente se agarra àquilo e esquece outras coisas que se tem, quando você não tem mais isso, aí você vai ter que procurar n fundo do baú o que de fato você tem e que é intangível, eu acho que foi uma das coisas que eu aprendi e que assim, a gente aprende vivendo essa experiência, vendo como o meu pai ou minha mãe superou essa situação, com a coragem deles falando nossa e tudo mais, então é… isso que…. e também uma coisa importante que eu acho hoje em dia, os filhos saberem como o pai trabalha, porque os filhos hoje não sabem, depois eles vão para o mercado de trabalho e eles não têm nem a referência de como o pai dele encara o trabalho e nem como ele trabalha.

Luciano         É por isso que toda a vez, todo mundo que senta aqui na minha frente, eu começo a conversa assim, me fala do teu pai, me fala da tua mãe pra descobrir que referências foram essas que você recebeu. Deixa eu voltar um pouquinho atrás, nos seus 15 anos, antes dos 15 anos, o que você queria ser quando crescesse? Qual era o sonho de menininha?

Tiemi             Então, eu fui, da minha família eu fui a primeira geração que pode ir para a escola, aos 7 anos…

Luciano         Seu pai e sua mãe não foram?

Tiemi             … não, eles foram para a escola depois dos 10, 11 anos, onde eles moravam, no interior não tinha escola, então só dava para estudar quando o meu avô mandava esse filho para uma cidade, aí ficava na casa de um conhecido só para ele estudar o primário e depois voltar, ou então se ele tivesse mudado, então eles puderam estudar, mas não como a gente estuda, desde os 7 anos vai para a escola, não, é uma outra situação de estudar. Porque eles tinham que trabalhar na roça desde criança e eu já tive o privilégio do quê? De não precisar trabalhar na roça, eu já nasci na cidade e aos 7 anos eu pude ir para a escola, então a escola para mim foi nossa, um universo enorme de descoberta, voltava para a casa todo dia maravilhada, a professora para mim era o máximo e eu queria ser professora e até falei um dia para minha mãe, mãe eu quero ser professora. Aí a minha mãe escutou, depois ela falou, puxa filha, você é a primeira geração que está podendo ir para a escola, pensa bem, professora? Tipo, vamos pensar numa engenharia, uma odontologia, vai querer ser professora? E aquilo me deixou um pouquinho… por quê? Ela estava vislumbrando outras coisas, sabe como é a profissão no Brasil e tudo mais.

Luciano         Ela quer a doutora, não é? Ela quer a médica…

Tiemi             Não, eu pensava nisso e aí naquele momento eu lembrei disso e falei puxa, será que não é bom ser professora? Porque o impacto da professora na minha vida, de uma pessoa que descortinava o mundo, foi uma coisa maravilhosa, eu vivia num mundo que era só a minha casa e quando…. o pessoal falava, japonês, então eu era uma japonesinha, eu era uma pessoa assim… quando fui para a escola, aquele mundo se expandiu de uma forma… a professora falava coisas que eu nunca tinha ouvido, aqueles alunos, os amigos também tinham outro repertório, aquilo foi crescendo tanto, me trazia tanta coisa boa…

Luciano         Você começou a socializar. Me fala uma coisa, você estava no teu mundinho ali, de repente você vai para a escola e olha em volta e descobre aquela molecada toda tem um olho diferente do seu, não é puxado e aí você ganha um adjetivo que em casa você não tinha…

Tiemi             Eu sou japonesinha.

Luciano         … era japonesinha… japonesinha e você se vê diferente… eu sou diferente da turma, porque eu tenho traços e isso te impactou de alguma forma?

Tiemi             Demais, porque aí eu ganhei essa história de ser diferente, porque até então eu não tinha diferença, eu morava na minha casa, todo mundo era… quando eu fui para a escola que eu vi que tinha diferença, eles eram diferentes, aí assim, era engraçado, porque eu queria ter o cabelo deles e não queria ter os olhos puxados e as meninas queriam ter o cabelo como o meu, que shampoo você usa? E aí eu queria ser como eles, então senti um pouco isso e lá eu era chamada de japonesinha, sempre fui chamada de japonesinha, então eu achava que eu era do Japão.

Luciano         Era bullyng já?

Tiemi             Não…

Luciano         Tinha bullyng ou não?

Tiemi             … não, não era bullyng, mas olha, eu achava que eu era do Japão, aí acontece uma coisa muito importante, quando eu tinha uns 9 anos, a professora fala sobre geografia e ela fala que o Japão é um país pequeno, desenvolvido, industrializado, mostra o país, aí eu fico muito orgulhosa porque todo mundo me chama de japonesinha, todo mundo me chama de Japão, então eu me identifico muito com o Japão e aí eu fiquei super orgulhosa. Depois ela mostrou o Brasil enorme, continental mas subdesenvolvido e tal e pobre, aí eu nesse dia eu voltei e fui falar com a minha avó, que é a descendente que veio, eu falei para ela assim, por que que veio para o Brasil? Porque hoje eu descobri que o Japão é rico e que se a minha avó tivesse ficado no Japão eu ia ter nascido no Japão, eu ia ser rica hoje, mas como ela veio para o Brasil, eu nasci no Brasil, eu sou pobre. Eu não entendia o contexto social, mas eu questionei ela sobre isso. Por que eu nasci no Brasil, por que eu tive que nascer pobre? Eu tenho cara de japonesa, nome de japonesa, era tudo para ter nascido no Japão, nesse período eu fiquei revoltada e aí ela falou assim olha, cada um nasce onde tem que nascer, só isso falou. Vai fazer sua lição de casa e aí eu fiquei com essa história, mas eu sempre pensei assim, eu vou voltar para o Japão. Eu nasci para ir para ser japonesa, eu nasci para ser rica, eu nasci para ser japonesa, aconteceu algum erro de percurso e eu vim parar no Brasil, mas eu vou voltar para o Japão e é isso que eu fiz, assim que eu tive a maioridade…

Luciano         Você arrumou um jeitinho, mas nós vamos chegar lá. Sua avó veio para cá antes ou depois da segunda guerra?

Tiemi             Antes.

Luciano         Eles vieram antes?

Tiemi             Antes. Meu pai nasce aqui no final da segunda guerra.

Luciano         Tem uma história, um belo dia quero conversar com algum pesquisador, fazer um programa sobre a consequência da segunda guerra. Os japoneses que moravam no Brasil tem umas histórias malucas. Mas vamos ali adiante, então você pega e começa a trabalhar com 15 anos com o seu pai, você já tinha… era isso que você queria fazer, já bateu… bom é legal, acho que vou entrar aqui, vou me tornar uma empreendedora com o meu pai, você tinha aquela ideia de que não eu vou cursar escola para ser professora, vou cursar para fazer alguma carreira ou alguma coisa assim?

Tiemi             Então, nesse momento com 15 anos eu estava entrando no colegial, a ideia era ajudar o meu pai naquela hora e o que eu ia fazer eu ainda estava descobrindo, não sabia direito ainda, sabia que tinha uma coisa de criatividade, coisas que eu gostava de criar, gostava de falar, mas ainda estava meio nebuloso, então ainda estava guardadinho, a história de ser professora, tinha guardado numa gaveta, porque não pareceu uma boa ideia e depois também eu fiquei mais ambiciosa, falei é, realmente acho que posso outras coisas e tal, então ficou guardadinha e aí o foco foi trabalhar com meu pai e aprender um pouquinho. Então eu ajudei ele desde a parte de desmontar motor e tal e ajudar ele e também na parte administrativa, fazer banco, (fazer banco é ótimo) fazer banco, atender telefone, essas outras coisas que eu fui fazendo, então a profissão ainda para mim não era uma….

Luciano         Mas e na hora de escolher a universidade? A faculdade?

Tiemi             Aí foi para comunicação, aí eu fui para comunicação, mas aí já acho que foi muito modinha, eu fui muito influenciada, naquela época, publicitário era uma pessoa muito bem vista, eram assim pessoas muito influentes ganhavam muito dinheiro, eram muito reconhecidas e estava uma onda muito forte nesse sentido aí, estou falando final de década de 80, 90, então publicitário era o “the best” e eu sonhei, eu falei assim nossa, que bacana, vou pensar em publicidade e aí muito disputado nessa época. Aí eu fiz cursinho e passei na Fundação Casper Libero e fiz o primeiro ano de faculdade, aí o primeiro ano de faculdade também foi outro impacto, outro mundo, outro mundo completamente diferente, que eu me dei conta, eu falei nossa, não sei nada do mundo, não sei nada do mundo, eu me senti uma jeca assim e depois que eu fiz o primeiro ano de faculdade, aí a minha irmã mais nova falou, quero ir para o Japão, quero trabalhar de dekassegui que é a oportunidade que gente tem de ir para o Japão, a gente queria ir para o Japão, trabalhar de dekassegui, para quem não sabe é trabalhar como operário e ganhar em dólar, para mim não tinha medo de trabalho pesado, queria ir conhecer o Japão, trabalhar, ia ganhar em dólar, então falei para a minha mãe, um ano eu vou para lá, vou trancar a faculdade e vou ver o que vai acontecer, aí ela falou você não precisa ir, mas se você quer ir…

Luciano         Vá.

Tiemi             … vá.

Luciano         Você tinha parentes lá?

Tiemi             Não, assim, não tinha parente assim, tinha pessoas que estavam… tinha tios que estavam trabalhando lá, eu não tinha um parente assim que falou ah pode vir aqui, eles estavam trabalhando como eu ia trabalhar.

Luciano         Que idade você tinha? 19?

Tiemi             19.

Luciano         Foi?

Tiemi             Fui. Aí que começa a história.

Luciano         Então vamos lá.

Tiemi             Aí eu fui.

Luciano         Sozinha ou foi com a sua irmã?

Tiemi             Fui e responsável da minha irmã de 17.

Luciano         Você e ela?

Tiemi             É. E aí nessa época os dekasseguis assim já não estavam no auge o movimento dekassegui que foi em 93 quando eu fui, mas ainda iam muitos e assim, eu estava sendo uma das primeiras mulheres solteiras, porque o movimento dekassegui começa só com homens, depois com casais e aí depois homens, sempre os homens, ou casados ou homens solteiros e aí começa uma leva de mulheres solteiras, isso era completamente inusitado, novo, então todo mundo tinha receio, tinha medo, a gente podia cair na Yacuza, podia cair na máfia, um monte de coisa podia acontecer, nós éramos muito novas.

Luciano         E aí acho que dá um nó na sua cabeça porque vocês descem as duas, vocês descem lá no Japão, você é parecida com eles, mas você também não é eles e você chega com rótulo de outra brasileira que veio aqui para ocupar um espaço e é recebida naquela sociedade bem ou vai como aquela casta diferente, como é que é?

Tiemi             Aí olha, aí que eu descobri o seguinte, eu queria tanto ir para o Japão porque eu achava o quê? Que eu era uma japonesa no Brasil, eu queria ir para o Japão porque eu falei gente, eu não me enquadro aqui, eu não sou brasileira, eu sou japonesa, eu tenho cara de japonesa, eu tenho nome de japonesa, eu sou do Japão, não sou daqui. Quando eu cheguei no Japão, aí eu fui descobrir o que era Japão de verdade, eu fui conviver com os japoneses, fui trabalhar nas fábricas japonesas, fui andar nas ruas, fui ver como funcionava, aí eu tive uma constatação, que aos 19 anos, eu vivi 19 anos da minha vida pensando que eu era uma japonesa, todo mundo falava que eu era japonesa, eu acreditava, você é brasileiro, eu sou japonesa. Cheguei no Japão e descobri que eu sou brasileira. Eu só consegui descobrir que eu era brasileira no Japão, porque o japonês é diferente e quando eu descobri a identidade, aí mudou tudo, Luciano, tudo, porque quando você vive uma vida pensando que você é uma coisa, com a ilusão de que você é uma coisa e aí depois você descobre que você é outra coisa, aí muda tudo e descobri que eu sou uma brasileira descendente de japoneses, olha a minha cabeça, antes eu achava que eu era uma japonesa.

Luciano         Onde é que pegou a coisa lá?

Tiemi             Eu não tive problema assim os primeiros dois anos eu não tive problema de preconceito porque eu fui numa cidadezinha onde não tinha brasileiros, só tinha eu de brasileira, fui muito bem recebida, como nós éramos meninas, éramos muito jovens, então os japoneses cuidaram da gente como se a gente fosse um bebê e a gente trabalhava, mas a gente foi muito bem cuidada lá, eu não tive esse problema. Aí em contrapartida eu aprendi muito com a cultura japonesa, porque eu entrei dentro dela, então eu me inseri, eu não fiquei vivendo como um gueto, eu fiquei morando, vivendo, trabalhando com eles, vivendo a cultura deles, isso foi muito rico para mim, essa parte toda. Aí no último ano eu volto, eu mudo para uma cidade e vou para uma comunidade onde tem mais brasileiros, onde já tinham muitos brasileiros trabalhando, aí eu senti o preconceito…

Luciano         É uma cidade grande que você foi?

Tiemi             … cidade grande, aí comecei a visitar algumas cidades grandes, conhecer outros lugares, aí eu comecei a sentir assim o preconceito de ser um estrangeiro e de eles perceberem a diferença de cultura, porque aí eu comecei a perceber mais e também perceber a comunidade já, como é que a comunidade brasileira fora, como é que se comporta e a gente recebe o legado, assim por exemplo, como eu recebo o legado dos meus avós, o japonês hoje tem um legado bom de trabalhador, de confiável, de sério, não é verdade? Só que eu nasci sem fazer absolutamente nada e eu já tenho esse legado, quando alguém olha para o japonês ele já imagina isso, por quê? Meus ancestrais, meus avós quando vieram…

Luciano         Fizeram o branding, eles construíram o branding e você ganha de presente esse branding.

Tiemi             Eu ganhei de presente e aí minha parte agora é fazer valer isso, acrescentar mais coisas para as minhas próximas gerações também nascerem com essa vantagem, mas primeiro eu preciso reconhecer, porque antes eu não reconhecia isso, eu achava que era normal essa tomada de consciência só veio depois e olha só, quando eu cheguei… e quando eu fui para uma grande cidade, onde tinham outros brasileiros, eu recebi um legado de brasileiro que nem sempre estava tão bom, porque já tinha brasileiro lá no Japão fazendo coisas que não eram boas, fazendo coisas que não …. e não eram bem vistas e eu cheguei, ah eu sou brasileira, então também recebi todo aquele estereótipo de brasileiro…

Luciano         Era essa pergunta que eu ia fazer para você, quando você fala do preconceito relacionado aos brasileiros lá, eu ia te perguntar, a pergunta não está boa, ela não está bem feita, mas acho que você vai compreender direitinho como é que é, de quem é a culpa desse preconceito? É de uma sociedade japonesa que tem um histórico complicado com relação a contato com outras culturas e tudo mais, tem história de invasão, então tem uma história complicada com japonese com relação a outras culturas, ou é culpa dos brasileiros que entram aquela cultura e começam a se comportar dentro daquele lugar como se fosse no Brasil, levam para lá o jeitinho, levam para lá o descompromisso, não respeitam a hierarquia japonesa, levam outro jeitão e se enfiam naquela … e começam a criar conflitos ali dentro. De quem é a culpa?

Tiemi             Acho que dos dois, dos dois. Não tem uma questão que é só de um ou de outro, a sociedade japonesa ela é rígida, ela tem os critérios e ela é menos flexível, não é aberta, ela, por exemplo, ela quer a mão de obra, mas não está aberta ao acolhimento, acolhimento é as pessoas não são só braços e pernas para trabalhar, elas têm coração…

Luciano         Uma japonesa escreveria um e-mail dizendo o dia que eu dei para o fulano de tal?

Tiemi             Acho que não, jamais.

Luciano         Acho ou não?

Tiemi             Não. É muito ousado.

Luciano         Isso é cultura brasileira.

Tiemi             Eu sou brasileira.

Luciano         Vou dar uma pausa aqui para a gente expressar um pouquinho mais isso aí. Eu trabalhei em empresa norte americana, viajei para os EUA, viajei para a Europa e tudo mais e você nota essa diferença de vibe que existe entre as pessoas… na relação homem mulher então o negócio é complicadíssimo, porque aqui no Brasil eu costumo dizer o seguinte, a brasileira, ela tem dentro dela essa sacanagem nata sabe, de olhar para você e falar uh que cabelo bonito e você ai, você gostou? Tem uma brincadeira que a gente faz aqui que faz parte desse sangue brasileiro que inclusive o pessoal está contestando muito isso agora, mas não vem ao caso, lá fora não é assim, lá fora é muito mais distante, tem uma separação muito grande, você tem um… eu não vou dizer para você que é um cuidado, mas há um abismo entre o homem e a mulher, você não tem essa, por exemplo, me dá um abraço, vem cá, não, você não pega. Dar um abraço num norte americano é um negócio esquisitíssimo, é cheio de ponta. O brasileiro quando a gente abraça é aquela coisa gostosa, o europeu, tem ponta, eles têm ponta, você vai abraçar não pega direito, eu não consigo nem imaginar como é um abraço de japonês, que deve ser uma coisa esquisita assim, não é?

Tiemi             O abraço de japonês é uma coisa, primeiro, muito rara, muito difícil, por exemplo, numa empresa, ah quanto tempo, vou te abraçar, ainda que a gente abrace, eles ficam muito desconfortáveis, eles não abraçam, eles ficam muito desconfortáveis, ás vezes é considerado até assédio o abraço, então eles falam, beijinho no rosto, abraço, pegar assim é assédio, você não pode fazer. E tem uma coisa que é um tipo de assédio que o brasileiro não se dá conta, nós somos muito visuais, então a gente olha nos olhos e fala… conversa e o japonês não tem um contato visual, ele tem um contato discreto e se você….

Luciano         Já me disseram isso, você não faça o contato visual.

Tiemi             … se você fizer contato visual é uma afronta e aí também eu não entendia isso, então as pessoas não gostavam de mim, falavam você é muito desafiadora. Eu falei mas o que eu fiz? Eu não fiz nada, eu não falei nada, eu não falei nada, mas eu olhei no olho do meu chefe, eu olhei… não pode olhar? Não, não pode, você olha assim muito discretamente, é uma outra cultura, que é mais sutil nessa parte, então… mas conforme a gente vai vendo, não é porque eles sentem menos, eu acho que o japonês sente muito, nossa, ele sente muito, tem um sentimento muito forte quando ele gosta ele gosta, quando ele está…. sabe aquela coisa muito intensa, mas a forma de demonstrar é que é diferente e isso causa um estranhamento que aí cada um interpreta de um jeito. Mas voltando àquele assunto, você fala ah mas ai… a sociedade japonesa e o brasileiro tal, eu acho que tem os dois, uma sociedade japonesa que é muito rígida e que não está aberto ao novo, tipo o meu que é o certo, o meu que é o correto e o do brasileiro que é assim aberto, tal e tem aquela coisa de levar vantagem, tem aquela coisa de tirar proveito e quando entra em contato com uma sociedade que é tudo certinho, tem uma outra coisa, tem gente que vai aproveitar mesmo e aproveita porque fala ah, não vai acontecer nada, está dando bobeira, eles estão dando bobeira e aí a coisa vai e aí a gente chega  já recebe esse legado dos que aproveitaram e tudo mais que não entende o impacto disso, por isso que eu falo, tudo o que a gente faz hoje vai causar um impacto, é preciso ter essa consciência, porque às vezes ah, vou levar uma vantagem agora, tipo ah o cara deu bobeira, deixou o celular ali, azar o dele, só que aquilo vai ter um impacto, vai ter um impacto na tua vida, vai ter um impacto em toda a descendência, vai ter um impacto para um país inteiro.

Luciano         É a consciência do coletivo, que eles têm isso. Eu fiz aqui uma entrevista, um tempo atrás, com a Fernanda, que é da IBM e ela viveu uma época na Finlândia se eu não me engano e ela contando que ela andando na rua não viu que o sapato dela estava desamarrado e aí um senhor veio para ela, escuta, você precisa amarrar teu sapato, você não pode andar com o sapato desamarrado assim. Quando ela conta essa história, a primeira reação nossa é falar puxa, o cara falou isso porque ele está preocupado com a segurança dela, quando na verdade ele falou isso porque se ela cair, ela vai ocupar o espaço no serviço público, vai gastar e vai causar um impacto para a sociedade, ele não está pensando nela como indivíduo, está pensando no coletivo, então essa tua irresponsabilidade de caminhar com o cadarço solto, vai causar um impacto no coletivo e não com ela como indivíduo. E essas coisas para nós brasileiros é muito difícil de assimilar, porque a gente não tem essa pensamento, nós não pensamos em coletivo, eu jogo o papel no chão e dane-se, entendeu? Eu não estou pensando que eu e mais cem jogando papel no chão, aquilo vai virar uma imundície, a gente não consegue pensar assim, por isso quando vem aqui aqueles grandes eventos, Copa do Mundo, jogo do Japão, vai aparecer no Fantástico, terminou o jogo os japoneses com seu saquinho recolhendo todo o lixo e quando eles saem o local está impecável e a gente olha para aquilo e fala meu, isso aqui no Brasil é impensável, são essas duas visões totalmente distintas, não é?

Tiemi             É, imagina quando eu decido voltar para o Brasil e é isso que deu na minha cabeça.

Luciano         Porque aí você volta com características de lá.

Tiemi             Então e rola o terremoto.

Luciano         Ah, você estava lá?

Tiemi             É…

Luciano         Quando deu aquele terremoto?

Tiemi             … terremoto em 95, de Kobi. Porque até agora a história é só aventura, ah foi lá, descobriu coisa, mas o grande negócio foi sobreviver ao terremoto.

Luciano         E aí? Conta essa história.

Tiemi             Porque no Brasil não tem terremoto, só que terremoto é assim, de repente começa a mexer tudo, de repente cai os prédios, de repente cai tudo. Você perde casa, perde trabalho, perde amigo, perde a vida, perde tudo, acabou, assim ninguém tem culpa, nada, acontece.

Luciano         Você está ouvindo a gente aí, você que é brasileiro não faz ideia, quando a gente fala de terremoto é aquele que a gente viu na televisão, eu vivi um pedacinho de um terremoto bem fraquinho no Chile, eu estava no aeroporto para embarcar e de repente eu estou dentro de uma loja de presentes e começa a balançar as coisas na loja e eu não consegui entender nada daquilo, da onde vem esse vento? E o cérebro da gente não consegue processar que aquilo lá está balançando porque o chão está balançando e cai uma consciência que tudo virou líquido, você está em cima de um negócio que é líquido, não é mais essa plataforma que eu estou em pé aqui, não, ela não é mais uma plataforma em pé, ela não está dura, aquilo está tudo chacoalhando, as meninas chilenas já sacando o que era ficaram apavoradas, já saíram correndo e o brasileirão lá dentro de boca aberta, ué, essas coisas tudo chacoalhando, era um terremoto que estava começando ali, foi muito fraquinho, não consegui sentir a sequência, mas já deu para ter uma ideia, até a gente conseguir entender o que está acontecendo aqui que o chão agora não é mais firme, é um nó na cabeça da gente e eu imagino. Me conta a história, me conta como foi, vocês estão dormindo? O que acontece?

Tiemi             É, foi de madrugada, estava dormindo e lá tem muito taifu, que são furacões, então falei nossa, o furacão está forte, porque estava mexendo… estava batendo as portas do guarda roupa, só que as portas do guarda roupa começaram a abrir, começou a cair tudo, aí o pessoal começou a gritar, morava em alojamento, o pessoal começou a gritar terremoto e descer correndo e é o tempo de a gente descer com passaporte e tal e ali onde eu fiquei especificamente não caiu, não foi afetado, no dia seguinte a gente foi trabalhar, as aí começou a vir ligação do Brasil, foi aí que a gente viu o que tinha acontecido ali ao redor da gente. Tinha ido trabalhar, a gente sabia que tinha chegado um terremoto e foi trabalhar e aí quando foi meio dia a gente viu, pela televisão, assim a dimensão daquilo, aí caiu a ficha aí eu estava com 22 anos, já estava lá há três anos, eu fui para ficar um, já estava há três.

Luciano         Que cidade você estava?

Tiemi             Estava em Kobi.

Luciano         Ah, você estava em Kobi, você estava na cidade do terremoto.

Tiemi             Estava bem próximo ali, estava bem próxima de Kobi. Aí eu falei assim caramba, era para morrer né? Era para morrer. Assim, de tão longe… no Brasil e tal, no Japão, no ano errado, no terremoto errado, na cidade errada, mas eu não morri. Falei assim nossa, eu vou morrer com 22 anos, longe da minha família, fazendo um trabalho que eu odiava, eu odiava trabalhar de operária ali, porque eu queria ser rica, então achava que… e aí a minha vida mudou completamente assim, eu comecei a pensar na vida de uma forma diferente, porque a única coisa que restou ali daquilo foi a vida, o resto perdi tudo e aí eu falei assim… aí aquela palavra que eu escutava do meu avô desde pequenininha, que era mottainai, quando ele falava desperdício, eu entendia que eu estava desperdiçando a minha vida ali, tipo se eu morresse ali aos 22 anos, não tinha feito nada da minha vida, eu tinha largado a minha família, tinha largado meu país, eu pensava que eu era uma coisa que eu descobri que eu não era, eu fui atrás de dinheiro porque eu achei que eu era pobre, então sabe, tudo voltou na minha cabeça e aí eu falei ó, eu entendi que mottainai na verdade não é desperdício só, motai significa digno, e nai é não, então quando o japonês fala assim mottainai, ele está falando você não está sendo digno e para mim era como se meu avô estivesse falando mottainai para mim, você não está sendo digna da sua vida e aí eu falei ó, vou pegar tudo o que eu aprendi aqui no Japão, vou pegar toda essa minha experiência e eu vou voltar para o Brasil e eu vou disseminar esse conceito sobre desperdício, por isso que eu falei que eu sou uma caçadora de desperdício.

Luciano         Que idade você tinha?

Tiemi             22.

Luciano         22 anos.

Tiemi             É. Não estava tão claro como eu tenho hoje, aí eu volto e determinada a fazer valer a minha vida.

Luciano         Mas assim, você voltou depois do terremoto, deu o terremoto você falou aqui não dá.

Tiemi             Deu o terremoto, deu mais um tempo, aí eu volto porque depois que acontece o terremoto, durante meses a terra continua tremendo e esse stress é você tremeu, isso aqui é o fim ou é o começo? E isso você não consegue mais comer, não consegue dormir, você fica com essa neurose direto, eu não sei como os japoneses conseguem conviver com isso, mas o brasileiro, o trauma é tão grande que a gente, qualquer tremidinha o coração dispara, não tem condições de viver e aí eu tenho a clareza de que eu preciso voltar. Aí eu volto e vou decidir valer a minha vida a partir daquilo, assim, ser digna da minha vida, todos os dias eu pergunto assim: eu fui digna da minha vida hoje?

Luciano         Você tinha se formado em quê?

Tiemi             Não tinha me formado ainda.

Luciano         Ah, você não chegou a fazer…

Tiemi             Eu só tinha feito o primeiro ano de comunicação.

Luciano         Ah é verdade, você falou, você parou e você foi para lá.

Tiemi             Fui. Aí quando eu volto o que eu decido? Continuar a faculdade, me formar em comunicação social.

Luciano         Quando tempo você ficou no Japão?

Tiemi             Três anos. Quando eu voltei a minha turma do primeiro ano já estava se formando, aí eu voltei, fui fazer um ano de cursinho de novo e consegui retomar a mesma faculdade e me formo. Só que essa coisa de….. eu quero levar para as pessoas o que eu aprendi, então uma forma que eu tinha era aprender comunicação, então eu já estava ali na comunicação, porque eu entendi também que a transformação social vem por meio da comunicação, você sabe que o trabalho que você está fazendo é transformação social, por quê? Comunicação. É através da comunicação que isso acontece, então eu tinha essa senha comigo, precisava estudar a respeito disso. Aí eu fui estudar comunicação social, me formo, só que aí todo mundo queria ir para agência, eu não quis ir para agência, eu fui para ONG, terceiro setor, porque eu achei que era o lugar que mais precisava de comunicação, só que aí no terceiro setor, eu em vez de ensinar alguma coisa de comunicação não ensinei nada, mas eu aprendi. Aprendi muito. Engajamento, liderança, liderança comunitária, a parte de comunicação, de sabe da causa, do propósito, do que estamos falando hoje, tudo isso é o que eu vivi há 20 anos em organização não governamental.

Luciano         E a menina que queria ser rica, o que aconteceu com ela?

Tiemi             A menina que queria ser rica descobriu que já era rica, nunca fui pobre. Porque eu descobri que a riqueza não estava no dinheiro que eu ia juntar, a riqueza estava em reconhecer aquilo que eu já  tinha como riqueza.

Luciano         Com 22 anos?

Tiemi             Ainda não, não com toda essa clareza. Eu estou te contando a história já resumida, dessa história para lá, 22 anos, são 22 anos para cá, agora, que eu estou com 44, então aos 44 eu tenho essas informações com mais clareza, eu fui atrás para ser rica porque eu achava que era pobre, hoje eu sei que eu nunca fui pobre, eu sempre tive, porque assim, o fato de ter nascido no Brasil, de ser descendente, essa é a minha riqueza, isso é o que eu tenho de diferente, de único, eu preciso fazer valer isto.

Luciano         Mas isso não compra um iPhone10.

Tiemi             Aí que… isso não compra o iPhone10, é a partir disso é a matéria prima para eu fazer alguma coisa que tenha valor, que seja relevante e que seja remunerado, olha o caminho que eu tive que fazer, mas ele, a partir do entendimento de que eu já tenho os recursos, de que eu tenho que eu já tenho, não que ah que eu preciso do dinheiro para conseguir. Quando eu falo de desperdício, as pessoas vão muito atrás das coisas que elas não têm, do dinheiro, do iPhone10 e tudo mais e tal, porque eu preciso do dinheiro. Quais são as coisas que você está desperdiçando hoje, se você não reconhece o que você tem hoje, os recursos que você tem hoje, já está desperdiçando, eu acho que essa minha caminhada depois que eu volto para o Brasil determinada a não desperdiçar, esses 22 anos, últimos 22 anos é uma investigação diária dos desperdícios, dos meus desperdícios, de tudo o que eu estou desperdiçando e à medida que eu vou descobrindo os desperdícios, aproveitando, sendo digna desse recurso que eu não estava usando, aí a minha vida vai se transformando e eu vou conseguindo também sensibilizar as outras pessoas nesse mesmo sentido, aí a minha vida começa a se tornar…

Luciano         Você…. como é que é… mottainai?

Tiemi             Mottainai.

Luciano         Mottainai.

Tiemi             É com dois T’s. Mottainai.

Luciano         Mottainai. Quando você pegou esse conceito lá, você entendeu que isso era uma forma de ver o mundo, era uma visão de mundo.

Tiemi             É uma visão de mundo.

Luciano         Você foi procurar, se aprofundar nisso? Você foi estudar? Tem um curso de mottainai?

Tiemi             Não.

Luciano         Existe uma forma de você… como é que é isso?

Tiemi             Não tem, tanto que eu acabei de voltar do Japão agora e os japoneses ficaram muito impressionados com o meu mottainai, porque ele falou para a gente isso é novo, porque é uma construção que você fez, a partir da sua experiência, então é uma coisa autêntica sua e que está agregando valor, então eles se interessaram pela forma que eu apresento o mottainai e a forma com que eu consigo sensibilizar as pessoas, então não é ah, você foi estudar o mottainai, não, essa visão de mundo, ela vem dessa minha experiência e de um conceito antigo que é do budismo mesmo, do mottainai, quando fala ser digno das coisas, vem do budismo isso, mas de como eu trouxe isso para a minha vida e como eu pratiquei, ele é aqui, eu fui lá atrás, catar uma coisa antiga, mas eu uso ele hoje no presente e é assim que eu consigo agregar valor para a vida das pessoas e a minha ideia foi assim, o Japão é um país que aprendeu, desenvolveu muitas coisas porque é um país muito escasso, eu fui agora sobre qualidade, por que tudo lá tem que ser qualidade? Porque eles têm poucos recursos.

Luciano         Até comida, comida japonesa que eu amo, quando você vai ver a história dela, por que tem um arrozinho com um peixinho em cima? Alguém descobriu? Não, é porque o arroz ajuda o peixe a durar um pouco mais, não tem geladeira, então descobre-se, coloca um em cima do outro  e vira culinária japonesa a partir da escassez, não é?

Tiemi             Tanto a wassabi que é aquele verdinho também, que é para ajudar, porque você está comendo uma coisa crua, se tem alguma bactéria ou alguma coisa, então aquilo é um antisséptico, então assim, tudo é pensado e a qualidade está ligada à qualidade do pensamento japonês, isso foi o que eu aprendi lá, como eles sempre tiveram muitos poucos recursos, então eles não podiam desperdiçar, tinha que fazer o melhor com aquilo.

Luciano         Deixa eu dar um insight para você legal, outro dia estava tendo… eu não me lembro se foi u, texto ou se foi numa palestra que alguém estava comentando comigo e eu acho que foi alguém que viajou ou viu um filme, foi uma coisa assim, e o pessoal comentando que passou numa feira chinesa, coreana, não me lembro o que era e tinha lá espeto com lagartixa, com todo tipo de bicho, barata e os caras comendo aquilo, eu tinha pavor, como é que alguém consegue comer um escorpião? Eu estava comentando com ele, você não consegue, a menos que você tenha passado fome, você não consegue entender esse espeto com escorpião e aí você está numa cultura que não só passou fome como milhões e milhões morreram de fome e na hora que você está morrendo de fome você come sola de sapato e não vai discutir isso aí, então passa a ser parte da cultura, escorpião não chegou ali do lado porque um louco estava querendo comer aquilo.

Tiemi             Então, isso foi…. esse que foi o meu insight também, o Japão aprendeu a dar valor às coisas porque teve que sobreviver à escassez, de tudo, vamos falar, de terra, de material, dos materiais que eles têm de matéria prima, de tudo, então eles tiveram que…. de espaço, os carros lá no Japão, ou os eletrodomésticos tem que ser tudo pequenininho, não pode ser grandão igual ao nosso, por quê? Porque eles não têm espaço, só que eles precisam ter as coisas compactas, eficientes, porque aquele negócio tem que funcionar, porque está gastando, consumindo matéria prima que é valiosíssima, está consumindo mão de obra que é caríssima, está consumindo… você entendeu? Está consumindo, então fazem tudo isso para fazer um negócio com defeito? É um desperdício. Agora, toda essa inteligência, quando a gente aprende isso e aplica no Brasil, que tem uma abundância, que tem espaço, uau, então assim, a gente vai eliminar muito desperdício e o Brasil é um país que desperdiça muito porque não tem esse histórico aí como desses países, como China, Japão, foi nisso que eu me concentrei e falei: eu vou voltar para o Brasil porque eu posso acrescentar isso no Brasil e aí fazer valer também o que a minha avó tinha falado: Tiemi, cada um nasce onde tem que nascer. Eu falei quem pode trazer isso para o Brasil? Alguém que fale a mesma língua do brasileiro, porque quando eu falo isso para o japonês, o japonês fala assim, nunca parei para pensar nisso. Por que ele nunca parou para pensar?

Luciano         É a cultura dele, é assim.

Tiemy            É a cultura dele, agora quem traduz a cultura dele? Eu consegui traduzir essa cultura e eu consegui traduzir porque eu entendi e consigo traduzir para o brasileiro de uma forma que ele entenda e que ele absorva e sinta o desejo de praticar. Aí se eu não tivesse nascido no Brasil, isso não rolava, não conseguia, então esse é o grande achado e quando eu entendi isso, aí eu falei ok, eu não preciso correr atrás de certificação, de gente falando não, você não estudou para falar de mottainai. Não, eu não precisei, eu estudei muito mas eu tenho todos esses atributos…

Luciano         É o que o Stevie Jobs chama de amarrar as pontas, você vai vivendo a tua vida e de repente lá na frente você começa a amarrar as pontas, só consegui isso porque um dia lá atrás eu tomei uma decisão que me levou para um caminho e agora eu estou aqui por causa daquela decisão, eu tinha um atributo que eu nunca prestei atenção nele e que agora me resolve o assunto.

Tiemy            É. E quando eu começo a falar assim, ah então vou fazer palestras para falar o que é mottainai para as empresas, para as pessoas, aí começa um outro jogo, olha a história. Vou lá, sou uma palestrante, faço isso. Aí nada, não, não, não… até que um dia um tem coragem de falar: você sabe porque eu não vou te contratar? Um teve coragem de me dar o feedback, falei por quê? Então, a sua palestra é sobre sustentabilidade, que eu falo mottainai, sustentabilidade, olha quantos palestrantes de sustentabilidade eu tenho, olha o currículo deles, eles têm mestrado, tem MBA, foram CEO’s de tantas empresas, enfim. Você não tem nada disso, você é mulher, palestrante homem tem mais credibilidade. Aí ele falou tudo o que eu não tinha. Aí eu voltei para casa assim triste, falei puxa vida, eu quero fazer uma coisa, mas eu tenho uma barreira aqui que eu não tenho tempo, a essa altura do campeonato, não vou ter tempo assim e a informação que eu tenho ela tem pressa, as pessoas estão desperdiçando muito, as empresas estão desperdiçando muito, eu posso mudar isso. Bom, aí eu falei Tiemi para, não pense que você não tem, pensa o que você tem, não é essa a minha filosofia? Você está desperdiçando seus recursos. Ok. Ele falou uma verdade, eu sou mulher, eu sou jovem, eu sou descendente de japoneses, eu sou contadora de histórias, eu me visto de japonesa de quimono e tudo mais. É, é isso, eu vou usar o que eu tenho…

Luciano         Essa sacada você não tinha tido ainda de vestir de japonesa, o quimono.

