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Ciça Camargo -

Luciano              Muito bem, mais um LíderCast e eu acho legal sempre contar isso aqui porque as pessoas me perguntam, como é que você seleciona as pessoas que vão no LíderCast? É de todo jeito. O programa de hoje, por exemplo, é um ouvinte do Café Brasil que veio nos visitar, assistiu ontem a noite a gravação do Café Brasil e conversando com ele eu descubro qual é a do cara e falo, se você estiver em São Paulo amanhã, vem aqui porque a gente vai conversar. Então pinta assim. O espírito do programa é conversar com gente que faz acontecer, a gente está exposto a essas  pessoas o tempo todo, então não tem mágica nenhuma, acontece como está acontecendo hoje aqui. Você é ouvinte do LíderCast também, já sabe das três perguntas, então vamos aqui, vamos no nosso papo. Como é seu nome, qual é a sua idade e o que é que você faz?

Itamar                Meu nome é Itamar, eu tenho 32 anos e eu sou médico cirurgião geral.

Luciano              Cirurgião geral?

Itamar                Isso.

Luciano              Pensei que fosse uma especialidade. É geral é?

Itamar                Cirurgia geral é uma especialidade, é uma residência médica, tem um processo seletivo depois da faculdade para quem escolhe fazer cirurgia geral, muitos ficam com a cirurgia geral que já é uma especialidade cirúrgica de forma geral, mas mais focada em abdômen e operar trauma. É o cirurgião que fica na urgência normalmente e ela é pré-requisito para a maioria das outras especialidades cirúrgicas, por exemplo, o cirurgião plástico, o urologista, hoje eles fazem cirurgia geral primeiro, depois fazem uma sub-especialidade que a gente fala, naquela área e vão atuar só naquilo.

Luciano              Esse mundo está muito longe do meu, então eu vou fazer pergunta idiota mesmo, mas faz parte do projeto. Você é de onde? Nasceu aonde?

Itamar                Eu nasci em Abelândia, é uma cidade no interior de Goiás, uma cidadezinha de três mil habitantes que fica… passa uns 100 quilômetros da capital, fica próximo de Goiânia.

Luciano              E dai, quando criança falou quando crescer eu vou ser médico?

Itamar                Não, na verdade não foi bem de criança. Eu venho de família humilde, pessoal de agricultor, de sitiante e pessoal de interior, pelo menos lá da região que eu cresci, tem muita daquela questão de ah, eu queria ter um filho doutor, eu queria dar para o meu filho uma condição de vida melhor do que a que eu tive, eu queria que o meu filho não tivesse que trabalhar na roça como eu trabalho, como eu tive que trabalhar. Então a gente ouvia isso desde criança e aí eu fui me interessando aos poucos, fui procurando saber um pouco sobre como é que seria a vida como médico e vi que eu tinha interesse, que eu gostava, que era para mim e com apoio da minha família eu fui atrás disso dai, passou a ser um objetivo meu.

Luciano              E a roça que você fala é roça mesmo, teu pai com a mão grossa…

Itamar                Mão grossa, calejada…

Luciano              Mão grossa de estar lá no campo cinco horas da manhã estar lá carpindo as coisas.

Itamar                Sim, tirar leite de manhã e depois cuidar de lavoura. Na minha infância eu lembro bem deles fazendo isso no modelo antigo, plantando na mão, com matraca que a gente fala lá e cuidando de lavoura pequena no modelo bem… quase que de subsistência mas que é, até hoje ainda tem dele lá na região  que é uma região mais de propriedades pequenas, de pessoal mais humilde, então…

Luciano              Tem irmãos?

Itamar                Eu tenho um irmão mais novo, que também é médico.

Luciano              Pô, mas é uma infância que quando pensa a gente fala: tudo o que eu queria na vida é ter passado uma infância na roça, no meio daquela coisa que mudou muito isso hoje em dia, mas a gente vai chegar lá, porque eu pedi para você vir aqui. Mas vamos lá, você estudou em Abelândia, é isso.

Itamar                Isso, eu comecei a escola lá, fiz a minha alfabetização, o início do colegial ali, aí quando chegou, lá por volta do final colegial, para ir para a oitava série na época não tinha mais opção lá na minha cidade que não fosse estudar a noite, só tinha essa opção, só tem um colégio estadual, então todo mundo ali estudou na escola pública, aí nessa idade meu pai não queria que eu fosse para estudar a noite, porque aí misturava já com pessoal adulto e eu ainda estava com 12 para 13 anos, aí eu me mudei para a casa dos meus avós, que moravam também em um sítio mais próximo de uma outra cidade, um pouquinho maior, onde tinha uma escola privada, escola simples, mas que teria possibilidade de eu continuar meu estudo ali, aí eu morava lá com os meus avós, acordava de manha, 4:30, 5 da manhã, caminhava um pouco ali para chegar até a estrada onde passava o transporte coletivo para pegar a van e ir para o  colégio estudar para começar a aula às 7.

Luciano              Que ano era isso?

Itamar                Isso foi, deixa eu ver, acho que 97.

Luciano              1997. Anteontem. É que você está falando a história aí, eu tenho 60 anos, então você está para mim reproduzindo uma história que eu cansei de ouvir do meu pai, de avós, da turma da muito antiga, nos anos 30, 40 e 50, que era exatamente isso: sai da roça, anda pra cacete, pega lá um tratorzinho, vai até um lugar, faz a escolinha e volta e você passou por isso em 1997, nas portas do ano 2000, quer dizer, quando o mundo já tinha internet, já tinha o diabo acontecendo, você estava indo de buzum para fazer a tua escolinha ali. Mas e aí, essa ideia do ser doutor que você falou que te convenceu, era isso, foi isso? Enquadrou e era isso ou você namorou, deixa eu ir para outra área, tem coisas legais acontecendo, talvez eu possa ser engenheiro?

Itamar                Inicialmente assim, com toda sinceridade, o pai fazia o possível para você entender que estudar era melhor do que não estudar, independente de qual área fosse atuar, porque a opção que sempre era colocada era seguir aquele mesmo caminho que é muito honesto, muito digno, mas muito sofrido, de trabalhar ali na lida do campo, ou estudar, que fosse para médico, para advogado, para engenheiro, não  tinha que ser necessariamente médico, apesar de existir até hoje uma admiração considerável no interior ainda pela profissão de médico, mas não tinha necessariamente que ser médico, então quando eu comecei a estudar eu pensei em outras possiblidades, eu gostava de desenhar, eu pensei em talvez fazer arquitetura, mas parece que não foi um momento, uma virada específica, eu fui começando a me interessar pela questão da medicina, achei que poderia seguir esse caminho, via que muito pouco contato, porque não tinha, na minha família a geração anterior à minha ninguém da família do meu pai concluiu uma faculdade, ninguém fez, são sete irmãos, ninguém até aquele momento tinha tido a oportunidade de fazer, então da minha geração a gente saiu…

Luciano              Teu pai chegou a fazer o ensino básico? Ele fez?

Itamar                Sim, ele fez até a quarta série, foi alfabetizado, ficou bom de matemática básica pela necessidade do dia a dia, mas não teve uma educação formal assim que fosse uma graduação, uma pós-graduação, não teve nada disso. E eu comecei a me interessar, fui para o colégio, morei um tempo lá com os meus avós, depois a gente mudou para um outro sítio aí junto com meus pais, mais perto de uma outra cidade e ali eu fiquei mais um tempo, depois a gente voltou para a cidade onde eu nasci, lá em Adelândia. Aí eu ia e voltava todo dia com o carro para chegar até a escola, são uns 40 quilômetros de estrada de chão e aí o meu irmão, uns primos e o motorista na verdade era eu, que ainda era menor de idade, mas tinha que ser eu para cabermos todo mundo no carro para  ir lá estudar, assim foi para terminar o segundo grau para poder prestar vestibular.

Luciano              E aí, pinta um vestibular, como é que é? Eu estou especulando porque é o seguinte, você está trazendo para mim e eu acho que a maioria das pessoas que ouvem a gente aqui, uma perspectiva que a gente realmente não tem, isso aqui é um lugar urbano, eu sou um cara urbano, por mais que eu tenha vindo de Bauru, mas eu sou urbano e a maioria de quem ouve a gente aqui é urbano, então esse teu ponto de vista aí é precioso, que você não é um cara urbano, você está na roça e esse olhar aqui me interessa bastante. Pinta a hora de vir no vestibular, você não tinha 12 escolas para escolher, ah vou prestar vestibular aqui e ali, não era assim, era o que tem e vamos lá.

Itamar                É, eu ia prestar Goiânia, capital do estado e aí fui prestar também em uma escola no Rio de Janeiro, porque tinha um primo que estava estudando lá, mas foram poucas opções de foi um grande choque de realidade para mim em relação ao vestibular porque eu achei que tinha alguma condição de passar no vestibular e eu vi que eu estava bem distante da possibilidade de passar num vestibular para medicina, principalmente na escola pública, então naquele ano fiquei muito distante de alcançar uma vaga, e aí fiz o caminho fiz o caminho que todo mundo que quer fazer a medicina e praticamente todo mundo faz: ir para o cursinho pré-vestibular e estudar. Foi aí que eu fui para Goiânia, eu tive que ir para a capital, aí com 17 para 18 anos.

Luciano              Trabalhando também ou não? Ou só estudando?

Itamar                Só estudando, aí meu pai, felizmente, tinha condição de me dar uma possibilidade de ficar lá, fiquei num casinha, no fundo de uma outra casa, caminhava um pouco mais de três quilômetros dentro da cidade para chegar até a escola e voltava, mas não precisei trabalhar para fazer isso não,  com esforço dele e da minha mãe lá eles conseguiram me disponibilizar isso daí.

Luciano              Estão vivos eles ainda?

Itamar                Estão, graças a Deus estão bem.

Luciano              Que legal. E aí passou?

Itamar                Não. Aí eu fui para o cursinho, fiquei lá um ano, cursinho enorme, cheguei lá, não conhecia ninguém, no cursinho onde eu estava preparando para o vestibular tinha 900, quase todo mundo medicina. Ainda me lembro que a gente fez um simulado lá na chegada, de início, dos 900 eu fiquei em oitocentos e alguma coisa, mas eu tinha, aí eu já estava bem claro para mim o que eu queria fazer, o que eu tinha que fazer. Fui disciplinado, bastante disciplinado aquele ano para um garoto de 17 para 18, eu não tinha festa, não tinha final de semana, não tinha isso, eu estudei um ano inteiro.

Luciano              Você focou.

Itamar                Foquei. Ali era do cursinho para casa, de casa para o cursinho e cada novo simulado que ia tendo durante o ano eu via que eu estava evoluindo, que eu estava escalando, eu percebia que ali no cursinho a média de permanência ali era mais longa, o pessoa ficava em média dois, três anos ali no cursinho, mas eu pus na minha cabeça que eu não queria ficar aquilo tudo lá não, que eu tinha que passar logo, começar a fazer minha faculdade, começar a trabalhar. Meu pai ensinou a gente desde cedo a o quanto antes conseguir ter seu próprio dinheiro, ter o seu trabalho, que as coisas não vêm de graça, não vêm fácil e apesar de ele ser sempre um pai amoroso e disponibilizando para a gente o que ele podia em questão financeira, não tinha nada que não tinha que ter uma contrapartida. Para ter tal coisa tinha que fazer por merecer, então eu tinha pressa, eu não estava no cursinho a passeio, então estudei bastante aquele ano, aí felizmente no final do ano eu consegui passar. Aí passei.

Luciano              Sorte que você ainda teve essa consciência, porque você podia ser um baita de um louco, chegar lá, ver aquele mundo maluco, festa que não acabava mais, em Goiânia então, festinha de lá,     tinha tudo para…

Itamar                Tinha, opção não faltava. Mas valeu a pena.

Luciano              Legal. Estamos quase chegando na hora que eu quero, quero te pegar pelo pulo aí. Bom, escola de medicina não é uma escola fácil, não é curta, não é fácil, quando você pensa que está chegando lá e tem mais um pedaço, e tem mais uma parte, não acaba nunca essa história toda. Quanto tempo levou para você pegar o canudão na mão e falar sou médico e posso começar a trabalhar?

Itamar                Seis anos. São seis anos da graduação.

Luciano              Teve graduação para valer.

Itamar                Aí eu me graduei médico, aí depois, isso foi final de 2008, aí eu fui convocado para prestar o serviço militar, que eu tinha sido dispensado quando eu fiz os 18 porque eu estava indo para a faculdade, aí completada a faculdade eu fui convocado a servir como médico, aí eu fiquei um ano trabalhando como médico para o exército brasileiro, que foi uma experiência também muito boa.

Luciano              Aonde?

Itamar                Eu fui para Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Luciano              Deixa eu voltar ali atrás, como é que chama teu pai e a tua mãe?

Itamar                Meu pai é Itamar, eu sou Itamar Junior, minha mãe é a Neide, dona Neide.

Luciano              Dona Neide e seu Itamar. Eles estavam lá na formatura?

Itamar                Estavam.

Luciano              E aí?

Itamar                Nossa, muito legal, muita emoção, eu me senti…

Luciano              Você é o mais velho?

Itamar                Sou o mais velho.

Luciano              Então o primeiro canudo foi o seu.

Itamar                Foi.

Luciano              E aí? Os dois com a enxadinha na mão vendo o moleque de beca e tudo? Você estava de beca e tudo, com o negócio na cabeça e tudo?

Itamar                Tudo, colação de grau, certinha, bem feita, baile de formatura, juntou a família toda, pegou um ônibus, fretaram um ônibus lá em Goiás e foram lá para Cuiabá para participar da festa.

Luciano              Que legal.

Itamar                Com a turma toda, mais de trinta pessoas vieram para participar junto comigo.

Luciano              Pô, um filho doutor, teu pai deve ter ficado no céu.

Itamar                Ah ele adorou.

Luciano              Era o resultado não é? Aquele trabalho todo.

Itamar                Sim.

Luciano              Dessa história tem de milhares no Brasil, tem de milhares e as pessoas parecem que não dão muito valor para isso de imaginar o que pode se passar na cabeça de um pai quando vê o moleque chegou lá. Chegou lá e deu certo. Mas aí está chegando num momento legal, então vamos lá, você pegou o teu diploma na mão, agora você é um médico e você tem o mundo diante de você, você pode escolher, eu vou ficar em Cuiabá, vou para o Rio de Janeiro, vou para Nova York, vou para Cingapura, eu tenho o mundo à minha disposição. O que você resolve fazer?

Itamar                Eu fui para o exército, fui voluntário, eu queria ficar um ano lá no exército, tinha essa curiosidade de ver como é que seria, eu estava já há seis anos na cidade grande e queria servir para mudar um pouco o ambiente, para conviver com o pessoal um pouco diferente, porque a medicina, como é um curso integral, com a carga horária muito grande, a gente se fecha muito àquele grupo ali até por questão de afinidade dos assuntos, de tempo, então eu  convivia o tempo inteiro com acadêmicos de medicina, com médico e eu sempre tive curiosidade em conhecer, conversar com pessoas de um ambiente diferente do meu, de uma vivência diferente da minha porque eu acredito que isso sempre agrega, sempre traz uma perspectiva nova, conhecimento e eu tinha passado também já na prova para me especializar em cirurgia, porque durante a faculdade eu percebi que dentro da medicina, que é muito ampla, o que eu gostava, o que eu achava legal era cirurgia, era operar, era fazer um plantão de urgência e poder atender um baleado, um acidentado de trânsito, a gratificação que eu percebia que o pessoal que já fazia aquilo, eu estava lá como estagiário, tinha eu vi que eu queria também  para mim e…

Luciano              Isso era uma coisa que eu gostaria de especular um pouco com você, porque a gente não é todo mundo que tem esse pendor de você, eu estou aqui num lugar, a porta vai se abrir, eu não sei o que vai entrar lá, vai entrar um sujeito sem o braço direito, vai entrar outro com uma faca enfiada na barriga, vai entrar uma criança com a perna quebrada em três pedaços, tem que ter uma estrutura para você ver essa pessoa chegar e falar vou arrumar essa pessoa. Da onde vem isso? Por que você não sai correndo e pula pela janela, mas fica lá, é comigo mesmo. De onde vem isso?

Itamar                Bom, primeiro da formação, a gente aprende tecnicamente a lidar com isso, apesar de que cada caso que entra é diferente do outro, nunca é a mesma coisa, mas a gente tem protocolo para atender, tem uma sequência para seguir, isso dá uma certa tranquilidade que a gente quando chega aquele ambiente que é sempre cheio de emoção, é estresse, é o paciente que às vezes está mal, está gritando, ou ele que não está gritando, mas a família está próxima ali, está desesperada e a gente se coloca às vezes naquela posição, poderia ser eu ou ser um dos meus ali, mas ao mesmo tempo a gente busca focar, tranquilizar a cabeça, colocar o protocolo de atendimento em mente e executar, porque a gente tem que pensar que alguém tem que manter a calma aqui para isso aqui não virar um caos e se alguém tem que manter a calma aqui, sou eu.

Luciano              Que seja o cirurgião, pelo amor de Deus.

Itamar                Então às vezes a gente se depara com situação que você sabe que a chance de ter um desfecho pior possível ali é muito grande, às vezes você tem que dar a notícia pior para a família que está lá fora, depois da cirurgia, mas é isso aí que eu escolhi fazer e eu tenho que estar sempre tranquilo focado em fazer o que eu tenho que fazer.

Luciano              Você no exército, você ficou baseado em Campo Grande, é isso?

Itamar                Baseado em Campo Grande, às vezes a gente saía para alguma missão, mas eu fiquei baseado lá, teve colegas meus de turma que foram para a fronteira, que foram para o interior.

Luciano              Você ficou lá, baseado ali. Deve ter dado uma escola legal aquilo lá, você aprendeu um pouco mais, mas aí termina…

Itamar                O serviço militar.

Luciano              … o exército e aí? Chegou a hora de eu escolher onde é que eu vou pousar.

Itamar                Aí eu voltei para Cuiabá, para a mesma escola que eu fiz a faculdade, na Universidade Federal do Mato Grosso para fazer a residência em cirurgia geral, porque eu já sabia que era isso que eu queria…

Luciano              O exército não valia como residência?

Itamar                Não. O exército não. O exército…

Luciano              Não conta nada.

Itamar                … não, não conta nada. O exército para alguns ele é obrigatório, o exército ele tem uma quantidade de vagas que ele preenche todo ano, de demanda, de necessidade médica com médicos que são formados e que não tiveram, não prestaram o serviço militar anteriormente, eu fui como voluntário e eu já tinha feito, no final do meu sexto ano de faculdade, a prova para residência, porque é um novo processo seletivo assim como o vestibular, com a diferença que ali só tem médico disputando, porque é uma vaga para especialização médica e quando o médico passa nesse concurso, o médico homem que é convocado para o serviço militar obrigatório, a instituição segura a vaga para ele, para o ano seguinte, então quando eu voltei no ano seguinte para Cuiabá, eu já tinha a vaga à minha disposição que eu já tinha conseguido no ano anterior, para fazer, então durante o ano que eu estava no exército eu já sabia que no ano seguinte eu voltaria para Cuiabá para fazer a minha especialização.

Luciano              Quanto tempo de especialização?

Itamar                Cirurgia geral dois anos.

Luciano              Quer dizer, mais dois anos praticamente estudando, não é isso?

Itamar                Dois anos estudando, aí só a parte da especialidade.

Luciano              Você já estava com que idade?

Itamar                Eu estava com 25 aí.

Luciano              25 anos, mais dois anos, saiu de lá com 27? É isso?

Itamar                Isso.  Com 26.

Luciano              26, médico formado e pronto para poder clinicar, é isso?

Itamar                Isso.

Luciano              Legal. Casado, solteiro, viúvo, o quê?

Itamar                Terminei a residência casado. Casei durante a residência.

Luciano              Legal. E aí? Termina a residência, pelo o meu diploma, agora vou trabalhar para alguém, vou montar minha clínica, vou fazer o que da minha vida? Vou para o SUS? O que eu vou fazer da vida?

Itamar                Então, aí eu terminei e fiquei esse dilema, o que eu vou fazer da minha vida. Eu tinha dois possíveis planos, duas coisas que na minha cabeça eu tinha em mente que seriam interessantes para mim, uma era ir para o interior trabalhar, porque eu sempre gostei do interior, eu entendia a necessidade de eu estar na cidade grande para aprender, para me formar, mas eu gosto da vida da cidade pequena e a outra era fazer uma especialização em cirurgia plástica, que foi dentro da cirurgia geral uma especialidade que me chamou a atenção, mas a cirurgia plástica ia me segurar na cidade maior, ia me distanciar também da urgência e eu fiquei mais um ano em Cuiabá trabalhando como cirurgião, daí que foi uma experiência muito boa para mim, porque aí o dia a dia era pronto socorro de cidade grande.

Luciano              Meu Deus do céu, eu não consigo imaginar quantos ofícios possam existir mais demandantes do que um médico plantonista de um pronto socorro. Não passa pela minha cabeça, só de imaginar o que é aquilo num país como o Brasil, que não tem nada simples, não é nada fácil, não tem nada prontinho e você ficou quanto tempo? Um ano?

Itamar                Eu fiquei um pouco mais de um ano, quase um ano e meio trabalhando em Cuiabá, em Várzea Grande, ali na capital, praticamente só com pronto socorro, plantão de porta, que a gente fala.

Luciano              Deixa eu te especular um pouco aqui agora, o cara para ser médico num pronto socorro, tudo bem, a parte técnica, tem que saber jogar com a bola, sei fazer embaixadinha, eu sei fazer cruzamento, eu sei chutar de longe, está tudo lindo, maravilhoso, mas tem que ter uma estabilidade psicológica que aquilo é uma demanda, aquilo que você falou agora há pouco, a família entra gritando, porque se é pronto socorro é porque me deu uma dor de barriga vou lá fazer exame, eu estou ferrado, já cheguei lá… então você tem que ter uma estabilidade emocional ali, você sendo cirurgião, você deve estar liderando o grupo que está em  volta e tudo mais, onde é que você aprende isso? Qual é a escola que ensina isso?

Itamar                Na verdade não ensina. Isso aí você acaba pegando um pouco da prática nos estágios de graduação que quando a gente está na faculdade, algumas mais, outras menos, mas o graduando, ele tem que participar, ele tem que ver o especialista já atuando para ver como é que é e a gente vai vendo, mas cada um desenvolve meio que o seu jeito de lidar com isso e você tem, como eu disse, manter a tranquilidade e atender e às vezes chega um acidentado, às vezes chega um bandido que a polícia traz, às vezes chega um pai de família que o bandido atirou nele e a gente como médico tem que atender todos da mesma forma e fazer o que estiver ao alcance para recuperar a saúde de cada um.

Luciano              Então, eu estou tentando especular com você o seguinte aqui, eu estou aprendendo, tem um cara experiente, eu estou do lado dele, eu estou vendo como é que faz e o meu foco está em saber como é que ele vai fazer a costura, como é que ele vai abrir, o que ele vai tirar, como é que ele vai botar, meu foco não está no jeito com que ele está falando com o paciente, na forma como ele vai dar a notícia para a mãe, entendeu? Eu não tenho foco, meu foco está, eu vou ficar ali, eu quero aprender a lidar com as coisas, eu não estou preocupado com essa parte psicológica e tudo mais e eu acho que hoje em dia, isso talvez seja a parte mais, eu como paciente, eu posso dizer, tudo bem, a parte técnica eu entrego na mão do médico, eu não tenho nada a fazer, agora a parte como ele me trata, como ele fala comigo, na situação eu estou lá, eu estou como um paciente, eu estou entregue, eu estou acabado, tudo o que eu não quero é um cara que não consiga falar comigo, esse falar comigo, esse treinamento, essa coisa de um ser humano na minha frente,  numa condição de fragilidade absoluta, qualquer coisa que eu disser aqui, do jeito que eu disser eu acerto a boca desse cara aí e eu posso destruir o cara ou então mantê-lo em pé,  quer dizer, é uma responsabilidade gigantesca. Como é que você, teus colegas, a molecada, conversava sobre isso? Falava sobre essa importância?

Itamar                Isso vem de um monte de fatores, vem muito, eu acho, da própria personalidade da pessoa, da criação que teve, isso vem de muito antes da faculdade, boa parte disso, de como é que viu as pessoas se tratando durante a sua infância,  ter um pouco de empatia, conseguir se colocar no  lugar de quem está ali como paciente, mas isso também, pelo menos na minha experiência pessoal, é conversa de faculdade, não é formal, não está no livro, mas quando a gente está lá como graduando e um paciente que a gente está cuidando junto com o médico residente, falece, morre,  a gente sente aquilo, e a gente conversa entre nós, os acadêmicos, os residentes, de como se sentiu, da experiência que teve e isso vai moldando o médico, alguns ficam duros demais até, eu acho, a pessoa perde a capacidade de ser empático, de se emocionar com aquela situação, outros acho que ficam no outro polo e sofrem demais junto com o paciente, com a perda que às vezes é inevitável, com as deficiências do serviço, que às vezes não oferece a estrutura que ele precisava e ele perde  um paciente, então tem muito caso de depressão, de deixar a profissão porque é difícil lidar com isso e a gente busca o equilíbrio nesse ponto aí, de ser empático o suficiente para dizer “eu não vou fazer o mínimo necessário aqui, eu vou fazer o máximo possível, eu vou fazer o  que  eu puder para ajudar a resolver”, mas a gente tem que conseguir, no final do plantão, desligar aquilo e ir para a casa, porque chega em casa você tem família, você tem uma vida lá fora que você tem que tentar deixar aquela angústia do hospital lá no hospital, porque é um turbilhão de emoção ali, ao mesmo tempo que tem sensações de perda, tem sensações de alegria e  prazer que…

Luciano              Prazer de você olhar e falar salvei a vida…

Itamar                … é uma coisa que para quem gosta, a gente fala assim, eu faria de graça, eu não faço de graça porque eu tenho minhas contas para pagar, mas aquela satisfação do serviço bem feito, da família que te agradece, da mãe que chega e fala que vai rezar, vai orar por você, pelo que você fez pelo filho dela, aquilo ali o dinheiro não paga.

Luciano              É, isso é o ser médico, aquela história do ser médico. Mas vamos lá, você então está diante do dilema, para onde é que eu vou, fico aqui, volto para o interior? Legal você já ter esse lado de que se eu voltar para o interior está tudo bem, é daquilo que eu gosto, é aquilo que eu amo, então você não viveu o conflito que a maioria dos caras vivem, que a turma vem para cá, sai todo mundo do interior e vem para cá, eu quero ficar na cidade grande, eu quero ter um baita consultório, eu quero ser um médico famoso, ficar milionário e se bobear vou morar no EUA e etc. e tal. Você decidiu fazer o percurso contrário, eu vou para o interior, isso foi uma decisão?

Itamar                Foi.

Luciano              Pegou tua esposa, de onde ela era?

Itamar                De Sinope, no Mato Grosso.

Luciano              Sinope, também interior.

Itamar                Também interior, uma cidade maior, com um pouco mais de estrutura, mas também do interior e aí nós decidimos testar ir para o interior, porque eu fiquei esse ano trabalhando em Cuiabá e a gente conversou, eu falei olha, eu estou mais para a gente ir para o interior, eu não estou com tanta vontade de fazer mais essa residência, comecei a… talvez esse convívio mais intenso com a urgência nesse um ano que eu trabalhei lá, me afastou um pouco da parte estética da cirurgia plástica que eu achava sempre muito bonita, mas eu vi que assim, para mim teria mais propósito eu ficar mais na parte de urgência.

Luciano              E você ali sabia que você indo para o interior você estaria…

Itamar                Abrindo mão da cirurgia plástica.

Luciano              Fechando tua capacidade de voar, hoje em dia você já tem acesso a tudo no interior, você consegue até estudar pela internet, é muito diferente do que era antigamente. Eu fiz uma entrevista com o governador de Rondônia, ele é médico e ele conta uma história parecida com a sua nos anos 50, escolho ir para o interior nos anos 50, aí seja o que Deus quiser, então não havia nem como entrar em contato com as pessoas, hoje em dia já mudou bastante, mas mesmo assim você escolher ir para o interior, você está abrindo mão de todo um glamour da medicina nos grandes centros e tudo mais. Mas legal, é uma decisão que precisa ser respeitada. Escolheu voltar para onde?

Itamar                Escolhi ir, não era voltar, fui para o interior do Mato Grosso próximo da divisa com o Pará, eu sou do interior de Goiás, então eu fui para mais longe da minha família, eu estava em Cuiabá, são uns 800 quilômetros de onde eu morava, eu fui mais 700 para cima.

Luciano              Você está a 1500 quilômetros de Cuiabá.

Itamar                Eu estou a 700 de Cuiabá.

Luciano              E você está em Matupá, foi lá que você escolheu.

Itamar                Foi lá que eu escolhi.

Luciano              O que você fez, você botou um mapa, deixa eu ver onde meu dedo cai e caiu e Matupá e você foi para lá?

Itamar                Tinha um amigo médico que tinha ido para lá, uns dois, três meses antes, que tinha passado num concurso para médico do INSS e ele estava lá, ele tinha feito a faculdade junto comigo, ele sabia do meu interesse pelo interior, a gente tinha se formado junto e aí ele me falou, o pessoal aqui está precisando de cirurgião, vem aqui, conversa com eles, aí eu fui…

Luciano              Quem é esse pessoal?

Itamar                Prefeitura. Serviço público.

Luciano              Eu andei especulando isso aí. Há um tempo eu estava escrevendo algumas coisas, foi quando estourou a história do Mais Médicos e tudo mais, que se criou aquele conceito de que o médico brasileiro é um puta de um…

Itamar                Mauricinho, que só quer ficar…

Luciano              … só que saber de dinheiro, ninguém quer ir para o interior, logo eles vão para o interior, não tem médico, portanto está todo mundo ferrado lá, nós vamos trazer os médicos de Cuba para cobrir esse buraco porque os brasileiros não querem ir para lá. E você vem aqui com uma história ao contrário, você falou eu vou, não é que você foi para Sinope, você foi para Matupá. Quantos habitantes tem?

Itamar                15 mil.

Luciano              Quando você foi tinha por aí também?

Itamar                Uns 13 e um pouquinho.

Luciano              13 mil habitantes. Quer dizer, pô um casal jovem, médico, decide ir para Matupá, que eu nem sei onde fica esse negócio, e aí? Qual e a expectativa, o que se passa na cabeça de alguém que diante de todo mundo indo para uma direção, resolve ir para outra? Todos os teus amigos que formaram com você estavam lá se colocando, abrindo a clínica dele e você fala não, eu largo isso aqui e vou para lá, não ficou uma história de estou cavando meu buraco, ali eu vou ficar…

Itamar                Eu ouvi  uito de colega que você está indo para lá, você depois vai se desatualizar, você vai ficar lá sozinho, você vai ficar à mercê de decisão política, você não vai receber pelo seu serviço, vai levar o cano, não vão te pagar, a gente ouve isso, a graduação inteira.

Luciano              Teus filhos não vão ter onde estudar…

Itamar                Meus filhos não vão ter onde estudar, eu não vou ter nada o que fazer naquele lugar, mas…

Luciano              E não é assim?

Itamar                Em parte é.

Luciano              E aí?

Itamar                Mas nada disso era muita novidade para mim, eu vim de uma cidade que é assim que funcionavam as coisas e eu tinha na minha cabeça aquela visão do médico que é uma pessoa importante na cidade, uma pessoa que tem um papel. Parece que eu não ia me sentir bem se eu tivesse dentro da cidade grande escondido, ninguém sabia quem eu era, ninguém que eu operava me via, porque na cidade grande você opera um paciente num plantão, no outro dia não é você quem dá alta para ele mais ás vezes, é um outro médico e aquela pessoa não te vê mais e você não vê ela mais, você não sabe se ela ficou bem e foi embora, você não sabe se ela não evoluiu bem, eu sentia que faltava isso aí para mim, eu precisava estar num lugar onde eu fizesse parte, eu pudesse ter mais contato com o paciente e esse medo de sair da cidade grande, por estar longe da estrutura, longe dos restaurantes, longe dos grandes hospitais, eu procurava me manter tranquilo em relação a isso, eu fui pensando, eu faço o que tiver no meu alcance.

Luciano              Deixa eu dar uma pausa aqui para o pessoal que está nos ouvindo saber, o Itamar está aqui comigo porque ele veio para São Paulo fazer um curso de?

Itamar                Ultrassonografia.

Luciano              Ultrassonografia, ele saiu de lá de Matupá, veio para São Paulo, ficou aqui quanto tempo?

Itamar                Duas semanas.

Luciano              Duas semanas aqui fazendo um curso, quer dizer, ele não está parado perdido lá no meio, ele se vira, arruma as coisas dele, veio para cá, faz, atualiza e volta para lá, quer dizer, tem essa visão. Mas aí você foi para lá e encontrou o que diante de você? Uma cidadezinha organizadinha, tudo bonitinho, o centro médico lá, hospitalzinho, estava tudo arrumadinho? O que você achou lá?

Itamar                Não o hospital pequeno com a estrutura pequena, mas assim, faltando muita coisa. Mas eu confesso que, pessoalmente eu tive sorte, eu peguei um período com uma administração que, dentro das suas limitações, estava com a intenção de fazer a coisa acontecer, então eu assumi a diretoria clínica do hospital, eu fui sempre em contato com a secretária de saúde, a gente foi aos poucos ajudando ali, melhorando a estrutura, equipando o hospital, o centro cirúrgico.

Luciano              Quando você fala hospital que é um hospital numa cidade dessa dimensão?

Itamar                O hospital numa cidade dessas é um hospital com uns 15 leitos, um centro cirúrgico com duas salas e que sempre funciona uma só…

Luciano              Uma equipe de quantas pessoas no hospital?

Itamar                … olha, equipe médica eu acho que contando o pessoal, os clínicos que atendem lá na frente, a gente não chega a dez, equipe pequena, todo mundo se conhece, todo mundo  mora por ali e fomos melhorando assim, a gente consegue fazer cirurgia lá, eu…

Luciano              Quanto tempo faz isso?

Itamar                … eu fui para lá em 2013.

Luciano              13, então você está há qutro anos que você está lá…

Itamar                Lá em Matupá.

Luciano              Em Matupá. Tá.

Itamar                Tem um anestesista que atende, porque assim, no interior, as cidades pequenas não tem condições de manter, às vezes, o profissional só para ela, então as cidades se juntam em um acordo, ás vezes tipo consórcio, uma coisa assim, para pagar o profissional, ele trabalha numa área, numa cidade, trabalha também na outra.

Luciano              E nós estamos falando de Mato Grosso e não é São Paulo e Osasco, que atravessou a ponte, está ali, eu estou falando do Mato Grosso, Mato Grosso uma cidade quando vai perto da outra é 200 quilômetros, de terra batida, de chão batido.

Itamar                Às vezes é. Lá essa realidade, por exemplo, que você conhece muita gente que fez há 40, 50 anos, que eu fiz há menos tempo, tem muita criança fazendo hoje, tem vilarejos que estão há 200 quilômetros de Matupá, na área rural, que pega 200 quilômetros de chão para chegar na cidade de15 mil habitantes para fazer as compras do mês e levar de volta e essa criançada está fazendo esse percurso aí para estudar.

Luciano              Que loucura. Eu fiz o circuito Aprosoja em 2014, uma das coisas que mais me deixou assim, é inacreditável, eu fazia um evento por noite, cada cidade um evento por noite, então para sair de uma cidade para outra, dependendo de onde fosse, era um aviãozinho, era carro, era uma loucura e a gente fez um evento, passamos o dia na cidade, fizemos o evento à noite, no dia seguinte de manhã a gente foi para outra cidade, chegamos lá eu encontrei a presidenta do sindicato rural da cidade anterior onde eu estava no dia anterior, então eram seis horas de estrada, 300 quilômetros, uma coisa assim, falei ué, você está aqui? Ela falou, pois é eu estou aqui, eu vendi um carro lá, eu vim aqui para poder registrar o documento de venda e agora eu vou voltar para lá. Como assim? Seis horas de estrada para registrar um documento e voltar. E eu conversando com os caras lá, falei mas é… Não, aqui é mais ou menos assim, não tem cartório, o cartório é só lá, aqui tem uma limitação.  Eu estive lá, conheci o pessoal da medicina lá também, ele falou se tiver uma coisa mais complicada tem que tirar daqui. Como é que tira? Tem que botar no avião e mandar a pessoa para não sei onde. Quer dizer, é uma coisa que é meio inconcebível para a gente que está na cidade grande aqui porque aqui eu tenho opções para tudo quanto é lado, você não tem isso, então quando a porta se abre e entra alguém que você não sabe como vai entrar, você não sabe se você vai ter condições de resolver aquela barra ali na hora e se não tiver vai ter que tomar uma providência que não é pegar o telefone e liga: manda a ambulância vir pegar, não é assim. Como é que vocês lidam com esse seja o que Deus quiser?

Itamar                Então, a gente faz o possível sempre pelo paciente, isso no caso do paciente grave é estabilizar o paciente que a gente fala, então às vezes é uma cirurgia de um porte que eu não deveria fazer lá, que eu não tenho a UTI lá, a UTI mais próxima está em Sinope, é 200 quilômetros que raramente tem vaga, às vezes a gente tem que colocar o paciente na ambulância, levar até Cuiabá, que são 700 quilômetros, então se eu tenho um paciente que se acidentou e está sangrando, independente do porte da cirurgia eu tenho que fazer, eu tenho que fazer porque se eu não fizer e colocar ele na ambulância eu sei que ele não vai chegar lá, então é avaliado cada caso, se é um caso que tem complexidade maior do que a gente consegue resolver lá e eu tenho tempo hábil para fazer isso e isso é uma decisão médica e que está sujeita a não dar certo, a gente não está livre de errar, eu encaminho o paciente. Agora, quando é um paciente de um trauma, por exemplo, eu tenho que operar, eu tenho que solicitar sangue, que às vezes vem de longe, para transfundir quando eu preciso, a gente tem que aparelhar ali um quarto do hospital para fazer o mais parecido com a UTI que a gente pode montar ali, manter o paciente entubado em ventilação mecânica, fazer droga vasoativa para manter a pressão dele, porque está mantendo estabilizado e se ele estabiliza e melhora, a gente manda ele, se ele não estabiliza, a gente tem que ficar com ele ali mesmo fazendo o possível por ele porque colocar ele no transporte é mais arriscado. Então a distância para a gente é uma limitação importante, porque se fosse um hospital próximo, mesmo o paciente estando ainda um pouco instável, estando grave, como o transporte é curto, a gente pode fazer, lá para nós não. Então às vezes a gente tem que fazer cirurgia de cólon, cirurgia de tórax, cirurgia do que precisar, não uma cirurgia eletiva, que a gente fala, que é uma cirurgia que o paciente está precisando, eu marco o dia, agendo e faço, isso a gente também faz, mas em cirurgias de porte um pouco menor, agora, na urgência que é o que eu sou mais apaixonado por fazer, tem que fazer.

Luciano              Então, me fala dessa adrenalina, você tem um cara prostrado diante de você, você tem na tua mão um instrumento, um bisturi que você vai enfiar no peito do cara e vai abrir o peito desse cara de alguma forma você vai abrir um buraco nele e o resultado disso você não sabe qual vai ser, pode ser que tudo bem, vou dar o melhor de mim para tirar esse cara dessa e salvar a vida dele, é claro que esse é o teu pensamento, mas tem um puta risco de essa coisa dar errado e você, diante disso aí, deve dar uma adrenalina gigantesca, porque chegou a hora, agora eu vou enfiar o instrumento nele e daqui para a frente seja o que Deus quiser. Existe esse seja o que Deus quiser? Ou é agora eu virei um técnico, sai da minha frente, só vou enxergar a função que eu tenho que fazer aqui e esqueço do resto? Como é que é? Você se atira de corpo e alma?

Itamar                A concentração nessa hora é total, a gente não vê mais nada, não pensa em mais nada, o foco é no paciente e quanto mais grave ele está, parece que mais a gente entra nisso e assim, dá uma adrenalina, mas é uma adrenalina que vem junto com a sensação de importância, entendeu? É uma adrenalina que vem junto, é para isso que eu sirvo aqui, então é a minha hora de fazer porque eu estar aqui.

Luciano              Você sabe que esse aqui é um programa sobre liderança e empreendedorismo e as pessoas acham que aqui a gente só fala de cara que monta empresa e sai fazendo acontecer, pelo contrário, eu falo com gente que faz acontecer e você me dá uma porrada de exemplos aí de momentos que tem que tomar a decisão e a decisão ali é tua, não adianta virar para o lado e perguntar ô Zé, como é que é? Vamos nós juntos? Não tem nós juntos, você é o cara, a decisão é tua e a consequência também vai ser sua ali. Você não foi treinado para esse momento? Você teve que aprender isso com a mão no sangue, é isso?

Itamar                É, a decisão, ela é sempre baseada em critério técnico, mas ela nunca é simplesmente técnica, a gente contextualiza, a gente vê todo o cenário do que está acontecendo, de como é que está o paciente, como é que está a família, então a faculdade, ela te dá a parte técnica disso, mas isso eu acho que é uma coisa que tira um pouco o médico do interior porque muitos não gostam disso, de você estar meio que sem retaguarda, você não tem, ah isso aqui está difícil para mim, vou chamar o colega, ou vou mandar para o hospital tal, não, é ali, sou eu com pessoal que trabalha comigo, porque é toda uma equipe, ninguém, na profissão médica, faz nada sozinho, principalmente em cirurgia, mas a decisão do que fazer, de como fazer, a responsabilidade pelo resultado que vai ter, é principalmente do cirurgião, a notícia boa, a notícia ruim que tem que ser dada depois, quem vai fazer isso é o cirurgião.

Luciano              Sim. E você está atuando num segmento que é o segmento da saúde brasileira, que tem… eu fiz uma entrevista aqui fabulosa com o Alexandre Barroso, quatro horas de entrevista, tri transplantado e tudo mais e a hora que eu perguntei para ele sobre a questão de como é que é? Uma doença como essa quebra as pessoas, você não tem dinheiro para mais nada. Ah vendi tudo, fiquei duro e dali para a frente tinha que continuar o tratamento e é um tratamento milionário, eu gasto 50 mil reais de remédio por mês, cada exame é dois pau e meio, é um volume de dinheiro assim impensável e o SUS cobrindo tudo para ele. Então de um lado senta na minha frente aqui um cara que me desenha uma realidade que você fala não é possível, ele não, o SUS, entrei no SUS e o SUS é o melhor sistema de saúde do mundo. Eu estava falando com um cara que sobreviveu a três transplantes. Por outro lado eu abro o jornal e tem uma foto dos caras jogados no chão, não tem sutura, não tem mertiolate, não tem gaze, os caras largados no fim do mundo, quer dizer, são dois extremos, de um lado o sistema de transplante brasileiro funcionando que é uma beleza e do outro lado o pessoal jogado no chão gelado e morrendo na fila do hospital, esse é o lugar que você atua, é nesse segmento que você atua, não sei em que ponta você está, eu sei que você está no fim do mundo lá e de repente você quer fazer, mas não tem recurso para fazer, isso deve trazer uma frustração, quer dizer, tenho todas as condições de fazer e não posso fazer porque não tenho recurso para fazer. Como é que é? Eu imagino o seguinte, esse recurso está debaixo de você também, você é o cara que vai planejar para que esse recurso exista, não é não? Ou tem alguém tomando conta disso para deixar você tranquilo?

Itamar                Tem a parte administrativa do hospital e para eles eu peço o que eu preciso. Agora, nunca tenho tudo o que eu preciso, mas assim, isso não acontece sempre não, muitas vezes essa cascata aí de fazer as coisas é totalmente não pensada, sabe, o certo é você ter, claro, planejamento, ver a demanda que precisa para aquela estrutura do hospital, porque não adianta, num hospital do porte do meu, eu comprar um medicamento que é usado, por exemplo, num paciente transplantado. A gente não vai cuidar desse paciente lá, então a gente tem que ter ali a gaze, o dipirona, essa coisa básica aí que realmente falta, o SUS é estranho nesse sentido, eu digo, porque assim, às vezes você  precisa de um tratamento que custa uma fortuna e ele está lá pelo SUS, medicamentos para doenças crônicas, os pacientes realmente precisam disso aí, mas ele custa muito caro, muito caro mesmo, tem muito medicamento que a pessoa usa que custa 50 mil reais por mês, até mais e o SUS paga. Tem cirurgias como essa que são muito caras e ao mesmo tempo falta coisa básica na ponta, o atendimento de urgência no sistema público e isso normalmente na cidade grande ele, pelo volume que tem, parece que é mais negligenciado ainda, é um contraste muito difícil, muito preocupante. A questão de restrição de leitos, de vagas em UTI, a gente, muitas vezes, tem que escolher quem vai para a UTI, quem não vai, isso infelizmente não é coisa de livro não, é realidade do médico brasileiro que trabalha na urgência.

Luciano              Você é de uma geração nova, você é um médico novo, você está com vinte e?

Itamar                32.

Luciano              32, você é um médico novo, você é um garotão. Todos os médicos com quem eu falei, acho que eu já entrevistei dois ou três aqui, talvez até mais, todos eles num determinado momento da conversa eles partem para aquelas coisa que a profissão de médico, parece que depois que o cara fica maduro é que ele  sente isso mais, que é aquela necessidade de ter que humanizar tratamento, tem que tratar as pessoas de uma forma melhor. O Alexandre Barroso que eu conversei aqui, ele falou o seguinte, quem cura o paciente é a alegria, a alegria cura paciente e eu me curei porque eu fiz questão de encontrar momentos de alegria e ele conta umas histórias malucas de o que ele fazia  para se manter alegre e ao se manter alegre ele está com o espírito elevado e isso ajuda o cara a se curar, etc. e tal, isso está muito além da medicina tradicional mas tem tudo a ver. Você é de uma geração nova, deve ter uma garotada da tua idade, porque eu imagino que para o interior não deve ter muito “véinho” no interior, deve ter muita moçada assim da tua idade.

Itamar                Tem um pessoal mais novo normalmente.

Luciano              Mais novo. E vocês falam a respeito disso aí, e o ano que vem? E o que vem ela frente aqui? Como é que eu posso melhorar minhas condições aqui sabendo que eu estou, de certa forma, limitado, o que vem pela frente? É isso? Vai ser isso para o resto da vida? Como é que é com vocês? Se mobilizam? Deixa eu ver se eu consigo elaborar um pouco melhor essa questão aqui: eu fiquei absolutamente indignado, eu fiquei enlouquecido quando surgiu a história toda do Mais Médicos, não pelo programa em si, mas pela justificativa que se usou e pela forma como a população recebeu a notícia de que médico brasileiro não é confiável, não apalpa, médico brasileiro não quer saber, não quer ir para o interior, só quer o bem bom e quer ganhar dinheiro, isso que você desenhou, se botou um rótulo na classe médica brasileira, portanto vou trazer os outros para botar aqui e eu achei isso uma tremenda sacanagem porque você não pode generalizar desse jeito aí e a pergunta é como é que essa garotada mais nova está fazendo para mudar esse conceito, entendeu? Eu, como paciente, eu consigo, eu chego lá no meu médico, quando ele me traz, eu tenho, eu  sei o contato que eu tenho com ele, eu sei como ele me trata, eu falo esse cara não está aí só por causa do dinheiro, ele está aí porque ele tem um prazer de me ajudar, de me salvar, mas a população inteira, aquele cara que ficou no chão do hospital, tomou uma porrada que a enfermeira nem olhou para ele, esse aí, ele esta com a cabeça feita, o cara que vai votar em quem vier fazer. Como é que vocês tratam disso numa escala menor que a da tua…. que você conhece, você vai encontrar na rua a pessoa no dia seguinte.

Itamar                Encontra. Às vezes eu encontro no supermercado quem eu operei e às vezes ele me mostra a cicatriz ali dentro do supermercado mesmo, o médico, acho que agora, nessa geração mais nova, ele está começando a voltar a perceber essa importância do contato com o paciente, de ser mais pessoal, a gente percebe que, por exemplo, a questão de processo contra médico quase sempre o que está sendo contestado de verdade não é a conduta em si, é a relação do médico com o paciente, é porque não ficou claro o que estava sendo feito, porque estava sendo feito e aí se depois daquilo acontece qualquer errinho, ou às vezes nem acontece o erro, mas dá para interpretar como sendo, é a situação que desencadeia todo o problema.

Luciano              Que não se criam elos de confiança, é isso?

Itamar                Isso, isso é essencial na relação médico/paciente, por isso tem esse nome, relação médico/paciente, é falado a faculdade inteira que isso é importante, mas não se tem aulas sobre isso, não se explica como que se faz isso, então isso vai da experiência pregressa da faculdade e das experiências que a pessoa vai tendo no dia a dia no trabalho.

Luciano              Isso que eu quero te perguntar, se existe essa consciência de que essa coisa é importante, que isso é fundamental e cada vez cresce mais importância, por que não tem aula disso, a escola está ultrapassada? Ou seja, tecnicamente a evolução é brutal, o que se faz hoje na medicina é um negócio, em quatro anos você vira de ponta cabeça, mas o outro lado, que é o lado do ser humano, parece que ele não… eu não estou na escola, eu não sei como é que é, mas olhando de longe, a impressão que eu tenho é que o lado humano não evolui e quando você fala para mim não tem aula disso, eu fico, mas como até hoje não?

Itamar                Não tem, tem assim, é puramente técnica a graduação, ela devia ter mais do que isso, essa parte de ralação médico/paciente, a parte de o próprio médico lidar com a parte de relação com o empregador, da parte financeira, a gente não tem nenhum treinamento em relação a isso, então às vezes o médico, por ser da índole dele mesmo ser uma pessoa que procura um contato mais próximo com o paciente, ele começa a fazer isso, às vezes porque ele aprende do jeito pior, ele não faz isso inicialmente, aí ele se envolve em algum processo, algum problema, ele aprende que tem que ser assim, mas eu acho que é mais ou menos o que o outro médico que você entrevistou, ele falou que depois que a gente aprende a fazer isso, é o que dá prazer na medicina, eu gosto de conversar com meu paciente, saber se ele está bem, de saber como é que ele está, de ouvir, médico tem que ouvir o paciente, tem que examinar, só que isso, principalmente na  cidade grande, num pronto atendimento, no meio daquele cenário todo que parece um cenário de guerra, isso é difícil, isso é cobrado do médico e…

Luciano              Diante de um médico de convênio que vai receber um nada para…. que está puto da vida porque está fazendo atendimento e está recebendo pessimamente mal.

Itamar                … é, isso cria um ciclo que só piora para todo mundo, principalmente para a classe médica, o cara está recebendo mal, está trabalhando em condições ruins, ele atende mal, o paciente não vai ficar satisfeito, o governo pode usar isso aí contra o médico, como usou bastante, então é uma melhora como um todo, na formação médica, na condição de trabalho, dar até dá para ser, mas é difícil você ser uma pessoa que faz esse atendimento mais pessoa, mais humanizado num cenário que você está passando num corredor, tem um cara, alguns na maca, outros no chão, que o pessoal te puxa pelo jaleco pedindo ajuda, aquilo deixa o médico mau sabe, aquilo a gente vai para a casa arrasado no final do dia, é complicado, você vê que não tem condições de você atender aquela quantidade de paciente, isso foi uma das coisas que me levou para o interior também, porque o interior é menos gente, você tem mais tempo para cuidar do seu próprio paciente, não é a condição ideal de trabalho, tem suas vantagens e suas desvantagens, a gente sofre com essa questão da  falta de estrutura para fazer tudo o que a gente poderia fazer, da falta de retaguarda de outras especialidades, porque a medicina hoje é muito fragmentada, é muito grande o conhecimento, então a gente está sempre precisando de outros especialistas, mas lá eu tenho tempo para sentar com o paciente na minha frente, conversar, saber o que  ele está sentindo, examinar ele, explicar porque eu estou passando aquele tratamento, porque eu estou propondo aquela cirurgia, explicar como ela é feita, claro que no tratamento eletivo, na urgência às vezes a coisa tem que ser mais rápida, não tem tempo para isso.

Luciano              Tem ouvindo a gente aqui uma porrada de gente, então evidentemente deve ter estudante de medicina nos ouvindo, deve ter o que você puder imaginar aqui e algumas pessoas, deve passar pela cabeça delas essa pergunta: fico aqui ou vou para o interior? Estou no interior e permaneço aqui no interior ou vou para grande capital e tudo mais? Fala um pouquinho disso para mim, eu sou de Bauru, Bauru perto de Matupá, Bauru é Nova York, Bauru é gigantesca, então eu sei o que é o interior, isso que você está falando é claro, a gente conhece as pessoas e a minha época de infância lá era assim, hoje em dia Bauru cresceu tanto que já está bem mudada, mas Matupá, 15 mil habitantes, você conhece todo mundo na cidade lá, não é? Quais são as vantagens? Por que é tão atraente ir para uma cidade do interior assim tão longe? Quanto tempo de viagem daqui para lá?

Itamar                Olha, eu tenho que pegar o avião daqui para Cuiabá e eu vou fazer uma escala em algum lugar sempre, ou Brasília, ou Belo Horizonte, depois de Cuiabá eu pego um outro avião para Sinope, aí quando eu chego em Sinope eu tenho que ir de carro ou de ônibus até Matupá.

Luciano              Quantos quilômetros?

Itamar                De Sinope para lá são 200, de Cuiabá a Sinope mais 500 e de Cuiabá até aqui eu não sei, mas é bastante. Eu acho que a pessoa tem que ter um perfil para morar no interior, não é para todo mundo.

Luciano              Você tem filho?

Itamar                Eu tenho, agora eu tenho, duas crianças. Então se a pessoa gosta muito do shopping, gosta muito dos bons restaurantes, não que eu não goste, mas tem gente que não consegue abrir mão disso daí, tem gente que também não tem o perfil porque quer trabalhar em um lugar onde ela seja mais anônima um pouco, vai lá, faz o seu trabalho e vai para a casa e pronto, acabou. Tem gente que não liga para trânsito, pelo menos tanto quanto eu, e ser tudo longe, a cidade pequena, apesar de também existir violência, é muito menos violenta, então a gente anda pela rua a noite, de casa para o trabalho, eu saio de casa na hora que eu tenho que chegar no trabalho ou cinco minutos antes, eu não tenho que calcular o tempo de casa ao trabalho, esse tempo para mim não existe no meu dia, eu ganho esse tempo em casa com a minha família ou lá no trabalho. É um ambiente tranquilo, você conhece as pessoas e isso, conhecer as pessoas para alguns é ótimo, para alguns não é.

Luciano              E com a internet na mão hoje em dia você tem o mundo à sua disposição, quer dizer, isso talvez seja o fator mais…

Itamar                Eu acho que isso facilita muito.

Luciano              … que mais facilita a vida de todo mundo, sem dúvida é isso, você está em contato com o mundo inteiro, você pode ouvir até podcast.

Itamar                Não perco. Isso facilitou muito o interior, porque hoje você está longe mas você pega o carro, viaja uma certa distância, pega um avião e vai para a cidade grande, para poder estudar, para poder passear e como você falou, lá com a internet que hoje até na aldeia de índio lá tem, você está em contato com o mundo, eu acho que isso facilitou muito para a pessoa ir para o interior hoje.

Luciano              Você atende os índios também?

Itamar                Atendo quando eles vão até o hospital, mas tem médico que atende a aldeia lá, que vai até a aldeia.

Luciano              Essa comunidade médica lá na tua cidade, é uma comunidade unida ou tem os médicos do X, o médico do Y, que eles não se encontram muito,  é um grupo unido? Quando você fala tem médico que vai na aldeia, dá a impressão que é outra turma, com outra roupa, outra coisa, outro lugar.

Itamar                É um pessoal assim, tem suas afinidades, tem alguns que são mais do convívio diário de convívio em casa, outros nem tanto, mas não tem uma separação, grupos assim que trabalham, esse grupo aqui, aquele ali e faz algum tipo de concorrência, é muito pequeno para isso, na verdade, a gente procura ter uma boa relação entre todos, uma relação de colega, de respeito.

Luciano              O Mais Médicos chegou lá?

Itamar                Chegou, na minha cidade que eu estou lá especificamente não, mas nas cidades lá próximas tem médicos do Mais Médicos.

Luciano              E você teve contato com alguns cubanos? Teve contato com eles?

Itamar                Tive, muito pouco, porque eu fico mais no hospital e eles não atendem no hospital. O Mais Médicos tem essa restrição que eles atendem na atenção básica, então eles ficam no pronto atendimento da Saúde da Família, eles não vão para o hospital.

Luciano              Eu tinha certeza que devia ter um sistema de “vamos se encontrar” vamos falar, vamos integralizar, vamos trocar cultura e nada disso eles estão realmente segregados.

Itamar                Isso é muito pontual, tem médico do Mais Médicos que conseguem ter uma relação melhor com os colegas, mas a maioria, eu não sei nem se é pelo médico brasileiro, eles também não procuram muito assim, acho que eles, imagino eu, que eles tem meio que em mente que eles estão ali para aquela missão deles, eles ficam lá cumprindo aquilo ali no PSF e…

Luciano              O fato de eles estarem lá melhorou alguma coisa para vocês? A comunidade em si sentiu alguma coisa? Quer dizer, tem uma coisa interessante que é o seguinte, o fato de ter alguém de jaleco sentado ali já me traz algum conforto, não tinha ninguém, agora tem um, já estou confortável, mas eu não sei se isso resolve o problema, mas pelo menos do ponto de vista do clima geral, pô minha cidade agora tem um cara de jaleco sentado ali. Para vocês, como a comunidade médica lá, trouxe algo de positivo?

Itamar                Não, a gente não sente muito na prática a presença deles, mas especificamente onde eu estou, eu sei de colegas que perderam emprego porque o Mais Médicos chegou, isso aconteceu muito no interior do Brasil e até mesmo na cidade grande, nas áreas periféricas, porque uma cidade, por exemplo, como São Paulo, tem muito médico, mas se você for para a área mais periférica da cidade, a concentração de médico é pequena também, então para a prefeitura, que se ela aceita um médico do Mais Médicos ele vai ser pago pelo governo federal e para uma cidade pequena, com faturamento pequeno, o médico ainda é um profissional caro, ele manda o médico embora e pega o médico do Mais Médicos, apesar de que isso, teoricamente, não era para ser feito, mas foi muito feito, na verdade.

Luciano              O que é uma bomba relógio, se a qualquer momento esse programa desandar, vão ter que trazer de volta os médicos que mandaram embora.

Itamar                Vão ter que tentar trazer de volta.

Luciano              Esse é o Brasil que a gente conhece tanto aí. Bom, vamos lá, me dê o recado aí para a molecada que você está vendo estudar, você está vendo essa baita molecada, quero ser doutor, quero ser médico, é legal, o que é? Você olhando hoje assim, que você já tem essa tua experiência, já está, eu diria que você tem um nível de responsabilidade que para mim está num nível muito maior do que os caras que estão aqui pelo simples fato de que aqui eu pego o telefone, está tudo em volta de mim, você está sozinho lá. O que você passa para uma molecada aí, quero ser um bom médico, o que é?

Itamar                Eu acho que tem que partir de, talvez seja meio clichê isso, mas gostar de gente, o médico tem muito contato com o paciente, apesar de ser um contato profissional, tem que gostar do que está fazendo, eu acho que a profissão, isso não é só opinião minha, isso aconteceu mesmo, vem perdendo muito em questão de renda, de rentabilidade, então quem tiver entrando na medicina porque ah, eu vou me tornar médico porque eu vou ficar rico, não, não vai ficar. A não ser que seja um empresário, como em qualquer outra profissão, pode ser que fique, mas a realidade de salário não é mais assim, é uma profissão que tem muita emoção agregado, é uma profissão que ao mesmo tempo te traz muita alegria, muita tristeza, não tem muita monotonia não, principalmente para quem optar por trabalhar mais com a parte de urgência e procurar uma boa escola, hoje tem muita escola, muita escola ruim, é difícil para quem está de fora analisar isso daí, mas é importante procurar por quem já é da área, com quem já estudou para encontrar um bom lugar para estudar e abrir um pouco a cabeça para essa questão de ah, eu tenho que estudar, eu tenho que fazer a especialização, a subespecializarão e mais uma pós, e mais felow não sei aonde porque alguns vão ter que fazer isso, é importante para a medicina esse pessoal aí, mas eles estão tipo na ponta de uma pirâmide que quem está mais embaixo, apesar de muitas vezes o graduando de medicina achar que quem está mais embaixo é menos qualificado, é menos alguma coisa do que quem está na ponta, é simplesmente uma questão de posicionamento no mercado para trabalhar, então o país é muito grande, o interior é muito grande, então tem muito lugar lá para dentro ainda para trabalhar.

Luciano              E tem posições… eu fiz um programa, não sei, você vai lembrar, eu fiz um Café Brasil que eu comecei com o depoimento de uma enfermeira, você lembra disso? Ela falando que ela falou que…

Itamar                Pensando em desistir da escola…

Luciano              E aí ela bateu o olho e falou eu não preciso ser médica, eu, como enfermeira e para quem é paciente, a enfermeira é absolutamente fundamental e ela falou, depois eu tive uma outra conversa, eu não me lembro se foi no LíderCast, conversando com, foi no LíderCast, eu não vou me lembrar, tantos já. A pessoa estava comentando, de repente um profissional do nível técnico, ele é tão ou mais necessário do que o outro especializado, porque o técnico está ali no dia a dia e existem lugares onde é ele que é o cara que faz acontecer, ele é o cara que está lá e se bobear vai ganhar mais até do que o médico porque ele tem um ofício e muita gente não olha para isso, eu não quero fazer enfermagem, eu quero ser médico, mas espera aí, tem dentro do escopo da medicina tem de tudo.

Itamar                Eu admiro muito as outras profissões que são também da saúde, que tem um trabalho junto com o médico porque a responsabilidade é muito grande também, o trabalho é muito e o salário é baixo, eles têm, de forma geral, um salário que eu acho que não condiz com a importância do trabalho que eles têm e é uma profissão muito nobre a de enfermeiro, de assistente social e são essenciais, ninguém faz medicina sozinho, o médico não trabalha sozinho nem aqui e nem lá no interior, é toda uma equipe, inclusive a questão do cuidado mesmo com o paciente, ela é mais da enfermagem do que do próprio médico, o médico, no caso por exemplo, da cirurgia, ele é quem decide a conduta, é quem executa a conduta no caso da cirurgia, mas quem vai estar lá do lado do paciente, quem vai fazer a medicação, quem vai trocar o curativo, quem vai ouvir ele  na hora que ele diz que está com dor e fazer o remédio que está prescrito ou pedir para o médico o que mais que dá para a gente fazer, é a enfermeira, o enfermeiro, então são essenciais, é uma profissão muito bonita.

Luciano              Legal. O que vem pela frente aí? Qual é a ideia? Qual é o futuro?

Itamar                Bom, a minha ideia é continuar no interior, é lá que eu gosto de ficar.

Luciano              Seus filhos são pequenos?

Itamar                São, eu tenho uma filha de três anos e meio e um filho de oito meses. Umas joias lá.

Luciano              Quando chegar nos 14 anos você vai começar a se coçar lá, eles vão se incomodar um pouco, mas criança assim, criar no interior é uma vantagem.

Itamar                É uma delícia, o espaço é mais fácil, então quem mora no interior pode criar o filho com o quintal grande para ele brincar, com a facilidade de ir até a casa do colega, de ter mais atividades para fazer, não fica tão preso quanto normalmente fica a criança que cresce na cidade grande, então vai ter essa dificuldade na questão do estudo, quando estiver mais velho, mas por enquanto é ótimo e eu acho que quando chegar a vez deles estudarem, se  eu continuar no interior, eles vão sair de casa como eu saí.

Luciano              Seu Itamar ensinou como é que faz, não ensinou como é que é?

Itamar                Sim. Vão fazer o mesmo caminho.

Luciano              Lançou a flecha e agora ela é do mundo. Que legal. Parabéns, que legal essa história aí, você está escrevendo alguma coisa, você tem tua página, você tem um lugar que você está colocando um pouco da tua experiência aí para as pessoas? Se quiser entrar em contato com você sem ter que vou te mandar um e-mail para conversar com você, não, consegue achar tua página de alguma forma?

Itamar                Consegue, eu tenho uma página no Facebook, profissional…

Luciano              Como é que chama ?

Itamar                … que com o meu nome Dr. Itamar Linhares…

Luciano              Doutor D R Itamar Linhares

Itamar                … e normalmente eu posto coisas mais na parte técnica com uma linguagem para o leigo entender, então eu coloco lá como é que são os sintomas de gastrite, coloco se a pessoa descobriu que tem pedra de vesícula, no linguajar de quem é leigo, se ele tem ou não tem que operar, eu gosto de escrever esses textos curtos assim informativos que são as perguntas que eu ouço com mais frequência no consultório, então eu coloco ali, o pessoal já fica sabendo.

Luciano              Doutor Itamar Linhares, de Matupá, onde o Mato Grosso encontra o Pará. Não é isso?

Itamar                É isso aí.

Luciano              Obrigado, obrigado por ter topado sentar com a gente aqui, acho que você traz uma visão muito legal, é um ângulo de visão que a gente não está acostumado a ver, quem está lá na ponta, lá longe, o soldado na frente de batalha lá e é legal saber que você, está no eu olho que você está curtindo, gosta de estar onde está, gosta de fazer o que faz, que puta sorte tem a turma de Matupá de encontrar gente assim. Você tem um companheiro de jogo lá, como é o nome dele, que está na Confraria também…

Itamar                Tem, o Érico.

Luciano              … o Érico.

Itamar                Meu parceiro lá.

Luciano              E o Érico é?

Itamar                Ginecologista.

Luciano              Ginecologista.

Itamar                E esta lá também, no mesmo barco, operando, a gente opera junto normalmente. Eu auxilio ele nas cirurgias dele, ele me auxilia nas minhas e muitas vezes falando sobre o programa da semana passada do Café Brasil e muita vezes até o paciente que está lá sendo operado com a barriga aberta e acordado ouvindo a conversa entra no assunto às vezes.

Luciano              Já quer saber, o que é isso aí? Vou ouvir esse podcast. Legal, obrigado por ter vindo, estamos aí, o dia que eu tiver uma chance, se eu conseguir, quem sabe eu passo lá em Matupá.

Itamar                Ah, mas vai ser um prazer. Muito obrigado pelo convite, eu fico muito feliz de estar aqui, de conhecer você, o Lalá, de ver onde a mágica acontece, porque toda semana eu fico ansioso aguardando, eu sei que você sabe disso, mas vocês transformam vidas aqui, eu já aprendi muito, já me emocionei muito com vocês, eu sempre que posso conto sobre o Café Brasil apresento, eu fico indignado de saber que o podcast ainda é tão pouco usado, quase ninguém usa e nossa, estar aqui batendo um papo contigo no mesmo programa que gente como Ozires Silva conversou, quem sou eu para estar aqui? Mas muito obrigado.

Luciano              Você é o Itamar. Seja bem vindo. Obrigado.

Itamar                Obrigadão.

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo