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Ciça Camargo -

Luciano             Muito bem, mais um LíderCast e esse aqui eu vou começar assim, olha: há muitos e muitos anos atrás, numa galáxia far far away, uma galáxia muito distante eu conheço uma figura que chega a meu intermédio através de um amigo comum que me falou de um cara interessante que escrevia uns textos interessantes, que tinha uma história interessante, eu nem sabia quem era a figura e fui conhecer um tal de Salgado e Picante e hoje nós estamos aqui, muito tempo depois a gente está reunido para gravar aqui um LíderCast que esse tem café no bule, esse tem história para contar. Três perguntas fundamentais do programa, as únicas que você não pode errar, que são seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Labi                   Meu nome é Labieno Gabriel Salgado de Mendonça, mas nem minha mãe lembrava que era esse nome, eu sou conhecido por Labi Mendonça, a minha idade hoje é 67 e o que que eu faço? Aí vamos precisar de uma hora e meia de programa.

Luciano             Mas você, quando você vai se hospedar num hotel e o cara bota aquela folhinha perguntando profissão, o que você põe ali?

Labi                   Cineasta.

Luciano             Opa! Cineasta, olha ai, está bom isso aqui. Onde é que você nasceu, Labi?

Labi                   São José do Rio Preto, interior de São Paulo, 1950, ano santo, aí alguém tinha que nascer ao avesso, tinha santo demais na história…

Luciano             E o Brasil estava para pegar fogo, estava para dominar o mundo. O que seu pai fazia? E sua mãe?

Labi                   Meu pai era médico e pecuarista e minha mãe era filha de um embaixador, formou-se em letras na Europa, então ela fazia traduções por encomenda, na época não existia essa dinâmica tão grande.

Luciano             Formada em letras na Europa nos anos 50, vai para o interior de São Paulo.

Labi                   Anos 40, foi passar férias no interior de São Paulo, em Araraquara, conheceu meu pai…

Luciano             Que devia ser um playboy lá, alguma coisa assim.

Labi                   … meu pai era um estudante de medicina mais pra playboy do que para médico e aí se apaixonaram. Dançarino de tango exemplar, minha mãe dançava muito bem e aí surgiu uma paixão fulminante e aliás tem uma história engraçadíssima, que meu avô não queria que meu pai fosse para os EUA, a ideia dele era ir para os EUA se aperfeiçoar em cirurgia e aí meu avô comprou um laboratório de análises completo, mandou montar e instalar com o que havia de mais moderno, levou para ele e falou esse é o seu presente de casamento, você não perde essa moça de jeito nenhum e meu pai casou com a minha mãe.

Luciano             Já ganhou de presente o negócio dele.

Labi                   Um laboratório de análise que ele teve que administrar durante alguns anos.

Luciano             Você tem irmãos?

Labi                   Eu tenho, tive um irmão, que era bem mais formoso e mais culto do que eu, Casemiro Xavier de Mendonça, foi editor de artes da Veja, foi curador da Bienal e tenho três irmãs, que eu digo que são mais velhas, mas elas são mais novas do que eu, uma advogada, uma psicóloga e uma médica.

Luciano             O que o Labizinho queria ser quando crescesse lá nos anos 60?

Labi                   No começo soldado, era paixão, porque eu tinha tido os militares e tinha paixão por farda e guerra e luta e tal, depois boiadeiro, porque fui criado na fazenda mexendo com gado, cavalo, meu sonho era ser boiadeiro e aí meu pai disse só vai ser boiadeiro se estudar e aí então eu resolvi estudar, mas inicialmente arquitetura, desisti de arquitetura, depois administração de empresas, desisti de administração de empresas, aí veio a Copa do Mundo de 1970 e eu fui para o Rio de Janeiro e passei a Copa do Mundo no maior carnaval na cidade maravilhosa numa época em que o Rio era absolutamente encantador…

Luciano             21 anos, 1970…

Labi                   … é, 20 anos no Rio de Janeiro, meu Deus.

Luciano             … o Rio era maravilhoso, a gente samba, cada vitória da seleção brasileira era um carnaval, a cidade… eu amanheci um dia no morro da Mangueira, eu não sabia como é que eu tinha ido parar lá e aí tive que pedir para os caras me levarem de volta, porque eu não sabia. Os caras falavam sozinho aqui você não anda, tem que ser escoltado.

Luciano             1970 era o ano de ouro do Rio de Janeiro, tudo estava acontecendo lá, era o lugar da garota de Ipanema, era o lugar do Pasquim, era o lugar do cinema novo, era o lugar do Tom Jobim, da bossa nova, tudo acontecia lá no Rio.

Labi                   Tudo, Chico Buarque, Caetano Veloso, a turma na praia, eu me lembro, a minha turma na praia naqueles anos, a gente era assim, era Ney Matogrosso, Paulo Coelho, Antonio Garrido, fotógrafo, Sônia Braga, era uma folia e eu lá na turma querendo um espaço para aparecer.

Luciano             Mas você foi lá para passear.

Labi                   Não, eu fui, é, na copa do mundo eu fui para passear, fui passar a copa do mundo lá, meu primo era estudante de medicina, tinha uma república e eu fui para lá, eu falei não existe outra cidade no mundo que eu queira…

Luciano             Você não estava formado?

Labi                   Não, eu tinha abandonado dois cursos superiores, já fazendo primeiro ano, abandonei…

Luciano             E aí pai me dá uma grana que eu vou para o Rio de Janeiro…

Labi                   Não, nem pai, naquele tempo eu já tinha meus negócios, eu já tinha minha grana e tal, fazia uns bicos.

Luciano             Então para, então vamos voltar um pouquinho atrás aqui, você sabe que esse aqui é um programa que fala de liderança e empreendedorismo e essa investigação que eu faço é para buscar, de onde vem o gênio empreendedor, de onde vem… por isso que eu pergunto o que o pai faz, a mãe faz, pra gente saber o que te influenciava. Você quando desiste dos dois cursos, que era cursos, você falou, era arquitetura e administração de empresas, você devia estar com 19 anos, alguma coisa assim…

Labi                   É, tinha acabado o exército.

Luciano             … aí teu pai olha e fala, moleque e aí? Vamos …

Labi                   Já que você não está fazendo nada, eu tenho uma fazenda para você tomar conta lá em Goiás, estou abrindo uma fazenda lá e eu fui para lá e comecei a abrir a fazenda, ajudar meu pai a abrir a fazenda e nessa você compra gado, vende gado, faz negócios e nas férias, numas férias anteriores eu tinha ido ao Paraguai comprar cavalos para contrabandear para o Brasil para vender, porque você comprava cavalo por 2 cruzeiros e vendia por 200, quando chegava aqui.

Luciano             Contrabandista de cavalo.

Labi                   É, era aventura, com 18 para 19. Era aventura naquele tempo. Ia lá comprava tudo quanto era cavalo que tinha, fazia uma tropa, ia com cinco peões, íamos com os arreios nos sacos de dormir e tal e aí chegava lá, comprava alguns cavalos, arrematávamos a tropa nas fazendas e depois vínhamos, levávamos três meses viajando e tal, aí juntava dinheiro. Isso dava capital para comprar gado e botava na fazenda e começava a negociar com isso, então nessa época eu já tinha o meu…. e quando eu trabalhava para abrir a fazenda, eu tinha receita, eu tinha salário em retirada, então, imagina, tinha casa, comida, roupa lavada e ainda tinha salário e carro para andar, então eu juntava dinheiro e com isso eu podia fazer meus esquemas, mas antes a vida de empreendedor, quando eu fiz cursinho aqui em São Paulo ainda, nos anos 69, eu também, meu pai me dava conta para pagar o cursinho e para…

Luciano             Não tinha moleza, você não era playboy aqui não.

Labi                   … não, pelo contrário, tinha vida muito…. e dividia apartamento e tal. Aí eu pegava todo o dinheiro, porque o cursinho dava para pagar no dia 10, tinha prazo até dia 10 e o dinheiro chegava no dia primeiro, então eu corria para Santos no contrabando, comprava calça jeans, não sei o quê, já nos números dos caras do cursinho que me encomendavam, trazia, até o dia 10 eu tinha que desfazer de tudo.

Luciano             Contrabando de novo.

Labi                   Contrabando de novo.

Luciano             Porra Labi, você começou a vida na marginalidade é isso

Labi                   Dizem que o Drumond se inspirou, falou assim, vai Labi ser gauche na vida.

Luciano             Meu Deus, já vai ter neguinho me enchendo o saco nos comentários, ah cara começou…

Labi                   Naquele tempo era mais aventura do que marginalidade, era mais… a aventura de fazer coisas arriscadas e todos nós passamos por racha de carro de madrugada…

Luciano             Gravar umas fitas para vender para os amigos as “fita gravada”.

Labi                   … já no tempo, ainda no colégio, eu desenhava aqueles desenhos do tipo do Carlos Zéfiro para trocar por grana para comprar lanche no colégio.

Luciano             Quem não sabe o que era Carlos Zéfiro, o maior desenhista de catecismos e o catecismo era uma revistinha de história em quadrinhos de sacanagem, sacanagem não, aquilo era putaria da grossa e a molecada ficava enlouquecida atrás das revistinhas e você fazia desenho de catecismo.

Labi                   Eu fazia, tinha um empresário que me encomendava as pranchas… eu fazia no mimeógrafo, então eu fazia o desenho, passava para o traço lá, daquele estêncil e depois ele rodava no mimeógrafo tirava vários exemplares e vendia na matinê do cinema.

Luciano             Você que está de boca aberta aí, bota no Google mimeógrafo, você vai entender o que era, eu estou sentindo cheiro de álcool aqui agora.

Labi                   É verdade. E era tão arriscado, porque naquele tempo, veja, em 64 já tinha a ditadura estava aí, então ter esquema de mimeógrafo era arriscado, dava cana mesmo, então me encomendava, eu fazia as pranchas, fazia os originais e tal, depois ele levava…

Luciano             Você fez o cursinho em São Paulo…

Labo                  Anglo Latino.

Luciano             … com intenção de fazer o quê?

Labi                   Eu fui fazer arquitetura, aí passei, pra você ter ideia, é porque como eu era muito vagabundo e tomei muito pau, com essa coisa de viajar, de buscar contrabando fora e tal, eu chegava, perdia o ano por falta e aí quando eu terminei a quarta série ginasial eu tinha 18 anos, como é que eu vou fazer, os meus amigos todos indo para o vestibular, indo para a faculdade, ai eu fiz um ano louco de estudar como um doido, no Anglo Latino, eu era o penúltimo aluno de quatro mil alunos, na primeira prova, eu era o penúltimo aluno e eu rachei tanto que no meio do ano eu já estava na turma G, quase tinha passado 60% dos alunos, então já tinha pontuação para passar no vestibular, aí eu fiz o artigo 99, consegui o segundo grau…

Luciano             O que era artigo 99?

Labi                   … é o que chamavam de madureza, você fazia uma série de provas, se inscrevia, fazia uma série de provas, tinha o certificado de segundo grau…

Luciano             E você saltava…

Labi                   … saltava direto para o vestibular, você não conseguia fazer matrícula sem o certificado de segundo grau, então eu consegui o certificado.

Luciano             Que depois virou supletivo.

Labi                   Supletivo.

Luciano             Que depois virou supletivo.

Labi                   Exatamente. E aí depois eu fui para… me inscrevi no vestibular e todo mundo desesperado que tem que passar, para mim qualquer coisa era lucro, eu já tinha conseguido eliminar quatro anos de atraso na minha vida, eu passei e as pessoas, minha própria irmã que também queria engenharia, não passava no vestibular, falou mas como é que você que é um vagabundo, não estuda passa e eu não? Mas eu não achei que era, depois com a experiência, São Paulo arquitetura, conheci pessoas, eu fui vendo que arquitetura não era muito bem o que eu queria…

Luciano             Você foi fazer onde arquitetura? Você chegou a entrar?

Labi                   … cheguei a entrar, não cheguei a fazer, passei no vestibular e não fiz, aí abriu outro vestibular para administração de empresas, eu passei também, aí eu passei, por incrível que pareça, com a segunda nota e aí fui lá, fiz matrícula e tal, mas meu pai teve um enfarte e eu tive que assumir, ele tinha três fazendas na época, eu tive que assumir, então acabei não fazendo.

Luciano             Lá nas fazendas você não era um vagabundo? Nas fazendas você botava pra rachar?

Labi                   Não, trabalhava, eu nunca fui vagabundo, sempre fiz muita coisa.

Luciano             Vagabundo que eu digo na escola, naquela coisa de não vou estudar, esse é o tipo, mas… deixa eu dizer uma coisa, chamar a atenção para você numa coisa aqui, 67 anos, então olha para trás, para aquele Labi de 19, 18 anos, que não queria nada com nada na escola, que estava com…. o que era aquilo? Já era uma escolha de vida? Era porque você não entendia o tempo que você ia perder na escola, o que era que fazia você ser o…

Labi                   É um conjunto de coisas, quer dizer, sem parecer presunçoso, eu sempre fui um cara muito rápido e eu percebia que tinha uma perda de tempo de determinadas coisas na escola, a pedagogia, a didática não era como é hoje, então você ficava estudando uma coisas que você sabia que já não era mais necessário e como eu era um cara que lia muito, eu tive acesso a livros, eu cheguei a perder ano de reprovação porque eu matava aula para ler livro, então eu tinha uma bagagem muito grande…

Luciano             A mãe em casa dando uma força.

Labi                   … é nada, eu saía para a escola, depois eu subia num árvore, ia para o telhado, me escondia no telhado e ficava olhando os romances, 100 anos de Solidão eu li, eu estava no colégio, segunda ou terceira série colegial…

Luciano             Aí depois você descobriu Adelaide Carraro.

Labi                   Na minha casa nunca teve censura para informação, nunca teve, nisso tanto meu pai quanto minha mãe tinham uma abertura muito grande e eu sei que…. então eu vou respondendo à sua pergunta, eu era muito rápido nas coisas, eu olhava para aquilo falava…. e a vida cheia de possibilidades, então eu jogava futebol eu era esportista, eu fiz natação, eu fui estudar natação porque não parava no futebol, porque o técnico falou ou você faz natação ou você faz futebol, as duas coisas não são compatíveis, então abandonei natação, mas eu cheguei a fazer natação, salto ornamental, salto mortal, tudo o que fosse de aventura era comigo, o que…. eu montava, esses rodeios que hoje tem…

Luciano             Festa de peão de boiadeiro.

Labi                   … é, eu montava em cavalo chucro mesmo e ficava lá mais de 8 segundos, porque são chucros mesmo, não tem essa coisa de rodeio e eu adorava aquilo, montava em boi, volta e meia o boi me esfregava nas tábuas do curral, fiquei com a perna toda ralada, joelho inchado.

Luciano             Mas ali você tinha uma perspectiva então, aquilo podia vir a ser seu futuro, você achava que seu futuro estria ali na pecuária?

Labi                   Na verdade o meu modelo sempre foi ser um voluntário da legião estrangeira, eu desde pequeno meu sonho era ser um guerrilheiro da legião estrangeira, depois mudou, veio a guerra do Vietnã eu já fiquei achando que eu ia ser um daqueles…

Luciano             Mariners lá.

Labi                   … é, um desses…. fiz o exército, diz questão de fazer exército, fui treinado e tive treinamento especial na selva, eu sempre gostei de aventura, então essas coisas eu achava que a vida tinha aventura demais para você escolher uma coisa só e eu tinha que conhecer, isso marcou a minha vida toda, quer dizer, hoje eu…. fui publicitário, trabalhei muitos anos com publicidade no Rio de Janeiro, bem sucedido, depois resolvi mexer com cinema, fiz cinema e na área de cinema eu fiz N trabalhos…

Luciano             Não dá spoiler, nós vamos chegar ali. Mas vamos lá, você chega no Rio de Janeiro, garotão, os hormônios saindo pelo suor…

Labi                   Como é que eu cheguei no Rio de Janeiro? Eu fui lá, vi a copa do mundo e falei chega para mim Aí meu pai já tinha se recuperado do enfarte, assumido a fazenda, eu falei olha, eu quero ir para o Rio de Janeiro, vou para o Rio de Janeiro, vou estudar no Rio de Janeiro. Ele falou assim por tua conta, você está grande demais para eu te sustentar e eu fui para o Rio de Janeiro e fazia vitrines, eu era decorador de vitrines, ganhava uns trocados e tal e fui pra lá, fui morar, dividir…. morávamos três estudantes num quarto que quando ficavam os tres colchões não dava para andar, era uma kitchenette super apertada e que uma madrugada eu acordei, ela estava infestada de baratas porque o prédio em Copacabana, as baratas subiam pelas paredes, pelos ralos e de noite todo mundo dormindo, eu acordei à noite, acendi a luz, o chão coalhado de barata, falei aqui não fico mais, vou embora e ai eles foram comigo e assim… mas eu fiz uma negociata, tinha um prédio que ia a leilão, tinha um apartamento que ia a leilão, porque há muitos anos não se pagava condomínio e tal, eu fiz um acordo, paguei , dei um sinal, parcelamos o resto e eu comprei um apartamento no Flamengo e aí esses meninos foram dividir apartamento comigo e com isso eu vivi de graça, porque eu alugava um quarto do apartamento e aí com meus bicos, aí eu fui desenhista, eu tinha um amigo que conhecia o diretor de arte da DPZ de Belo Horizonte, que depois foi para o Rio de Janeiro, um cara famoso, o Nogushi. Nogushi fez as capas dos discos do Milton Nascimento, fazia capas de livros, ele era um grande diretor de arte, um grande ilustrador e fizemos a decoração, todo o desenho da decoração do Café de la Paix, que estava constRuyndo o Meridian em Copacabana e eu fui assistente dele. Me colocou lá como assistente, eu comecei a trabalhar com ele, um ano depois eu já fui para diretor de arte de uma produtora…

Luciano             Já carteira assinada e tudo mais? Naquele esquema mais ou menos, não é?

Labi                   … mais ou menos, é, para você ter ideia eu tirei minha carteira em 1971 e até hoje não tem nenhuma assinatura de contrato na minha carteira, eu tenho minha carteira absolutamente…. Você nunca trabalhou na vida? Falei bom…

Luciano             Só fiz isso, não é?

Labi                   … só fiz isso e fiz N coisas, diretor de arte, ilustrador, desenhista, fotógrafo, assistente de estúdio.

Luciano             Mas vem cá, você teve uma época lá que você, garotão bonitão, queimadão da praia, sunguinha pra lá e pra cá, você ganhava grana de uma senhoras ali no…. teve uma coisa assim?

Labi                   Aquilo lá é quando não existia o termo garoto de programa.

Luciano             Era michê, o que era na época? Era um michê?

Labi                   Não, era valet ou qualquer coisa desse tipo assim, não tinha um termo que definisse, mas o que acontece é o seguinte: quando eu resolvi ir para o Rio, eu falei para o meu pai porque estava indo para o Rio ele falou, por tua conta e risco. Eu vendi um terreno que eu tinha lá em Rio Preto, vendi um carro velho que eu tinha e tal, tinha batido, tinha um Fusca que tinha dado uma batida, vendi, peguei a grana, botei um pouquinho no banco e o resto fiz um bolo, falei, isso daqui uns três meses me mantém no Rio de Janeiro. Peguei um ônibus e belo e lampeiro, desci na rodoviária Novo Rio, no Rio de Janeiro, era muito cedo para ir para a república onde meu amigo me deu o espaço, então eu resolvi tomar um café na rodoviária, parado, em pé no balcão, tomei um café, saí, passei a mão na minha mala, táxi, Ipanema. Desci em Ipanema, enfiei a mão do bolso, cadê a carteira? Cadê o bolo de dinheiro? Tinham me roubado completamente, tudo, documento, carteira, dinheiro…

Luciano             Puta merda, cara.

Labi                   … fiquei liso, primeiras horas do Rio de Janeiro, ainda tive que pedir para o amigo, que era estudante, pagar o taxi, para eu entrar na casa dele. Aí o cara falou pô, você veio para a minha casa… falei por hoje pelo menos eu preciso dessa ajuda. Aí era uma sexta feira e eu falei, como é que eu vou sobreviver…

Luciano             Até segunda.

Labi                   … não, eu vou ter que voltar, porque naquele tempo não tinha esses bancos… para mandar um dinheiro de banco era malote, demora uma semana, eu nem tinha conta em banco ainda, aí eu falei como é que eu vou pedir arrego e não podia pedir arrego para o meu pai, porque era uma questão de honra. Então ele falou não, faz o seguinte, hoje é sexta feira, é fim de semana, a comida já está aí mesmo, está comprada, você tem dinheiro lá, vai chegar, faz o seguinte, a gente faz um rateio aqui, fazemos uma vaquinha, vamos para a praia primeiro e tal, depois cada um paga…. hoje você tem direito a seis cervejas, éramos seis amigos, cada um paga uma cerveja para você e a gente sai à noite, seis cervejas dá par você se divertir? Falei dá, está ótimo. Fomos para a praia e tal, primeiro fui na delegacia dar parte, para ter um papel, porque eu não tinha documento e fomos e Rio de Janeiro você sabe, da praia emenda, vai para não sei o quê, eu estava num bar em Ipanema, de noite e já tinha consumido boa parte da minha cota de cerveja com os amigos, então entra um rapaz que era amigo meu e eu conto a história, lá de Rio Preto e tal, ih rapaz, aconteceu isso, estou duro, não tenho dinheiro, vou ter que voltar, não sei como é que faz. Ele falou não, espera aí, dinheiro não é problema, você não topa sair com umas coroas? Como? É, você não topa sair com umas coroas? Mas que coroas? Ele falou não, tem umas mulheres aí que gostam de sair com garotão e tal, você não topa fazer companhia ser acompanhante? Falei quem sabe, estou precisando de dinheiro. Ele falou não, vou te por ne esquema e tal. E você é mais velho do que eu dois anos, mais experiente e tal, o cara era… participou daquele “homem mais bonito do Brasil”, do Flávio Cavalcanti.

Luciano             Pedrinho Aguinaga, um ícone.

Labi                   Exatamente. E aí então lá fui eu e eu falei tá, tudo bem, fui para o Lamas com eles, tinha uma mesa grande, conversa vai, conversa vem, apresenta um, apresenta outro, tinha uma morena muito simpática e eu sentei do lado dela e conversa e achando graça e falando bobagem, eu ainda tinha sotaque bem caipira do interior de São Paulo, falando “porta” “forte” e etc. Ela foi…. vamos dar uma volta de carro, vou te mostrar o Rio de Janeiro e tal, fomos para o motel e tive a minha primeira noite achando que tinha ganho uma morena maravilhosa, uma carioca, 28, 30 anos, eu achei que eu estava arrebentando, o caipira, aí me deixou de manhã em casa, falou olha, a gente ficou amigo, eu sei que você está sem dinheiro, posso te emprestar uma grana e tal, pegou um dinheiro da bolsa, botou no bolso da minha camisa, falou toma aí, fica aí, quando chegar seu dinheiro a gente acerta. É um empréstimo, a gente vai sair de novo e eu poder já, amanhecendo o dia, fui para lá, entrei para não fazer barulho no apartamento, deitei no beliche e esqueci do dia. No dia seguinte de manhã, umas 11 horas, o pessoal levanta, sábado para ir para a praia e acorda, acorda, tem um telefone aí atrás de você, já te descobriram aqui, para quem você deu o telefone? Falei só pode ser o menino que me encontrou, que eu deixei o telefone. Aí liguei, ele falou e ai cara, saiu com a morena e tal? Falei pois é. Ele falou é eu vi que vocês ficaram de papo e tal, deu tudo certo? Deu tudo certo. Você saiu com ela? Sai. Foi no motel? Fui. E ela não deu um dinheiro para você? Falei é verdade, como é que você sabe? Ele falou 20% é meu, comissão da agência, você já está trabalhando. E eu achando que eu estava irresistível, estava trabalhando. Era… na verdade era garoto que ele tinha saído e saiu, levou para o grupo e tal, estava em grupo lá.

Luciano             Bom, isso tinha uma indústria assim lá, não tinha?

Labi                   Tinha.

Luciano             Tinha uma indústria disso e muita gente ficou famosa depois, muitos caras foram parar no cinema, televisão, muito…

Labi                   Sim, é tem, vários modelos e modelos femininas famosas também.

Luciano             Quando a gente fala de prostituição só se pensa na feminina, a gente fala assim olha, prostituição só tem feminina, não se discute o masculino, ninguém fala disso aí. E é interessante porque no conceito é a mesma coisa, o conceito é a mesmíssima coisa, a mulher taca pedra, os homens …. tudo bem, faz parte.

Labi                   Então, para você ver como a sociedade…. já é a formação já é machista. Mas era muito secreto, porque eram mulheres bem casadas, de dinheiro, cujos maridos estavam tanto envolvidos nos negócios, nas viagens ou nas amantes, que deixavam as mulheres ir lá e elas resolviam sair com os rapazes, isso sempre existiu, mas era bem fechado. Tanto é que esse grupo que eu fazia parte, eram oito caras só, isso tudo não existia celular…

Luciano             Não tinha WhatsApp, não tinha grupos de nada.

Labi                   … não tinha, você tinha que ficar num determinado horário, perto do telefone que ele ia te dar o serviço, olha, ela ligou, fulana de tal, quer te conhecer, está no lugar assim assim, que roupa você vai usar? O ponto de encontro é esse, a senha é essa.

Luciano             Muito bem, você tratava isso como um business, como uma passagem, como um quebra galho, como é que foi? Tomou gosto? Como é que foi a história?

Labi                   Eu tomei gosto porque era bem rentável e bem divertido, para um rapaz de 20 anos, 21 anos, você ser pago para fazer a coisa que você mais gosta de fazer. Minha obrigação, naquela época, era acordar no meio da manhã, ir para a praia, tomar sol, para ficar bronzeado, tinha que estar bem bronzeado…

Luciano             E o bicho era um alemãozão, você era alemãozão não é?

Labi                   … exatamente, então bronzeava, ficava vermelhão assim, cabelo comprido, fazia surf e tal, voltava, comia uma refeição leve e ficava esperando o telefonema, a partir daí o dia era gincana, você não sabia. Tinha dias de você sair três vezes, tinha o programa da tarde, o programa do começo da noite e o programa da madrugada.

Luciano             É, tem que ter 20 anos.

Labi                   É, tem que ter 20 anos e tem que gostar da coisa, porque de vez em quando aparecia uns abacaxis também, nem tudo era maçã. Mas tudo pelo amor à arte.

Luciano             Mas vamos lá, você está enfiado num pólo, num caldeirão cultural, aquele Rio de Janeiro dos anos 70 tudo brotava dali, ali as grandes tendências, você fala em teatro, cinema, era tudo lá que acontecia, a Globo estava se estruturando naquela época no Rio de Janeiro e aí você começa a conhecer algumas figuras, ícones da época e como é que foi isso? Porque tem uma coisa, vou para a praia, conheço amigos de praia e tudo mais, mas você se mete no meio de umas figuras, você tem que ter um certo nível intelectual ali para estar interagindo com cara que é escritor…

Labi                   Se eu não tivesse a bagagem que eu tenho de leitura, de cultura, de formação, mesmo no programa, por que que eu fazia sucesso? Porque as, voltando lá no caso das senhoras, elas podiam me levar na casa das amigas dela, num chazinho da tarde e me apresentar como sobrinho do interior de São Paulo e eu falava um pouco de francês, falava um pouco de espanhol, então era um cara educado, não dava vexame e ai as outras podiam ver e ela, estou aqui apresentando o rapaz, então a partir daí os telefonemas se sucediam, então isso ….

Luciano             Eu vou fazer aqui uma condensação dessa história, a alma desse negócio é o boca a boca.

Labi                   É, a alma do negócio…. naquele tempo a propaganda…

Luciano             Era o boca a boca.

Labi                   Em todos os sentidos. Mas aí…

Luciano             Mas então, eu estava te falando dessa coisa do nivelamento cultural porque de repente você ia se enfiar num lugar onde tem um Ruy Guerra…

Labi                  Então, eu acabei namorando uma carioca cuja irmã namorava um mineiro que era do cinema, hoje ele é um cineasta conhecido, brasileiro e tal, Alberto Graça, a quem eu devo muito, foi o meu mestre. E a Gláucia que depois se separou e casou com o Paulo Thiago, outro cineasta, então era um núcleo de gente já cineasta, que eu convivia, conheci o Neistru Leviti que tinha sido diretor da Manchete em Paris, casado com uma modelo do Pierre Cardin, que trouxe a Jeanne Moreau para o Brasil para fazer Joana Francesa, então eu fui chamado para diretor de arte da produtora Zoom, do Neistru Leviti, cuidava, acabei virando chefe do departamento áudio visual, então as produções de documentários eram documentários sobre a construção de Furnas, construção da usina de Angra I, eram grandes projetos, então documentários caros, a Vale do Rio Doce, eu conheci, trabalhei com Alberico Souza Cruz…

Luciano             Da Globo.

Labi                   … é, passei cada mico com o Alberico, porque eu era muito verde, muito sem noção e falava umas coisas… está falando com uma sumidade da área e de vez em quando soltava uma… um dia eu falei para o presidente da Vale do Rio Doce, falei o senhor está com medo do quê? O senhor tem uma grande companhia, o senhor quer que o filme venda para o senhor? O filme vai apresentar a sua companhia, mas quem vai ter que vender é o senhor. Perdemos a conta do cliente e o cara olhou, falou você tem razão, eu estou aqui metendo o bedelho, vocês são pagos para fazer isso, faça o filme como deve ser e saiu da sala, eu achei que tinha melado o negócio, mas ele, a partir daí, ganhou mais confiança e encomendou mais documentários, então eu tive uma ascensão profissional rápida e nesse ambiente onde se reunia cineastas, Ruy Guerra, Chico Buarque, Milton Nascimento, o almoço da produtora tinha um almoço lá, a cozinheira fazia o almoço e sentávamos todos juntos e eu conheci o Ruy, conheci toda essa gente, fotógrafo, Luiz Garrido, depois acabei sendo assistente de estúdio…

Luciano             Aí você botou na cabeça que…

Labi                   … que era comunicação o meu negócio, eu já…

Luciano             … então, isso que eu ia falar não era necessariamente que você seria um cineasta não, você botou minha área é a arte da comunicação, é isso?

Labi                   … a arte na comunicação, tanto é que eu fui num cursinho, negociei uma bolsa de estudos, disse olha, eu já passei em dois vestibulares muito bem colocado, eu não tenho dinheiro para pagar o cursinho, mas eu te dou uma boa colocação, você me dá uma bolsa? Ele falou se você ficar entre os cem primeiros todo mês, você não paga. E eu fiquei. Em seis meses eu prestei o vestibular e passei e aí passei para comunicação…

Luciano             No Rio de Janeiro.

Labi                   … no Rio de Janeiro, é. E um ano depois de eu estar no primeiro, segundo semestre da faculdade, eu já estava produzindo filmes e programas áudio visuais, entendia de comunicação e trabalhava com gente do nível do Washington Novaes. Washington Novaes era o redator dos textos dos documentários, aquele outro que foi senador, Arthur da Távola fez muito texto para trabalho nosso, então era um pessoal de alto gabarito e eu aprendi muito com eles, então profissionalmente, a minha vida profissional andou mais depressa do que a faculdade e se tornou um empecilho à faculdade, tanto que eu levei anos para terminar a faculdade, eu entrei em 73 e fui terminar em 78.

Luciano             Labi, o Brasil estava uma ebulição naquela época, que ano nós estamos, 74? 75 por aí?

Labi                   O período que vai da minha estada no Rio é de 71 a 80.

Luciano             Bom, é um período, a ditadura chegou no cume…

Labi                   Pegamos o AI5.

Luciano             Sim, chegou no ponto máximo ali e você estava envolvido no meio de um povo que só tinha revolucionário lá no meio.

Labi                   Eu me lembro, vou contar uma história aqui, eu já contei em alguns lugares. O Paulo Coelho tinha um jornal de bairro que era edição dele e tal e tinha… ele fazia os releases da Polygram e ele falava assim, é um absurdo, vocês publicitários, na época eu já trabalhava em publicidade, vocês publicitários escrevem duas linhas, um slogan e ganham três vezes mais do que eu que faço um jornal inteiro. Pô, eu escrevo, faço releases, trabalhosíssimos e tal para divulgar uma obra , um disco da Polygram e vocês, uma frase de uma campanha, ganham uma fortuna e ele não deixava de ter razão, realmente o trabalho publicitário era muito bem remunerado porque envolve uma grana violenta, mas olha a ironia do destino, passa o tempo, o Paulo Coelho se torna um dos autores mais bem sucedidos da literatura brasileira, então contei essa história porque nessa… era a turma que frequentava a praia, Sonia Braga, Ney Matogrosso, Marina Lima, Cícero, o irmão da Marina, era uma turma muito divertida e bem animada e o Rio de Janeiro tem uma característica que na praia é bem democrático, todo mundo é igual, está praticamente pelado, não tem maquiagem e cada um é o que é e naquele tempo…. eu hoje distancio, olho eu falo assim bom, eu deveria ter algum valor porque eles me aceitavam como igual. O Ruy, por exemplo, me deu muita chance, o Ruy Guerra, muita oportunidade de trabalho e sempre me considerou muito, veja, hoje eu tenho amizade até hoje com o Oswaldo Sargentelli Filho, que era um diretor de comercial, requisitadíssimo na época, eu fiz muitas montagens, edições e trilhas sonoras para os comerciais dele, a gente fez amizade nessa época e era prêmio no final de ano, Clio e… era a nata da publicidade brasileira, então eu acho que eu peguei uma onda, eu surfei num período rico e profícuo, legal. Mas também se eu vacilasse teria ficado nas pedras. Eu acho que só tive as oportunidades porque as pessoas reconheciam também, eu tinha essa coisa, nunca tive medo de desafio nenhum, sempre gostei, sempre me dispus a fazer o esforço que fosse para fazer bem feito e também ter a coragem de propor diferente, acho que isso são receitas assim… por que eu vou repetir? Eu me lembro que a primeira trilha que eu fiz para um documentário, era muito louca, eu trouxe Pink Floyd, trouxe….. e naquele tempo eles usava as músicas clássicas, Vivaldi, eu misturei com Vivaldi, Monteverdi, eu enfiei solo de guitarra de rock e tal, os caras falaram pô, o cliente vai parir na cadeira de ver isso e ficou fantástico, porque era diferente, motivava e tal, passam-se os anos, eu já estava no segundo ano da faculdade e eu não tinha mais condição de ir na aula, porque eu viajava, fazia comerciais no Brasil inteiro, na época o Duda Mendonça, eu conheci o Duda Mendonça, o Duda Mendonça estava apostando em fazer a melhor agência do Brasil, a DM9, na época…. e ele vinha me buscar no Rio, a gente passava períodos lá na Bahia fazendo os comerciais, produzindo, então eu não tinha mais…. eu fui na faculdade e falei não tenho condições, eu bombo por falta, eu tenho ótimos trabalhos, excelente nota, mas eu não consigo. Aí os caras falaram assim, monta um curso sobre as técnicas audiovisuais que você domina e faz para o pessoal do último ano aqui porque eles não tem esse laboratório aqui e aí eu montei esse curso e dei estágio para um dos professores assistentes que se formou lá no ano anterior, tinha a teoria mas não tinha a prática, então ele era meu professor teórico na faculdade à noite e durante o dia era meu estagiário no setor de produções. E com isso houve um… engraçado, a ponto de um jornalista que trabalhava junto com o Alberico, que se tornou um grande amigo meu, o Hélio de Almeida, ele falou você tem tudo para montar um curso inédito sobre comunicação audiovisual para caras que estão hoje no topo da cadeia das grandes agências, das produções, diretores como departamento de comunicação, como Vale, grandes companhias e tal, eu falei ah, só vai ter pós graduado, ele falou vou montar lá na fundação… eu vou propor e aí eu montei, eu fiz um programa de curso, montei e fui dar, só malucos, é porque eu não tinha juízo, porque na fila da frente tinha assim o supra sumo das feras, ouvindo o maluquinho aqui contar como é que um som, um determinado som combinado com uma determinada imagem provocava uma reação emocional que favorecia … eu comecei a teorizar sobre isso, porque eu fazia muitas trilhas e comecei a perceber que determinados tipos de timbre, determinados instrumentos, determinados ritmos, dentro de uma cultura ocidental eram associados a um determinado estado de espírito ou determinada ideia…

Luciano             Você não tinha lido nada, você não tinha estudado isso formalmente, não…

Labi                   … não, eu tinha na prática…

Luciano             … você tinha na prática.

Labi                   … por isso que ele falou, isso ninguém sabe, ninguém fez, ninguém escreveu. Vai lá que os caras vão adorar e eu montei isso durante uma semana e os caras não perdiam a aula e eu então falei as sequências de cenas que eu passava com uma trilha e eu pedia para eles anotarem o que as cenas tinham dado de emoção. Aí eu passava depois a mesma cena com outra trilha e mudava completamente a associação das imagens com as emoções. Então, teve um ano, por exemplo, se não me engano 1977, que o Brasil ganhou 11 Clios, dos 11 Clios, 8 filmes eu tinha participado da equipe de produção, ou finalizando, ou editando, ou colocando trilha. Então era uma especialidade minha, eu fazia finalização sonora, ou por exemplo, o Ronaldo Rosas, famoso locutor do Rio de Janeiro que se tornou depois apresentador da Manchete, ele era um locutor da Rádio Jornal do Brasil, não tinha cara e eu gostei da voz dele e eu tinha um documentário para fazer, um programa áudio visual para fazer e aí eu fui atrás de quem tinha… me apresentaram a ele. Fui lá, combinei de gravar, gravei inclusive na Rádio Jornal do Brasil, num estúdio à parte lá, ele fez uma narração maravilhosa de um documentário e a voz dele estourou, a partir daí, quando eu fui fazer comerciais de televisão, eu chamei o Ronaldo, ele falou vamos fazer comercial, claro que é uma mina de ouro, porque naquele tempo não existia vídeo, todos os comerciais eram feitos em cinema e era uma época muito pujante que tinha propaganda de cigarro, eu me lembro, por exemplo, que eu passei três horas gravando a frase “ouro sobre azul”, para o lançamento do Minister, a nova embalagem flip top do Minister, era essa frase, “ouro sobre azul” Minister e era, se não me engano, quem falou isso foi o Eliakim Araújo, aquela voz maravilhosa, ou Reinaldo Gonzaga, agora me falha a memória, mas a gente passava no estúdio para fazer essa assinatura que depois … o Rabelo…

Luciano             Você imagina hoje em dia que os caras nem para o estúdio vão mais, o cara grava na casa dele, manda por internet, ah ficou legal, não ficou, faz de novo, aí o cara de bermuda….

Labi                   Não, naquele tempo tinha que ir em estúdio e tal, tinha dublagens, tinha filmes, tinha que dublar a voz de uma personagem, de uma atriz e tal, tudo era cinema.

Luciano             Bom Labi, estamos aí nos anos 70, migrando para anos 80. Eu quero chegar na África e o tempo está correndo aqui, eu queria chegar na África, da uma acelerada aí para a gente ir para a África.

Labi                   Em 80, 79 o Alberto Graça fez um longa metragem que foi um divisor de águas, o Brasil estava entrando no processo de democratização, pluripartidarismo e havia uma grande discussão e ele faz um filme que é um marco na época, que é uma trama sobre o envolvimento de uma multinacional comprando deputados e senadores para licitações serem aprovadas, de grandes obras, 1979…

Luciano             79, tá, nós estamos falando de 40 anos atrás.

Labi                   O filme se chama “Memórias do Medo” e ele me chamou para fazer a parte sonora do filme, toda a parte de ruídos, efeitos, trilha sonora e edição, eu fui assistente do editor, do montador e fiz a edição, corte fino era meu, montei e preparei as pistas para mixagem no estúdio, esse filme foi todo dublado, ele foi feito em som guia e depois todos os ruídos, efeitos, tudo foi fabricado e foi um trabalho que eu fiz, então eu fiquei em evidência, no final do ano teve a sessão de pré-estreia, onde estavam todos os cineastas lá e foi passado o trabalho e os caras falaram pô, o trabalho que você teve foi incrível, o trabalho sonoro de uma riqueza, todo mundo já falava da publicidade, mas num longa metragem, você fabricar desde o pum, que a atriz solta na cama, até o efeito…

Luciano             Do Boing pousando…

Labi                   … Boing pousando em Brasília, a porta, inclusive era um filme todo rodado em Brasília, tem muitas cenas em Brasília, aquele som ambiente de Brasília que é diferente, porque é constante, então aí o Ruy Guerra me falou olha, eu estou precisando de um cara que vá para Moçambique porque eu estou chefiando uma equipe multidisciplinar que vai para Moçambique dar orientação para os técnicos que fazem o Instituto Nacional de Cinema e futuramente vão alimentar a televisão, você topa ir?

Luciano             Só uma pausa aqui, Labi. Eu e o Labi já citamos várias vezes o Ruy Guerra aqui, se tiver gente jovem ouvindo a gente não sabe quem é, Ruy Guerra é um cineasta português, de origem portuguesa…

Labi                   É moçambicano,  tem nacionalidade portuguesa porque os pais eram portugueses, nascido em Moçambique.

Luciano             … mas que viveu grande parte da vida dele no Brasil, fez parceria com Chico…

Labi                   Ele fugiu de Moçambique porque foi perseguido pelo regime ditatorial do Salazar, vai para a Europa, faz IIDEC, faz cinema na França e vem para o Brasil e se torna um dos baluartes do cinema novo.

Luciano             … e letrista de músicas junto com Chico Buarque…

Labi                   Centenas, cento e tantas músicas.

Luciano             … sim, legal, esse é o cara então que convida você para ir lá para Moçambique.

Labi                   E justamente nos anos 70, ele faz um filme chamado “A Queda”, com o Hugo Carvana e que ganha o Urso de Prata em Berlim e é um filme, longa metragem, primeira vez que um longa metragem brasileiro é feito em 16 mm., por causa da câmera na mão, que era uma câmera completamente arrojada e o filme em que o operariado é o protagonista do filme, então é muito interessante. Então a gente convivia muito na produtora e o Ruy me convidou e me leva para Moçambique, o Alberto Graça vai dar o curso de realização, uma amiga, que tinha sido minha assistente nas produções audiovisuais a Vera Zaverucha que depois fez carreira na ANCINE e no cinema brasileiro, ela também vai cuidar da parte de produção e eu vou cuidar da parte de estúdio de som e finalização e montagem do Instituto Nacional de Cinema. Era para ficar um ano, ao fim do contrato eles viram que…. eu falei o trabalho que tem que fazer aqui não é de um ano, leva anos para aperfeiçoar e para formar técnicos, era um trabalho…. a gente conseguiu evoluir em um ano, mas não dá, eles falaram você topa ficar? Eu topo.

Luciano             E fica lá.

Labi                   E aí renovei o contrato.

Luciano             Tudo bem, mas você sai do Brasil no período em que o Brasil estava começando a sua distensão lenta e gradual e progressiva, saindo do período do governo militar para o período da democracia, etc. e tal e vai cair na África que já era uma panela de pressão, aquilo lá era uma tensão constante…

Labi                   Permanente.

Luciano             … permanente e você vive isso lá na pele?

Laabi                 Com certeza.

Luciano             Você assiste acontecer…

Labi                   O apartheid estava ali do lado.

Luciano             … sim e você assiste acontecer uma luta interna no país, a morte do presidente, não teve coisa assim?

Labi                   Sim, com certeza, o processo todo de… primeiro de fechar o bloco africano que tentava gerar o bloqueio conseguir politicamente o bloqueio da África do Sul pelo apartheid, quando se consegue o bloqueio e isola a África do Sul, claro que as partes…. os financiadores reacionários que apoiavam o regime da África do Sul, também começam a financiar a desestabilização, a guerrilha e o país entra em guerra civil e aí é um caos, tudo o que havia se construído nos anos de independência e tal, começa a ser destruído, é um …. tem um termo, “colcha de Penélope”, fazia-se num dia e de noite a guerrilha destruía, a ideia era desestabilizar mesmo todos os países da linha da frente, Zimbábue, que também conquistou a independência, Angola, Angola a guerra de Angola durou muito mais, com a África do Sul lá dentro.

Luciano             E você estava lá, no meio desse caldeirão.

Labi                   E eu estava e fazia filmes lá nessa loucura toda, tomando tiro e …

Luciano             Para quem queria aventura, você queria mais do que isso?

Labi                   Exatamente. Mas foi o que me levou para lá, porque na época que eu recebi o convite do Ruy Guerra, um produtor americano que viu o meu trabalho falou eu vou te levar para Hollywood, você vai para Los Angeles e pô, ele disse com o teu conhecimento e com o teu trabalho, em pouco tempo você se encaixa lá, você…. porque não existia o computador, não existia o trabalho de edição sonora, de fabricar efeitos, de emendar músicas, eu cheguei a fazer uma emenda de uma trilha sonora de uma música para outra que eu levei para a BBC e os computadores não acharam o ponto de emenda, como é que esse som, a frequência foi cortada um ponto tão similar que quando emendou na outra música, parecia que era a mesma sonoridade.

Luciano             E você que está ouvindo a gente aqui, quando ele fala emenda, não era um atalho de teclado que você dava e cortava, ele catava um estilete, não é isso?

Labi                   Exatamente.

Luciano             Pegava uma fita…

Labi                   A fita magnética, cortava…

Luciano             … cortava no estilete…

Labi                   … passava na cabeça de leitura para saber onde é que era o ponto de corte, marcava, cortava, ia na outra, a mesma coisa, fazia uma emenda com a fita adesiva…

Luciano             … era…

Labi                   … artesanal…

Luciano             … artesanto, artesanato puro e daí saíram coisas maravilhosas.

Labi                   … então, aí os técnicos lá do IBC diziam, mas como é que você fez isso? Eu falava ué, eu fiz porque eu fiz isso a minha vida inteira, eu não sabia que era impossível, o computador não achou, porque um documentário que nós fizemos lá e a trilha sonora, foi um exercício…. a gente ….. é engraçado as coisas, um amigo meu, lá se vivia a guerra, então ele resolveu fazer como é que a presença da guerra interferia nas artes, no canto, na pintura, na escultura, nos grupos corais, em todos os tipos de artista, nos espetáculos. Então ele selecionou um expoente de cada um dessa expressão artística e entrevistou a todos eles e depois eles tinham a apresentação do trabalho deles, no caso das esculturas, mostravam as esculturas e para fazer a trilha desse áudio, eu desafiei, seguinte, eu faço uma primeira edição do comentário sem som e depois levamos os músicos de diferentes correntes para dentro de um estúdio, passamos a cena e compomos na hora e aí tinha um violino, tambores africanos, sax, guitarra, bateria, juntamos todos, eu fiz percussão e fazíamos na hora as trilhas e foi um trabalho que foi tão bonito a sonoridade, o filme se chama “The Deeper Image”, a imagem mais profunda e foi comprado por televisões estrangeiras e a BBC comprou, só que ela sugeriu, falou assim, então tragam as pistas originais que a gente põe no computador e remasteriza, porque as qualidades sonoras deles eram melhores e eles tentaram, mas quando chegou na parte da trilha sonora, eles tiveram que copiar a minha e usar a minha, só remasterizaram em termos de efeitos mesmo.

Luciano             Você é brasileiro, estava lidando com quem? Estava pensando que estava lidando com quem?

Labi                   Então, daí o Sol Carvalho, que é o realizador que fez o filme me contou a história, falou os caras ficaram malucos, não acreditaram. Mas veja, aí fizemos a trilha maravilhosa, tem vocalizações, tem cantora e a trilha é muito bonita, então depois se não me engano, foi dada autorização para que fosse lançado um disco, naquele tempo era bolachão em Viena, na Áustria.

Luciano             Bom, se eu achar alguma coisa de referência eu toco aqui um pedacinho.

Labi                   Eu tenho as fitas ainda.

Luciano             Vamos ver, se a gente conseguir a gente toca um pedacinho aqui. Volta para o Brasil, aliás lá você encontra a mulher da sua vida.

Labi                   É, eu fui com uma carioca, eu fui casado com a tal menina que eu conheci no Rio de Janeiro, depois de dois anos não deu certo, aí eu conheci uma outra modelo, que estudava comunicação também, se formou e resolveu ir comigo para a África e ficou dois anos comigo lá. Dois anos depois ela não aguentava mais a África e eu achei legítimo que ela viesse embora, nós viemos de férias, depois ela falou não quero voltar não, aquilo é para fortes. E eu falei está bom, eu tinha um projeto grande lá, porque no meio do caminho eu desafiei o ministro, eu disse olha, vem um técnico de fora aqui e não consegue passar toda a evolução que ele poderia porque ele cai dentro de uma estrutura viciada de hábitos e costumes locais, você só consegue acelerar o processo de aprendizado se você montar uma equipe altamente acelerada e botar os moçambicanos para acompanhar. Ele falou como é que você vê isso? Eu falei eu proponho fazer um produtora independente aqui, não do estado, o estado participa dela para ter controle, mas quem manda é…. e vence pelo seu próprio mérito, quer dizer, se o que nós fizermos não presta, não tem mercado, se o que a gente faz é bom, vai ter mercado e nós vamos sobreviver. Isso foi muito combatido na época, era o sistema socialista, o estado era domínio….

Luciano             E você está vindo com uma….

Labi                   … ideia capitalista…

Luciano             … seu coxinha do cacete, seu capitalista, seu direitista.

Labi                   … mas não é, porque a revolução ela é feita a partir de propostas arrojadas…

Luciano             Para quem não sabe aqui a referência é a seguinte aqui, o meu amigo Labi que está comigo aqui que é um grande amigo meu, é um esquerdista, ele é um esquerdista, ele não é comunista, ele não é socialista, mas ele é esquerdista e eu estou brincando com ele aqui porque ele foi lá em cima do socialista empurrar a meritocracia pela goela dos caras, mas a meritocracia capitalista, não a deles.

Labi                   Exatamente, fazendo o partido entender que só há evolução se você exigir mérito, não é porque o cara é membro do partido que é uma toupeira que vai ser o líder do processo.

Luciano             E essa é a meritocracia socialista, essa é ela, tem uma casta lá em cima que está na boa.

Labi                   É que não é…. os medíocres se apossaram da coisa socialista justamente para impedir, tanto é que todos os grandes cabeças se tornaram do contra, eles se torna um subversivo, como eu, eu sou um subversivo permanente, tanto a direita quanto a esquerda, eu estou sempre subvertendo, porque acomodação é um perigo …. sempre, os medíocres sempre dão um jeito de montar um esquema para barrar os outros e ficarem por cima, então eu teria o controle, então naquela….. claro que lá o discurso era num nível de respeito, de ideias, prova, o presidente era um cara… Samora Machel era um cara genial, ele ouviu, quero ouvir a proposta. Eu não teria conseguido se não fosse o Ruy Guerra, porque o Ruy era muito respeitado lá, ele ajudou muito o desenvolvimento e o Ruy foi e falou assim, eu assumo, eu assino embaixo. Eles falaram então você vai ter que ser sócio dessa produtora e o Ruy foi sócio da produtora, a produtora dele do Brasil era sócia dessa produtora que eu fui encarregado de montar, eu fiz o projeto e várias instituições privadas tinham cotas de participação porque tinha conta no exterior, então veja, imagine para as cabeças quadradinhas dos comunistas, falava assim, como é que num país socialista, uma empresa que produz ideologia pode ter conta no exterior e mexer com moeda estrangeira sem passar pelo ministério dos negócios estrangeiros, aí tivemos que chamar o ministério de negócios estrangeiros, botar participação na cota acionária para que pudesse participar das reuniões, das assembleias e tal, mas eu tinha o poder de conduzir e…

Luciano             Até que alguém derruba um avião.

Labi                   … não, é, até que o presidente começou a incomodar os acordos que estavam sendo fechados porque Moçambique não podia ficar capitaneando aquela…. a revolução ia dar certo, a revolução de esquerda ia dar certo na África austral, não podia, então já que eles negociaram que ia cair o apartheid, tem que cair essa turma da esquerda e aí montaram uma cilada para derrubar o avião do presidente, que até hoje não foi provado, mas está na cara, tem vários indícios disso e eu, quando o presidente faleceu eu falei bom, acabou o projeto, ele era o maior protetor do projeto, mas não. O presidente que assumiu, Chissano, continuou, o novo ministro que ficou no lugar deu… e aí eu fiz um processo de transição de dois anos para passar para os moçambicanos a empresa e o seu acervo de filmes, com a sua produção toda, eu fiquei dois anos mais e depois voltei ao Brasil porque o Brasil ia se democratizar, o Brasil ia ter voto para presidente em 89, 90.

Luciano             Você encontra sua cara metade lá em Moçambique.

Labi                   É, aí a brasileira tinha voltado, estou lá, encontrei e tal e fui numa amiga… a gente reunia nos fins de semana para fazer festas e tal, todo mundo entrava com uma grade de cerveja e um som e virava festa e aí eu conheci ela lá e, foi uma história muito engraçada porque ela é uma mulher muito bonita e tinha um monte de gavião, mulher que tinha se separado, tinha divorciado, tinha um monte de gavião lá, eu olhei assim e tal, perguntei escuta, quem é essa menina? Ah é fulana de tal, ex mulher de um amigo meu e tal. Falei ah, muito interessante. Aí o outro virou e falou, o que você quer? Você já era casado com uma modelo lindíssima e tal você largou, você vai querer outra? Sai dessa, você acha que você pode tudo. Eu falei não, só estou perguntando. Ah você… Falei não, eu só estou perguntando. Ele falou ah, eu duvido. Falei você também acha que pode tudo e eu devagarinho, quem sabe fazer marketing, fui plantando meu marketing, dois meses depois a gente estava junto, o cara falou mas não é possível, o que você fez? Eu faço marketing. E estamos juntos até hoje, mas o mérito é dela.

Luciano             É dela, que para suportar você tem que ser… Olha, eu conheço os dois pessoalmente, ela realmente é especial, ela é doutora, não é isso? O que ela é? Ela é professora….

Labi                   Ela é consultora hoje de desenvolvimento humano.

Luciano             Mas quando eu a conheci ela era professora.

Labi                   Era administradora, formada em administração, ela é formada em dinâmica de grupo, especialista em liderança. Ela tem muita especialização, mas a maior especialização dela é conseguir me pilotar.

Luciano             Mas aí você volta para o Brasil, Labi.

Labi                   Então, aí quando chega 89, o ministro, o que tinha sido ministro no tempo que é meu amigo até hoje e tal, ele já tinha deixado de ser ministro, eu fui conversar com ele, ele falou assim olha, eu acho que está na hora de…. seu trabalho aqui foi bem feito, daqui para a frente as coisas vão mudar muito, eu acho que está na hora de você pensar em você, o coletivo vai mudar, a gente pensava muito na revolução, no coletivo e aí eu resolvo mudar, eu pergunto para Dalila, olha, vai encerrar meu contrato aqui, eu vou voltar para o Brasil, como é que faz? Temos filho e tal. Ela falou não, eu vou junto, a gente está junto, vai junto e ela veio comigo para o Brasil. Hoje ela tem nacionalidade brasileira, 25 anos depois ela tem nacionalidade brasileira, que é um…. eu acho que eu não faria isso, se eu morasse há 25 anos em Moçambique, eu continuaria sendo brasileiro, então isso demonstra um…

Luciano             O amor pelo…

Labi                   … um amor fantástico, quer dizer, não deixa de ser moçambicana, mas ela tem nacionalidade brasileira.

Luciano             Você volta para cá com que idade? Você tinha?

Labi                   Eu volto no 39.

Luciano             39. Com mulher, com filho, com um puta de um currículo na mão. Baita currículo.

Labo                  É…

Luciano             É não, pô, baita currículo, você já era um cara premiado.

Labo                  Eu já fu premiado para lá.

Luciano             Então, volta com o currículo mais engrossado. Você não chegou aqui com aquela ideia de que bom, com esse baita currículo que eu tenho aqui, agora é hora de dar uma sossegada ou vou montar meu business ou vou arrumar emprego.

Labi                   Vários me propuseram, puxa você pode…. naquele tempo tinha uma lei que não permitia que você trouxesse equipamento estrangeiro, a não ser que você morasse fora, era proibido importar, para valorizar a indústria brasileira e os caras falavam você pode trazer uma produtora inteira, estrangeiro, você morou dez anos fora, o que você trouxer é teu. Tenho vários amigos que compraram, falei não, eu vou voltar com o que eu tenho, eu não vou montar produtora, se vocês quiserem eu compro equipamento, trago para vocês como se fosse meu, mas eu não vou querer, eu não quero. Falaram por quê? Eu falei assim porque equipamentos ….. uma coisa que eu aprendi lá fora, porque eu fui a vários Photokina, fui na Europa, visitei fábricas de equipamento fica obsoleto em dois anos, cada vez mais e eu peguei o advento do vídeo, quando eu comecei não existia vídeo, depois eu já peguei a BetaMax e o U-matic, então eu falei, eu trago esse equipamento, daqui a dois anos eu tenho eu trazer tudo de novo, não adianta nada, mas o que eu trago ninguém tem, então equipamento tem de monte no Brasil…

Luciano             Ainda é assim e agora está mais. Você está falando de uma época que eu peguei também, que era aquela época vou montar um pequeno estúdio de áudio, legal, profissional. Brincando era uma mesa de 50 mil dólares, 100 mil dólares era o que custava, era muito caro aquilo e quando chegou o computador era um absurdo de caro, hoje o cara que está nos ouvindo aqui deve estar sentado na frente de uma máquina lá que deve ter dentro Vegas, deve ter gravação, ele faz ali tudo o que a gente fazia naquela época e gastava centenas de milhares…

Labi                   Sem falar nos programas de sequências que você faz música, um cara só faz trocentos instrumentos, sampleia e faz, eu já peguei essa fase de fazer trilha com sampler.

Luciano             Quer dizer, você veio… o que eu trago que não se compra em lugar nenhum, é o que está aqui dentro da cachola…

Labi                   É a minha experiência.

Luciano             … é a minha experiência, etc. e tal.

Labo                  O fato de ter vivido num país socialista também nas relações, na maneira de enxergar o todo, porque isso do socialismo é muito interessante, a preocupação com a maioria, esse é …. é que sempre tem um grupinho que se aproveita do poder para se locupletar, mas a ideia, o princípio da esquerda é tornar o mundo mais igualitário, mais justo, digamos assim.

Luciano             É como uma utopia, tem sua validade, como utopia eu gosto muito, está lá adiante nós nunca vamos chegar nela mas ela faz um caminho.

Labi                   É legal lutar por ela, porque isso…

Luciano             Para isso que serve uma utopia.

Labi                   É, exatamente. Agora, sem perder também o respeito aos valores, pô, eu tenho caras que são de direita que são gênios, eu conheço, respeito profundamente, agora, se ele colocar essa genialidade a serviço de um negócio nefasto, eu sou o primeiro a falar, ai eu não estou contigo. Eu me lembro o Duda Mendonça uma vez me chamou, falou pô, você voltou para o Brasil, eu vou fazer campanha do doutor Paulo Maluf, falei desculpa, eu não faço para o Maluf. Pô, o Duda paga maravilhosamente bem e comigo ele era muito generoso porque ele era meu amigo do tempo que ele não era o Duda Mendonça, então sempre foi hiper generoso comigo, mas eu falei desculpa, com o Paulo eu não vou fazer. Então eu tenho meus princípios, não é o dinheiro e eu precisava, tinha família para criar e estava…

Luciano             Mas não é tudo pelo dinheiro, não é?

Labi                   … não é tudo pelo dinheiro, então mas isso acho que se perdeu hoje, eu acho que as pessoas acham que eu sou babaca, se eu….

Luciano             É, o pessoal da velha geração não tem, eu tive outro dia num evento com o Washington Olivetto e o Washington colocou lá, ele falou eu não fiz, não faço e jamais farei campanha política por princípio, entendeu? Eu tenho por princípio, não vou me envolver em política porque eu acho que esse negócio contamina, não quero saber disso aí.

Labi                   E as pessoas não fazem ideia do poder que o marketing tem de persuasão, bem aplicado, você elege… elegeram o Maluf elegeu aquele…

Luciano             Pitta.

Labi                   … o Pitta, entende?

Luciano             O Lula elegeu a Dilma, porra.

Labi                   Pois é, o Lula elegia quem quisesse, o Lula elegia quem quisesse, acho que nesse ponto não tem jeito e hoje veja como é ruim, nós não temos nome para fazer frente a essa imagem política, o vazio político que se instalou no Brasil é assustador, porque a onda de aproveitadores só tem… até o Tiririca quis dar uma de herói, acabou se revelando interesseiro.

Luciano             Com as mídias sociais então, aí não tem mais segredo, está tudo transparente.

Labi                   Exatamente, cada vez fica mais.

Luciano             Você volta para o Brasil, com 39 anos, com a esposa e tudo e por alguma conjunção do destino você vai parar em Cuiabá…

Labo                  Não, eu volto para produzir cinema e eu tinha três longa metragens produzido em dois anos no Rio. O Ruy Guerra me chama para ser o chefe da produtora dele, o produtor executivo dele e eu abraço aquilo, eu produzo… antes, no ano que eu cheguei, eu produzi o “Boca de Ouro”, para o Walter Avancini, foi quando eu conheci o Walter Avancini, me indicaram para ele, ele precisava de um produtor, ele gosta muito de mim, produzimos o “Boca de Ouro”, no final do “Boca de Ouro” o Ruy me chama para produzir  um filme do Garcia Marques, que ele ia fazer o “De Amor e outros Demônios” e eu assumo a produtora do Ruy Guerra, mas o Collor, nós estávamos a um mês de começar as filmagens, verba era coprodução com a TV espanhola, verba internacional, dinheiro no banco, conversão de dólar e eu administrando aquilo, de repente o Collor extingue a Embrafilme que era uma das pernas de produção, então ficamos acéfalos e o cinema brasileiro para. Conseguimos converter essa produção, do que já estava, figurino, tudo, adereços, um monte de coisas, para Cuba, o Ruy Guerra vai para Cuba fazer o filme lá em Cuba e eu, como tinha chegado daquele um ano antes no Brasil, achei que não era justo com a minha família tirar meus familiares daqui, meus filhos estavam se adaptando em escola e tal, eu falei não, eu fico. Ele falou então você cuida da minha produtora aqui e eu fiquei cuidando de uma produtora que não fazia nada, não tinha produção, a gente ocupava o tempo, então eu peguei um estúdio de som para gerir, render, eu e um parceiro, um músico, arrendamos um estúdio de som e produzimos muito trabalho, primeiro trabalho do Lenine foi gravado no nosso estúdio, a Polygram fez um acordo com a gente, que qualquer coisa que a gente…. o estúdio era muito bom, então qualquer coisa que a gente fizesse, era um estúdio de pinho de riga, com equipamento de primeira.

Luciano             Você era o dono?

Lavi                   Eu era arrendador, os donos do estúdio, eles eram músicos e viviam viajando, dando show, como estúdio de som caiu o movimento, eles foram viver de show porque dava mais dinheiro e aí arrendaram para a gente o estúdio de som, então por exemplo, Roberta Miranda, todos os show do Canecão ensaiavam nesse estúdio

Luciano             Quer dizer, olha que interessante, você continua não tendo equipamento.

Labi                   Continuo não tendo equipamento.

Luciano             Você continua não tendo equipamento, que me parece, eu que conheço você agora bastante, é uma característica fundamental da sua vida, não é? Não quero ter empresa com cinquenta caras, eu não quero ter equipamento, eu não quero ter custo fixo, eu não quero trocar as coisas, eu sou onde bate o vento e tocar.

Labi                   Não e outra, o que é interessante é que isso nunca me impediu de ter alianças e parcerias com grandes autores, músicos fantásticos, o famoso escritor Rubem Alves, que depois a gente foi colega nas Iscas Intelectuais do Café Brasil, nos anos 90, começo dos anos 90, ele escreveu uma ideia, que era interessante de uma utopia e eu falei isso dá um filme do cacete, ele falou como é que faz, eu falei tem que fazer o roteiro, ele falou você faz o roteiro? Se você fizer o roteiro eu arranjo produção e eu fiz o roteiro e ele foi atrás de uma dessas congregações que ele era consultor, religiosa importante e tal e pelo CEDI Centro Ecumênico de Documentação e Informação, nós fizemos um documentário que chamou ”Visões do Paraíso”, foi lançado na Bienal de 1992, eu dirigi, a fotografia do Antônio Luís Mendes Soares, um baiano radicado no Rio de Janeiro, diretor de fotografia premiadíssimo, naquele ano tinha ganho o prêmio Kodak de fotografia, ou prêmio Fuji, agora não me lembro e juntei trilha sonora original, feita por um grande maestro também, o Armênio Graça Filho, um grupo de balé famoso do Rio de Janeiro cria as coreografias, um documentário…. daquelas coisas super felizes, eu não…. se eu tivesse o equipamento não tinha mudado nada, é a grande ideia e a capacidade de fazer e de juntar talentos que faz as coisas acontecerem.

Luciano             Mas você também tem que ter uma visão interessante sobre os ganhos que você vai ter disso aí, porque você não tem equipamento, teu ganho, a despesa é menor, o ganho também é menor e você tem que olhar para aquilo com inteligência e falar eu estou recebendo menos do que eu receberia, mas eu não tenho essa mala gigante para carregar comigo…

Labi                   Não tem essa carga para carregar.

Luciano             … e numa pela outra tem um ganho que você não consegue medir, não consegue por na planilha que faz toda a diferença, não é?

Labi                   É e… é que também no Brasil, todo mundo que tem produção sempre majorou o custo do seu equipamento nos orçamentos para pagar o custo e isso torna as produções, às vezes, inviáveis, porque se não for naquele valor não compensa fazer, porque não paga o custo do tempo parado de equipamento, da obsolescência e eu achei que se eu me atrelasse a isso eu sempre teria um amarrado, então outra, tem gente que nasceu para isso, para ter equipamento, para cuidar de equipamento, tem as Links Films da vida, as Quanta, com todo a modernidade, para que que eu preciso? O que aconteceu foi o seguinte, porque voltando… então eu …. deu aquela parada no cinema, eu ainda fiz um documentário muito interessante para a Norma Bengel, fui o produtor executivo do “Floresta da Tijuca”, história do Major Ashler, que reconstruiu a Floresta da Tijuca, inclusive tem atores famosos, tem Carla Camurati, Thales Pan Chacon no elenco e tal e aí esse é o último filme que eu faço no Rio de Janeiro. Aí eu venho para São Paulo e venho trabalhar no Centro Ecumênico de Documentação e Informação, no setor áudio visual porque tinha projetos grandes naquele ano e eu fui indicado para coordenar isso e aí fico dois anos, 92 e 93 eu fico no Centro Ecumênico, mas já não era mais minha praia. Eu produzo documentário sobre comunidade seringueira, sobre a assembleia da CUT, sobre movimento de trabalhadores sem terra, eu fiz centenas de documentários ao longo da minha vida, em Moçambique, no Brasil, encomendado, pago, com roteiro, sem roteiro, a partir de ideia, eu achei que naquele momento, documentário já tinha dado para mim e eu, se eu continuo aquilo, uma coisa é você ter uma família para sustentar. Eu criei a coragem de falar assim chega, eu vou parar…

Luciano             Com que idade?

Labi                   … exatamente, 43 anos e eu vou apostar no que eu quero fazer, faz muito tempo que eu quero terminar um romance, eu vou escrever um romance, eu paro em 93, final do ano, setembro e de setembro a dezembro eu escrevo um romance, que é este que eu lancei agora há um mês…

Luciano             Acabei de receber em mãos.

Labi                   … exatamente, o….

Luciano             Acabei de receber em mãos.

Labi                   … “O Berro do Boi”

Luciano             “O Berro do Boi”

Labi                   … quantos anos, quantas décadas de 93 até hoje para o livro sair, mas eu escrevi uma história e aí então voltei para a publicidade, avisei o Duda Mendonça, estou de novo na praça, porque a publicidade é dinâmica, é job atrás de job e ele falou não, eu estou mais na campanha Política e tal, topa fazer? Eu falei ah, topo, faz tempo que eu não mexo nisso, eu venho da política do outro lado, é engraçado porque lá a política tentava esclarecer e passar informação para o público evoluir…

Luciano             Lá em Moçambique?

Labi                   … lá em Moçambique, claro, o trabalho da comunicação, a televisão, o cinema, o Samora Machel dizia, sem informação não há modernidade, não há evolução, nós não vamos sair da idade da pedra sem isso, para isso precisa televisão, precisa de cinema e aqui a propaganda ….

Luciano             Desinforma, não é?

Labi                   … pelo contrário, é para manipular o eleitorado, mas tudo bem, eu precisava, eu fui trabalhar com o Duda e tal e neste processo, eu viajo para Cuiabá, minha irmã era diretora  de um setor do tribunal eleitoral lá e aí teve um evento e ela me chamou, me convidou para eu ir e tal, um evento muito grande, distribuiu-se comendas para pessoas importantes na cidade e eu fui e na comemoração, eu fui apresentado ao Dante de Oliveira, que estava lá, aí…

Luciano             Ex governador, extremamente respeitado lá.

Labi                   … muito, o famoso diretas já…

Luciano             Sim, a emenda Dante de Oliveira.

Labi                   … e aí ele para, muito jovem ainda como político, ele era prefeito e aí a minha irmã ah, esse aqui é meu irmão, publicitário, já andou na África, já andou não sei o quê, já fez política, já fez isso e isso, trabalhou com o Duda Mendonça, ele esperou um momento e falou você tem contato com o Duda? Falei tenho. Ah eu tenho pensado em fazer as consultorias, porque eu quero sair para governador e tal. Falei ah, eu ponho em contato na mesa hora, não é problema. Falou então eu gostaria. Eu volto para São Paulo ligo para o Duda, aviso que havia interesse e o Duda dá sinal verde para que faça os contatos e eles vão lá, fazem uma reunião e de fato nessa época o Duda já tinha me chamado para fazer a campanha, eu fazia a parte do núcleo central de criação dele lá e aí uma das campanhas que entra é a campanha do Dante e a gente faz o Dante governador em primeiro turno, numa das reuniões, últimas que ele teve em São Paulo, ele vira para mim e fala assim: se eu for governador eu vou te levar para lá, o Duda falou muito bem de você, eu andei pesquisando, eu preciso de uma cabeça como a sua para orientar o meu trabalho de comunicação. Ah legal, tudo bem eu, uma coisa é o cara está sendo gentil e tal. É interessante, homens de palavra têm que ser respeitados, ele recebeu a notícia de vencer no primeiro turno eram seis horas da tarde, às sete e meia tocou o telefone no meu apartamento em São Paulo, você viu o resultado? Fomos eleitos, está de pé o teu interesse em vir para Cuiabá? Falei está de pé e tal, pega um avião, vem pra cá para a gente conversar. A Dalila estava indo visitar a família, era final de ano, novembro, dezembro, a família, na África, eu passei a mão em um dos filhos que ia ficar, me bandeei para Cuiabá, cheguei lá ao meio dia, faz a reunião da tarde, dia seguinte de manhã eu estava trabalhando, montando um planejamento estratégico para o ano seguinte e tal, para aquele ano que ia entrar e aí pronto, aí assumi a agência que cuidava do governo, depois fizemos mais outras duas agências, montou-se um pool de agências que trabalhavam para o governo e ai veio o convite, fica aí. Aí minha mulher era a maior entusiasta, porque ela adorava Cuiabá e para os filhos era uma oportunidade de também viver numa cidade como eu vivi no interior de São Paulo, você vai a pé para a escola, vai para o clube, não tem essa paranoia de São Paulo, então era uma liberdade para nós dois e resolvemos, fomos para Cuiabá e fiquei como criativo, diretor de criação um ano da agência deles, um ano depois eles falaram você é muito caro para nós, mas se você montar um escritório de consultoria, nós continuamos, eu montei o escritório de consultoria, aí passei a atender outras agências e pronto, a partir daí eu fui obrigado a ter escritório, mas nunca quis ter agência, montar um escritório, éramos três cabeças criativas, três parceiros e tal, um comercial, um designer e eu como planejador e criativo. E fizemos, durante vários anos. Eu nunca quis ter agência de propaganda, mas com essa obrigatoriedade que você tinha que fazer parte do sindicato, tinha que ser agência para poder encomendar mídia e ter direito às comissões e etc., eu acabei sendo obrigado afazer uma fusão com uma outra agência, o meu escritório de consultoria e montei uma agência que durou quinze anos e aí…

Luciano             Era uma agência de comunicação em Cuiabá.

Labi                   … é, Fulgêncio Publicidade, tinha divisão, primeiro e segundo.

Luciano             Foi aí que a gente se conheceu, aí que eu comecei a ter contato com você, você já tinha aquela tua ação lá, hoje você é um escritor…

Labi                   Aí então, aí com o tempo eu fui escrevendo, fui escrevendo, aí o livro que eu tinha feito foi recebendo novos ajustes e etc. até que esse ano, quando estourou a operação carne fraca a editora me ligou e falou escuta, você vai esperar quando para lançar seu livro? O espaço está aberto para você. Eu falei é verdade, aí eu criei juízo, não é nem coragem, é juízo, me dediquei ao livro, dei a última revisada nele, fechamos e conseguimos.

Luciano             Acabei de recebe-lo, é um livro, só para vocês ficarem com água na boa, ele fez um romance passado no interior do estado de São Paulo, nos anos 80, onde ele trata da luta pelo domínio do mercado da carne, o livro sai agora em épocas de JBS, quer dizer, não tem nada por acaso aí não, você até me falou que isso é o embrião do próximo capítulo.

Labi                   É, não, o próximo livro que eu já venho desenvolvendo é os personagens 20 anos depois neste ambiente da operação carne fraca, exatamente, porque eles se aproximaram do poder, o crescimento… para você sobreviver no mercado com gigantes, ou você é gigante também e tem que fazer as regras, ou não. E eu conheci esses personagens quando jovens nos anos 70, foram as pessoas que me inspiraram a escrever o meu romance, foi meu romance é inspirado em histórias e fatos semelhantes que aconteceram e que eu vivenciei.

Luciano             Então, olha que legal, o programa de hoje aqui, a gente conseguiu fazer o programa inteirinho, tratando de certa forma, de decisões de liderança e empreendedorismo, com um cara que é um artista e que atuou dentro de um segmento corporativo, quer dizer, não é artista fazendo sua música para lançar a música no mercado, era um cara trabalhando dentro do ambiente de empresas, prestando conta, prestando serviço, job e etc. e tal…

Labi                   Atendendo a objetivos.

Luciano             … que nunca teve um carimbo na carteira de trabalho, ou seja, ele está com 67 anos, não vai ser agora que vai ter, mas que construiu um legado importante. O Labi é um cara que tem uma obra legal, a gente nem falou do seu trabalho com as Nações Unidas se não a gente vai longe, não consegui detalhar muita coisa aqui se não a gente vai ficar aqui estourando o tempo todo lá, mas o que eu queria botar aqui agora é o seguinte, Labi, você viveu intensamente até… porque é o seguinte, você é de uma geração pouquinho anterior da minha, eu estou com 61, você está com 67 e você pegou um período interessante porque eu era um pirralhinho e você já era o garotão de 20 anos no Rio de Janeiro, eu tinha 14, assisti a Copa do Mundo com 14 anos, você viu com 20 e você pegou um período de transição no Brasil já maduro, ou seja, já conseguiu ….. e eu não peguei, eu quando curti Beatles a banda acabou, para você ter uma ideia, o que é Beatles? Acabou a banda, então você é o cara que já curtiu pra valer aquilo lá. Agora aos 67 anos, olha para trás, olha para esse Brasil que nós estamos vivendo hoje que de um ponto de vista de organização, de tecnologia, de …. o Brasil evoluiu barbaramente, esse país aqui é uma loucura, o que a gente tem aqui era impensável nos anos 50 o que o Brasil construiu de lá para cá, por outro lado, a gente está sentado aqui discutindo, no almoço discutimos a mesma coisa que a gente discutia há 50 anos, você veio falar que você fez um filme, que se bobear era em preto e branco, discutindo empresa que pagava senador há 40 anos, então que é isso? É uma maldição? O que é isso? Que pecado é esse que nós estamos pagando?

Labi                   Eu tenho uma explicação que às vezes pode parecer politicamente errada, a formação do povo brasileiro é uma junção de três sementes complicadas. Eu passei 10 anos na África, a cultura africana privilegia o esperto, o que engana o outro, o que passa o outro para trás, é da cultura milenar, não é de agora. Os africanos já escravizavam outros africanos muito antes do branco pisar lá. Muito bem, a escória europeia degradada vai para as colônias e se junta com um povo que está num estágio de civilização completamente anterior a esses dois povos. O extrativismo indígena é absolutamente de uma liberdade, não é utopia, lá exista a liberdade absoluta, ninguém, eu vivi no Xingu, eu convivi com índios, fiz vários filmes, o índio não fala não para o filho dele, ele só fala ah a faca corta e o filho presta atenção porque ele não fala a palavra a toa, o índio não fala bobagem, então é uma civilização também muito liberal num país onde você jogou um pedaço de mandioca no chão, brota. Vai no Rio, joga uma flecha, flecha um peixe e você dorme sem precisar de coberta porque é tropical, então você fez uma rede de palha, você estende lá, juntou isso e deu um povo absolutamente de uma inteligência rara, de uma preguiça assustadora, que faz com que essa esperteza se tenda para o mal e com essa contingência de falar assim pô, se eu me dei bem, azar o seu, que vem do africano e nós fomos muito mais africanos do que nós imaginamos, eu aqui, branco de olho azul, tenho uma avó mulata, minha vó, mãe do meu pai era mulata, eu puxei o lado claro, mas meus irmãos ao contrário, então morou em Moçambique, na minha casa, um filho de português, um africano nascido na África, filho de portugueses, teve toda…. a vida dele, trinta e tantos anos na África, virou para mim e falou assim: você é mais africano do que eu, no hábito, na maneira, no comer, na música, então nós não damos conta de que essa mistura, essa miscigenação gerou este povo que não tem muito compromisso com a seriedade.

Luciano             Quando você fala da preguiça do brasileiro, não é a preguiça do cara que não trabalha, não é essa que você está falando, que eu quero passar o dia inteiro, porque vai ter neguinho aqui, ah eu trabalho 26 horas por dia, só me fodo, eu não sou preguiçoso. Não. Não é essa preguiça.

Labi                   Não, por que que eu sou obrigado a levar dez horas se eu posso fazer em cinco? Ah mas é que para fazer em cinco você vai quebrar umas  cinco leis aí e vai ter que atravessar no meio do jardim que é proibido pisar na grama. Ah que se dane pô, a grama nasce de novo, interessa é que eu… porque que eu vou levar…. vou economizar X horas para fazer esse trabalho e assim começam os processos. Então eu acho hoje que, claro que as lições, nós também somos o novo mundo, nós temos 500 anos, Europa, além de guerras, mortandades e catástrofes, tem só da era cristã 2000 anos, então, tempo faz diferença. O Samora Machel isso e eu levei muito tempo para entender, não se queima etapa histórica, nem com tecnologia, nem com nano chip, nada, a evolução humana, ela é um processo que precisa passar pelas catarses e pelos processos, o aprendizado vem de sofrimento, então eu acho que esse processo que nós estamos vivendo hoje, parece um retrocesso, é necessário para que se separe o podre do melhor e provavelmente o meu neto já vai dar valor a coisas que da nossa geração não é….. veja, eu…. contei aqui sem menor apelo de consciência que eu fazia contrabando, e está errado, roubando carro para dar pau de madrugada…

Luciano             Que nem o Nelson Piquet fazia.

Labi                   … entende? E nós achávamos que isso era legal, isso era…. tomamos todas as drogas possíveis que eram de dar barato para saber como é que era, uns não conseguiram sair nunca mais, outros entenderam que não era boa e partiram, como eu, mas vai dizer que não tomamos, não experimentamos. Então eu acho que é um processo que faz parte e …

Luciano             Eu estou dizendo para a molecada quando eu vou fazer as palestras que eu tenho feito por aí afora, sempre tem uma pergunta e resposta no final. Aí a molecada vem e pergunta o que eu acho desse momento que o Brasil está vivendo etc. e tal, coisa da lava a jato e tudo mais, eu digo para eles o seguinte, falo olha, vocês estão vivendo um momento que eu não tive, vocês estão tendo na mão uma oportunidade didática que eu não tive, quando eu tinha a idade de vocês a gente sabia que tinha corrupção, mas não sabia direito quem era, tinha uns nomes mas você não sabia quem eram, a gente sabia que eles roubavam, não sabia quanto, não sabia onde estava o dinheiro. Hoje em dia você sabe quem é o corrupto, quanto rouba, onde está o dinheiro, alguns estão na cadeia, ah mas não…. já tem alguns na cadeia.

Labi                   Vai chegar o dia que aquele juiz corrupto também não vai estar mais no lugar e não vai mais perdoar o caso…

Luciano             Então vocês hoje, a molecada, vocês não discutem mais será que ah o rouba mas faz, como a gente fazia na nossa época, era tudo….  hoje não é mais. Então o reflexo disso em vocês que são jovens, daqui a dez anos vai ser uma loucura, eu não tive isso, eu não tive essa aula, eu cresci acreditando que ah bom, acho que sempre foi assim, vai ser assim e essa molecada está tendo uma aula de que talvez não precise ser assim.

Labi                   Então, aproveitando essa deixa, eu, por exemplo, no tempo dos militares eu fiz um documentário para Furnas, que a construção de Angra I, a maior agência de propaganda do país, que tinha conta do governo, que chamava a gente para fazer orçamento de quanto fica helicóptero, horas de voo, não sei quanto para filmar e eu ah custa X mil dólares, o cara olhando falou assim, bom, então triplica isso, falei como? Triplica esse valor, nós vamos achar dois concorrentes com dois valores superiores a esse porque um dos terços vai para os caras dos milicos que mandam no negócio. Um terço é para calar a boca de quem poderia reclamar do processo e um terço você vai fazer o valor que você vai fazer o trabalho sossegado. Isso já existia nos anos 70 e eu ficava abismado, eu falava gente… Mas naquela época eram as regras e se falasse perdia a conta, perdia o documentário e não saia, então muita gente entrou nesse esquema de corrupção de lavar dinheiro e tal porque ou faz ou desiste ou não entra no jogo. Inclusive eu acho que muitos aspectos desses que se jogam no PT, o grande erro do PT foi quando ele entrou, ele em vez de desmontar, chamar ó, aqui é assim e tal, essa sujeira toda, eles falaram não, vamos fazer o jogo como é porque se nós pensarmos de desmontar, nós não ficamos no poder. E aí, exacerbaram mais ainda o processo, deixaram rolar, esse é o grande erro do PT, que eu acho, então realmente o Brasil precisa passar por essa lavagem de roupa suja, é um momento ruim? É, desagradável, mas já vinha, para não falar ah no tempo dos militares não tinha. Tinha sim, talvez dividisse com mais gente e ninguém falava nada porque morria. E, então é assim, eu me lembro na minha faculdade, a gente fazia reunião de cinco pessoas no apartamento, fazia um trabalho de faculdade e os caras falavam assim pô teu vizinho não periga de ele denunciar que é uma célula? Eles morriam de medo, porque os caras chegavam batendo e prendendo, porque tinha cinco estudantes reunidos no apartamento, então existia um clima de terror também, eu nunca… então voltando para a questão, só para fechar, ah você… eu fui empresário brasileiro, eu tive fazenda, eu herdei fazenda dos meus pais, cuidei porque minha mãe era dependente, eu cuidava da fazenda e tal, criei gado, conheço do mercado, fui empresário nesse setor, fui empresário de produtora de cinema, fui empresário, sou até hoje eu tenho uma pequena produtora de conteúdos, tive agência de propaganda e grande, com várias equipes, dei espaço, formei profissionais, fui dono de produtora na África. Agora, eu acho o seguinte, se você não tem medo e tem paixão por fazer, sempre vai ter um espaço para você, eu vou me aposentar, falam para mim você não se preocupa em aposentar? Não me preocupo, o tempo vai me aposentar. Ah você vai viver do quê? Meu amigo, se eu não fui capaz de construir nesse tempo todo ralando o suficiente para eu me aposentar, eu vou depender de quem? Entende? Eu sempre falei isso, tudo bem, se eu tivesse pago, recolhido e etc., eu queria meu quinhão, o meu contador diz, você tem direito como empresário você recolheu, você pagou compulsoriamente, você contribuiu X anos, você tem direito. Falei está bom, na hora trata ai dos papeis e veja se eu tenho direito de aposentadoria, até já tenho idade para isso, mas não é isso que vai me sustentar, até porque se eu recolhi, recolhi a quantia mínima, não vai me sustentar, mas enquanto eu tiver capacidade criativa e o DNA de estar constantemente bebendo da juventude, das levadas, do que é moderno, eu acompanhei, o tempo que eu tinha fazenda, o telefone dava manivela chamava a telefonista e falava eu quero falar com a dona fulana de tal, o telefone é 29…

Luciano             O senhor aguarde que daqui a meia hora…

Labi                   … e hoje eu uso um smartphone da Apple em que eu falo com meu filho em Barcelona real time e eu trabalhei…. eu fiz curso de programação da IBM, eu tenho know-how de tecnologia eletrônica de TI bastante grande, faço sites, desenvolvo projetos de portal, eu acompanhei o meu tempo, eu não me acomodei.

Luciano             Esse é dos meus, o Labi é dos meus.

Labi                   Agora, então, qual é a receita? Você faz a vida te dá aquilo que você faz, se você ficar acomodado esperando eu a vida te coloque…

Luciano             A única coisa que você vai conseguir fazer é ficar velho, é só isso, se você ficar esperando eu a vida te dê, ela vai te dar a velhice.

Labi                   Aí as pessoas falam pô, você tem 67, eu falo não, eu tenho dois de 33 e meio, quando um está dormindo o outro está trabalhando.

Luciano             Enquanto a coluna deixar, enquanto a perna deixar, vamos fazer acontecer.

Labo                  Vamos. Bola pra frente.

Luciano             Grande Labieno, então estamos em lançamento de livro novo, o programa aqui vai sair lá por fevereiro, até lá o livro já deve estar convenientemente lançado aí…

Labi                   Já a segunda edição, se Deus quiser.

Luciano             … quem quiser achar o Labi encontra aonde? Tem Facebook? Tem um site? O que é que tem?

Labi                   Labi Mendonça se botar no Google, vai aparecer de tudo, entendeu? Até impropério.

Luciano             Quer dizer, por exemplo, garoto de programa experiente, pode ser que apareça.

Labi                   Coroa de programa, aliás eu fiz uma conversão agora eu sou coroa de programa, programa de rádio, de televisão…

Luciano             Podcast…

Labi                   … podcast. Programa é comigo mesmo.

Luciano             Legal, Labi Mendonça no Facebook. Grande Labi, uma delícia sempre conversar com você, não deu para a gente mergulhar muito fundo porque se não ia dar três horas e meia de programa, mas acho que a gente conseguiu trocar uma ideia legal aqui, o pessoal gostou.

Labi                   Você sabe que eu sou seu fã, você chamou eu estou firme e forte aqui.

Luciano             Fico feliz de te ver aqui. Grande, um abraço, obrigado.

Labi                   Um abraço.

 

                              Transcrição: Mari Camargo