Tiemi             … não, eu queria me apresentar como palestrante como todo mundo, vai de taierzinho, eu queria assim.

Luciano         Então dá um break aqui, deixa eu investigar isso um pouquinho. Você lá no Japão com 19 anos, garota, 20 anos etc. e tal tem contato com o aspecto que é fascinante da cultura japonesa que é essa coisa da gueisha, da mulher japonesa que quem olha hoje sentado em cima dessa cultura nova que está pintando por aí, olha para aquilo e fala que horror, os caras pintam mulher, mulher é submissa, japonês come a mulher, faz o que quiser com a mulher, aquela coisa… dá a impressão que é um negócio fora demodê, etc. e tal, mas aquilo é um símbolo, é um símbolo que faz parte da cultura japonesa e que a hora que você tromba com aquilo, o que você enxerga ali? Você de repente chega num lugar, vê uma moça com a cara pintada de branco, com uma roupa esquisita, com um sapatinho que parece que ela vai cair do sapatinho, com jeitinho de se mexer que é todo… parece que é uma bonequinha. Quando você olhou aquilo o que você pensou que estava acontecendo, era um teatro? O que era aquilo para você? Quando você tromba com aquilo? Até então você tinha visto uma boneca na sua casa, uma bonequinha gueisha.

Tiemi             Não, na verdade você não vê quando você vai para Kioto, você vê algumas andando pelas ruas, algumas gueishas andando pelas ruas e as mulheres, algumas mulheres também usam o quimono, não são gueishas, usam o quimono, quando casam também usam o quimono, mas é uma coisa, primeiro muito cara, para a sociedade contemporânea japonesa é uma coisa muito cara e que eles já não usam muito e tem a escola das gueishas que formam as gueishas, que são as meninas que querem ser. Mas aí eu queria te falar um pouquinho sobre as gueishas. Estudando, depois que eu volto, tal e aí eu vou pesquisar bastante sobre as gueishas e porque fica essa coisa, gueisha é como se fosse uma prostituta de luxo, tal. E na verdade a gueisha, ela representa a guardiã da cultura japonesa, ela dedica a vida para poder se especializar nas artes da escrita, da dança, do tocar um instrumento e a arte de anfitriar e a arte de anfitriar, por quê? Porque elas trabalhavam nas casas de chás e recebiam só os homens mais poderosos do Japão, serviam chá para ele e esses homens conversavam sobre estratégias, conversavam sobre negócios, conversavam com elas e conversavam com os outros homens que também se reuniam, ou seja, as gueishas, na verdade, além de deter todo essa parte cultural da beleza, da arte do Japão, ela também era uma grande estrategista, porque ela convivia só com os grandes estrategistas, então o que assim, ela tinha a visão de várias situações, de várias coisas, ela também falava a respeito, porque ela estudava, então falava a respeito e aí tem uma outra visão de gueisha, que as pessoas geralmente não compreendem ou não enxergam e eu me apeguei mais a isso, essa questão dessa…. mas na época… lá, quando eu fiquei três anos no Japão, eu não tinha pensado nisso, essa estratégia veio só depois no Brasil, quando eu pensei que eu poderia me diferenciar com alguma coisa que fosse autêntica, que assim, quando a gente inventa lá uma coisa, não é, Luciano? Precisa sustentar depois, se você falar vou fazer e não consegue sustentar aquilo, é desperdício, então eu precisava ter um diferencial que fosse meu, que me sustentasse.

Luciano         Volta na gueisha. Posso usar minha ignorância aqui e especular? Porque agora você tocou num assunto que eu vejo de longe e fico fascinado com aquilo, eu quero saber mais, você sabe, vai me responder aqui.

Tiemi             Não sei se eu sei.

Luciano         Não, você vai saber sim. Uma gueisha tem que ser culta?

Tiemi             Estuda muito.

Luciano         Tem que ser bonita e gostosa?

Tiemi             A beleza ali… não sou especialista dessa parte, mas a beleza sim, ela é um atributo.

Luciano         A gueisha, ela… quando você falou que tem uma escola de gueisha. A pessoa se forma gueisha?

Tiemi             Sim.

Luciano         Eu vou cursar um curso de X tempo e vou tirar um diploma, um certificado de gueisha.

Tiemi             Eles estudam, tanto que eles começam cedo porque é uma… tem toda a parte dos…. de tudo o que ela precisa aprender, das artes, principalmente das artes.

Luciano         Você fez o comentário aí que muita gente que está ouvindo a gente aqui não sabe, quando você falou assim, servir chá e a gente imagina que alguém chega com um pratinho e uma xicrinha e põe o chá dentro.

Tiemi             Não, tem a cerimônia.

Luciano         É uma cerimônia, um negócio… é super bonito inclusive. Mas muito bem, a menina se forma… com que idade você vai estudar para ser gueisha?

Tiemi             Não, eu não estudei para ser gueisha.

Luciano         Não você, eu digo assim, uma pessoa que quer ser gueisha tem um limite, fala não posso estudar para ser gueisha com 40 anos de idade, tem que ter 15, 16?

Tiemi             Olha, você está fazendo pergunta que eu não sei, não posso falar bobagem, o que eu andei pesquisando sim, as pessoas se candidatam para poder estudar isso e eu soube que tem pessoas inclusive estrangeiros já adultos e tal, porque começam bem jovens as meninas, mas que querem aprender a arte, essa arte, principalmente a arte de anfitriar e aí falando ah, você estudou para isso, não, gente, eu não estudei, eu simplesmente uso esse arquétipo nas minhas palestras porque é uma forma que encontrei de me diferenciar, então eu tive que estudar.

Luciano         Deixa eu… mais uma pergunta…

Tiemi             Eu estudei aqui no Brasil.

Luciano         … a menina faz o curso de gueisha e um belo dia ela pega um certificado de gueisha, ela chega em casa e fala assim mãe, agora eu sou gueisha. E ela vai fazer o quê?

Tiemi             Não, ela vai se dedicar a essa vida lá.

Luciano         Sim, mas ela vai no escritório: tem um emprego de gueisha para mim? Onde ela vai parar?

Tiemi             Não… ela vai trabalhar nas casas de chá no Japão, em Kyoto, vai trabalhar com isso, é a profissão dela.

Luciano         Quer dizer, são núcleos onde tem… eu sou rico, eu não tenho uma gueisha na minha casa, como a gente vê nos filmes lá, tem o poderoso, ele tem a gueisha que atende ele, não tem uma gueisha prestando um…. não é uma enfermeira, não é como se fosse uma enfermeira que você contrata e traz. Não, quando você…

Tiemi             Não, você te que ir num lugar ser aceito, aí tem todo uma outra coisa nesse sentido, não é que a pessoa vai trabalhar disso de forma autônoma não, tem toda uma arte e assim, é muito sério, porque vamos falar, a gueisha é a guardiã da cultura japonesa, é que depois de desfigurou, virou um monte de coisa, aí banalizou, ai cada um fala uma coisa, mas na verdade ela tem essa coisa de ser a guardiã da cultura japonesa, de guardar isso, então por isso que muitos anos de estudo da dança, da caligrafia, da arte de anfitriar, estuda todas aquelas coisas lá.

Luciao           E aí você olha o teu conteúdo que tem a ver com uma visão de mundo japonesa e olha para a forma e fala espera, se eu pegar esse conteúdo que eu já tenho aqui e usar uma forma…

Tiemi             Inusitada.

Luciano         … inusitada para passar, isso aqui vai marcar e é quando surge a ideia de eu vou fazer…

Tiemi             Vestida de japonesa, de gueisha.

Luciano         De gueisha.

Tiemi             É, vestida de gueisha. Aí começou assim, aí eu tinha um… aí quando eu me dei conta disso, eu falei agora eu preciso estudar, agora eu estou no Brasil, que aqui não tem escola de gueisha, não tem escola…. como é que vai ser. Ai que foi bem bacana, eu fui buscar nas imigrantes japonesas de 80, 90 anos que tinham trazido do Japão aqueles quimonos, que sabiam a arte da dança, mas elas já estão velhinhas, estão ali, esquecidas tal, eu fu atrás delas, contei a minha história, falei me ensina? Me ensina vestir um quimono? Me ensina dançar? Me ensina a andar com esse sapato? Me ensina caminhar? E elas ficaram emocionadas assim com meu pedido e falaram sim, mas primeiro perguntaram por que você quer aprender isso? Aí eu disse porque eu quero disseminar uma coisa muito importante da cultura japonesa que vai agregar aqui no Brasil, eles não prestam atenção em mim, mas se eu estiver vestida assim eu vou ser reconhecida, só que eu preciso aprender, então quando elas entenderam, eu tenho umas quatro, cinco mestras, cada uma numa área e aí elas se prontificaram a me ajudar e aí eu fui aprendendo, então eu aprendi assim, eu não fui na escola no Japão, mas eu aprendi aqui no Brasil com as mestras aqui no Brasil, quando eu levei essa história, quando eu não tinha um quimono, falei assim eu não tenho um quimono, até consegui comprar um quimono de seda, os que eu uso são de seda pintados à mão e são super antigos, eu recebo doação. Então elas vem e falam assim, olha, é da minha família, você vai poder usar de forma, você vai fazer valer esse quimono, porque eu não uso ele, mas você está fazendo valer esse quimono, então eu recebo muito apoio deles e aí começa, assim, aprendizado, eu estudando, aprendendo e tudo mais para poder apresentar um trabalho de qualidade. Não podia ser uma coisa ah, caricata. Eu queria apresentar uma coisa de qualidade, então tive que ir atrás dessa qualidade, fui na fonte, na fonte mesmo, até um japonês falou, o japonês não tem acesso a essas informações, porque é uma coisa muito cara, um curso desse é caríssimo, como você teve? Eu falei porque eu busquei nos ancestrais que estão vivos ainda no Brasil e eles me ensinaram e o que eu sei assim, é uma…não é uma caricatura, não é assim ah é perfeita, exata, ele é o mais próximo, é uma versão contemporânea da japonesa, aí começou a surtir efeito no sentido de, primeiro, o interesse aqui no Brasil, as pessoas começaram a se interessar, porque eu falo ah, faço uma palestra, falo sobre desperdício. A pessoa fala ah desperdício, mas eu já sei o que é, já tem um monte. Eu falei então, só que eu me apresento de gueisha. Aí eles falam como assim? Eu falo ah por causa disso… e aí para os eventos causa um impacto muito grande isso e na verdade eu sei, quanto mais pessoas eu impactar com o mottainai, menos o Brasil vai desperdiçar, porque a consciência de é de fora para dentro, é de dentro para fora, a pessoa fala puxa vida, agora eu estou percebendo que eu desperdiço muita coisa na minha vida e aí a partir do momento que eu me dou conta que eu estou desperdiçando eu já começo a eliminar o desperdício, a gente não desperdiça porque a gente quer, a gente desperdiça porque a gente não percebe e ás vezes como pode um bate papo, uma história que a gente escuta, aquilo muda a tua visão, então isso é o poder da comunicação.

Luciano         Você vê que interessante, você está trazendo essa visão num momento em que o mundo inteiro discute que nós não vivemos mais a economia da escassez e vivemos a economia do tem de tudo, tudo sobra, tudo tem, está tudo aí na mão, então pare de pensar a escassez, pense…

Tiemi             Na abundância.

Luciano         … na abundância, tem aí o livro, “Economia da Abundância” etc. e tal e na área da internet então esse é o tema da hora, quer dizer, trabalhe pensando na abundância e não pensando na escassez, isso faz uma visão, muda etc. e tal. Dá para entender o porquê, é porque eu não estou mais lidando com tijolo, não estou mais lidando com madeira, com mesa, eu estou lidando com bites na internet que eu aperto um botão e se um cara ou um milhão de caras vão receber não faz a menor diferença do ponto de vista de ocupar espaço, usar matéria prima etc. e tal porque é um bite que está ali dentro, então isso trouxe…. mudou o conceito completamente. Hoje quando um sujeito compra um e-book meu, não tem mais correio, não tem papel, não tem livro, não tem tinta, não tem nada, é um bite que vai até ele lá, isso muda esse pensamento, então estamos pensando não mais em escassez, pensando em abundância e você vem com uma conversa que diz o seguinte, cuidado com a abundância porque ela leva ao desperdício, não é?

Tiemi             Sim.

Luciano         E sua base é pensar a escassez, vem de uma cultura…

Tiemi             Não de escassez, mas de ser digno daquilo que eu tenho, eu parto de outro princípio, eu não falo assim olha, usa direito porque está acabando, eu não falo isso, eu falo assim a água, vamos pensar no valor da água, qual o valor da água para a nossa vida? Sem água não dá para viver, você já passou sede? Já viu como é difícil não ter água, quando acabou a água em São Paulo, aquela dificuldade? É, a agua tem valor, então, a gente já tem o primeiro item do mottainai, a água tem muito valor. Segundo, cadeia, qual o percurso que a água fez até chegar aqui? Nasceu em algum lugar, foi coletada, foi transportada, armazenada, envasada, transportada de novo, comercializada, enfim, todo esse trabalho para chegar aqui, é um caminho, trabalho de milhares de pessoas, de processos, engenharia, enfim, muito trabalho para essa água chegar aqui na sua mão, para ela cumprir o único objetivo dela, que é matar a sua sede e quando ela não cumpre seu objetivo, quando ela vai para o ralo sem cumprir esse objetivo e a gente não fez nada para que ela cumprisse, foi negligente, a gente está fazendo desperdício, está praticando uma coisa que é não ser digno dessa água, então eu reconheço o valor, reconheço a cadeia e tenho sentimento de gratidão porque eu estou tendo acesso à água tem muita gente no planeta não tem acesso, mas eu estou tendo acesso à água agora, estou tendo acesso à companhia, à presença, à sua atenção, então isso para mim é muito valioso, eu sou muito grata. Como eu vou demonstrar minha gratidão de uma forma concreta? Não é falando obrigada, é não desperdiçando, isso aqui é tão valioso para mim que eu vou tomar até a última gota, a sua atenção é tão valiosa para mim que eu vou entregar o meu melhor, eu não vou ficar te enrolando, sabe? Então a partir deste olhar, então ele é o desperdício não focado na escassez, mas focado em ser digno daquilo que eu tenho e quando a gente começa a pensar eu quero ser digna de todas as coisas que eu tenho hoje, no mínimo começar por aí, aí a vida já começa a se transformar plenamente. Atenção, por exemplo, hoje em dia as pessoas…. o que vale mais, o que tem mais valor? Conseguir a atenção das pessoas, então para conseguir a atenção das pessoas a gente realmente tem que ter alguma coisa que possa agregar.

Luciano         Eu tenho uma fixação no meu trabalho que é preservar um recurso que agora você está me dando um insight aí que eu não tinha sacado por esse ponto de vista que é respeitar um recurso que é único, que a gente não pode repor que é o tempo e eu bato muito nessa tecla, eu faço programa atrás do outro falando de tempo, curta seu tempo, respeite seu tempo, gaste bem o seu tempo porque o tempo não é a hora do relógio, o tempo é vida, quando você joga fora 15 minutos de tempo, você está jogando fora 15 minutos de vida e agora você me deu um insight interessante, quer dizer, você não tem que tratar bem do teu tempo porque você vai gastar e ele vai acabar, é porque você tem que respeitar o tempo que te resta, que é uma visão diferenciada e que tem a ver.

Tiemi             Respeito ao tempo.

Luciano         Respeito ao tempo.

Tiemi             E aí eu vou voltar no começo da conversa, quando você fala Tiemi você mandou um e-mail para mim, porque eu dei para o Luciano Pires e dentro daquele e-mail eu falei uma coisa importante, eu assinei o Café Brasil Premium porque você respeita o meu tempo, eu não sei se você lembra, eu coloquei essa frase, você respeita o meu tempo e aí eu quero falar aqui uma coisa muito importante para a gente pensar, se o tempo é uma coisa tão valiosa, então uma pessoa que respeita o meu tempo, para mim também tem o valor, quando você tem os conteúdos que você tem, que são incríveis e você grava em podcast e você libera as entrevistas do LíderCast estão gravadas e disponibiliza que eu vou escutar a hora que eu quiser, a hora que eu puder, onde eu estiver, você está respeitando o meu tempo, porque assim, essa coisa que a gente fala nossa, vamos marcar uma reunião, vai ter um congresso, vai ter um seminário, vai ser tal dia, tal horário, todo mundo junto, às vezes a gente interessa muito, mas assim, não vai falar.

Luciano         Eu não posso ir.

Tiemi             Eu não posso ir e agora se você só disponibilizou só vai ter quem vier pessoalmente, aí ok, as pessoas que puderam foram, mas não respeitou o meu tempo, eu tenho interesse, mas não respeitou o meu tempo e hoje o meu…

Luciano         Ou um programa de televisão que vai ao ar no dia tal, a tal hora e se você não estiver ali na frente da televisão, você não vai conseguir ver porque ele vai no tempo dele, o rádio vai no tempo dele e essa é a grande sacada do podcast, que a gente costuma bater nessa tecla, é que a gente inverte essa relação de poder, então o poder não é meu que ponho a coisa no ar, o poder é teu que escolhe a hora que você vai querer ouvir.

Tiemi             A tua parte é dar o acesso.

Luciano         Produzo…

Tiemi             E deu o acesso.

Luciano         … e dou acesso.

Tiemi             Então, por exemplo, eu vou falar uma coisa que eu fiz e que deu muito certo, porque assim, eu não sou…. eu sou uma praticante, então o que eu posso contar para você é a minha história e como eu tenho praticado isso na minha vida e que isso sirva de inspiração para que você possa fazer, isso aqui não é receita de bolo, mas eu vou por essa linha de raciocínio, você fala ah eu preciso pensar, não, eu acordo, penso, eu vivo, respiro mottainai na minha vida, então eu conto exemplos do que acontece, por isso que eu sensibilizo as outras pessoas, pela força do exemplo, não por causa de uma teoria bonita que eu li em algum lugar. Eu perdia muito tempo em introspecção. Para fazer uma palestra de uma hora, demorava de um contato até dois anos, eu falei meu Deus do céu, e às vezes ah vem aqui, vamos conversar, aí eu ia lá, falava como eu estou falando com você, contava aminha história, meio período e tudo, ah tá bom, deixa aí sua proposta, quando tiver oportunidade… e aí nada, eu falei nossa, meu tempo é tão valioso, meio período é o período que eu posso fazer uma palestra para mil pessoas, sei lá, duas mil pessoas, posso fazer um evento, posso fazer um workshop e meio período eu vim aqui falar com uma pessoa para contar minha história e o cara sei lá, fala…. eu estou desperdiçando meu tempo, eu pensei, estou desperdiçando meu tempo e aí eu peguei e chamei um amigo meu, falei assim, vamos gravar um vídeo? Grava um vídeo meu, o vídeo… ele falou, mas você quer um vídeo comercial? Falei não, é um vídeo assim, intimista, ele assiste e tem a impressão de que eu estou na frente dele lá na sala dele, aí eu vou falar do meu trabalho, porque eu faço, vou contar dos meus projetos. Gravamos sete vídeos. Sete vídeos assim como de prospecção mesmo, mas num bate papo, não aquele formato comercial, “nós somos uma empresa”, não, assim: então, como eu estou falando com você. Gravamos, aí eu pus no Youtube e aí eu comecei a mandar o vídeo, mandava por e-mail, mandava por e-mail o vídeo, mas assim, eu sabia que era empresa, conhecia a história, sabia quem era e falava: olha, eu respeito o seu tempo e por isso eu gravei um vídeo de três minutos, de cinco minutos, para apresentar isso que é uma demanda sua e aí, depois que eu fiz isso, o que aconteceu? Eu comecei a ter retornos e aí eu tenho tempo para cuidar da minha família, para cuidar da minha casa, lavar minha roupa, para cuidar da ONG, dos projetos sociais que eu me dedico, para dedicar aos meus pais e enquanto isso a prospecção via Youtube está rolando, porque assim, a pessoa falou ah eu achei interessante, no momento agora não, mas eu acho que… ela encaminha para uma outra pessoa e o que eu descobri para o gestor, é muito mais fácil para o gestor clicar no link e ver aquele vídeo que eu apresentei para ele do que ele agendar uma reunião comigo, para ver o que eu…. é muito mais prático, ele olhou ali, interessou ok, não interessou também ele já….. mas assim, foi muito pouco tempo e aí eu recebi muitos feedbacks dos gestores que falaram assim, foi a primeira pessoa que fez valer o meu tempo e isso para mim tem valor, então acho que quando a gente não só pensa, mas usa as estratégias de uma forma coerente, é isso e você quando põe o podcast, quando você disponibiliza aquele material, já está disponível, a hora que eu puder eu vou acessar, isso é respeitar o meu tempo, poucas pessoas respeitam o meu tempo, não é verdade? As pessoas querem a sua atenção a todo custo, mas poucas pessoas respeitam o seu tempo, então a mídia digital, ela traz isso, as pessoas tem que usar de uma forma, primeiro com coerência e sabedoria e com esse olhas de sustentabilidade, aí sim vai ser levado a sério, agora, quando a gente usa mandando para geral, eu sempre falo, respeita o tempo da outra pessoa e quando alguém respeita o meu tempo, eu dou mais valor para ela. Eu não mando e-mail assim, e-mail marketing para todo mundo, eu mando alguns e-mails, são personalizados, só que o que eu tenho? Eu tenho retorno, que às vezes você manda “trocentos” e quanto você tem de retorno? Vai tudo para o lixo, os meus….

Luciano         Tem muita fórmula pronta aí que o pessoal está usando.

Tiemi             … o meu não vai para o lixo, eu escolho as pessoas, eu acho que aquilo vai interessar para elas, faço um e-mail para cada um, eu tenho retornos, então eu acho que é assim, quando a gente respeita o tempo do outro e uma pessoa vai abrir porque ela falou nossa, uma pessoa dedicou um tempo para escrever um texto aqui para falar comigo, ela vai ter mais valor do que já sabe que está tudo montado e tudo mais. Então assim, e o meu lema para 2018, Luciano, é assim: menos, porém melhor.

Luciano         Menos porém melhor.

Tiemi             Porque todo ano eu tenho um lema que eu vou trabalhar com o mottainai e esse ano em tudo o que eu estou fazendo é assim, menos, porém melhor, porque a gente foca, às vezes, na quantidade e perde pela qualidade e é um desperdício e tudo isso é comer o seu tempo, a gente tem a sensação de que precisa fazer mais, precisa fazer mais. Será que precisa fazer mais? Será que não é para fazer menos e fazer melhor?

Luciano         É e o segredo é como é que você consegue pegar um conteúdo de uma hora e transformá-lo em alguma coisa de cinco minutos com intensidade, com valor, sem blá blá blá, essa é a grande sacada. Eu estou abraçado nisso aí já até o pescoço, revendo a maneira como eu estou fazendo as coisas, então eu estou agora revendo toda essa questão de livros, não faz mais sentido eu publicar um livro de 300 páginas, não tem o menor sentido mais, o que é que tem sentido? Eu publicar 30 fascículos de 10 páginas, entendeu? E não mais um livro de 300 páginas, por quê? Porque o fascículo vai seguir de uma outra forma, vai de outro jeito, a pessoa não vai perceber que tem 300 páginas na mão, ela consome aquele mesmo conteúdo de um jeito muito mais leve, muito mais rápido, dentro da possibilidade dela, ah não consigo ler, eu vou te mandar para você ouvir, você não consegue ler, então ouça, ah mas não consigo ler nem ouvir, então assista e o Café Brasil Premium agora eu estou envolvido nisso, falei então como é que eu consigo dar às pessoas todas as oportunidades, eu estou agora envolvido, eu faço sinopses de livros, todo mês eu coloco uma sinopse muito legal de um livro e agora eu estou envolvido em produzir a sinopse da sinopse, como é que eu faço aquela sinopse de 34 páginas agora virar uma de 4 páginas que, de novo o que é isso? É tentar mostrar para a pessoa, tem coisas legais aqui, se você não conseguiu consumir aquela que está grande, consome essa menorzinha aqui e se ela te chamar a atenção o suficiente, você pula para a próxima e daí vai para o livro, então no final do caminho tem um livro em inglês, de 300 páginas, para chegar nele você passou por algum estágio, eu estou agora envolvido nisso e agora que você está me falando, que está me dando…. é um toque, o que tem por trás aqui, tem essa história do respeite o tempo.

Tiemi             Então, respeita o tempo das outras pessoas e também eu acho que tem uma outra coisa, respeita a autonomia delas, porque quem disse que o melhor é o que eu preciso é ler o livro de 300 páginas em inglês? Às vezes esse pequeno videozinho, as iscas lá que você deu de cinco minutos para mim foi suficiente no aqui e agora e aí eu também pensei nisso, falei assim puxa vida, eu começo um relacionamento, a pessoa me conhece numa palestra, como eu vou alimentar esse relacionamento? Porque conquistar um relacionamento é uma coisa muito valiosa e como eu vou sustentar isso? Então aí, no ano passado eu criei um canal no Youtube, o meu, Tiemi Yamashita e toda semana eu gravo um videozinho de cinco minutos, que é como um bate papo, as coisas que eu descobri essa semana e falo o que está acontecendo e as sacadas que eu tive, as práticas que eu estou fazendo, tal. E é uma forma de alimentar o relacionamento, aí quando eu faço as palestras eu falo olha gente, eu tenho um canal no Youtube, quem estiver interessado tal. E sou eu, é assim, é super simples, faço com celular e tal, não tem nada…. mas é autêntico, eu acho que é o que eu tenho para entregar de melhor num tempo de cinco minutos, quando a pessoa está com saudade, fala assim puxa vida, com saudade da Tiemi, o que será que ela está fazendo? Não precisa me ligar, vai lá no canal e vai saber o que eu estou pensando, é a forma que eu tenho de me colocar.

Luciano         Você sabe o que eu estou fazendo esses dias aqui? Isso é interessante até para o pessoal que acompanha o Premium, é muito interessante, você viu, nós estamos no nosso estúdio aqui, o estudiozinho, etc e tal, tudo bonitinho, eu montei uma estrutura para gravação de vídeo ali muito legal, tenho switcher, tenho as duas…. é um baita estúdio aqui, sai coisas maravilhosas aqui, que envolve uma certa produção, quando eu resolvi que vou gravar eu entro aqui, não tem ninguém me ajudando, mas eu sento ali, ligo o computador, aperto as teclas e saio eu gravando vídeo, depois eu edito o vídeo e na semana passada eu comecei a desenhar um esquema e fiz um primeiro vídeo na minha mesa de trabalho ali, então não é blimpado, o avião passa, aparece o barulho do avião, vão tocar a buzina lá fora, a buzina entrou, a captura de som não está legal ainda, mas eu botei ali para falar o seguinte, o que aconteceria se em vez de eu transformar gravação do vídeo num evento como é hoje, que eu tenho que parar tudo o que eu estou fazendo para criar aquele evento, gravar o vídeo e sair de lá com material par editar, se eu transformar a gravação do vídeo em algo que vai no fluxo do meu dia a dia, estou trabalhando ali, de repente eu paro, espera um pouquinho, ligo o vídeo, gente é o seguinte… e o vídeo está pronto, e eu fiz uma experiência que com todas as partes que me dói de montão, que é a questão técnica, pô o som não ficou muito legal, quando eu vi o resultado eu falei, o que eu ganhei nesse vídeo feito na minha mesa de trabalho em termos de ser mais eu, de não ter impostação, de cara eu estou aqui, é o seguinte eu vou falar comendo S, você está na minha mesa de trabalho, vamos…. está aqui o vídeo e pronto. Já botou na minha cabeça que eu tenho que parar de fazer os vídeos aqui no estúdio e fazer na minha mesa de trabalho para ganhar isso que você está dizendo aí, eu vou ganhar o meu tempo, que hoje gravar e produzir um vídeo aqui, vamos dizer que um vídeo de 8 minutos eu leve 40 minutos para gravar, etc. e tal, hoje eu vou para um esquema em que o meu vídeo de 8 minutos vai levar 8 minutos par gravar, então não é mais 40, agora é 8, o que eu perdi? Pô não tem duas câmeras, mas ganhei muito mais em termos de a minha originalidade, ser mais eu, etc. e tal e ganhei uma coisa preciosa que é 32 minutos…

Tiemi             De vida.

Luciano         … de minha vida. E estou indo por esse caminho agora.

Tiemi             Então, porque tem a análise da forma e a função, quando eu pensei no canal do Youtube, se quem entrar no meu canal vai ver que os primeiros vídeos, os dez primeiros vídeos, são em estúdio, são lindos maravilhosos, foi maquiador, você vai falar nem parece a Tiemi, estou toda produzida, porém depois eu parei porque acabou o dinheiro, não deu mais para produzir, aí eu fiquei sem produzir e sem fazer os vídeos e a minha filha falou mãe, canal do Youtube, se você não postar toda semana, vai morrer, tipo uma planta, vai ter que regar. Ah mas a mamãe não tem dinheiro, como é que vai fazer? Ela falou mãe, o pessoal faz com celular, o pessoal faz assim e assim, quem tem conteúdo põem, quem não tem conteúdo…. aí eu percebi que eu estava presa à forma, tipo à vaidade da forma, aí como eu vou me apresentar? E com isso eu estava deixando de produzir o que eu tenho de mais importante que é o meu conteúdo, deixando de apresentar, porque produzir a gente está produzindo, mas não apresenta para as pessoas, não dá o acesso e aí eu falei, realmente filha, a mamãe está desperdiçando muito por causa dessa vaidade da forma e tudo o que vale a pena ser feito, vale a pena ser feito mesmo de forma precária e as pessoas foram me dando esse feedback depois, Tiemi, tem um vídeo que eu falo forma e função e eu conto essa história e aí os feedbacks que eu tive falou Tiemi, nunca percebi a diferença do formato, para mim o conteúdo sempre foi relevante e está agregando valor, porque é um insight que vem.

Luciano         Esse é o paradigma que está sendo quebrado, você vê que a quantidade…. de como é que o Youtube está invadindo a televisão, até outro dia para você botar no ar alguma coisa em broadcasting na televisão era aquela baita produção, eu me lembro de eu gravar um documentário em VHS para um trabalho que estava sendo feito pela TV Cultura e os caras se recusaram, não vou botar no ar isso aqui porque com essa qualidade de VHS não vai para o ar e o documentário estava legal, mas estava em VHS e os caras, de jeito nenhum, isso não vai para o ar. Hoje os nego botam no ar qualquer coisa do Youtube entra lá e entra na rede Globo e eles assumem aquilo pensando nessa questão de é mais importante o conteúdo que está ali do que o acabamento estético. Eu acho que a questão toda é você encontrar esse equilíbrio, então até onde dá para chegar? Quer dizer, eu vou ter que melhorar a captação de áudio, vou ter que arrumar um jeito de melhorar a iluminação etc. e tal, para chegar naquela coisa que eu falo, legal, perdi o ótimo que eu tinha dentro do estúdio, mas ganhei muito mais ali em termos de rapidez e tudo mais, isso é respeito ao tempo de novo.

Tiemi             Respeito ao tempo e equilíbrio.

Luciano         Muito bom, já fez teu livro ou não?

Tiemi             Não.

Luciano         O que falta?

Tiemi             Não sei, está faltando. Apesar…

Luciano         Teu blog, você já tem o blog?

Tiemi             Olha, também está fraco, o que está mais o vídeo, o canal do Youtube é o que está mais forte agora, tenho dedicado ao projeto social também, que é a formação de jovens sustentáveis porque eu vi assim na empresa falar sobre Mottainai, a pessoa acha legal mas a mudança comportamental é complicada, muitas vezes o pessoal já está com outra idade e com os jovens, a partir dos 15 anos, o que eu vejo? Eles estão mais abertos a essa nova visão, eles querem essa nova visão e aí é a nova força de trabalho a nova geração que vai entrar já com isso, eles já estão ligados nisso, então para eles é mais fácil, então eu tenho focado bastante neles, nessa parte, mas agora para o pessoal de empresa é um grande caminho porque assim, quando a gente fala redescobrir a qualidade, por que eu vou fazer qualidade? Para ser digna daquelas coisas que eu tenho, não estou fazendo qualidade para ganhar uma certificação, vamos fazer bem feito, porque ah o chefe está mandando, não, é a partir de uma outra perspectiva, eu não vou desperdiçar as coisas por conta de ah porque está escasso, não, é de uma perspectiva de eu reconheço o valor disso, eu quero ser digno, é um desejo meu e…

Luciano         Você tem que sair daquela mania do ah, tá bom assim, não é?

Tiemi             … exatamente…

Luciano         Essa mania maldita, ah, tá bom assim.

Tiemi             … o mundo está indo todo para esse lado de poder essa mudança de consciência… aí eu vou falar assim, um profissional que tem essa consciência e pratica isso, é um profissional que todo mundo vai querer como parceiro, como um cliente, como um fornecedor, porque fornecedor chega para você e fala assim olha, vou ter que aumentar, vou ter que aumentar porque as coisas estão ruins. Ai fala assim, será que você está desperdiçando alguma coisa? Será que você não está desperdiçando? Já pensou quando todo mundo começar a eliminar os desperdícios em ve de ficar aumentando vai diminuindo, aumentar a eficiência, então eu acho que poder se perguntar, puxa vida, será que eu também não estou enxergando os desperdícios? Será que eu posso aprender um pouquinho mais? Então o mottanai traz essa visão e quando compartilhada dentro de uma organização, é escola, ou empresa, amplia muito o olhar das pessoas e é para isso que eu nasci no Brasil.

Luciano         Para trazer isso.

Tiemi             Para trazer isso, é isso que eu me encontrei, hoje eu me sinto realizada e eu sei que quanto mais pessoas tiverem acesso a isso e desperdiçarem menos, elas vão ser mais felizes e vão ser mais abundantes, então entra bem…. é o propósito agora.

Luciano         Quem quiser achar você, te encontra como? Vamos lá.

Tiemi             Tiemi Yamashita…

Luciano         Como é que escreve?

Tiemi             (ela soletra o nome e Mottainai) Me acha no Youtube, me acha no Google, estou por aí e se você falar ah é uma moça que se veste de japonesa, você pode ter certeza que sou a única.

Luciano         Vai ser você.

Tiemi             Sou eu, veste de japonesa e fala sobre mottainai.

Luciano         Muito bom viu, olha, eu espero que você leve muito mais adiante esse teu trabalho, que mais gente valorize, essa história de valorizar o tempo é fantástica…

Tiemi             Você gostou?

Luciano         … adorei essa coisa toda aí e respeitar o tempo que é muito legal e espero que você continue dando para mim viu, porque…

Tiemi             Vou estar renovando…

Luciano         … renove a assinatura, continue porque a gente está legal, nós chegamos nessa semana aqui a 1200 assinantes, vai entrar agora a versão 2.0 do Premium, então o caminho é ter muito mais coisa chegando aí em breve e criando um caminho legal que ele é baseado nessa história toda de, olha, eu estou criando conteúdo e você consuma no teu face, no teu ritmo, na tua vontade, na tua liberdade de consumir.

Tiemi             E eu acho honesto da sua parte quando você entrega o conteúdo, porque assim, quando as pessoas falam eu tenho uma solução mirabolante, maravilhosa, tal e aí se você pagar tanto, ou se você vier para o meu curso você vai ter, então assim, aí você vai ter que pagar par ver, entrar naquilo par poder ver e no final não tem conteúdo relevante e você, pelo valor que você está cobrando e já disponibiliza tudo o que você produziu, então isso é honesto, eu acho que daqui para a frente só vai sobreviver propostas honestas e sustentáveis. Honestas, porque só o que é honesto, só o que é verdadeiro vai se sustentar, o que não for, você concorda que é um desperdício? Quando fala assim, ah, vamos montar uma campanha para fazer uma coisa, mas não tem nada realmente autêntico que vai agregar, olha, está gastando matéria prima, está gastando trabalho de profissionais, está gastando tempo das pessoas, a atenção das pessoas e não…

Luciano         E quem comprou, gastou dinheiro.

Tiemi             … gastou dinheiro e não… aquilo que ele recebeu não está agregando, isso eu acho um desperdício, por isso que eu falo, eu não quero assim, Tiemi você quer trabalhar muito? Não, eu sou honesta dentro do meu trabalho, então eu quero clientes que realmente estejam buscando aquilo que eu tenho para oferecer, menina o que eu estou procurando é isso que você tem, o que eu quero, você tem uma coisa que me interessa, esses são os clientes que me procuram e eu tenho toda a felicidade, toda alegria e a gratidão de poder servir essas empresas, não é ah vou bater a meta, não, eu tenho que atender aquelas empresas que realmente encontram valor em mim, que precisam de mim e aí eles falam, mas você não quer aumentar o seu, como fala? Ter muitos clientes e tal? Eu falo não, eu quero fazer tantas palestras por mês. E as outras demandas? Aí temos colegas que também precisam trabalhar, eu tenho uma meta, porque a gente tem que ter um equilíbrio de vida, se eu viver só para trabalhar e o resto? Aí eu não vou estar sendo digna então é fazer o meu melhor, fazer bem feito e dentro do limite, eu acho que são coisas que eu tenho praticado e tenho aprendido assim, eu estou encontrando pessoas que estão fazendo as mesmas coisas, assim na mesma linha, estão mais felizes  e é o que a gente quer para ser digna da vida.

Luciano         Um insight que fica aqui então a você que está nos ouvindo aqui, é muito simples, seja digno da vida que você tem, seja digno do tempo que você tem, seja digno das amizades que você tem, seja digno da família que você tem, é a gratitude. Agradeça isso tudo e use com parcimônia e deixa de gastar seu tempo aí com bobagem. Beijão.

Tiemi             Também.

Luciano         Obrigado.

Tiemi             Obrigada a você.

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo