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Ciça Camargo -

Luciano             Muito bem, mais um LíderCast. A figura que está comigo aqui hoje eu conheço acho que há bem uns 8 anos. A gente tem um grupo de palestrantes aí que eu trouxe aqui no LíderCast, eu já falei com a Leila Navarro, falei com o Eduardo Carmelo, falei com o Marcelo Ortega, falei com o Tomanini, esse aqui é o caçulinha da turma, é o mais novo da turma, mas a gente se encontra, é uma grande figura, já conversamos várias vezes sobre vir para cá, ele fugiu durante um bom tempo eu não consegui capturar o cara. Agora peguei, ele está aqui comigo, é um ouvinte do LíderCast, portanto não preciso ficar inventando muita moda, eu vou direto para as nossas três perguntas fundamentais. Eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Rafael               Bom, muito bem, eu me chamo Rafael Baltresca, eu tenho 38 anos, quer dizer um caçulinha não tão caçulinha assim e o que que eu faço? Eu faço um monte de coisa, Lu, mas a minha atividade principal hoje é palestrar em empresas.

Luciano             Palestrante de empresas, mais um, não é?

Rafael               Mais um no meio de….

Luciano             É o que mais tem no mercado, todo mundo tem no currículo um hoje, o currículum é padrão já, você faz o quê? Palestrante. É fácil pra cacete, não é?

Rafael               Uma moleza.

Luciano             Subir ali, falar um monte de bobagem, ganhar uma nota preta. Você quer coisa melhor do que isso?

Rafael               Não é verdade? Foi uma loucura que eu inventei aí há alguns anos, há 14 anos e hoje eu entendo um pouco mais da complexidade e da beleza também, que é gostoso demais fazer o que a gente gosta, mas sou mais um aí.

Luciano             Mas vamos lá, nasceu aonde?

Rafael               Eu sou aqui de São Paulo. São Paulo, capital, criado… a família tradicional paulista, pai e mãe, minha irmã.

Luciano             Que bairro?

Rafael               Eu sou ali de perto da Lapa, Parque São Domingos, Pirituba, Lapa, região noroeste de São Paulo.

Luciano             O que seu pai e sua mãe fazem ou faziam?

Rafael               Bom, eles são falecidos. O meu pai, ele era marceneiro, ele é filho de marceneiro, que ele que fazia em casa as coisinhas que eram do meu avô, aí depois eles criaram uma empresa e durante a sua vida praticamente completa ele trabalhou como marceneiro. A minha mãe dona de casa, ela cuidou dos filhos e passou a vida trabalhando em casa.

Luciano             Seu pai era um empreendedor então?

Rafael               O meu pai, ele era uma mescla viu, de… ele empreendeu, mas também ele, como posso dizer? Ele era pé no chão, ele era um empreendedor pé no chão, ele era o… não é o modelo de empreendedor que a gente conhece hoje, aquele cara que você vê ousando, criando, arriscando, ele era mais modelo do pai que saia para trabalhar às sete da manhã, voltava cansado, suado, às sete, oito, nove da noite, então ele empreendeu nesse ramo aí.

Luciano             Ele era o dono do negócio dele?

Rafael               Ele era o dono do negócio, ele e meu avô foram sócios praticamente a vida toda nesse ramo de artigos e utilidades de madeira, então ele fazia tábua de carne, fazia peneira, então … como chama aquela… aquele abridor de massa…

Luciano             Sim, o rolo de massa que a mulher usa para bater no marido quando chega tarde.

Rafael               … é… hoje em dia já é mais difícil, porque por conta da higiene e tudo isso eles substituíram o que era de madeira por plástico e tudo mais, ele ainda é da época que fazia tudo de madeira, então eu lembro até que quando eu tinha 12 anos eu ganhei de presente do meu avô um torninho mecânico. O torninho, aquele torno para tornear peão e aquelas coisas, aí foi um barato, enquanto a criançada estava ganhando joguinho, aquelas coisas de plástico, eu ganhei um torno onde eu podia brincar de fazer minhas pecinhas.

Luciano             É talvez o avô imaginando que o neto vai seguir a coisa da família. O que o…

Rafael               Mas eu ouvi isso a vida inteira, viu, a vida inteira, desde molequinho eles falando, você um dia vai administrar a nossa empresa.

Luciano             O que o Rafinha queria ser quando crescesse?

Rafael               Eu queria ser mágico. Meu pai ficava louco, eu queria ser mágico, 10 anos eu queria ser mágico, gostava quando David Copperfield aparecia no Fantástico, que era sempre: o novo número de David Copperfield, ele vai sumir da… sei lá de que torre, eu ficava louco e eu pus na minha cabeça que eu queria ser mágico.

Luciano             Mesmo quando o Mister San apareceu e destruiu tudo.

Rafael               Mesmo com Mister M…

Luciano             Mister San não, é Mister M.

Rafael               Mister M. Eu queria ser mágico e foi muito louco porque aos 10 anos, 11 anos, 12, meu pai achava bonito, a família achava legal, ah o menino que brinca de mágica. Com 14 meu pai começou a ficar preocupado, porque será que meu filho é mágico? Aí na família não, ele tem que ser administrador, ele tem que administrar meu negócio. Aos 16 ele começou a ficar um pouco mais desesperado, digamos assim. Eu lembro quando eu tinha 14, 15 anos, ele escondia meus kits de mágica.

Luciano             Então, isso que eu ia te perguntar, eles comparam para você o kit do Pequeno Mágico, aquela coisa toda?

Rafael               Até os 12, 13 anos eu ganhava de presente, eu dizia para a família, não me venha com brinquedos convencionais, quero livrinho de mágica, quero kit de mágica.

Luciano             E na festinha de aniversário você era a atração da festinha?

Rafael               Não era, Lu, eu tinha uma vergonha lascada, eu fazia para a família, eu fazia para um ou dois amigos em casa, mas eu sempre fui envergonhado, tímido, se era para falar com cinco pessoas eu me enfiava num casulo e eu não sei, destoava um pouco do ser mágico, demorou para eu pegar a mão, pegar o jeito.

Luciano             Você sabe que eu estou trabalhando num material sobre o Fred Mercury, sobre o Queen e eu estava trazendo a biografia dele toda lá e o Fred Mercury tem um lance assim também, ele nasceu lá em Zanzibar e ele tinha um problema de dente, a vida inteira, aquele puta dentão para a frente que dizem os especialistas foi aquilo que deu a ele a caixa de ressonância para ele poder fazer com a voz o que ele fazia lá e aquilo era um problema para ele, a vida inteira ele quando ele ria ele punha a mão na frente para tampar aqueles dentões, que até o apelido dele era em cima disso aí e ele era um garoto absolutamente um nó, ninguém não falava com ninguém, ele era absolutamente, como é que eu vou dizer, um garoto retraído e até posso entender o bullyng que esse moleque sofria até ele subir num palco e conta a história lá, quando ele era molequinho que ele forma uma bandinha e a hora que ele sobe no palco, vira uma coisa que ninguém acreditava que aquele moleque fosse o mesmo e ele descia do palco, Dr. Jeckyll e Mr. Hyde, acontecia essa coisa da mudança, vamos descobrir depois se foi isso aí que aconteceu com você. Você estudou o quê?

Rafael               Então, lá para os meus 15, 16 anos eu tinha uma vontade, imensa de ir para o ramo da arte, de fazer da mágica minha profissão, mas eu ouvi a vida inteira que isso não ia dar dinheiro, isso não era para filho meu fazer e eu sempre via meu pai mexer com as coisas de…. ele fazia caixa acústica, como ele sempre foi um marceneiro, ele sempre fez coisas, tudo quando é coisa que tinha madeira e eu sabia e gostava de matemática, então aquela babaquice que hoje eu vejo que é uma babaquice, ah você gosta de matemática? Então você tem que fazer estatística, matemática ou engenharia e aí me colocaram na cabeça que eu talvez me daria bem como engenheiro e quando eu tinha meus 17 anos, eu como nasci em novembro, minha mãe me colocou um ano mais cedo na escola, então eu com 17 anos eu entrei na faculdade Mauá, aqui em São Caetano do Sul, de engenharia elétrica e aí meu pai feliz, o filho vai ser engenheiro, deixou aquela bobeira de ser artista e vai ser engenheiro, então eu estudei engenharia dos 17 aos 21 anos quando me formei engenheiro elétrico pela Mauá.

Luciano             Você sabe que eu fiz colégio técnico de eletrônica, me formei técnico em eletrônica e prestei vestibular para engenharia elétrica, que era o natural na época, toda a molecada da minha turma foi todo mundo para engenharia elétrica e eu fiz engenharia elétrica em Bauru e comunicação visual em São Paulo, passei nos dois e tomei a decisão de fazer o mais complicado, mais difícil mais enrolado, vim para São Paulo e a engenharia elétrica perdeu um engenheiro medíocre. Mas vem cá, quando você passa hoje em dia no lugar que tem uma marcenaria e vem aquele cheiro da madeira queimada, daquela cola, volta tudo?

Rafael               Tudo. Voltou agora quando eu entrei nesse estúdio aqui só pelo cheirinho de madeira e tal, isso volta demais, não adianta, nosso passado, ele está enraizado.

Luciano             É, pois é. Mas aí você se forma em engenharia e pega um canudo de engenheiro, o que aconteceu com o mágico enquanto você estava na escola, aquela expectativa meu pai vai ficar feliz, vou dar de presente para ele o diploma, pai orgulhoso com o diploma na mão e com o mágico lá atrás falando não… como é que é?

Rafael               Lu, aconteceu uma coisa mais maluca ainda, quando eu tinha, nos meus 17 anos, quando eu entrei para a faculdade, depois de quatro meses veio a notícia do meu pai, vou ter que trancar a faculdade, porque ele que bancava minha faculdade, então lá para abril, maio, se não me engano, primeiro ano, ele falou vamos ter que trancar porque não tenho grana, não dá prá gente pagar e aí para mim aquilo veio como uma bomba, porque até então eu já tinha decidido ser engenheiro, trabalhar como engenheiro, já tinha desistido um pouco da mágica, eu brincava e realmente nunca imaginei que aquilo poderia ser um dia uma profissão e não achava complicado, porque era a minha vida. Só que veio a bomba de vou ter que parar de pagar a faculdade para você, para mim hoje estava fazendo uma retrospectiva da minha vida, eu acho que foi o momento mais importante da minha vida, porque eu nunca tinha tido uma porrada da vida. Eu tinha pai, tinha mãe, as coisas estavam sempre caminhando bem, entrei na faculdade, sempre fui um bom aluno, estuava direitinho, e naquele momento putz, vou ter que parar de pagar essa faculdade. Para mim foi importante porque foi a primeira vez na minha vida que eu tive que começar a repensar o que eu podia fazer para sair dessa cilada…

Luciano             Vou ter que me virar.

Rafael               … esse vou ter que me virar, que hoje eu penso o tempo todo, foi a primeira vez e…

Luciano             Que idade você tinha, 18?

Rafael               … eu tinha 17 anos, eu tinha acabado de fazer 17 em novembro, estava no primeiro ano da faculdade, 17 anos e o que eu fiz foi muito legal, porque primeiro eu fui tentar uma bolsa e a faculdade, ela tinha o chamado fundo Mauá de bolsas, que ela me dava 50% em troca que depois de 5 anos, quando me formasse, eu começasse a pagar novamente 50% com a mensalidade vigente, então ela me dava um shift, jogava para a frente 50%, mas os outros 50% não tinha dinheiro e meu pai também não tinha e aí que eu comecei a fazer uma coisa que eu sempre gostei que era dar aula, então eu com 14 anos para 15, comecei a dar aula de DOS, de Windows para a turminha, porque eu tinha aprendido aquelas coisas simples que para a gente, na época, era incrível, eu com 17 anos eu falei pô, eu gosto de dar aulas, sempre gostei, e por que não colocar isso para me render alguma coisa? Um lucro? E foi muito legal porque um professor falou assim, Rafa, a Mauá, ela tem monitoria, porque você não se inscreve, não sei, física, matemática, o que você gosta? Aí eu falei putz, o que eu gosto? Eu gosto de computação, eu tive o meu 486 quando tinha 15, 16 anos, eu me inscrevi e eu passei para ser monitor e Lu, foi… putz… posso falar palavrão aqui?

Luciano             Por favor.

Rafael               Para mim foi foda aquele dia, porque eu sabia que em uma semana eu ia ter uma banca de professores julgando cinco alunos que queriam ser monitor e para mim ou eu pegava aquela monitoria, porque a monitoria me daria 50% de desconto na faculdade, eu já tinha 50% da bolsa, então poderia fazer a faculdade…

Luciano             Por 25%.

Rafael               … grátis, não…. era 50 e integral, então poderia fazer grátis, quer dizer, trabalhando lá na faculdade e eu sabia que em uma semana eu ia ter essa turma, essa banca me olhando. Eu levei, mas tudo o que você pode imaginar que eu tinha feito já com informática, então eu levava disquetes, eu lembro, tinha uma pilha com uns doze disquetes de programinhas que eu tinha feito em basic, em clipper, alguma coisinha que eu tinha aprendido em delfi, levei um currículo super extenso, tudo o que eu tinha feito na vida já, de informática…

Luciano             Por conta própria?

Rafael               … por conta própria, eu falei eu vou fazer, sei lá, eu vou entuchar, eu dei tanta coisa para os caras, eu fiquei com vergonha pelos outros, porque todo mundo trazia o currículo lá, eu falei não, espera ai, esse aqui é meu currículo mas eu tenho esse sisteminha que eu fiz também quando eu tinha 15 anos, eu tenho aqui um depoimento do cara que me contratou para dar aula numa escolinha de informática ali do lado, eu cheguei com tanta coisa, porque na minha cabeça estava assim, ou eu pego essa monitoria ou eu estou fora da faculdade, não ia ter uma outra chance, meu pai tinha sido muito claro comigo e depois de uma semana veio a resposta que eu tinha entrado e eu acho que naquele dia eu comecei a entender a beleza de dar mais do que se espera, eu acho que naquele dia eu comecei a empreender, porque a minha vida, ela deu um puta passo no dia que eu sabia que não dependia do meu pai mais, ele dependia de mim, porque em 5 anos eu teria que pagar aquilo, eu ia ter que ter dinheiro para pagar e além disso eu estava trabalhando como monitor também, então eu com 17 anos comecei a entender que eu tinha que estar no comando, sabe.

Luciano             E o legal dessa história toda que você está botando aí é o seguinte, você não se preocupou com o que seria o suficiente para aquela banca, você foi e botou, vê o que é suficiente para mim, então eu vou levar aquilo que para mim seria o máximo mesmo que seja muito além e os outros meninos levaram o que seria suficiente, levo o currículo, mostro lá, falo meia dúzia de coisa, aparece um maluco lá com uma cesta cheia de disquete e tudo mais porque você…

Rafael               Uma porrada.

Luciano             … é, se é para entrar de cabeça, vai com tudo

Rafael               Pois é isso é um dos mantras que eu tenho na minha vida hoje, sempre entregue mais do que você promete, mas sempre, promete um, entregue dois; prometeu cinco, entregue dez. Ontem mesmo eu fiz uma seleção para uma vaga de, lá no meu escritório, vaga comercial, vieram três pessoas fazer a entrevista e três pessoas com o currículo na mão, uma página com o básico, eu fico pensando, cacete cara, olha a oportunidade que você tem para mostrar muito mais, faz um vídeo seu, manda antes o vídeo, chega com depoimento de um ex cliente saca? Traz um currículo com cinco folhas falando realmente do que você fez e não só com uma linha dizendo o título, a gente tem uma oportunidade acho que diária de mostrar muito mais do que esperam da gente, isso que faz a gente se diferenciar.

Luciano             E isso é em todos os momentos da vida da gente, nós temos exemplos disso acontecendo a todo momento. Quando eu voltei do Everest, lancei o meu livro O meu Everest e tudo mais, eu acabei encaixando uma entrevista com a Marília Gabriela, eu seria entrevistado pela Gabi no programa dela e na época, na empresa a gente patrocinava os carros de corrida lá daquele maluco lá que fazia o programa da noite…

Rafael               Otávio Mesquita.

Luciano             … o Otávio Mesquita e aí conversando com o Otávio ele falou, vou te dar uma dica. Falei o que é? Manda para ela um presente antes da entrevista, manda alguma coisa para ela. E eu peguei, comprei uma cesta, acho que de café da manhã, uma cesta qualquer com uma champanhe e tudo mais, mandei para ela adiantado com o livro autografado e Gabi, será um prazer estar com você, etc. e tal. Quando eu cheguei lá para ser entrevistado, a Gabi estava desmanchada, muito obrigada, puta sacada que foi eu antecipar aquilo em vez de simplesmente ir lá para ser entrevistado. Quando eu fui fazer a minha entrevista para ser contratado na multinacional que eu trabalhei por 26 anos, era um garotão, estava aí recém casado e tudo mais, me pediram isso, manda o currículo e eu mandei o meu currículo, mas como eu sou cartunista, o meu currículo tinha o meu cartoon, era um papel impresso e tudo mais com meu cartoon, era eu sentadinho lá fazendo cartoon e tudo mais e eu mandei e o cara que pegou, o Sidnei Dalgaldi, que virou depois meu chefe, ele falou para mim, de todos currículos que vieram sobraram dois no final, o teu e de um gordinho, mas o teu tinha um cartoon, quando eu vi o cartoon ali, eu falei não, eu tenho que chamar esse cara aqui e era uma bobagem que para mim era a coisa mais natural do mundo, o que é isso? Mas claro que eu vou fazer o cartoon, eu sou cartunista e aquele cartoon foi o que fez o cara me chamar, então é sempre essa história, já que você vai, vai com tudo e mais um pouquinho.

Rafael               Com os dois pés no peito e é o tempo todo que a vida dá para a gente essas oportunidades de fazer diferente, aí é escolha, você faz…

Luciano             Só tem que tomar cuidado para não chegar arrogante, para não chegar se achando o rei da cocada preta, porque você não é o rei da cocada preta, você é um bosta, você sempre é um bosta que está diante de alguém que vai decidir se você é suficientemente pouco bosta para trabalhar com essa pessoa, então você não é o rei da cocada preta e essa humildade é fundamental, agora o que tem que acontecer ali? Tem que ficar muito claro que é o seguinte, eu tenho uma atitude que está muito além das atitudes dos outros, eu posso não falar tantos idiomas quanto o cara fala, eu posso não ter estudado na escola fantástica que ele estudou, eu posso não ser bonito que nem ela é, eu posso não ter o dinheiro, mas eu tenho uma atitude, eu tenho um gás, eu tenho um brilho no olho, eu tenho uma faca nos dentes como você não vai ver outra pessoa ter e é aí que a coisa pega. Esse é o cara que eu quero comigo, não quero o matemático maravilhoso, eu quero o cara que eu olho no olho dele e falo olha o olho desse cara, o tesão que ele tem, você vai ser contratado por isso e vai ser mandado embora por isso, pela atitude que você tem, o que vai fazer você perder o emprego vai ser a tua atitude, não vai ser o teu preparo técnico.

Rafael               Hoje em dia se aprende tudo em qualquer lugar, interessante que quando você falou da humildade, às vezes não é o que você mostra, mas é o jeito que você apresenta, é o jeito que conversa e assim começou a minha vida, vamos dizer assim, empreendedora, sendo monitor dentro da faculdade e assim foram cinco anos trabalhando lá.

Luciano             Então depois de formado então você ficou mais cinco anos… ah não, você estudou…

Rafael               Estudei cinco anos.

Luciano             … e trabalhou, você estudava e era monitor ao mesmo tempo lá.

Rafael               É, eu era monitor e aconteceu uma coisa muito legal, que durante minhas aulas de monitoria, eu brincava com a mágica, a mágica volta aí, eu comecei a aprender a dar aula…

Luciano             Em sala de aula?

Rafael               … em sala de aula, e era um barato isso, porque às vezes eu falava de… eu fui monitor de lógica de programação, uma espécie de uma…. eles chamavam de computação, mas a gente aprendia lógica e depois, se não me engano, de cálculo numérico, durante um tempo eu trabalhei com isso e eu falava desses termos brincando com mágica, então com uma carta, desaparecendo alguma coisa, eu comecei a entender uma coisa, que eu não precisava ser mágico 100% do meu tempo, mas eu podia usar a arte dentro de um assunto técnico e foi um tesão, Lu, porque depois de um tempo, eu acho que depois de um ou dois anos, eu comecei a dar aula de reforço numa escola do lado da faculdade, não era da faculdade, mas para alunos que estavam indo mal lá na Mauá, eles recorriam a essa escola de reforço, o cara pagava uma aula, ficava lá quatro horas e aprendia e eu dei aulas nessa escola durante dez anos, de 2001 a 2010, fazia monitoria na faculdade, dava aula para essa escola…

Luciano             Ganhando?

Rafael               … ganhava…

Luciano             Ganhava uma graninha.

Rafael               … muito bem, porque.. quer dizer, muito bem para um menino de 18 anos, eu ganhava por aluno, então uma coisa legal que acontecia era o seguinte, na Mauá, na faculdade, eu na monitoria, eu estava lá numa sala, os alunos vinham, tiravam dúvidas e tudo mais. Nessa escola de reforço, eu ganhava por aluno, então se eu tinha uma sala com 5 alunos, eu ganhava 10 reais por aluno, eram 50 reais durante 4 horas de aula, só que se eu tinha 50 alunos, 100 alunos, dependia de mim e…

Luciano             Atrair a molecada para lá.

Rafael               … e o legal, o desafiador, Lu, é que ninguém pagava o ano, eles pagavam a aula, se eles gostassem, eles voltavam depois de um mês quando ia ter prova de novo, sempre em épocas de provas e eu achava isso um tesão, porque eu tinha que reter esses caras…

Luciano             E o professor que fazia mágica.

Rafael               … e o mais doido, é que em sala de aula eles me chamavam de mágico, ô mágico! Até hoje, pô, eu dei aula há 10 anos lá, imagino que algumas milhares de pessoas passaram por lá e até hoje quando um ex aluno me vê, ô mágico, quanto tempo! Então na engenharia eu era conhecido como o mágico e quando eu estava com meus amigos mágicos, outro assunto que depois conto também, como é que eu entrei na parte artística a fundo, eles me conheciam como o engenheiro, então foi um tesão porque dar aula para um público de 30, 40, 50, 100 alunos, falando de engenharia, falando de cálculo numérico, falando de lógica de programação, fazendo mágica, me tirava daquele padrãozão, saca? E uma aula de quatro horas para…. ficava divertido.

Luciano             Você botou uma pitada de entretenimento ali dentro que faz toda a diferença. Você sabe que eu tenho a minha palestra lá da formas de inovação, tem um momento que eu falo lá daquela coisa dos céus, do criativo excepcional, único e sensorial, que é uma formulazinha que eu dou lá, falo olha, antes de entregar qualquer coisa, dá uma olhada, vê se tem céus ali, escrevi um texto, meu texto tem alguma coisa criativa, excepcional, única e sensorial? Se não tiver eu paro e vou procurar fazer lá. E um dia eu termino a palestra, vem o pessoal conversar, um abraço no final, daí vem um carinha e me chamou para conversar comigo no cantinho, esse cara era um representante de autopeças, se não me engano, ou ele era da área de vendas de uma indústria qualquer e tem uma característica interessante, essas indústrias todas, você vende para um atacadista e o atacadista, quando você chega lá, você vai conversar com o comprador, você fica numa sala sentado, vinte representantes de vinte fábricas esperando a vez de ser chamado lá, então está a secretária lá, Zé, agora é você, o Zé entra, fica dez minutos e volta e assim vai e esse cara falou para mim, sabe o que eu resolvi? Falei o que é que foi? Vou fazer o curso de mágica, eu faço mágica, então quando eu chego lá a secretária já sabe que eu sou o cara da mágica e eu já chego lá, já faço aparecer uma rosa na mão dela, ela já me recebe de coração aberto e já avisa o cara que o mágico está lá e quando eu entro eu não fico dez minutos com ele, eu fico trinta, e eu levo, eu brinco, então eu nunca sou o último cara a ser atendido, sempre que eu chego lá eu sou recebido com festa e tudo mais. Então criativo excepcional único e sensorial, você vê como é a coisa, você leva para dentro do teu ambiente que é de dar aula, o ambiente de ser o vendedor, um elemento da surpresa, do encantamento que faz  pessoa virar criança, o comprador vira criança de novo, a hora que ele vê surgir aquele bombom não sei da onde, que pega fogo na carta, o cara fica criança de novo.

Rafael               Eu vi uma frase esses dias, bem legal, fala o seguinte: “toda criança nasce artista, difícil é que permaneça artista”, então acho que tirar a arte da gente qualquer que seja, ou a mágica, ou a música, a pintura, como você hoje faz suas caricaturas, é matar um pouco daquela criança.

Luciano             Sem dúvida. Mas aí, você então experimentando aquilo começou a nascer essa mente do palestrante ali naquele momento ou não?

Rafael               Lu, eu falo que a minha grande escola para ser palestrante foram esses 10 anos dando aula para alunos, porque eram aulas de 4 horas, em 2001 eu começo dar aulas lá numa escola chamada Meta, enquanto eu fazia monitoria na faculdade, eram aulas de quatro horas sabe, duas horas, interrompia para um cafezinho de cinco minutos e mais duas horas falando de assunto técnico, quando eu descobri que para fazer palestra era uma hora e meia no palco, falei opa! Moleza. Quer dizer, é o que eu achava na época e assim foram meus cinco anos então na engenharia, dando aula para poder me sustentar e ajudar em casa, foi muito legal dar essas aulas, porque a monitoria, ela me dava um desconto na faculdade, mas a grana que eu ganhava dentro de sala de aula era onde eu levava para casa, que ajudou a minha irmã a se formar, ajudou minha mãe em casa, ajudou meu pai.

Luciano             Sua expectativa na época ficou clara? Acho que eu vou ser professor quando crescer?

Rafael               Não.

Luciano             Não.

Rafael               Não, a minha expectativa… eu sempre gostei de dar aulas, 14, 15 anos dando aula de DOS, depois na faculdade, eu sempre tive tesão em estar no palco ensinando, falando, conversando, mas eu tinha muito claro que eu ia seguir a carreira de engenheiro, muito claro, eu gostava, a parte eletrônica, a parte de programação, como eu venho lá de moleque brincando com computador, sempre eu curti isso e a minha especialidade era programação micro controladores, trabalhei um tempinho na área, mas eu achava que eu ia fazer a vida inteira, ia trabalhar com engenharia, tanto que em 2001, que foi o meu último ano de faculdade, eu entrei na NEC, lembra da NEC?

Luciano             Sim, claro.

Rafael               Ficava ali perto de Guarulhos, de Arujá, NEC do Brasil e puta, foi um barato lá também, porque eles vieram com uma ideia dos italents, italents ia ser os talentos do futuro e aí fizeram uma puta de uma propaganda, então os moleques ficavam procurando estágio, estagiar na NEC, os talentos do futuro, tal e aí fizeram inscrição, era tipo, sei lá, cinquenta inscritos por vaga, era hiper complicado e eu fui passando, passando, fui passando e o que me ajudou a entrar na NEC como estagiário também foi a mágica, porque durante aquelas dinâmicas de grupo que as empresas adoravam fazer, acho que deve gostar ainda, coloca a molecada toda lá para falar de alguma coisa, eu fazia mágica, brincava e o pessoal foi com a minha cara, aí eu passei na NEC, estagiei lá durante um ano, tesão…

Luciano             Parou de dar aula então?

Rafael               … parei de dar aula…

Luciano             Foi para a NEC, tá.

Rafael               … quer dizer, aula eu … não é que eu parei, Lu, como eu não dava aula todos os dias, eram aquelas aulas só quando tinham provas…

Luciano             Você conciliava as coisas.

Rafael               … quatro vezes por ano, dava uma aulinha a noite, alguma coisa do tipo, parece uma bagunça a minha vida e é mesmo, viu Lu, porque eu estava dando aula de vez em quando, eu fazia as minhas mágicas quando me chamavam, eu estava estudando engenharia e assim, eu ia curtindo a onda.

Luciano             Com 20 anos.

Rafael               … ia surfando…

Lucaino             Com 20 anos, com 20 anos o que vier eu traço, é isso aí.

Rafael               … você faz tudo. E aí a NEC fez uma promessa que eu devia ter gravado, Lu, eu devia ter…. nossa, se tivesse celular eu ia filmar aquilo lá, eles falavam assim, olha pessoal, vocês… eram quinze ou doze estagiários… vocês serão os estagiários do futuro e única garantia que a gente dá para vocês é de efetivação, então vocês vão ficar com a gente aqui esse ano e no final do ano vocês vão ser efetivados para serem engenheiros aqui da NEC do Brasil, devia ter gravado isso. Quando eu entrei na NEC, o que aconteceu, que eu não esperava, eu esperava que iam fazer festa para a gente e tudo mais, teve uma retaliação dos funcionários deles, ferrada.

Luciano             Ah, o italent?

Rafael               Sim senhor, porque sei lá, a empresa devia ter trezentas, quatrocentas pessoas trabalhando na planta e entram doze galãs lá, bonitões, tipo não sabe caceta nenhuma da vida e sendo colocados como os incríveis talentos do futuro. Putz, teve uma puta retaliação, o pessoal não olhava na nossa cara, falavam…

Luciano             Em que ano foi isso? Dois mil e?

Rafael               … isso foi em 2001.

Luciano             2001.

Rafael               2001, é 2001, eu sei que no final do ano a NEC estava entrando numa crise, ela mandou, tipo duzentas pessoas embora de uma semana para outra e a gente foi tudo embora.

Luciano             Você sabe que onde eu trabalhava era uma baita indústria de autopeças, também inventou uma moda desse tipo, pegou uma molecada que estava lá, que eles chamaram de fast tracks, eram os fast tracks, que era a molecada talentosa que seriam os dirigentes do futuro lá e aquilo caiu mal de montão, virou piada, o moleque passava, os caras ó aí, ó o fast track aí, ó o fast track, que é uma bobagem, é quem botar uniforme no cara e falar esse cara é especial ele é melhor que você, aí você cria um problemas sério lá dentro…

Rafael               E para começar não é melhor que ninguém e segundo que é uma cultura de…

Luciano             E cria uma retaliação, isso que você falou, pô quem é esse bosta aí para se achar? Estou aqui há tanto tempo e ninguém em dá bola, agora vem esse merdinha aí, tirando o pé. Vamos lá, continua, e o que vem na sequência? Você?

Rafael               Na sequência estou formado, me formei no ano de 2001, e desempregado. O legal é que a vida inteira, pelo menos esses dez anos, eu ainda tinha minhas aulas, isso ia…. me sustentava, mas eu fazia…

Luciano             O negócio do seu pai lá não retomou?

Rafael               … a empresa?

Luciano             É, porque ele estava sem grana.

Rafael               Não. Ele acabou vendendo a empresa para um tio meu e depois eles entraram em falência, então sabe, eu acho que… não sei, mas meu coração dizia para não entrar num negócio que não era para mim sabe, eu deixei com ele. A madeireira ele tocou, depois vendeu e finalizou. Eu estou desempregado então, 2002, tinha acabado de sair da faculdade, desempregado e eu sempre tive uma formiga no fiofó viu Lu, acho que até hoje eu não paro quieto, eu sou inquieto, porque eu ainda fazia shows de mágica de vez em quando, em casamento, festa de aniversário, brincava com amigos e ganhava por isso, eu dava minhas aulinhas no Meta, que eram aquelas aulas de reforço, só que eu não me conformava. Então eu fiz uma coisa que eu não sei porquê, sei lá, alguns jovens eu converso hoje, eles me acham com cara de ET, eu pus na minha cabeça que eu queria entrar numa empresa, trabalhar como engenheiro, então onde eu passava e eu olhava, por exemplo, eu olho para cá, está escrito Samsung, eu escrevia num papelzinho, aí eu olho ali Ford, eu escrevia num papelzinho, então tudo o que tinha a ver com engenharia eu escrevia, eu ligava para o RH, oi tudo bem? Eu queria saber onde que eu mando meu currículo, eu queria me apresentar, eu queria conversar com você e eu ligava e fazia e um dia, na Gradiente, me atenderam, falaram olha, vem cá conversar, a gente está precisando de gente e você vai falar com o diretor aqui da área. Sentei, eu acho que foi o brilhinho nos olhos, puta que pariu, eu lembro até hoje, chama-se Gustavo Oioli, ele olhou para mim, eu falei com ele um tempo, ele falou Rafa, a gente só tem um problema, se eu te contratar agora, o RH vai ficar meio bravo comigo, você aguarda? Falei aguardo quanto? Ele falou dois dias dá para você? Eu falei dá. Aí eu entrei na Gradiente e trabalhei um ano como engenheiro elétrico na Gradiente, na minha cabeça eu ia trabalhar como engenheiro, Lu, estava simples, para mim era claro isso. Isso foi 2002, acontece um problema na Gradiente não sei porque cargas d’água eles param de pegar projetos, o mercado deu uma retraída e aí eu ouvi uma coisa do meu chefe que me deixou completamente desconfortável, ele um cara nota 1000, ele falou Rafa, a gente está sem projeto, vem pra cá, traz livro, estuda, vai fazer um curso, mas talvez só daqui uns dois, três meses a gente tenha projeto. Puta que pariu, fala isso para um sagitariano que tem uma formiga no fiofó, ficar parado, não rolou. Cheguei para um professor meu, ex professor lá da Mauá, falei Ricardo, o seguinte, eu não estou aguentando ficar num lugar que não tem o que fazer, você não está precisando de alguém na sua empresa? Vamos fazer alguma coisa juntos? Ele falou Rafa, ele tinha uma empresa de informática, falou Rafa se você quiser vir para cá, eu tenho um sócio, você pode ser sócio da gente, cada um faz sua hora, a gente trabalha para outras empresas como consultores de programação, você vai ganhar o que você trabalhar, então a sociedade é assim, você só vai ser sócio no papel, para a gente não precisar te contratar como CLT, você entra você e faz sua hora e você ganha, vamos lá? Falei vamos. Assim entrei na Vipware Informática em 2003, meu pai só faltou me matar…

Luciano             Porque você saiu da grande Gradiente para ir para uma empresinha de informática.

Rafael               … eu saí da Gradiente, tendo um salário certinho, bonitinho, mas todo mês estava lá para entrar de sócio e começar ganhando zero, ele falou você está louco, você tem que ficar nessa empresa, empresa boa, fica nela. Falei pai, eu não tenho o que fazer lá, eu não posso ficar num lugar que me paga para eu não fazer nada. Ele falou não, mas daqui um pouco vai vir. Eu falei não vai vir, não sei se vai vir.

Luciano             Foi quando a Gradiente começou a desmantelar, a grande Gradiente começou a desandar.

Rafael               Depois de um ano e meio ou dois eles desativaram o operação lá em Pinheiros. Aí o Ricardo, meu… não era mais chefe, agora era meu amigo, falou Rafa, vamos começar e eu comecei a trabalhar como programador, a gente fazia sistemas de informação, nas linguagens lá que a gente… que eu trabalhava há um tempinho, era Office, a gente programava o Excel, aqueles…. sabe, a gente programava Excel, Axes, a gente fazia sistemas hiper complexos, híper legais, normalmente para farmacêuticas, então a gente tinha clientes como Roche, como Novartis, como Merck e putz, foi um tesão, Lu, mas eu acho que tem algo que pulsa dentro da gente, fica batendo na nossa porta enquanto a gente não deixa isso sair, isso fica, eu tinha mais ou menos 23 anos, eu já estava há três anos com ele, devia ter uns 24 anos mais ou menos, foi do ano de 2003 a 2006 mais ou menos, que eu fiquei com eles, como sócio dessa empresa, eu ganhava muito bem obrigado, Lu, porque a gente ganhava por hora, nós éramos programadores, um dia eu cheguei, o Ricardo, falei Ricardo vem cá, vamos conversar. Cara, não é para mim, meu negócio é palco, meu negócio é arte, eu tive uma conversa comigo mesmo esses dias, eu quero ser palestrante, se você perguntar de onde veio essa ideia, eu não tenho a mínima noção…

Luciano             Ou foi que você viu alguém, que você chegou num lugar?

Rafael               Eu não sei. Eu lembro que eu tinha visto a Leila já ao vivo, eu já tinha visto…

Luciano             O Marins.

Rafael               … talvez o Marins, alguma coisa do tipo, mas sabe qual que foi… acho que foi uma desculpa para eu voltar a trabalhar com mágica, porque um dia me veio uma ideia, assim do nada, putz e se eu pegasse o Rafael mágico e eu levasse para as empresas, porque durante esse tempo corporativo que eu fiquei de 2003 a 2006 como sócio dessa empresa de informática, eu comecei a sacar uma coisa, sempre vinha um palestrante de fora, eles gostavam de treinar as pessoas lá dentro, eles falavam sobre liderança, sobre trabalho em equipe, então nessas empresas que a gente atuava como consultores de informática, eu comecei sacar isso, falei porra, eles chamam o tempo todo gente de fora para falar, pensei pô, eu sou mágico, eu a vida inteira dei aula, eu sei fazer isso e parece mais divertido do que programar computadores. E aí nesse dia foi, acho que foi em 2004 mais ou menos, falei Ricardo, eu quero parar de trabalhar como programador, você pode falar assim pô, você é maluco, e a grana e tudo mais? Eu sempre guardei dinheiro, Lu, eu sempre guardei e no ano de 2004, meu pai faleceu, teve uma parada cardíaca no quintal de casa e meu pai morreu, nesse ano aconteceu uma explosão de coisas na minha mente, primeiro, uma pessoa que eu amava foi embora; segundo, eu seria agora o responsável pela mãe e pela irmã, minha irmã estava fazendo faculdade, a minha mãe dona de casa; terceiro, o censor morreu também, porque aquele cara que falava para mim você tem que trabalhar num lugar sólido, ele foi embora, então sendo bem franco comigo mesmo, abriu um caminho e nesse ano, depois da morte do meu pai, foi quando eu falei cara, eu não quero saber de informática, eu não quero saber de empresa, eu não quero saber de nada que eu não goste, eu quero ir para o palco e um jeito de conciliar, digamos assim, o artista com algo que eu sabia fazer que era falar bem, eu falei vou fazer palestras, em 2004 nasce a aula show, dou um tchau para essa empresa de informática e falo agora eu quero tocar o meu negócio.

Luciano             Muito bem, então temos uma grande virada aí. Aí você se vê diante da seguinte situação: eu sou o famoso quem? Ninguém me conhece, não tenho diploma de doutor, não participei do big brother Brasil, não escrevi um livro fodido, eu não sou nada…

Rafael               Nunca fui diretor de uma multinacional.

Luciano             … e resolvi que vou virar palestrante. Sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, só faltou vindo do interior. E aí, como é que começa essa coisa do zero?

Rafael               Durante seis meses mais ou menos, antes de fazer essa virada, eu comecei juntar dinheiro, eu falei vou precisar de grana para poder bancar um sonho, então tudo o que eu podia eu tirava, não tomava uma água e guardava, ia guardando dinheiro, porque o objetivo era bem claro, eu falei eu quero ficar durante um ano viajando em algo que eu tenho tesão, que eu quero fazer, mas não tenho experiência nenhuma, então algo me dizia que ia ser difícil ser contratado. Guardei grana, me planejei, falei na pior das hipóteses eu volto, sabe, um ano, eu volto para a engenharia, eu volto a programar, eu volto a dar minhas aulas.

Luciano             E com 23 anos você pode errar à vontade.

Rafael               Pois é, pois é, falei um ano não vai fazer muita diferença e durante um ano eu criei meu site, o site do palestrante, criei a empresa, que ia chamar Aula Show, olha só, Lu, e vou dar palestra do quê? Do quê? Eu era um moleque que tinha dado aula de engenharia, não ia dar palestra de engenharia para empresas. Eu sabia fazer mágica, não ia dar aula de mágica. Eu queria ser palestrante. Aí eu criei um conceito maluco na minha cabeça que era assim, a empresa chama-se Aula Show, eu vou dar uma palestra para a sua empresa do tema que você quiser, você me passa o tema, eu estudo isso, junto mágica e faço um show com o seu tema. Falei é isso. E aí eu falei, vamos ver a merda que vai dar isso aqui e foi um ano assim, Lu…

Luciano             Tentando vender.

Rafael               … tentando vender…

Luciano             Venho falar do que você quiser.

Rafael               … e aí eu colocava no site, nossa, sou especialista em transformar a sua ideia num show, aula show. Sei que no ano de 2004 eu não fiz nenhuma palestra, mas foi um ano que não foi um ano de braço cruzado esperando cliente tocar, eu ficava um ano revia site, e ficava lendo coisa, eu lembro que eu pegava palestras sabe, Marins, da Leila, coisas que estavam na internet, eu ficava pegando aquelas frases motivacionais, aqueles chavões e tentando montar a minha e ninguém me contratava e cara, eu acho que eu estava prestes a desistir já, isso não vai rolar, estou há um ano fazendo isso já, o que me sustentava era a grana que eu tinha guardado, eram as aulinhas que eu ainda dava de…. para essa escola de reforço, um ou outro show que eu pegava e martelava, quero fazer palestra, quero fazer palestra e um dia um cliente me ligou. A Roche. Coincidência, porque eu tinha prestado para eles serviço. Eles me ligaram olha Rafael, a gente está pensando num evento, vi seu site, você tem experiência nisso?

Luciano             Quem te ligou não te conhecia?

Rafael               Não me conhecia, foi só coincidência por ter trabalhado lá. Eu falei claro, faço isso há muito tempo já, a minha especialidade é essa. E eu lembro que a moça que, Alexandra, até hoje é minha amiga, ela falou vou apostar em você, vamos lá, maluco, porque eles queriam falar de transtorno do pânico, queriam falar sobre Alzhimer, queriam falar de assuntos super técnicos, eu falei eu vou pegar. Peguei, estudei, estudei, estudei, tinha uma médica que me ajudava, montei um show e cara, foi um sucesso Lu, eu fiz um para eles, depois me chamaram para mais 24 cidades do Brasil inteiro, eu rodei com eles, que o objetivo não era que eu fosse um médico falando sobre medicina, não é isso, era um mágico que trazia um conteúdo e assim foi, Lu, eu fiz para indústrias de pão, para a Puratos, eu fiz para…

Luciano             Espera ai, volta lá, quer dizer, a primeira palestra que você fez foi então para a Roche num grande evento da Roche, não era um eventinho.

Rafael               Era um eventão.

Luciano             Era um eventão. E você vai chegar lá para, pela primeira vez, subir ao palco com um conteúdo que não era necessariamente o seu, mas era um conteúdo desenvolvido etc e tal e você era um moleque tímido etc. e tal que para falar de cinco pessoas tinha que se….  já tinha passado essa timidez? A hora de subir naquele palco com luz em cima, que o cara anuncia, com vocês agora Rafael… hã? Como é que é? Como é que foi isso?

Rafael               A timidez passou quando comecei a dar aula de reforço, lembra aquela escola que eu falei que eu fiquei um tempinho, dez anos dando aula de reforço, lá tive que passar, porque um aluno, dois alunos, cinco alunos, aí depois de um tempo… a aula para um foi um puta aprendizado e quando me chamam para esse super evento, esse foi acho que o maior evento, o primeiro grande evento que eu fiz, tinha quatrocentas pessoas me vendo, puta evento, sei lá, foi um misto de medo com alegria, com… acho que mais medo do que…

Luciano             Eu imagino essa sensação de você subir naquele palco e saber que o teu negócio estava ali, que aquilo não era…  você não era um professor convidado para dar uma aula, se der deu, se não der não deu também, depois vem outro professor, você era a atração do negócio lá e aí que tem um…. tem uma carga e cima do palestrante que o pessoal não se dá conta, eu vou subir aqui para falar alguma coisa, não, você quando sobe ali tem um monte de gente da empresa com o pescoço ali, se o Rafael falar merda eu vou dançar, teve gente que confiou em você, teve gente que bancou o teu nome e tem um monte de gente com o facão na mão esperando para te pegar lá embaixo e essa consciência dessa responsabilidade é uma paulada.

Rafael               … e uma das coisas que eu ouvi, que eu me lembro até hoje, foi justamente essa, Rafa o meu pescoço hoje está na sua mão. Eu falei pode ficar tranquilo, porque o que não me falta é empolgação, energia, tesão, acho que eu estava tão feliz de estar num evento grande daquele sabe, eu estudei três meses quase para poder falar aquilo, não foi uma palestra que eu falei, como hoje eu faço, ah amanhã eu faço e tudo bem, não, três meses, estudando, estudando, estudando e naquele dia eu falei putz, eu acho que existe um produto aí, mesmo eu não sendo especialista em nada, eu sou engenheiro, sou especialista talvez em cálculo numérico, mas mesmo sem ser especialista no que as empresas querem que eu seja, o produto é esse, você me dá o seu negócio e eu crio. E eu não precisava mentir, esse era eu sabe, eu não era especialista, mas naquele momento eu vou te contar uma história com o meu lúdico, que o seu é a caricatura, com o meu era a mágica e assim nasce a aula show, em 2004, 2005 eu começo fazer um monte de evento para empresas de tudo quanto é segmento, farmacêutica, panificadora…

Luciano             Que vai no boca a boca, quer dizer, aí é boca a boca, você não tinha uma máquina de propagada contando para o mundo o que aqui está?

Rafael               Não…

Luciano             Nasceu no boca a boca ali?

Rafael               … e naquela época também o que a gente tinha de informática, o que era? Era o Google AdWords, acho que só viu, porque Facebook não existia, Youtube se não me engano não existia também, ou se tinha era muito arcaico isso, em 2003, 2004, era comecinho, então era boca a boca, era internet, Google e só, e vamos embora.

Luciano             E ali ficou claro para você que aquilo era um negócio, era uma profissão e você botou na cabeça que ia seguir aquilo.

Rafael               Cara, quando subi o palco a primeira vez eu falei é isso, eu junto tudo o que eu gosto, que é palco, que é falar com gente, que eu entendi que eu gostava disso, eu podia dar as minhas aulas, ganhava-se bem por isso e eu tinha uma coisa diferente na mão e eu não precisava concorrer com Luciano Pires, com Leila Navarro, com Marins, porque o meu produto era diferente sabe, eu não estava concorrendo com alguém que falava de liderança, não, eu estava lá como um artista que fazia algo diferente, assim eu começo com a empresa.

Luciano             Quando é que a hipnose entra no jogo?

Rafael               Teve uma transição, de sai a mágica e entra a hipnose que aconteceu o seguinte, eu comecei fazer tantas palestras sobre alguns temas que se repetiam, então quase sempre as empresas queriam que eu falasse sobre mudança, sobre, sabe, liderança, sobre influência…

Luciano             É impressionante, eu faço palestra há 30 anos e os temas são…

Rafael               E continua não é?

Luciano             … é a mesma coisa, 30 anos. Não vai mudar nunca isso.

Rafael               Então, e aí uma hora eu falei assim, eu acho que dá para eu montar a minha palestra, eu não preciso mais fazer o que os outros querem que eu faça, eu posso criar também uma palestra que eu deixo aqui na gavetinha e quando eu precisar eu tiro, mudo algumas coisinhas e faço. Acho que depois de uns quatro anos mais ou menos, eu parei de fazer essas customizadas que me davam um trabalho violento, porque eram uma obra…

Luciano             Sim, geração de conteúdo que você tinha que criar do zero. Não usou, deixa num canto e parte para a próxima.

Rafael               Exato, nunca mais eu ia falar sobre pães ou remédios, ou então…

Luciano             Mas você estava ganhando dinheiro nessa época que você falou já está legal, já está dando para ganhar, para me sustentar e daqui para a frente é só crescer? Ou você tinha aquela preocupação ainda tenho que continuar “meus biquinho”, vou dar “minhas aulinha”, meu diploma de engenheiro está aqui porque talvez não dê?

Rafael               … putz, eu aprendi cedo que a grande sacada da vida é a gente gastar menos do que a gente ganha, eu aprendi cedinho isso sabe, com 16, 17 anos eu entendia isso, então eu sempre gastei um terço do que eu ganhava, a minha vida sempre foi uma vida simples, então eu nunca tive carro do ano, minhas roupas nunca foram as Nikes e….. minha mãe sempre foi muito simples, eu sou filho de marceneiro, então em casa a gente aprendeu que dá para ser feliz com coisa simples, então nunca meus custos excederam a minha entrada, meu faturamento, então graças a Deus ou a meus pais, ou às contingências da vida, eu nunca precisei me preocupar com dinheiro, não porque eu sempre fui abastado, ao contrário, porque eu sempre gastei pouquinho sabe? Então eu tinha um dinheirinho no banco, que eu falava ah, dá para trabalhar mais doiss, três meses sem ganhar dinheiro, porque o que eu tenho no banco me cobre uns três meses. Aí, óbvio, eu fui estudar mais disso, entendi que se a gente fizer um caixinha de seis meses e deixa ele quietinho lá, eu tenho seis meses que eu estou tranquilo, só que nos seis meses eu acabo trabalhando e vai entrando, então você me pergunta do dinheiro agora, eu nunca me preocupei com isso, era um jovem de vinte e poucos anos, ganhava bem, pelo que eu fazia, me divertia à beça estando lá no palco, minha vida sempre foi uma vida simples, de gastos simples e a vida começou a tocar e eu falei putz, isso é legal e é mágico, fazer algo que gosta, o dinheiro vem, Lu, putzgrila, ele vem porque você não faz esforço por isso. Bom e é isso, e aí durante um tempo eu falei sabe de uma coisa? Eu vou parar de fazer palestras customizadas, vou fazer a minha e aí eu comecei a vender as minhas palestras, então eu tinha meu tema de mudança, o tema de liderança, raso pra cacete, hoje eu vejo aquilo, me dá um desespero, Lu, putz sabe, dá vergonha alheia de mim mesmo.

Luciano             É alheia porque era daquele Rafael, era aquele lá.

Rafael               Então, mas eu fazia, entendeu? E assim foi indo até um dia que eu falei ah cara, deixa eu estudar, já que eu quero falar de comportamento humano, já que eu quero falar de… deixa eu estudar, isso era 2009, 2010, eu falei deixa eu estudar, a hipnose entrou em 2009, perguntou agora, em 2007 eu fiz um curso, aqui em São Paulo….

Luciano             De hipnose?

Rafael               … de hipnose…

Luciano             Por quê? Por que não astrologia, zen-budismo, yoga, por que hipnose?

Rafael               … lá para 2006 eu estava meio deprê, como meu pai tinha morrido em 2004, eu ainda estava num processo de luto e eu estava assim rato de curso, tudo de curso que tinha de auto qualquer coisa eu fazia, tudo o que era sobre, sei lá, auto conhecimento, auto motivação, eu fazia, eu acho que não tinha digerido ainda a morte do meu pai e uma amiga ou um contratante falou Rafa, vai ter um curso agora de PNL, alguma coisa assim, você não quer fazer?

Luciano             Programação nurolinguística.

Rafael               Eu falei faço…

Luciano             Que ano era isso?

Rafael               … 2007, 2006 mais ou menos…

Luciano             Já tinha passado a moda maluca, mas ainda estava no auge.

Rafael               … foi mais ou menos aí, a modinha começou ai por 2005, 2006, eu falei ah, vou fazer, falei não tem o que perder e nesse curso que eu fiz de PNL o professor fazia uma demonstração de hipnose, 2007 foi isso, eu saí de lá louco, porque eu falava o que eu via na televisão, que eu achava que era mentira, que era combinado, que era tudo farsa, eu vi acontecendo do meu lado com uma pessoa que eu conheço e aquele bichinho me pegou, da hipnose, falei putz, isso é maravilhoso, quero estudar. Aí eu comecei a fazer curso, fiz um curso aqui em São Paulo, logo saindo desse treinamento, já fui estudar PNL, fui para fora, fiz curso fora do Brasil, tinha pouca coisa aqui, eu me apaixonei e é muito louco, a minha vida, porque como você viu, eu vou agregando, a mágica agrega no professor, que agrega no engenheiro. Quando eu comecei a estudar hipnose, eu falei isso é muito legal para falar sobre a mente humana, para falar sobre como que nós nos boicotamos para falar dos filtros que colocam na gente, mas mostrando isso, na prática, putz, se eu chegasse numa empresa que eu faço minhas palestras, eu já falei sobre cérebro, mente, tudo aquilo e demonstrar tudo isso, vai ser espetacular, porque eu vou trazer o lúdico visível e palpável. Essa que foi a ideia de trazer a hipnose dentro das palestras, deixei a mágica um pouquinho de lado para não virar uma salada de frutas e no ano de 2009 eu estava já bem, como posso dizer, trabalhando bem como palestrante, já não fazia nada de engenharia, já estava deixando aquelas aulas, que para mim virou mais uma bengalinha sabe, eu falei putz, eu vou peitar ser palestrante, só que de novo, eu não quero brigar com Luciano e os outros palestrantes, eu quero, putz, eu quero fazer algo que realmente seja meu e diferente dos outros e aí eu começo trabalhar com palestras autorais, com meus temas, com as minhas ideias e usando hipnose junto, no ano de 2009 onde eu falo, vou estudar psicologia, quero aprender de jeito isso, vou aprender, quero ser um palestrante com uma bagagem, quero ser um hipnólogo com uma carga….

Luciano             Você foi fazer o curso, foi aprender por conta própria? O que é que você fez?

Rafael               … psicologia eu fui fazer faculdade de psicologia…

Luciano             Você fez mesmo, você cursou a faculdade todinha, você tirou diploma?

Rafael               Começo a fazer o processo seletivo, entrei na faculdade em 2009, em 2010 entrei na faculdade em 2010, finalzinho de 2010, pode ser e aí eu todo pimpão lá, feliz da vida, putz, minha casa, minha mãe, minha irmã, eu que bancava com o maior orgulho, palestrante… eu me considerava já um palestrante de sucesso, porque eu tinha meus clientes, eu gostava do que fazia. Acho que sucesso é a gente ser feliz com o que a gente faz e aí vem a bomba, explode, 17 de setembro de 2011, um maluco toma uma garrafa de cerveja, pega o carro e minha mãe e minha irmã são atropeladas, dia 17 de setembro eu perdi minha mãe e minha irmã, aqui no shopping Vila Lobos. Elas estavam saindo do shopping, veio esse cara, alta velocidade, embriagado, ele invade a calçada, hoje tem um guard rail e ele atropela minha mãe e minha irmã, as duas morrem no local e aí minha vida abriu um fungo, porque meu pai tinha ido embora em 2004, há um mês de perder minha mãe e minha irmã, a minha avó, por parte de pai, morreu, faleceu, por causas naturais e 17 de setembro minha vida explode, porque aí eu não sabia mais o que fazer, abriu um buraco. Minha mãe, minha irmã, minha casa grande, eu olho para tudo aquilo e falo e aí?

Luciano             Pois é, eu sei dessa história e nesse momento eu não sei o que dizer, porque a gente está construindo tudo e de repente vem uma dessa do destino e… que porrada, eu não quero nem imaginar o que pode ser isso, não posso nem imaginar o que aconteceu com você, não quero nem explorar esse assunto porque para mim é um pouco demais, mas eu quero explorar no seguinte sentido: quanto tempo leva para… eu não vou dizer voltar à vida normal porque ela nunca mais vai ser normal, quanto tempo leva para você retomar as rédeas da tua vida? De falar muito bem, tem que trabalhar, vou fazer acontecer, quanto tempo leva para, depois de uma porrada desse tamanho? Lembra? Não falei voltar ao normal, porque acho que nunca mais vai voltar ao normal, quanto tempo leva para você retomar a rédea e falar a vida segue?

Rafael               Pois é, eu não sei te responder, Lu, eu não sei te responder, porque eu convivi com muita gente que passou pelo mesmo que eu, justamente pela forma que aconteceu, quando acontece isso, em 2011, eu acabei me juntando a outras pessoas que também perderam parentes por conta da bebida e a direção, a gente fundou um movimento chamado Movimento Não foi Acidente, que a grande briga era conscientizar as pessoas que bebida não combina como direção e a segunda grande briga era mudar alguma lei, sabe, que punisse realmente para que as pessoas pelo menos por medo, pararem de beber, a gente… aí eu entrei numa paranoia, durante um ano quase eu ia em programas de televisão para falar sobre isso, eu ia em programas de rádio, olha, pelas minhas contas eu acho que eu dei mais de 60, 70 entrevistas durante esse ano e eu estava me iludindo, porque de um lado eu estava pensando que estava fazendo o bem para alguém, por outro lado eu comecei a entender que as mídias estavam explorando o meu sofrimento, que eles queriam que eu chorasse e tudo mais, que dava ibope aquilo lá, então para mim foi um misto de coisas, eu convivia com gente que tinha perdido pais, filhos, muitas reuniões que eu fazia com essas pessoas para a gente pensar na lei, então nesse ano, acho que foi um dos anos mais terríveis da minha vida porque era um misto de o que eu mereço, quem sou eu, o que eu estou fazendo aqui, já que as pessoas….

Luciano             Por que comigo?

Rafael               … por que comigo? E aí do outro lado eu via os nossos queridos governantes não fazendo nada, a gente brigava, ia para Brasília e tentava e nada era feito, eu vi coisas terríveis, como por exemplo a Bandeirantes falar isso, eu tenho gravado no ar, Rafael estamos com você. O próprio Boechat falou isso em rede nacional, estamos com a campanha Não Foi Acidente, a partir de hoje a nossa torre vai ficar vermelha apenas no dia em que as leis mudarem, leis relacionadas à bebida e trânsito, mudarem, nós vamos mudar a cor dela de volta para verde ou azul, alguma coisa assim. Então, olha só o Boechat falando isso em rede nacional, trazendo o nosso movimento, o movimento hoje, ele está com mais de 1 milhão e 200 mil pessoas na nossa página no Facebook, é um movimento grande, o Brasil inteiro, teve gente do Brasil todo que se agarrou ao movimento, criamos… quase a ONG foi criada, mas existem muita gente até hoje brigando por isso e depois de duas semanas, a Bandeirantes falava sobre isso o tempo todo, o CQC fez matéria com a gente, só que depois de duas semanas eles pararam de falar sobre isso, mas foi nítido, a antena deles voltou à cor normal e eles não deram absolutamente nenhuma satisfação, a gente começou a entender também o poder que tem as empresas, indústrias, do álcool no Brasil. Então minha vida virou uma loucura, Lu, eu não podia sair com os amigos, se tivesse um amigo meu bebendo e depois ia pegar o carro, eu já ficava puto, eu já brigava com eles, eu já não queria ir mais, nesse momento eu namorava, a minha namorada veio para casa, imagina, do dia para a noite eu não tenho mais família, então ela veio morar em casa, ela foi super guerreira, porque ela largou tudo o que ela tinha para morar comigo. Hoje nós somos casados, a gente vive juntos até hoje e eu não queria sair com ninguém, eu não queria absolutamente viver, porque para mim nada daquilo fazia sentido, o pouquinho que eu tinha de calma era quando eu estava com ela em casa, mas as palestras não faziam sentido, o meu trabalho formal não fazia sentido, o futuro para mim não fazia sentido.

Luciano             Como é que você sobe no palco com um mud desse, para motivar uma plateia desse jeito? Deixa eu te dar um exemplo aqui, aconteceu comigo, eu fui… é só um exemplo de como é que essas coisas influenciam, eu fui nas vésperas de uma palestra no Rio Grande do Sul eu fui assaltado aqui em São Paulo, uma loucura, o carro na Marginal de Pinheiros, um puta congestionamento, eu estou com meu carro parado lá e escuto um barulhinho do lado eu olho, tem um motoqueiro parado lá com um revólver apontado para mim, baixa, baixa e passa tudo aí, eu tive que dar o laptop para ele, celular e tudo mais, o cara me roubou ali na frente de todo mundo e aí o cara sai embora, vai correndo, eu estacionei o carro, aquela…. sem celular, sem nada, aquele desespero e no dia seguinte eu tinha uma palestra em Porto Alegre. Eu fiz aquela palestra com o motoqueiro do meu lado apontando a arma para mim o tempo todo, a palestra inteirinha eu tinha aquele cara do meu lado apontando uma arma para mim e na minha cabeça parecia que era outro cara falando, era eu interagindo com aquele cara e tinha um cara no palco falando com a plateia, quer dizer, eu tinha que motivar a turma que está feliz e contar piada etc. e tal, mas eu estava absolutamente noutro lugar. Eu comparado com você isso aqui é uma bobagem, mas mostra como a gente não consegue…. é difícil dissociar essas coisas. Como é que faz?

Rafael               Mais difícil do que isso foi em relação ao conteúdo da minha palestra, porque eu sempre fale sobre mudança de percepção, eu sempre falei e eu era catedrático quando o assunto era nós não temos problemas, o que nós temos, o nosso problema, o jeito que a gente percebe o problema, então imagina, eu falava sobre isso, independente do que seja um problema para você, se você mudar o jeito que você olha para ele, é o ver cheio, ver meio cheio, ver meio vazio, é para tudo, então isso era um tema da minha palestra, falar sobre mudança de percepção, que quando a gente mudava o jeito de ver, nós mudávamos a nossa vida. Aí eu te pergunto, como é que eu vou falar isso? Um lado da minha cabeça falava assim: Rafa, mudança de percepção é só mudar o jeito que você percebe. Do outro lado falando assim: cara, tua família morreu, como é que você vai mudar essa percepção para voltar a ser feliz? Então muito pior do que subir ao palco, porque depois de, vamos lá, 2004… sete anos fazendo palestra, como você disse, a gente sobe no palco e a gente faz nosso trabalho, a gente tem que entregar o resultado, o cliente…. eu vou subir e vou fazer, mas pior do que isso era um conflito interno….

Luciano             Você estava questionando uma verdade, o que era a tua verdade estava sendo questionada naquele momento. Não é bem assim.

Rafael               … como é que eu vou falar para os outros mude o jeito de você olhar que tudo muda e eu não conseguia mudar o jeito de olhar e assim, por mais incrível que pareça, foi essa dualidade que me fez… não vou falar eximir, mas superar esse luto, porque foi justamente no dia que eu mudei a minha percepção sobre as mortes da minha família inteira é que minha vida voltou a ser como era, eu tenho a minha crença, então eu quando…

Luciano             Isso era uma pergunta que eu ia fazer para você, em algum momento houve uma questão… eu não vou falar religiosa, eu vou falar espiritual envolvida no processo? Alguém te ajudou nisso? Você buscou apoio de alguma forma nisso?

Rafael               … foram as minhas palavras falando comigo, cara muda a percepção, muda a percepção, a minha mulher sempre me deu esse suporte, mas foi o dia que eu falei espera aí, um dia eu vou embora também, eu não estou aqui para sempre, não sei se vai ser daqui a 5, 10, 50, 100 anos, um dia eu vou embora também e nesse dia que eu for, eu acredito pela minha crença, eu vou estar com elas de novo, eu vou estar com a minha mãe, com meu pai, com a minha irmã, então a partir desse dia ao invés de chorar de manhã, eu agradecia, eu falava assim Deus, muito obrigado pela família que você me deu, obrigado por essas pessoas e cuide bem deles porque um dia eu vou estar junto, então eu comecei a martelar isso, eu comecei a me forçar a mudar o jeito de olhar, porque não dá para voltar para trás, já foi.

Luciano             Então deixa… deixa…. vamos elaborar um pouco mais esse momento aí porque você para pensar assim, tem que ter uma crença, se você é um cara, sou ateu, não acredito em porra nenhuma, essa tua postura não serve, porque o ateu não acredita que vai estar com ninguém, que não vai ter nada, que não vai voltar, etc. e tal, morreu, acabou, encerrou, entendeu? Então para pensar como você pensou tem que haver uma crença colocada aí e eu não quero misturar isso com religião, não me importa se é católico, muçulmano, não interessa, me interessa que há uma crença de que você, lá na frente, vai se encontrar e você pode olhar para alguém e falar, muito obrigado Deus, quer dizer, há uma crença, não me interessa como é que você desenha isso aí, mas há uma crença de que há um porvir ali. Eu só quero fazer uma reflexão aqui, eu não vou te perguntar nada aqui, eu só quero fazer uma reflexão que é um negócio que é muito caro para mim e que quanto mais eu amadureço mais isso fica claro para mim, quer dizer, a gente está vivendo numa sociedade hoje em dia que questiona demais a questão da religião, a questão de espiritualidade e tem muita gente batendo nesse ponto todo e aí você vem e me conta uma história dessa, me fala uma coisa dessa aí. Quer dizer, eu estou aqui conversando com o Rafa, o Rafa é um cara que hoje em dia muda a vida de um monte de gente, faz as palestras dele, conhece um monte de gente, dá emprego para um monte de gente, você está aí produzindo, criando coisa, fazendo coisas expositivas e consegue fazer isso a partir do momento em que você muda aquele mindset teu baseado numa crença que você tem. Quer dizer, só esse momento já mostra para mim que é totalmente válido você acreditar em alguma coisa, entendeu? Dizer que nada existe que nada interessa e que você por acreditar é um idiota, como eu estou ouvindo aí de montão, é uma tremenda de uma bobagem, porque independente de existir ou não existir aquilo que você acredita, olha o que essa crença fez com você.

Rafael               Mas sabe que eu tive uma resposta que preencheu o que você acabou de dizer com um amigo, ele é ateu, mas daqueles ateus que….. dos bons saca? Que discute com você…

Luciano             Que quando o avião for cair ele não vai falar “meu Deus me ajuda!”, ele não vai falar isso?

Rafael               … não, primeiro que ele é cético, para ele acreditar em alguma coisa ele tem que ler 30 livros, hiper, hiper ateu, grande amigo meu e ele é um cara super, mas super feliz, do bem e ele fala assim… uma vez eu falei sobre a morte com ele, ele falou assim, quando aconteceu comigo e com a minha família, eu penso assim, um dia vai acabar para mim também e se eu sofrer até esse dia, eu vou estar jogando fora essa vida que me sobrou, então interessante que quando eu converso com alguns ateus, eu vejo que não é questão da crença ou não em Deus, mas é questão da crença pela crença…

Luciano             Pelo tempo que me resta, o que eu farei do tempo que me resta?

Rafael               … é isso, então eu entendi, Lu, que o sofrimento independe se ele crer ou não crê em algo superior, mas como ele processa essa lógica na mente dele.

Luciano             Esse é o ponto que eu quero colocar, quer dizer, está tudo aí dentro da tua mente, entendeu? Está tudo aí dentro, no teu caso o fato de haver a crença, te trouxe esse alívio que fez você retomar a tua vida e voltar a fazer ou não. No caso dele que é um ateu, é a crença em que se eu não me recompor e não aproveitar, eu vou transformar o resto do meu tempo que me resta num inferno, que dizer, é aí dentro da cabeça e aquela história que você estava falando lá atrás, mude a tua percepção, que você muda o mundo onde você vive, é absolutamente válida, é assim que ela funciona.

Rafael               Pois é, quando eu levo isso para a palestra, eu não levo, eu conto essa história normalmente sem fundo musical, sem dramatizar, saca, eu conto um pouquinho e eu falo, eu não estou aqui interessado na tua crença, independente qual que ela é, mudar a percepção é mudar o jeito que você olha para as coisas e você muda a sua realidade, se você acredita em Deus, se você acredita em, sei lá, em espíritos, ou como diz meu amigo, se você acredita neste duende que está com a gente aqui do lado, não importa, mas é o jeito que você cria essa lógica, é como se nós tivéssemos um computadorzinho e a gente faz a programação dele nesse momento.

Luciano             E isso é importante para mim porque a tua crença vai impactar em mim aqui e esse é o grande lance para o pessoal, não vamos discutir se Deus existe ou não, isso não importa, me importa o seguinte, o que a crença n’Ele faz com você e que você vai acabar refletindo em mim. Então você pode entrar aqui por causa de uma crença envolto em explosivos e explodir o estúdio inteirinho porque você tem uma crença, você pode ir para a África sem um tostão no bolso para salvar a vida de quem está pior do que você lá, você pode criar um movimento que vai aliviar o sofrimento de todo mundo que perdeu, etc. e tal, você pode se dedicar a educar as pessoas sobre uma série de coisas, baseado naquela crença, por isso que é tão fundamental e importante a gente discutir, sabe… se é Deus, se é Maomé, isso é uma bobagem, a questão toda é a importância que essa coisa espiritual, ela tem em fazer com que você tome decisões na tua vida acreditando no A, B, c ou D e isso se transforme em atos que vão…..

Rafael               Claro, é o que você faz com isso, não é? É o seu ato que no final das contas vai importar.

Luciano             Quanto tempo levou para você retomar tua vida?

Rafael               Lu, quando eu entendo isso, quando eu mundo essa chavinha, ficou mais ameno, então…

Luciano             Quanto tempo levou para mudar a chave?

Rafael               … sei lá, um ano e meio, dois anos mais ou menos eu já conseguia, sei lá, compreender um pouquinho mais, digamos assim, até hoje dá aquele aperto no coração, é um momento de parar e de novo, falar aquele meu mantra que um dia eu vou estar junto, eu vejo que depende de pessoa para pessoa, mas é muito nosso essa virada da chave do outro, esperar que venha de alguém… eu sempre quis pegar as coisas com as minhas próprias mãos. Quando eu falo de ser protagonista, não é só no âmbito corporativo, é o tempo todo, protagonista para mim é você entender que está sofrendo, o que eu posso fazer para melhorar isso? Procurar ajuda em outro ou buscar em si mesmo? Eu acho que é o tempo todo trazer para sim as rédeas da vida. Eu acho que um ano e meio ou dois anos, lá para 2013, 2014 eu já estava mais… chorei em algumas palestras, é normal quando eu contava isso vinha a emoção e a vida segue, hoje eu gosto de pensar nelas, sabe quando eu entro no palco, eu olho lá para cima e falo putz, vocês estão comigo aqui, vamos junto, vai ser incrível hoje, é usar do sofrimento para te por pra frente e não para ficar buscando culpados. O mais difícil para mim até hoje, que eu acho que para mim foi a maior superação, foi perdoar o cara que atropelou e matou elas.

Luciano             Então, é difícil falar a respeito disso com você porque eu não consigo me colocar no teu sapato, nunca vivi isso, espero por Deus também jamais viver uma coisa assim e para mim fica muito complicado, que isso para mim é uma coisa imperdoável, é imperdoável, mas eu já ouvi de muito gente que perdoou que o perdoar é um ato de libertação, você meio que se liberta ao perdoar. O que aconteceu com esse cara? O cara foi preso, não foi, está vivendo a vida dele na boa, você encontrou com ele?

Rafael               Não, ele nunca veio procurar a gente nem a família, ele não teve uma carta, não teve uma ligação, ele ficou preso, se eu não me engano, por uma semana, alguma coisa assim ou menos e saiu. Então não ficou preso como deveria, não pagou por isso, o cara está vivendo e dizem alguns ainda que já o viram tomando umas por aí.

Luciano             Esse processo continua na justiça ou não?

Rafael               Continua, não aconteceu nada até hoje, já são sete anos já e vai para o sétimo ano agora e nada aconteceu. A importância do perdoar, Lu, foi por conta do que estava fazendo comigo, porque o tempo todo que eu fechava os olhos e me lembrava que ele estava vivo ainda, vinha a vontade de fazer alguma coisa, vinha a vontade de, sei lá, ir encontrar o cara, então o perdão é muito mais em relação a mim mesmo, sabe, de tirá-los das minhas costas do que falar não, parabéns, eu assino embaixo, não é isso. Perdoar não é você ser complacente com o que aconteceu, não é você dar razão para o outro, perdoar é tirar dos seus ombros o peso e dizer agora está na mão da justiça, eu vou fazer o que tiver que ser feito para que ele pague por isso, mas minhas noites de sono não são mais incomodadas por conta dele, eu prefiro usar esse tempo para pensar nos bons momentos que eu tive com elas.

Luciano             E quando alguém chega para você e fala Rafael, você é trouxa, você tem que se vingar etc. e tal, essas pessoas estão pregando que você faça com que os dias que te restem sejam dias de ódio e de amargor e de tortura de imaginar quão mal eu posso causar a esse cara para me vingar do mal que ele causou a mim e talvez viver uma vida assim não valha a pena. De novo, não é uma questão de ser bonzinho, de ser…. eu acho que é uma questão de auto sobrevivência, acho que se você tentasse fazer alguma coisa para o cara quem ia dançar era você, você ia se ferrar, ia acabar sobrando para o teu lado e tudo mais e eu não sei se isso vale a pena.

Rafael               Além do que, você querer puni-lo e acabar sendo punido junto, porque aí você se iguala a ele, então é como se você estivesse fazendo a mesma coisa que o outro fez, eu hoje se alguém, ninguém falou isso até hoje, na verdade o que eu tenho que fazer é me livrar de vizinhos que vem chorar na minha porta, minha casa virou um templo durante quase um ano, os vizinhos vinham chorar, eu tinha que me livrar dessas pessoas…

Luciano             A dor deles trazer para você a dor deles

Rafael               … pois é, quando vinha chorar eu já… dá licença, eu tinha que fugir porque se não eu vou na vibe, saca? É como eu falo, o que é hipnose que eu estudo já aí desde 2007? É simplesmente você mudar o seu padrão mental. Ponto, é isso. Então se eu surfar na vibe deles, eu acabo caindo junto, então para a gente elevar o nosso nível mental é uma constante luta, uma constante briga, porque você abre o jornal de manhã, você vê duas, três notícias, você ouve aquele cara que ele é mais negativo, você está na vibe que a gente está em crise, que está tudo ruim e assim por diante.

Luciano             Bom, não é negar a realidade, você não está pregando negar a realidade, você está pregando falando o seguinte bom, o que eu faço com essa realidade e o que eu tenho batido nas palestras, tem gente que não gosta também que eu faço o seguinte, eu falo o mundo é assim, o mundo é injusto, o mundo é desigual, o mundo é um horror, você precisa aceitar que o mundo é assim, você só não pode se conformar com que ele seja assim, então qual é a diferença? Muito bem, eu sei que ele funciona assim, eu sei que vai ter um mendigo na rua e vai ter o mendigo para o resto da vida na rua, nunca vai mudar isso aí porque o desenho do mundo é assim. O que eu posso fazer? Eu não posso me conformar com isso e eu preciso fazer alguma coisa a respeito que esteja ao meu alcance, que não é pegar uma arma e ir para a rua fazer uma revolução e quebrar tudo que está aí, é tomar as providências para resolver o que tiver em volta, o que está no meu alcance, como é que eu posso contribuir de alguma forma. Eu Luciano, escolhi fazer isso que eu estou fazendo aqui, contar a tua história, contar para pessoas, talvez tenha alguém que está passando o que você passou, ouviu isso aqui agora, vai ter algum tipo de inspiração pelas tuas palavras e para mim isso é contribuição que eu posso dar, a contribuição com o material que eu faço e etc. e tal, então eu encontrei um jeito de fazer, porque eu não me conformo com isso tudo, agora, eu não sou idiota a ponto de vamos às armas, queremos um mundo igual, não vai ter nunca, então é aceite que o mundo é assim, mas não se conforme que ele é assim e faça alguma coisa a respeito. É jogo duro. Muito bem, como é que estamos hoje?

Rafael               Putz, hoje eu estou feliz demais, Lu, com um monte de projeto, eu comecei um canal da internet para falar sobre hipnose, faz dois anos, que é o canal O Hipnólogo, porque mesmo continuando com as palestras, a arte sempre está comigo, sempre está do meu lado, o canal, ele está com quase meio milhão de pessoas, então é muito legal.

Luciano             Deixa eu fazer uma pergunta para você aqui que tem muita gente que está ouvindo e quer perguntar. Gente olha eu já participei de palestras, já vi a palestra acontecendo, já estava lá presente, eu vi aquilo tudo acontecer já vi em outras ocasiões, mas vi e com o Rafa o negócio é diferente porque a gente é amigo, a gente está lá, nós estamos juntos, a gente conversa junto, ele nunca abre para ninguém as minudências do que ele faz lá, o trabalho, ele tem uma hora de mistério ali que eu acho que faz parte dele e faz muito bem em ser assim, mas eu vi gente da plateia reagindo e eu vi aquelas coisas acontecendo com gente ali, que eu falei ele não conversou com essa pessoa lá fora, eu estava com ele até agora há pouco e acontece “uns treco” estranho ali, mas fica sempre aquela história, tem uma puta de uma armação porque na minha cabeça é aquilo que eu vi na televisão, é o Silvio Santos sentado, você do lado dele, ai patrão e você sacaneia o Silvio Santos, ele imita galinha, aquela história toda, falei isso é para dar ibope, isso é uma puta armação. É ou não é armação?

Rafael               Putz Lu, pois é, olha hoje vamos dizer que desde 2009, 2010, quando eu comecei a colocar hipnose nas palestras, são sete anos já, o que eu faço é com você, eu vou até empresa que contrata a gente, eu faço a minha palestra e no meio da palestra eu falo vou explicar agora de uma forma lúdica, a gente falou sobre mente, sobre cérebro, sobre mudança de comportamento, mudança de atitude, vou mostrar como que nossa mente é capaz de coisas que a gente não imagina, só que vou mostrar isso de uma forma diferente, vou mostrar com hipnose. Então hoje, hoje em dia nas palestras eu faço isso, eu não vou com uma equipe comigo, eu não levo 12 pessoas para serem hipnotizadas, eu chego em empresas quadradas, empresas menos quadradas e eu faço um número de hipnotismo não apenas para o pessoal dar risada, para brincar, não, mas é para mostrar como nós podemos realmente mudar nossa percepção e como que o nosso corpo, ele aceita e ele reage a isso, então ver uma pessoa ali no palco fazendo ou não conseguindo fazer algo que ela faz normalmente, coloca em cheque também algumas verdades que a gente tem, então o lance da palestra é isso e aí você pergunta, é combinado? Não posso, não dá para ser combinado, imagina a Nakata, que é uma das…

Luciano             Nosso patrocinador.

Rafael               … nosso patrocinador, imagina eles me contratam, eu vou lá e falo olha, só que eu preciso combinar com dez pessoas antes, acho que eu seria queimado em menos de duas palestras, então não é combinado, isso também, claro, não tira a possibilidade de algum hipnólogo anti ético combinar com pessoas, estou falando por mim. Nada é combinado, a hipnose nada mais nada menos do que você rebaixar ao que nós chamamos de faculdade crítica, você vai gostar disso, a nossa mente consciente, todos nós temos uma faculdade crítica, se eu falo para você que minha camisa é vermelha, agora você olha e fala não. Se eu falo para você que eu sou uma mulher, você vai falar não. Se eu falar sobre religião, sobre aborto, sobre time de futebol, talvez você diga não e essa mensagem nem entra no seu, que a gente chama de subconsciente, quando a gente rebaixa essa faculdade crítica, tudo vira verdade, então se eu hipnotizo uma pessoa e tem técnicas para isso, a faculdade crítica dela é rebaixada, nesse momento o que eu digo para ela vira verdade absoluta, então eu falo, por exemplo, a pessoa esquecer do próprio nome, uma pessoa que é palmeirense vira corintiana, vira são-paulina…

Luciano             Enxerga o outro nu.

Rafa                  … enxerga o outro nu na frente, e tem uma coisa engraçadíssima que eu faço na palestra, sempre ético, não é nada para tirar sarro da pessoa…

Luciano             Ou envergonhar a pessoa.

Rafael               … nada, eu faço isso em ambienta corporativo já, então não tem porque fazer isso, mesmo que fossem meus amigos, eu quero que as pessoas falem bem de mim e não o contrário, então eu digo que a cadeira deles tem cola, eu falo pessoal eu tenho aqui na minha mão mil reais, eu levo 10 notas de 100 para ficar mais divertido ainda, eu falo quem ficar de pé ganha os mil reais. Você vê diretor de empresa, gerente, o pessoal que trabalha nas empresas, tentando levantar e não levanta. Então o que parece armação, na verdade é faculdade crítica rebaixada, uma ideia que veio do externo, isso é internalizado e a partir do momento que o subconsciente compreende isso como verdade, a pessoa não faz.

Luciano             Então, mas existem pessoa que são sugestionáveis e outras que não são sugestionáveis e pelo que eu vi, o momento crucial da tua palestra, é aquele momento que você faz o primeiro exercício daquele de prender os dedos e você numa plateia de 100 pessoas encontra 12 cujos dedos não desprendem e os outros 88 os dedos os dedos “desprendeu” e aqueles que não desprenderam os dedos são os sugestionáveis que você chamou para o palco e aí você…

Rafael               Lu, com todo respeito a você que é o dono do programa, 100% das pessoas são susceptíveis à hipnose, vou te explicar porque: a hipnose também, além da apresentação como eu faço em palco, ela pode ser usada num ambiente terapêutico, clínico…

Luciano             Então, mas ai o que eu quero…. porque eu estou falando isso para você…

Rafael               … eu vou chegar no palco…

Luciano             … não então, por que estou falando isso para você? Eu entendo que se estiver eu e você num ambiente terapêutico sentado aqui, você vai fazer eu virar Marlene Dietrich aqui e eu vou virar porque nós dois estamos num ambiente controlado. Em dez minutos num palco, com cem caras olhando, com barulho, é complicado, até você falar concentre-se numa coisa é muito complicado, por isso que eu olho aquilo e falo como é possível fazer uma coisa dessa nesse ambiente incontrolável?

Rafael               … bom, em alguns cursos que eu hoje ministro sobre hipnose, bem técnicos sobre hipnose, tem gente no curso, são dois dias, que não são hipnotizadas mas nem a pau, muita gente falando, gente olhando, mas quando o ambiente é terapêutico e aí vai embora, aí então o que significa isso? Que todo mundo pode ser hipnotizado, 1. Segundo, todos somos susceptíveis à influência externa, se não fôssemos não falaríamos nosso idioma, não pensaríamos como a gente pensa, então todo mundo já foi influenciado algum dia pela religião, ou pelos pais, ou pela sociedade. Hipnose não é nada mais, nada menos, do que uma forma de influência. Só que no palco você já matou aqui, você já fez a pergunta e já respondeu, putz, o meu diretor está olhando, tem muita gente aqui, tem barulho, então não tem como, seria impossível eu hipnotizar 100% de uma plateia de 500 pessoas. Segundo, eu tenho pouco tempo, então a minha palestra inteira não é sobre hipnose, minha palestra em uma hora e meia normalmente, eu faço uma hora falando, palestrando e 30 minutos de hipnose, então nesses 30 minutos é muito rápido, porque eu tenho que explicar o que é hipnose, eu tenho que fazer a indução, aí eu faço uma seleção. Então como você falou, gruda a mão, eu seleciono algumas pessoas e aí com essas pessoas eu faço, quer dizer, não é que a pessoa não é susceptível, é que naquele momento essas estão mais susceptíveis do que as outras.

Luciano             Mas é muito interessante, eu fico torcendo para o meu dedo prender e não prende, porra. Grande figura, vamos lá. Estamos chegando no nosso…. já deu o nosso timing aqui, Rafa, quem quiser te encontrar, quem quiser fazer o curso, entrar no teu canal do Youtube, contratar para palestra vai lá, manda o jabá aí, como é que funciona?

Rafael               Tá bom, bom, vou dar meu site que lá é um portal que tem todas as informações, é só você entrar em www.rafaelbaltresca.com.br

Luciano             Daí tem um caminho para todo esse lado. Você tem algum livro? Fez algum livro?

Rafael               Eu tenho um livro terminando aí no computador, quase para ser editado, eu tenho alguns CD’s…

Luciano             Tem um podcast.

Rafael               … tenho um podcast…

Luciano             Como é que é o nome do podcast?

Rafael               … é o Balquest.

Luciano             Balquest… (ele soletra)

Rafael               Isso, tem um monte de coisa de mágica minha na internet também que até hoje me chamam para fazer apresentações em congresso de mágica.

Luciano             Que você adora.

Rafael               Tem um monte de coisa pela internet.

Luciano             Legal. Muito bem, acho que foi um papo interessante, legal, é bom conhecer a história e saber dessas coisas. A gente tem a oportunidade de estar sempre junto, nós fazemos parte de um grupo aí que vira e mexe está fazendo eventos e se encontrando e fazendo as coisas juntos lá, é interessante porque cada um de nós tem uma personalidade, tem um tipo de apresentação. O que o Rafa faz não tem nada a ver com aquilo que eu faço e é fascinante estar os dois no palco e de repente sai um, entra o outro e a cabeça das pessoas fica a milhão, pô saiu um cara com uma reflexão importante sobre política e sociedade, agora entrou um cara que vem falar de como é que a minha cabeça é feita, no final das contas tudo aquilo se junta e forma uma coisa adiante que é aquela história de que você pode mudar a tua realidade se você tiver aquilo que você falou, a chavinha para mudar essa percepção que eu chamo do mindset, que é o que está na moda, é tão bonito falar e acho que no fundo no fundo o meu trabalho tem sido parecido com o seu, eu só não hipnotizo as pessoas, agora a ideia é fazer esses bichos mudarem o comportamento.

Rafael               Como eu estava te falando hoje no nosso almoço, eu estava vendo um curso de neurociência da Carla Tieppo, super curso e estudando on line com ela um pouquinho por dia e a gente entende um pouco mais da nossa mente e a gente vê qual a potencialidade que a gente tem, tantas conexões, tantas coisas acontecendo agora nessa máquina e nós palestrantes a gente tenta dar um chacoalhão para a pessoa sair de lá falando putz, eu posso também, eu acho que se a gente impactou uma pessoa hoje nesse nosso podcast já estou feliz.

Luciano             E não é motivação barata isso, pelo contrário, isso aí quando o Rafa vai lá ou quando eu vou lá, eu estou contando a minha história, você está contando a tua história e aqui o LíderCast faz isso, eu conto histórias de pessoas que olharam e falaram eu vou dar um jeito de chegar lá. Como é que eu vou chegar eu não sei, uma coisa que eu sei que eu não vou fazer é ficar sentado aqui esperando que aconteça ou que me deem de presente, alguns tem uns obstáculos no meio do caminho como esses seus que são gigantescos, mas que a gente aprende que de um jeito ou de outro você pode passar por lá. Meu amigo, obrigado pela visita…

Rafael               Valeu, obrigado.

Luciano             … venha mais vezes, estamos aí e é muito bom ser teu amigo.

Rafael               Pô cara, muito obrigado, eu que sou fã já do LíderCast, você sabe disso, eu sou um dos que ouço e já escrevo para o Lu, Lu cacete, muito bom, parabéns, e tal. E aí quando você me convidou para vir para cá eu pulei de alegria, contei para todo mundo e é um prazer ser seu amigo também, muito obrigado pela generosidade que você tem.

Luciano             Vamos lá. Um abraço.

Rafael               Tchau!

 

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo.