Lidercast
O dia seguinte
O dia seguinte
Com o aumento considerável do mercado de palestrantes ...

Ver mais

Fact Check? Procure o viés.
Fact Check? Procure o viés.
Investigar o que é verdade e o que é mentira - com base ...

Ver mais

O impacto das mídias sociais nas eleições
O impacto das mídias sociais nas eleições
Baixe a pesquisa da IdeiaBigdata que mostra o impacto ...

Ver mais

Síntese de indicadores sociais 2016 do IBGE
Síntese de indicadores sociais 2016 do IBGE
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - ...

Ver mais

626 – AlôTénica – A Podpesquisa
626 – AlôTénica – A Podpesquisa
O programa reproduz a conversa entre Luciano Pires, Leo ...

Ver mais

625 – João Amoêdo
625 – João Amoêdo
Continuando a conversa com candidatos a Presidente nas ...

Ver mais

624 – Paulo Rabello de Castro
624 – Paulo Rabello de Castro
Na medida do possível, estamos conversando com ...

Ver mais

623 – A lógica da adequação
623 – A lógica da adequação
O tema de hoje é negociação, partindo da famosa análise ...

Ver mais

LíderCast 119 – Fabiano Calil
LíderCast 119 – Fabiano Calil
Educação financeira é seu mote, até o dia em que ele ...

Ver mais

LíderCast 118 – Maria Luján Tubio
LíderCast 118 – Maria Luján Tubio
Jovem argentina, com vivência em vários países e que ...

Ver mais

LíderCast 125 – João Amoêdo
LíderCast 125 – João Amoêdo
Decidimos antecipar o LíderCast com o João Amoêdo ...

Ver mais

LíderCast 117 – Alice Quaresma
LíderCast 117 – Alice Quaresma
Artista plástica, uma história sensacional de uma ...

Ver mais

Confraria Café Brasil
Confraria Café Brasil
A Confraria Café Brasil nasceu para conectar pessoas ...

Ver mais

Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata Temporada 02 Episódio 10 - Hábitos ...

Ver mais

Videocast Nakata – T02 09
Videocast Nakata – T02 09
Videocast Nakata - Temporada 02 Episódio 09 Quando ...

Ver mais

Videocast Nakata T02 08
Videocast Nakata T02 08
Videocast Nakata Temporada 02 Episódio 08 Já falei ...

Ver mais

Precisamos reaprender a olhar
Mauro Segura
Transformação
Numa era em que o tempo parece escoar pelos dedos, ironicamente precisamos reaprender a "sentar e observar".

Ver mais

Homenagem aos Economistas 2018
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
Homenagem aos Economistas 2018 Memoráveis citações  “Aquele que for somente um economista não tem condições de ser um bom economista, pois todos os nossos problemas tocam em questões de ...

Ver mais

Empurrando com a barriga
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
Empurrando com a barriga  Cenários da economia brasileira “A arte da previsão consiste em antecipar o que acontecerá e depois explicar o porquê não aconteceu.” Winston Churchill  Considerações ...

Ver mais

Loop
Fernando Lopes
Iscas Politicrônicas
A entrevista de Jair Bolsonaro ao programa Roda Viva, na TV Cultura, deu o que falar. Não pelos motivos esperados, por paradoxal que pareça; mas pela inexperiência dos jornalistas, que fizeram um ...

Ver mais

Cafezinho 97 – Os ciclos
Cafezinho 97 – Os ciclos
A vida acontece, em ciclos. E fica a cada dia mais ...

Ver mais

Cafezinho 96 – A cozinha e a lixeira
Cafezinho 96 – A cozinha e a lixeira
O Brasil é uma grande cozinha. Nela existe uma lixeira. ...

Ver mais

Cafezinho 95 – Banco traseiro
Cafezinho 95 – Banco traseiro
A fila anda! A gente muda! O tempo passa! O mundo é ...

Ver mais

Cafezinho 94 – Jornalismo e civilidade
Cafezinho 94 – Jornalismo e civilidade
O povo quer personalidade, opinião consistente e gente ...

Ver mais

LíderCast 099 – Nuno Mindelis

LíderCast 099 – Nuno Mindelis

Ciça Camargo -

NO FINAL DESTA TRANSCRIÇÃO HÁ UMA LISTA COM TODOS OS ARTISTAS E BANDAS CITADOS NO PROGRAMA

Luciano             Muito bem, mais um LíderCast, esse aqui está sendo uma festa. Essa figura aqui eu conheço há muito tempo, a gente foi quase vizinho, aliás foi vizinho assim de condomínio, mas foi bem interessante, tivemos muitos contatos, eu estava ensaiando, um dia eu trago ele aqui, acabou que deu certo hoje e bom, eu não vou falar muito agora não, deixa a coisa rolar que vocês vão ver como é a história aqui. Três perguntas dão a abertura deste programa e são as únicas três que você não pode mentir e nem errar, presta atenção: seu nome,  sua idade e o que é que você faz?

Nuno                 Bom, meu nome Nuno Mindelis de Macedo Martins, eu não posso mentir, certo? Omissão é uma forma de mentira, então Nuno Mindelis de Macedo Martins, 60, 6.0 e o que eu faço: sou músico, produtor, saltimbanco, mexo com música, guitarrista, isso é o que eu sou que as pessoas conhecem, mas eu sei que isso aí é 10% do que eu seria habilitado a fazer, com certeza absoluta.

Luciano             A gente vai explorar um pouco isso aí. Você nasceu aonde, Nuno?

Nuno                 Nasci em Cabinda, que é uma cidade no norte de Angola, á beira do Rio Zaire, na verdade nem é norte de Angola, já é geograficamente fora de Angola, mas é Angola por tratado, que é o Tratado Simulambuco, é o enclave de Cabinda, mas eu saí de lá com um ano, nem conheço a terra onde nasci e daí e fui para Huambo, com um ano e fiquei em Huambo até…

Luciano             Em Angola?

Nuno                 … em Angola, sempre em Angola e fiquei em Huambo, que na época se chamava Nova Lisboa, até os 9 para 10 anos e ali eu já tocava, já tinha rolado uns violõezinhos.

Luciano             Seu pai e sua mãe vieram de onde para Angola?

Nuno                 Então essa é uma longa história, vou tentar fazê-la curta. O meu pai, português, com 18 anos foi parar em África como um Indiana Jones porque o pai dele, o meu avô paterno era parte do funcionalismo público de Portugal na época e teve alguma desavença com Salazar, o ditador. Essa história nunca me foi contada porque não se podia falar, porque a ditadura foi até 76, 75 quando eu saí de lá, até 74, eu saí em 75 e aí por conta disso ele foi, o Salazar tinha duas táticas, ou mandava matar a PIDE que era a KGB lá no local, ele diz que a KGB é fichinha perto deles, os caras só de pensar em alguma coisa já dançavam, inacreditável. E aí ele e o Franco, o Franco na Espanha e aí o meu avô, então tinha essa coisa, ou fazia isso ou mandava para a África, isso é real, parece negócio da época do navio negreiro, mas é verdade, então meu avô foi mandado a Angola resolver um assunto, ah vai lá resolver um assunto nas colônias e quando ele ia voltar, avisou o governo,  falou é o seguinte, já está resolvido, estou voltando. Não, fica aí que a tua família já está no avião, no ar nesse momento indo para aí, assim o meu pai foi parar em Angola. Aí ele foi parar em Cabinda, que foi exatamente ali na floresta do Maiombe e tal e ele literalmente virou um Indiana Jones, ele contava coisas incríveis, tipo ele usava uma 16 mm, cartucheira para atirar em pato e perdiz e tinha uma corda na ponta do cano e ele, no barco, pescava, então ele pescava, a 16 mm era uma vara de pescar, se passava peixe ele puxava o peixe, se passava pato, ele atirava no pato. E aí no meio disso aparece uma polonesa branquinha, devia ser um filé, um pitéu, era a minha mãe, porque a minha mãe, filha de um empresário, na verdade isso é longo, mas o padrasto dela, a pessoa a quem ela considera pai de fato era um príncipe português, não era príncipe…

Luciano             Polonês.

Nuno                 … português…

Luciano             Português?

Nuno                 … sim, porque aí tem… isso vai ficar confuso pra você, porque a minha família de refugiados, eu espero que acabe  nos meus filhos, mas como está virando Venezuela aqui, nunca se sabe, de repente até eles vão dançar, mas enfim, a família de refugiados, do lado  da minha mãe, depois me lembra para voltar para a África, por favor, que eu vou esquecer, que eu já não tenho mais neurônios. Então é assim, do lado da minha mãe, poloneses ucranianos, segunda guerra, fornos, judeus, holocausto e então o que acontece? Foi o crossover, cruzada clássica de quem fugia da guerra, só havia dois países que não estavam em guerra, o Canadá e Portugal, foram os dois únicos países que não entraram na segunda guerra mundial. Então quando começou esse negócio de perseguição nazista e aquela história toda, o roteiro clássico era vai para Portugal, para dali ir para os EUA, é mais ou menos isso que acontecia sempre. Primeiro o cara saía da Polônia, pulava em Portugal e era um trampolim e de Portugal ele já pegava um navio e ia para as Américas e foi isso que a família Mindelis fez, então, três irmãs e um irmão e os pais, portanto os meus bisavós maternos, então, os meus bisavós maternos, a minha avó, duas irmãs e um irmão foram para Portugal e depois uma parte aí que acontece de a minha avó ter ficado em Portugal, mas as irmãs e o irmão e os bisavós, Nova York e Canadá e a minha avó ficou em Lisboa porque ela, entretanto, o meu avô sanguíneo, Salomon Leiba Stob, era um playboy de primeira e já tinha mandado a minha avó tomar banho. Assim, minha avó ficou sozinha com uma filha e ele casou mais umas cinco vezes depois disso, depois acabei conhecendo ele, uns 30 anos depois. E a minha avó ficou em Lisboa e acabou casando com esse cara que foi educado pelo pai do Franco, esse meu, na verdade o que a gente considera que é meu avô, que é o vô Bernardo, que é o segundo marido da minha avó, mas que na verdade cuidou da minha mãe desde que ela tinha um ano e meio, um ano, era filho do, digamos que do primeiro ministro do último rei de Portugal e quando a monarquia, quando mataram lá o Dom Manuel, não lembro agora e a república acabou com a monarquia, eles se exilaram e, no caso o pai desse Bernardo que é o meu avô e o Bernardo, então Bernardo ficou na Espanha com a educação a cargo, por isso a gente fala que era um príncipe, na verdade era um cara que fazia isso mesmo, pilotava avião, campeão de esgrima, aquelas coisas, equitação, campeão de corrida, inclusive, em Portugal, os mais antigos lembravam dele, era um campeão de corrida de automóvel e tal. Que é Bernardo Gouveia, e o Bernardo foi para a África ganhar uma grana com madeira, a ideia dele era…. então ele chegou lá e pronto, aí ele, o meu velho estava lá por essas razões e o Bernardo estava ali como empresário e o meu pai foi pedir emprego na…

Luciano             Madeireira dele.

Nuno                 … na madeireira e tal e isso aqui não é anedota, é uma história real, o Bernardo falou, você vai ser o gerentão aqui, você pode fazer o que quiser, menos se meter a namorar a minha filha, essa é uma história e bom, daí então meu velho conheceu minha velha, quer dizer, estamos num programa de rádio, então meu pai conheceu a minha mãe e, enfim, nasceu meu irmão, ainda no Congo, meu irmão nasceu na França, na verdade, que aquilo, maternidade como ele era o primeiro, a maternidade francesa, era colônia francesa, o Congo era francês, era muito próximo e primeiro filho, então ele nasceu em território francês, podia ter solicitado passaporte francês. E eu já fui o segundo e tal, já nasci mesmo em território português ali, de parteira, não tinha…

Luciano             Quer dizer, uma família europeia, meio que exilada na África.

Nuno                 Exato, não tem uma gota de sangue africano em mim, eu até talvez por simbiose, alguma coisa, porque eu sou um cara que os meus heróis são os negros americanos do blues, curiosamente, mas assim, eu sou mistura de Ucrânia, Polônia, Rússia com…

Luciano             Você vivia numa comunidade fechada, uma comunidade branca lá dentro ou não?

Nuno                 Em Angola?

Luciano             É, em Angola, ou estava tudo misturado.

Nuno                 Estava misturado e é uma coisa que ninguém acredita muito e ninguém entende bem, mas o ponto é o seguinte: de fato defender os portugueses de racismo é difícil, porque não havia apartheid como na África do Sul nem pouco ou mais ou menos, mas defender de racismo é difícil pela posição colonialista, mas eu… deixa eu ver se eu consigo explicar melhor, não são as pessoas que são racistas, era a política de que Angola era portuguesa e não era uma Angola negra, mas assim, a minha classe no Liceu, todas as minhas classes na escola, desde que eu nasci até sair de Luanda, havia negros e agora eu volto lá para fazer show e os meus amigos da época, que a gente se emociona e chora de se rever, são negros, tem uns brancos também, mas assim, então não havia nada dessa separação, inclusive há fotos e fotos aí, às vezes eu recebo livros e coisas da Angola antes da independência e você vê, eu até mostro para os amigos, falo dá uma olhada nisso…

Luciano             Tudo integrado.

Nuno                 … era, não, a minha escola era pública, ninguém pagava nada, eles também não.

Luciano             Sua mãe trabalhava?

Nuno                 Minha mãe trabalhava de secretária no Banco Tota, em Açores que é enfim e o meu pai era escriturário, cargo de uma empresa de cerveja que era a Companhia União de Cervejas de Angola, que é CUCA, que existe até hoje, depois na independência foi nacionalizado e ficou angolano e ele se tornou piloto dessa empresa, o sonho do meu pai era voar e ser piloto e tal, então não tinha, nenhum dos meus pais era curso superior, nenhum dos meus pais tinha casa própria, não tinha nada disso, assim, o que a gente perdeu foi uma vida inteira de, assim, o carro que você tinha, meus violões, meus LP’s e tal, mas a casa não era nossa, a gente não perdeu nada de bem imóvel porque nunca teve.

Luciano             Mas por que você está falando perdeu? Por que perdeu?

Nuno                 Porque depois em 74…

Luciano             Quando houve a revolução.

Nuno                 … a Revolução dos Cravos em Portugal, assumiu um governo contra as colônias, corretamente, isso é um outro livro, aliás eu tenho um livro que fala disso, não editei mas, aí o que acontece? Houve uma revolução em Portugal, muito bem bolada, em 1974, 25 de abril, que tirou o governo, o que sucedeu Salazar, o Salazar talvez eles não tivessem conseguido fazer a Revolução dos Cravos tão facilmente, mas o Salazar morreu, entrou Marcelo Caetano, era um jurista, era um cara mais aberto, ele tentou fingir que era ditador, não era, não conseguiu. Então tiraram o cara dali e aí assumiu um governo radicalmente de esquerda, uma junta militar e todo mundo, e chegou todo mundo que estava exilado e o apoio maciço da União Soviética, esses caras que assumiram Angola, Agostinho Neto e tal, eram caras que deviam a cueca para a União Soviética, porque os caras… era como dizia o Salazar, vamos entregar Portugal para quê? Para ser russo, ser americano, então é melhor ser dos portugueses, já estou aqui há 500 anos, ele respondeu isso a um jornalista brasileiro uma vez, até para perguntar isso tinha que ter cuidado, pô o cara vem falar de independência aqui vai em cana, mas a realidade foi essa mesmo, aquilo se tornou um satélite soviético imediatamente, encheu de cubano.

Luciano             Isso foi em 74, você estava com 19 anos.

Nuno                 Para você ter uma ideia, eu estava no Liceu Salvador Correia, que é um lugar que todo angolano que estudou, é como se fosse uma Universidade de Coimbra, é uma das coisas que produz mais saudade e nostalgia a todos é que é uma alegria, o que acontece, o Salvador Correia, eu fui para a aula como sempre, a revolução foi na madrugada de 25 de abril, 24 para 25 de abril…

Luciano             Lá em Lisboa.

Nuno                 … lá em Lisboa, que em Angola é igual, se não me engano é o mesmo fuso, então foi na madrugada, duas da manhã, então a gente acordou normalmente de manhã, sabendo, porque as notícias também chegavam a vapor, não tinha Youtube nem portal Terra, nem nada, portal da UOL, então, não havia nem jornal logo cedo dizendo, mas a gente sabia que tinha acontecido uma revolução que o governo tinha sido deposto, mas não sabia que governo tinha assumido, se era anti colônia, se não era e tal e eu fui para a escola, essas coisas não esqueço, com um LP de um grupo chamado Canned Heat em parceria com Johnn Lee Hooker, então era Hooker and Heat, esse e mais uns outros que eu andava sempre, Doors L.A. Woman, Pink Floyd Dark Side Of The Moon… cada dia ia para a escola com uns LP’s, ficava discutindo aquilo nos intervalos, trocando disco, ideias e tal e aí nesse dia, nesse mesmo dia quando eu saí de casa para o Liceu, eu tinha aula no período da tarde nessa época, se não me engano, então saí tipo ao meio dia para ter aula a uma, não lembro direito, já ouvi tiros, em Luanda, Namaianga, falei porra, houve alguma coisa em Portugal mas já está havendo tiro aqui, então aí teve essa guerra civil sangrenta e cruenta em que vários movimentos reivindicavam a propriedade de Angola, tipo os portugueses vão entregar Angola, beleza, mas é nossa, diziam o MPLA, não não, é minha dizia a FMLA, não, é minha dizia a UNITA e aí virou caso de descolonização extremamente mal administrado e é isso que faz com que a maioria dos portugueses das colônias, que era o meu caso, eu sou Angolano nascido em Angola, mas tinha os angolanos e aqueles caras como meu pai, por exemplo, ficaram incompatibilizados com Portugal pelo resto da vida, porque foram abandonados, quer dizer, até ontem você era obrigado a cantar o hino nacional e a jurar bandeira e hoje você está ali abandonado e se vai para Portugal é xingado à chegada no aeroporto, isso aconteceu, então…

Luciano             Quer dizer, não era bem quisto nem lá e nem cá.

Nuno                 É, você virou um pária.

Luciano             Você que está ouvindo a gente aí, que não sabe muito bem dessa história, esses nomes que o Nuno falou aí, FMLA, FPLA eram os vários grupos que quando viram que a coisa pegou fogo lá, eles se mobilizaram para conquistar o poder, cada um deles vindo de um lado e o Brasil aqui assistia aquilo tudo acontecer, a Revolução dos Cravos e tudo mais porque nós estávamos em pleno regime militar aqui no Brasil e olhando um movimento daquele, muita gente espelhou-se naquela movimento para imaginar que no Brasil podia acontecer uma coisa muito parecida, mas foi legal você estar vivendo isso lá com 19 anos.

Nuno                 Menos, tinha 17.

Luciano             Me dá um pouquinho, volta um pouquinho atrás, o que o Nuninho queria ser quando crescesse?

Nuno                 Esse é um problema, aliás, eu nunca fui muito consciente tipo eu sempre… eu nunca parei para pensar quero ser isso ou quero ser aquilo, nunca tive essa.. é diferente do meu filho, por exemplo, meu filho desde cedo falou mas espera aí, para viver é preciso ganhar dinheiro, para ganhar dinheiro onde é que está o dinheiro? Está no banco. Ah é? Como é que faz? Ele tinha essas conversas com a minha mãe, que era executiva aqui e aí fez GV e já sabia tudo, eu não tenho essa maturidade, nunca tive essa consciência, a única coisa que eu sabia é que eu gostava de tocar guitarra, de música e etc…

Luciano             Seu pai tocava, sua mãe tocava?

Nuno                 Nada, zero.

Luciano             Sua família era musical?

Nuno                 Musical no sentido de que…

Luciano             Ouvir música.

Nuno                 … ouviam muito e liam muito, era uma casa onde havia muito livro e muita música erudita, o meu pai ouvia os eruditos, Sinfonia Número 7 do Beethoven para ele é o Sargent Peppers da música clássica, é o Dark Side of the Moon da música clássica, mas tudo, Tchaikovsky e etc.Então eu fui ouvindo aquilo e ensinado a prestar atenção naquilo, isso foi muito importante e do ponto de vista popular, meu pai gostava de umas coisa muito legais, que eram George Brassan, franceses Gilbert Bécaud também, aquilo era um… e a minha mãe também ouvia muita música clássica, mas era uma pessoa jovem, o meu pai também era jovem, mas ela mentalmente era mais jovem e não… por exemplo, meu pai, quando eu ouvia Otis Redding com 9 anos, por sorte tinha um cara mais velho e falou moleque, você tem que ouvir isso aqui, meu pai não dava bola, falava isso aí… e a minha mãe já não, espera aí, deixa o cara… como assim? Então ela gostava de música de Beatles e outras coisas assim.

Luciano             Dá um break para mim aí que eu vou botar um insight aqui no nosso papo, agora é papo de pai para filhos, pais para filhos.

Nuno                 Se estiver indo mal você me avisa.

Luciano             Não, você está indo excelentemente bem, é que você me deu um insight aí que é muito legal essa história do um cara mais velho chega moleque, escuta isso aqui. Como isso é o momento que você pode falar é um momento divisor na minha vida, porque a partir dali eu…  encontrou o caminho…

Nuno                 Mas foi muito, eu quero…

Luciano             … eu fiz isso com meu filho, eu peguei meu filho, molecão, ouvindo boybands, Menudo, aquela coisa toda, um belo dia eu cato ele e eu  tinha ideia de uma coisa, ele falou não pai, antes disso eu conheci outra coisa, eu cheguei e botei um Bob Marley nele, escuta isso aqui e o moleque escutou aquilo e adorou Bob Marley mas continuou naquela vidinha dele e um dia eu estou lá no meu home theater e ele veio, senta aí, e meto um Grand Funk para ele ouvir e ele escuta e  ele escuta aquilo, eu tiro o Grand Funk e meto um The Who e o moleque pai, o que é isso? Falei isso aqui é um rock, dali para a frente o moleque desabrochou e acabou criando uma… quando ele está sóbrio, quando ele não enche a cara, ele tem um gosto musical que é uma maravilha, descobre coisa, traz para eu ver, aquela coisa maravilhosa, mas aquele foi um momento chave, se eu não tivesse feito aquilo que esse cara fez, moleque ouve isso, ele não teria tido esse insight de conquistar ali o que o moleque foi adiante.

Nuno                 Não, você muda a vida de uma pessoa, inclusive eu toco, às vezes eu estou tocando em algum lugar e tem criança assistindo e dá a sensação de que você vai mudar a vida daquele moleque e muitos pais já me falaram isso, eu fico até muito orgulhoso, orgulhoso não, fico realmente feliz com isso, porque você pode, no meio disso tudo que está aí, você está fazendo um som e você vê uma criança especada olhando para você, você saca que está transformando ali. Então o que acontece, o cara no mínimo quero ser músico, no mínimo, mas falando especificamente de filhos, em relação, esse cara era um cara mais velho que eu pouco mais hoje, mas na época eu tinha 9 e esse cara, que eu adoraria saber, caso ele ainda seja vivo, que eu ouvi qualquer coisa que talvez já não seja e ninguém mais sabe desse cara, era um… eu antes de sair de…. quando eu estava em Huambo, quando estava em Nova Lisboa, houve uma fase em que eu mudei para Luanda, dos 9 para 10 anos e nessa… entre fecha uma casa para alugar outra em Luanda, a gente ficou numa pensão, tipo devolveu a casa alugada, saiu, tirou as coisas e ficou numa pensãozinha por dois, três dias para depois ir para Luanda. Nessa pensão eu conheci esse cara, que estava fazendo a mesma coisa, estava indo mudar para Luanda, ah vocês estão indo para Luanda? Estamos. Só que o cara tinha uns 15 e eu tinha 9 e o cara era um cara legal com criança assim, ele não era um… era um cara legal, simpático e talvez fosse infantil também, eu não sei, ele era, de fato, um pouco infantil, brincava, fazia imitações de atores, era um puta louco e eu e o meu irmão, eu tinha uns 9 para 10, meu irmão tinha uns 11 para 12 e ele via eu já com latinha de charuto, caixinha tentando fazer música, eu só falava em música com aquela idade e com violões de lata e coisinhas assim e aí ele falou pô, eu vou morar em Luanda, eu vou morar, está aqui ó, o meu endereço vai ser esse aqui e tal e o cara deu Largo João Fernandes Vieira, número tal e quando eu fui morar… e aí a gente mudou, cheguei em Luanda e falei pô, e o Zito? Acho que era Zito, Genito, Eugênio, deixa eu ver o endereço do Genito, onde será que ele… pô sabe onde é o Largo João Fernandes Vieira? O cara falou é ali, então eu estava morando do lado do coiso, então ô Genito, pô já estamos aqui, pô moleque, campeão tal não sei quê ó, aí ele começou, ouve isso aqui, você tem que ouvir isso aqui, moleque, aí ele punha Otis Redding, eu costumo dizer um negócio que é muito clichê mas eu preciso dizer que eu não tenho outra definição. Para um moleque que ouvia música clássica com melodias tonais, a música clássica é altamente diatônica, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. Para um moleque que ouvia música de criança porque ainda era uma criança e outras coisas tipo o que havia de mais pop, quando eu coloquei o Otis cantando, sei lá, Papa’s Got a Brand New Bag, ou Loving You too Long, Respect, aliás, foi a  primeira (ele canta). Quando eu ouvi isso, era uma massa sonora dura difícil, dolorida e esse é o clichê, que eu odeio usar, mas não tem outra expressão, que era uma dor do tipo sexual, que dói mas você quer mais, essa é a realidade.

Luciano             Isso é soul music, não é?

Nuno                 Exato.

Luciano             Soul music.

Nuno                 Soul music, mas assim, do Otis, que para mim, até hoje é o negócio mais pungente, começava sempre com um lamento gutural, um negócio que vinha do fígado lento, sofrido, chorado e dai aquilo ia virando um desespero e a música acabava naquele… são quase todas assim e eu ouvia aquilo, falei não acredito, aí comecei a ouvir e o cara me ensinava umas coisas, ele sabia, ele não só ouve isso aqui, ele falava esse cara, presta atenção nessa outra aqui porque aqui o Otis não sei o quê, aí eu fui ouvindo aquilo e havia uma loja de discos, eu morava numa Avenida Sá da Bandeira, que hoje tem um nome qualquer soviético, sei lá, hoje é outra coisa e aí eu fui e no fim da avenida, no fim não, ela era longa, num ponto dela, nuns cruzamentos lá para adiante havia uma loja de discos que a gente chamava de discoteca, não era…. discoteca não era o que se chama discoteca….

Luciano             Com cabininhas para você ouvir o disco.

Nuno                 … com cabine para ouvir, com…

Luciano             Tinha uma assim em Bauru nessa mesma época e a gente ia lá, pegava o disco, entrava na cabininha, punha o disco para ouvir antes de comprar. O pessoal que está nos ouvindo aí que não conhece muito, quando o Nuno dá uma referência tipo Otis Redding, esse cara quebra tudo numa época importante, quando estava uma transição musical, etc. e tal, rock’n’roll de um lado, aquelas coisas tudo nascendo ali e pinta essa coisa do soul music e o Otis Redding era mais um dos caras da soul music lá dos EUA, mas que começa despontar porque ele tinha uma sonoridade, ele tinha uma banda dele que é lendária e ele quebra tudo, ele arrebenta tudo e todo mundo meu, quem é esse cara? E naquele processo todo ele pega e está compondo e ele compõe uma música chamada Sitting on the Dock of the Bay, quando ele apresenta essa música, o produtor escuta aquilo, fala meu Deus do céu, olha o que está vindo aí, faz a gravação, a coisa maravilhosa, se prepara para lançar o disco e ele morre num acidente automobilístico…

Nuno                 De avião.

Luciano             … de avião? Foi de avião.

Nuno                 Ele e a banda. A banda road band, não a banda de estúdio.

Luciano             E ele morre no acidente antes…

Nuno                 Ele não ouviu…

Luciano             Ele não ouviu e a música arrebenta.

Nuno                 O que mais vendeu no planeta na época, lá nas billboards e tal, o Otis, isso que você falou é o seguinte, a diferença do Otis era isso é um enigma, falei uma vez com um inglês, na Inglaterra isso é muito grande, toda essa parte, porque era gravadora Stax, foi um cara com a irmã que chegaram em Memphis, não sei de onde eles vinham, falaram então a gravadora vai ser aqui e tinham um primeiro andar de uma… embaixo era uma padoca, não sei e no primeiro andar ia ser a Stax e era assim um Davi, o Golias era a Motown e aí tinha os músicos de apoio da Stax, dessa gravadora, era o Booker T. era Booker T. no teclado, Steve Cropper na guitarra e o Donald Dunn no baixo e o All Jackson na bateria, então todo mundo que gravava na Stax era esse backup, então Sam & Dave, Carla Thomas, Rufus Thomas, Isaac Hayes, aquela turma toda e um dia entrou o Otis ali e falou eu sou cantor, esse era um tempo em que as coisas aconteciam assim, você entrava, oi pessoal, batia na porta, Johnny Cash com Sam Phillips lá, Sam Records foi a mesma coisa, dá licença, queria mostrar, eu sou cantor, os caras ah, quero ver, foi exatamente assim e o Otis entrou e falou ei, eu sou cantor. Ah beleza. Você falou que estava arrepiado, o Steve Cropper, eu toquei num festival na  Inglaterra e o Steve Cropper tocou no festival na Inglaterra e eu encontrei com ele, a gente falou sobre isso, então imagina o meu arrepio, eu tinha 9 anos, esses caras, os deuses inalcançáveis assim e o Steve é coautor, ele mudou umas coisas, falou porra Otis, você está dizendo coisas estranhas aqui tem que ser assim, ele é coautor, aí ele, eu estou me alongando que essas coisas me empolgam…

Luciano             A mim também, então vai longe isso aqui.

Nuno                 … aí o cara entrou, falou eu sei cantar e o Steve Cropper, o próprio Steve falou é mesmo? Mas não havia maldade em falar beleza, então…

Luciano             Pega aí, vamos ver o que tem aí.

Nuno                 … o Otis entrou num momento em que a banda estava ali fazendo alguma gravação de alguma coisa, estava todo mundo no estúdio, beleza, canta aí, o que você vai cantar? Ah, sei lá, vamos cantar Try a Little Tenderness, sei lá o quê, cantou, aí o Steve falou que três notas que o cara emitiu assim, ele falou que já não tinha a mínima dúvida do que ia acontecer ali, porque o Otis tem uma voz de saxofone assim, ele é outra onda, eu sei que o James Brown é raríssimo, é um por 100 anos, garantidamente eu acho difícil um cara igual ao James Brown em menos de 50 anos então vai, é difícil, são como pepitas assim, surgem na natureza, diamante. Mas o Otis é nesse nível para mais e aí tinha uma história da Motown, todo mundo fala de soul é Motown, mas a  Motown, só para encerrar esse assunto, caso você queira, não quero me alongar, a Motown é legal pra caramba, mas não tem nada a ver com o soul que saiu da Stax, por isso que eu falei de Davi e Golias, aquela gravadorinha que o cara foi fazer com a irmãzinha lá em cima da padoca, se tornou uma das coisas mais importantes da música americana naquele momento e começou a distribuir pela Atlantic Records e de repente vai para a Europa todo o casting da Stax que era comum fazer isso, fazer o European Tour e foram para a Inglaterra e os caras estavam indo para a Inglaterra na época dos Beatles. Luciano Pires, presta atenção, os Beatles no top das paradas e eles chegaram no aeroporto e tinha galera correndo para o avião, os caras falaram porra, a gente chegou ali, não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo lá, os caras trataram a gente como os Beatles,  então foi um sucesso estrondoso e a BBC tipo, essa musiquinha que nós temos aqui, Brasil il, sei lá, esses símbolos totalmente nacionais, a BBC tinha o dia do futebol, domingo, que era um o prefixo era uma música dos Booker T. & the M.G.’s, então bastou nascer inglês naquela época para ter Booker T. no DNA para o resto da vida e você vai a Londres, e você deve saber disso, vai para Camden Town só rola essa onda, é a Stax e aí tem discussões e eu até uma vez um inglês me falou, nesse festival, um cara que apresentava o festival me mostrou coisas raras do Otis que eu gostaria de encontrar, inacreditáveis e falou também uma coisa que eu não tinha atentado, a diferença da Motown para a Stax, uma das coisas que se coloca é que na Stax eram dois brancos e dois negros a banda, então você tinha o Donald Dunn branco, da cor da Polônia, tinha o Steve Cropper que é branco da cor da Ucrânia e tinha o All Jackson e o Booker T. que são negros e que os críticos e muita gente acha que isso é que deu uma historinha e a Motown  era totalmente negra e isso faz algum sentido, porque o branco é realmente diferente, você pegar o Wes Montgomery, que é a melhor guitarra de todos os tempos junto com Pat Martino que é monstro, são dois monstros, mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, parece que o branco depois você decide se edita ou não coloca aquele efeito rede globo em tudo, é mais enciclopédico, não sei o que acontece, há uma diferença…

Luciano             O negro é uma força da natureza…

Nuno                 … natureza…

Luciano             Sabe que eu fiz uns programas aqui e fiz falando do Led Zepelin, do Queen, das bandas, do Dire Straits e tudo mais e cada vez que eu vou contar essas histórias eu volto na raiz dessas bandas e vou procurar lá e toda vez eu encontro dois, três moleques na faculdade ouvindo rock de origem soul music americana, Pink Floyd, o nome vem de dois ícones da música americana, Floyd não sei o quê e Pink não sei o quê, o cara junta porque o cara amava aquilo, então esses caras influenciaram a turma toda de lá, mas é uma baita volta que nós demos aqui, mas estava bom. Volta para a tua história lá.

Nuno                 Não, mas é isso mesmo, em dado momento, a partir dos anos… o Brasil não se ressentiu tanto dessa influência toda, dessa influência arrebatadora porque  o Brasil tem o ponto que eu acho é o seguinte, o Brasil tem uma vocação exportadora, que poucos países tem, então você tem os EUA, uma vez eu falei para o Benjor, enquanto eu tive a grande ventura na vida de falar pessoalmente com o Benjor que ele veio no mesmo pacote para mim desses caras, porque eu estava ouvindo B.B. King, estava ouvindo, Grateful Dead, estava ouvindo Zeppelin e estava ouvindo Chove chuva e então eu falei, você para mim faz parte desse pacote mítico, não tem diferença, você veio junto com os caras, eu descobri que o Benjor, e agora vai aqui uma coisa, ele é meu fã assim, na questão do blues, então já fico super orgulhoso e rolou esse encontro e tal, então o que acontece? O Brasil exporta, ele tem essa vocação de exportador, então está pouco se lixando no sentido figurado para consumir as coisas, você consome mas é diferente você consumir o que vem de fora…

Luciano             E ficar aqui.

Nuno                 … e ficar aqui e quando você é o cara que exporta, do que ficar só consumindo como a Holanda ficava, Portugal ou Espanha, entende o que eu quero dizer? E aliás o Chile e Argentina também, tem uma sintonia imediata quando eu falo com chileno, argentino, com boliviano ou com holandês ou com espanhol, é a mesma conversa, quando é com o Brasil a conversa muda, porque… mesmo quando o cara é super aficionado nisso, como você, por exemplo que é ligado todo no rock brasileiro, tem uma carga de DNA, de música poderosíssima de arte, enfim, daqui… ,tinha, agora temos outras coisas aí rolando, mas enfim, então o que acontece? Essa é a minha única explicação, o pessoal não estava prestando a mesma atenção, ou estava, mas de uma forma mais relativizada, porque quem que vai se desbundar? Sabe o que eu quero dizer? Quem que vai se desbundar com a banda inglesa não sei o quê quando de repente você aqui tinha o Sivuca arregaçando. Sabe esse tipo de coisa? Então fica um pouco menos mítico, o Brasil desconstrói mais as coisas, tipo ah, espera aí, o cara é bom… vou dar um exemplo do que eu estou tentando explicar, o Gênesis veio fazer show no Brasil e de repente o Phill Collins que na época era o batera e que é um grande baterista, toca com B.B. King, puta batera, ele é um grande batera, ele entrou numa, já bom, estamos indo para o Brasil, vou fazer uma pirueta com pandeiro, eu tinha 18 anos, estava no Rio de Janeiro nessa época e cai de costas, o cara fez muito bem e tal, os amiguinhos ali, que eu tinha acabado de conhecer, meus recém amiguinhos do Rio, falaram porra, foi tudo lindo, menos aquela patacoada lá do cara. Eu falei como assim, do que você está falando? Ah, neguinho vem aqui tocar pandeiro, você está maluco? Então você entendeu? Porra, eu vou… e eu senti na pele também que eu andei, antes de vir para cá, para o Rio, enfim para o Brasil, eu estive no Canadá, então eu andei vendo, para você ter uma ideia, eu vi Gentle Giant e quem abria o show era o Weather Report e ninguém nem sabia quem era o Weather Report, formação original, com os caras lá. Aqui de novo uma arrogancinha, eu terminei o festival com…

Luciano             Você quer ver o que eu era repórter.

(passa um áudio)

Você sabe que é um ponto que você está dizendo aí que é uma coisa interessante, Nuno, porque o inglês, ele recebia Otis Reading cantando em inglês, então ele tinha música e letra ao mesmo tempo, os brasileiros passaram a vida recebendo a melodia e ninguém entendia nada, outro dia eu estava pensando a respeito, falei você vê o mérito de um… quando eu fiz o programa do Queen, que eu fiz o programa do Bohemian Rhapsody e fala o impacto que essa música tem em qualquer um dos brasileiros, o sujeito escuta aquilo, os caras ficam enlouquecidos e nunca entenderam o que o cara estava dizendo na música.

Nuno                 É, faz falta…

Luciano             Mas você vê, olha o poder que isso tem, o que era aquilo? Era a melodia do instrumento, a melodia da voz que não se entendia o que o cara estava falando e o pessoal chora quando escuta aquilo sem entender o que ele está dizendo.

Nuno                 Sem entender o que está dizendo. Imagina…

Luciano             Imagina lá quando o cara pega e entende o que está sendo dito lá, deve ter uma outra coisa louca. Bom, você escuta Otis Redding e fala essa é minha praia, com 19 anos.

Nuno                 Só para finalizar, quando eu vim do Canadá, só para acabar, só para firmar esse ponto aí que eu acho dessa questão do poder do Brasil, porque o que é… lá fora, fora do Brasil, aqui também, mas enfim, mas lá com mais força talvez, o que… tem poucos países que exportam, então os EUA exportaram cinema, Hollywood, o jazz, o blues, aquela porra toda, mas exportaram maciço, China, Israel, todo mundo e a Jamaica exportou o reaggae e o Brasil exportou a bossa e a música brasileira e pouco mais se você reparar, Luciano, não estou falando de regionalismo, não  estou falando de tango nem de polca, estou falando de movimentos que aliás nem coloco a Tropicália nisso, tem gente que.. enfim, isso é mais polêmico, posso ser xingado no seu podcast, mas na verdade esse negócio da Tropicália seria… então o Focus, que era música tirolesa com rock é holandália e os Beatles são a britanália, se o negócio é antropofagia e transformar em…. então é… enfim, mas a bossa nova e aquela coisa toda. Quando eu chego do Canadá aqui, fui tentar terminar o colégio e conheci uns outros amiguinhos em São Paulo e os caras falaram pô, vamos lá ver os “véio” lá, eu falei que “véio”? Não, vamos lá ver o Hermeto Paschoal, era velho para ele na época, a gente tinha 18…

Luciano             Que ano era isso?

Nuno                 … 77, 76, 77… O Hermeto devia ter 30 anos, para nós era velho e eu falei mas quem é esse cara? Olha isso. Os caras pô, o Hermeto tocou com Miles Davis. Eu falei pô mas quem é? E eu fui assim, sem botar fé, porque o rock, quando eu cheguei aqui e agora vou pedir desculpas antes de falar, eu achei que não tinha muito a ver, assim, era meio…

Luciano             O rock?

Nuno                 … o rock…

Luciano             O rock brasileiro ou o rock em geral?

Nuno                 … é o daqui, o brasileiro, eu via todo mundo cair de costas com isso, com aquilo, eu ia ver o negócio e falava…

Luciano             Que ano era?

Nuno                 … 76, 77…

Luciano             76, 77.

Nuno                 … realmente não me impressionou, achei aquilo muito estereotipado, com falta de linguagem, enfim pronto, deve ter seções que eu não conheci, mas enfim. Mas aí então quando eles falavam o Hermeto pra cá, o Hermeto pra lá, eu falei beleza, eu fui com os caras para ir com os caras, para dar risada e ver mais alguma coisa, quando eu chego lá era o Hermeto no Teatro Municipal, com Nenê na bateria, o Iteberê Zwarg no baixo e o Jovino no teclado e eu começo a ouvir aquele negócio, eu tinha visto tudo o que você pode imaginar na minha frente lá fora, eu falei mas esses caras não só não devem nada como… não só encosta como…

Luciano             Até passa.

Nuno                 … acho que até passa, porque de repente o Hermeto estava tocando tuba, depois pegou o cavaco, depois pegou o piano, depois tocou sax, eu falei putz,  que  é isso? Mas eu caí tão de costas naquilo ali, então, Luciano, esse país não… ele certamente é imune às influências externas de uma forma maior do que uma Holanda, ou uma Espanha e tal. E você vê, isso também não deixa de ser injusto, porque eu conhecia tudo o que você pode imaginar de música até…. quando eu saí de Angola eu tinha quase dois mil LP’s, era uma criança mas eu sabia tudo o que estava rolando, inclusive na área do Hermeto, do Miles, do… já tinha o Airton Moreira, já tinha fuçado o Return to Forever, Chick Corea, John McLaughlin, aquela coisa toda, mas nunca tinha ouvido falar do Hermeto Paschoal, me alonguei, desculpa.

Luciano             Vamos voltar naquele ponto lá, você sofre aquele impacto e aos 19 anos começa a parecer que a música podia ser sua… ou você estava naquela história, estou me preparando para fazer uma universidade, vou fazer engenharia, vou fazer medicina, vou fazer o quê? Quando é que a música começa a aparecer como uma…

Nuno                 A repressão pedagógica era altíssima, eu tive professores de altíssimo nível técnico, eu saí falando inglês e francês do ginásio, escola pública, eu saí sabendo a teoria fundamental da música toda, eu achei que aquilo era só o defoe, mas depois um dia conversando até com um músico, porque ele falou, você sabe teoria da música? Eu falei não. Então espera aí que eu vou te explicar, isso aqui é pauta. Não, isso eu sei. Ele falou, isso é o pentagrama, 4 espaços, 5… Não, isso eu também sei. Ah então você sabe isso aí. Sei. Então espera ai, então deixa eu ver, então tem mínima, semínima, colcheia. Não, isso eu sei. A semínima vale 2…. Não, isso eu sei. Falava porra, então espera aí, então bom, então você tem os compassos. Isso eu também sei. Então eu sabia mas achava que não sabia, porque na escola você não aprende nada tão coiso… é o que vai na sua…. só que eu já.. então o cara falava, você sabe a teoria fundamental da música. Eu falei não, se é isso a teoria fundamental eu sei, eu achei que não sabia, então aprendi inglês e francês no ginásio, cheguei no Canadá falando as duas línguas, que eram as duas alias…

Luciano             Do Canadá?

Nuno                 … é, e cheguei e em música… então eu… só que do ponto de vista pedagógico era muito ruim, era repressivo, era fascista, era we don’t need no education (cantando), Pink Floyd, tanto é que depois que teve a revolução, estudantes tomaram o Liceu e botaram os professores para correr e tal. Mas era muito reprimido, então eu fui totalmente desinteressado, não tive nenhuma consciência, aquilo operou na minha cabeça algum tipo de amnésia que eu nem sequer pensava…. a única coisa que eu me lembro nessa época, foi de, no Canadá, em Angola eu caí de cabeça no blues assim de uma maneira obsessiva, eu fui arrebatado de uma forma, como é que se  diz….

Luciano             Você foi abduzido.

Nuno                 … irrecuperável, irrecuperável. Por aquilo tudo, não só o blues, mas o blues e eu me lembro de escrever para um amigo quando eu estava no Canadá, porque aí eu vi Willie Dickson ao vivo com Roy Buchanan, com a banda da Chiefs Records, lá que hoje passa o filme Cadilac Records, eram aqueles caras na minha frente assim, dava… pede para o Willie contar Wang Dang Doodle, nesse nível e chorei, porque eu tinha os discos dos caras, eu achei que esses caras eram deuses, de repente estavam ali na minha frente, eu ia no banheiro com vergonha porque chorava convulsivamente assim e as pessoas podiam não entender, mas era emoção assim e eu lembro de ter escrito para um amigo e falado cara, nunca mais deixarei de fazer blues na minha vida, isso foi…. mas eu nunca pensei maduramente sobre nada, essa é que é a real, aliás eu sou assim até hoje, às vezes… eu estou com 60 e chego a uma conclusão aos 59 assim, falo porra, mas eu devia ter feito aquilo, sabe assim? Completamente easy rider assim e é pena isso, porque eu podia ter criado atalhos fundamentais até para a minha vida e nunca fui de… e sou bastante perfeccionista e muito ligado só na… tipo até hoje eu me preocupo como toca r guitarra, porra, já não precisava, já podia relaxar um pouco e inventar uma história qualquer que, mas não, tem que ser.. não a guitarra… não mas veja bem, isso aqui não foi bem gravado, eu podia ter sido melhor, não saio disso, eu estou andando nesse círculo desde que nasci assim, não, podia ter sido melhor.

Luciano             Me fala uma coisa agora, você decide que… no Canadá, deixa eu tentar pegar o momento em que você olha para aquilo e fala acho que isso pode ser uma profissão, trabalhar com música, viver da música pode se tornar minha profissão, eu acho que é isso que eu vou fazer.

Nuno                 Nunca…

Luciano             Foi acontecendo?

Nuno                 … eu nunca pensei assim, porque na minha cabeça… eu fui tão reprimido pelo contexto em que eu nasci, pela forma errada e não estou culpando, não estou…

Luciano             Se vitimizando.

Nuno                 … é,  não estou vitimizando e também não estou querendo ser algoz de quem… não estou querendo condenar, era a maneira como as pessoas pensavam, era  um meio… essa forma faz você se sentir fracassado se não tiver um curso superior, eu acabei me formando em direito, não porque eu quisesse realmente fazer direito, mas porque na minha cabeça, quem não tem um curso superior é um fracassado, então eu fiz um curso, foi bom por uma coisa, o meu pai morreu eu estava formado, então ele pode ter ficado feliz porque tinha um filho que era doutor, e hoje me ajuda nos contratos e tal, mas nunca exerci…

Luciano             Nunca exerceu, nunca fez nada.

Nuno                 … mas tipo, eu não ficaria bem comigo mesmo se eu não tivesse feito aquilo, porra, hoje em dia analisando friamente, eu perdi 5 anos, 6 anos num curso que eu podia ter ido para Nova York fazer show, sei lá, sabe, então eu não pensava nisso porque eu… essa teoria, essa coisa de…. acaba impregnando seu DNA essa coisa de que se você…. você tem que ter uma profissão, você fala você é músico. O que você faz? Sou músico. Sim, mas qual é a sua profissão? Músico tem piada.

Luciano             Você trabalha com o quê?

Nuno                 Então eu pensava, eu devo ser músico, mas eu nunca vou poder ser, porque eu tenho que ser alguma coisa na vida, era isso que ia na minha cabeça, exatamente isso, não, eu sou músico, mas como músico não é nada, não dá para ganhar dinheiro, eu só ouvi isso a vida inteira, eu vou ser…. eu tenho que fazer direito, ah direito também foi por exclusão, tipo o que não tem matemática? Direito não tem? Beleza.

Luciano             Eu entrevistei aqui várias pessoas, entre elas eu entrevistei o Aquiles Priester que pode ser colocado entre os maiores bateristas do mundo hoje, o Kiko Loureiro, que é um dos maiores guitarristas do mundo hoje e os dois me contaram uma história muito parecida relativa a uma obsessão para chegar lá, eu me lembro, o Kiko falava, eu botava aqueles discos, eu botava o Steve Vai e eu falei, eu vou tocar que nem esse cara e o bicho mergulhava naquilo e eram horas e horas e horas, até o Aquiles fala um negócio legal, o Aquiles falava eu estudava 11 horas por dia, depois de 2 anos, não tem como não  virar um monstro, o Aquiles falando aqui, 11 horas por dia, ele fala, você vira um monstro. Você entrou numa dessa também de pegar a guitarra e falar eu vou debulhar até o íntimo?

Nuno                 Não, isso foi desde sempre.

Luciano             Então, mas isso era o quê? Era uma curtição tua ou era teu estudo para se preparar para lá na frente…

Nuno                 Não, não era consciente.

Luciano             Era pelo prazer.

Nuno                 Não, era uma…. não era o prazer também, porque teve muita angústia nesse processo, eu ficava, essas horas todas que o Aquiles falou, eu ficava também, mas não era… deixa eu ver se eu acho um exemplo bom, não era consciente, tipo eu vou fazer isso porque eu quero ser o melhor guitarrista, ou vou viver disso. Era como se fosse….  imagina que você cresce e tem que aprender a se vestir, então isso aqui tem que ser sabido, eu preciso decifrar esse negócio aqui.

Luciano             Era um TOC?

Nuno                 Até hoje eu digo isso.

Luciano             Você me falou uma coisa uma vez, que eu usei até num texto meu…

Nuno                 Os caras falam não, você toca pra caramba, esquece, isso é TOC.

Luciano             … eu usei num texto, você contou para mim, a hora que eu estou… quando eu subo, pego a guitarra e começa o show, é outra pessoa que está lá, você falou para mim, isso é uma  espécie de autismo, porque ás vezes nem eu sei o que está rolando lá e rola naturalmente. Talvez essa obsessão já estivesse lá, ainda não sei fazer isso mas…

Nuno                 Eu acho que é um quê de transtorno obsessivo compulsivo combinado com autismo, é incrível eu dizer isso, mas eu acho que é um pouco isso, porque não tem nada de consciente nisso, ou então é uma espiral irrefreável, tipo…. isso veio no mesmo pacote também para mim do desenho e de outras coisas, por isso eu acho que é até algo genético.

Luciano             Expressão, é uma forma de expressão.

Nuno                 Exato, porque eu também já era campeão mundial de desenho na classe, desde o primário, 6 anos ganhei um concurso de desenho, já tinha aplauso, eu nunca mais me esqueço, tinha um concurso de quem faz o melhor desenho na escola, 6 anos tinha e  falaram bom, você  precisa… qualquer história, é sobre o natal, então temos que fazer o papai noel e o céu e a lua, não me lembro o que eu era, então o que eu fiz? Eu peguei, pintei a folha toda de preto ou azul escuro e deixei o desenho e si sem cor para depois preencher, ou seja, isso é o que se chama matar a tela na pintura e pronto, então as estrelas ficaram branquinhas, porque eu pintei a volta delas e ficou o fundo todo escuro, porra aquilo deu impacto, a molecada estava fazendo garranchos e já de cara já ganhou o prêmio do desenho, então essas coisas, a guitarra veio meio… a música em geral, não era só guitarra, eu não tinha piano porque era caro, mas na casa dos amigos…

Luciano             Tem um DVD…

Nuno                 … mas eu sempre fui um inconsciente assim…

Luciano             Tem um DVD em homenagem ao Stevie Ray Vaughan que mostra o Stevie Ray, que para você é muito caro, não é? E tem o show e depois tem meio que um documentário ali e lá pelas tantas os caras estão entrevistando um monte de gente, aparece o Eric Clapton e o Eric conta de como é que ele conheceu, fala pô, eu estava dirigindo, indo para Chicago, não sei o quê, começou a tocar um negócio no rádio e eu ouvi aquilo, fiquei enlouquecido, quem é esse sujeito? Era o Stevie Ray tocando e aí ele falou, log depois eu conheci o Stevie, vi o Stevie tocando e aconteceu uma coisa que eu reparei lá, eu sei tocar guitarra, o Eric Clapton falando, eu sei tocar guitarra, mas quando eu estou tocando ali eu estou pensando no que eu estou fazendo, então na hora que eu vou mudar, tem uma fraçãozinha de segundo, onde eu penso, daqui eu vou para ali, de lá eu vou para cá e ele falou, e quando eu vi o Stevie Ray eu vi que com ele não acontecia isso, aquilo era uma extensão dele, ele não parava para pensar, ele pegava aquilo e a guitarra virava ele e ele saía tocando.  E o Eric Clapton levantou uma coisa muito legal que é aquela história que é a seguinte: você está falando a coisa do desenho aí, você tem o talento que você nasce com uma luz que vem não sei de onde, que é o tal do autismo, é o Messi jogando bola, joga a bola no pé do cara, o cara sai fazendo o diabo, que coisa é essa, não é? E tem um outro sujeito que vai para o esforço e se esforça de montão e ganha o título mundial de salto em altura porque se esforçou pra cacete para saltar.

Nuno                 São os hemisférios do cérebro.

Luciano             São dois pontos que estão ali, tem gente, tipo Romário, que se contenta com o talento natural, Romário não treina, passa a bola, fica gordo e vai e pinta e borda, Garrincha, que são esses caras que se contentam com a coisa natural, e tem outro que tem que estudar de montão, porque se ele bobear ele dança, tipo o jamaicano…

Nuno                 O Bolt.

Luciano             … o Bolt, o Bolt é um animal, agora se o Bolt não treina durante 15 dias, ele dança, ele sabe disso. Quanto disso é um Nuno, quando você pega e fala assim, do meu trabalho, do meu talento etc. e tal, evidentemente eu nasci com isso, veio não sei de onde, ninguém te ensinou a desenhar, saiu desenhando, saiu tocando, é um maluco e o outro lado é o cara que olha para aquilo e fala eu me preocupo até hoje de como tocar guitarra, tem uma composição aí que torna a coisa irresistível, como é que você vê isso? Você pesou nisso alguma vez?

Nuno                 Eu sou muito Romário, tipo atualmente eu estou fazendo coisas que me pergunto como surgiram, coisas graças a Deus boas, que estão acontecendo do ponto de vista técnico de guitarra que eu via nos outros e falava eu nunca vou conseguir fazer isso e está saindo, mas não estão saindo… porque eu quase não toco, só quando eu toco no show, juro.

Luciano             Você não passa horas e horas em casa ensaiando para fazer aquela…

Nuno                 Nada, isso aí quando eu tinha 15 anos, agora eu faço lá de vez em quando, a Valéria reclama que está atrapalhando, porque eu toco desligado, assim vendo TV, mas ainda assim atrapalha, então ela fala para, vai tocar em outro lugar. Eu queria ter mais esse lado esforçado, porque eu teria chegado mais longe.

Luciano             Dá um break aqui. Eu estou conversando com o Nuno e o Nuno seguramente é um dos maiores guitarristas de blues do mundo hoje e é, é o cara que sobe lá do lado do B. B. King, os dois tocam juntos e não tem vergonha nenhuma, vamos lá na pauleira e ele está me dizendo que a mulher dele vira para ele Nuno, você está atrapalhando, desliga essa porra que você está enchendo o saco.

Nuno                 Você pode tocar numa outra sala? Desligado, não é com amplificador, nem a pau, desligado, guitarra desligada, já viu o som daquilo?

Luciano             Se fosse com amplificador ela chutava você de casa.

Nuno                 você pode tocar em outra sala que eu estou tentando ouvir o filme?

Luciano             Vamos lá. Quando é que começa a virar profissão a música para você?

Nuno                 Então, daí eu estava trabalhando na Varig, fazendo propaganda da Varig…

Luciano             Aonde isso?

Nuno                 … aqui já…

Luciano             Como é que você chega aqui?

Nuno                 Não, então, eu estava no Canadá, trabalhei lá para comprar uma guitarra só carreguei rolo de tecido, era uma espécie de faz tudo na empresa assim, não tinha uma função definida, mas eu varria a fábrica que era gigante e eu tentei ser cortador de camisa, mas ali os caras falavam não vamos por isso na mão do cara, não sei se você já viu como era o negócio, era um monte de tecido em cima uns dos outros e aí você ia lá e cortava aquilo, o molde, uma porrada deles ao mesmo tempo, então você podia arruinar a produção do cara num corte errado, eu quase consegui cortar, mas aí alguém falou não tira esse cara daí, então varria o chão, mexia com as costureiras e tal, tinha umas bonitinhas e varria a fábrica inteira e às vezes o cara não leva lá esse  rolo de tecido lá embaixo? Lá ia eu com um rolo de tecido gigante, colocar na mala do cliente e tal, trabalhei três meses, comprei a Gibson Less Pool Custom 1968, então já tinha guitarra pronto, já não precisava trabalhar mais, aí eu…

Luciano             Você já tinha tocado esse bichinho antes?

Nuno                 A Gibson? Não essa, tinha tocado uma SG emprestada em Angola, que tinha um cara que tinha uma SG e toda vez que eu… eu não tinha guitarra em Angola e fazia show de festival assim, eu ganhei cachê com 14 anos, meu primeiro cachê foi com 14 anos pela Polygram assim, era Valentim de Carvalho que era a Polygram portuguesa, o cara queria misturar Jimmy Hendrix com uma banda africana e mandou me pegar na escola eu de calção, 14 anos, os amiguinhos falam pô, o cara foi buscar o cachê no guichê da Polygram no centro da cidade, os caras nossa, Nuno, a gente tem orgulho de você, arrumei uma motoca, uma Mobilete, era uma Maxi Puch, enfim, então eu tinha 14 quando isso aconteceu e pena que depois veio a guerra e eu não tenho esse disco, que misturava mesmo Jimmy Hendrix com música africana, o Hendrix era eu.

Luciano             Era você fazendo isso.

Nuno                 Era…

Luciano             Você com 14 anos.

Nuno                 … fazendo a guitarra na produção, era uma banda de Angola conhecida, tocava em rádio e tal e o produtor era um português da Polygram, que a Polygram era portuguesa e o filho estudava na mesma escola que eu então um dia ele falou meu pai quer que você faça um negócio, como assim o seu pai? Não é que ele… Ah legal. Mas aí nem dei bola, aí um dia foi um carro me buscar na escola, eu fui de calção, mais um pouco ia de suspensório, de uniforminho, eu falei pois não, peguei uma guitarra lá e fiz um solo, os Abobrinhas com ua ua, na banda africana e ganhei um cachê mesmo, oficial fui lá no guichê e peguei a grana e arrumou uma moto, tinha umas mobiletes lá pifada e tal, eu usei aquilo para arrumar a moto.

Luciano             Você sabe que eu soltei… não porque nós estamos contanto a história da guitarra e tudo mais, mas eu fiz agora o programa do Sultans of Swing, no Café Brasil…

Nuno                 Dire Straits.

Luciano             … contei a história da música e tudo mais e o Mark Knopfler ele conta, ele falou eu compus a música e gravei, era uma música legal, mas eu achei chatinha, meio pentelha e larguei pra lá até o dia que eu comprei minha guitarra, que eu não me lembro que guitarra era, mas é uma coisa assim, Gibson…

Nuno                 Isso é uma Fender.

Luciano             … é uma Fender, uma Fender qualquer coisa assim e ele fala eu comprei a guitarra e a hora que eu toquei a música naquela guitarra, passou a fazer todo o sentido, fala e quando eu toquei ali, ele falou, aí mudou tudo, a letra, tudo igual, só que aí passou….. aí eu gravei a música, quer dizer, um instrumento fez a diferença.

Nuno                 Muito difícil fazer essa música sem uma Strator, uma Fender Stratorcaster, é uma marca registrada dela.

Luciano             Mas e aí, como é que você veio parar no Brasil?

Nuno                 É gozado que eu ouvi uma entrevista do Mark Knopfler, a gente tem mais ou menos a mesma idade, ele toca com o dedo, sem palheta e aí você começa a ouvir o que ele ouviu e o que eu ouvi é tão parecido e todo mundo fala que eu pareço, inclusive esse disco novo, Angels and Clowns tem uma música que se chama It’s Only a Dream que nem tem o solo, isso é uma outra história engraçada, o produtor tirou o solo e transformou em outra música que todo mundo fala nossa, parece o Dire Straits, enfim, mas parece porque a gente é branco, branquelo, ouviu a mesma coisa, por isso que parece.

Luciano             Como é que você chegou no Brasil? Como é que você chega aqui?

Nuno                 Ah, dai eu saí do…. aí o meu pai que nunca tinha ido para o Canadá, estava tentando salvar a coisa em África, essa é que é a real, as coisas de uma vida inteira, fotos, eu não tenho foto de infância nem nada, nem de adolescência, só tem as que algum exilado, olha tem uma foto sua, você vê que foto é um tesouro maior do que um carro popular, por exemplo, para mim hoje em dia e já na época era, então o meu velho veio para o Brasil com a promessa de que ia conseguir fazer isso e aquilo, tinha um amigo que conseguiu não sei quê e a gente, na verdade, estava meio em stand by ali no Canadá, tipo para onde é que a gente… o que vai acontecer agora? Aí um dia minha mãe falou olha, o pai está indo para o Rio e lá ele vai… a gente perdeu tudo, no fim ele não conseguiu salvar, porque os cubanos saquearam aquilo tudo, o porto foi saqueado várias vezes, então tenho quase certeza que todas as minhas coisas estão em Cuba e ai como meu pai estava no Rio a gente foi encontrar com ele lá, a gente ficou quase um ano sem ver meu pai, a família ficou separada, um morando emprestado aqui, eu morando emprestado lá, aí no fim quando chegou no Rio não era bem o que tinham falado para o meu velho e ele acabou não tendo quase nada, o que tinha sido prometido não tinha rolado, ele nunca mais conseguiu ser piloto também, que era uma coisa que ele era a religião dele, era como a música para mim, e pronto, a gente estava no Rio, depois acabou vindo para São Paulo e aí as coisas estavam… aí eu tive que… eu nunca parei de tocar, mas eu era…. parecia quase imoral eu continuar nessa sequência de música e tal com a família numa situação daquelas, eu me lembro da minha mãe um dia, eu estava lá, continuava tocando as 12 horas por dia, a minha mãe falou, não posso acreditar que você está fazendo isso na situação em que a gente está e tal, então eu fui procurar emprego e…

Luciano             Que idade você tinha?

Nuno                 … tinha, nessa altura, 17 para 18 e aí eu fui procurei… também não tinha muita consciência disso, eu queria um emprego perto, então eu ia do outro lado da rua, mas um dia acabei fazendo um…. apliquei lá para a empresa aérea e tinha…. na verdade eu fiz aquilo para pegar uma passagem, porque você tem direito a passagem, para me mandar, que eu ia embora de novo, não para Angola, que não podia, mas eu ia para Portugal, tinha deixado, namorada, amigos, tudo e aí acabei por… aí eu entrei na Varig e pensei bom, daqui um ano, no máximo, eu tenho uma passagem, vou para Lisboa reencontrar a turma toda e a namorada e tal, porque foi uma paixão de adolescência federal assim, de repente interrompida tal, mas aí eu conheci a Valéria e comprei um Fusca a prazo, então eu costumo dizer que eu não… o caras: por que você não foi embora? Eu falei porque eu comprei um Fusca a prazo, nos anos 70, você compra por 30, fica devendo um milhão e meio logo assim, nunca, eu já estava preso, não dá para ir embora mais e aí conheci a Valéria, basicamente foram essas duas razões que eu nunca mais…. mas essa é a minha falta de consciência, eu estava em Nova York em 1976, 75, porra, Bob Dylan estava 10 anos antes, não é nada hoje em dia, estava tudo começando ainda…

Luciano             75, 76?

Nuno                 Sete cinco. Eu estava em sete cinco.

Luciano             Hurricane

Nuno                 Acho que antes até disso.

Luciano             Hurricane foi em 76. 77, foi por ai. BobDylan.

Nuno                 Hurricane eu estava aqui já.

Luciano             Não importa vai, continua. É bobagem, continua.

Nuno                 Não mas assim… e também é a tal história, a competitividade ali, o fato de ter ficado lá também pode não significar muita coisa, mas na verdade para o que eu faço era mais adequado ter ficado, mas é aquela história, você…. eu sou um cara também que….. conheci a Valéria, pronto, ali já virou coisa mais importante era aquilo, não era mais a música, tudo bem que eu tive o cuidado de falar para a Valéria, nunca peça para eu…. a música ou eu, porque eu vou falar eu, eu vou falar a música, você nunca faça essa pergunta, foi uma coisa que eu falei com ela antes de casar, nunca mais esqueço, nem ela, falei nunca deixe chegar nesse ponto, se é a música ou eu, porque eu vou falar a música, mas o fato é que pronto, aí já veio filho, fui ficando.

Luciano             Mas espera aí, calma lá, você ainda não está ganhando dinheiro com música, eu quero saber esse momento, quando é que é o momento que você fala é isto aqui que eu vou… não é na companhia aérea, não é trabalhando aqui, mas a música pode ser o meu negócio?

Nuno                 É, eu sabia que não ia ser tão simples, a vantagem aí foi que a empresa aérea pagava tão mal que não…. que quando virou só música acabei ganhando mais, numa primeira instância, só perdi os benefícios indiretos, nunca mais tive plano de saúde, nem…. pagava tão mal, mas tão mal que não coisa… mas eu tive também que fazer o Mandrake nisso aí, porque a família, tanto da patroa, quanto a minha, continuava naquela saga de que você não pode, agora você tem… é casado, tem mulher, tem filhos, nem pense em fazer…. e eu sacrificava o fim de semana para tocar guitarra sacrificava todas as oportunidades, inclusive foi penoso até para a própria Valéria e para a família, porque eu fazia lá, acompanhava o projeto deles, mas sempre que dava um buraco eu ia fazer música, mas o que acontece é que de repente trabalhando eu fiz um disco chamado Blues e Derivados, que tinha uma versão de uma música do Caetano que é “quando chego em casa…” que eu tinha ouvido em Angola…

Luciano             “Você não entende nada”.

Nuno                 … “Você não entende nada”, exato, não, essa eu não conheci em Angola, a que eu conheci em Angola foi, bom, sim, conheci pelo show do Chico, era o Chico e o Caetano no Teatro Castro Alves e conhecia outras coisas, conhecia Novos Baianos, aquela história do pacote, Secos e Molhados tal e aí essa música eu falei essa música parece um shuffle, Chicago assim, (ele canta), então fiz a música nessa onda e aquilo tocou na Rádio Eldorado direto, começou a tocar.

Luciano             Era uma produção independente sua?

Nuno                 Totalmente, não minha…. é… era uma produção… eu fiz um show…. eu andava lá, isso que eu te falei tentando fazer show aqui e ali, sacrificando a família e um dia eu estava tocando num bar na Frei Caneca e no final do show chegou um cara e falou cara, vamos fazer um disco seu? Puta som que você fez aqui. Eu falei vamos, que bom. Qual a gravadora? Ele falou não tenho, é só um estúdio, mas eu vou virar uma gravadora para fazer o seu disco. Foi assim mesmo, depois gravaram Maria Alcina também. Aí o cara fez o seguinte, ele tinha um estúdio e a gente gravou o disco independente, ele fez os papeis para virar gravadora oficialmente e lançou e teve ainda, na mesma época em que isso aconteceu, havia um cara chamado Roberto Maia, que existe até hoje, está na 89, Roberto Miller Maia, jornalista, radialista, que tinha…. que era da Rádio Brasil 2000 e era um cara que quando ouviu a minha música também eu não tinha disco nem nada, ele tocava fita K7, tocava. Falei isso aqui tem que ser…..  Esse cara, eu devo muito a ele, porque era uma confraria de só quem tinha record dill é que tocava e tinha gente que ligava não falava o nome para não azucrinar o cara, tinha gente com nome insuspeito que ligava para a rádio e falava você está tocando esse cara, não tem nem disco, olha isso, olha como os colegas podem ser perversos, enfim, tanto faz. Aí o Roberto, o Maia, Roberto Maia tocava as coisas de shows live, punha uns negócios, que a rádio era bem legal, era underground pra caramba e aí sai a Eldorado…. e aí esse estúdio fez um acordo com a rádio, então eles tinham mídia na rádio e… enfim, saiu esse disco que eu chamei de Blues e Derivados e essa música começou a tocar na Eldorado, direto, então tocava na Brasil, tocava na Eldorado e tocava muito na Eldorado e tocava muito na Brasil e aí começou a surgir artigo na Folha, no Estadão e etc. e não sei quê e aí começou a complicar na empresa, porque eu comecei a ser convidado para programas de TV, eu me lembro que uma vez eu fiz, tinha o programa da Silvia Popovic, um dia cheguei na Varig tinha um bilhetinho, sabe esse post amarelo, Sr. Nuno, favor falar-me. Era assim um negócio que dava medo, beleza, lá fui na diretoria, você já chega num outro ambiente, super assepsia, ar condicionado, tapete, fala ô, aqui é o lugar da presidência, vou levar uma chupada aqui. E aí essa história é engraçada, por isso que eu estou contando, aí o cara falou…. eu fiquei lá…. sabe quando você entra na sala e tem que ficar esperando e o cara está no telefone e tal, aí ele desliga, Sr. Nuno, eu queria saber por que o senhor estava no programa da Silvia Popovic, às 16:00 horas de ontem quando devia estar aqui. A primeira reação que eu tive foi falar não, mas é gravado, foi gravado. Aí o diretor falou, não, não foi que eu já liguei, a gente já confirmou com a produção. Aí eu falei, posso fazer uma pergunta? Pois não. Como é que o senhor estava assistindo Silvia Popovic? Aí quando eu saí da sala, ele falou viu, eu olhei assim ele falou, estava bom. Esse cara morreu. Foi muito engraçado. Aí teve um lance que eu me lembro…. aí mudou a diretoria, a superintendência, chegaram os caras que eu chamava de os cavaleiros do apocalipse, sabe quando muda tudo? Fazia geral e vem uma turma do aeroporto, e chegou uma turma toda, já tinha o superintendente, o gerente, tudo brother, eu falei são os cavaleiros do apocalipse e o cara queria me botar para correr mesmo, o cavaleiro mór e aí teve uma reunião de vendas gigante e eu tinha um programa do Jô para fazer, que na época acho que era Jô Onze e Meia, no SBT, falei bom, estou na Consolação, até a Dr. Arnaldo sobe a Consolação, o SBT era ali, era ás 16 e não podia atrasar um segundo,  a produtora falou, Nuno, você não atrasa um segundo. Tinha que estar lá às 16 horas, falei não, tranquilo, a reunião vai ser às 11 da manhã. As 11 começa a reunião, chegou as 13 o cara falou bom, eu acho o seguinte, vamos almoçar, comer um lanche rápido e vamos continuar isso aqui que isso aqui ainda não está resolvido, então  vamos esticar essa reunião, eu falei putz, aí lá pelas 14 a história continuou ai eu falei deixa eu dar um pulo no banheiro, já volto. E saí e fui fazer o programa do Jô, então …. e não voltei, então aí depois eu acabei sendo demitido, porque precisava cortar 20% do quadro, estava um terror de  corte de 20% do quadro, eu me lembro que eu falei alguma coisa também, mandei um recado, tinha uns amigos tentando me salvar lá, falavam Nuno, como é que você faz um negócio desse. Eu falei essa carta não tem nível para ser assinada por um superintendente de uma empresa como a Varig, porque era uma carta mal escrita mesmo e os caras…. os traíras entregaram a carta para o cara e o meu amigo tentando interceptar a carta com a secretária, mas eu já estava chutando o pau e aí eu fui mandado embora num corte, aí eu cheguei para a Valéria e falei que fiz um papel de vítima assim, falei putz, fui cortado por causa desse negócio de contenção de despesa e tal e durante muito tempo foi essa versão, mas na real eu fiz para ser mandado embora, entendeu? Porque ali eu comecei a ver que ou eu ia adiante com essa história da música que estava dando certo, ou eu ficava na Varig e perdia a história da música foi um…..

Luciano             Sim, foi uma escolha.

Nuno                 Já estava fazendo programa do Jô, já estava saindo na Folha, no Estadão…

Luciano             Então, esse negócio Folha, Estadão, o disco, o programa do Jô, etc. e tal, pelo que você está me contando aí, aconteceu by chance, você não fez nenhum esforço de marketing, não teve um plano vamos planejar, vamos lançar o negócio, assessoria de imprensa, nada, aconteceu…

Nuno                 … aliás eu devia ter feito assessoria a partir dali, nada, isso foi espontâneo…

Luciano             … aconteceu pela qualidade do trabalho que você fez, quer dizer…

Nuno                 … foi espontâneo.

Luciano             … os encontros, um cara te viu tocando, o outro recebeu o CD, a fita e assim vai e acaba chegando lá.

Nuno                 A única coisa que eu forcei um pouco foi tocar na Eldorado, isso eu me lembro.

Luciano             Sim, mas que forçou o quê?

Nuno                 Tipo eu fui lá e falei escuta, toca, eu falei, eu não tenho gravadora, sou eu mesmo, eu sou o meu estúdio, o meu departamento de marketing e o João Lara deu risada quando eu falei isso.

Luciano             Se você for fazer isso hoje, você não entra no estacionamento da rádio, eles te barram no estacionamento, você não chega nem…

Nuno                 Ele deu risada assim, que eu falei, não eu consigo…

Luciano             Deixa eu te perguntar uma coisa aqui então. Então você naquele momento…

Nuno                 … a única coisa, ate hoje eu sou assim, eu fui tocar na Inglaterra, um e-mail chegou para mim, fui tocar no festival internacional de Montreal, a primeira vez, já toquei várias, chegou um e-mail para mim e isso é… eu te falei do Roberto Maia, quando ele dá entrevista ele fala falam do Nuno, ele fala, é uma coisa….. isso é uma coisa que eu gosto de falar sempre, o Nuno não mexe uma palha para fazer nada, as coisas chegam. Não vou atrás de festival.

Luciano             … quando você toma essa decisão, que me mandem embora dane-se, a minha escolha agora é ver seriamente coisas da música, se eu vou viver de música eu tenho que ter uma consciência de que agora eu sou empreendedor, eu vou ter que tomar conta, tem uma série de atributos, que cá entre nós, você não tem, não tem e não está nem aí para ter porque você é o artista e o teu negócio é ser o melhor artista possível…

Nuno                 É tocar guitarra direito.

Luciano             … duplicata, nota fiscal, o cacete, não vou ler merda nenhuma disso aqui, mas aí você larga aquele emprego e mergulha nessa história de vou fazer isso aqui acontecer. Como é que faz? Como é que faz um cara que não tem esses atributos, você foi procurar um sócio? Você foi procurar um…

Nuno                 Não, tinha uma empresária muito fraca, uma produtora fraquíssima, ela me atrasou anos luz assim, eu podia ter, com a música que eu faço talvez não tanto, mas assim, eu podia…. eu nunca tive essa pessoa que vai lá e faz tipo Nuno, vou dar um exemplo, os Stones tocavam blues, sem querer, pelo amor de Deus, guardadas as proporções, mas a história é igual. Então eles tocavam blues, só o que eles faziam, blues, e vários fizeram, Peter Green até hoje está, a carreira desse tamanho, o nome é mítico, mas…. por quê? Porque fazia blues, blues, aí o empresário mandou os caras lá num quartinho lá em…. pegaram o empresário, ele falou presta atenção, vocês vão descer ali, vão entrar naquela quarto, foi assim, essa história é real, Keith Richards e Mick Jagger, entra ali e sai dali com uma música, pode ser bluese, mas não blues, sai com uma música, entra lá e sai com uma música e eles saíram com Satisfaction.

Luciano             Só Satisfaction.

Nuno                 Só isso. E que é blues na verdade. Não é um blues shuffle, enfim, então como na minha vida nunca teve isso e eu também não pensei por mim mesmo, eu sou um artesão, então continuei fazendo blues, rock e tal, nunca…. eu fiz por mim mesmo aí agora também não quero ser injusto comigo, várias coisas em português com linguagem blues e rock, radiofônicas inclusive que chegaram a ser gostadas por… o Maluly é um produtor que na época era da Universal, enfim, gostou bastante, mas eu nunca me enfronhei nisso, chega lá, ouve isso aí, gostou? O cara pô, isso é muito bom, vamos fazer? Amanhã te ligo. Acabou para mim, se o cara não ligar eu também não liguei, eu nunca… quando eu recebo um… eu sou muito sensível assim, se o cara me dá um não eu não… ah beleza, desculpe, foi mal então, é ruim, lamento, tchau. Eu não fico argumentando. Não ficava, hoje em dia eu teria bastante argumento, mas na época eu não… eu sou bem sensível a crítica, muito sensível, então se o cara ouve aquilo e já coloca alguma restrição, já me deixa… bate uma depressão grande assim, eu já nem perco muito tempo, então exatamente o que você falou, eu não contratei assessoria de imprensa, não achei o empresário, poderia estar numa situação bastante melhor, eu hoje seria o Peter Green, não o Stones.

Luciano             Você olha para trás para essa carreira e se arrepende de alguma coisa? Você acha que se você tivesse apostado a tua energia nesses atributos que faltam aí, a música teria perdido? Deixa eu te explicar, deixa eu melhorar aqui, o trabalho que eu faço, eu sou um homem de sete instrumentos, eu estou lá, eu estou fazendo cartoon, eu estou escrevendo, criando conteúdo, estou com você aqui e de repente passou o dia e eu não peguei minha pastinha e bati na porta de um potencial patrocinador, eu não fui lá vender…

Nuno                 É, nós somos parecidos de certa forma.

Luciano             … porra eu não fui, porque eu falei a hora que eu estiver com a pastinha lá vendendo, eu não estou produzindo conteúdo aqui, não estou fazendo a coisa aqui de primeira.

Nuno                 A gente é diferente. Não, é o lance que você falou, você não foi atrás de um patrocinador, pode ir e tal, a gente não consegue… isso é uma coisa da qual eu me ressinto muito e comentei muitas vezes, eu não consigo fazer… como é que você toca uma guitarra num nível proficiente, digamos, pós graduação, não vou também ser falso modesto, porque assim, eu posso tocar guitarra em qualquer situação, qualquer… pelo amor de Deus se isso for arrogante, saibam que não é, mas assim, se o Clapton chegar com a banda inteira e falar Nuno sobe aí, eu vou sem medo nenhum, sabe se tem uma coisa que eu tenho certeza é que essa parte eu manjo muito. Ora, como é que você consegue fazer isso bem feito pra caramba e ao mesmo tempo ser um gênio empresarial? Eu acho que não tem muito espaço, isso requer 25 horas do seu dia, uma carreira só até o ponto onde foi já é mais de 20…. só aprender guitarra nesse nível de poder já é um negócio… então não posso me arrepender, o que eu posso me arrepender é de não ter…. porque todos os músicos passam por isso e tem uns que…  primeiro tem o lance da hora certa no lugar certo. Jimmy Hendrix foi o cara certo na hora certa, podia não ter acontecido nada daquilo, Chas Chandler lá do Animals, a namorada dele adorava o Jimmy, viu ele em Nova York num boteco, chamou o Chas, o Chas era Animals, era Beatles, era brother de todo mundo, levou para a Inglaterra, pronto, se isso não tivesse acontecido, ele também não foi atrás, foi um lance de altíssima…. o que não retira a competência do cara, o cara é um gênio, mas foi isso e aí agora, consegui, por exemplo, os Beatles, os Beatles foram lá, fizeram aquele som, pastaram em Hamburgo e tal, conheceram o Brian Epstein, ali já teve um pouco mais de método, eu acho, vamos chamar o Brian, o Brian…. eles não tinham muito… os Beatles foi uma coisa interessante, eles não tinham mãe, quando você sai da guarda dos pais cedo, eu acho que você tem uma outra atitude também, isso é uma coisa que não…. ser muito protegido pelos pais, ali não tinha, os dois principais não tinham mãe desde cedo, então os caras foram falar com o George Martin, o cara era um cara legal pra caramba. Bob Dylan a mesma coisa, saiu de casa com 20 anos, tchau caipirada, foi em Nova York achou o John Hammond que era um cara legal, que por acaso eu conheci esse cara, um cavalheiríssimo assim que eu…. e também a  sorte de achar o cara certo, porque eu falei com um milhão e pessoas não posso dizer que não tentei, não tentei num nível estratosférico porque sou o que ouço um não e tchau, mas fui obstinado até um….  a Valéria, patroa, falava Nuno, tem uma coisa  que eu nunca vi é como você é obstinado, o cara diz não, você ainda continua, apesar de eu estar batendo em mim próprio, houve casos que eu tentei fazer o meu ponto, mas não, o John Hammond ouviu Bob Dylan na época dos melhores cantores do mundo, os pássaros, Harry Belafonte, para cima, aqueles caras dos Platters, era o auge dos grandes cantores, das grandes cantoras onde o vocal era a coisa mais…

Luciano             Frank Sinatra no auge.

Nuno                 … era o mais importante do mundo era o vocal e a arte de cantar, chega um cara fanho, os dois lados tem que funcionar, então o John Hammond olhou para o moleque… o primeiro disco nem tinha música dele, eram basicamente covers, era um disco sem coisa… ele foi criticado na gravadora, falaram o que você está fazendo com esse cara? O que é isso? Ele falou esse cara não é só a voz dele, tem mais coisa ali.

Luciano             Ele enxergou.

Nuno                 Enxergou o cara, mas a verdade é essa. Então quanto vale hoje ser assessor do Bob Dylan, vale uma puta grana, ele nunca vendeu muito, o Bob vendia 100 mil cópias, ele pegava a musiquinha dele, punha na voz lá do Peter Paul and Mary, vendia um milhão, dois milhões de cópias, então ele nunca foi um vendedor, mas ele é o diamante, a lapidação deixa lá para…. mas aí tem que ter gente que vê isso, eu uso o exemplo do Chico também, que toca pouco em rádio, olha o Chico, porra, gênio, o Chico para mim é o maior gênio da música brasileira, pode ser muito definitivo o que eu estou dizendo, mas assim, do ponto de vista de composição, texto, tudo, não tem mas nem assim, da distância assim, muita gente fica numa distância e também não toca em rádio e tal, mas pelo menos ele é um cara reconhecido pelas mídias e tal. Eu não posso me queixar, a única coisa que talvez eu me arrependa, mas isso é um arrependimento difícil porque é de ter estado próximo disso tudo na minha área, estava em Nova York em 75, estava em Austin, Texas em 90, estava…. e as coisas engrenam rápido ali e sempre teria voltado, mas por outro lado você tem filho…

Luciano             Uma coisa acaba arrastando outra.

Nuno                 … se tivesse ficado em Nova York em 75 sei lá que rumo, não existira filhos, Valéria, nada.

Luciano             Escolhas, seriam escolhas. Deixa eu pegar uma coisa curiosa aqui antes de a gente partir para os nossos finalmentes aqui, você tocou com um monte de gente aí, você já tocou e tocou para valer com um monte de gente e houve um momento em que você gravou, você chegou a gravar com a banda do Stevie Ray Vaughan, bom…

Nuno                 Sim, dois discos.

Luciano             … se você que está ouvindo aqui não sabe  quem é Stevie Ray Vaughan, vá até o Google bota lá, senta e não só escuta, mas olha aquilo, olha aquilo e sinta o que acontece ali e atrás dele tinha uma banda Double Trouble e você foi lá e gravou com os caras, depois que o Stevie morreu…

Nuno                 Foi um pouco depois…

Luciano             … aliás, mais um que morre num acidente aéreo. Eu imagino que até conhecer essa banda, até conhecer a turma toda você os admirava de monte, como é que é subir no palco com a guitarrona em pé no lugar onde estava o Stevie Ray Vaughan e atrás de você a banda do cara? Deixa eu elaborar um pouquinho melhor porque eu fiz essa pergunta para você aqui, um dos meus trabalhos principais é ser palestrante, às vezes eu vou num evento e antes de mim entrou um puta palestrante, entrou um dos caras reconhecidos, avião, todo mundo sabe o cara ganha milhões, terminou ele, agora nosso próximo palestrante e entro eu para ocupar o mesmo espaço e falar para o mesmo público que acabou de ver a lenda, e subi eu e a hora que eu estou subindo ali eu falo meu, volta o moleque de Bauru de 12 anos, que merda que eu estou fazendo aqui? Como é que eu vou segurar a peteca? Acabou de sair o cara agora é minha vez. Como é que foi para você e eu não sei se esse foi o momento, não sei se é esse o momento, você diante da banda do Stevie Ray ou se é você ao lado do B.B. King, eu não sei qual é o momento, mas como é que é?

Nuno                 Apesar de eu ter me batido muito, podia ter feito mais e tal, a gente se bate muito também, você vê, você também não vai aqui, não vai ali, mas faz um monte de coisa, essa coisa de tocar com os caras, trazer os caras, fazer turnê com os caras estava muito… sobrou pouco para curtir o resto, sabe assim, a música quando você é independente, é 98% escritório e braçal e 2%… então…

Luciano             No palco fazendo a arte.

Nuno                 … no palco é, então eu me lembro das duas vezes que eu fiz turnê com esses caras, estar muito exausto, primeira coisa. E depois eu estava, talvez por ser mais novo, estava muito preocupado também, esse perfeccionismo extremo que tudo desse certo e a questão da comparação, o fantasma da comparação, porque você vai tocar com os caras que era o Stevie Ray Vaughan,  como você falou, no meu lugar. Alguns momentos foram memoráveis, por exemplo, quando eu fiz e foi espontâneo, decidi fazer na hora, vamos fazer Pride and Joy, no Credicard Hall lotado, a casa veio abaixo, ali foi um reconhecimento, agora… e também tem outras coisas que era interessante esclarecer, a minha idolatria pelo Stevie não é tão grande quando se imagina, o que não significa que eu não…. mas assim, nós somos… nós temos uma idade muito próxima e é muito difícil você ser vulnerável a influências contemporâneas, suas contemporâneas, então… e muita gente disse Nuno você parece com o Stevie musicalmente, parece porque ouvimos a mesma coisa, aquela história que eu tinha falado do Mark Knopfler, ele ouvia Booker T. and Mgs, eu também ouvia, então isso, indiretamente, você acaba…. agora, os grandes ídolos meus eram outros, não era o Stevie, o Stevie, repito, é como… dificilmente vou ter um enorme ídolo hoje, um cara que apareceu hoje e o Stevie para mim apareceu hoje, aspas, tipo… era contemporâneo, então quando ele surgiu lá pelos quase anos 90, eu já tocava há 30 anos, então não foi o mesmo impacto, não foi a vulnerabilidade de influências e tal, mas tem um detalhe, havia ali o Tommy Shannon no baixo, que era um cara que tocava baixo com a minha enorme influência mítica que era o Johnny Winter, nos anos 70, que  você teve basicamente o traçado dos guitarreiros, foi 60, Jimmy Hendrix, 70 Johnny Winter, Rory Galagher e 80 a 90 Stevie Ray Vaughan, mas a fase em que você é extremamente vulnerável a influências que marcam para o resto da vida, os caras viram deuses, para mim foi na época do Jimmy e do Johnny Winter…

Luciano             Nos seus 20 anos, não é?

Nuno                 … menos, Luanda ainda, 1970 então, Johnny Winter eu tinha 16, 15, dos 15 aos 17 anos foi Jimmy, Johnny Winter, Rory Galagher e ali meio que depois daquilo nada podia me abalar mais, é claro que você ouve, acha animal, mas não a ponto de eu vou ser isso, mas esses caras tocavam com esses caras, o Chris não, mas o Tommy era baixista do Johnny, e eu tinha os discos do Johnny Winter criança e estava lá o Tomy Shanon, pô o Tommy Shanon, po o Tommy Shanon, pelo amor de Deus, então eu estava tocando com o Tommy e não toquei no disco nem nesses shows com ele no Brasil, mas toquei com Tommy e com o Uncle John que virou meu amigo, que ficava em casa lá em Aldeia, ele ficou em casa, falou não quero ficar em hotel, quero ficar com você, com as crianças, com a Valéria, que era o baterista do Johnny Winter, dos primeiros discos do Johnny, então essa parte toda foi impressionante o fato do Tommy estar ali e pronto, era a banda do Stevie, era o auge da história toda, então foi bom, mas eu estava um pouco embotado assim pelo trabalho, pelo cansaço, eu queria ter curtido isso um pouco melhor porque eu estava em…. e aliás os caras, é bom até dizer isso aqui, eu me lembro que eu estava tão atarantado, com tanta coisa para resolver que eu não tinha mais ideia do repertório e o Chris Layton, isso foi muito legal, um dia a gente foi ensaiar, vamos dar uma passada nas coisas para começar a turnê e no estúdio eu falei putz, sabe assim, eu não sei, estou em dúvida com o repertório, ele falou calma Nuno, assim, calma, a gente vai te ajudar nisso, relaxa, isso foi bom, falei puta, como é bom contar com gente… não, sério, você não está acostumado, porque em geral por aí os caras estão se lixando, você tem que se virar mesmo sozinho, tão sozinho há tanto tempo, esses caras davam backup moral, físico, material, então ele falou calma, vamos lá.

Luciano             Empatia é o nome do negócio.

Nuno                 Ele estava aí, ele veio trabalhar e eu…. o Uncle Johnny eu costumo dizer que é um cara com quem eu fiz turnês na Europa, nos EUA, a gente conviveu o quê? Seis anos e ficou muito mais próximo e muito mais… me deu backup muito, mas muito milésimas vezes superiores a gente com quem eu trabalhei 30 anos, sem exagero, então tem algo também de formação pessoal de alguma coisa que… e agora, do ponto de vista musical, algo que eu nunca mais vou esquecer com esses caras, e que nunca mais me aconteceu, aliás, se tiver músico ouvindo, cozinha, baixo, bateria especialmente, já fica o recado, nunca mais me aconteceu igual, foi uma sensação de levitar no palco, eu nunca tinha sentido isso na vida e nunca mais vou esquecer disso aí, uma sensação de…. tinha um trem, tinha um disco voador, eu estava em cima de um disco voador que começou a decolar assim com a… sabe a frequência toda, a força daquilo tudo…

Luciano             Todo mundo entregue completamente àquele momento.

Nuno                 … uma força assim, os caras tocam… tem a ver com volume também, a maneira certa, inacreditável e não é desfazer de ninguém assim, porque não tem nada a ver com a técnica, é uma outra…. é como a história do Caetano, o Caetano não gostava do Stones, ele falava isso, não nunca gostei do Stones, achava que nada a ver e tal e coisa, um dia ele estava em Londres e foi assistir o Stones e ele estava de frente para os Rolling Stones e aquilo veio de tal forma visceral, que envolveu de tal maneira, que ele falou puta, eu nunca tinha sentido isso na vida, é a mesma coisa que me aconteceu quando eu cheguei um dia andando pelas ruas do Rio, que apareceu uma dessas escolinhas de bateria de rua, eu não sei como é que chama…

Luciano             Bloco.

Nuno                 … bloco, e eu estava no meio do bloco e levitei também, ou seja, a música por ela própria faz você…

Luciano             Nuno, eu vi isso acontecer da plateia, eu vi na plateia assistindo um show do João Bosco, eu me lembro perfeitamente, o João Bosco está em pé, anos 80, 90, por aí, ele está em pé tocando, eu não me lembro a música que foi, eu já arrepiei tudo, é jogo duro…

Nuno                 Você é um artista.

Luciano             … ele estava cantando e eu não me lembro que música, mas era uma música conhecida dele, maravilhosa e ele sozinho com o violão, ele cantando a plateia inteira em êxtase e o bicho levitou no palco, ele não precisou tirar o pé do chão, mas eu estava olhando aquilo e falei, foi a primeira vez na minha vida que eu tive a sensação de que o peso tinha desaparecido e o cara estava levitando.

Nuno                 Sim, o peso desaparece e não foi nem o público, no meu caso, foi a música mesmo, porque eles ficam atrás de mim, o baixo e a batera estão atrás, veio um negócio ali que por si só eu não sei a expressão em português, ainda quero descobrir qual é, os ingleses dizem drives, aquilo te carrega…

Luciano             Impulsiona.

Nuno                 … impulsiona, carrega, empurra, exatamente, aquilo…. e aí eu me lembro também que o meu amplificador que era um Fender Twin com 120 Wats, pareceu um pig nouse, eu não ouvia a minha guitarra…

Luciano             Você só ouvia a base.

Nuno                 … eu ouvia a turma…. aquela cozinha compacta, porque tem isso também, o baixo com a batera encaixado de forma que aquilo cria um bloco, que você decola mesmo e aí eu fazia os shows, esses shows aí os grandes, tipo Palace, Credicard Hall, eu meio mal ouvia a minha própria guitarra assim, então isso do ponto de vista artístico, do ponto de vista de emoção, de estar fazendo com os caras, claro. Foi tudo uma coisa muito importante, muito boa, mas eu estava exausto, estava um pouco embotado, embotado no sentido de… eu não conseguia me entregar totalmente ao negócio, porque tinha que pensar na logística toda…

Luciano             Sou eu na minha primeira viagem a Paris depois de andar a pé durante três horas e meia chegando na Catedral de Notre Dame, que era o meu sonho e parando na porta e não entrando…

Nuno                 Não entrou?

Luciano             … não, eu não entrei, eu estava tão acabado fisicamente que eu falei não merece, eu não posso entrar nessa catedral no estado físico que eu estou aqui, eu voltei não entrei, só na outra viagem que eu fui, que aí eu fui, falei eu vou direto para lá, aí eu entrei inteiro e eu falei bom, agora merece, eu só vou entrar porque merece, aí eu curti aquilo de montão, fiz tudo o que eu podia e sabe o que mais me impressiona lá, a coisa que mais me impressionou? Eu tinha passado anteriormente no museu, no Louvre e lá tem um quadro maravilhoso que é o coroamento de Napoleão, do momento que acontece em Notre Dame e eu saio do museu, da frente daquele quadro e dali a alguns minutos eu estou no lugar onde aconteceu, eu estou vendo ao vivo o lugar que eu acabei de ver no quadro lá, ah não tem, essas coisas de… é jogo duro.

Nuno                 E você sabe que eu, falando em lugares, quando a gente foi… depois eu fiz com os caras lá em Austin, o Chris, o Thommy e o Double Trouble e um dia …. o produtor Dan Thones que era da gravadora, a gente ia dar uma passada de som lá com os caras, falou estamos indo lá para o estúdio, o estúdio é do Jimmy Vaughan, estúdio do Jimmy, que é o irmão do Stevie, eu falei pô, que legal, aí eu entrei lá e falei mas eu conheço esse lugar, era um dejavu, eu conheço isso aqui perfeitamente, mas aí depois eu saquei que é a capa do disco do Stevie, era o lugar onde o cara gravou, tem um disco dele, acho que um dos mais importantes, que a capa é exatamente ali, eu falei pô….

Luciano             Eu estou no lugar onde aconteceu.

Nuno                 … pois é, acho que alguém me lembrou disso, falou mas o Stevie gravou, o Stevie fez a foto aqui, os caras tocavam aqui, então essas lendas.

Luciano             Nuno, o que você está fazendo hoje?

Nuno                 Então, eu estou em duvida se eu faço… ontem eu respondi numa entrevista, eu até estou preocupado, talvez eu peça para…. talvez eu escreva de volta, é um blog, eu não me lembro, perguntou mais ou menos isso que você perguntou, se eu estou pensando em gravar um disco, eu falei olha, não sei, porque hoje em dia as letras tem que ser…. tem que ter sexo explícito e as melodias tem que ser retardadas, então estou tentando retroceder um pouco mas eu não consegui…

Luciano             Você está tentando voltar a fazer anal é isso? De acordo com o Lulu Santos, que correu, não é bem isso que eu quis dizer. Ele falou que a música brasileira retornou a fazer anal.

Nuno                 Por que retirou o que disse?

Luciano             Não, putz… amigo, se ele não retira o que ele diz, amanhã de manhã ele está desempregado, você não viu o caso do Ed Mota? O Ed Mota na Europa, num show lá em Dublin, ele falou que os… tinha uma turma lá fazendo barulho e tudo e ele pega e fala pô, esse pessoal, bom alguma coisa assim, aquilo custou para ele a vida, a vida e agora outro dia ele veio lá elogiando, apareceu no Faustão e foi elogiar o Pablo Vittar, pô o Pablo Vittar até que é legal, que é uma espécie de reconhecimento do tipo gente, por favor, me dê um tempo se não eu estou ferrado, não vou ganhar a minha vida mais.

Nuno                 Mas é meio mal essa… é diferente da Inglaterra, por exemplo, onde você pode falar qualquer coisa, as pessoas aqui são condenadas por opinião, isso é muito ruim, isso aí não afeta, na Inglaterra, se você disser, que nem o cara do Oasis falou, bom, falaram um monte de barbaridades, a única que ele teve que se desculpar, foi ah, o Mick Jagger, eu quero que ele morra de AIDS, esse aí ele teve que se desculpar porque é uma coisa de….

Luciano             É muito escroto, é escroto demais.

Nuno                 … mas é pouco menos que isso já é permitido e ninguém…. as pessoas não se zangam de fato, isso é que é mais engraçado.

Luciano             Porque elas não personalizam.

Nuno                 Não, exatamente, o cara detona o Paul McCartney e depois encontra numa festa e dá risada junto, agora aqui não…

Luciano             Tudo é pessoal.

Nuno                 … inacreditável.

Luciano             Luciano, não gostei da música que você botou no teu programa, eu fico puto porque parece que o cara está ofendendo a mim como pessoa, eu falo não, eu estou me referindo a uma atitude que você tomou, o trabalho que você fez e não a você como ser humano, você tem todo o meu respeito, mas aquela atitude foi idiota, então reveja aquela atitude, mas ninguém, nenhum brasileiro releva isso, ele vai levar para si mesmo.

Nuno                 É como… não sei se foi Platão, se não foi já peço desculpa pela gafe gigante, mas acho que foi, que diz que a crítica começa a ir para o brejo quando você critica o autor e não a obra.

Luciano             Sim, o poeta e não o poema, acho que foi Ezra Pound, você sabe que o crítico é ruim quando ele critica o poeta e não o poema, uma coisa parecida com isso aí.

Nuno                 Mas eu tenho impressão que a questão do Platão que eu coloquei já era mais em relação à obra, você critica o autor e não a obra, talvez o Pound tenha adaptado para poesia. Mas é verdade.

Luciano             O que você está fazendo hoje?

Nuno                 Ah então…

Luciano             Vem cá, você não vai procurar um produtor desses Fernando & Sorocaba, esses carinhas aí para falar meu, eu toco, eu até faço um funkzinho aqui…

Nuno                 Sabe uma coisa, Luciano, eu tenho feito shows, todos os shows que eu faço são arrebatadores, todo mundo acaba em pé aplaudindo, pedindo bis, sem exagero, um ou outro que… circuito cultural, você vai tocar em cidades muito, muito interior, Brasil profundo em que a pessoa até ali, uma vez o meu baixista falou Nuno, se aqui tiver fator mito, que é uma brincadeira, fala pô aqui não vem público, vem sim porque tem o fator mito. Ele fala, se tiver fator mito aqui nunca mais vou duvidar, Nuno e aí os caras com disco lá em, eu esqueço… Jucélia, cidades que você… rua de terra, está lá, Blues on the Outside Texas Band, mas isso acho que o blues e derivados se tornam um palavrão, rock se tornou um palavrão para os setores aí, então isso acontece, arrebata, todo mundo gosta, tem no arroio, tem um moleque tentando tocar gaita, no Chuí tem um tentando tocar baixo blues, qualquer lugar do Brasil que você vai tem, é como uma guerrilha assim, não está na mídia mas não interessa, está cheio de criança, cheio de gente…

Luciano             É a vida… você não consegue para a vida, ela nasce onde tiver uma chance, no meio do asfalto nasce uma coisinha e vai ter ali.

Nuno                 É como a água que brota, é uma ferrugem que você não… enfim, é uma guerrilha.

Luciano             Você sabe que eu tenho feito isso aí como uma base do meu programa do Café Brasil, ele é feito assim, como é que eu faço para mostrar para as pessoas que nunca houve uma música tão rica como a música que se faz hoje em dia que não aparece, ela não toca no rádio, não está em trilha de novela, não, ela está escondida nos cantos e aí a gente vai atrás, começa a procurar e fala dá uma olhada, escuta esse cara aqui, escuta isso aqui, sabe você não tem que ver o desempenho da pessoa, ela não tem que estar macaqueando, ela não tem que estar colorida, escuta só.

Nuno                 É, a própria música, é aquilo lá do… é a própria música que empurra, que…. tem uma história, desculpa interromper, porque eu esqueço, por isso que eu interrompo, tem uma história do Bob Dylan que andava cansado uma época dele próprio, que é uma coisa super normal assim, eu volto a dizer o que eu ando fazendo, eu vou te falar, aliás eu vou falar já, eu faço shows por aí, São Paulo, próximo é em março no Bourbon Street, fiz o SESC Bom Retiro na semana  passada, ou duas semanas, vou fazer Goiânia agora, festival, fiz Gravatá, festivais de jazz e blues que tem pelo Brasil, festivais de música em geral, BB seguridade, fiz Porto Alegre e já esqueci qual era a outra…. fiz Porto Alegre, Recife, tinha multidão gigantesca, por acaso dá um alento, eu vou te mostrar as fotos, me lembra que eu faço questão, lotado o Parque da Redenção em Porto Alegre, a perder  de vista, um mar de gente. Recife a mesma coisa e vou fazer Angola agora, em fevereiro, depois vai ter Curitiba e….  fiz Brasíla, tudo isso agora, estou falando por esses.. outubro, dezembro e janeiro tem sido isso, então eu estou por aí, continuo fazendo. Do ponto de vista fonográfico, eu tenho um crouwdfunding e não consegui a grana que eu ia gravar com a turma do Texas, ah.. eu fiz, desculpa, fiz um festival em Austin, Texas em outubro e reencontrei velhos amigos de turnê e a gente…. e aquilo engata de um jeito imediato assim, foi muito bom, então pô vamos fazer um disco, mas o valor ia ser alto, ia acabar em 60 mil, eu baixei para 60 pra ver se rolava, só consegui uns 30%…

Luciano             60 mil o quê? Reais?

Nuno                 Reais. Porque os caras falaram Nuno, eu falei eu vou captar aqui e termino em São Paulo, não…

Luciano             60 mil reais para fazer um disco com a banda…

Nuno                 Americana, gravado lá, mixado lá.

Luciano             60 mil reais, que isso é dinheiro de pinga.

Nuno                 É, passagem incluída, estadia.

Luciano             Isso é pinga, isso aí a Anitta gasta com Uber durante o fim de semana.

Nuno                 É. Não, é verdade, mas eu já… na verdade, na real, bem feito,  para você trabalhar com coisa daria uns 100 paus, que continua sendo pinga porque esses caras fazem produções de 500 mil, meio milhão, um milhão de reais, isso gravando ao vivo no estúdio, que eu não sou de ficar… é só fazer a continha certa, tem que pegar um voo, tem que ir para lá, tem que ir aqui, depois você tem… Airbnb, não ia ficar em hotel, Airbnb, mais baratinho tal, multiplica por três e pouco que era o câmbio e dava 100 paus, ah e o crowdfunding você tem que dar recompensas, então vai ganhar um CD autografado na camiseta, vai ganhar isso, vai ganhar aquilo, um jantar com o Nuno e etc, então tinha esses preços e o preço da prensagem do disco sem…. nesse valor não estava incluída a divulgação, imagina se você põe uma ssessoria de imprensa, dá 20 paus por mês, não tinha isso, era só prensar para entregar o prêmio, a camiseta, depois o resto distribui digital e davam 65 paus, eu consegui 21, mas eu conseguiria mais, também eu fiz isso muito no fim do ano porque até…. você fica um… eu fiquei seis meses aprendendo direitinho e aí na hora de fazer era novembro, eu falei será que eu faço agora, será que eu espero, não podia esperar, tinha que gravar em fevereiro nos EUA, janeiro ou fevereiro, falei bom, vamos fazer, fiz um mês e fiz modalidade tudo ou nada, foi bom, aprendi a pilotar, vi qual é o potencial, talvez eu tivesse conseguido mais, mas não sei se conseguiria os 60, mas enfim, tanto faz. Do ponto de vista fonográfico então a ideia era fazer esse disco que era uma volta ao blues, porque desde 2013 eu não gravo blues puro, eu fiz Outros Nunos, que era uma coisa que mistura com eletrônica e tinha a ver com querer vomitar, desculpa a expressão, toda….. tem letra ali que eu escrevi com 17 anos, estava nos  baús aí todos e  tal, então senti essa necessidade lusófona de soltar o negócio, então Outros Nunos foi isso; depois veio Free Blues, que é a mesma coisa, se uma criança perguntar o que é blues? Para uma criança do século XXI, vou te mostrar desse jeito, porque Luciano, rapidamente, quando eu tinha 15 ouvi John Mayall & the Bluesbreakers, aquilo já não era o blues do delta do Mississipi, era eletrificado, tinha rock, tinha todos esses elementos, então hoje em dia a ideia do Free Blues era essa, uma criança hoje, você precisa ter trance, hip hop, eletrônica, outros elementos para ele ouvir o mesmo Muddy Waters e se arrebatar, porque eu quando ouvi John Mayall & the Bluesbreakers pirei por blues e fui buscar, ah esse  cara era da Chess, tinha Haulin’ Wolf junto, Little Walter, ah mas esse cara ouviu Robert Johnson, então hoje em dia a ideia era mais ou menos….. eu fiz esse disco, mas sempre…. então nunca mais fiz blues elétrico tradicional, Double Trouble, aquela história, são 15 anos que eu não faço, então falei vou fazer um disco back to the blues mesmo e tal, não rolou o crowdfunding, depois disso estou pensando agora se eu gravo aqui nesse formato ou se eu pego mais um monte de coisa que eu tenho, eu tenho um monte de coisa em gavetas assim, tem umas coisas, aliás não te mostrei, você precisa ouvir…

Luciano             Ou bolamos um crowdfunding novo para valer, com tempo e…

Nuno                 … com mais tempo em março, mais bem bolado. E não, pensei mesmo em reformular o projeto e lançar, acho que tem que fazer.

Luciano             Vem cá, teu livro. Teu blog.

Nuno                 Tenho um livro pronto, mas nunca editei, não publiquei.

Luciano             Então você vai aprender, vai descobrir o outro lado.

Nuno                 Eu nunca publiquei.

Luciano             O lado editorial, você está achando que o lado fonográfico é terrível, o editorial…

Nuno                 É pior, mas aí é que está, eu pensei, todo mundo lança Nuno, está demais esse livro, lança. Pô se e fui independente na música a vida inteira, na literatura eu gostaria de, no mínimo, uma editora com algum nome, mas de novo acontece o que a gene estava conversando antes, eu fui lá bater na porta das editoras? Não fui. Eu só estou reclamando sem ter feito muita coisa, entreguei para um cara que era editor de Isto É que gostou muito e ia me dar um help, o Claudinho, depois também não liguei Claudinho, avançou ou  não avançou?

Luciano             Quem sabe alguém nos ouve aqui agora e bate lá.

Nuno                 Eu não consigo… eu ligo para… por exemplo, gravadora majors, você liga é uma piada, o cara não vai te retornar, não vai te atender, se você conseguir que o CD chegue na mesa dele, ele vai usar para por o copo de whisky em cima, eu acho isso uma puta falta de…. eu prefiro o esquema americano/europeu, não. Olha isso aqui não vai dar, isso aqui vai dar, isso é muito bom, o cara já fala não, não fica esse negócio, será que ele ouviu? Será que não ouviu? Nem retorna, o cara nem retorna, ou você faz parte do grupinho…

Luciano             Isso faz parte dessa cultura da produtividade do brasileiro que é pavorosa e que está em todos os momentos da vida da gente. Eu estou vendendo a minha casa em Alphaville há 3 anos, eu já botei, sem brincadeira, acho que 25 corretores na história, não é que não vendeu, a questão não é não vender a casa, a questão é o seguinte, não tem nenhum retorno, o corretor vamos fazer, maravilha, estou levando um cliente lá. Ele leva o cliente, marca e leva o cliente e não liga para dizer o seguinte, ó tua casa é um horror, teu preço está alto, o cara não gostou, nenhum dos 25, entendeu? Não é que teve assim, teve 3, nenhum dos 25 se digna a dizer não deu, está ruim, muda a história, não está legal, você tem que mudar aqui e ali.

Nuno                 Eu estava há anos vendendo terrenos em Fortaleza, que uma época m lembrou de Luanda e eu peguei uns negócios lá, Alphaville também, é a mesma coisa, mas depois um dia desencanta, aí todo mundo quer, agora todo mundo escreve, depois que vendeu, então acho que você tem que esperar, eu acho que vai acontecer só vai acontecer quando tiver mais do que você está pedindo, aí o Luciano vai servir, porque o corretor, a minha experiência com corretor nacional em geral é que ele não é a seu favor, o certo corretor é o cara que vai intermediar e que está defendendo o seu interesse, seria um cliente seu, não é nada disso, quanto mais ele puder fazer para você perder naquilo para ir logo, mais depressa, claro, não estou generalizando, há corretores e corretores, mas a real ali para esses lados, inclusive, que você mencionou…

Luciano             Na gravadora é a mesma coisa, e com editora é igual. Você vai mandar teu livro para lá, vai cair na mão da sub assistente do sub do sub que vai ler, que vai ter 16 manuscritos na frente e que vai bater o olho naquilo, ah deixa eu dar uma olhada aqui, não vai saber de referência.

Nuno                 Para não dizer que eu não fiz nada, o João Gabriel da Veja, que é um super fã meu que era da Veja, que escreveu sobre mim várias vezes de música, ele está na parte de livros e eu mandei para ele e falei João, você conhece os agentes todos, vê aí e ele também não me deu retorno, então talvez o livro seja ruim.

Luciano             Pode ser. Pode ser e o pessoal não quer delicadamente dizer para você que é ruim.

Nuno                 Mas eu acho estranho o meu livro ser ruim com os livros que saem por aí. Acho uma sacanagem.

Luciano             Nuno, nós estamos com muito mimimi aqui, vamos fazer uma coisa, vai tocar suas músicas que eu vou fazer meus negócios aqui e vamos fazer acontecer e continuar montando, pintando e bordando. Quem quiser achar o Nuno para conhecer o trabalho do Nuno, curtir, etc e tal, site, Facebook, Twitter, como é que é?

Nuno                 O Facebook é uma grande festa diária assim o meu face, só que é assim, o meu perfil está lotado, as pessoas pedem para se adicionar porque fica mais próximo, não se preocupem com isso porque é igualzinho a fanpage, fanpage tem lá umas 17 mil pessoas e o perfil tem 5 mil explodindo sempre, não dá par adicionar.

Luciano             É só Nuno Mindelis.

Nuno                 É facebook.com/NunoMindelis. Eu uso pouco o Twitter, estou no Instagran também, é nmindelis, de Nuno Mindelis e fiz um canal no Youtube, comecei, depois fui…  tive negócio da hérnia de disco, não conseguia mais fazer o negócio, então estou em dívida com os meus associados do Youtube, estou realmente em dívida, preciso escrever um pedido de desculpas ali e tem o meu site que é nunomindelis.com ou nunomindelis.com.br, mas que eu não mexo muito, ele está ali, mas tem lá fale com o Nuno se precisar falar com o Nuno, mas geralmente é mais pelo Facebook e pelo Insta que eu estou, mas eu ia te falar um negócio da gente fazer o que tem que fazer porque o mais importante parece… outro dia não sei quem foi que me falou Nuno, você está muito hindu ou coisa assim, você está muito zen e tal, mas a verdade é que a felicidade é mesmo essa estrada, não o… tipo a felicidade é o topo da montanha, tipo você chegar no topo é a felicidade, não é, a estrada que leva lá que é a felicidade, então você está correndo com seu pod e com as suas palestras e com o seu trampo todo que tem esse valor todo, eu estou correndo com o meu, a gente se faz o tal do mimimi que faz parte da natureza, mas na verdade são os momentos de felicidade que a gente não vai ser mais que isso. Pode ser mais ou menos alegre aqui e ali, mas é…

Luciano             Você sabe o que eu quero? Eu quero levitar.

Nuno                 Isso, é isso mesmo. Está um pouco como…. uma vez, não sei se foi o Millôr Fernandes ou outro gênio, que o Millôr era um gênio, que diz que, não sei se foi ele, mas se não foi ele foi um gênio no mesmo calibre, mas acho que foi ele, que o que é vida? Ele falou a vida é assim, a gente nasce e morre e no meio a gente vai ao banheiro. Então eu completaria um pouco,  no meio a gente toma um café expresso com um amigo e uma breja com um amigo e conversa como a gente conversou agora, isso é felicidade,  e vai ao banheiro e morre e nasce, é isso, não tem que….  aliás a felicidade próxima, de novo parece zen, mas está muito próxima de nossa assim, não tem nada a ver, as pessoas procuram a felicidade em distâncias siderais assim achando que está longe, ela está muito mais,  às vezes ela está tão perto que ela está de fato muito mais perto  ás vezes, mas você consegue, sei lá, você vai deitar de noite respira tres vezes fundo e acha a felicidade ali, no relaxamento profundo.

Luciano             Meu amigo eu quero terminar esse programa aqui com um presente par quem está ouvindo a gente aqui e o presente vai ser tocar uma música tua no final do programa, me diz qual é aquela que você quer que eu bote no final aqui, pensa em tudo aquilo que você gravou e fala aquela eu acho que é especial.

Nuno                 Eu tenho duas, uma bandida e uma doce. As duas me dão orgulho do ponto de vista tipo se eu morrer e isso for encontrado, isso foi uma coisa que vai ficar e só pode melhorar. A que eu ia dizer primeiro…

Luciano             É bandida…

Nuno                 … não, eu ia te dizer, se vai terminar, vamos terminar com a doce que era a Angels and Clawns, a música, porque o álbum chama Angels and Clowns, mas tem a música Angels and Clowns, e a outra é Texas Bound.

Luciano             Perfeitamente.

Nuno                 Mas isso é muito meu assim, não sei se…. às vezes tem até coisa mais divertida para a galera, mas eu acho que essa …

Luciano             Mas eu quero ir naquela que você…

Nuno                 … mas eu acho que essa…

Luciano             Esse programa aqui é sobre você, nada mais natural do que terminar com a música que você escolheu.

Nuno                 Todo meu fígado entrou nessa… Texas Bound mostra um moleque que ouviu o nascimento do rock progressivo e dos rifs pesados de metal e blues, então ela para mim é o maior resumo de geração daquele momento assim, sabe o que eu quero dizer, não é um blues tradicional, não é um rock, mas é as duas coisas, é a melhor fusão natural que vem justamente do fígado, é que eu acho, foi elogiada até pelo Patrick Ford que é o batera da Ford Blues Band, que na época abriu para mim na França, olha como eu estava importante, num show na França, ele abriu o show, é o irmão do Robben Ford e falou que ia pedir para o Mark, ele vinha com o disco na mão falou onde eu passo só tem rastro seu, tem banda em bar na Holanda tocando essa música e ele diz que ia falar com Mark Ford, com Robben Ford para gravara aquela música que é a Texas Bound.

Luciano            Eu vou fazer o seguinte então, vou dar uma colher de chá para os ouvintes e tocar as duas em sequência, primeiro vai ser?

Nuno                 Bom… aí eu tocaria primeiro a Texas Bound que é mais antiga, por ordem cronológica, com Double Trouble e na segunda o Angels And Clowns, a música com a banda de Duke Robillard Band, para o selo dele, gravado em Boston, foi bom também.

Luciano             Grande Nuno Mindelis, muito obrigado. Valeu a história, Valeu a conversa, eu vou repetir um negócio para você que eu falei ali, eu estava só eu e ele ali conversando no escritório eu estava mostrando as descobertas que eu fiz ali, tocando uma música do Smile, a banda anterior ao Queen, e ele ouviu aquilo e a gente conversando lá, uma hora eu parei e falei Nuno desculpa eu estar falando isso aqui tanto para você porque eu não tenho interlocutor. Eu acho essas coisas aqui, eu curto sozinho, não tem para quem falar, aparece um cara que nem você eu tenho que mostrar.

Nuno                 Foi um petardo assim, adorei ouvir aquilo, muito bom.

Luciano             FoiE aqui fantástico aqui, obrigado.

Nuno                 Obrigado, aliás uma dica sobre isso, Juice & Lucy, é uma banda dos anos 70 que durou ali um ano e meio, aliás dura até hoje, um grande abraço, uma grande alegria Luciano,  muito obrigado pelo convite e pelo carinho, pela amizade.

Luciano             Impulsiona.

Nuno                 … impulsiona, carrega, empurra, exatamente, aquilo…. e aí eu me lembro também que o meu amplificador que era um Fender Twin com 120 Watts, pareceu um pig nose, eu não ouvia a minha guitarra…

Luciano             Você só ouvia a base.

Nuno                 … eu ouvia a turma…. aquela cozinha compacta, porque tem isso também, o baixo com a batera encaixado de forma que aquilo cria um bloco, que você decola mesmo e aí eu fazia os shows, esses shows aí os grandes, tipo Palace, Credicard Hall, eu meio mal ouvia a minha própria guitarra assim, então isso do ponto de vista artístico, do ponto de vista de emoção, de estar fazendo com os caras, claro, foi tudo uma coisa muito importante, muito boa, mas eu estava exausto, estava um pouco embotado também pelo…. embotado no sentido de eu não conseguia me entregar totalmente ao negócio assim, porque tinha que pensar na logística toda…

Luciano             Sou eu na minha primeira viagem a Paris depois de andar a pé durante 3 horas e meia chegando na Catedral de Notre Dame, que era o meu sonho e parando na porta e não entrando…

Nuno                 Não entrou?

Luciano             … não, eu não entrei, eu estava tão acabado fisicamente que eu falei não merece, eu não posso entrar nessa catedral no estado físico que eu estou aqui, eu voltei não entrei, só na outra viagem que eu fui, que aí eu fui, falei eu vou direto para lá, aí eu entrei inteiro e eu falei bom, agora merece, eu só vou entrar porque merece, aí eu curti aquilo de montão, fiz tudo o que eu podia e sabe o que mais me impressiona lá, a coisa  que mais me impressionou? Eu tinha passado anteriormente no museu, no Louvre e lá tem um quadro maravilhoso que é o coroamento de Napoleão, do momento que acontece em Notre Dame e eu saio do museu, da frente daquele quadro e dali a alguns minutos eu estou no lugar onde aconteceu, eu estou vendo ao vivo o lugar que eu acabei de ver no quadro lá, ah não tem, essas coisas de… é jogo duro.

Nuno                 E você sabe que eu, falando em lugares, quando a gente foi… depois eu fiz com os caras lá em Austin, o Chris, o Thommy e o Double Trouble e  um dia …. o produtor Dan Thones que era da gravadora, a gente ia dar uma passada de som lá com os caras, falou estamos indo lá para o estúdio, o estúdio é do Jimmy Vaughan, estúdio do Jimmy, que é o irmão do Stevie, eu falei pô, que legal, aí eu entrei lá e falei mas eu conheço esse lugar, era um dejavu, eu conheço isso aqui perfeitamente, mas aí depois eu saquei que é a capa do disco do Stevie, era o lugar onde o cara gravou, tem um disco dele, acho que um dos mais importantes, que a capa é exatamente ali, eu falei pô….

Luciano             Eu estou no lugar onde aconteceu.

Nuno                 … pois é, acho que alguém me lembrou disso, falou mas o Stevie gravou, o Stevie fez a foto aqui, os caras tocavam aqui, então essas lendas.

Luciano             Nuno, o que você está fazendo hoje?

Nuno                 Então, eu estou em duvida se eu faço… ontem eu respondi numa entrevista, eu até estou preocupado, talvez eu peça para…. talvez eu escreva de volta, é um blog, eu não me lembro, perguntou mais ou menos isso que você perguntou, se eu estou pensando em gravar um disco, eu falei olha, não sei, porque hoje em dia as letras tem que ser…. tem que ter sexo explícito e as melodias tem que ser retardadas, então estou tentando retroceder um pouco mas eu não consegui…

Luciano             Você está tentando voltar a fazer anal é isso? De acordo com o Lulu Santos, que correu, não é bem isso que eu quis dizer. Ele falou que a música brasileira retornou a fazer anal.

Nuno                 Por que retirou o que disse?

Luciano             Não, putz… amigo, se ele não retira o que ele diz, amanhã de manhã ele está desempregado, você não viu o caso do Ed Mota? O Ed Mota na Europa, num show lá em Dublin, ele falou que os… tinha uma turma lá fazendo barulho e tudo e ele pega e fala pô, esse pessoal, bom alguma coisa assim, aquilo custou para ele a vida, a vida e agora outro dia ele veio lá elogiando, apareceu no Faustão e foi elogiar o Pablo Vittar, pô o Pablo Vittar até que é legal, que é uma espécie de reconhecimento do tipo gente, por favor, me dê um tempo se não eu estou ferrado, não vou ganhar a minha vida mais.

Nuno                 Mas é meio mal essa… é diferente da Inglaterra, por exemplo, onde você pode falar qualquer coisa, as pessoas aqui são condenadas por opinião, isso é muito ruim, isso aí não afeta, na Inglaterra, se você disser, que nem o cara do Oasis falou, bom, falaram um monte de barbaridades, a única que ele teve que se desculpar, foi ah, o Mick Jagger, eu quero que ele morra de AIDS, esse aí ele teve que se desculpar porque é uma coisa de….

Luciano             É muito escroto, é escroto demais.

Nuno                 … mas é pouco menos que isso já é permitido e ninguém…. as pessoas não se zangam de fato, isso é que é mais engraçado.

Luciano             Porque elas não personalizam.

Nuno                 Não, exatamente, o cara detona o Paul McCartney e depois encontra numa festa e dá risada junto, agora aqui não…

Luciano             Tudo é pessoal.

Nuno                 … inacreditável.

Luciano             Luciano, não gostei da música que você botou no teu programa, eu fico puto porque parece que o cara está ofendendo a mim como pessoa, eu falo não, eu estou me referindo a uma atitude que você tomou, o trabalho que você fez e não a você como ser humano, você tem todo o meu respeito, mas aquela atitude foi idiota, então reveja aquela atitude, mas ninguém, nenhum brasileiro releva isso, ele vai levar para si mesmo.

Nuno                 É como… não sei se foi Platão, se não foi já peço desculpa pela gafe gigante, mas acho que foi, que diz que a crítica começa a ir para o brejo quando você critica o autor e não a obra.

Luciano             Sim, o poeta e não o poema, acho que foi Ezra Pound, você sabe que o crítico é ruim quando ele critica o poeta e não o poema, uma coisa parecida com isso aí.

Nuno                 Mas eu tenho impressão que a questão do Platão que eu coloquei já era mais em relação à obra, você critica o autor e não a obra, talvez o Pound tenha adaptado para poesia. Mas é verdade.

Luciano             O que você está fazendo hoje?

Nuno                 Ah então…

Luciano             Vem cá, você não vai procurar um produtor desses Fernando & Sorocaba, esses carinhas aí para falar meu, eu toco, eu até faço um funkzinho aqui…

Nuno                 Sabe uma coisa, Luciano, eu tenho feito shows, todos os shows que eu faço são arrebatadores, todo mundo acaba em pé aplaudindo, pedindo bis, sem exagero, um ou outro que… circuito cultural, você vai tocar em cidades muito, muito interior, Brasil profundo em que a pessoa até ali, uma vez o meu baixista falou Nuno, se aqui tiver fator mito, que é uma brincadeira, fala pô aqui não vem público, vem sim porque tem o fator mito. Ele fala, se tiver fator mito aqui nunca mais vou duvidar, Nuno e aí os caras com disco lá em, eu esqueço… Jucélia, cidades que você… rua de terra, está lá, Blues on the Out Side Texas Band, mas isso acho que o blues e derivados se tornam um palavrão, rock se tornou um palavrão para os setores aí, então isso acontece, arrebata, todo mundo gosta, tem no arroio, tem um moleque tentando tocar gaita, no Chuí tem um tentando tocar baixo blues, qualquer lugar do Brasil que você vai tem, é como uma guerrilha assim, não está na mídia mas não interessa, está cheio de criança, cheio de gente…

Luciano             É a vida… você não consegue para a vida, ela nasce onde tiver uma chance, no meio do asfalto nasce uma coisinha e vai ter ali.

Nuno                 É como a água que brota, é uma ferrugem que você não… enfim, é uma guerrilha.

Luciano             Você sabe que eu tenho feito isso aí como uma base do meu programa do Café Brasil, ele é feito assim, como é que eu faço para mostrar para as pessoas que nunca houve uma música tão rica como a música que se faz hoje em dia que não aparece, ela não toca no rádio, não está em trilha de novela, não, ela está escondida nos cantos e aí a gente vai atrás, começa a procurar e fala dá uma olhada, escuta esse cara aqui, escuta isso aqui, sabe você não tem que ver o desempenho da pessoa, ela não tem que estar macaqueando, ela não tem que estar colorida, escuta só.

Nuno                 É, a própria música, é aquilo lá do… é a própria música que empurra, que…. tem uma história, desculpa interromper, porque eu esqueço, por isso que eu interrompo, tem uma história do Bob Dylan que andava cansado uma época dele próprio, que é uma coisa super normal assim, eu volto a dizer o que eu ando fazendo, eu vou te falar, aliás eu vou falar já, eu faço shows por aí, são Paulo, próximo é em março no Bourbon Street, fiz o SESC Bom Retiro na semana  passada, ou duas semanas, vou fazer Goiânia agora, festival, fiz Gravatá, festivais de jazz e blues que tem pelo Brasil, festivais de música em geral, BB seguridade, fiz Porto Alegre e já esqueci qual era a outra…. fiz Porto Alegre, Recife, tinha multidão gigantesca, por acaso dá um alento, eu vou te mostrar as fotos, me lembra que eu faço questão, lotado o Parque da Redenção em Porto Alegre, a perder  de vista, um mar de gente. Recife a mesma coisa e vou fazer Angola agora, em fevereiro, depois vai ter Curitiba e….  fiz Brasíla, tudo isso agora, estou falando por esses.. outubro, dezembro e janeiro tem sido isso, então eu estou por aí, continuo fazendo. Do ponto de vista fonográfico, eu tenho um crouwdfunding e não consegui a grana que eu ia gravar com a turma do Texas, ah.. eu fiz, desculpa, fiz um festival em Austin, Texas em outubro e reencontrei velhos amigos de turnê e a gente…. e aquilo engata de um jeito imediato assim, foi muito bom, então pô vamos fazer um disco, mas o valor ia ser alto, ia acabar em 60 mil, eu baixei para 60 pra ver se rolava, só consegui uns 30%…

Luciano             60 mil o quê? Reais?

Nuno                 Reais. Porque os caras falaram Nuno, eu falei eu vou captar aqui e termino em São Paulo, não…

Luciano             60 mil reais para fazer um disco com a banda…

Nuno                 Americana, gravado lá, mixado lá.

Luciano             60 mil reais, que isso é dinheiro de pinga.

Nuno                 É, passagem incluída, estadia.

Luciano             Isso é pinga, isso aí a Anitta gasta com Uber durante o fim de semana.

Nuno                 É. Não, é verdade, mas eu já… na verdade, na real, bem feito,  para você trabalhar com coisa daria uns 100 paus, que continua sendo pinga porque esses caras fazem produções de 500 mil, meio milhão, um milhão de reais, isso gravando ao vivo no estúdio, que eu não sou de ficar… é só fazer a continha certa, tem que pegar um voo, tem que ir para lá, tem que ir aqui, depois você tem… Airbnb, não ia ficar em hotel, Airbnb, mais baratinho tal, multiplica por três e pouco que era o câmbio e dava 100 paus, ah e o crowdfunding você tem que dar recompensas, então vai ganhar um CD autografado na camiseta, vai ganhar isso, vai ganhar aquilo, um jantar com o Nuno e etc, então tinha esses preços e o preço da prensagem do disco sem…. nesse valor não estava incluída a divulgação, imagina se você põe uma assessoria de imprensa, dá 20 paus por mês, não tinha isso, era só prensar para entregar o prêmio, a camiseta, depois o resto distribui digital e davam 65 paus, eu consegui 21, mas eu conseguiria mais, também eu fiz isso muito no fim do ano porque até…. você fica um… eu fiquei seis meses aprendendo direitinho e aí na hora de fazer era novembro, eu falei será que eu faço agora, será que eu espero, não podia esperar, tinha que gravar em fevereiro nos EUA, janeiro ou fevereiro, falei bom, vamos fazer, fiz um mês e fiz modalidade tudo ou nada, foi bom, aprendi a pilotar, vi qual é o potencial, talvez eu tivesse conseguido mais, mas não sei se conseguiria os 60, mas enfim, tanto faz. Do ponto de vista fonográfico então a ideia era fazer esse disco que era uma volta ao blues, porque desde 2013 eu não gravo blues puro, eu fiz Outros Nunos, que era uma coisa que mistura com eletrônica e tinha a ver com querer vomitar, desculpa a expressão, toda….. tem letra ali que eu escrevi com 17 anos, estava nos  baús aí todos e  tal, então senti essa necessidade lusófona de soltar o negócio, então Outros Nunos foi isso; depois veio Free Blues, que é a mesma coisa, se uma criança perguntar o que é blues? Para uma criança do século XXI, vou te mostrar desse jeito, porque Luciano, rapidamente, quando eu tinha 15 ouvi John Mayall & the Bluesbreakers, aquilo já não era o blues do delta do Mississipi, era eletrificado, tinha rock, tinha todos esses elementos, então hoje em dia a ideia do Free Blues era essa, uma criança hoje, você precisa ter trance, hip hop, eletrônica, outros elementos para ele ouvir o mesmo Muddy Waters e se arrebatar, porque eu quando ouvi John Mayall & the Bluesbreakers pirei por blues e fui buscar, ah esse  cara era da Chess, tinha Haulin Wolf junto, Litle Walter, ah mas esse cara ouviu Robert Johnson, então hoje em dia a ideia era mais ou menos….. eu fiz esse disco, mas sempre…. então nunca mais fiz blues elétrico tradicional, Doble Trouble, aquela história, são 15 anos que eu não faço, então falei vou fazer um disco back to the blues mesmo e tal, não rolou o crowdfunding, depois disso estou pensando agora se eu gravo aqui nesse formato ou se eu pego mais um monte de coisa que eu tenho, eu tenho um monte de coisa em gavetas assim, tem umas coisas, aliás não te mostrei, você precisa ouvir…

Luciano             Ou bolamos um crowdfunding novo para valer, com tempo e…

Nuno                 … com mais tempo em março, mais bem bolado. E não, pensei mesmo em reformular o projeto e lançar, acho que tem que fazer.

Luciano             Vem cá, teu livro. Teu blog.

Nuno                 Tenho um livro pronto, mas nunca editei, não publiquei.

Luciano             Então você vai aprender, vai descobrir o outro lado.

Nuno                 Eu nunca publiquei.

Luciano             O lado editorial, você está achando que o lado fonográfico é terrível, o editorial…

Nuno                 É pior, mas aí é que está, eu pensei, todo mundo lança Nuno, está demais esse livro, lança. Pô se e fui independente na música a vida inteira, na literatura eu gostaria de, no mínimo, uma editora com algum nome, mas de novo acontece o que a gente estava conversando antes, eu fui lá bater na porta das editoras? Não fui. Eu só estou reclamando sem ter feito muita coisa, entreguei para um cara que era editor de Isto É que gostou muito e ia me dar um help, o Claudinho, depois também não liguei Claudinho, avançou ou não avançou?

Luciano             Quem sabe alguém nos ouve aqui agora e bate lá.

Nuno                 Eu não consigo… eu ligo para… por exemplo, gravadora Majors, você liga é uma piada, o cara não vai te retornar, não vai te atender, se você conseguir que o CD chegue na mesa dele, ele vai usar para por o copo de whisky em cima, eu acho isso uma puta falta de…. eu prefiro o esquema americano/europeu, não. Olha isso aqui não vai dar, isso aqui vai dar, isso é muito bom, o cara já fala não, não fica esse negócio, será que ele ouviu? Será que não ouviu? Nem retorna, o cara nem retorna, ou você faz parte do grupinho…

Luciano             Isso faz parte dessa cultura da produtividade do brasileiro que é pavorosa e que está em todos os momentos da vida da gente. Eu estou vendendo a minha casa em Alphaville há três anos, eu já botei, sem brincadeira, acho que 25 corretores na história, não é que não vendeu, a questão não é não vender a casa, a questão é o seguinte, não tem nenhum retorno, o corretor vamos fazer, maravilha, estou levando um cliente lá. Ele leva o cliente, marca e leva o cliente e não liga para dizer o seguinte, ó tua casa é um horror, teu preço está alto, o cara não gostou, nenhum dos vinte e cinco, entendeu? Não é que teve assim, teve três, nenhum dos vinte e cinco se digna a dizer não deu, está ruim, muda a história, não está legal, você tem que mudar aqui e ali.

Nuno                 Eu estava há anos vendendo terrenos em Fortaleza, que uma época me lembrou de Luanda e eu peguei uns negócios lá, Alphaville também, é a mesma coisa, mas depois um dia desencanta, aí todo mundo quer, agora todo mundo escreve, depois que vendeu, então acho que você tem que esperar, eu acho que vai acontecer só vai acontecer quando tiver mais do que você está pedindo, aí o Luciano vai servir, porque o corretor, a minha experiência com corretor nacional em geral é que ele não é a seu favor, o certo corretor é o cara que vai intermediar e que está defendendo o seu interesse, seria um cliente seu, não é nada disso, quanto mais ele puder fazer para você perder naquilo para ir logo, mais depressa, claro, não estou generalizando, há corretores e corretores, mas a real ali para esses lados, inclusive, que você mencionou…

Luciano             Na gravadora é a mesma coisa, e com editora é igual. Você vai mandar teu livro para lá, vai cair na mão da sub assistente do sub do sub que vai ler, que vai ter dezesseis manuscritos na frente e que vai bater o olho naquilo, ah deixa eu dar uma olhada aqui, não vai saber de referência.

Nuno                 Para não dizer que eu não fiz nada, o João Gabriel da Veja, que é um super fã meu que era da Veja, que escreveu sobre mim várias vezes de música, ele está na parte de livros e eu mandei para ele e falei João, você conhece os agentes todos, vê aí e ele também não me deu retorno, então talvez o livro seja ruim.

Luciano             Pode ser. Pode ser e o pessoal não quer delicadamente dizer para você que é ruim.

Nuno                 Mas eu acho estranho o meu livro ser ruim com os livros que saem por aí. Acho uma sacanagem.

Luciano             Nuno, nós estamos com muito mimimi aqui, vamos fazer uma coisa, vai tocar suas músicas que eu vou fazer meus negócios aqui e vamos fazer acontecer e continuar montando, pintando e bordando. Quem quiser achar o Nuno para conhecer o trabalho do Nuno, curtir, etc. e tal, site, Facebook, Twitter, como é que é?

Nuno                 O Facebook é uma grande festa diária assim o meu face, só que é assim, o meu perfil está lotado, as pessoas pedem para se adicionar porque fica mais próximo, não se preocupem com isso porque é igualzinho a funpage, funpage tem lá umas 17 mil pessoas e o perfil tem 5 mil explodindo sempre, não dá pra adicionar.

Luciano             É só Nuno Mindelis.

Nuno                 É facebook.com/NunoMindelis. Eu uso pouco o Twitter, estou no Instagranm também, é nmindelis, de Nuno Mindelis e fiz um canal no Youtube, comecei, depois fui…  tive negócio da hérnia de disco, não conseguia mais fazer o negócio, então estou em dívida com os meus associados do Youtube, estou realmente em dívida, preciso escrever um pedido de desculpas ali e tem o meu site que é nunomindelis.com ou nunomindelis.com.br, mas que eu não mexo muito, ele está ali, mas tem lá fale com o Nuno se precisar falar com o Nuno, mas geralmente é mais pelo Facebook e pelo Insta que eu estou, mas eu ia te falar um negócio da gente fazer o que tem que fazer porque o mais importante parece… outro dia não sei quem foi que me falou: Nuno, você está muito hindu ou coisa assim, você está muito zen e tal, mas a verdade é que a felicidade é mesmo essa estrada, não o… tipo a felicidade é o topo da montanha, tipo você chegar no topo é a felicidade, não é, a estrada que leva lá que é a felicidade, então você está correndo com seu pod e com as suas palestras e com o seu trampo todo que tem esse valor todo, eu estou correndo com o meu, a gente se faz o tal do mimimi que faz parte da natureza, mas na verdade são os momentos de felicidade que a gente não vai ser mais que isso. Pode ser mais ou menos alegre aqui e ali, mas é…

Luciano             Você sabe o que eu quero? Eu quero levitar.

Nuno                 Isso, é isso mesmo. Está um pouco como…. uma vez, não sei se foi o Millôr Fernandes ou outro gênio, que o Millôr era um gênio, que diz que, não sei se foi ele, mas se não foi ele foi um gênio no mesmo calibre, mas acho que foi ele, que o que é vida? Ele falou a vida é assim, a gente nasce e morre e no meio a gente vai ao banheiro. Então eu completaria um pouco, no meio a gente toma um café expresso com um amigo e uma breja com um amigo e conversa como a gente conversou agora, isso é felicidade, e vai ao banheiro e morre e nasce, é isso, não tem que….  aliás a felicidade próxima, de novo parece zen, mas está muito próxima de nossa assim, não tem nada a ver, as pessoas procuram a felicidade em distâncias siderais assim achando que está longe, ela está muito mais, às vezes ela está tão perto que ela está de fato muito mais perto às vezes, mas você consegue, sei lá, você vai deitar de noite respira três vezes fundo e acha a felicidade ali, no relaxamento profundo.

Luciano             Meu amigo eu quero terminar esse programa aqui com um presente pra quem está ouvindo a gente aqui e o presente vai ser tocar uma música tua no final do programa, me diz qual é aquela que você quer que eu bote no final aqui, pensa em tudo aquilo que você gravou e fala aquela eu acho que é especial.

Nuno                 Eu tenho duas, uma bandida e uma doce. As duas me dão orgulho do ponto de vista tipo se eu morrer e isso for encontrado, isso foi uma coisa que vai ficar e só pode melhorar. A que eu ia dizer primeiro…

Luciano             É bandida…

Nuno                 … não, eu ia te dizer, se vai terminar, vamos terminar com a doce que era a Angels and Clawns, a música, porque o álbum chama Angels and Clowns, mas tem a música Angels and Clowns e a outra é Texas Baund.

Luciano             Perfeitamente.

Nuno                 Mas isso é muito meu assim, não sei se…. às vezes tem até coisa mais divertida para a galera, mas eu acho que essa …

Luciano             Mas eu quero ir naquela que você…

Nuno                 … mas eu acho que essa…

Luciano             Esse programa aqui é sobre você, nada mais natural do que terminar com a música que você escolheu.

Nuno                 Todo meu fígado entrou nessa… Texas Bound mostra um moleque que ouviu o nascimento do rock progressivo e dos rifs pesados de metal e blues, então ela para mim é o maior resumo de geração daquele momento assim, sabe o que eu quero dizer, não é um blues tradicional, não é um rock, mas é as duas coisas, é a melhor fusão natural que vem justamente do fígado, é que eu acho, foi elogiada até pelo Patrick Ford que é o batera da Ford Blues Band, que na época abriu para mim na França, olha como eu estava importante, num show na França, ele abriu o show, é o irmão do Robin Ford e falou que ia pedir para o Mark, ele vinha com o disco na mão falou onde eu passo só tem rastro seu, tem banda em bar na Holanda tocando essa música e ele diz que ia falar com Mark Ford, com Rob Ford para gravara aquela música que é a Texas Bound.

Luciano            Eu vou fazer o seguinte então, vou dar uma colher de chá para os ouvintes e tocar as duas em sequência, primeiro vai ser?

Nuno                 Bom… aí eu tocaria primeiro a Texas Bound que é mais antiga, por ordem cronológica, com Double Trouble e na segunda o Angels And Clowns, a música com a banda de Duke Robillard Band, para o selo dele, gravado em Boston, foi bom também.

Luciano             Grande Nuno Mindelis, muito obrigado. Valeu a história, Valeu a conversa, eu vou repetir um negócio para você que eu falei ali, eu estava só eu e ele ali conversando no escritório eu estava mostrando as descobertas que eu fiz ali, tocando uma música do Smile, a banda anterior ao Queen, e ele ouviu aquilo e a gente conversando lá, uma hora eu parei e falei Nuno desculpa eu estar falando isso aqui tanto para você porque eu não tenho interlocutor. Eu acho essas coisas aqui, eu curto sozinho, não tem para quem falar, aparece um cara que nem você eu tenho que mostrar.

Nuno                 Foi um petardo assim, adorei ouvir aquilo, muito bom.

Luciano             E foi fantástico aqui, obrigado.

Nuno                 Obrigado, aliás uma dica sobre isso, Juicy Lucy, é uma banda dos anos 70 que durou ali um ano e meio, aliás dura até hoje, um grande abraço, uma grande alegria Luciano,  muito obrigado pelo convite e pelo carinho, pela amizade.

ARTISTAS E BANDAS CITADOS NO PROGRAMA

Airto Moreira 
 
Al Jackson
 
Aquiles Piester
 
BB King
 
Beatles
 
Beethoven
 
Bob Dylan
 
Bob Marley
 
Booker T
 
Canned Heat
 
Carla Thomas
 
Chick Corea
 
Chico e Caetano
 
Chris Lauton
 
Dire Straits
 
Donald Dunn
 
Double Trouble
 
Ed Motta
 
Eric Clapton
 
Focus
 
Ford Blues Band
 
Frank Sinatra
 
Gentle Giant
 
Grand Funk
 
Grateful Dead
 
Harry Bellafonte
 
Haulin’ Wolf
 
Hermeto Pascoal
 
Hooker anda Heat
 
Isaac Heyes
 
Jimmy Hendrix
 
Jimmy Vaughn
 
João Bosco
 
John Hammond
 
John Lee Hooker
 
John Lennon
 
John Maclaughlin
 
John Mayall
 
Johnny Cash
 
Johnny Winter
 
Jorge Benjor
 
Juicy Lucy
 
Keith Richards
 
Kiko Loureiro
 
Led Zepellin
 
Little Walter
 
Mark Knopfler
 
Mick Jagger
 
Miles Davis
 
Novos Baianos
 
Otis Redding
 
Pat Martino
 
Patrick Ford
 
Paul McCartney
 
Peter Green
 
Peter, Paul & Mary
 
Phil Collins
 
Pink Floyd
 
Queen
 
Robben Ford
 
Robert Johnson
 
Rolling Stones
 
Rory Gallagher
 
Roy Buchanan
 
Rufus Thomas
 
Sam & Dave
 
Sam Phillips
 
Secos e Molhados
 
Stax Gravadora
 
Steve Cropper
 
Steve Ray Vaughn
 
Tchaikovski
 
The Animals
 
The Bluesbreakers
 
The Doors
 
The Platters
 
The Who
 
Uncle John
 
Weather Report
 
Wes Montgomery
 
Willie Dickinson

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo