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Ciça Camargo -

Luciano             Muito bem, mais um LíderCast. Vamos lá, como é que esse sujeito chegou aqui, esse aqui é um daqueles caras que a gente só encontra em festa sabe, eu só encontro com ele quando tem coisa legal acontecendo, ou está lançando um livro, ou são os amigos que estão se juntando, aí vai ter novamente um almoço maravilhoso, a gente só se encontra assim e há algum tempo atrás a gente se conheceu, começamos a conversar, eu vi que ele estava agitando um pouco e que o cara tem uma participação meio polêmica no Twitter e tudo mais, faz, pinta e borda, eu resolvi trazê-lo, está aqui conosco hoje. Eu vou fazer aquelas perguntas fundamentais, as únicas que você não pode errar, por favor, presta atenção. Eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Paulo                Bom, meu nome é Paulo Cruz, eu tenho 42 anos e sou professor de filosofia e sociologia no ensino público e privado, no ensino médio, em São Paulo.

Luciano             Professor de sociologia…

Paulo                E de filosofia.

Luciano             … e de filosofia. Você nasceu aonde?

Paulo                Nasci em Guarulhos, nasci no bairro do Gopoúva, em Guarulhos, morei lá até os 9 anos, depois a gente mudou para o Jardim Tremembé, onde eu fui criado, saí de lá só quando eu casei, aí morei um tempo num bairro próximo, Vila Guilherme, hoje moro ali próximo, Jaçanã.

Luciano             O que é que teus pais faziam, teu pai era o quê?

Paulo                Meu pai era advogado, um advogado batalhador assim, que se formou tarde e tal, mas era advogado e contador, faleceu em 2012, alguém de quem eu sinto muita falta, mas tenho uma saudade gostosa dele assim, fomos muito ligados e próximos e minha mãe, assim, quando eles… foi engraçado porque eles casaram e aí ela deixou de trabalhar, trabalhava desde pequenininha, com 12 anos ela trabalhava, já tinha conta, ela diz que tinha uma conta na vendinha, aos 12 anos, que ela tinha cadernetinha, ela trabalhava e ia lá, porque a mãe criou 7 filhos sozinha, aquela coisa do vem de Minas para cá com o marido, o marido fala vou ali comprar cigarro e nunca mais aparece…

Luciano             Esse é o seu avô.

Paulo                Esse é o meu avô, que eu nem conheci, então minha mãe começou trabalhar muito cedo, quando eles…

Luciano             Desculpa, esse seu avô, aquele filho da puta.

Paulo                … exatamente, aquele sem vergonha safado, sumiu no mundo, aí diz que ele vinha de vez em quando, ficava uns dias, aí espera aí que eu já venho, ficava mais três anos, desse jeito e aí, quando eles casaram minha mãe ficou sem trabalhar, porque aí foi cuidar da casa, na verdade trabalhava em casa, ela diz que ela fazia redinha de berço em casa enquanto meu pai trabalhava fora. E eles tiveram quatro filhos, eu sou o quarto, a raspa do tacho, que nasci dez anos depois do último e aí o meu pai resolveu, assim, e ela cutucando meu pai para ele poder comprar uma casa, falou não quero morar de aluguel a vida inteira, você pode dar um jeito, meu pai trabalhava feito um condenado, entregava de final de semana folhetinho de empreendimento imobiliário e ela fazendo as redinhas de berço e tal, aí tomava…

Luciano             Isso antes de ele se formar?

Paulo                … isso antes de ele se formar, porque aí o que aconteceu? Ele tomava umas cangibrina, umas “pinga” e um dia ele se deu conta de que olha, ela está me atormentando que eu preciso melhorar, ele era auxiliar de escritório numa empresa, falou acho que eu vou ter que voltar a estudar porque eu só vou melhorar numa profissão se eu estudar, só que para estudar eu tenho que parar de beber e aí ele parou de beber e foi fazer madureza, que hoje acho que é o supletivo à distância. Ele fez madureza, fez as provas e aí foi fazer auxiliar de contabilidade, técnico em contabilidade, terminou, entrou em ciências contábeis, foi lá a trancos e barrancos, ficava devendo seis meses, aí ia lá conversar e aí acabava ganhando bolsa integral o ano todo, terminou ciências contábeis, fez direito, e aí ele começou… porque ele terminou ciências contábeis, aí ele falou mas eu queria trabalhar para mim, aí ele acabou emendando, fez direito…

Luciano             Fez direito. E se formou em direito? Que ano era isso mais ou menos, década de 70?

Paulo                … 79 acho que ele se formou em direito…

Luciano             79.

Paulo                … é, eu tinha 3 anos, 4 anos.

Luciano             Em Guarulhos.

Paulo                Em Guarulhos, na FIG ele se formou, aí ele montou um escritório pequenininho em Guarulhos. Então, eu cresci nesse ambiente assim, vendo aquele escritório, coisa e tal, meus pais separaram eu tinha 8 para 9 anos, mas ele sempre foi muito presente, então eles combinaram que ele não ia desaparecer, mas eles ficaram muito amigos depois assim, meu pai ficava mais na casa da minha mãe do que na casa dele e então minha mãe, depois de 30 anos voltou a trabalhar, falou ah, estou aqui, está todo mundo criado já, quer saber? Vou voltar a estudar, ela voltou a estudar…

Luciano             Com o quê 50 anos?

Paulo                … é, nessa época ela não tinha ainda, talvez tivesse já quase 50, ela voltou, fez supletivo do ensino fundamental e tal, aí fez o ensino médio falou ah, vou fazer um curso de instrumentação cirúrgica, aí fez instrumentação cirúrgica, aí emendou, fez auxiliar de enfermagem e aí, quando ela tinha 57 anos, 56 que ela terminou, ela prestou um concurso, passou, aos 57 ela voltou a trabalhar.

Luciano             Que legal.

Paulo                Pois é, trabalhou e se aposentou agora, com setenta e pouquinho ela parou de trabalhar, então voltou…

Luciano             Na área da saúde.

Paulo                … na área da saúde, enfermeira, aí depois passou, muito engraçado, porque passou um tempo, o curso de auxiliar de enfermagem seria substituído pelo técnico e aí os auxiliares fariam uma atividade subalterna, digamos assim, ela falou o quê? Nada disso, aí ela arrumou uma escola de freira perto de casa, que tinha um curso técnico de enfermagem e foi lá fazer o curso técnico e falou eu não vou fazer curso de atendente, foi lá, fez o curso técnico e aí começou a trabalhar como técnica em enfermagem até se aposentar, hoje está lá aposentada.

Luciano             Que delícia. Sabe porque eu faço essas perguntas antes de começar aqui, porque eu trago você para conversar, aliás você não, qualquer pessoa que eu ponha para sentar e conversar comigo, a primeira parte é assim, quem é seu pai, quem é sua mãe, o que eles faziam, de onde eles vieram, porque isso dá pra gente uma ideia de o que formou você. Eu acabei de entender tudo, não te conhecia nada, acabei de entender essa tua birra com essa questão de vitimismo e tudo, porque se o que você não teve na tua vida foi exemplo de vitimismo, você viu teu pai e tua mãe, pô essa do teu pai, preciso melhorar na vida, só vou conseguir estudando e tem que parar de beber e vou fazer, e vai e faz. Bom, para você que está ouvindo a gente aqui e não conhece o Paulo Cruz, ele e evidentemente o pai e a mãe dele são negros, então ele está falando de um negro se formando em direito nos anos 79, em Guarulhos. Tem mais um componente para a gente botar mais um pouquinho de tempero nessa nossa conversa aqui. Muito bem, você olhando os dois, você decide fazer o que da vida? O que o Paulinho queria fazer quando crescesse?

Paulo                É então, como eu era muito mais novo do que os meus irmãos, então tinha três irmãos já… eles um ano de diferença cada um e eu 10 anos mais jovens, então eu cresci numa família de gente mais velha, então eu amadureci muito cedo, então aos 13 anos eu já trabalhava com ele, com meu pai, todos nós fizemos isso. Saía da escola, passava em casa, almoçava e ia para o escritório, pegava o trabalho e meu pai era assim, ah preciso ir lá no fórum de Pinheiros. Onde é? Eu não sei, eu só sei ir de carro, de ônibus eu não sei ir. Eu acho que sai um ônibus de tal lugar, aí ele lembrava, toda vez ele lembrava daquele livretinho que hoje eu herdei dele esse livretinho do Mensagem A. Garcia, pois é, eu tenho lá, tenho esse livretinho lá em casa, entregava uma mensagem para o sujeito e ele tinha que entregar e ele não queria saber, então toda vez ele falava isso, Mensagem A, Garcia, eu não sei, mas eu vou fazer, então a gente botava o envelope debaixo do braço e ó, conheci São Paulo todinha desse jeito.

Luciano             Você sabia que se você fizesse isso hoje, seu pai ia preso?

Paulo                Pois é, aos 13 anos, eu conheci tudo assim, com 14, 15 anos eu já conhecia tudo em São Paulo e o meu irmão Adilson, que é o que vem logo depois de mim, ele gostava muito de eletrônica, então ele tinha em casa assim um laboratório no fundo, na edícula no fundo, tinha um laboratório cheio de tranqueira e tal e aí ele começou, foi estudar, fez técnico, tal, ele nem terminou de se formar, ele foi se formar quase junto comigo, porque aí, depois ele já trabalhando, eu meio sem saber assim o que eu queria fazer, falei ah, vou fazer eletrônica também, mas eu fui no embalo dele, meio no embalo assim e fui fazer, terminei lá o ensino, hoje que é o fundamental, e já fiz o técnico em eletrônica, fiz o médio…

Luciano             Você é formado técnico em eletrônica?

Paulo                … isso, é a primeira formação…

Luciano             Somos dois, eu também sou técnico em eletrônica.

Paulo                … pois é, aqueles quatro anos  e tal, então fiz. Aí meu irmão que não tinha se formado, ele voltou a estudar, então ele se formou um ano antes de mim e aí me formei e ele arrumou um estágio na empresa que ele trabalhava já há um tempão e aí eu entrei na empresa, 94, eu entrei na empresa como estagiário e aí fui efetivado, fiquei lá até 98, por quê? Porque em 96 eu fui para a faculdade e aí fui fazer processamento de dados, que hoje é sistema de informação, tecnologia e eu fiz o processamento de dados, me formei em 98 e aí em 98 eu saí dessa empresa, fiquei quatro anos lá, no comecinho de 98 eu saí de lá e aí rodei um pouco tal e trabalhei no UOL, trabalhei numa companhia de navegação que faliu, ali na Av. Brasil e fui parar no Bradesco…

Luciano             Sempre na tua área de sistemas.

Paulo                … é, aí eu já tinha me formado e aí já comecei como estagiário de suporte técnico e virei um analista de suporte técnico e aí comecei a trabalhar com isso e estava lá no Bradesco nessa época e aí um grande amigo meu, o Guto, com quem eu tinha trabalhado naquele meu primeiro emprego, ele me ligou, falou é o seguinte, a gente montou uma outra empresa com o Orlando, que o Orlando era um dos diretores dessa empresa, um dos donos dessa primeira empresa que eu trabalhei, que era uma empresa que produzia equipamentos de URA, unidade de resposta auditiva de banco, você liga para o banco, aquela máquina que te atende e tal, então ele fabricava isso lá e a empresa tinha assim, mais de 90% do mercado de bancos do Brasil. Era uma empresa muito bem conceituada e tal e aí eles saíram de lá e montaram uma outra empresa e aí ele me ligou, estou precisando de um cara de suporte aqui, a gente acabou de montar, a empresa tem um ano e tal, eu, o Orlando e um outro, o Edilson que era um gerente dessa empresa, a GMK e aí ele me chamou para conversar, fui lá e entrei, em 2002 eu comecei a trabalhar nessa empresa e fiquei lá 11 anos…

Luciano             Saiu do baita Bradesco…

Paulo                … saí do Bradesco…

Luciano             … aquela coisa gigantesca, fantástica.

Paulo                … e fui para uma empresa de sete pessoas, começando…

Luciano             Por quê?

Paulo                … porque o Guto é meu amigo, não é? Porque tinha perspectiva, era uma empresa…

Luciano             Foi ganhando mais do que no Bradesco?

Paulo                … não muito mais, um pouco mais, mas tinha muito desafio porque estava começando e era muito curioso, porque eles faziam um chat para celular, ligava para uma sala de bate papo, faziam um negócio muito bem feitinho, com monitoras e tal.

Luciano             Que ano era isso, 99?

Paulo                Não, 2002.

Luciano             2002.

Paulo                É, 2002 e aí, por exemplo, tinha no Brasil todo já, eles estavam terminando, no Rio de Janeiro estava implantando e aí então no fim quando eu cheguei, pouco tempo depois tinha no Brasil todo e logo depois a Claro comprou todo mundo, então tinha uma empresa no sul, tinha uma empresa de São Paulo, que era a BCP, tinha uma empresa no interior e litoral e aí eu fui para lá, comecei a trabalhar com eles como analista de suporte, então fiquei lá onze anos e quando eu saí de lá a empresa tinha mais de sessenta funcionários, eu saí de lá como coordenador de suporte técnico.

Luciano             2013.

Paulo                É, no comecinho de 2014 na verdade, porque eu entrei lá em novembro de 2002 e assim, 2004 eu tive uma iluminação, eu estava… fazia dois anos que eu estava na empresa, eu tinha acabado de casar, eu casei em fevereiro de 2004, eu estava lendo uma autobiografia, autobiografia do Thomas Merton, que é um monge trapista famoso, católico e ele tem uma primeira fase da autobiografia dele que é a fase acadêmica, ele defendendo tese, doutorado e não sei o quê, eu lendo aquilo eu tive um negócio assim, falei é isso aqui que eu sou, eu sou professor e eu queria largar tudo, eu cheguei na empresa e falei não quero mais trabalhar aqui. Chamei o Guto, esse meu amigo, hoje está morando nos EUA e ele tomou um susto, falou mas o que aconteceu? Estou vendo que você está meio assim. Falei olha, eu descobri que eu sou professor, eu quero sair, vocês tem que me mandar embora, que eu vou dar aula, falou mas você está maluco, acabou de entrar, acabou de chegar na empresa, acabou de casar, como assim? Para um pouco, aí a gente conversou um tempão e tal, ele falou dá um tempo, pega aí umas duas semanas para você pensar, a gente volta a conversar depois.

Luciano             E você não tinha tido nenhuma experiência como professor ainda.

Paulo                Olha, para dizer que não, na época eu estava na igreja já e tinha falado assim você fala na igreja, conversa e dá aula em escola bíblica, assim, mas tudo muito informal.

Luciano             Que igreja é?

Paulo                Na época que eu estava lá era uma igreja neopentecostal, eu nunca fui de uma igreja de denominação grande, conhecida. Mas então assim aí, cheguei em casa, fui conversar com meu pai. Aí conversei com meu pai, conversei com a minha esposa, eles falaram calma, o que está acontecendo? Falei olha, é o seguinte, eu descobri que eu sou professor, eu tenho que dar aula, é isso que eu tenho que fazer, deu o que fazer até me colocarem com o pé no chão de novo, aí eu falei tá bom, tudo bem, não é assim que tem que fazer, está bom.

Luciano             Então dá uma pausa aí. Paulo, que imagem, que força é essa que um livro que um cara escreveu há quantos anos?

Paulo                Olha eu nem sei se é década de 50. É velho.

Luciano             Que imagem que é essa que um texto escrito num livro tem de desencadear esse furacão mental a ponto de transformar isso numa ação física, quer dizer, você chega num lugar e fala para tudo, não quero mais isso, quero outra coisa porque eu li um negócio. Como é que é isso?

Paulo                Pois é, olha, eu acho que já estava em mim, depois eu fui descobrir…. aí eu fiquei fazendo uma anamnese para falar onde que a coisa começou, foi assim do nada e tal, eu me lembrei, por exemplo, que quando eu fazia faculdade de processamento de dados, eu tive um professor de metodologia científica, acho que no segundo ano que ele assim, ele resolveu a disciplina em sei lá, um bimestre, dois, já passei tudo o que eu tinha que passar, agora eu vou passar um pouco de filosofia para vocês, tudo bem? E eu adorava aquilo, adorava aquela coisa, contato com a filosofia, mas aquilo foi, na hora eu não pensei nisso, depois com essa anamnese, esse processo anamnético eu falei caramba, e eu lembro que eu gostava muito das aulas daquele professor de filosofia, mas eu ainda…. voltei mais, quando eu era molequinho, devia ter 12 anos, 11 sei lá o quê, infelizmente eu perdi esse caderno e aquelas paixõezinhas de criança e eu desatei a escrever umas coisas e eu lembro que tinha um verso que ficou na minha cabeça, era uma quadrinha que era assim, eu não sei de onde eu tirei isso, não me pergunte de onde eu tirei, mas era assim: penso, logo existo, não sei se insisto ou se só assisto se assumo esse compromisso ou se desisto. Eu escrevi isso quando era criança, isso ficou na minha cabeça…

Luciano             Repete de novo.

Paulo                … penso, logo existo, ou seja Descartes, nunca tinha eu era criança, penso logo existo, não sei se insisto ou se só assisto, se assumo esse compromisso ou se desisto.

Luciano             Porra.

Paulo                Isso ficou na minha cabeça, foi a única coisa desse… e era um poeminha assim mais longo do que isso, que eu perdi, mas essa coisinha ficou na minha cabeça, então eu devia ter 12 anos, 11, sei lá, era criança ainda, então fui fazendo esse resgate assim mental de que assim eu acho que eu sempre gostei dessas coisas.

Luciano             Isso estava acumulando num lugar na tua cabeça, você não percebeu e um dia pintou um catalisador, deu um raio nessa sopa.

Paulo                Primeiro eu me converti assim, no ano 2000, como eu amadureci muito rápido, comecei a sair muito cedo, então eu tinha 14 anos eu já saia de madrugada com meus irmãos, meus primos, então comecei a sair muito cedo, comecei beber muito cedo inclusive, bebi muitas, passei uma fase da minha vida de beber bastante, meus irmãos beberam muito, tiveram muito mais problema do que eu tive, tive irmão de ficar internado por causa de bebida e tal, hoje graças a Deus ninguém bebe mais, só a minha mãe que ainda bebe, mas muito tranquila assim em casa tal, mas a gente não, então eu e meus irmãos a gente tomava assim, era coisa de louco. E em 99 eu bati o carro, dormi no volante, na semana entre o natal e o ano novo, de 99 para 2000, eu bati o carro e aquele dia eu falei eu acho que eu não posso beber mais não, eu vou acabar morrendo com esse negócio, não dá mais, então eu parei, resolvi parar de beber, eu estava muito mais gordo, eu tinha quase 100 quilos e resolvi parar de beber, tomei lá uns negócios para emagrecer, emagreci e tal aí eu estava meio injuriado, eu falei ah, eu vou na igreja, e tinha uns amigos de infância que estavam numa igreja, uma igreja pequenininha de bairro, chamada Missão Atual em Cristo, falei eu vou lá e fui e fiquei, não tive aquele negócio de ah, vai lá na frente, fiquei lá, depois de um tempo já estava fazendo um monte de coisa lá e ajudando e tal e eu já li assim bastante quando, sei lá, desde uns 12 anos talvez, porque na escola, o primeiro livro que eu li na vida foi Dom Casmurro, eu não li coleção vagalume, aquelas coisas que o pessoal lia quando era…

Luciano             Monteiro Lobato…

Paulo                … porque eu não gostava de ler, mas o Dom Casmurro me caiu nas mãos por causa de uma prova que tinha que fazer na escola, eu estava na sétima, oitava série e aí eu me encantei com aquilo, traiu ou não traiu, não sei o quê, fiquei doido com aquilo, passou a prova eu não tinha acabado o livro ainda, mas eu continuei lendo, terminei e daí eu comecei a ler uma coisa ou outra, li Paulo Coelho, aquelas coisas e tal, quando meu pai descobriu que eu estava assim gostando de ler, ele nunca me forçou, mas ele sempre falava de livros, meu pai foi tutelado por um italiano no primeiro emprego dele, um homem chamado Mário Galvanese, que já faleceu também e tal e ele falava desse homem o tempo todo, porque ele era um pretinho office-boy do SESC, quando o SESC estava começando e esse Galvanese meio que tutelou ele assim e ensinou para ele tudo o que tinha de bom na vida, diz que esse homem era cantor lírico, era poeta, era um boêmio e então ele ficava contando essas coisas para o meu pai, meu pai ficava falando assim, olha, uma biblioteca que se preze, o Galvanese dizia, tem que ter Alexandre Dumas, tem que ter Tolstói, tem que ter Cervantes, então meu pai vivia falando isso. E eu, pequeno, ficava escutando ele contando essas histórias desse tal de Galvanese. Ele disse que a primeira vez que ele saiu com a minha mãe, eles foram num restaurante, e ele pediu lasanha verde e ele diz que ele nem sabia o que era, o Galvanese falava, então eu fui imitar o Galvanese porque era bom, então ele sim, ele teve uma formação cultural e intelectual muito centrada nesse Mário Galvanese. Meu pai era um homem de uma cultura invejável assim para os padrões brasileiros, então quando ele percebeu que eu estava gostando de ler, então ele ficava me…. aí um dia ele falou para mim, você tem que ler um livro que chama “O Egípcio”, do Mika Waltari, acho que é finlandês, eu não lembro agora e aí eu falei para ele, mas qual que é, aí ele me trouxe o livro e era um livro de mais de 600 páginas, eu falei eu não vou ler isso, uma edição de 1948, se eu não estou enganado. Falei eu não vou ler esse livro todo amarelo, as páginas todas amarelas, não vou ler, muito grosso, as pessoas vão ver eu lendo isso na rua, vão pensar o quê? Que eu estou lendo a bíblia na rua? E ele ficou insistindo, não, você tem, se você ler uma página disso aqui, você não para mais. E aí ele insistiu tanto que eu peguei o livro para ler e foi mesmo, eu li uma página do “O Egípcio”, recomendo a todo mundo que leia, é uma saga impressionante, não sei se você conhece…

Luciano             Não conheço

Paulo                … pois é, é impressionante, uma tradução do José Geraldo Vieira, belíssima tradução e aí eu li e não consegui parar mais, aí li “O Egipcio”. Então a minha qualidade de leitura foi aumentando, então quando eu me converti eu já lia relativamente bem assim, bastante e aí eu comecei a direcionar um pouco mais minhas leituras para teologia porque eu queria entender essa coisa de cristianismo e tal, porque nunca tinha tido assim, não tive uma formação, não fiz primeira comunhão.

Luciano             Como é que é me converter? Quando eu me converti ao quê?

Paulo                É, ao cristianismo, ao protestantismo, digamos assim, porque eu não tive uma formação católica, fui batizado quando criança e só, então não ir à missa, eu ia com meu pai de vez em quando, mas minha família nunca foi assim, aquela coisa católica mais…. meu pai era mais do que minha mãe, só que como eles eram separados, então eu não acompanhei isso muito de perto assim, então quando eu comecei ir à igreja, uma igreja evangélica e aí eu falei bom, então eu quero entender isso e comecei a ler teologia, aí li muita teologia, comprei um monte de coisa tal e da teologia eu passei a ler filosofia, isso depois do ano 2000 assim, comecei a ler bastante coisa e tal, então uma coisa foi puxando a outra e aí cheguei na filosofia, comecei a ler filosofia, aí quando foi que eu tive essa iluminação lendo Thomas Merton em 2004, mas eu só fui voltar para a faculdade em 2009, então em ….

Luciano             Você resolveu fazer…

Paulo                … eu resolvi fazer filosofia…

Luciano             … filosofia.

Paulo                … exatamente.

Luciano             Cursar filosofia.

Paulo                É, eu esperei um pouco, porque nesse meio tempo de 2004 até 2009 eu comprei um apartamento e aí tive que… falei ah, agora não dá para voltar a estudar, tem que pagar o apartamento.

Luciano             Quer dizer, aquele povo fez você botar o pé no chão, de não tomar uma decisão maluca na tua vida, mas você não tirou da mira vou ser professor e aí você começou a se preparar então para isso, não é? Já que eu vou ser, deixa eu me preparar para isso.

Paulo                Aí em 2009 eu entrei na faculdade de filosofia e fiz, me formei em 2011 e aí falei bom, e agora? Aí fiquei naquela, antes disso fui conversar com os donos da empresa porque falei, sou aqui um analista de suporte, um coordenador de suporte, vou fazer filosofia, eu fui conversar com eles, falaram não, a gente sabe que você gosta disso, vai lá e tal, a gente já se conhece há tanto tempo…

Luciano             Só não me enche o saco no boteco, deixa eu beber minha cerveja, não me venha com essas histórias de Nietzsche, essas coisas, não me enche o saco.

Paulo                Aí eu fui fazer, era perto, eu trabalhava ali no metro Paraíso e fiz na UNIFAI de Vila Mariana, então era muito tranquilo, eu trabalhava bastante assim com celular da empresa, tocava toda hora, aquela coisa, suporte técnico é aquela loucura, mas consegui cursar, terminei em 2011 e aí fiquei pensando, aula a noite eu não consigo dar, porque eu trabalhava o tempo todo assim, saía da empresa ia trabalhando pelo celular, chegava em casa trabalhando, era assim, direto. Então ficou assim, naquele stand by eu meio sem saber o que fazer, quando foi em 2013, eu saí em férias, mais ou menos em setembro e fui com a minha esposa e meu filho para a casa da minha sogra que está morando em Minas tem uns dez anos, uma cidade pequena de Minas e eu adoro ir para lá, dá o que fazer para eu voltar quando eu vou.

Luciano             Que cidade é?

Paulo                Chama Nepomuceno, perto de Lavras, depois de Três Corações e aí eu estava lá, na praça tal, aquele clima, aí eu falei quer saber? Agora é a hora, aí eu voltei das férias, meu pai já tinha falecido, acho que foi o meu freio moral…

Luciano             Tinha ido, perdeu. Sim.

Paulo                … aí eu falei bom, voltei das férias,  quando eu voltei eu fui procurar para ver se tinha alguma coisa de professor, aí vi que o concurso para professor do estado estava aberto, falei é aqui mesmo, eu vou me enfiar aqui nesse negócio, fiz a inscrição e aí quando eu voltei a trabalhar, acho que uma semana depois…

Luciano             Você já estava com o diploma de…

Paulo                … já, já estava com o diploma.

Luciano             Já tinha se formado?

Paulo                Já, licenciatura…

Luciano             Quantos anos foram? Três anos?

Paulo                Três anos. Me formei em 2011. E aí cheguei, voltei das férias, na primeira semana, no segundo dia que eu estava lá dentro da empresa já liguei para o diretor da empresa e falei olha, eu queria bater um papo tal, e aí fui conversar com ele, falei quero saber como faz para me mandar embora, eu quero sair tal e assim, estava tendo um monte de mudança na empresa e tal, então eu aproveitei que as coisas estavam mudando e aí fui falar com ele, falei olha, assim, eu não estou mais assim com aquele… vou aproveitar…

Luciano             Só não tinha passado… você não tinha sido chamado ainda no concurso.

Paulo                Não, ainda não, não tinha nem…

Luciano             Você já contou para os caras que queria sair…

Paulo                Eu não tinha nem prestado ainda nada, tinha feito a inscrição, a prova ia acontecer ainda.

Luciano             Você se deu a dimensão do tamanho desse risco na época?

Paulo                Dei.

Luciano             O risco que você estava correndo com família, com mulher e filho e tudo mais?

Paulo                Dei.

Luciano             Isso foi calculado?

Paulo                É, sim, não foi absolutamente calculado porque essas coisas a gente não calcula, mas assim, há dez anos eu já estava pensando nisso, então assim, isso já estava na minha cabeça, foi exatamente essa pergunta que ele me fez quando eu sentei com ele e falei olha, como é que faz e tal? Aí ele falou espera aí, mas como assim? Você vai sair daqui e aí? Falei não, eu vou lecionar. Ele falou tá bom, mas o salário que você tem aqui, como é que vai fazer? Falei olha, se eu pensar… eu já estou pensando nisso há dez anos, então uma hora eu vou ter que fazer isso e aliás, se eu não fizer agora, daqui um pouco vocês não vão me aguentar mais aqui e aí vocês vão me demitir numa hora que eu não vou estar esperando, então acho que pode… e aí conversamos um tempão, ele falou bom, mas e aí? Como é que você vai fazer, você vai voltar a estudar? Não vai? Eu falei olha, eu preciso voltar a estudar e tal não sei o quê? Ele falou está bom, dá uma olhada aí, depois a gente senta e conversa mais um pouco. No fim a gente se acertou, ele falou fica até fevereiro do ano que vem, 2014, a gente te acerta e tudo bem e aí em fevereiro eu saí, prestei o concurso, foi em novembro a prova, passei em terceiro ou quarto lugar, em Guarulhos e eu escolhi Guarulhos porque eu queria um lugar perto de casa e eu moro perto de Guarulhos, eu queria um lugar perto e no contra fluxo, que eu não precisasse pegar trânsito e coisa e tal e também não tão pertinho de casa para eu ter que ir a pé. E aí prestei… Aí fui atrás de uma universidade para fazer mestrado…

Luciano             Sim, mas antes de começar…

Paulo                … é, isso já assim nesse final de ano.

Luciano             … eu estou tentando achar, nessa tua loucura toda, eu estou tentando encontrar um gancho aqui para pegar nela, espera um pouquinho, então você sai da empresa, num tal do fevereiro já tendo passado no concurso, ou seja…

Paulo                No concurso e no mestrado.

Luciano             … ah…

Paulo                O vestibular para o mestrado foi em dezembro.

Luciano             … sim, o vestibular para fazer o mestrado, mas independente disso, você sai da empresa já com emprego garantido.

Paulo                Exatamente.

Luciano             Legal. Então esse é um ponto, então bom, baixou um pouco a ansiedade aqui. Segundo ponto, na empresa você ganhava dez e você sabia que entrar no emprego agora ganhando três…

Paulo                Mais ou menos essa proporção…

Luciano             … está certa a escala? Era por aí a escala não é? Dez para três significa uma redução brutal no teu nível de vida, uma porrada de coisa, como é que você fez? Tua mulher estava contigo nessa? Vai estou com você, vamos nessa, a agente vai ter que dar uma apertada e não é que eu vou começar com três para logo mais voltar aos dez, não, professor não é assim, como é que é? Como é que você trabalhou esse lado.

Paulo                Bom, no fim das contas assim, o próprio Orlando e esse é o nome dele, alguém a quem devo muito, o diretor da empresa, a gente conversou bastante sobre isso e ele me deu assim um baita de um respaldo, falou olha, precisar da gente você me avisa, tanto é que assim, eu voltei a trabalhar com ele esse aqui, mas ele tem um projeto, ele coordena um projeto social que faz um processo seletivo com alunos do nono ano do ensino público e os cinco primeiros colocados ganham uma bolsa de estudos no Etapa, então ele tem sempre quinze alunos lá sob a tutela desse projeto e aí ele me convidou para dar um curso para essa molecada e aí eu voltei a trabalhar com ele esse ano, dei um curso lá de março até setembro agora, final de setembro.

Luciano             Curso de quê? Filosofia?

Paulo                É, de cultura, na verdade, que eu chamei de cultura e cidadania, então estão sempre em contato assim, então ele me deu um baita de um respaldo e eu recebi um bom dinheiro.

Luciano             Você está enrolando, volta na pergunta que eu fiz.

Paulo                Ai eu recebi um bom dinheiro e tal, então eu falei bom, eu consigo me segurar durante um ano, certo? Com essa grana, tal.

Luciano             Tua esposa como é que chama?

Paulo                Abigail. Biga.

Luciano             Biga…

Paulo                Sentei com ela…

Luciano             … ela trabalhava?

Paulo                Ela trabalhava, trabalha.

Luciano             Biga, nós vamos ter que segurar as pontas.

Paulo                Ela é professora de canto e aí…

Luciano             Como é que foi a reação da Biga?

Paulo                … então, o problema é assim, ela me via o tempo todo falando disso, entende? Livro…

Luciano             Ela sabia desse sonho e falou estou contigo.

Paulo                … sabia, sabia porque em 2004 a gente estava casado já, então assim, ela meio que sabia que não tinha problema de correr, uma hora eu ia ter que fazer isso.

Luciano             Qual era o papel dela nessa tua transição?

Paulo                Ela é muito serena assim, ela falou vai, você quer vai. Estou com você, vai aí, então ela não e muito de fazer conta, ah vem aqui, ah vai faltar dinheiro, não fez nada disso, você quer? Vai que Deus vai te ajudar e vai botar as coisas no lugar e você vai conseguir.

Luciano             Você sabe que eu tenho um caso, não é a mesma coisa, mas é um caso assim de uma coisa, de um momento que você vai tomar uma decisão e que pela decisão que eu ia tomar era um negócio complicado. Eu tenho um momento marcante na minha vida, que é uma viagem que eu fiz para o Everest, aos 44 anos, botei uma mochila nas minhas costas e fui me enfiar lá no fim do mundo e naquela história toda pô, casado, um baita emprego, ir para um lugar que você corre risco aquela coisa toda, sem ter nunca feito nada parecido e tem esse momento em que você tem que dividir para a tua família, chegar a falar estou indo fazer essa loucura. E a minha mulher fez igual a tua, falou é isso que você quer? É. Você gosta? Então vai. Então isso tira um peso gigantesco porque você fala bom, legal, eu tive um empurrão e eu escuto histórias aqui de montão de gente que precisou de alguém para você chegar numa hora, estou numa puta dúvida, divide comigo, não é que ela… ela não tomou a decisão por mim, não, mas o simples fato de falar estou contigo, botar a mão no ombro e falar estou contigo, vai nessa aí, muda tudo, não é?

Paulo                Muda tudo. O meu pai, que era alguém, o homem de conselho, ele já não estava vivo, então… mas eu fui sempre muito ligado ao meu pai, muito assim, então assim, aquilo me deixou tranquilo, sabe, então eu não fiquei assim puxa, mas o que será que ele pensaria? Ele também esperava esse momento, por exemplo, ele me deu uma caneta Montblanc que ele ganhou, e aí, eu não lembro nem que ano foi isso, eu acho que eu há estudava filosofia na época, ele me deu a caneta e falou isso aqui é para quando você lançar o teu livro, para você assinar o teu livro…

Luciano             Está guardadinha?

Paulo                Está guardadinha.

Luciano             Está preparando.

Paulo                Está guardadinha lá, então assim, meu pai intuía também que uma hora dessa ia acontecer.

Luciano             Você não é muito louco, você é louquinho só, outro dia eu conversei aqui com o Pascoal da Conceição, que era o Dr. Abobrinha no Castelo Rá Tim Bum e ele, ele tinha dez anos de Banco do Brasil, nos anos 70, dez anos e largar tudo para ser ator de teatro, nos anos 70. Isso é louco e você fala espera um pouquinho, vamos ver grau de loucura? Largo tudo, largo a carreira, o cara concursado, tudo estável, tudo o que todo mundo queria na vida era aquilo, ele larga tudo para ser ator de teatro, é uma coisa maluca. Mas então, aí você vai dar aula.

Paulo                Então, aí minha mãe não é uma pessoa de conselho e o que minha mãe falou para mim? Olha, eu não sou igual seu pai, se eu fosse igual seu pai eu ia ficar aqui falando um monte de coisa tal, mas eu acredito que você sabe o que você está fazendo e Deus nunca te desamparou, nunca, então não é agora que ele vai deixar você fazer uma besteira aí e se arrebentar e tal, vai fazer.

Luciano             Quanto tempo faz isso?

Paulo                Isso foi em 2014. 2013 para 2014.

Luciano             São três anos aí, está feliz?

Paulo                Muito.

Luciano             Com a decisão que você tomou lá?

Paulo                Muito feliz. Muito porque assim, as coisas foram se encaixando.

Luciano             Você então assume, conseguiu no lugar que você queria para ser professor de filosofia para uma garotada de que idade?

Paulo                14 aos 17, 16 para 17.

Luciano             Eu quero agora discutir com você o primeiro dia da primeira aula, não as experiências que você teve antes, eu quero saber o primeiro dia da primeira aula, cheguei, agora vou começar, acendam as luzes e eu entro no palco pela primeira vez nessa condição que você estava. Como é que é isso?

Paulo                Eu achei que fosse pior, primeiro que você chega numa escola, escola pública principalmente, você é solto lá assim, pronto, chegou, bom dia e ninguém diz nada e aí, o que eu faço, certo? Só que eu tive, esses onze anos que eu passei nessa última empresa, então aprendi assim praticamente tudo o que eu aprendi de responsabilidade no trabalho, de você ser proativo, de se antecipar e tal, então aprendi isso muito com o Orlando, com o Guto, com o Edilson e tal, pegaram muito no meu pé no começo, mas aprendi muito isso aí com eles, então depois quando eu mesmo como coordenador de uma equipe grande, tinha dezessete funcionários assim sob minha responsabilidade, então quer dizer, eu já fui para a docência safo, como a gente diz, então eu cheguei na escola bom, tá bom, é o diário está aqui, beleza, então eu vou lá. Entrei na sala de aula, meu nome é Paulo, sou o novo professor de filosofia,  quero conhecer um pouco vocês e aí comecei a conversar, comecei conversar com os alunos e muito curiosamente eu não tinha um plano de aula pronto, falei eu vou inventar, eu tinha uma ideia assim, na minha cabeça, filosofia para ensino médio não pode ser ficar falando de filósofo, porque isso vai encher o saco do jovem e ele não está nem aí para esse negócio, se ele quer saber quem é o Platão, ele vai na internet, então eu acho que a juventude tem um problema de formação da imaginação, falei é com isso que eu vou trabalhar, então comecei a trabalhar com conto de fada, chega lá na sala, com um conto de Andersen, por exemplo, é trouxe um texto aqui para a gente ler e comecei assim, desenvolvi as ideias do texto, tal e foi muito bom e aí passou ano meio sem eu saber o que eles estavam achando daquilo.

Luciano             Você não foi buscar subsídios em nenhuma técnica para dar aula, você não foi beber em fontes, você não foi atrás da psicologia do oprimido…

Paulo                Não li nenhum livro de pedagogia, não li Paulo Freire…

Luciano             … você não foi nada, não foi atrás de nada disso aí.

Paulo                … nada disso.

Luciano             Você foi na “deixa eu ir do jeito que eu acho”, vou usar como dizem os americanos o hors sens…

Paulo                Exatamente.

Luciano             … vou usar o bom senso, isso.

Paulo                Usei o meu hors sense, é isso mesmo, e fui, então quando chegou no final do ano, que aí os alunos vieram falar, muitos alunos, o senhor vai ser nosso professor no ano que vem? Aí eu falei deu certo.

Luciano             Você conseguiu empatia com a garotada.

Paulo                Quando eles perguntaram isso, não todos, claro, mas alguns vieram me procurar, vai dar aula para a gente ano que vem? Falei vou. Ah que legal. Falei poxa, era isso mesmo.

Luciano             E você está nessa há três anos, então você é um professor de filosofia numa escola pública.

Paulo                É, agora desde 2016, desde o ano passado, também numa escola particular, privada.

Luciano             Você está nas duas.

Paulo                Nas duas.

Luciano             Então você está navegando nos dois universos.

Paulo                Nos dois universos.

Luciano             Oba, isso dá assunto.

Paulo                É, mas navego nos dois universos.

Luciano             E são bem parecidos.

Paulo                Na escola pública é aquela experiência de infantaria, um negócio assim… é que aquele negócio, assim, eu já sou mais velho, não sou um jovenzinho que chega lá primeiro emprego e tal, então assim e eu gosto muito de jovem e eu fui um jovem muito ativo, muito moleque, brinquei muito na rua, saí muito, conheço muito, de madrugada, coisa que moleque gosta de fazer, eu fiz tudo.

Luciano             O teu público hoje é uma molecada de 15 anos.

Paulo                Por aí.

Luciano             Então você está assistindo essa geração toda nova que está vindo aí.

Paulo                É, eu me divirto.

Luciano             Aqueles “maldito celular” na aula o tempo todo. Legal. Mas vamos lá então legal, a gente vai conseguir compor um painel interessante teu aqui, agora vou começar “nas provocação”, pode ser?

Paulo                Vamos lá.

Luciano             Vamos lá. Paulo, você é preto, negro ou afro descendente?

Paulo                Eu sou sei lá viu, qualquer coisa que me chamar, eu sou brasileiro, preto, negro. Afro descendente eu acho afetado pra caramba, acho que esse é o pior de todos na verdade, afro descendente eu acho pedante demais.

Luciano             Sabe que eu tenho um amigo que estudava, não me lembro se estudava na USP, onde é que ele estava e na sala de aula dele tinha uns dois ou três estudantes que vieram da África, mas assim, preto da cor dessa coisa do microfone aqui, retinto, o cara foi perguntar para eles, falou vem cá, você é o quê? Ele falou preto. O cara estranhou a pergunta, que pergunta é essa? É claro que eu sou preto e ele, o cara falou para ele, não tem nem discussão, mas é evidente que eu sou preto. Houve algum momento, e aí vamos voltar lá para os anos 70, você criança, houve algum momento em que você de repente despertou em você uma consciência de que o fato da minha cor ser diferente da cor de outras pessoas implica em alguma coisa diferente na minha vida, eu quero buscar você lá atrás, não quero saber hoje, lá atrás, você um dia bateu o olho e falou tem diferença, é diferente e isso está implicando em algumas coisas, aconteceu isso com você? Houve essa consciência?

Paulo                Sim, desde criança a gente percebe assim, você é criança aí tem aquela questão das namoradas, então os meus amigos mais próximos eram todos mais claros do que eu, para não dizer que eram brancos, tinha um que era assim negro como eu e tal e os outros todos mais claros, mas a gente…. primeiro que as piadinhas dos outros com a gente, então quer dizer, sempre tem a piadinha do ah neguinho macaco, não sei o quê, sempre acontece, então isso já dá uma diferença certo, então quer dizer, eu sou macaco, ele é o quê? Então, que tipo de apelido que eu dou, sei lá, bicho de goiaba, urso, sei lá o quê, mas enfim, então percebe isso desde criança, eu cresci numa família assim, meu pai e minha mãe nunca conversaram disso diretamente com a gente, de falar senta aqui, é assim que funciona e tal, mas eles contavam muita coisa, então desde molequinho escutava histórias e tal, meu pai, por exemplo…

Luciano             Experiências deles.

Paulo                … exatamente, meu pai, por exemplo, sair com a minha mãe e entrar num restaurante antes, então meu pai ganhou bastante dinheiro, então ele ia em restaurantes bons, mas ele entrava primeiro, para ver se não ia acontecer nada, depois ele pegava a minha mãe e tal, para a minha mãe não sofrer nenhum tipo de descriminação assim em algum lugar que fosse e tal. Outros casos assim de, por exemplo, ele… foi muito curioso porque depois ele ficou amigo desse pessoal, mas tinha uma galeria num shopping que ele foi comprar, ele adorava comprar joia para minha mãe e coisa e tal, era um homem de muito bom gosto e aí ele entrou para comprar uma joia, não sei o que era, se era um brinco, se era uma corrente, numa joalheria famosa e aí ele comprou, na hora de pagar, ele foi pagar com cheque, à vista, na época, isso anos 80 eu acho e aí disseram para ele ah não, não aceitamos cheque, mas como assim? É um cheque à vista, não tem problema. Não, não aceitamos e tal, não sei o quê, pois ele, mas é comum, todo mundo aceita. Bom, não quiseram aceitar. Pois ele saiu da loja, sacou o dinheiro lá dentro do shopping mesmo, botou o dinheiro em cima do balcão e falou me dá esse troço ai. Acabou ficando amigo das pessoas, então ele passava, depois eu, muitas vezes fui ao shopping com ele, ele passava pela porta, oh doutor Antônio, entra aí, aí tomava café e tal, tanto é que eu tenho uma correntinha aqui que ele me deu de lá, há muitos anos que eu tenho, meu anel de formatura que recentemente entraram na minha casa, levaram embora, era de lá, então assim, acabou ficando amigo de todo mundo. Minha mãe, por exemplo, comprou um perfume importando dentro de uma loja no shopping e disseram para ela, esse perfume é muito caro, não quero saber se é caro, eu quero esse perfume aqui, olha mas é caro. E ela virava as costas, comprava na outra loja e ia lá esfregar na cara da vendedora, olha aqui. Então contavam esses casos e depois a questão das namoradas, então assim, eu tinha a impressão que era mais difícil para mim arrumar uma namorada, então podia ser coisa da minha cabeça, mas você começa a ter consciência dessas coisas muito cedo, é difícil a gente não perceber assim essas coisas acontecerem. Na adolescência, polícia parar e bater, então eu tomei um tapão na cara de um policial uma vez…

Luciano             Do nada?

Paulo                … do nada, assim, parou, de madrugada, molecada de 15 anos de madrugada indo para um pagode que tinha perto de casa, então tinha uns, sei lá, meia dúzia de moleque, a gente andando na rua, era duas horas da manhã e a polícia passou, um carro da polícia parou a gente e aquela truculência e tal, tudo bem que nós estávamos em maior número, então dois policiais numa viatura eles tem que ser enérgicos para mostrar respeito e tal, então a gente, tudo bem e aquele revista e não sei o quê e tal e quando ele terminou de me revistar ele me empurrou pelas costas assim vai, vai embora, ai eu virei e falei tudo bem, estou indo, ai ele veio pelas costas e me deu um soco na cara, eu de costas para ele, ele ainda falou só podia ser preto mesmo, então essas coisas assim até que eu fui me revoltando com isso, então na juventude eu já estava bem, ai li um monte de coisa, aí começa.

Luciano             Então é isso que eu ia dizer para você quer dizer, existem várias formas de você trabalhar esse sentimento aí, tem gente que gera revolta, tem gente que dá uma angústia desgraçada, por que comigo? Isso não é algo de que você se livra, quer dizer, o gordo, o gordo fica magro, então é pô…

Paulo                Só o Michael Jackson que tentou se livrar.

Luciano             … que consegui mudar, mas então tem gente que transfere isso para a revolta, tem gente que transfere para uma angústia, tem gente que sei lá, que guarda isso para uma vingança futura, etc. e tal e tem gente que transforma isso num vitimismo e trata isso como vitimismo. Para mim é complicado falar a respeito porque eu sou branco, não passa pela minha cabeça entrar num restaurante primeiro para verificar se a minha esposa vai sofrer… isso está muito longe da minha experiência, então para mim fica até difícil a gente falar a respeito porque é muito confortável discutir isso aí, mas aí você falou o seguinte, você, diante dessa questão desse problema, você escolheu, eu vou ler a respeito, eu vou me informar a respeito e aí onde é que você foi?

Paulo                É, é assim, por exemplo, eu cresci numa família de negros assim, não só pai e mãe, mas primos, tios, então assim, famílias que faziam muita festa, estava sempre muito junto, então eu nunca tive esse negócio assim, de não gostar de ser negro, ou de pô, por que comigo? Não, eu sempre tive o que a gente depois chamou de orgulho, sempre tive, então nunca tive problema com isso, cresci com meus irmãos escutando soul music e tal, essa coisa, aquelas músicas americanas e eu adorava isso desde pequeno coisa e tal, samba e não sei o quê, então eu sempre gostei desse universo, o nosso universo familiar nunca teve esse negócio de o que está acontecendo? Assim, nós vivemos tranquilamente nas nossas festas, nos nossos divertimentos, então entre a nossa família toda ela, a família próxima assim, nunca pintou esse assunto assim de ó, porque a gente é negro, porque a gente é discriminado, nunca e eu tenho impressão que isso acontecia quase em família nenhuma, essa questão de um certo engajamento assim, o que nós vamos fazer para combater o preconceito e tal, a gente se dava conta que existia, mas a gente andava muito junto também, então quer dizer se eles não gostam da gente está bom, então não tem problema nenhum. Então eu resolvi ler porque esses livros começaram a cair na minha mão, sim, quando jovenzinho eu comecei a ouvir rap, então surge Racionais, por exemplo, que é o grande grupo de rap brasileiro, surge na década de 90 e eu era adolescente nessa época e comecei a ouvir Racionais e tal, então essa consciência, digamos assim, racial e tal de que precisa de um engajamento contra o racismo, não sei o quê, surge ouvindo rap…

Luciano             Não foi nem ouvindo soul?

Paulo                … não foi…

Luciano             Porque o movimento black brasileiro vem na esteira do soul, não é?

Paulo                … mas porque também eu não ouvia, eu ouvi pouco da coisa brasileira, então já ouvi logo os americanos e depois rap e tal e rap nacional e Racionais sobretudo e o Racionais dos primeiros discos, eles são muito, e eu escrevi sobre isso inclusive, eu tenho um texto sobre isso que eu chamei de Ideologia e morte da razão na periferia, porque você pega as primeiras letas do Racionais, elas são muito assim de chacoalhar o negro, fala ó, sai daí, saí dessa condição que você está e tal, nós temos que fazer acontecer por nós mesmos e tal, não sei o que lá e isso também foi muito bom no começo, é porque ai…

Luciano             Você precisa ouvir um Café Brasil meu chamado Já que Soul Brasileiro, é o número 400, eu fiz um programa contando a história da soul music no Brasil, um programa gigantesco, vem desde lá atrás e eu fui resgatar a história dos caras que começaram com os bailões e tem lá o depoimento deles, a voz deles dizendo que uma parte importante desses bailões foi o fato de eles focarem aquilo como uma maneira de levantar o orgulho do negro, ele fala então eu bolei um esquema tal que a gente botou um sistema de projeção de slides do que era projetado lá era o seguinte, entrava uma foto do James Brown e em seguida era uma foto do público que estava dançando, então as pessoas se viam, ele falou, então as pessoas se viam lá, o cabelo dela estava lá na tela, então eles estavam olhando aquilo, os ídolos com eles lado a lado e aquilo foi todo um processo de resgatar essa, você é negro, aproveita, tira proveito disso, etc. e tal, que me parece que está parecido com o que o Racionais fazia no começo lá.

Paulo                Sim e eu curti muito esses bailes também, na década de 90, então já era uma segunda fase. Então por exemplo, meus irmãos, e aí meus irmãos… eu fui criado nesse ambiente, então meus irmãos curtiram aqueles primeiros bailes assim, da década de 70 e tal e o famoso Palmeiras, tinha muitos bailes no Palmeiras, aí que surgiram aquelas equipes Chic Show, Zimbábwe e tal, então eles cresceram com isso, então o meu irmão, mais o Adilson, foi DJ uma época, tinha disco e colocava aquela etiqueta no disco, carimbava DJ Adilson e não sei o que lá e tal. Então eu cresci vendo essas coisas, então eu como um adolescente de uma família já de homens, então quer dizer, eu vi isso muito cedo e aí eu frequentei a segunda fase desses bailes, desses bailes da Chic Show e tal, então o que também me deu assim muita referência e tal porque também era isso aí que você falou, então você vai num baile, todo mundo era negro dentro do baile, era muito pouco branco que tinha nesses bailes, então a gente gostava disso aí, então saía aquele monte de gente, tudo negro e não sei o quê, então isso foi muito bacana assim para a minha formação e aí foi disso que eu começo a ler essas coisas, ai vou ler Martin Luther King, vou ler Malcom X, aí fiquei lendo, Mandela, essas biografias todas eu li e descobrindo assim esse mundo do racismo, digamos assim, de como isso se forma e como acontece e coisa e tal até que eu participo de um grupo que cria… era uma ONG para ajudar refugiados, isso já nos anos 2000 assim, ajudar refugiados africanos aqui no Brasil, então foi o mais perto que eu cheguei de participar de algum movimento assim que a gente chama de movimento negro, fiquei um tempo com eles e tal e aí vi que era muito focado para conseguir projeto público, para entrar na prefeitura e captar recurso, aí acabei injuriando daquilo e saí. Então, voltando um pouquinho lá no que a gente disse no começo, eu nunca tive essa coisa do vitimismo porque pela própria formação que eu tive, uma coisa que meu pai sempre dizia e eu digo ao meu filho, inclusive, meu pai falava para mim assim: você quer ser considerado um igual? Então você tem que ser melhor, porque se você for igual, eles passam por cima de você, então você tem de mostrar que você sabe, que você conhece.

Luciano             Olha um “eles” aí ó.

Paulo                É.

Luciano             Apareceu um “eles” na história. Olha um “eles” aí ó.

Paulo                É, sim. E nunca era uma referência diretamente racial, meu pai, eu nunca escutei meu pai falar “os brancos”, por exemplo, então assim, mas ele, uma hora assim quando eu já tinha uma idade para entender essas coisas, então… e a gente conversava muito, então quer dizer, ele falava tem que ir para cima, se parou vão passar por cima de você, e eu via isso no meu pai, meu pai assim, ele trabalhou, eu vi meu pai tirar férias uma única vez, quinze dias ele foi para o sul com a minha mãe, eu era pequeno ainda e meu pai trabalhava de segunda a sábado, direto, sem parar, então eu não tinha desculpa para dizer ah mas espera aí que eu descansar que eu estou muito cansado, não tinha esse negócio.

Luciano             E não era assim porque era negro.

Paulo                Não, era assim porque tinha que trabalhar.

Luciano             Eu sou branco e desde 2008 que eu não tiro férias.

Paulo                Pois é, não é porque era negro não…

Luciano             Porque tem que batalhar.

Paulo                … porque tem que batalhar.

Luciano             Tem que batalhar.

Paulo                Não tem esse negócio fácil, então a gente sempre soube disso e foi muito legal porque assim, eu fui o primeiro de casa a me formar depois do meu pai, aí os meus irmãos vieram na esteira, então quer dizer, infelizmente o Carlos, que era o do meio dos três, faleceu em 2004, no ano que eu casei, no final do ano, mas o Adilson e o Mário depois se formaram também, o Mário fez direito, acabou não seguindo, mas ele tinha feito contabilidade e aí ele assumiu a contabilidade que meu pai fazia e o Adilson depois foi fazer também um curso de tecnologia e hoje trabalha muito bem empregado numa empresa de tecnologia e tal.

Luciano             Paulo, o Brasil é um país racista?

Paulo                Não. Não.

Luciano             Atenção você que está me ouvindo aí agora eu fiz uma pergunta para o Paulo, ele não esperou terminar a pergunta, estava reverberando ainda, eu estava falando “ista” e ele já soltou o não em cima, ele não esperou terminar, com uma convicção interessante. Elabora, por favor.

Paulo                O Brasil é um país violento e um país pobre. É um país que não dá oportunidade para o pobre empreender, então se eu tenho um país em que o pobre não pode empreender e esse pobre circunstancialmente é o negro, então ele acaba afetando indiretamente o negro, mas não porque há um racismo como a gente escuta de vez em quando falar que as empresas não contratam os negros, ou que os negros não conseguem terminar uma faculdade para conseguir um emprego melhor, ué mas quem é que inventou que precisava de uma faculdade para ganhar dinheiro? Então é uma coisa muito brasileira essa do fetiche do diploma, então quer dizer, no Brasil você não consegue um emprego se você não tem um diploma, então nesse tipo de país os mais pobres são prejudicados, agora claro, circunstancialmente por causa da escravidão e coisa e tal e muito mais do que por causa da escravidão, por causa do processo do pós abolição, sobretudo por causa da proclamação da república ou do famoso golpe militar de 1889, que eles pegaram todos aqueles projetos que a monarquia tinha para inserir…

Luciano             De integração?

Paulo                … de integração do negro na sociedade, de indenizações e de reforma agrária e um monte de coisa que eles tinham projetos muito bem elaborados para que isso acontecesse, eles foram simplesmente engavetados, ou jogados fora e aí os negros foram jogados na marginalidade, aquela parcela de negros, é claro, é bom dizer isso certo, que não eram todos os negros, inclusive tinha negros ricos na época, bem sucedidos, mas aqueles que não eram foram jogados na marginalidade, então é claro que uma parcela grande da população abrasileira, contando aí entre negros e os mestiços foram jogados na pobreza, então é claro que indiretamente e circunstancialmente essa população é a mais afetada, é a população da periferia, são os pobres, mas é porque o país é um país que não… o governo ele acha que ele tem que resolver o problema, aliás, não que o estado ache que tem de resolver, o estado se faz de resolvedor do problema ideal porque o Brasil é um país de estatólatra, então a gente ama essa coisa do…

Luciano             Nosso amigo Bruno escreveu um livro delicioso que o brasileiro odeia político e ama o estado.

Paulo                O Bruno foi certeiro nisso, então quer dizer, o brasileiro é assim, nós somos criados assim, culturalmente criados assim, formados dessa maneira, então quer dizer, o pobre é o mais prejudicado certo, nesse sentido, então ele não consegue empreender, então tem aquele livro que foi publicado recentemente que um sociólogo passa uma temporada na Rocinha para fazer um experimento lá sociológico, não sei se é Um planeta chamado favela, um negócio assim, que aí uma das coisas que sai lá na pesquisa deles é essa, que o nível de empreendedorismo dentro de uma favela, dentro de uma comunidade pobre é altíssimo e a gente sabe disso, não precisa… quer dizer, a qualidade de gente que em casa faz bolo para vender…

Luciano             Que se vira.

Paulo                … que se vira, o brasileiro se vira muito bem, só que ele se vira um nível muito pequeno, aí quando ele fala ah, acho que eu vou abrir então uma pequena empresa, aí pronto, agora que surgiu essa coisa de IMEI e tal, então eu não sei o quanto que melhorou, mas é muito difícil, muito difícil de empreender no Brasil e outra, pela própria formação estatista do brasileiro, então quer dizer, o empreendedorismo não está muito no nosso sangue, é claro, então a gente não sabe muito como fazer, então eu acho que mais do que… é claro, eu não estou negando o racismo, acabei de contar um monte de coisa aqui, certo? Tem um problema relacionado a isso.

Luciano             Quem é assim no Brasil, é assim na Europa, é assim nos EUA, é assim na África, é assim na Austrália, em qualquer lugar que tiver o ser humano azul e um roxo, um amarelo e um branco, me parece que de alguma forma a pessoa olha para o outro como há uma diferença e que diferença é essa? Uma diferença física real e que eu vejo com meus olhos e que não implica em coisa nenhuma, quer dizer, que quer dizer isso? Não quer dizer nada, quer dizer coisas que estão na cabeça da gente, aquilo que foi nos ensinado, que é se o indivíduo é azul, logo…

Paulo                É aquele negócio, me parece que historicamente os povos diferentes acabavam por se estranhar, certo? Então quer dizer, eu sou o sujeito que estou lá no lugar e vem um ente externo, bárbaro, que é sempre o outro, quer dizer, vem o bárbaro e eu tenho de me defender, então assim, o meu preconceito e eu estou usando aqui a palavra no sentido técnico, aquele que o Thedore Dalrymple usa no livro dele, Em defesa do preconceito, as ideias preconcebidas que eu tenho a respeito desse ente externo faz com que eu tenha de me defender, certo? Ou de atacá-lo se ele entrar no meu território.

Luciano             Esse livro é uma dica muito legal, ele escreve um livro em defesa do preconceito, é muito legal.

Paulo                É um livro fininho.

Luciano             Onde dá o lado positivo, quer dizer, você precisa do preconceito para se defender e não é o preconceito ruim, da maldade, é o preconceito de você organizar as ideias.

Paulo                Eu acho que começa assim, então quer dizer, eu sempre estou… o preconceito então é antes de tudo um mecanismo de defesa e eu acho que isso aí vai depois, como tudo…

Luciano             Vamos elaborar isso um pouquinho mais que vai pegar fogo, vai ficar bom aqui o negócio, então é o seguinte, vamos lá, vou pegar um tema que está muito na moda esses dias aqui agora, eu quero falar disso aqui com você livremente, estou caminhando no meu bairro de Moema, a noite na rua, e olho lá adiante, na mesma calçada que eu vem vindo um sujeito, de noite, no escuro e eu noto que esse sujeito está arrumado com uma roupa que não é a roupa normal da nossa região aqui, ele está com um bonezinho, está com uma bermudinha, está com não sei o quê e esse cara é negro, ou tem a pele muito mais escura que a minha e eu olho aquilo e os meus sentidos me dizem o seguinte, mude de calçada, porque há uma chance de você ser assaltado. Qual foi o mecanismo que me fez acender essa luz e que eu tomasse essa atitude? O que é que foi? Tudo o que eu vejo que chega para mim por informação pela mídia, etc. e tal, é um indivíduo parecido com esse que eu estou vendo, a foto que chegou para mim foi essa, a história que eu recebi foi essa, era um indivíduo, eu vou extrapolar, era um indivíduo vestido de galinha com uma lâmpada acesa da cabeça, eu sempre olhei a vida inteira, vi esse desenho como sendo alguém do mal, no que eu cruzar com alguém assim na rua eu vou mudar de calçada, por quê? Porque ele estava de galinha com uma lâmpada acesa, então há uma característica física, que parece que tem um desenho, tem um uniforme que acende essa luz para mim e aí eu mudo de calçada. E a discussão que nós temos hoje em dia é o seguinte: isso é racismo, o fato de você ter mudado de calçada foi única e exclusivamente porque o indivíduo era negro, mas e esse ele fosse negro, vestido de outro jeito? E se ele tivesse com outro comportamento, que não fosse aquele que eu fui ensinado entender como perigo. Eu estou voltando para as minhas reações animais, não estou justificando porra nenhuma, só estou elaborando com você. O que você acha? O que você pensa?

Paulo                Exatamente o que você disse, então quer dizer, num determinado momento da minha vida eu fui muito parado pela polícia, muitas vezes, eu tenho um amigo, Luís Antônio, tempo que eu não vejo, saudade dele, e teve uma época e nessa época a gente saía muito junto, ele também é negro, bem alto e ele contava isso, mas muito bravo, que um dia ele foi parado três vezes ali no centro, ali região da São Bento ali na Barão de Itapetininga ali, ele foi parado no Anhangabaú, foi parado três vezes ali num espaço de minutos, então ele estava numa rua a polícia para, revista, não sei o que lá, ele vira a esquina e para, na terceira vez aí ele estourou com os caras, aí diz que arrumou a maior confusão, terceira vez que vocês estão fazendo isso, falou um monte, foi a maior confusão. Bom, eu fui muito parado também pela polícia, muito, muito. Muitas vezes, de carro às vezes, então eu ia trabalhar na época e ás vezes eu ia com o carro da minha mãe, precisava fazer alguma coisa e tal, ou eu e o meu irmão, eu e o Adilson voltando do trabalho, a gente trabalhava na mesma empresa, voltava junto, todo dia praticamente, até eu começar a estudar, então direto paravam, até que eu arrumei um trabalho, não foi na verdade o trabalho, foi que eu resolvi, olha só, eu trabalhava, eu era técnico de eletrônica nessa empresa e eu resolvi por incentivo de uma namorada na época e tal, fazer cartãozinho de visita naquela impressora jato de tinta, na época virou moda isso ai, fazer cartão de visita, fazer cardápio de restaurante e aí na época quando eu resolvi que eu ia fazer essas coisas, fazer uns freelance, fazer uns biquinhos dessas coisas, par ganhar um dinheirinho extra, eu falei, mas agora então eu não posso mais me vestir como eu visto normal assim de jeans, esporte e tal, vou ter que usar umas roupas melhorzinhas para eu poder fazer uma propaganda das minhas coisas, do meu trabalho, aqui no restaurante que eu venho almoçar todo dia tal e aí eu comprei camisa social, comprei calça social, comprei sapato e mudei o meu jeito de vestir, nunca mais eu fui parado pela polícia, sabe que é nunca mais?

Luciano             Porque você quebrou o padrão. O policial olha e fala esse sujeito está fora do padrão.

Paulo                Tem um estereótipo, eu conversei muito isso com os meus alunos esse ano, então assim, tem um estereótipo, então é claro e não é assim, não é negacionismo, entende? É ver as coisas como elas são, certo? Seguindo Platão, nós temos de ver as coisas como elas são, trazer os negócios para a realidade, como é que funciona na realidade, há um estereótipo.

Luciano             E esse estereótipo não é a cor, a cor é um componente, a cor é um componente.

Paulo                É uma série de fatores cuja cor é um dos componentes.

Luciano             Quer dizer, se for branco a nota é um, se for negro a nota é dois, então tem um ponto a mais aqui por quê? Porque estatisticamente etc. e tal, eu não quero dar a impressão que eu estou simplificando a coisa aqui, tratar isso como matemática, não é, números não reproduzem essa questão que nós estamos tratando aqui, eu estou tentando entender esse lance do estereótipo e como alguns grupos estão usando isso para jogar uma carga em cima do outro grupo.

Paulo                Eu não sei se você leu, eu escrevi um artigo agora recentemente que foi publicado no Jornal a Gazeta do Povo, sobre o caso Willian Waack, então quer dizer, o sujeito faz lá um comentário estúpido, idiota certo, porque alguém buzina ele vira lá no estúdio e fala isso é coisa de preto. Bom, o sujeito foi jogado aos leões, foi devorado por todo mundo, a opinião pública, inclusive foi afastado do trabalho e tal, ninguém sabe onde ele está agora, ele deve estar escondido em algum lugar, bom, acabou a carreira do sujeito por causa disso e aí eu parei para pensar no assunto, então quer dizer, a bola está quicando, está todo mundo dando bicuda, eu falei poxa, acho que eu tenho de botar essa bola no chão e aí eu botei a bola no chão, falei espera aí e aí eu fui pensar no assunto e aí a gente acaba percebendo e descobrindo, eu fui pesquisar, fui ler umas coisas e descobri que assim, essa coisa do “é coisa de preto” está no imaginário do brasileiro, minha mãe, por exemplo, ela falava isso quando eu era criança, você vai fazer negrice? Ela falava, quando eu fazia coisa errada, ela falava isso…

Luciano             Negra falando para o filho negro.

Paulo                … minha mãe que é mais negra do que eu, fazendo negrice? Então quer dizer, minha mãe está sendo racista ou porque ela não tem consciência da sua raça? Não é isso, é uma coisa que estava no imaginário do brasileiro, mas porque é algo histórico, então claro, voltando lá ao pós abolição, os negros ficaram na marginalidade e aí eles passaram a fazer o quê? A beber, a ficar pela rua, a ficar fazendo bagunça na rua…

Luciano             Sim, até porque qual é a alternativa?

Paulo                … não tinha outra coisa para fazer, certo? Então todos os sociólogos que falam disso, que falam do problema do negro brasileiro, Florestan Fernandes que escreveu muito sobre isso, ele fala isso aí, em mais de um livro inclusive, olha, os negros foram jogados na marginalidade, então muitos ficavam bebendo, muitos ficavam pela rua fazendo arruaça, bagunça e não sei o quê, então quer dizer, claro que aquele que o sujeito que estava olhando aquilo de longe, olha lá, está vendo, esses pretos ficam aí na rua bagunçando, então criou-se o estereótipo de que o negro estava associado à desordem e isso foi para o imaginário, então acho que não é uma coisa… o Willian Waack não é racista a priori porque ele fez essa afirmação, no mínimo foi uma afirmação idiota, estúpida, besta e tal e depois que você testa o sujeito pode ser que você descubra que ele não gosta de negros mesmo, não gosto, vejo quero mudar de calçada, mas porque eu sei que é negro, pode estar com a roupa que for, não trabalha comigo, não namora com os meus filhos, eu não gosto porque negro é inferior mesmo, pode ser, mas por causa de uma frase não dá para dizer que o sujeito é racista, então eu escrevi um artigo falando isso, quer dizer, a frase tem um fundo de verdade, então claro, o sujeito deveria ser de algum modo repreendido e tal, não é que tem que deixar para lá, é que…

Luciano             O Bóris Casoy falou dos lixeiros e deu aquela confusão toda, depois ele chegou lá, pediu desculpa envergonhado e retomou o negócio dele, nunca mais ele foi o mesmo, ali houve a curva de ascendência do Bóris deu uma barrigada, nunca mais ele recuperou aquilo lá, mas ele não foi jogado aos leões.

Paulo                Então assim, está tudo muito sensível, está muito sensível e infelizmente isso está recrudescendo…

Luciano             Essa era a pergunta que eu ia fazer para você na sequência aqui, quer dizer, eu tenho essa impressão que essa coisa da criação de lados opostos de pobre contra rico, homem contra mulher, negro contra branco, isso aí… houve um investimento nessa separação ao longo dos últimos anos e eu botei um programa no ar hoje, o podcast Café Brasil hoje, o 589 que chama-se A sociedade da reclamação, baseado num livro de 1993 que contava nos EUA em 93 que já existiu um ambiente muito complicado por causa dessa separação que isso ia acabar recrudescendo os ânimos, até porque tem uma massa gigantesca lá no meio que vai levando a vida, mas tem duas pontas, cada ponta tem uma militância extrema que é aonde está a encrenca, essas duas quando se encontram dá o que aconteceu nos EUA lá, sai porrada para todo lado lá e está aumentando a quantidade de gente assim, está aumentando o discurso, está aumentando a mobilização. Você tem notado isso com essa garotada de 15 anos para quem você dá aula?

Paulo                Não, não.

Luciano             Essa molecada não está nem aí?

Paulo                Não está nem aí, eles acham esse negócio super esquisito.

Luciano             Você tem negros e brancos na sala de aula e eles estão altamente integrados?

Paulo                Muitos negros, brancos, muitos homossexuais, aliás, brincadeira tem o tempo todo, então quer dizer, aconteceu agora, muito engraçado, esse ano que eu estava numa sala dando aula e aí entrou a mediadora, era lá uma mediadora da escola e tal, não sei o que lá, uma atribuição lá do estado, não sei o que, aí ela entrou, olha muito prazer, eu sou fulana de tal, eu sou a nova mediadora da escola e tal, então o que faz um mediador? O mediador é aquela pessoa que tenta resolver os conflitos entre os alunos ou quando alguém sofre um bullying, alguma coisa. Na hora que ela falou de bullying os alunos começaram a rir, aí um deles falou assim, aí gordão, é essa tia aí que você tem que procurar. Aí tia, o gordão não vai sair da sua sala e começou todo mundo a rir, o gordinho riu também e pronto. Então assim tem, tem o neguinho, ô neguinho vem aqui e tal, então assim, a escola continua como sempre foi, certo? Continua como sempre foi…

Luciano             A molecada ferina como sempre foi, como são.

Paulo                … como sempre foi, a molecada é ferina como sempre foi, bagunceira como sempre, é tudo igual. Eu acho que a coisa começa a mudar assim, alguns e são muito poucos, começam a ler algumas coisas na internet mesmo, começa a entrar em páginas que tem já esse tipo de conteúdo e tal e aí ela começa, sei lá, digamos assim, eu não vou falar politizar porque aí é estragar a palavra, mas se ideologizar, então alguns acabam entrando por esse caminho, alguns poucos, por exemplo, tem muitos jovens homossexuais na escola hoje, eu tenho vários alunos homossexuais e você percebe que eles já tem uma cabeça mais militante porque eles procuram seus pares, certo? Procuram ajuda, amparo e tal e acabam encontrando esses sites, a militância LGBT que é muito forte no Brasil, no mundo inteiro, então eles acabam assim, leem um pouco mais coisa e tal, mas em geral eles não estão nem aí, eles acham isso uma chatice, não sei como estamos falando disso, esse assunto é ridículo, então eles não gostam disso e eu acho que tem um outro… e aí eu acho que o caldo entorna mesmo quando eles vão para a universidade, ou os cursinhos pré vestibulares daqueles cursinhos, principalmente se for um cursinho comunitário, aí, meu amigo, a coisa ali é que a coisa pega e dentro das universidades, aí a coisa muda.

Luciano             Porque lá passa a ser militância para valer.

Paulo                Para valer o tempo todo, então o sujeito fica aquilo ali na cabeça dele o tempo todo, então acho que ele acaba cedendo àquilo, mas essa molecada de 14, 15, 16 anos, eles acham esse assunto uma coisa…

Luciano             Um porre.

Paulo                Um porre.

Luciano             Então Paulo, mas você acha que… a gente quando vê a história, não tem como fugir do estereótipo, não do estereótipo, mas não tem como fugir, quando você olha para a história de olhar para os EUA e depois olhar para a gente aqui, porque começa um movimento importante lá nos anos 60, até porque a segregação racial nos EUA é totalmente diferente da brasileira, é outro mundo aquilo, eram duas coisas, não dá para você falar que… não, era diferente, havia lá uma segregação muito clara e brutal, nunca houve miscigenação, no Brasil sempre foi assim e há o momento em que eles assumem a luta contra isso e foi uma luta legal porque foi a luta pela conquista dos direitos dos negros que explode nos anos 60 junto bom guerra do Vietnã, junto com rock’n roll, tudo ao mesmo tempo agora, a molecada, os estudantes se rebelando contra o sistema etc. e tal, somos da paz, do amor, do motor e da flor, hippie para todo lado e os negros estão lá também e há o movimento legal que muda a história da humanidade, podemos até discutir se for para o bem ou for para o mal, eu acho que foi legal, trouxe uma visão um pouco mais humanista, etc. e tal, ou seja, há um papel importante que essas militâncias acabam cumprindo, é que nem sindicato, você falou porra, sindicato é um horror não, mas tem um papel legal que quando o sindicato é legal, ele cumpre o papel importante ali, mas quando extrapola aquilo e vira aquela coisa que você conhece, aí é um horror, vira república sindical e nada mais acontece e me parece que essas militâncias é parecido, elas fazem um papel legal, se você pegar a militância feminista da essência do feminismo, ela é legal, ela cria uma série de mudanças, ela ensinou o mundo a olhar a mulher de um jeito diferente, ela abriu conquistas e tudo mais, de repente ela começa a voar, a ponto de chegar para você e falar: você é homem? Então você é um estuprador em potencial. Sim, mas eu sou seu irmão, continua sendo um estuprador em potencial. Eu sou seu pai, também é, porque é homem. Catso, e você tem que ouvir isso aí e ai de você se reclamar. E com os negros também, Paulo eu estou diante de você, quanto eu te devo, por eu ser branco e você ser negro?

Paulo                É, é dívida histórica.

Luciano             Entendeu? Então aí talvez extrapola um pouco e a discussão se perde e estraga o lado bom da discussão, entendeu? Destrói o lado bom que era aquele, vamos discutir a nossa convivência, como é que a gente pode fazer para que ela seja a melhor possível e onde um dos elementos é esse elemento de você combater os indivíduos, os imbecis que ainda extravasam seu preconceito sob a forma de discriminação, esse é um idiota, esse é um boçal e esse indivíduo tem que ser discriminado, agora eu não posso olhar para ele e tratar a sociedade toda como se fosse ele, não é? Como é que você vê isso?

Paulo                O que a gente chama de racismo é um problema individual, certo? São os indivíduos que são racistas, então já é uma outra resposta à pergunta se o Brasil é um país racista. Não, não é. Há racistas no Brasil como há racistas em qualquer lugar, racistas no sentido assim, de afirmar a existência de raças, então qualquer que seja ele, então quer dizer, há racistas negros também, supremacistas negros também, que acham que o negro é mais importante do que o branco, então você pega, por exemplo, a nação do Islã lá nos EUA, você lê a autobiografia do Malcom X, ali o negócio é tão forte, que ele conta, por exemplo, que, eu não sei se hoje ainda é assim, mas eles tinham como doutrina de que o branco era o demônio, metafisicamente um demônio mesmo, um demônio de alma, um agente do mal, então tem essa coisa do racista negro também, então eles falam que não, claro, a militância já criou um monte de subterfúgios para que o seu racismo seja chamado por outro nome, ou de resposta, não racismo do negro é uma resposta contra o racismo do branco, tudo bem, que seja, mas você responde com racismo também, então vamos chamar as coisas pelo nome, então há racismo de todo jeito, então quer dizer, você afirmar a existência de raças, sejam elas quais forem, isso é racismo, você pode ser racista de várias formas, então você pode ser um racista a racialista, aquele que acredita que há uma diferença biológica entre nós, por exemplo. E há o racista, aquele cultural que é hoje o mais comum, então quer dizer, fala ah, ser negro é identificação com a cultura negra e coisa e tal, por isso que fica esse rolo do pessoal que não é negro, se é negro…

Luciano             Tira essa porra desse turbante da cabeça seu branco azedo.

Paulo                … exatamente, então começa esse monte de loucura a respeito disso, mas vai notar o seguinte, nos EUA quando acontece, primeiro que assim, eles tiveram uma guerra para acabar com a escravidão, isso muda completamente a coisa de figura, então a coisa foi à força, certo? O país assim meio dividido com isso, então a coisa é muito marcada lá, por outro lado há um destaque muito grande de alguns negros no norte, por exemplo, que era da união e do Lincoln e coisa e tal, então alguns negros muito importantes despontam ali e começam a formar esse começo dessa militância assim de temos de encontrar o lugar do negro na sociedade americana. Então eles começam com uma proposta de integrar o negro na sociedade americana que até aí é parecido com o que aconteceu no Brasil, então vamos integrar o negro na sociedade brasileira, esse negro que estava até há pouco escravizado, então enquanto está todo mundo se esforçando, empurrando para o mesmo lado, a gente vai, vem agora aí, por exemplo, esses casos aí recentes de, não gosto nem de ficar dando trela para isso, mas esses casos recentes aí de racismo na internet, não sei o que lá, a gente vê a reação das pessoas, então como é que você pode dizer que o Brasil é um país racista? Eu olho para trás aqui e vejo a Billie Holiday, eu olho ali nos teus quadrinhos, tem um monte de figuras negras ali e tal, então você não é negro, se alguém comete um ato racista na rua e as pessoas veem aquilo, todo mundo fica p da vida, todo mundo xinga a pessoa…

Luciano             É igual a cultura do estupro no Brasil, é cultura do estupro, espera aí, a cultura no Brasil é a seguinte, se o povo… eu falo vai no metrô, o que acontece o vagão do metrô quando um cara encosta numa mulher e a mulher grita que ela está sendo abusada, se a polícia não vier o cara é morto, então espera aí, a cultura do brasileiro é de matar o estuprador, não é cultura a favor do estupro, você diz que a cultura é comum para todo mundo, no caso do racismo, perigo o racista que expresse o racismo, ele vai apanhar na rua.

Paulo                Na internet ela é linchada, então essa moça aí, recentemente, foram seguir ela no Instagram para xingar, 130 mil seguidores para xingar a moça e tal e não sei o quê, então enquanto está todo mundo indo pro mesmo lado, a gente vai equacionando as coisas, porque isso só o tempo resolve, não adianta. Não adianta. Eu sei que o movimento negro não gosta que fala isso, quer dizer, eles não gostam de nada do que eu falo sobre tudo isso, porque acho que o tempo não vai resolver nada. Pra eles a questão é luta de classe porque virou muito… as coisas foram se… criou-se uma simbiose entre classe e raça nesse movimento negro no pós 60, assim, então tá tudo muito entrelaçado hoje. É difícil desvencilhar a ideia de raça da ideia de classe social. Então pra eles, interessa que seja assim. Que seja dicotômico assim, né? Brancos aqui, negros pra cá. O livro do Florestan Fernandes: O negro no mundo dos brancos. Falando o que? Do Brasil. Não faz o mínimo sentido isso. Então, as pessoas… se continuar afirmando essa coisa de raça, essa coisa de raça, é claro que esse negócio não… então, eles estão importando essas teorias racialistas dos americanos, na década de trinta esse problema foi resolvido e eu julgo que esse problema tenha sido resolvido pelo Gilberto Freyre, então, Gilberto Freyre resolveu o problema. Então, começou-se uma desconfiança do… primeiro era o negro, depois virou mestiço, né? Houve uma época no final do século XIX, que o mestiço era o grande atraso do Brasil. Então surgiram as teorias racialistas, do Gobineau, Nina Rodrigues e tal, aqueles caras que surgiram no final do império… Aliás, é curioso porque o conde de Gobineau foi muito amigo do D. Pedro II e D. Pedro II ignorava completamente essas loucuras do Gobineau, de que o Brasil seria um país atrasado sempre por causa do mesticismo, que tinha que acabar com isso e tal, tal, tal… D. Pedro II, as poucas vezes que se refere a isso fala que o Gobineau era um sujeito muito pessimista. Ah! Você é muito pessimista. E não ligava muito. Já o Tocqueville que foi, se não me engano… ah! O Gobineau acho que foi assistente do Tocqueville, ele xinga o Gobineau por causa disso, briga com ele fala: você tá maluco com esse negócio, você tá louco com isso. Você não pode falar esse negócio, escrever essas coisas Brigou com ele, ficou com muita raiva, porque era uma loucura. Não, isso não existe. Então, essas teses racialistas que vão surgindo no século XIX, o mestiço vira o grande coiso, todo mundo começa a desconfiar que o mestiço seria um atraso, grandes intelectuais brasileiros embarcam nessa. Então, você pega o próprio Silvio Romero, que é um filósofo brasileiro muito conhecido, muito famoso, ele embarca nisso… Muito curiosamente, embarcam com ele também o Tobias Barreto, que era negro. Era negro. Ele é o primeiro filósofo que traz a filosofia alemã pro Brasil. Mas, ele embarca nessas teses também racialistas, então, estava uma mistureba de coisas nessa época e aí, na década de trinta vem o Gilberto Freyre e fala assim: Peraí, peraí, peraí. É exatamente isso que é o orgulho do Brasil. Que é a grande vantagem do Brasil. É ser um país completamente diferente de qualquer outro. Que é um país mestiço. Um país que bebeu bebeu basicamente de três raças ou etnias. O negro africano, o europeu, o português e o índio. Essa é a grande vantagem do brasileiro. Estão falando que é a desvantagem? É a vantagem. Se todo mundo desse ouvido pro Gilberto Freyre, acabou o assunto. Vamos buscar construir um país bacana pra todo mundo.

Luciano             Que é a tese do Morgan Freeman

Paulo                Que é a tese agora do Morgan Freeman. Vamos acabar com esse negócio e vamos tocar o barco, que é assim que funciona.

Luciano             Se você não viu aí, tem um vídeo delicioso do Morgan, ele sendo entrevistado e é basicamente… ele diz o seguinte: ele está conversando comigo, ele é o Morgan e eu o Luciano: ele fala: se em vez de chamar você de preto eu chamar você de branco, me chama de Morgan, eu te chamo de Luciano e tá resolvido o assunto.

Paulo                Você pergunta pra ele: como é que acaba com o racismo? Vamos parar de falar nisso. Vamos seguir nossa vida. Só que, é claro que isso não interessa ao movimento, à militância, que quer permanecer num ambiente de tensão. Ah! Essa coisa da democracia racial do Gilberto Freyre é uma mentira e coisa e tal. Por que? Porque eles associam a ideia de democracia racial, que Gilberto Freyre nem inaugura essa ideia… depois ele acaba assumindo, mas eles associam isso à questão econômica.

Luciano             Vamos ao começo da nossa conversa aqui. O Brasil é um país racista? Falo não o Brasil é um país pobre.

Paulo                Pobre.

Luciano             Um país pobre, no momento que a gente resolver a questão da distribuição melhor das riquezas do país aqui como um todo, não é nem distribuição, da geração de riquezas para que todo mundo possa…

Paulo                Exatamente, da geração de riqueza porque também tem essa, as elites brasileiras, tem uma pequena elite muito voraz que não permite que ninguém… então quer dizer, as grandes elites brasileiras são as elites políticas, é claro, isso ninguém precisa…. todo mundo sabe, então a elite brasileira é o estado e todos os seus tentáculos, então o estado é a elite brasileira e essa elite não deixa ninguém sair para muito longe dele mesmo, é uma elite totalitária mesmo, então o estado não deixa você se afastar muito dele, ele vai te buscar lá com taxação, com imposto de consumo, ele te taxa no consumo…

Luciano             Quem manda aqui sou eu, isso é muito claro, quem manda aqui sou eu.

Paulo                … exatamente, então assim, é os 50% de imposto na gasolina, um negócio que todo mundo usa, ou no gás de cozinha que é aumentou 60% esse ano aqui e a gente não tem o que fazer, é um monopólio, vou comprar gás de quem? Não tem. E já li muito, fiquei muito triste com as notícias que já tem gente voltando a usar lenha, porque não consegue, tem muitos filhos, um botijão de gás é rápido, de 13 quilos aquele, rapidinho vai embora, então quer dizer, e aí como essa militância, esse clima de tensão importa, porque também aí eu lucro com isso de certa forma e associa-se a isso a ideia de classe social, aí os marxistas assumem a causa do negro, certo? E o estado na rabeira de tudo isso, porque o estado precisa de eleitor, certo? Você divide todo mundo, eu tenho eleitores em setores diferentes, eu posso trabalhar…

Luciano             Dou um docinho para um, dou uma balinha para o outro, dou um negocinho aqui e eu tenho todo mundo sob controle.

Paulo                …eu tenho todo mundo sob controle, então a determinados grupos de pessoas importa que seja assim, mas não é assim na rua, não é assim de fato, não é assim entre os vizinhos, acontecem muitos casos de racismo no Brasil, de discriminação de cor no Brasil, muitos casos, mas está muito longe de ser esse absurdo que…

Luciano             Uma cultura.

Paulo                … uma cultura.

Luciano             Não é uma cultura.

Paulo                Não é uma cultura.

Luciano             E de novo, e o indivíduo que manifesta seu preconceito sob forma de discriminação, tem lei para isso, o cara tem que ser enquadrado e tem que ser…

Paulo                Não precisaria nem de lei específica para isso, porque se as leis funcionassem, qualquer um que ofendesse o outro por causa da sua cor, ou porque o sujeito é gordo, ou porque…. pronto, leva um processo por injúria, por calúnia, pronto, não precisaria nem de uma lei específica para isso, então o país tem leis, deveriam funcionar, então é um exagero tremendo esse aí de que…. e é muito ruim, fica essa cultura do racialismo no Brasil e o país não vai para a frente e eu estou vendo essa nova geração, claro que essa nova geração assim, dos meus alunos por exemplo, muitos poucos deles assim tem alguma perspectiva, então isso já é um outo problema, daria uma outra conversa só sobre a questão da educação, mas esses jovens que já vem de famílias muito mal estruturadas ou completamente desestruturadas, eles não tem referência alguma.

Luciano             Não tem o pai.

Paulo                Primeiro que não tem o pai, já começa que não tem uma figura paterna, às vezes a mãe também… às vezes a mãe é mãe e pai, mas às vezes a mãe também não tem tempo, então nem o pai e a mãe, às vezes tem os dois e os dois não tem tempo, então assim…

Luciano             Ou não tem cultura.

Paulo                … não tem cultura para fazer isso, não é um modelo, bom esse jovem acaba crescendo sem referência, se uma hora dessa ele acaba por se descobrir, se descobre negro, ah eu sou negro, beleza, e agora o que eu vou fazer? Aí ele procura as coisas, acaba caindo na mão dele a ideia de que o 20 de novembro é o dia da consciência negra e o símbolo desse dia é o Zumbi dos Palmares, aí ele fala ah legal, deixa eu ler sobre o Zumbi dos Palmares, aí ele descobre que o Zumbi foi um escravo fugido que montou lá um núcleo, vou chamar assim, núcleo de resistência para dar o olhar benigno para essa coisa que o quilombo significou, os Palmares significou, o núcleo de resistência contra a escravidão, que é o que o movimento negro prega. Aí o jovenzinho negro lê aquilo lá, do Zumbi, fala legal, beleza, está bom, mas e aí? Aí nada, aí você fica aí revoltado, porque é isso aí, o Brasil é uma imensa casa grande e você é o escravo, então você tem que se revoltar como o Zumbi fez, então Zumbi é o seu modelo, tá, mas qual que é o fim do Zumbi? Morreu. Morreu guerreando, morreu e tal. Tá mas só tem isso? Só me oferecem isso? Então todas as figuras proeminentes negras que poderiam servir de exemplo para esse jovem negro que está começando e está procurando referências, elas desapareceram, tiraram dele essas referências todas, aí entregam para ele o Zumbi, se ele der dois passos a mais ele cai na mão do Malcom X, às vezes ele cai na mão do Martin Luther King, mas o Malcom X chega mais rápido, é igual quando o jovenzinho quer ler filosofia, os livros do Nietzsche brotam do chão na mão deles assim, ele não encontra um livro do Platão, demora anos para ele descobrir que existe um filósofo chamado Platão que é a primeira coisa que ele deveria ler, mas o Nietzsche rapidamente cai nas mãos dele, do mesmo jeito que o Malcom X chega mais rápido do que qualquer outro expoente da luta do movimento negro americano.

Luciano             E se for história só vem Eric Hobsawm.

Paulo                Bom, aí ai meu Deus do céu, aí a coisa…

Luciano             Paulo, esse aqui é um programa, estamos caminhando para o final aqui agora, esse aqui é um programa que trata de liderança e empreendedorismo, a gente voou bastante nessa questão, pode ser que alguém está ouvindo e fala o que isso tem a ver? Eu falo isso tem tudo a ver, tá? Primeiro porque você construiu a tua carreira, tomou tuas decisões e tudo mais, está levando adiante uma luta que passa por… enfrenta esse, não quero chamar de problema, enfrenta essa questão no teu dia a dia e as empresas também, de certa forma, enfrentam, então você está ouvindo a gente aí, eu não sei se você é preto, se você é branco, se você está no meio termo, se é japonês, o que é a tua aí, eu sei que é o seguinte, cada um de nós pode fazer um pedacinho de construir uma sociedade baseada nessa tolerância que a gente tanto prega e que eu acho que existe bastante no Brasil acho que existe bastante, eu faço questão de pregar e faço questão de tratar assim as outras pessoas e de encarar isso como problema individual, é graças ao indivíduo e por culpa do indivíduo nós temos essas questões todas acontecendo aí, não é um problema de cultura brasileira, não é um problema que o estado vai resolver, é um problema que os indivíduos vão assumir e resolver, então o que eu quero colocar aqui? Se você está lutando aí para o teu dia a dia, no teu negócio, de montar a tua empresa, de fazer o negócio acontecer e além disso ainda vai externar o teu preconceito sob forma de discriminação, você é no mínimo burro, porque arrumou um problema muito maior para você, quer dizer, além de ter brigar com tudo que tem que fazer, ainda arrumou uma encrenca a mais que não precisava existir simplesmente porque a gente é tudo igual, mesma coisa, é tudo, tirando o estereótipo o que sobra é sangue na veia e lágrima no olho, fome e papo legal, papo gostoso de ter, não é isso?

Paulo                É isso aí.

Luciano             Bom, Paulão, vamos indo para o final aqui, eu sei que você está fazendo um livro, ou está com um livro encomendado, tem alguma coisa acontecendo aí, você vai usar aquela canetinha do teu pai para assinar no final.  Que está vindo aí?

Paulo                Olha é assim, está meio ainda em segredo, mas digamos assim, é um livro que pretende trazer um pouco de luz a essa coisa sombria que vem tomando conta do Brasil, que tenta, como eu falei já anteriormente, botar a bola no chão, chamar para conversa e assim, e conversar com as pessoas, não estou interessado na academia, eu não estou interessado em brigar com ninguém, não, eu estou interessado em falar às pessoas, falar…

Luciano             Temos um problema e precisamos resolvê-lo.

Paulo                Vamos sentar aqui. Como um grande admirador de Platão que sou, vamos dialogar. Vamos pegar a coisa aqui do pequenininho e vamos abrindo esse pacotinho e vamos tentar resolver esse problema conversando, que eu acho que é a melhor forma e aí assim, baseado na minha experiência, baseado nas referências que eu tenho, baseado em todo esse referencial que eu tenho buscado ao longo da minha vida e assim, vai ser um livro bacana, vai ser bacana.

Luciano             Quem quiser te encontrar hoje, você está onde? Você está nas mídias sociais? Como é que é?

Paulo                É eu estou no Facebook, Paulo Cruz, não é difícil de me encontrar e no Twitter @paulocruz

Luciano             Brigando com meio mundo, arruma briga no Twitter, é brincadeira, e não é briguinha com o zé mané, é só com cara grandão, entra lá e arruma uma encrenca, vê o nego escrevendo uma bobagem, dá o troco na hora e vira aquela baita confusão.

Paulo                … é, eu evito assim, mas às vezes não dá, sou um sujeito meio combativo assim, então eu acabo me envolvendo ás vezes numas coisas… Eu lembro que eu era pequeno, minha mãe falava assim para mim, você é muito radical, mas eu descobri que eu sou igual a ela, minha mãe também é assim, então a força moral…  minha mãe, eu era pequeno ela falava assim, eu quero sempre ter o que falar e nunca dar o que falar para as pessoas, eu era pequeno eu ouvia minha mãe dizendo isso, se alguém bater na porta para falar de você, você vai se ver comigo, porque eu gosto de ter o que falar, minha mãe é aquela, você não encontra ninguém falando nada dela, ela nunca minha mãe foi aquela pessoa de falar dos outros, vizinho, de não sei o quê, ela é pessoa absolutamente aberta e eu também sou assim, ninguém vai escutar o Paulo falou de fulano, nunca, porque se eu tenho que falar eu falo na lata mesmo, então eu tenho muito isso da minha mãe, essa coisa do radical, de ser uma pessoa direta, então quando eu tenho o que dizer, eu digo. Então acaba acontecendo…

Luciano             E no Brasil isso é um problema, porque todo mundo ai… se fere susceptibilidades…

Paulo                … eu tenho um problema com igrejas evangélicas, porque eu sou evangélico, acabei de dizer isso aqui no começo, então eu sou evangélico, eu tenho um problema com as igrejas por causa disso, porque se eu digo, aí daqui a pouco começa, hum, mas olha, mas não pode falar e tal e aí começa e aí assim, então acontece, bom, mas então eu estou lá no Twitter, @paulocruzphi

Luciano             Tudo junto, paulocruz, cruz com Z, paulocruzphi no Twitter e no Facebook?

Paulo                No Facebook Paulo Cruz.

Luciano             Deve ter uns 200 Paulo Cruz lá no Facebook.

Paulo                Mas eu acho que não é difícil não, porque eu tenho assim uma quantidade razoável de seguidores lá e tal, então acaba aparecendo…

Luciano             Quando você abrir lá procure um indivíduo não branco que fica mais fácil de encontrar lá.

Paulo                É só achar o indivíduo não branco que eu estou lá.

Luciano             Legal Paulo, estou curioso par ver esse livro teu aí e continua nessa luta tua aí, eu sei que você não é um cara… você não quer uma revolução, você quer uma evolução, é isso que a gente busca e eu acho que tem muita luz para acender nesse país aqui, está muito obscuro, a briga está um saco, está muito chato, está muito chato você tem que medir duas vezes o que vai dizer, nós que somos figuras públicas tem que pensar dez vezes antes de escrever um negócio, eu já tenho que escrever um texto cercando todinho para que as pessoas não subentendam alguma coisa e venham me atacar por um negócio que não tinha nada a ver com o texto, está ficando muito complicado isso aí, eu acho que quanto mais gente botando luz nessa discussão aí a gente vai facilitar a vida para todo mundo.

Paulo                Se tem um conselho que eu… já que o programa é o LíderCast, uma coisa que fala sobre empreendedorismo e coisa e tal e isso também é uma coisa que eu trago do meu pai, falei um monte de frases do meu pai e da minha mãe hoje aqui e mais uma então que fica aí como… para os nossos ouvintes, meu pai dizia assim: você quer fazer alguma coisa? Comece a fazer que forças extraordinárias virão em seu auxílio. Ouvi isso muito também dele, então quer dizer, hoje eu tenho três anos de docência, então quer dizer, sou um professor muito novo, mas absolutamente realizado, então ainda assim ando, claro, não galguei grandes passos, ninguém me vê na televisão por aí e tal, mas assim, eu sou um professor realizado, gosto muito do que faço, faço com amor, estudo pra caramba porque gosto de levar conhecimento para os meus alunos, eu tenho alguns trabalhos freelance, então quer dizer, as coisas foram acontecendo assim, então ah, você está ganhando? Não, não estou ganhando.

Luciano             Stephen Hawking que é o universo conspira a seu favor, ou é Paulo?

Paulo                Eu não sei quem é.

Luciano             Quem foi que falou? O universo conspira a seu favor, bom, foi alguém que falou.

Paulo                Foi alguém que falou, o doutor Antônio também falava, então meu pai também falava e assim, isso é uma máxima da minha vida porque o que aconteceu comigo, de 2014 para cá, foi Deus que fez para mim, é claro, eu também batalhei, mas sempre quando eu chego no final de um esforço meu e eu vejo o negócio assim eu falo puxa, tem a mão de Deus aqui, porque eu consegui fazer e funcionou, então assim, eu tenho um trabalho que eu gosto muito de fazer, um freelance para uma editora de livros didáticos que apareceu lá em 2014, foi o meu orientador do mestrado que me salvou a vida financeiramente em vários momentos assim, então as coisas acontecem, então eu tenho um livro por escrever, em vias de ser publicado, eu tenho um monte de coisa, um monte de projetos nos quais eu tenho conversado com um monte de gente, então tenho um contato muito bom com a Gazeta do Povo, para quem eu escrevo de vez em quando, então assim, a gente conversa sempre, estou preparando um outro material para eles agora, então assim, é assim faz…

Luciano             Trabalha

Paulo                … trabalha, nem é muito aquilo assim, eu não gosto nem daquele negócio assim, ah fazer o que você gosta, não é só, é mais do que isso, a docência me puxou, não fui eu que fui, estou louco para fazer algo que eu gosto, não, eu estou fazendo algo que eu nasci para fazer, então se todo mundo descobrisse aquilo que nasceu para fazer, que fosse assim fazer bolo, que fosse limpar uma vidraça, mas fizesse aquilo como se fosse a coisa mais importante da vida dela, aquilo…

Luciano             Isso contamina.

Paulo                … isso contamina.

Luciano             Isso contamina.

Paulo                Isso contamina, não tem coisa melhor do que você fazer aquilo que você faz como uma missão, que seja a coisa mais simples até a coisa mais complicada, mas que não seja… que seja uma missão.

Luciano             Por isso nasceu o LíderCast, bem vindo. Um abraço.

Paulo                Obrigado pelo convite.

 

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo

Citações

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