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Ciça Camargo -

Luciano          Muito Bem, mais um LíderCast, hoje é com uma pessoa que eu conheço aí há uns vinte e tantos anos, conheci num mercado automotivo, era um colega de mercado que estava numa outra empresa paralela à minha, nossas empresas nunca foram concorrentes mas eram complementares, tínhamos um inimigo em comum que era o fornecimento para todas as grandes montadoras e a gente acabou se conhecendo bastante nos eventos do segmento. Eu tive a chance de vê-lo e ele me viu e a gente ali estabeleceu um vínculo que a gente sempre conversou e essa coisa foi se estreitando e até que quando eu saí do segmento a gente continuou mantendo contato e ele acabou fazendo algumas opções de vida agora que eu fiquei bastante curioso para ver o que estava acontecendo lá. Mas eu vou começar do jeito que eu sempre começo o programa, com aquelas três perguntas fundamentais: eu quero saber seu nome, sua idade e o que é o que você faz?

Waldey           Bom dia, Luciano, satisfação muito grande, uma honra estar aqui participando, batendo esse papo com você. Eu sou Waldey Sanchez, eu tenho 66 anos, eu estou num período de transição após ter trabalhado 42 anos numa empresa, estou iniciando um processo de cuidar de negócios da família, de ir na academia todo dia, de fazer um pouco mais de viagens, enfim, ir para Botucatu passar um tempo no interior, no meio  do mato e tudo isso é uma fase de adaptação a uma nova vida, a uma nova realidade, de certa forma eu me preparei para isso e estou vivendo na prática essa transição.

Luciano          Vamos explorar isso. 42 anos trabalhando na mesma empresa, então vocês estão ouvindo aqui um legítimo tiranossaurus rex, um animal em extinção, daqueles que não existem mais, que hoje em dia se você… é que nem aquela história, estou casado há 40 anos, quando  alguém pergunta para mim: qual é o seu estado civil eu digo ridículo, por quê? Porque hoje em dia, você dizer que está casado há 40 anos, a pessoa arregala o olho, como assim? O que para nós era a coisa mais comum de acontecer, nossos pais e avós, hoje em dia você imaginar que alguém vai viver junto com outra pessoa por 40 anos é um absurdo, assim como é imaginar que você possa trabalhar numa empresa por quarenta e tantos anos. Mudou demais, essa molecada está toda hoje pulando de galho em galho e eu fiquei 26 numa empresa, você ficou 42. Vamos voltar um pouquinho na tua origem, eu quero te explorar um pouquinho para conhecer você de onde você vem e aí a gente parte para uma discussão que vai ser bem legal que é essa coisa da transição. Você nasceu aonde?

Waldey           Eu nasci aqui em São Paulo.

Luciano          É paulista mesmo.

Waldey           Sou paulista mesmo.

Luciano          E se formou em quê?

Waldey           Me formei em administração de empresas, pela Fundação Getúlio Vargas, depois eu fiz pós-graduação, hoje tem MBA, tem mestrado, na minha  época era pós graduação na própria Fundação Getúlio Vargas e aí aprendi uma infinidade de cursos através de uma infinidade de cursos aprendi muito, me especializei em marketing, me especializei na área financeira, enfim, ganhei… fui ganhando experiência à medida em que o tempo foi passando.

Luciano          A tua formação foi nos anos 70, não é? Começo dos anos 70.

Waldey           Foi nos anos 70, eu me formei exatamente em 1975.

Luciano          Em casa o pai era o quê? Seu pai fazia o quê?

Waldey           Então vou voltar um pouquinho antes, porque é importante a origem é da Espanha, os familiares vieram para o Brasil depois de uma crise séria na Espanha, por volta de 1910, chegaram aqui no porto de Santos e foram mandados para Jaú, trabalhar em fazendas de café e dali para a frente a vida se desenvolveu, meu pai, minha mãe nasceram já ali em Jaú, depois por volta de 1945 vieram para São Paulo. Meu pai foi trabalhar no Campo de Marte como guarda de um hangar, a minha mãe, na época com algo como 18 anos lavava roupa para os pilotos que estavam ali começando também na aviação brasileira e lá pelas tantas a vida se desenvolveu a partir dali. Eu nasci em 1950, portanto e cresci dentro do Campo de Marte, cresci vivendo o mundo dos aviões, da aviação pequena e com 14, 15 anos eu queria voar eu queria ser piloto, esse era o sonho da minha vida, mas nada  por acaso, prestei exame para a escola de cadetes de Barbacena, passei entre 3000 candidatos, passei em 16° lugar no Brasil, mas quando chegou no exame médico na policlínica descobriram que eu era daltônico, eu nem sabia o que era isso, nem meu pai, nem minha mãe, nunca tinham ouvido falar nisso, mas como daltônico eu não podia pilotar aviões e daí a vida começou a mudar para um outro caminho, uma vez que a escola não me admitiu e daí  para a frente eu continuei ajudando meu pai, que a essa altura já fazia alguns trabalhos mecânicos, etc, ajudava meu pai aí com 14, 15 anos…

Luciano          Que idade você tinha quando, é isso, 14, 15 anos?

Waldey           … 14, 15 anos ajudando meu pai…

Luciano          Como é que foi aquele… me fala um pouquinho daquele momento de profunda decepção onde você está animado,  passou  em 12° lugar, está tudo pronto e alguém te  dá uma notícia de que uma coisa que você nem sabe o que é vai  te impedir de realizar o teu sonho. Como é que você recebeu essa…

Waldey           Foi um choque, eu realmente, naquele momento fiquei desnorteado, eu fazia, eu estudava numa escola pública, que era o CEDOM, uma excelente escola na época, o CEDOM, o Caetano de Campos eram referências como escola do nível secundário, então toquei a escola, continuei ajudando meu pai e ganhei gosto pela música, os Beatles estavam surgindo e aí…

Luciano          Por isso que você entrou na minha sala ali já tomou um choque, não é? Quando viu o pôster na parede.

Waldey           Os Beatles tiveram uma influência extraordinária porque uma das coisas que eu aprendi bem jovem, foi o inglês e o inglês foi uma decorrência de querer cantar músicas dos Beatles, então formei um conjunto e comecei a tocar em festinhas, das festinhas evoluiu para inferninhos e eu nunca vou me esquecer, Luciano, que aos 17 anos, mais ou menos, eu cheguei em casa era umas 3 horas da manhã, na época não tinha celular, não tinha comunicação, meu pai sentado na sala e ele disse: meu filho, se você quer continuar nessa vida, tudo bem, mas não nesta casa, esta casa é para pessoas que querem trabalhar, que querem ter uma vida séria e você está num caminho errado. Do jeito que você está, você não vai conseguir crescer na vida, ter uma carreira. Meu pai, dentro da sua pouca cultura, formação, mas ele tinha uma visão extraordinária, ele já é falecido, mas é uma pessoa, provavelmente  a pessoa mais importante que eu tenho de referência na minha vida. Pois bem, eu disse pai, tá bom, só que então eu não quero continuar te ajudando aí nesse serviço de mecânica, eu vou arrumar um emprego, vou trabalhar, porque eu quero fazer alguma coisa diferente, eu não gosto desse negócio de ficar no torno fazendo pastilha de freio de avião, que é o que ele fazia naquela época ali num torninho e saí procurar emprego. Entrei no Banco Lar Brasileiro, o Chase Manhatan, entrei no banco como office boy e, veja você como a vida escreve, às vezes, de uma forma incrível e que você, o Steve Jobs sempre diz, quando você chega lá na frente, você olha para trás e vai ligar os pontos e as coisas começam a fazer sentido, pois bem, entrei no banco, o banco dá um concurso para os seus funcionários, para ver quem tinha habilidade para trabalhar com computadores IBM, porque estavam recém instalando computadores IBM no banco e eis que eu sou aprovado no curso, no teste de aptidão e vou fazer cursos de computador IBM…

Luciano          Isso quando o computador era coisa de ficção científica.

Waldey           … coisa de ficção, era o primeiro IBM/360 que ia entrar no Brasil etc, pois bem, passei no teste, fui fazer os cursos e o banco tinha dito assim: quem se sair melhor nos cursos, vai ser o supervisor da área, imagina, eu com 18 anos, 17 para 18 anos ser supervisor da área, bom, mas eu fui o que me saí melhor nos cursos e aí o meu chefe naquele momento me chamou, falou olha, você realmente se saiu muito bem, você tem aptidão para essa área, você vai se desenvolver, mas você não pode ser o supervisor porque você é muito jovem ainda, você tem muito chão pela frente para se tornar…

Luciano          Que idade você tinha?

Waldey           … 17 para 18 anos. Muito bem, engoli o sapo de novo, porque eu queria ser chefe obviamente, a essa altura queria ser o chefe, mas o banco me deu toda a base para começar a trabalhar com computadores. Dois anos depois, Luciano, eu fui, saí do banco, tive uma proposta para ir para a PRODESP, imagine você que naquele momento eu já ganhava pelo menos 5x o salário do meu pai, era um jovem com algo como 20 anos de idade tendo um belo de um salário e dentro da PRODESP, a PRODESP era uma escola na verdade na área de informática, na área de TI, como se chama hoje e eu me desenvolvi muito, na PRODESP as coisas caminharam super bem, eu cresci, de operador de sistema, programador, acabei me tornando um analista e eis que, 1975 mudança de governo no Estado de São Paulo, na época era acho que Laudo Natel alguma coisa assim, a PRODESP é obrigada a demitir um número enorme de funcionários quem é demitido? Eu. Lá no meio da lista estava o meu nome, sou demitido da PRODESP, de novo …

Luciano          25 anos, solteiro?

Waldey           Não, já era casado, estava recém casado.

Luciano          Deixa eu voltar ali atrás então para explorar uma coisa que eu acho que nós vamos retomar um pouco mais à frente lá. Que formação seu pai tinha? Ele  tinha escola?

Waldey           Terceiro ano primário, alguma coisa assim…

Luciano          Nada além disso.

Waldey           Nada além disso. Minha mãe nem isso.

Luciano          Você chegou a, deixa eu te contar porque, porque a minha vida inteira meu pai, meu pai foi… se tivesse hoje em dia meu pai teria sido executivo de relações públicas da ferrovia…. da Noroeste do Brasil, jornalista, etc e tal e depois eu vim, me formei, comecei a trabalhar e eu sempre saquei que ele sempre fez questão, quando eu encontrava com ele, ele queria perguntar quanto eu estava ganhando: como é que você está? Quanto você está ganhando? Como é que era? E eu sacava que havia uma satisfação dele ao ouvir que eu estava ganhando igual ou mais que ele e quando… cada vez que eu ganhava mais que eu falava, eu entendia que ele queria ouvir pô, meu filho está bem, o que para mim era uma demonstração para ele que ele fez bem feito o trabalho dele, alou cara, vou conseguir, preparei meu filho o suficiente para ele se dar bem a ponto de ele estar melhor do que eu, então ele está melhor do que eu. No teu caso com o seu pai, acho que a coisa vai para um nível ainda maior, porque o seu pai com formação de terceiro ano primário viu o filho doutor, se formou doutor… doutor com um canudo na mão, pô, se formou na universidade,  etc e tal e de repente com 20 anos já está ganhando 3, 4, 5, 6 vezes mais que ele. Você chegou a falar com seu pai a respeito disso de enxergar no olho do seu pai essa satisfação de fiz meu trabalho  bem feito?

Waldey           Eu sentia este orgulho, mas o diálogo, na época, pai e filho era pequeno, eu me lembro que meu pai tinha um fusca daqueles de vidrinho pequeno, redondo atrás e eu comprei um Karmann ghia…

Luciano          Que era o carro do playboy na época.

Waldey           … que era o carro do playboy…

Luciano          O equivalente hoje é um Camaro amarelo.

Waldey           … é quase isso e meu pai, eu sentia o orgulho dele pelo filho ter um carro, um Karmann ghia naquela época e ele saía para andar comigo, passear comigo e eu sentia que ele tinha um orgulho muito grande na nossa conversa, este diálogo, ele aumentou muito uns 10, 15 anos para a frente, mas neste período eu acho que havia sim um… hoje não existe mais isso, mas era um certo distanciamento, um respeito pai e filho…

Luciano          Tinha uma hierarquia muito bem…

Waldey           … tinha uma hierarquia…

Luciano          … definida.

Waldey           … e não havia chance de ele trocar ideias comigo a respeito disso, claro que ele queria saber se estava bem, se o chefe gostava de mim, coisas deste tipo, mas eu não me lembro de termos conversado sobre o quanto eu ganhava e quanto ele ganhava naquela época, mas enfim, a vida seguiu…

Luciano          De qualquer maneira ele teve consciência do dever cumprido, está certo.

Waldey           … teve a consciência do dever cumprido. Uma das coisas que tanto ele quanto minha mãe, na época, me cobravam muito é que eles queriam que eu fosse engenheiro, que eu fosse estudar engenharia e lá no Banco Lar Brasileiro, de repente eu comecei ouvir falar uma palavra mágica que até então nunca tinha ouvido falar, que era Fundação Getúlio Vargas, eu nunca tinha ouvido falar em FGV, eu ouvia falar no ITA, eu ouvia falar na POLI, mas o banco começou a me despertar a atenção para o assunto FGV e lá pelas tantas eu fui  fazer um vestibular na GV, entrei na GV e decidi fazer administração de empresas porque isso era importante para o banco e para mim e até porque financeiramente se eu fosse fazer engenharia, que era dia inteiro, não tinha rendimento para me sustentar naquele momento, então eu só tinha um caminho naquele momento que era fazer a GV e eu senti naquela época uma certa decepção por eu ir fazer Getúlio Vargas, porque não sabiam, não entendiam o que era fazer administração de empresas, existia o engenheiro, o advogado…

Luciano          O médico, o doutor.

Waldey           … o médico, o doutor…

Luciano          O professor

Waldey           … o professor, mas administrador? O que é isso? De onde saiu esse negócio? Ia ser uma perda de tempo, você tem certeza? Havia uma certa… um certo descontentamento com o fato de eu fazer GV, mas enfim, fiz a GV e quando eu  perdi o emprego um pouco mais para a frente lá por volta de 1975, não passou 30 dias, eu estou andando, procurando emprego, mandando currículo e eu passo em frente a uma empresa ali na Estado Campo Limpo, chamada Massey Ferguson e tinha lá: admite-se programador, analista de sistema… parei meu carrinho no estacionamento ali, foi conversar lá e acabei…

Luciano          Com seu Karmann ghia

Waldey           … o meu Karmann ghia, é, e acabei, aquela época já não era Karmann ghia não, naquela época eu já tinha, acredite você, um Puma branco.

Luciano          Gostava do bom.

Waldey           Eu já…

Luciano          Alô moçada, Puma branco naquela época equivale hoje a um Porsche, é um Porsche dos dias de hoje, naquela época um Puma era o sonho da molecada ter um Puma branco.

Waldey           Eu tinha um Puma branco, tenho foto dele até hoje. Mas enfim, parei, acabei conversando ali na área de recrutamento e seleção e eu senti que o interesse, de repente quando eu falei que tinha trabalhado na PRODESP, que estava na área de sistemas, contei um pouquinho da minha história, me mandaram conversar com um diretor de sistemas, que era um brasileiro, tinha feito um programa de adaptação nos EUA e recém retornado dos EUA. Ailton Mantovani, ele é vivo e meu amigo até hoje e o Ailton foi identificação…

Luciano          Imediata.

Waldey           … imediata, naquele momento ele fez algumas perguntas da área de sistemas, eu estava afiadíssimo nesse assunto porque estava na melhor escola do país em termos de informática e fui admitido então na Massey Ferguson em 1975 e daí para a frente comecei a minha vida, os quarenta e poucos anos de carreira na empresa.

Luciano          Você vê que coisa interessante, você está contanto essa história, eu tenho uma história muito parecida e você conhece a figura, Sidnei Del Gaudio, o Sidnei foi um, como chama o seu… que te contratou?

Waldey           Aílton.

Luciano          … o meu Ailton foi o Sidnei, foi exatamente a mesma história, eu respondi um anúncio no jornal, estava procurando emprego apareceu um anúncio sem dizer que empresa era, procurando desenhista de catálogo, eu pego, vou atrás, mandei o currículo  para lá, recebi um chamado deles dizendo que era uma tal da Albarus que eu não tenho a menor ideia do que era, procurei num catálogo lá, vi que era um fabricante de embreagem, sei lá, catei um ônibus, fui para o Largo do Socorro em Santo Amaro, fiquei setehoras da manhã em pé na frente de um… eu numa fila de caras lá esperando minha vez, aí fui conversar no departamento de  seleção também, fui selecionado, aí me chamaram, eu fui conversar com o gerente de marketing que era o Sidnei Del Gaudio, com um bigodão e ali nessa conversa entre nós dois ali bateu essa identificação e o Sidnei acabou virando um grande amigo até hoje e a gente fez uma carreira paralela aos dois ali, às vezes eu respondendo para ele, outras ele do lado e assim foi, mas foi uma coisa muito legal que foi essa coisa de ele enxergar, um enxergar no outro uma oportunidade legal lá e se eu fiquei 26 anos lá, foi graças  ao Sidney, ainda vou trazer ele aqui, vou botar ele nessa tua cadeirinha ai para conversar com ele. Mas legal, aí você entrou ali, você tinha, na época, a perspectiva de fazer uma carreira de 20, 30, 40 anos naquele lugar?

Waldey           Não, confesso a você que eu não tinha, mas a Massey Ferguson foi uma empresa tão  acolhedora, de certa forma o Mantovani me adotou como se fosse um filho e acabou me mandando para Demond nos EUA para fazer cursos, imagine você de repente eu que até pouco tempo era um jovem sem saber direito o que era administração e empresas e tal, me vejo em Demond, me vejo fazendo todo um programa de treinamento nos EUA e voltei para o Brasil, ocupei um cargo de chefia, meu sonho, pela primeira vez, realizado, foi ser gerente de operações do computador…

Luciano          Até então você não tinha tido cargo de….

Waldey           … eu era analista, um analista de sistemas, um analista de software.

Luciano          Vou fazer então a pergunta que eu faço para todo mundo que senta nessa cadeira que você está, é a mesma pergunta: você volta de viagem, um belo dia te chamam na sala lá, fala muito bem Sanchez, legal, parabéns, você vai ser promovido para gerente da área xyz e no dia seguinte você vem trabalhar e aqueles caras que até o dia anterior eram seus colegas agora são subordinados, mudou a conversa, mudou o olhar, você chega perto eles já não falam o que falavam antes, mudou tudo e você de repente se vê diante de um desafio que não  era realizar bem feito o teu trabalho, mas era além disso do trabalho de programados etc e tal, era começar a gerenciar pessoas, era lidar com coisas que até então você não tinha lidado. Alguém te treinou para as habilidades de liderança antes de você assumir essa cargo de gerência?

Waldey           Olha, ninguém me treinou, mas eu acho que a Fundação Getúlio Vargas, o curso de administração foi importante nesse sentido, eu acho que tem alguma coisa no DNA que faz com que você tenha ou não aptidão para lidar com pessoas e que graças a Deus eu desde muito cedo eu gostava do relacionamento e quanto mais eu vivo hoje, quanto mais eu vivo experiências novas, mais eu percebo que a verdadeira riqueza são as relações humanas, isso é o que faz com que estejamos hoje aqui nessa manhã batendo este papo, este é o que fez com que ao longo da minha vida, a minha carreira, a  minha vida profissional se desenvolvesse. Eu aprendi ao longo do tempo que a diferença entre uma empresa vencedora  e uma empresa perdedora é a forma como as pessoas são tratadas, são motivadas, são integradas dentro de um objetivo.

Luciano          É a tribo.

Waldey           É a tribo.

Luciano          O que faz a diferença é a tribo.

Waldey           Exatamente e isso norteou toda a minha vida, claro que no dia seguinte, Luciano, você sempre… as pessoas que estavam com você, que eram seus pares, elas se dividem, elas se dividem, tem um grupo de aliados e tem um grupo, vamos chamar quieto, silencioso, que não se manifesta sobre o assunto, mas você sente que o diálogo ficou curto, você vai…

Luciano          Eu no dia seguinte cheguei de gravata, até então eu não usava gravata, eu fui promovido cheguei de gravata, entrei na minha sala e abri o jornal, porque para mim o gerente era o cara que chegava de manhã de gravata e abria um jornal e falou bom, agora sou eu o gerente disso aqui e ninguém estava preparado para coisa alguma. Eu já vinha de uma experiência do meu próprio negócio, tinha uma ou outra pessoa ali na minha área, mas nunca foi, 100% das pessoas que sentam aí e conversam comigo, eu faço a mesma pergunta e a resposta é a mesma: ninguém me treinou para assumir o cargo de chefia, então o assunto liderança é o assunto mais falado, mais lido, mais conversado, mas continua sendo assim até hoje. Eu ganhei a promoção e não fui treinado para ser gerente ou para lidar com pessoas, algumas pessoas têm a tua, o teu atributo que é esse de enxergar claramente a importância que tem essa coisa do relacionamento e conseguem muito bem, outros tomam um susto tremendo, porque eu que era o melhor cão de caça  virei agora o gerente da matilha e não sei nada de matilha, perdi o melhor caçador para ter um péssimo gerente de matilha aqui, é uma coisa curiosa isso aí viu, porque ninguém sentou aqui para falar não, realmente, me botaram num programa, eu fui treinado, eu aprendi, não acontece, impressionante.

Waldey           É verdade.

Luciano          Mas aí me conta então, você de repente, diante de você está aquele… subi um degrau, agora sou  gerente e?

Waldey           Agora sou gerente…

Luciano          Dentro do mercado automotivo, era tratores, não é?

Waldey           … tratores…

Lluciano         Tratores, isso que ano era? Mil novecentos e?

Waldey           … 76 aproximadamente, 1975, 76…

Luciano          Já era isso, foi cedo.

Waldey           … é, 26 anos

Luciano          75,76

Waldey           … isso aí e aí, veja você que o Mantovani tinha planos de se aposentar, não se aposentar, ele tinha uma linda fazenda e ele queria, com a família, ir cuidar da fazenda e isso já quando ele foi para os EUA, para ser treinado e passar um tempo lá, na volta isso já estava mais ou menos planejado, pois bem, fiz um trabalho pelo conhecimento que eu tinha da PRODESP, pelo treinamento técnico, basicamente técnico na IBM, na PRODESP, obviamente que eu me dei bem nesta área, o fato de falar inglês, hoje todo mundo fala inglês, mas naquela época não era assim, o fato de falar inglês, que eu devo aos Beatles, mas obviamente que isso facilitou o diálogo com os americanos, eu lembro que isto me diferenciava dos demais profissionais da empresa, eu me comunicava com bastante facilidade com o pessoal nos EUA…

Luciano          Você era o cara que tinha o Puma, que falava inglês, esse é o cara.

Waldey           … e aí aos 27 anos, o Mantovani me chama na sala, diz eu vou me aposentar e você é o novo diretor de organização e sistemas da Massey Ferguson, o mais jovem diretor de organização, o mais jovem diretor da empresa Massey Ferguson no mundo e obviamente isso aí foi um marco extraordinário na minha vida, naquele momento o company car era um Galaxy e eu nunca vou me esquecer que me deram o Galaxy, está aqui seu carro e tal e quando eu fui para a casa eu não tinha onde por o Galaxy, eu morava lá na Freguesia, em Itaberaba, para você ter uma ideia e não tinha… mesmo para deixar na rua ele era grande demais, era um problema ter um Galaxy…

Luciano          Para quem está nos ouvindo aí, a garotada mais nova, deixa eu tentar explicar, o Galaxy, meu pai teve um e o apelido dele era “a barca” era uma barca que fazia aproximadamente 6 quilômetros por litro de gasolina na época lá, e era um carro que era o carro… era o supra sumo do luxo, não tem nada equivalente hoje em dia no Brasil, eu não consigo me lembrar de alguma coisa que pode falar é mais ou menos equivalente, nunca mais se fez um veículo, era o Dodge Dart, o Dodge, o Dojão e o Galaxy…

Waldey           … e depois vinha o Opala, mas já era um pouco menor do que o Galaxy, era uma banheira, a gente… Era uma banheira, mas enfim, aos 27 anos um cargo de diretor de uma multinacional, um Galaxy e o desafio pela frente de dirigir toda a infraestrutura de sistemas daquela empresa, o fato de estar na área de sistemas, Luciano, me trouxe uma vantagem muito grande, porque me permitia conhecer os sistemas das mais diversas áreas, então eu tinha que desenvolver sistemas para manufatura, material requirements planning, era o nome do sistema, eu tinha que desenvolver sistemas para a área financeira, eu tinha que desenvolver sistemas para a área de peças, isso foi me dando uma visão muito abrangente de toda a empresa.

Luciano          Você vê que insight interessantíssimo você esta dando ai que tem a ver com  a forma como você escolhe olhar as coisas na tua vida, normalmente as pessoas dizem o seguinte, olha eu estou no TI, o TI é uma área restrita onde eu fico trancado numa sala lidando com o computador e você está dizendo para mim que o fato de estar no TI te deu acesso a todas as áreas da empresa com uma visão que acho que pouquíssima gente podia ter, porque você está lá é o seguinte: olha eu sou o  cara da infraestrutura para você, se eu não entender o teu negócio, o que você faz, eu não vou conseguir te oferecer a infraestrutura, quer dizer, é um ponto de vista que pouquíssima gente pode ter na empresa e aquilo que todo mundo acha que é um limitador, que é o fato de estar no TI, para você foi…

Waldey           Foi o oposto.

Luciano          …  foi o oposto, pelo ângulo de visão.

Waldey           Foi o oposto e aprendi aí o que é ser um generalista, porque eu realmente tinha uma visão geral da empresa, nenhum outro… o diretor de finança tinha da área de finança, diretor de materiais da área de materiais, mas eu tinha esta visão da empresa como um todo e fui o diretor nesta área por alguns anos, 4, 5 anos, quando veio a crise por volta de 1982, 83…

Luciano          Sarney…

Waldey           … Sarney, uma crise muito forte como a que estamos vivendo hoje e….

Luciano          80% de inflação ao ano…

Waldey           … 80% de inflação…

Luciano          …  desculpa, ao ano… ao mês, dois mil e cacetada ao ano…

Waldey           … CIPE, controle de preços, mas Luciano, uma coisa que eu aprendi e que sempre foi assim ao longo da minha carreira, toda vez que teve uma crise, me gerou oportunidade e eu acabei ganhando novos desafios, novas posições, o fato de haver esta crise, acabou fazendo com que me fosse solicitado assumir a área de manufatura da empresa, passar TI para um sucessor e assumir toda a parte industrial da empresa e aí eu viro o diretor industrial da Massey Ferguson, eu devia ter aí uns 32, 33 anos, me torno diretor de manufatura, diretor industrial…

Luciano          Que cá entre nós devia ser o segundo cargo mais importante da empresa?

Waldey           … eu diria que estaria entre esse e o diretor de vendas e marketing, alguma coisa assim, diretor de finanças também, mas enfim, assumi a direção de toda a empresa, muito bem, este fato foi uma promoção importante, me ajudou muito, mas eis que a crise se agravou de tal maneira que nós fomos obrigados a repensar a empresa tinha uma fábrica no Rio Grande do Sul, uma fábrica em São Paulo e lá pelas tantas a ideia, vamos centralizar tudo no Rio Grande do Sul, os custos são menores e com isso vamos racionalizar a nossa operação, a minha fábrica foi levada para o Rio Grande do Sul, eu fiz toda esta mudança, liderei todo esse processo…

Luciano          Teve que demitir algumas centenas ou milhares…

Waldey           … tive que demitir as pessoas que aqui em São Paulo, eu não me lembro mais a essa altura, mas centenas de pessoas foram demitidas naquele momento, eu, por um tempo, acompanhei todo o processo no Rio Grande do Sul, coincidentemente o diretor de vendas e marketing acabou deixando a empresa e eis que sou convidado a assumir a diretoria de vendas e marketing, uma vez que lá no Rio Grande do Sul já tinha sua estrutura, seu diretor de manufatura, estava tudo montado e eu me torno um diretor de vendas e marketing, a companhia passando um apuro bastante grande…

Luciano          Você lá no sul?

Waldey           … não, eu já diretor de vendas e marketing…

Luciano          Mas aqui em São Paulo, eles mantiveram então essa área comercial aqui.

Waldey           … é, finanças, vendas e marketing continua aqui em São Paulo, mas a essa altura do campeonato o que acaba acontecendo é que surge a ideia de vender a companhia no Brasil, a Massey Ferguson decide concentrar as suas operações em cinco países, que ela chamava core of the business e o Brasil não era o core of the business, então vamos vender a operação no Brasil.

Luciano          Isso era começo dos anos 90 já?

Waldey           Isso foi…

Luciano          Já é…

Waldey           … não, antes foi por 84, 85, por aí. A companhia é colocada à venda e um grupo brasileiro se interessa e compra a operação, Grupo Iochpe e a empresa se torna a Iochpe…

Luciano          Maxel.

Waldey           … a Maxel ainda vai chegar…

Luciano          Ah não chegou.

Waldey           … ainda vai chegar e a empresa se torna uma empresa da Iochpe onde a Massey Ferguson ainda tinha uma participação, sei lá, algo como 30%, algo desse tipo, o processo continua, somos assumidos por um grupo brasileiro, eu diria graças a Deus, porque realmente a Massey Ferguson havia nos abandonado, o Grupo Iochpe assume e eis que muito rapidamente fazem um churner round, muito rápido, muito inteligente e a nossa operação volta a crescer, volta a liderar o mercado, o Norberto Farina, que era um dos diretores da empresa, acaba se tornando o presidente da companhia naquele momento e a vida segue com o grupo Iochpe e lá…

Luciano          Deixa eu te perguntar uma coisa então, você passou por um processo que não é comum, que não é comum, normalmente acontece o inverso, os gringos vem para cá e compram uma empresa brasileira, então os executivos acostumados a trabalhar numa empresa brasileira, de repente mudam para um outro tipo de organização, aconteceu comigo, a gente… a Albarus era uma empresa brasileira com capital norte-americano, os gringos vieram para cá, compraram o que faltava e a gente virou multinacional, Dana Corporation, onde passamos a ter chefes americanos e com toda a demanda dos americanos, você sabe como é que  é, é aquela que o cara liga as três da tarde pedindo um relatório para as quatro horas e você passou por uma inversão, você saiu de uma empresa gringa que de certa maneira já tinha abandonado vocês mas de qualquer forma viu uma cultura dos americanos e passou para uma cultura brasileira. Como é que é essa transição? Quando você sai, uma coisa que você falou que chamou muito a minha atenção que foi feito um turner round rápido e muito inteligente, quer dizer, isso  para mim está claro, brasileiro consegue fazer isso, brasileiro se adapta e tem uma capacidade de virar que é uma coisa impressionante, que os gringos não conseguem fazer. Como é que foi esse momento? Você estava numa posição importante na empresa e assistiu de perto, então saíram os gringos, entraram os brasileiros. Como é que foi esse choque cultural?

Waldey           Eu passei na verdade por essa experiência, mais tarde eu passei pela…

Luciano          Inversa?

Waldey           … pelo inverso, então passei pelas duas fases, mas o grupo brasileiro assumindo a companhia, a grande mudança é a rapidez no processo de decisões, antes qualquer decisão, qualquer investimento, qualquer coisa que precisasse aprovar, tinha que ir para os EUA, passa por um comitê, as pessoas fazem um milhão de perguntas e as coisas não caminham na velocidade que tem que caminhar, isso num país estabilizado como os EUA funciona, mas num país como o Brasil onde as regras mudam a cada dia, se você não tem agilidade de decisão, infelizmente se perde as grandes oportunidades, então o fato do acionista estar próximo de você, tem uma dificuldade você fala com o acionista, no  máximo na reunião mensal você tem decisões, é sim ou não, vamos fazer, não vamos fazer, realinha a sua estratégia e as coisas acontecem, eu acho que diante da crise que o Brasil estava vivendo, esta situação de adaptação a novas situações a cada dia, de você adotar novos planos, novas estratégias, na verdade faz a diferença…

Luciano          Num ambiente onde todos tem essa cultura de vamos dar um jeito agora.

Waldey           … é e a nossa sobrevivência…

Luciano          Deixa eu contar uma coisa que aconteceu comigo lá na época que a Dana assumiu, meu chefe passou a ser um americano que morava em Toledo, Ohio, Toledo, Ohio é uma cidadezinha que fica lá no meio dos EUA,  eu uso até na palestra do Everest eu costumo contar isso ai, eu falo então eu aos 40 anos eu ia trabalhar já sabendo que  ao longo do dia o que ia acontecer, eu como era o cara de comunicação da empresa, provavelmente ao longo do dia eu ia criar uma propaganda qualquer para a empresa e eu ia mandar essa propaganda para o meu chefe lá em Toledo, Ohio e ele ia analisar e decidir se aquela propaganda era conveniente ou não a ser veiculada aqui em Buenos Aires, capital do Brasil, então  pau quebrando o dia inteiro porque havia essa… um fosso cultural gigantesco entre eles e um timing que não era o nosso timing e acho que o grande problema, uma coisa que prejudicou a gente barbaramente foi exatamente a perda repentina dessa capacidade de tomar decisões rapidamente e bom, não precisa dizer, não  foi muito longe, em 2004 a empresa sofre um chapter eleven lá e a bomba explode aqui no Brasil, foi uma coisa bastante complicada lá. Mas vamos lá, você passa por isso e de repente passou para um ambiente onde rapidez, decisões.

Waldey           … tem um fato importantíssimo que acontece aí, lembra que eu disse a Massey Ferguson continuava ainda sendo acionista, então embora o acionista local fosse ágil e quisesse tomar as decisões, a Massey Ferguson continuava dificultando, nós queríamos exportar para o resto do planeta, a Massey Ferguson protegia os seus mercados, enfim, essas coisas tornavam um pouco difícil a administração da empresa naquele momento e nós precisávamos de alguma maneira fazer algo diferente e a solução para isso, lá pelas tantas, foi então vamos criar uma nova marca, Massey Ferguson é uma marca importantíssima, mas vamos criar uma nova marca, quando nós tivermos que fazer aguma coisa que nós tenhamos dificuldade com acionista…

Luciano          Vai pela marca nova.

Waldey           …  vai pela marca nova e aí eu havia pensado em contratar alguém da Getúlio Vargas para fazer e tal e eu nunca vou me esquecer que o doutor Ivon Seek Iochpe que era o meu chefe na época, praticamente meu chefe na época, eu ainda tinha o Farina que era o presidente, mas ele disse Sanchez, eu era o homem de  marketing da companhia, eu quero o melhor homem do mundo neste assunto, vê quem é o number one  em marketing e vai atrás dele. Eu ainda perguntei para o meu professor na Fundação Getúlio Vargas e o nome do homem era All Reese, o homem que escreveu posicionamento, um dos papas do marketing naquele momento no mundo e ainda tem uma posição de destaque importantíssima e peguei um avião, fui para os EUA, marquei uma entrevista com esse homem e fomos lá traçar toda a estratégia de criação de uma nova marca, lá pelas tantas tudo montado, mas precisava achar o nome da empresa, qual vai ser o nome do produto que nós vamos vender, e o All falou assim olha, eu até podia fazer isso, mas tem um cara que é melhor do que eu nesse assunto e você deveria procura-lo, chama-se Ira Backara, ele fica em São Francisco, nós estávamos sentados em Nova York, peguei o avião, fui para São Francisco, sentei com esse homem que me atendeu num sábado, ele tinha agenda com empresas japonesa lotada pelos próximos 2, 3 anos, ele me recebeu porque a esposa dele gostava muito de brasileiros e…

Luciano          Ó o relacionamento de novo aí ó.

Waldey           … estas coisas que, de novo, quando você olha para trás  e fala meu Deus, como é  possível que deu tão certo? Me atendeu num  sábado, eu me lembro que o escritório dele, agente olhava para a Golden Gate e estávamos lá conversando e ele  falou assim olha,  eu vou te ajudar por conta da simpatia que nós temos pelos brasileiros, mas eu quero dizer  para você que a decisão final é de vocês, é sua e do All Reese, aí me deu uma lista que tinha uns  3000 nomes, desses 3000 escolhemos 18, desses 18 viemos de volta com All Reese para definir um nome que seria o nome da empresa e acabou sendo a Maxion, Max de grande, ion partículas carregadas de energia, aí…

Luciano          E por que dois X?

Waldey           … era um X  só, Maxion é  um X só. E aí lançamos a Maxion, lançamos inclusive um trator Maxion na época, de cor azul, não vermelho que era a cor da Massey Ferguson, mas todo este processe alavancou uma negociação onde a Massey Ferguson vendeu o resto que ela tinha de participação na empresa e daí para a frente, com os direitos de usar a marca Massey Ferguson a vida continuou e seguiu em frente e as  coisas acabaram dando bastante certo, ganhamos o top de marketing, ganhamos o marketing best, o melhor case de marketing naquele ano…

Luciano          Que ano era isso, você lembra?

Waldey           … isso aí 1987, 1987, por aí…

Luciano          Estamos no Sarney ainda.

Waldey           … 1987 e a vida seguiu o nome Maxion se perpetuou dentro da indústria automotiva como um todo, a gente acabou dando nome a outras empresas do grupo Iochpe e as coisas continuaram em frente até 94, 95 onde enfrentamos uma nova crise muito séria, essa nova crise levou ao processo que eu tinha comentado anteriormente onde algumas empresas do grupo são vendidas a empresas americanas, o negócio de tratores é vendido, o negócio  de motores foi vendido naquele momento para a International de tal forma que voltamos a trabalhar com os americanos…

Luciano          94, 95 é Fernando Henrique Cardoso, plano real, é o começo da virada, tinha acabado de passar pelo desastre do Collor, aquela loucura toda e a implementação do plano real, ou seja, a gente vinha de um processo em que o Brasil inflacionado, aquela loucura toda e de repente o país estabiliza de uma hoa par a outra e nesse momento de estabilização você me fala que vocês entram numa crise, é brutal. O que houve na época lá? Foi uma mudança de regra de jogo? Vocês não sabiam trabalhar sem inflação? Foi o mundo? O que houve? O que foi? Que crise foi essa?

Waldey           Eu não saberia precisar a você esse momento, eu acho que, de novo, o Brasil entrou num processo onde o setor agrícola ficou em segundo plano, deixou de ser prestigiado, eu não me lembro como é que estava o dólar nessa época, mas acho que também dificultou todo o processo de exportações, que era importante nesse momento, mas a grande verdade é que nós enfrentamos especialmente nessa área agrícola, nessa área em motores diesel, uma situação onde tivemos que reformular toda a estratégia, como a Navistar queria vir para o Brasil dentro da sua estratégia de parceria com a Ford…

Luciano          Navistar era caminhões.

Waldey           … a Navistar era caminhões, caminhões e motores diesel, então ela queria vir para o Brasil dentro desta estratégia, ela e Ford tinham uma parceria muito forte nos EUA e queriam estender isso aqui  para o Brasil, acabou entrando em negociação com o Grupo Iochpe e acabou adquirindo o negócio de motores onde eu fui vendido junto, só um parêntesis antes deste momento, entre 88 até 95, na minha vida profissional e na empresa teve um fato que foi muito importante na nossa experiência, no nosso crescimento, chama-se Iraque. Aquele momento o Wolfgang Sauer desenvolveu…

Luciano          Ex presidente da Volkswagen do Brasil.

Waldey           … ex presidente da Volkswagen, desenvolveu um projeto de exportação de Passat’s para o Iraque e na cola dos Auer muitas outras empresas, nós inclusive, acabamos exportando produtos para o Iraque, o programa, na verdade, era trocar petróleo por produtos brasileiros, isso era feito através de uma empresa da Petrobrás chamada Interbrás, então nós fomos para o Iraque em 1988, começamos a exportar tratores, começamos a exportar colheitadeiras para o Iraque e acredito, Luciano, montamos uma fábrica no Iraque, dentro de uma região chamada Scanderia, nós tínhamos lá trinta brasileiros trabalhando, eu nunca vou me esquecer que o embaixador era o Paulo de Tarso que era um extraordinário negociador e isso fez com que boa parte de minha vida profissional naquele momento se desenvolvesse no Iraque, porque eu tinha uma equipe trabalhando dentro do Iraque…

Luciano          Você passava temporadas lá, é isso?

Waldey           … passava temporadas lá, cheguei a passar três meses direto lá dentro do Iraque, no momento que não tinha WhatsApp, que não tinha SMS, que não tinha internet para se comunicar, eu me lembro que para fazer a comunicação com o Brasil era através do telex fazendo aquelas fitas amarelas perfuradas e era a única forma que nós tínhamos de comunicação e ainda assim tinha que ser autorizado pelo governo iraquiano e etc, muito bom, o nosso projeto Iraque ia muito bem até que aconteceu a diferença entre o Bush e o Saddan Hussein que na verdade até então EUA e Iraque eram aliados, o inimigo era o Irã, o Aiatolá Khomeini, mas aí aconteceu todo aquele problema do quart e houve a primeira guerra lá do Golfo e acredite, a  nossa fábrica foi destruída completamente, completamente, houve uma bomba americana, destruiu tudo que nós tínhamos lá, isso foi por volta, a primeira guerra do Golfo…

Luciano          isso é 1990, 90 para 91.

Waldey           90 para 91…

Luciano          Eu estava nos EUA no dia em que foi declarada, foi uma experiência única, eu estou dentro de um target de um mercado andando no mercado para comprar alguma coisa, de repente eu vejo todo mundo parado, todas as televisões com o Bush na televisão e todo mundo parado e congelado olhando para a televisão e eu parei para ver e o Bush está comunicando, dizendo que naquele momento estava dando início a uma ofensiva lá no  Golfo e que estava começando, ele explicando porque etc e tal e eu me lembro de uma americana do meu lado e ela fala em voz alta: i’m scared to death, eu estou morrendo de medo e aí cai a ficha em mim, que eu falei cara, eu estou num país que está declarando guerra a outro, eu estava lá naquele momento e foi uma experiência fantástica aquela de você vivenciar uma outra cultura, você foi pior ainda, jogaram uma bomba na tua fábrica.

Waldey           … é a fábrica foi totalmente destruída e aí nós queríamos tirar nossos brasileiros do Iraque e, meu amigo, foi uma luta para conseguir a liberação do nosso povo, você não vai acreditar, mas nós chegamos a montar um CTG, centro de tradições gaúchas no Iraque, tínhamos vários gaúchos da nossa fábrica do Rio Grande do Sul que estavam trabalhando lá e não fosse o embaixador, nós não conseguiríamos ter tirado, sabe Deus o que pudesse ter acontecido, mas ele conseguiu  negociar, os brasileiros  saíram e aí…

Luciano          Deixa eu te perguntar uma coisa aqui, a gente sabe que um dos papeis fundamentais de quem exerce liderança etc e tal é você trabalhar o teu planejamento e estar preparado para lidar com determinadas crises e tem crises e crises, então é a crise do dólar que mudou, é a crise do teu cliente que quebrou, é o cara que não pagou, etc e tal e eventualmente tem uma crise que você tem uma inundação na fábrica e etc e tal, eu não consigo imaginar uma crise maior  do que cair uma bomba na fábrica e destruir a fábrica, não passa pela minha cabeça, talvez só um furacão passando em cima e destruindo a fábrica, como é que é? Como é que é gerenciar uma crise nessa medida em que a tia fábrica não existe no dia seguinte?

Waldey           Então, a nossa operação era dentro de um centro militar, o prédio de alguma forma já estava lá, o que nós acabamos colocando foi toda a infraestrutura para se montar um trator, ou uma colheitadeira lá dentro e realmente naquele momento a preocupação, de novo, era com os nossos colaboradores, com as pessoas que estavam lá, que estivessem protegidas, que estivessem bem porque em relação à nossa planta não havia mais nada a fazer em relação àquilo, o diálogo com os iraquianos era um diálogo bastante difícil, eu nunca vou me esquecer que nós queríamos montar diariamente, sei lá, três tratores, quatro tratores e o general que comandava este complexo, general Nazar Alkazir, jamais vou me esquecer o nome dele e ele  comandava aquilo com mão de ferro, nós estamos saindo um pouquinho do tema, mas eu vou contar porque é uma curiosidade interessante, os iraquianos, eles não tinham o espírito de trabalho diário, o espírito de cumprir metas que nós temos…

Luciano          Essa é uma pergunta que eu ia fazer para você em seguida, você já aproveita e embala aí que é essa coisa dessa diferença cultural brutal entre esses dois  mundos.

Waldey           … é brutal. Então o iraquiano trabalhava até o fim do dia, no dia que ele recebia o salário ele sumia, não tinha, você treinava o funcionário mas daí a pouco, quando ele botava algum dinheirinho no bolso ele simplesmente você não encontrava mais com ele, trazer esse pessoal de volta, fazer com que houvesse a disciplina de montagem , isso é um negócio de séculos de diferença entre nós e eles e uma vez um dos nossos administradores lá, já é falecido, ele chegou lá para o general Nazar e falou general, nós não estamos tendo a cooperação, o pessoal não segue a disciplina que nós precisamos para montar os tratores, o general falou vamos lá ver, quero ver isso pessoalmente e foram lá até a linha de montagem e o general chamou um dos supervisores dele, um dos funcionários dele, o sujeito veio, se aproximou, ele falou deita aí no chão, chão meio sujo, de chão de fábrica, ele falou rasteja até lá na porta e volta e o cara foi rastejando até lá a porta e voltou, bateu continência, sei lá o quê e aí o general Nazar virou para o meu gerente lá e falou assim, isso é para você ver que não são os iraquianos que não são obedientes e disciplinados, vocês é que não sabem mandar, vocês é que não sabem dar ordens e por isso é que vocês não estão tendo sucesso, bom, para encurtar a história, nós acabamos contratando egípcios para fazer o trabalho na época, porque nós não conseguíamos esta colaboração…

Luciano          Imagina se pegar o brasileiro com esse jeitão paternalista de papai, meu filhinho, todo mundo cheio de dedo tudo, entrando num ugar que você tem que tratar na porrada.

Waldey           … exatamente, então Iraque foi um capítulo muito importante na minha formação, na minha vida, eu fui o primeiro brasileiro a voltar ao Iraque depois da guerra, nunca vou me esquecer que em Amã o embaixador me deu a bandeira, deu a mim e ao Farina para que nós fôssemos pelo deserto de carro até Bagdá e hasteássemos a bandeira na embaixada brasileira no Iraque, assim nós fizemos, acredite você, com alguns iraquianos chorando, olhos marejados quando nós hasteamos a nossa bandeira lá no Iraque, enfim, ainda fomos algumas vezes ao Iraque, eu fui umas três vezes, a minha última ida ao Iraque foi 1995, mas não tinha mais chance a esta altura, não tinha mais facilidade e logística, não tinha mais nada que nos permitisse continuar o projeto que talvez atrapalhou bastante o momento da nossa empresa, porque nós apostamos muito neste processo e neste projeto no Iraque.

Luciano          Não foi só vocês, um monte de gente entrou nessa, lembra da Engesa? A Engesa deu uma patinada feia nesse período também. Deixa eu te perguntar uma coisa aqui, lembra esse aqui é um programa de liderança e empreendedorismo, você teve chance de lidar americanos, brasileiros, iraquianos, você consegue agora que você consegue olhar de longe, você está de longe olhando de longe, você consegue ver claramente essa…uma cultura do brasileiro diferente da cultura, eu não digo a cultura geral, mas o trabalhador brasileiro, a gente sempre discute essa coisa de produtividade, que os americanos tem foco, o brasileiro não tem e aí você encontra o iraquiano que é outra história lá, como é que você vê esse perfil do funcionário, do brasileiro trabalhando quando você compara com essas experiências que você teve com outros povos?

Waldey           A palavra chave é criatividade, o brasileiro é criativo até demais, para quem  dirige uma fábrica e quer estabelecer disciplina de manufatura, no dia seguinte você encontra alguém já fazendo alguma coisa que vai além daquilo que foi definido como o processo que deveria ser seguido, porque alguém inventou uma nova forma de fazer, o brasileiro é extremamente criativo, acho que nos grandes centros a disciplina necessária também hoje já se iguala à de qualquer país do mundo, mas quando eu olho o que o brasileiro cria de coisas diferentes e é curioso, quando você olha um chinês, o chinês, ele é capaz de copiar algo tão bom,  tão bem feito quanto o original alemão, ele copia e não copia com maldade de  quem roubou, nada disso, muito pelo contrário, eu me lembro de chineses me mostrando um automóvel, um motor, alguma coisa com o orgulho de ter feito algo tão bom quanto o original, o orgulho dele é fazer algo igual, o brasileiro não, o brasileiro faz diferente e melhor, então esta criatividade que o brasileiro tem eu acho que é uma diferenciação extraordinária, sem dúvida alguma.

Luciano          Por que você acha que nós temos esse problema tremendo com produtividade? O Brasil tem uma história terrível, a gente não consegue ter produtividade no Brasil embora tenha esse talento todo me parece que tem um certo caos aí que a gente não consegue focar, a gente não consegue ter essa coisa de colocar eficiência naquilo que a gente faz. Como é que você vê isso?

Waldey           Eu acho que a nossa ineficiência tem mais a ver com imposto do que com criatividade, o custo de produção no Brasil, o medo de perder o emprego no dia seguinte, tudo isso acaba, de certa forma, atrapalhando a nossa vida e o nosso mundo, mas eu dirigi fábricas brasileiras, argentinas, de alguma forma participei em processos em outros países, de produção, francamente, Luciano, eu não vejo esta diferença do ponto de vista técnico, eu vejo sim por outros fatores que acabam influenciando o modo de vida do brasileiro, isso sim é que eu acho que de alguma maneira atrapalha todo o processo e cria isso que a gente, olhando começo, meio e fim fala nós aqui somos menos produtivos do que é o americano, do que é o alemão, do que é o inglês, mas eu acho que tem outros fatores que acabam influenciando este processo.

Luciano          Muito bem, você então continua a subir na empresa e um belo dia vira presidente. Presidente de que empresa? Nessas alturas já não sei mais do que nós estamos falando, em que ponto?

Waldey           A Navistar compra a nossa operação de motores no Brasil criada a International Indústria Automotiva, International Wedgend Salsamerica, foi o primeiro negócio, essa empresa fabrica motores que vão equipar entre outras coisas, um veículo americano da Ford. Esse motor é fabricado no Rio Grande do Sul, nós chegamos a exportar 30 mil motores por ano, desde o Rio Grande do Sul ao mesmo tempo em que no Brasil seguíamos fornecendo para a GM, para a Ford, para a Mercedes, só o que a International teve de bom nesse processo? Ela veio, nos ensinou a fazer o motor que ela queria que nós fornecêssemos para os EUA, mas daí para a frente nos deu liberdade de conduzir o negócio, isso foi um fator fundamental em nos motivar, porque a  sensação que você tem é que uma empresa americana compra a  empresa brasileira, no dia seguinte tem  um gringo sentado dirigindo tudo, não, eu era o responsável pela  operação, eu fui nomeado presidente, continuamos produzindo os motores  que já produzíamos e nos aprimoramos com o aprendizado que veio dos americanos e a interferência muito pequena e nós obviamente correspondendo a uma expectativa já que eles confiavam, isso nos motivava fazer a coisa bem feita  e nós fizemos, a empresa cresceu e isto foi até aproximadamente até 2002, 2003, quando foi sinalizado que esse motor nos EUA seria descontinuado por problema de emissões e isso faria com que nós que fabricávamos 50, 70 mil motores íamos passar a fabricar 35 mil, ia cair a produção pela metade, de novo, neste momento surge uma oportunidade de comprar o nosso maior concorrente, que era a MWM, começamos a negociar, começamos a conversar, na verdade o que aconteceu nessa época foi que um dos conselheiros da então MWM veio me procurar para ver se eu queria ser o presidente da MWM e eu disse a ele olha, eu estou muito bem aqui na International, estamos crescendo e ele lá pelas tantas estava se sentindo ameaçado por nós, ele não sabia que ia cair o negócio de motor nosso  mais para a frente, então eu disse a ele por que nós não juntamos as duas empresas e nos tornamos um grande fabricante aqui na América do Sul de motores diesel, ele falou vou conversar com o acionista e o assunto começou por volta de 2003, quando foi 2005 compramos o nosso principal concorrente, assumimos o negócio de motores que naquele momento, 2005, voltou a ser 60, 70 mil motores e até 2011 se tornou uma empresa de 143 mil motores portanto quase três vezes maior do que aquela empresa original em 2005 e quase 5 cinco vezes maior do que era a International lá no comecinho da operação. Então isso fez com que a nossa empresa crescesse significativamente, o número de pessoas também aumentou bastante, três plantas, uma em São Paulo, a ideia original era, bom, vamos por tudo numa planta só, não dava, nós acabamos tendo que manter as três plantas, uma em São Paulo, uma em Canoas no Rio Grande do Sul, outra na Argentina, em Córdoba e isso fez com que a empresa se tornasse um dos maiores fabricantes mundiais de motores diesel por volta de 2010, 2011, onde os americanos realmente só deram corda para a gente, estavam felizes, estavam satisfeitos com o que nós fazíamos aqui no Brasil.

Luciano          Muito bom, você era presidente?

Waldey           Eu me tornei presidente, fui presidente da companhia até o ano passado, até 2015, eu já devia ter me aposentado quando fiz 60 anos, isso por volta de 2010, naquele crescendo que estava a companhia, a Navistar me pediu que ficasse mais um ano, depois mais dois, aí veio a crise no Brasil, aí pediram para eu ficar mais, bom, quando eu fiz 65 anos fui à empresa e falei eu tenho alguns planos pessoais, eu também quero fazer alguns passeios com a família, eu acho que está na hora de passar o comando e acabamos nos acertando e o meu sucessor assumiu o comando da empresa, eu ainda por um bom tempo fiquei numa espécie de conselho da companhia, de alguma maneira colaborando com a minha experiência, com a minha formação e hoje como eu disse a você,  estou num momento de transição para uma nova etapa.

Luciano          Aí você no ano passado, você me telefona e manda um e-mail para mim e fala vamos almoçar, aí eu fui almoçar com você, e para minha surpresa, a hora que a gente sentou no almoço lá você falou para mim estou começando a minha transição etc e tal, eu queria que você me contasse da tua, você falou para mim, eu queria que você me contasse da sua, como é que você fez para fazer a tua transição de executivo para a vida que você leva hoje porque eu vou começar a minha, não é? Foi legal, eu ouvi aquilo, uma demonstração de humildade, você não precisava ter feito isso, mas a gente conversou bastante ali, você contou que olha, eu estou com projetos, não sei o que eu vou fazer, eu vou abrir o meu escritório, vou fazer uma consultoria e a gente bateu um papo ali, nós conversamos bastante a respeito e aí para minha surpresa você fez uma coisa que eu acho que é fundamental ser feita, você dá uma parada, bota uma mochila nas costas e vai para o caminho de Santiago, que é o teu Everest, por enquanto esse é o teu Everest, não é? E tira aquilo como um momento de introspecção, não é outra coisa que não seja isso, não é pela aventura, não é por caminhar lá, é um momento em que você fala eu vou mergulhar dentro de mim mesmo e vou, durante um período, vou organizar as ideias aqui. E aí você volta, manda outro e-mail para mim, montei um blog aqui, voltei de lá, vamos conversar de novo e a gente veio conversar outra vez e você me contando das suas experiências todas aí, muito bem, como é que você está fazendo para gerenciar essa, você sai de um turbilhão onde você o presidente daquele grupo gigantesco e daquele turbilhão, no dia seguinte o teu cartão de visita não tem mais…

Waldey           Presidente.

Luciano          … o Sanchez presidente, agora você é o Sanchez, você não é mais o  badalado, você não tem mais o seu Galaxy, na tua garagem você não tem mais um séquito ali para te puxar o saco, você não tem a tua secretária de tantos anos para resolver todos  os pepinos, você é um ser humano como outro qualquer, não é? E essa transição não é todo mundo que consegue assimilar isso de uma forma correta, a gente vê e você até no dia daquele almoço você falou para mim, falou eu conheço uma pancada de outros caras que saíram com a corda toda e encontro os caras agora, os caras estão na beira do suicídio porque o mundo se mostrou totalmente diferente do que eles imaginavam lá, como é que é sair do turbilhão e entrar nesse momento de paz? Que conhecendo alguém que passou esses anos todos de adrenalina, ninguém sai da adrenalina e mergulha na paz, ah está sendo normal, não é normal, tem um processo de assimilação meio complicado, fala um pouquinho para mim disso aí.

Waldey           Então, você falando eu me lembrei de um amigo, Mario Fiorete que ele  diz que a  primeira coisa que aconteceu quando ele saiu de uma multinacional é que ele perdeu o sobrenome, ele era o Fiorete da Ford e no dia seguinte ele passou a ser só o Fiorete. Luciano, uma das coisas que a gente falou durante o nosso bate papo hoje é da importância das relações humanas e os amigos, a família têm uma importância extraordinária nesse momento, se você tem um bom grupo de pessoas com quem você se relaciona, mantem contato, se você tem uma família bem estruturada, tudo isso é extraordinariamente importante para dar continuidade à sua vida. Eu queria dizer para você que uma as formas de medir essa mudança é a quantidade de e-mails, eu recebia 15 e-mails por dia e passei a receber 8, 10, 12, a maioria deles de promoção de venda, porque de negócio diminuiu bastante…

Luciano          Te oferecendo um sistema infalível para aumentar o pênis, é isso aí, dez receitas para aumentar o pênis, é isso aí.

Waldey           … é mais ou menos por aí, então, eu me preparei  para esta transição e como eu disse, até saí um pouco atrasado daquilo que eu havia me preparado no processo, primeiro financeiramente, ao longo da minha vida, ao mesmo tempo que eu fazia o meu trabalho na empresa, que eu me desenvolvia, os recursos financeiros, os bônus, os prêmios e etc eu sempre investi no mundo imobiliário, de tal maneira conseguir ter aluguéis, ter uma espécie de remuneração que talvez não seja do presidente, mas que de alguma maneira me dá uma cobertura e uma certa tranquilidade do ponto de vista financeiro. Outro aspecto tem a ver com a origem lá dos pais, dos avós que vieram para o Brasil na área agrícola, a minha atividade numa propriedade em Botucatu que antes estava relegada a segundo plano, ia lá só para fim de semana, de alguma maneira, como diz minha mulher, tenho ido lá amolar o boi, então tenho me dedicado, tenho procurado fazer com que essa atividade se torne… tenha uma pequena renda, mas consiga funcionar e operar direitinho…

Luciano          Você está produzindo mel lá, não é?

Waldey           … não, o mel é o hobbie, o mel é o hobbie, tem plantações que acabam, tem o seu ciclo cada uma delas, tem uma parte arrendada para usina com cana de açúcar, mas enfim, aquilo virou uma atividade que antes estava na mão de pessoas que cuidavam, mas eu ficava às vezes dois, três meses sem ir até Botucatu, agora eu vou mensalmente eu tenho ido para lá, isso tem me ocupado bastante, como você bem mencionou eu planejei fazer o caminho de Santiago para ter um espaço, um tempo para refletir sobre  esse momento, os desafios que vêm, pela frente, só que para fazer o caminho de Santiago precisava me preparar fisicamente, então algo que eu nunca consegui fazer que era ir numa academia fazer minha ginástica, fazer meus exercícios, neste último ano, acredite você, eu tenho conseguido ir diariamente à academia mesmo depois que voltei de Santiago eu tenho mantido esta rotina de alguma maneira fazendo com que isso aconteça, novos aspectos da vida têm me desafiado, eu tenho agora um neto, isso consome um pouco de tempo, tenho um filha que tem 21 anos que também está num momento importante da sua vida profissional, da sua faculdade, enfim, isso…

Luciano          Você tem uma adolescente de 21 anos?

Waldey           … eu tenho uma adolescente…

Luciano          Eu tenho uma adolescente de 26, entendeu? Nós temos filhos adolescentes.

Waldey           … então, então você sabe bem do que eu estou falando, de vez em quando além de ir para o caminho de Santiago, eu sou baladeiro também, vou levar na balada, vou buscar na balada, enfim, essas coisas também consomem tempo, mas acredite você que eu tenho me ocupado de uma forma sadia, de uma forma gostosa, mais até do que antes quando estava na empresa no dia a dia da empresa, porque os problemas da  empresa, eles tinham uma infraestrutura para cuidar deles, eu simplesmente determinava, isso aqui alguém de marketing vai olhar, isso aqui  é alguém de finanças vai ver, me tragam a posição, me tragam… agora hoje se eu tiver que ir no  correio botar uma carta, sou eu q eu vou lá  no  correio colocar a carta.

Luciano          E outra coisa, o teu propósito mudou, não é?

Waldey           Sem dúvida…

Luciano          Você tem outro propósito agora.

Waldey           … sem dúvida alguma…

Luciano          Deixa eu te perguntar uma coisa aqui, quantos filhos você tem?

Waldey           Eu tenho dois filhos. Eu tenho um de 36 anos, que é o pai do Douglas, meu primeiro neto e tenho a filha de 21 anos.

Luciano          Vou voltar para o começo da nossa conversa aqui para fazer o fechamento que eu queria lá. Quero botar você no lugar do teu pai agora, teu pai ficou vivo até?

Waldey           Meu pai ficou vivo até os 70 anos aproximadamente…

Luciano          Que ano era isso?

Waldey           … faz uns 20 anos que ele faleceu.

Luciano          Mas você já estava voando alto quando ele faleceu já estava lá.

Waldey           Já estava voando alto sem dúvida alguma.

Luciano          Muito bem e seu pai assistiu isso tudo? Seu pai viu isso tudo?

Waldey           Meu pai assistiu isso tudo, sem dúvida.

Luciano          Muito bem. Agora você está no lugar dele e tem dois filhos aí para você olhar para os filhos e sentar na frente deles e falar como é que estão as coisas, como é que estão indo e poder olhar para eles e falar puta, fiz direitinho o meu trabalho, é outro mundo, são outras condições, você deu para seus filhos coisas que seu pai nem sonhou que daria para você, seus filhos têm oportunidade que na nossa época imagina, eles têm oportunidades para tudo, para crescer, para viajar, para conhecer, para ampliar horizontes, tem um embasamento financeiro que você não tinha na tua época, você construiu aquilo do nada e você olha para eles hoje, do alto dos seus 64 anos olha para os dois e aí? Compara com seu pai olhando naquela época e com as perspectivas que ele tinha com as que você tem, tua preocupação com relação a eles, como é que é?

Waldey           Você sabe que meu pai, nós falamos sobre o diálogo, ele sabia da minha vida muito mais do que hoje eu sei da vida dos meus filhos, tudo o que acontecia dentro de casa era discutido no almoço, na janta, não era nem jantar, na janta e se eu fosse a algum lugar ele sabia, se eu ia num baile ele sabia, tudo isso estava absolutamente dentro da conversa da família, hoje em dia com a internet, com todo  este processo de comunicação, eu olho para a minha filha segurando o iPhone dela e dialogando com 20 pessoas ao mesmo tempo no iPhone, eu não tenho ideia de 10% de tudo o que está acontecendo na vida dela,  quem dirá do meu filho já casado, adulto e pai. Então claro que da mesma forma que o meu pai, eu tento controlar as coisas que eles vão fazer, os lugares que vão, os projetos de vida, mas cada vez mais eu ganho consciência de que o máximo que eu posso dar a eles é o exemplo, mas o controle sobre a situação de cada  um deles, o que estão falando ali no iPhone, o que rola numa balada, eu tenho que confiar na educação que  eu consegui dar até eles terem 14, 15 anos, que ainda tinha a convivência da família, o amor da família próximo deles, mas daí para a frente, embora se você me perguntasse isso, eu diria para você, me é desconfortável, eu não posso dizer que não, é desconfortável ainda numa cidade como esta, com a segurança de São Paulo que a noite para você sair você está sujeito a um assalto, sujeito a….

Luciano          você sabe que uma coisa que tem me… agora de pai para pai, uma coisa que tem me assombrado barbaramente que é uma coisa que não tem mais volta, eu não consigo mais voltar, não consigo resolver mais isso, é uma coisa que eu tenho consciência que eu deixei de dar para meus filhos e que vai causar um impacto gigantesco no futuro deles, em momento algum eu dei para eles escassez, eles não viveram escassez, eu não deixei em momento algum que eles tivessem que lutar por alguma coisa, eu estou lá cobrindo, a hora que precisa o pai vai, dá um jeito, a mãe vai e dá um jeito e eles não tem consciência do que é a escassez que é aquilo que ajuda a gente a construir, como você falou lá atrás, cada momento de  crise que aparecia a gente arrumava um jeito e fazia a coisa sair, quando você não vive escassez e não vive a crise, está tudo fácil, está tudo na mão, não tem problema, papai e mamãe resolvem ali e isso tem me preocupado, tem tirado meu sono, eu tenho adolescente de 32 anos e uma  adolescente de 26 anos e tenho perdido meu sono com essa minha… aliás eu dou para eles mais escassez hoje do que eu dava até então, está mais difícil hoje do que estava até lá atrás, mas é uma reflexão que tem me tirado o sono.

Waldey           Luciano, a vida segue em frente e se nós tentarmos fazer nossos filhos serem iguais a nós, nós não vamos ter sucesso nunca, vamos nos frustrar cada vez mais, eles, você já deve ter observado isso, diante de situações difíceis, acabam achando uma solução, um caminho e acabam resolvendo, muitas vezes, de uma forma que me surpreende, eles conseguem… o volume de informações, aquilo que nós temos nas relações humanas, eles têm através da internet com os amigo todos aí que estão no WhatsApp deles, acabam encontrando formas de se virar e certamente nos tira o sono  como meu pai muitas vezes perdeu o sono quando eu ia tocar minha guitarra no conjunto de madrugada, mas eu acabei encontrando os meus caminhos e acabei encontrando formas de vencer os obstáculos…

Luciano          Eu vou ceder ao seu pai a demonstração de que você decidiu fazer um plano e que seu pai podia chegar, qual é teu plano e você tinha uma resposta, qual é meu plano? Meu plano está aqui, vou fazer isso, se vou chegar lá não sei, mas há um plano e meu sono desaparece hoje quando eu pergunto para eles qual é o plano e não tem plano, qual é teu plano? Ah sei lá, a gente dá um jeito e isso não tem sustentabilidade, talvez esse seja o mundo novo, que nós não fomos treinados para ele, não é o nosso mundo e isso tem me tirado o sono mas sei lá, é um papo bom pra gente levar numa…

Waldey           Vamos pensar positivo, eles vão encontrar os seus caminhos.

Luciano          Estão fazendo acontecer e vão chegar lá, mas isso não tira a angústia dos pais. Meu amigo, se alguém quiser conhecer, eu vou recomendar que o teu blog está muito legal, você acabou de voltar e montou um blog contando da tua experiência cheia de dicas muito legais sobre o caminho de Santiago que, de novo, tire o rótulo caminho Santiago e trate aquilo como é o momento em que eu encontrei um processo para fazer uma introspecção  e  me entregara mim mesmo, você pode fazer a mesma coisa indo daqui para Sorocaba, andando na periferia,  não precisa ir para Santiago, mas aquele é um processo legal e que eu recomendo muito que o pessoal veja, até porque é uma viagem junto contigo lá, você tem de cabeça o endereço do teu blog?

Waldey           Ih rapaz, eu não tenho, mas se colocar o meu nome, Waldey Sanchez, caminho de Santiago em treze dias, e põe isso lá no Google, o meu nome, caminho de Santiago em treze dias, vai aparecer N…

Luciano          N entradas lá…

Waldey           … N entradas.

Luciano          E o Waldey é com W no começo e Y no final. E o Sanchez tem Z…

Waldey           Z no final.

Luciano          Tem Z no final.

Waldey           Exatamente.

Luciano          Caminho de Santiago em 13 dias.

Waldey           Caminho de Santiago em 13 dias, Waldey Sanches, Caminho de Santiago em 13 dias e você colocou bem, eu não fiz  por razões religiosas, não fiz por razões filosóficas, eu fiz para encontrar um tempo onde eu pudesse pensar sobre toda essa história que eu acabei de contar aqui para você sobre este momento que eu estou vivendo, sobre os desafios que vêm pela frente e valeu, foi muito bacana.

Luciano          Como vale, não é? É o meu Everest.

Waldey           É o meu Everest, exatamente

Luciano          Meu amigo, parabéns por essa carreira, pelo que você construiu até agora, pela forma como você está projetando essa coisa que vem pela frente aí, quem sabe você vai virar o fazendeiro lá em Botucatu, mas é muito legal saber que você ajudou a construir todo esse… as marcas que você comentou aqui, as empresas que são empresas que causaram grande impacto no Brasil eu admirava, eu olhava de lado e via aquela coisa admirável, tive contigo em vários eventos da Autodata, quando você sistematicamente ganhava a empresa do ano, ganhava os troféus de marketing ali com um trabalho super bem feito e o resultado está aí, a empresa chegou no ponto que ela chegou lá eu acho que grande parte disso vem desse… do garoto que quase virou torneiro mecânico com o pai dele lá mas que seguiu um caminho adiante. Meu amigo muito obrigado.

Waldey           Eu que agradeço você pela oportunidade, foi uma satisfação muito grande a gente bater esse papo e vamos em frente.

Luciabo          Vamos, quem sabe a gente se encontra mais e vamos conversar um pouco mais. Um abraço.

Waldey           Um abraço.

 

Transcrição: Mari Camargo