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Ciça Camargo -

Luciano          Muito bem, mais um LíderCast. Quem acompanha o Café Brasil vai lembrar de um comentário que eu publiquei há um tempo e eu vou repetir ele agora para vocês dois. Pois é, no fim acabou dando certo, esses dois vieram parar aqui no Brasil e eu tenho os dois junto comigo aqui para mais uma gravação, eu não sei se vocês sabem mas tem três perguntas que são fundamentais nesse programa e que só precisa se preocupar com ela, se vocês acertarem as três, o resto está tranquilo e a pergunta é o seguinte: eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que vocês faz?

Leo                 São difíceis. Vamos lá, eu sou Leonardo Spencer, eu tenho 33 anos, eu sou administrador de formação, mas hoje eu faço um pouco de cada coisa e é difícil definir.

Raquel           Eu sou a Raquel Spencer, tenho 31 anos, economista de formação, atualmente empreendedora e viajante.

Luciano          A gente já deu spoiler na abertura com os dois viajando, vocês estão á frente de um projeto chamado?

Leo                 Viajo, logo existo.

Luciano          Viajo, logo existo. E eu sei que vocês têm uma história muito legal, eu vou cutucar um de cada vez só para saber as origens, vou começar com você, de onde você vem, onde você nasceu, o que você fez e o que você queria ser quando crescer?

Raquel           Eu acho que quando eu era pequena já era viajante, só não sabia, porque eu nasci no Rio Grande do Sul, cresci no Mato Grosso do Sul e com 15 anos eu vim sozinha morar em São Paulo para estudar e para trabalhar, acabei ficando 10 anos em São Paulo, antes de cair no mundo e ficar quatro anos fora.

Luciano          O que quer dizer 15 anos vim sozinha para São Paulo, o que é isso?

Raquel           É, na verdade é um passado que eu não conto muito, mas eu vim para trabalhar como modelo e nessa época as mães mandam as adolescentes, vem morar num apartamento com 10, 15 modelos, mas era mais um sonho da minha mãe do que um sonho meu, então apesar de para ela ser muito importante seguir a carreira de modelo, eu sempre gostei de estudar, então sempre falava ah mãe, estou só terminando a escola e aí eu vou focar na carreira de modelo, aí acabei entrando na faculdade de economia e…

Luciano          Você já desfilava lá, você fazia modelagem lá em…

Raquel           No Mato Grosso do Sul quase não tinha, o que tem são aqueles olheiros que vão para lá, encontram as meninas e trazem elas para São Paulo e aí…

Luciano          Foi assim que você veio parar aqui?

Raquel           … foi assim que eu vim parar aqui.

Luciano          E aí, como é que… é interessante porque a pergunta que eu faço sempre é assim: como é que você contou para o seu pai e a sua mãe que você ia sair de  casa? No teu caso sua mãe decidiu.

Raquel           Minha mãe me obrigou, fala assim coitada, mas para ela era super, desde que eu nasci, eu estava na barriga, que ela falou você vai ser modelo, então ela já trabalhava com moda, minha mãe sempre teve loja de roupa, então ela falou você vai, no dia do seu aniversário de 16 anos, porque com 15 ela achava muito novinha, já estava meio aqui, meio lá, ela falou, agora você vai de vez. Só que eu tinha… para mim era muito difícil aquilo da pessoa chegar e olhar para uma menina de 15, 16 anos, esquelética, falar você está gorda, eu achava aquilo horrível…

Luciano          E você ouviu isso?

Raquel           … eu nunca ouvi, mas eu via as meninas do meu lado às vezes ouvindo isso e então para mim era muito difícil, porque eu sempre achei que pelo estudo era um mérito seu, você podia fazer alguma coisa diferente, você com uma menina de 1,70m, 1,75m, 1,77  com 47 quilos, o que mais essa menina pode fazer? Vai morrer de fome para ser mais magra, então isso era o dilema daquela profissão que eu não conseguia lidar muito bem.

Luciano          Você já parou para pensar que foi o sonho da sua mãe que você fosse modelo que botou você aqui com sobrenome Spencer? Ô mãe, obrigada, modelo não rolou, mas no fim deu legal.

Raquel           Mas sabia que demorou, eu acho que só… já estava há uns cinco anos no banco quando minha mãe conseguiu aceitar que eu não ia seguir aquela profissão, eu acho que eu já tinha uns 22 anos, porque por muito tempo ela sempre achava que eu ia me dedicar algum momento á profissão de modelo.

Luciano          Que interessante. O senhor.

Leo                 Bom, eu sou paulistano, nascido e crescido em São Paulo, então assim, sempre vivi essa coisa de estar aqui em São Paulo. Meu pai foi publicitário a vida toda, então sempre tinha empresa própria, então sempre de ouvir o que está criando, o que está fazendo, trocar muita informação, minha história é muito menos complexa que a dela, não teve essa ruptura de sair de cidade, mudar de cidade, mas eu tive o privilégio de crescer numa família onde existia muito diálogo, acho que isso é o grande legado que eu vejo, o diálogo sempre foi coisa muito forte, conversar, sempre ter os pais como amigos e sempre foram grandes consultores, todos os problemas que eu tive na minha vida de adolescente, eu sempre pude buscar nos meus pais…

Luciano          Você tem irmãos?

Leo                 …  eu tenho duas irmãs.

Luciano          Sua mãe fazia o quê? Ou faz o quê?

Leo                 Minha mãe é formada em administração, trabalhou muito tempo na iniciativa privada e depois trabalhou com meu pai na agência de marketing que ele tinha…

Luciano          Os dois empreendedores então, você cresceu numa família de empreendedores.

Leo                 … é, eu falo para a Raquel, eu ia para casa, a gente demorava uma hora para chegar até ali a região de Barueri, de Jandira onde eles moram e era todo dia, ah porque a gente criou isso, a gente fez aquilo, então eu muito novo, com 12 anos, inventei de ser DJ, isso é uma coisa que ninguém sabe, então eu fazia festa, ganhava um dinheirinho, comprava as minhas coisas, com 15 anos a gente vendia açaí no colégio, no dia que é laboratório e meu pai sempre apoiava muito assim, a gente criou, era “Brother’s Açaí”, então meu pai criava faixa para a gente e eu sempre fui o cara que ia no processo, então vamos lá, quem vai querer o açaí, pega o  nome no colégio, faça o pedido, tudo on demand, vou lá pegar o açaí, era uma loucura, mas é fruto de ter crescido num ambiente que estava sempre sendo criado coisas, também fui para administração, no caso a gente fez a mesma faculdade, né Quel, para a Puc e trabalhei dez anos no mercado financeiro…

Luciano          Vocês se conheceram aonde? Na universidade?

Raquel           No banco.

Luciano          No banco.

Leo                 Nós nos conhecemos no banco, a gente trabalhava no mesmo andar, apesar de muitas vezes ir de carona e junto para a faculdade, nós éramos amigos do banco.

Luciano          Então, meu pai tem um empreendimento, meu pai é um puta empreendedor, meu pai está agitando tudo e eu serei funcionário de alguém, eu vou trabalhar para alguém de terno e gravata… da onde veio isso, o que era isso? Vou ver o que acontece ou é uma escolha?

Leo                 Na verdade foi uma escolha deles, eu acho, quando eu tinha 17 anos minha mãe falou assim, no dia que você fizer 18 anos você vai trabalhar, eu não quero que você fique em casa sem trabalhar, eu acho que é importante você conhecer outros caminhos, então no dia que eu fiz 18 anos, foi o primeiro dia de faculdade, se não me engano, meu pai arrumou um estágio numa empresa espanhola, ele falou vai lá, se vira. Eu já tinha feito alguns trabalhos na empresa dele, ia lá ajudar, mas sempre tinha a coisa de ser filho do dono e os caras te aliviam em muita coisa, então assim, de lá foi um caminho natural, eu gostava muito do mercado financeiro, sempre gostei do dinamismo que isso tinha e comecei a querer traçar meu caminho, pô fui fazer curso na bolsa, saia do trabalho durante o dia de estágio ia para a bolsa a noite, fazia curso na bolsa, fazia curso nas férias, coisa que todo mundo estava pensando em viajar, eu estava sempre querendo estudar, então eu naturalmente fui…

Luciano          Como é que é? Quando a turma viajava você queria estudar, olha a ironia disso…

Leo                 … quase meio nerd assim…

Luciano          Para hoje em dia, imagina só.

Leo                 …isso eu não via na época.  Então eu queria ir para o mercado financeiro e aí fomos, aí acabou acontecendo.

Luciano          Você tinha irmãos?

Raquel           Eu tinha uma irmã mais nova.

Luciano          Irmã?

Raquel           Irmã.

Luciano          Que não virou modelo.

Raquel           Não.

Luciano          Aí sua mãe falou chega, uma só basta. Legal. Muito bem, aí vocês estão lá tocando a vida, se conhecem, estão trabalhando dentro de um… Que instituição era?

Raquel e Leo Citibank.

Luciano          Dentro do Citibank. Muito bem. Vocês estão no Citibank, outro dia passou por aqui o Gustavo Cerbasi que também veio estagiário no Citibank e tudo mais.

Raquel           Ele foi estagiário do meu primeiro chefe, trabalhou na mesma área que eu.

Luciano          Que legal. E aí? Eu não consigo pensar numa corporação mais corporação do que um Citibank da vida que é um modelo e vocês dois na mesma função, na mesma área, como é que era? O que vocês faziam lá?

Leo                 A gente trabalhava da tesouraria do banco, em poucas palavras, para quem não sabe, tesouraria é quem administra o dinheiro do banco, o banco não cobra tarifa dos clientes? Então ele pega esse dinheiro e reinveste para tentar melhorar o capital dele. A Raquel trabalhava na parte de vendas, de seils, de moeda estrangeira, então quando a Petrobrás queria cotar um cliente, ligava lá, quero comprar dólar. Falava com a Raquel, ela fazia a operação, intermediava isso. Eu era aquele cara já que pegava o dinheiro do banco e tentava gerar mais dinheiro, se eu achava que o dólar ia subir, eu comprava dólar; se eu achava que os juros ia mexer, eu operava nos juros, mexer com derivativos, aquela coisa que até hoje minha mãe não entende o que eu fazia quando eu trabalhava no banco, então assim basicamente, de função era basicamente essa, sentado, eu tinha oito monitores, Raquel tinha um monte também, o dia inteiro pressão, chegava no banco já três jornais lidos…

Raquel           A gente gostava, acho que a gente sempre divide isso com as pessoas porque a gente gostava.

Luciano          Vocês tinham 20 e o quê?

Leo                 Foi dos 20 aos 30, 20 a 28 no banco.

Raquel           eu dos…

Luciano          8 anos?

Leo                 Foi 9 anos de banco.

Raquel           Eu dos 19 aos 27.

Luciano          E aí os dois se encontram ali e aí? Pintou já o climinha? Demorou?

Raquel           É a gente foi amigo na verdade por muitos anos, uns 3, 4 anos.

Leo                 Cada um tinha a vida, namorava, tocava o barco, a gente era amigo e 2010 foi quando a gente começou a ficar junto, faz 7 anos, mais ou menos, mas uma coisa que é interessante, o projeto que veio acontecer, o Viajo, logo existo, não existia, nunca…

Luciano          Você não tinha nada a ver com isso?

Leo                 … nada, nunca tinha sido um sonho, nunca tinha deslumbrado, viagem era férias, 15 dias de férias, eu gosto de surfar, então eu ia surfar, gostava de ir para uns buracos no mundo, a Quel já uma coisa um pouco mais estruturada e essa era a nossa vida quando a gente começa a namorar.

Raquel           Até 2012 segui normalmente. Até que…

Luciano          E aí, vamos chegar nessa que é uma grande virada, eu faço essas perguntas todas para tentar entender o background de onde vem, qual era a formação, qual era a visão e tudo mais. Vamos lá, vamos começar a falar dessa virada, como é que começa essa coisa, de onde apareceu aquele “e se?”, de onde veio isso?

Leo                 2012 a gente estava num momento um pouco reflexivo, pensando e aí, o que a gente está fazendo? Tem hora que a mente chega em algum lugar em termos de carreira, de resultado financeiro, de projeção, o que a gente quer da vida? Tinha já uma coisa, não vou falar incomodando, mas tinha uma pulguinha sim, quanto tempo mais a gente quer fazer isso, a gente quer ter filhos? Não?

Luciano          Vocês estavam juntos já?

Leo                 Namorando. Namorava.

Luciano          Morando já na mesma casa ou não?

Raquel           Não, cada um na sua casa.

Leo                 Eu tinha minha casa, ela tinha a dela, a gente ficava muito tempo junto no banco e fora, mas cada um no seu…

Raquel           Eu estava fazendo MBA…

Leo                 A Raquel estava estudando, ela tinha outras demandas e aí eu estou um dia conversando com um amigo, aqui em São Paulo…

Raquel           Calma, posso só voltar um passinho?

Leo                 Claro

Raquel           A gente tinha um plano assim muito longínquo de talvez trabalhar no banco até os 35, 40 anos e aí talvez a gente mudaria para a Austrália, para ter filhos, uma estrutura um pouco mais calma, recomeçar talvez em novas carreiras, voltar a estudar, existia um plano, mas era uma coisa assim…

Leo                 Porque eu já tinha morado na Austrália e falava puxa, é um lugar muito legal para a gente morar, então vamos fazer o que tem que fazer aqui no Brasil, um dia a gente vive com menos mas vai morar lá com mais tranquilidade e aí em 2012 eu recebo um convite de um amigo, Léo, vamos no SESC Vila Maria que vai ter apresentação de um cara que deu a volta ao mundo de bicicleta, aí eu puxa, que legal, vamos lá…

Raquel           Exposição de fotografia…

Leo                 … exposição de fotografia e tal, ele ia falar sobre essa viagem dele, a gente vai, começa a desenrolar o assunto, ele fala Leo, está aqui um presente, me deu de presente um livro de um casal que tinha dado a volta ao mundo de carro em 2003, que chama-se “Robert & Grace”, do Challenging your Dreams, brasileiros e eu pego o livro, começo a folhear e falo caramba, eu nem sabia que dava para dar a volta ao mundo de carro…

Luciano          De carro, ninguém imagina, não é?

Leo                 … aí eu olho o carro do rapaz, vejo que ele adaptou fogão, geladeira, barraca,  vejo quanto ele gastou, sei lá, 60 dólares por dia falei caramba, eu tenho que fazer isso aqui, é muito legal, é muito diferente…

Raquel           E a gente tinha essa… gostava de viajar, mas acho que a gente nunca enxergou como a gente poderia viajar mais, sempre as possibilidades de morar fora talvez eram pelo banco, por muito tempo ou se a gente tivesse uma ruptura de largar tudo e ir morar em outro lugar, então acho que essa viagem que a gente viu desses caras meio que mostrou que é possível você viajar por mais tempo, porque a questão do carro viabilizava financeiramente, então você vai dormir no carro, você vai cozinhar no carro, você vai morar no carro e para mim o que mais me fascinava era a ideia de você não vai chegar num lugar turístico, você vai passar no vilarejo, você vai passar nos lugares não visitados, você vai ver realmente como as pessoas vivem.

Leo                 E aí somava tudo isso uma paixão que eu já tinha pela fotografia e eu falei putz, aqui vai ser perfeito para poder fotografar os lugares que a gente vai passar, a vida das pessoas, mas isso é a parte bonita, eu venho para a Raquel num dia da semana e falo assim: amor, o que você acha de a gente dar a volta ao mundo? Aí ela até acha engraçado, eu falo de carro. Aí ela, o mais surpreendente que ela fala assim: pode ser, mas daqui dez anos. Vamos planejar, vamos juntar dinheiro, vamos pensar bem nessa ideia e aí  eu fico com aquilo na cabeça, volto para a casa, boto tudo no Excel, começo a planejar, faço conta, lembro que eu tenho um  apartamento, que eu posso alugar o apartamento, a gente tem um dinheiro guardado e aí dali, são nove meses de planejamento até a hora que a gente…

Luciano          Mais uma semana de convencimento.

Leo                 Mais uma reunião só de convencimento.

Raquel           Chequei a planilha par ver se as contas estavam certas.

Leo                 E aí ela falou assim: vamos comprar o carro, porque se tudo der errado, o carro a gente fica aqui em São Paulo e vende depois, então a gente chamava de um comprometimento leve, daí para a frente pensa assim, eu nunca tinha acampado antes, a Raquel nunca tinha entrado… eu já acampei uma vez na Riviera de São Lourenço que é um balneário tem aqui em São Paulo que é todo cercado, fechado, a Raquel nunca tinha entrado numa barraca, então a gente foi na Decathlon aqui em São Paulo e ela entrou na barraca para ver como é que era, então assim, tinha muitos medos, muitas perguntas sem respostas e o que a gente podia fazer assim, comprar livro, procurar casais que já tinham feito isso, viajantes que já tinham feito isso, visitar mecânico, eu não sei nada de carro, hoje eu sei um pouquinho mais, mas não sabia nada, eu sabia onde é o tanque e a bateria do carro.

Luciano          Então mas nessa altura nós vamos, estava decidido.

Leo                 Mais ou menos.

Luciano          Eu queria falar um pouquinho antes, aquela história que você, talvez dê para fazer, é muito maluco, é um puta sonho esquisito, é complicado. Financeiramente até dá, até chegar no momento do vamos fazer. Avaliação de risco, contar para a família, essa história toda, como é que foi, como é que vocês trabalharam esse momento em que… só para transformar, como é que eu transformo esse sonho numa meta realizável, essa pequena transição?

Raquel           Eu acho que como o Leo falou, mais o Leo viu isso e teve uma ideia, falou vamos ver, tentar achar um carro, a gente comprou o carro em julho/agosto, o começo, o planejamento da viagem é fascinante, então pensa assim, o Leo falou me faz uma lista de todos os lugares que você quer ir no mundo. Para quem ama viajar pensa, você que gosta de viajar fazer uma lista de todos os lugares que você quer ir? O Leo fez a mesma coisa e a gente começou a olhar no Google Maps, onde é isso, onde é aquilo, como eu chego, como eu não chego…

Leo                 O que dá para chegar de carro, o que não dá?

Raquel           … dá para ir, não dá para ir?

Luciano          Nesse momento a ideia não era volta ao mundo?

Raquel           Não. Era.

Leo                 Era volta ao mundo, mas para onde…

Raquel           Chegar até a Austrália.

Luciano          Por onde? Volta ao mundo por onde?

Raquel           Isso.

Leo                 Por onde, exato. Eu gosto de surfar, então quero passar nesses países. A Raquel gosta de gastronomia, eu quero passar por esses países, é criar um roteiro viável para que a gente chegue até o outro lado do mundo

Raquel           E que unisse a vontade dos dois, aquela história, você pode querer chegar nos EUA, de carro você vai ter que dirigir até lá, você vai passar pelo Peru, pela Guatemala, pelo México, então isso tudo é fascinante, então por mais que ainda não tivesse…

Leo                 É a parte fácil, essa é a parte fácil.

Raquel           … é, por mais que nesse momento ainda tivesse muita dúvida, tinha aquele fascínio de caramba, será que eu vou conseguir ir para esses lugares?

Leo                 Da possibilidade

Raquel           é…

Leo                 Da possibilidade de ir para tantos países e ver tantas culturas, ali o comprometimento como a execução é baixa, porque está distante ainda, então você pode falar o que você quiser que não vai mudar nada, porque o mais difícil ali era pedir demissão do trabalho, pediu demissão, então assim, até que chegasse esse momento a gente podia empurrar as coisas…

Raquel           ou mudar os planos.

Leo                 … falar que vai fazer…

Luciano          Sonhar á vontade.

Leo                 … exatamente, sonhar à vontade. Do meu lado em relação à família foi muito mais tranquilo porque eu já tinha morado na Austrália alguns anos estudando, já tinha viajado bastante e mais do que isso, como o diálogo sempre foi muito tranquilo em casa, eles sabiam que eu não ia sair para fazer uma coisa porra louca, vamos pensar assim, eles confiavam em mim, acho que essa é a palavra, eles sabiam que eu não ia sair do banco para fazer qualquer coisa, depois ia voltar, então eles sentaram comigo, e aí o que você está achando? Eu acho isso, pai, eu estou pensando em viajar o mundo de carro, a ideia é essa eu já tinha resposta para um monte de pergunta Eles adoraram, meu pai é o maior embaixador do projeto até hoje, super fascinado com isso. Já do lado da Raquel é o antagonismo, por quê? Quando a Raquel saiu do Mato Grosso do Sul para vir morar em São Paulo, teve uma ruptura muito grande, ela deixar a mãe dela para trás para vir tocar trabalhar, estudar o que seja. Ela começa a desenvolver a carreira, ela ganha uma projeção, ela cresce na carreira e quando tudo está indo muito bem ela resolve falar assim, mãe eu vou sair do banco para ir morar com esse rapaz que eu estou namorando há dois anos, num carro e vou abrir mão de tudo o que a gente fez. Nesse momento a mãe dela bate e fala assim calma aí, você tem certeza? Ela começa a por um monde de dúvida no que a gente vai fazer.

Luciano          Não foi para isso que eu criei uma filha.

Raquel           Não, o ponto dela não era nem esse, era a gente abriu mão de uma convivência de mãe e filha para você conseguir chegar mais longe, para você ter novas oportunidades e aí agora que você conquistou tudo o que você queria você vai abrir mão disso? Foi tão difícil, o preço que a gente pagou foi estar longe como mãe e filha, e agora você vai jogar isso para o alto?

Luciano          Cadê seu pai nessa história?

Raquel           Meus pais se separaram, ele mora em Rondônia, a gente se fala, mas assim, a convivência não é tão próxima quanto minha mãe, e então para ela era esse o ponto que pegava para ela, então mas quando chegou dezembro desse ano de 2012, eu acho que até a gente conversou porque a gente falou, a gente já contou para muitas pessoas e a gente já colocou a nossa palavra que a gente vai fazer isso, então a partir de agora não tem mais volta, a gente vai tocar esse projeto? Ou então a gente tem que parar de falar para as pessoas.

Leo                 Eu tinha um ponto assim, eu não gosto de falar uma coisa e não fazer, eu gosto do compromisso com a palavra, então acho que foi em novembro eu falei assim, Quel, a gente está num ponto agora, todos os amigos já sabiam da viagem, ninguém no banco sabia, porque envolvia bônus a gente tinha pagamento variável, então se eu avisar que eu vou sair do banco pode se que eu seja penalizado, a gente optou por ser profissional até o último dia de trabalho, não importa porque eu estou saindo ou não, mas eu falei amor, a partir de agora ou a gente puxa o freio de mão, ou não tem mais volta, eu não vou falar para as pessoas que eu vou sair em maio para viajar mundo e não vou, tipo assim, ou a gente está junto nisso, e vou pedir demissão, a gente vai fazer o negócio acontecer, lógico que também ali tinha uma braveza que nem eu se se eu tinha essa coragem, mas eu tentava…

Luciano          Então, isso que eu ia perguntar para você, e o medo? Olha, e os medos?

Raquel           Eu acho que nesse momento o maior medo, para mim, era pedir demissão, porque eu achava… depois o que você vai falar para o seu chefe? Ah, então, pedi demissão, uma semana depois você muda de ideia e quer voltar atrás? Não dá, ainda mais nesse mercado financeiro que é só palavra fechado é fechado, então assim, você não pode voltar atrás, então acho que esse foi o primeiro grande medo assim.

Leo                 E os outros medos, hoje a gente olha nos medos assim, se encontrar cobra no caminho? Medo de leão na África? Eram medos que depois a gente viu que não faziam sentido nenhum…

Luciano          Fantasiando tudo, os guerrilheiros maoístas que vão sequestrar você no Nepal.

Leo                 … e aí a dúvida também é a volta, e na volta, o que vocês vão fazer? E aí a gente sempre, isso é muito fácil eu maquiar minha cabeça, mas eu tenho escrito isso, então eu lembro do que a gente escreveu que a gente falava, a gente gosta de trabalhar, a gente gosta de estudar, na volta a gente vai achar um caminho, a gente é novo,  se tiver que voltar para a faculdade, estudar, a gente não vai poupar esse esforço, era nisso que a gente se apoiava um pouco para acreditar que a volta não seria um super problema, né Quel?

Luciano          Então um ponto interessante que me chamou a atenção aqui, vocês em momento algum disseram o seguinte: eu estava com o saco cheio do meu trabalho e vou procurar outra coisa para fazer na vida. Não foi esse o motivo em momento algum?

Leo                 Em momento algum.

Luciano          Vocês não estavam de saco cheio do trabalho?

Leo e Quel     Não.

Luciano          Vocês estavam bem?

Raquel           A gente adorava.

Leo                 Foi meu melhor ano, eu fui a pessoa, curiosidades, tipo no dia que pagaram bônus eu fui o único que achei bom o bônus, todo mundo achou uma droga, então eu era o cara que estava mais motivado, mais satisfeito e fui lá pedir demissão, mas eu tenho uma… a gente divide de uma teoria que é assim: é muito mais fácil você empreender ou começar projetos novos quando você está bem, no ápice, no momento, porque você está cheio de energia, você está com oxigênio para tomar decisão, você está com clareza na mente, você tem recursos financeiros ou não para poder investir, quando você está lá embaixo, no down mesmo, depressão, você toma decisão forçada, você está sem energia, você toma decisão porque não tem escolha, então eu sempre falava para a Quel tipo não vamos esperar degringolar, lógico que talvez aquele não fosse o melhor momento do ano, daria para ter ficado mais uns três anos e ainda estar num processo amadurecido, mas o que pegou ali, Luciano, é assim, eu tinha 27 anos, a Quel vinte e…

Raquel           Eu tinha 27 anos e você 29.

Leo                 … eu falava meu, se a gente ficar aqui no banco a gente vai ganhar mais promoção, daqui a pouco a gente vai querer ter filho e essa ideia vai para a gaveta.

Luciano          É tem uma linha de quanto mais velho você fica, mais compromisso você faz, mais rolo tem para você… é complicado.

Leo                 Meu medo era esse, daquela ideia que me pegou de um jeito super forte eu virar e falar assim, ah legal, vamos deixar para depois?

Raquel           E passar 20 anos.

Leo                 E aquilo estava… eu estava fascinado por aquela ideia de poder viajar o mundo de carro, de poder chegar do outro lado do mundo de carro.

Raquel           E com 27 anos a gente falava, a gente vai voltar com 30, o que são três anos? O avô do Leo tem 91 anos, está lá, dirige, faz qualquer coisa.

Leo                 E a economia em 2012 estava bombando, então ninguém, ou melhor, a gente nunca fotografou que ia acontecer isso com a economia, eu achava que a gente ia voltar em 2015, 17 e se quisesse fazer assim ia arranjar um emprego, porque como era 2012, você fazia qualquer coisa dava certo, então isso também ajudava a dar uma certa tranquilidade que ah, morrer de fome a gente não vai, na volta a gente vai pensar o que fazer.

Raquel           Mas isso eu acho que do trabalho até a gente tenta passar para as pessoas, no final a gente adorava ao trabalho, só que a viagem, ela só podia acontecer se a gente abrir mão, cada escolha uma renúncia…

Luciano          E a hora era aquela.

Raquel           … e a hora era aquela.

Luciano          Como é que foi contar para seus colegas de trabalho num ambiente que estava legal, que vocês estavam bem, que não tinham dado sinal nenhum de que iam pular fora e vocês contarem os dois?

Raquel           Ó Luciano, o que eu acho também, pensa os dois namorando e os chefes já sabiam que a gente tinha um relacionamento, os caras deviam pensar, se alguém não vai pedir demissão são esses dois, porque eles iam querer casar, vão precisar de dinheiro para o casamento, vão querer filho, então assim, eu acho que se tinha alguém que eles falavam não vão pedir demissão, é esse casal, aí vai  os dois..

Leo                 O dia da demissão foi muito engraçado, porque assim, a gente combinou que o dia que caísse o bônus na nossa conta, que teoricamente acabava aquele ano letivo no banco, a gente ia comunicar que a gente estava saindo do banco e ia se colocar à disposição, se tivesse que ficar um mês aqui a gente ficaria, num dia caiu o bônus, no dia seguinte eu falei para a Raquel, é amanhã, só que meu chefe estava em Singapura e o chefe da Raquel estava lá, aí eu falei Quel, como nós temos que comunicar hoje, eu vou por e-mail falar que eu vou desligar, até porque sempre tem mudança de… depois do bônus em banco, geralmente tem quem sai, contrata outro, sempre tem a dança das cadeiras, então eu falei, eu quero antecipar isso para ele poder usar essa informação estratégica para pensar na configuração, mas isso envolvia eu mandar um e-mail para Singapura, de madrugada e a  Raquel pedir demissão para o chefe dela in loco e o maior medo da Raquel, eu acho, é  muito doido isso, ela tinha medo que ela pedisse demissão e eu não pedisse e ela ia ficar…

Raquel           Ó a confiança no marido.

Leo                 … eu falava Raquel, estou te chamando para dar a volta ao mundo comigo, você acha que eu não vou pedir demissão? Mas aí a gente manda e-mail, enfim, faz as comunicações, o chefe da Raquel, ele não acredita de jeito nenhum, o meu chefe, depois conversando, é uma coisa mais de ele ter certeza que é isso que eu quero fazer, então quer uma oportunidade, é dinheiro? É isso? Não é nada disso. Então meu amigo, vai, boa sorte, vou apoiar você no que precisar.

Raquel           Até tentaram uma licença, mas não era o caso.

Leo                 O chefe da Raquel perguntou assim para ela: você vai levar uma arma? Olha a preocupação dele. A gente pô, vai matar um ao outro se levar uma arma. O resto da turma, a preocupação era assim, muitos falaram, você vai morrer, outros falaram assim você está fazendo o que eu queria fazer na vida e não  tive coragem e a maioria queria saber com a gente vai dirigir, como a gente vai chegar nos outros países, ficaram perdidos, né Quel?

Raquel           Querendo ou não eles fizeram todas as perguntas que a gente estava, há alguns meses, encontrando respostas, então acho que também teve isso de eles falarem mas e agora, como vocês vão fazer com isso? Como vocês vão fazer com aquilo? E a gente tinha as respostas para tudo, então acho que eles não puderam falar nada mais que parabéns pela coragem.

Luciano          Vocês pararam para pensar no impacto que vocês causaram ali dentro, naquele ambiente, na segunda feira, quando os caras chegaram para trabalhar não estava você e não estava ele, esses caras  olham a mesa vazia, no impacto que ficou naquela turma?

Leo                 É que a gente ficou um tempo ainda assim, até realmente sair, aí peguei a transição, eu treinei um cara para não fechar a vaga, então foi meio suave esse processo, mas o que a gente sabe hoje, que algumas pessoas saíram do banco impulsionados pelo nosso movimento, pessoas que foram atrás de outras metas de vida, né Quel?

Raquel           Acho que muitas pessoas resolveram retomar aqueles sonhos que estavam na gaveta, não precisa ser necessariamente ser do banco, pode ser voltar a tentar, tipo não deixa engavetar coisas que você quer fazer na sua vida, seja ela um hobby, seja um trabalho, seja… alguma coisa que você gosta, ter mais tempo com os seus filhos, emagrecer, mas faça, dá para fazer, se a gente está fazendo uma coisa que era tão distante, mas de uma coisa que você talvez já fez no passado que você goste.

Leo                 E uma coisa interessante que é ainda do banco, é que a gente colaborou por um tempo, aquelas TV’s da Le Mídia, que passa nos elevadores, então o pessoal às vezes estava no banco e aparecia assim: “casal Spencer chega na Patagônia”, aí os caras: seus filhos da mãe, mandava e-mail, eu vi você aqui na academia seu desgraçado…

Raquel           O cara ia almoçar e tinha que ver a gente no elevador em outro lugar. Faz parte.

Leo                 Colaterais do processo.

Luciano          Vamos lá. A primeira coisa que vocês fizeram foi comprar o carro.

Leo                 Na prática sim.

Luciano          Sim, isso quando? Isso já a caminho de preparar tudo ou foi assim, a primeira, vamos começar comprando o carro?

Leo                 A primeira coisa era comprar o carro, por quê? Que carro você compra para dar volta ao mundo?

Luciano          Essa ia ser minha pergunta. Como é que você sabia que era esse carro?

Leo                 Não sabia, eu nunca tive um 4×4, nunca tive nada. Aí a gente comprou um livro, aí estava escrito assim no livro: ou você usa uma Land Rover Defender, que é lendária e não sei o quê, ou a Toyota Land Cruiser. Aí a gente olhou para as duas, a Raquel falou assim eu acho a Land Rover mais bonita, tá bom, então vamos de Land Rover, vamos procurar, aí você punha assim, na Webmotors, Google, tem muito mais Land Rover desse modelo que da Toyota, então assim, começa a ligar para as pessoas, entender qual ano comprar, tem algumas coisas técnicas, dois meses a gente demorou para achar um que falaram que estava em bom estado, mas total ignorância nossa, a gente não conhecia nada de carro, era muito conversando com mecânico, com quem entendia um pouco mais.

Raquel           Luciano, imagina a cena dessas duas pessoas saindo do banco de camisa, aquela roupinha, chega para falar com mecânico, esses mecânicos desses carros of road, eles já viajaram, eles entendem e aí a gente…

Luciano          Vê os dois engomadinhos, vocês querem o quê? Uma Land Rover para dar a volta ao mundo?

Raquel           E aí ele falava, mas e se o carro quebrar lá no meio do deserto do Saara, como é que você vai resolver? E a gente, não sei, vou ler num livro. Ele, mas não é assim, vocês precisam aprender algumas coisas.

Leo                 Se teve uma coisa durante o planejamento, nesses dez meses, que a gente se apoiou, era sempre na nossa organização, em falar que nós íamos planejar bem, porque tinha tanta pergunta sem resposta. Como você vai fazer se o carro quebrar? Como você vai fazer isso? Eu falava meu, não sei, a gente vai se… era tudo planejado, a gente sabia o câmbio, onde ia dormir, a cidade que a gente ia visitar, tudo para que trouxesse um pouco de conforto nesse meio…

Luciano          Segurança, o Amyr Klynk fala muito isso, o Amyr Klink ele… engraçado que eu encontrei com ele, ele  comentando é o  seguinte, hoje quando eu olho aquela primeira viagem minha, lembra que ele cruzou o oceano  no barco a remo? Ele fala eu jamais faria aquela loucura, com a cabeça que eu tenho hoje e com o que eu sei, aquilo foi uma imprudência brutal e ele bate muito nessa tecla, eu tenho absolutamente tudo planilhado e quando eu me atiro nessa loucura, a última coisa que é, é loucura, aquilo está tudo desenhado, então  ele bate muito nessa tecla desse pré planejamento.

Leo                 E faz todo o sentido, na nossa opinião.

Luciano          Eu imagino que sim, porque vocês não tem muita margem para erro?

Raquel           O que eu falo para as pessoas…

Leo                 O dele menos ainda…

Raquel           O dele coloca mais em risco, mas o que eu falo para as pessoas, e tem gente que não gosta de organização, tem gente que não gosta de Excel, que tem uma dificuldade para lidar com isso, mas o que eu falava para as pessoas é quando eu olhava aquela planilha, aquilo me tirava problema lá na frente, o fato de estar ali, o fato de eu saber a estação do ano que eu não posso chegar no Caribe porque tem furacão, que eu não posso chegar na Índia em agosto porque tem monções, isso me tranquilizava o coração, então aquilo me trazia conforto, aquilo me trazia segurança…

Leo                 Era o nosso apoio…

Luciano          Que é buscar conhecimento sobre, vou me enfiar numa fria, primeira coisa, eu preciso conhecer o máximo que eu puder sobre o contexto em que eu vou entrar ali.

Leo                 Como não morrer? Essa era a nossa pergunta. O que a gente tem que fazer para não morrer e voltar com boas histórias porque assim, você vai estar longe de casa, longe de tudo, toda hora muda a língua, toda hora muda a comida, muda a altitude, muda tudo, agente tem que sobreviver, essa era a nossa…

Luciano          Vocês montaram uma rede de contatos com gente que fez coisa parecida, com alguém que tinha… conversaram com pessoas que fizeram a mesma coisa?

Raquel           De todos os tipos, a gente não procurou só pessoas que viajavam de carro, então a gente sentou com esse cara que deu a volta ao mundo de bicicleta, gente que já foi só para o Chile, gente que já foi para Ushuaia e sabia  como dirigir na neve, qualquer pessoa que tivesse qualquer experiência para dividir com a gente, a gente sentava, baixava a orelha, só escutava, a gente vai aprender alguma coisa você pode tirar de lição  da experiência de cada pessoa, então a gente ficou muito aberto, marcava jantar com as pessoas depois do trabalho, então a gente pode comer uma pizza? Sentar…

Leo                 E cruzamos muitas pessoas dispostas a ajudar, isso eu tenho que atestar aqui que todo mundo, cara passa aqui, claro, vou te explicar, vou te ajudar, pega isso, responde e-mail, então assim, todo mundo sempre foi muito solícito com a gente.

Luciano          Legal. Eu tenho um sobrinho meu de 26 anos que vai sair agora de bike e vai fazer uma viagem pelo Brasil afora de bike, ele com a bike dele e os pais estão… aquele jeito que você pode imaginar, todo apavorado, mas ele fez isso, saiu  atrás e botei ele em contato com o Gui Cavalari, o Gui é uma grande figura, é um dos grandes caras voltados para esses esportes de aventura no Brasil e tudo mais e o Gui fez uma viagem dessa e a hora que ele entrou em contato é até fascinante, porque eles gostam disso, vem falar comigo e eu vou te dar todas as dicas que você quiser e esse é o momento de absorção da experiência dos outros que faz toda a diferença. Eu lembro da minha viagem para o Everest, não foi diferente, a coisa só ficou clara para mim o dia que eu botei na minha frente o cara que tinha ido, ele senta abre o álbum de fotografia e me conta a história que era tudo aquilo que eu tinha lido, só que ele me traz os insights que você não lê em lugar nenhum.

Raquel           Até, sabe uma coisa legal? Você fala do seu olho no seu livro, não fala?

Luciano          Falo, sim.

Raquel           Da cirurgia? Eu fiz essa cirurgia por causa do seu livro, não reacessava essa informação muito tempo na minha cabeça, mas eu usava lente e aí obviamente, apesar de a gente começar de carro, eu me planejei para fazer essa cirurgia um tempo antes…

Luciano          Para dar tempo de cicatrizar…

Raquel           Então essa informação que estava lá no seu livro ajudou em alguma coisa.

Luciano          Que legal. Quanto tempo durou esse processo de preparação, desde o dia que falou assim, comecei, é sério, nós vamos até fomos.

Leo                 Se você considerar o dia que nós compramos o carro, não deu dez meses entre começar a ideia e estar na estrada.

Luciano          E quanto no dia de vocês era dedicado nesse projeto, vocês estavam com a cabeça aonde? Era Klarc Kent, Super homem? Dava para ser?

Leo                 Não, eu sempre falo isso, é esforço, é pessoas comuns que se esforçando. Trabalho tinha que estar no banco, porque era importante aquele bônus, era importante… eu sempre tive a cabeça assim: está fazendo uma coisa faz ela direito, não dá… então onde o projeto aparecia? Sempre que a gente estava fora do banco conversando e na hora de almoço, então quantos almoços eu não sacrifiquei para ficar sentado na minha mesa olhando Google Maps, vendo coisas do carro e à noite era full time isso, o final de semana acabou.

Raquel           A gente abriu mão de viajar, abriu mão de tirar férias tudo para focar na viagem, então foram alguns meses ali se dedicando a isso.

Luciano          Vocês fixaram uma data? Dia tal nós vamos sair?

Leo                 4 de maio de 2013, isso foi um conselho de um amigo que deu a volta ao mundo de bicicleta também, o Arthur Simões, ele falou escolhe uma data, não mude essa data por nada, por quê? Você sempre vai achar que dá para planejar mais, juntar mais dinheiro, que você pode estudar um pouco mais e de verdade, Leo, são poucas as coisas, ele falou para a gente, são poucas as coisas realmente que não são consertáveis na estrada, então ele falou, tendo seu passaporte, dinheiro e um cartão de crédito, o resto tudo você consegue ao longo da viagem ajustando e eu atesto isso que é super verdade.

Raquel           E a gente tinha a questão de ou a gente saia em maio, que a gente queria ir até Ushuaia, era um dos primeiros lugares que a gente queria chegar e aí a gente falava ou a gente sai em maio antes do inverno, se não você não  chega por causa da neve, ou você sai em agosto, depois do inverno, só que em agosto a gente falava, você sempre vai ficar tentado a esperar até fevereiro do ano que vem para o próximo bônus, então melhor acontecer o bônus você já pede demissão e sai, porque se não sempre você vai também arrumar um motivo  para postergar.

Luciano          Isso é que nem reforma de casa, não é isso? Já que eu mexi na porta vou mexer na janela e assim vai, aconteceu comigo igual, acabei de lançar o projeto do Café Brasil Premium e foi essa loucura também e bota data e posterga, posterga, chega uma hora que você fala é a quarta vez que eu vou mudar, não, passa uma régua, eu vou lançar. Não está pronto, dane-se, bota no ar e corrige com o negócio andando. Está um inferno, mas não tem outro jeito, se você ficar naquela esperando o melhor, não vai sair.

Raquel           nunca chega.

Leo                 Ainda mais nos dias de hoje que é tudo tão rápido, tanta ideia, todo mundo criando coisa nova, se você esperar para ter o produto perfeito às vezes aquilo lá nem tem mais sentido para mercado.

Luciano          Muito bem, vocês se preparam, está tudo resolvidinho, tudo arrumadinho e chega um belo dia que é entrar no carro, botar a chave e fazer grrrrr… Como é que estava naquele dia, como é que foi?

Raquel           Teve um dia mais difícil antes que foi casar né amor?

Leo                 A gente casou mês antes, até que foi fácil.

Raquel           Casamos um mês antes, mas a gente teve que organizar também, então a gente saiu do banco em fevereiro, eu ainda tive que ficar até o final de março e  organizando um casamento e uma volta ao mundo, então a gente estava assim, foram dois meses intensos.

Luciano          Essa é a maior lua de mel que eu já vi na minha vida, quatro anos de lua de mel.

Leo                 Sabe uma coisa curiosa? É que a barraca que a gente adaptou em cima do carro nos preparativos, se eu colocasse ela em cima do carro efetivamente, meu carro não entrava na garagem de casa, então a gente postergou até a última semana pré viagem para colocar a barraca, pegamos um dia da semana, fomos para Campos do Jordão, acampamos em Campos do Jordão para testar, então pensa na loucura, isso é a parte loucura, se nós tivéssemos dormido na barraca aquele dia e achado que não dava, o projeto estava em cheque, porque a gente esperou até a última semana da viagem, para testar a estrutura toda, mas também ao mesmo tempo a convicção era tão grande que tinha que  acontecer, que talvez mesmo que não fosse tão bom, a gente ia com aquilo mesmo ruim, né Quel? E aí a viagem acontece 4 de maio, um sábado, a gente sai do Ibirapuera, do parque, a gente consegui reunir…

Luciano          Foi um evento?

Leo                 … foi um evento, conseguimos reunir umas 150 pessoas, estava tendo uma feira de aventura no Ibirapuera…

Luciano          Adventure Sports Fire

Leo                 … Adventure Fair e eu lembro claramente, eu saindo da minha casa, trancando o apartamento assim, porque a gente ia deixar alugado, mas não tinha alugado, a ideia era sair com o apartamento alugado, mas aí a gente foi tão convicto de que não ia mudar a data de partida que estando alugado ou não estando alugado a gente ia viajar, eu lembro claramente eu trancando a porta dando uma última olhadinha assim no apartamento vazio, trancando, a Raquel com frio na barriga, mas demora um, pelo menos para nós, demora um pouco para cair a ficha, tanto é que no segundo dia de viagem, quando a gente chega em Foz do Iguaçu, que era o nosso destino, eu tive febre, baixou minha resistência, acho que foi a somatização de tudo aquilo que eu vinha há quase um ano…

Raquel           Não e se você pensar, você fala, vou viajar o mundo, todo mundo se despede, aquela choradeira e você está ali em Foz do Iguaçu assim, é muito fácil voltar para casa.

Leo                 A gente ficou parado no trânsito, a gente saiu do Ibirapuera e ficou uma hora parado do trânsito e as pessoas passando no pontilhão dando tchau, a gente tchau, ali foi triste.

Raquel           Mas tem essa sensação um pouco que você ainda está muito perto de casa, tipo é muito fácil voltar, mas ao mesmo tempo você também quer começar alcançar, a ganhar quilometragem, ganhar terreno.

Luciano          Quando foi que caiu a ficha que vocês estavam na aventura? Caiu a ficha, você fala estamos nela.

Leo                 Se tivesse que recordar, o nono dia ou décimo dia de viagem a gente cruzou a fronteira para o Uruguai e começo de inverno, a gente foi dormir num parque chamado Santa Thereza, foi a primeira vez que não tinha camping e a gente dormiu em qualquer lugar…

Luciano          Nono ou décimo dia para chegar no Uruguai? Então vocês já foram curtindo o caminho no Brasil, é isso? Não é que vou dar um tiro para sair do país, não, vocês já foram na curtição?

Leo                 A gente foi para Foz do Iguaçu, que eu não conhecia as cataratas, depois a gente cruzou para Joinville que tem amigos lá e passamos na família da Raquel em Santa Maria, fizemos uma agendinha, mas eu lembro que aquele dia começou assim, a primeira que vez que a gente teve “onde que a gente vai dormir?”  Não tem camping, vamos ter que achar um lugar, aí pega madeira, faz uma fogueira, estava muito frio, então foi a primeira vez que a gente olhou  falou assim, nossa, isso aqui que vai ser a viagem, vai ser legal se for assim, eu e a Raquel fazendo um chá, a gente fez um chá na fogueira, porque todo o tempo  no Brasil a gente ficou na casa de um primo, na casa de um amigo, na casa de um parente, a hora que chegou ali no Uruguai  que a gente dormiu, aquela noite estava um céu lindo e agente sentado ali, fez uma fogueira, frio, luva gorro, ali eu falei a aventura vai começar, não sei se vai se boa, mas vai começar.

Raquel           Mas eu acho, com seis meses de viagem também, quando a gente estava na Colômbia, a gente se olhou e falou assim, a gente está com seis meses de  estrada, muita gente sai pra viajar seis meses, que já é um tempão e aí a gente se olhou e falou assim, se a viagem acabasse agora e a gente tivesse que voltar para o Brasil a gente ia estar feliz ou triste?

Leo                 E os dois falaram triste.

Raquel           Então assim, a gente falou caramba, a gente quer continuar, ai deu muito essa sensação de ah, a gente vai até o fim, tinha muito uma vontade.

Luciano          O plano de vocês já tinha definido X tempo?

Raquel           42 meses.

Luciano          Estava claro que era isso.

Raquel           Estava na planilha lá de planejamento.

Leo                 Saímos do Brasil para viajar por 42 meses, visitar 70 países, nos 5 continentes, maioria do tempo de carro, era essa a nossa meta em números.

Raquel           Dirigir pelo menos 100 mil quilômetros, alguma coisa assim.

Luciano          E gastando x…

Raquel           100 dólares por dia.

Luciano          O orçamento de vocês era 100 dólares por dia.

Raquel           Para tudo, então combustível….

Luciano          E vocês já tinham garantido esse dinheiro, alugando apartamento, dinheiro aplicado, o financiamento da campanha estava garantido?

Leo                 Se fosse por meios pessoais a gente ia conseguir entregar, estava resolvido isso.

Raquel           Lembrando também que o dólar estava 1,70; 1,80 a  situação era outra.

Luciano          Não foram atrás de patrocinador, não foram buscar nada disso? Mas não ter não foi impedimento.

Leo                 Exatamente, era assim, vamos fazer independente dos resultados, mas vamos dar uma conversada com a turma, hoje eu olho as apresentações que a gente fez eu falo, não dava para ninguém me patrocinar com aquela apresentação tosca que a gente mostrou…

Raquel           Ah, mas era o que a gente tinha para o momento.

Leo                 … mas era o que tinha e a gente ouviu assim, vocês não tem experiência nenhuma, não sei, que tipo de conteúdo vocês vão gerar, então assim, a resposta é não, estamos com outros investimentos. A gente ah, então está bom, vamos embora, vamos aproveitar, vamos fazer a nossa viagem, vamos aprender com isso, depois a gente começa… É, era essa ideia, fazer pessoal. E o apartamento que eu falei que não alugou, na primeira semana a gente achou um inquilino, lembra que eu falei que a gente saiu sem alugar? Na primeira semana achou um cara, isso trouxe uma tranquilidade e a gente começou a viajar um pouco mais tranquilo.

Luciano          Vocês tiveram algum momento de questionamento moral do tipo assim, todos os meus amigos, todas as pessoas que eu conheço estão trabalhando, ralando para ganhar a vida e eu vou sair de férias, eu vou vagabundear pelo mundo a fora, eu vou passear pelo mundo enquanto todo mundo trabalha, eu estou aqui. Como é que você falou lá na hora do almoço? Puxando uma ervinha, ganhando com miçanga na praia, que o mundo se dane, e eu aqui na boa. Houve algum momento? Passou pela cabeça de vocês? E se passou, como é que vocês processaram isso?

Leo                 Primeiro que tem uma distância muito grande até do estereótipo nosso com esse que a gente falava, a gente está saindo para ir viajar, para fotografar, para conhecer as coisas, mas todo mundo sabia que em algum momento a gente podia começar a querer empreender disso, pela nossa inquietação de querer sempre estar desenvolvendo coisa, mas ser direto à sua resposta não, eu de verdade nunca… até porque assim, eu sempre falei, eu trabalhei pelos meus meios e conquistei o que tinha conquistado, eu usufruo do jeito que eu bem entender disso, lógico que você tem pessoas que querem trabalhar mais, eu respeito muito o caminho de cada um, então assim, se o cara quer trabalhar porque ele acha que trabalhar vai dignificar ele, vai levar até às metas que ele quer, cara vai fundo, eu jamais achei que por eu ter saído do banco e ter ido viajar era o caminho certo, era o certo para mim e para a Raquel, isso, quando você, pelo menos para mim, quando você entende dessa forma, você não vai questionar o do outro, porque eu acho que eu estou fazendo o que eu acho importante, assumindo os riscos que envolvem isso e vamos embora..

Raquel           E aqui também no começo, demorou, a gente não teve isso de prazer, porque como a gente tinha essa meta de chegar no Ushuaia, estava com medo do inverno, imagina sem experiência nenhuma, ter que usar corrente no pneu, a gente, com dois meses de viagem, a gente chegou no deserto do Atacama e eu tinha feito uma lista de todos os livros que eu queria ler durante esses anos, que eu falei ah, agora vou ter tempo e a gente não tinha lido um livro nesses dois meses de viagem porque era tão corrido…

Luciano          Uma trabalheira.

Raquel           … é, se adaptar, abrir a barraca, hoje a gente abre a barraca em um minuto, mas no começo acho que a gente deveria demorar uns 15 minutos. Cozinhar, o gás funciona, não funciona, então adaptar a morar no carro também foi um processo, eu lembro que a gente, no Deserto do Atacama, um dia a gente pegou um livro cada um e falou, ou a gente vai sentar no deserto e a gente vai ficar aqui lendo até a hora que a gente quiser, porque também teve um processo de se adaptar a morar no carro.

Leo                 Uma mudança de vida que de certa forma…. o que você ia perguntar?

Luciano          Não, eu estava comentando isso com vocês para ver, vocês sofreram esse tipo de abordagem de gente que vem, por exemplo, quando perguntam para o teu pai cadê seu filho. Está passeando.  Está viajando pelo mundo. Ele não trabalha não? Não, ele viaja pelo mundo.

Leo                 Muitas pessoas ficaram…

Luciano          Você sacou o que eu estou pegando? Eu estou contrapondo a questão do trabalho, do lazer e de essa decisão que vocês tomaram que não foi uma decisão de lazer, não é lazer isso, é trabalho, tanto que é trabalho que acabou virando o business de vocês.

Leo                 … meu pai não dá para contar muito porque ele é tão marqueteiro, ele vendia a gente, quando a gente nem estava fazendo nada ele falava não eles estão viajando, um projeto lindo de dar a volta ao mundo, meu pai vendia gato por lebre, mas assim, do nosso lado é claro que as pessoas abordavam, queriam saber como a gente estava principalmente pagando, queriam fazer contas, por que eu tinha dinheiro para conseguir pagar isso ou não, achavam pouco provável que a gente com 30 anos, ou 28 anos tinha juntado dinheiro para isso, mas de novo, a gente sempre recebeu isso com muita naturalidade assim, eu sempre falei de dinheiro abertamente porque eu não fiz nada errado, eu corri atrás das minhas coisas, a Quel também, as pessoas chegam a gente divide para mostrar, olha na vida a gente fez decisões, a gente juntou dinheiro, a gente investiu assim e isso me proporcionou ter essa escolha.

Luciano          Não, e tem uma outra coisa também, tem uma cultura que é o seguinte: quando você fala que vai viajar, na cabeça da pessoa tem uma passagem de avião que custa X mil dólares, tem um hotel que custa não sei o que, é caro, quem viaja passa 10 dias vivendo como um rico, se você tentar pegar aqueles 10 dias de viagem tua e multiplicar por 360, você tem que ser milionário para fazer aquilo lá.

Leo                 Mas esse é o erro como…

Luciano          Quando eu fiz a viagem para o Everest foi uma coisa que eu falava… Meu quanto custa isso? A hora que eu dizia quanto custava o cara: mas como assim? Só isso? Não, o que você acha que eu vou gastar na montanha, eu  estou na montanha caminhando e estou numa barraca, quanto você  acha que custa por dia isso  por mais caro que  seja? Não vou gastar mais do que 10, 15 dólares ali. Então há uma diferença toda na forma como vocês estavam indo.

Raquel           É e acho também tem, quando a gente fala é tanto tempo que é só vida, então não dá para você se comportar como numa viagem, então fazer compras, tem muita gente que olha, principalmente lado feminino: ah e compras? A gente ia fazer compras, você faz compra todo dia aqui? Não  faz. Então assim não tem aquele exagero de quando você está viajando, ah que eu volto, vou ter meu salário, a gente tinha que seguir…

Leo                 Não, pelo contrário, tem ponderações até…

Raquel           … é tinha que seguir aquela meta certinha, porque a gente sempre fala assim, se a pessoa for milionária, primeiro ela não vai viajar de carro, tomar banho frio e morar numa barraca; ela vai de avião, fica no hotel confortável e toma banho quentinho, então tem que ter  algum dinheiro? Tem que ter algum dinheiro, mas é muito mais sobre planejar e se organizar. A gente conheceu um cara no Chile que tinha um carro igual ao nosso, essa foi uma história que a gente ficou fascinado, ele adaptou o motor do carro para funcionar com óleo de cozinha, então o que ele fazia? Passava nos restaurantes, pedia o óleo sujo e ele filtrava esse óleo e colocava no motor para funcionar, então ele falou, eu tenho cinco dólares no bolso, eu durmo dentro do carro, paro em qualquer lugar e peço o óleo de cozinha e sigo viajando.

Leo                 E esses cinco dólares, ele falou, é para a cerveja. Ele não queria nem usar com nada, era só para beber cerveja, ele passava seis meses viajando, então ele era um antagonista assim de viver com o mínimo possível na estrada e quando você começa a viajar ou começa a se envolver nesse mundo que a gente acabou seguindo, você quanto tem de gente fazendo, gastando pouco dinheiro, fazendo count surf, ou vivendo de carona, assim é infinito a quantidade de pessoas que executam projetos com orçamento ultra baixo, ultra baixo.

Luciano          Então, seis meses na estrada, já dá para ser experiente, porque vocês já pegaram algumas… pegaram frio, pegaram estrada de terra, aprenderam a lidar com o carro e tudo mais, muito bem. Numa viagem como essa que vocês fizeram, qual é o problema de uma viagem dessa? Tudo bem, esquece o planejamento, está planejada, entrei, estou na estrada. Qual é o problema de estar na estrada? É segurança? O que é? O que faz a tua vida ficar um inferno quando você está na estrada? É banheiro? O que é?

Leo                 A incerteza é bem ampla…

Luciano          Tipo?

Leo                 … a incerteza de você não saber onde você vai dormir, a incerteza que você não sabe quando o seu carro vai quebrar, porque ele vai quebrar uma hora, a incerteza…

Raquel           Do tempo…

Leo                 … do tempo, a incerteza da segurança, coisas que no dia a dia são tão automáticas para quem vive aqui em São Paulo, por exemplo, então vou para a casa, pego um Ubber, chego aqui, minha casa, meu banho está quente, a comida está na geladeira eu esquento, peço um delivery. Na viagem, quando você está mudando de cidade, está no dia a dia, tudo o que você faz no automático em casa, requer atenção, todos os dias a gente: e se o camping… quantas vezes a gente não chegou o camping estava fechado? E aí o que você faz?  Você vai para onde? Vamos achar um hotel, mas hotel vai sair do meu budget. A gente chegou em Mar Del Plata na Argentina, a gente entrou nuns doze hotéis até a gente achar um que a gente podia pagar, então coisas bobas que não tomam seu tempo no dia a dia, num projeto como esse fica complicado e aí se você demorar muito para achar o hotel, vai escurecer, de noite é mais perigoso e se o carro quebrar de noite? Então você tem uma série de regras que você tem que ser rígido, você tem que ter uma regulamentação porque se não você vai criar uma situação de perigo, se um dos dois sentir inseguro, vai acabar a viagem, então você fica 3, 4 anos viajando como no nosso caso, mas você tem uma linha tênue entre você gostar muito do que você está fazendo, porque todo o resto vai falar para você voltar para casa, principalmente se envolver a questão da segurança, né Quel?

Raquel           É acho que tomar decisão todo momento, às vezes sei lá, você discute com sua esposa na hora de onde nós vamos jantar? Demora cinco minutos. Imagina você, todo dia, que estrada da gente pega? Onde a gente vai dormir? Onde a gente vai comer?

Leo                 Será que é essa mesmo?

Raquel           Exato. O que a gente vai fazer? Precisa trabalhar, precisa avisar os pais, então imagina esse processo de toda hora ter que tomar uma decisão e sem isso criar um stress, porque se criar um stress entre o casal e você volta para a casa, porque não faz sentido, então acho que… é interessante essa pergunta, nunca fizeram. O que pode fazer virar um inferno? Acho que ter que tomar muita decisões o tempo todo, acho que isso é uma coisa que é um processo assim de ter que se acostumar.

Luciano          E que depois entra no sangue, no fundo quando você para pensar, o tesão da viagem é isso…

Leo                 Exatamente.

Luciano          … o tesão da viagem, eu não sei o que é que está me esperando lá e eu estou indo lá.

Raquel           Mas a hora que você está com fome, de TPM, sem tomar banho e com o cabelo sujo, ai isso talvez vai desbalancear um pouquinho.

Leo                 Aí que a paciência…

Luciano          Vocês fizeram viagens para onde? Vamos lá, quais foram…  foram 3 anos e?

Leo e Quel     7 meses.

Luciano          … 3 anos e 7 meses…

Leo                 Direto, sem voltar.

Luciano          3 anos e 7 meses era a meta, deu os 42?

Leo e Quel     Deu 43.

Raquel           Deu exatamente um ano na América, então do Brasil…

Luciano          Do Brasil até?

Raquel           … até Estados Unidos…

Luciano          Por todos os países?

Raquel           … por terra…

Luciano          Todos os países, quase tudo aqui?

Leo                 Não, tem países, Venezuela a gente não foi por questão de segurança, Bolívia a gente também pulou, por uma decisão de não querer ter um problema no começo da viagem, a gente leu na internet que estava tendo problemas específicos, América Central toda…

Luciano          Como é que se pula a Bolívia?  Você dá a voltinha pelo Chile ou vem pelo Brasil, como é que você faz?

Leo                 … a gente subiu pelo Chile e pelo Peru, fez a fronteira pela costa, entramos ali por baixo de Machu Pichu, Cuzco, aí fizemos todos os países da América Central, México, chegamos nos EUA no inverno super rigoroso e optamos por não subir, ficamos só perto da fronteira no México, fomos até Miami e a gente encerrou nossa…

Luciano          Mas dirigiram até Miami…

Raquel           Dirigimos e aí da Flórida a gente mandou o carro para a Europa, para a Holanda, aí ficamos…

Luciano          Mas então espera aí, chegou na Flórida, estão em Miami, tinha terminado uma etapa da viagem ou não? Ou aquilo era… Em Miami será quando nós vamos parar de dirigir que vamos mandar o carro para outro lugar, temos que estar lá no dia tal em tal época. Deu tudo certinho isso?

Leo                 Deu tudo certinho…

Luciano          Porque eu fico imaginando o seguinte, quando você fala de Miami legal, mas eu estou… eu vou cruzar, vou sair do Chile, vou entrar na Colômbia, por um lugar que eu não tenho a menor ideia do que pode ser aquilo lá, eu não  sei que estrada, vou perguntar para um cara lá, qual o caminho que eu faço? Eu não sei se vai levar um dia, 6 horas, 2 dias, 4 horas, como é que é isso aí?

Leo                 … tudo isso é muito Google Maps ou GPS do carro, coloca, quantas vezes a gente não estava às vezes no Chile colocava assim Bogotá, por mais que está longe, está falando que vai levar oito dias dirigindo sem parar, pelo menos você tem uma noção de distância, mas antes, no preparativo a gente mapeou cidade a cidade que a gente planejava com algum grau de certeza  passar e isso já tinha dado alguma noção de distância, então assim…

Raquel           A gente colocou, na verdade, eu preciso ter uma cidade a cada 300 quilômetros que tenha combustível e comida, a gente falava, então pelo menos eu tenho que ter esses pontos, se eu tiver em algum lugar, eu sei que ou para a frente ou para trás tem uma cidade que vai ter combustível e comida, isso era meta.

Leo                 O que a gente precisava para viver.

Luciano          E vocês tinham a flexibilidade para, meu olha que lugar lindo, vamos dar uma parada aí?

Leo                 Total.

Raquel           Tanto que Colômbia nem estava no roteiro pela questão de segurança, conversando com outros viajantes, muitos americanos descendo falando acabei de vir da Colômbia, está incrível, vai, o primeiro plano era até mandar o carro do Equador para o Panamá e aí a gente resolve ir para a Colômbia, então essa flexibilidade tinha.

Leo                 Sempre que a gente gostava muito de um lugar a gente ficava, o que acontecia que algum outro país a gente diminuía um pouco para dar esse um ano que a gente tinha planejado ficar na América.

Luciano          Estamos em Miami ainda, chegamos em Miami, quando é que… vocês já tinham planejado antes disso ou foi ao longo do caminho que nasceu a ideia de vou fazer o site, vou criar a página, vou começar a criar uma audiência que vai estar comigo. De onde surgiu isso? Que podia… e quando surgiu já foi com a ideia de que isso será um business lá na frente?  Como é que foi?

Raquel           Na verdade até ia falar disso a hora que você falou de trabalhar, que como a gente teve muita dificuldade em achar informação, principalmente de dinheiro, você perguntava, as pessoas nunca querem falar, é quase uma vergonha você gastar o dinheiro para viajar, a gente começou a fazer um site, a gente falava, se as pessoas não falam disso a gente vai falar, a gente vai explicar tudo, tudo desde assim, por que a gente escolheu essa geladeira? Onde compra? Quanto custa? Tem outras opções? Tudo a gente colocava no site, então o site foi feito com esse intuito de ajudar as pessoas, então mesmo no começo a gente escreve isso, outro dia eu estava lendo no livro, no primeiro livro que a gente fez, que a gente teve que começar adaptar trabalhar, porque a gente se comprometeu a dividir informação com as pessoas, não com intuito de trabalho, mas simplesmente com esse intuito de ser informativo porque a gente quebrou muito a cabeça para achar informação, principalmente literatura, tinha que achar muita coisa lá fora e não é tão fácil. Então o site desde o começo tinha.

Leo                 O site desde o começo, o nome “Viajo, logo Existo” também já existia, quando a gente estava com sete meses de viagem a gente resolveu que a gente queria construir uma casa para um projeto social chamado teto.org e aí a gente viu que para construir, ajudar numa casa precisava de 1000 reais, era alguma coisa assim que eles construíam casa para o pessoal menos… com menos acesso…

Luciano          Aonde isso?

Quel e Leo     Aqui no Brasil

Leo                 A gente queria levantar o dinheiro para ajudar nesse projeto.

Luciano          Mas espera aí, vocês estão… sete meses de viagem…

Raquel           A gente viu esse projeto no Peru, até e a gente viu que eles estavam trabalhando aqui no Brasil, essa ONG…

Luciano          Ah, era uma ONG do Peru que…

Leo                 Acho que uma ONG americana até aqui no Brasil que chama teto.org, a gente viu na internet uns amigos nossos do banco ajudando, a gente puxa, a gente podia ajudar esses caras ai também, vamos pensar, todo mundo adora suas fotos, vamos pensar alguma coisa e aí foi ali que a gente fez o e-commerce do site, eu instalei lá no world press o e-commerce e a gente conseguiu uns contatos de algumas gráficas aqui no Brasil e criamos a estrutura de imprimir alguns pôsteres e 100% da receita a gente doava, que a gente queria levantar esse dinheiro para fazer a casa, conseguimos vender ai, sei lá, 7 mil reais, levantamos dinheiro, doamos dinheiro, mas assim, a gente começou a discutir de criar uma loja social, a gente fazia produtos e parte da receita era revertida para isso, só que a gente descobriu que não tinha elasticidade nenhuma, ninguém estava comprando os produtos para ajudar, todo mundo estava comprando porque gostava das fotos, a gente achou estranho porque a gente achava sempre que o apelo da ajuda ia ser maior do que do produto e a gente falou puxa, ficou guardado na nossa memória aquilo, quando começou a ter a crise aqui no Brasil e aí vamos já entrar na parte um pouco mais de negócio, no começo de 2015 as coisas começam piorar…

Raquel           2014, amor.

Leo                 … é, 2014 começa a piorar…

Raquel           A gente está na Europa…

Leo                 O inquilino sai do nosso apartamento, então a receita que eu tinha que pagava a viagem inteira vira uma dívida, porque eu tenho que pagar IPTU e condomínio e aí assim, o dólar já não vale mais 1,70, o dólar já está 2,30; 2,40 meus amigos no banco falando que vai para 3,00, para 4,00 aí a gente fala pô, a gente tem um problema de estrutura, ou a gente vai ter que queimar toda a nossa reserva…

Raquel           Que era para a volta.

Leo                 … que era para a volta ou a gente vai ter que começar a empreender alguma coisa e aí aproveita que o e-commerce  já está pronto e começa a pensar em ideias, isso bem em Miami que é quando surge a ideia do primeiro livro, mas o que a gente tinha medo? De pegar nosso dinheiro, produzir um livro e de repente ele ficar em casa estocado mofando, então a gente fez uma pesquisa, primeira coisa a gente procurou patrocínio e aí todo mundo já estava vendo crise, falou esquece dinheiro para marketing, a gente está segurando orçamento. Aì eu falei vamos fazer uma pesquisa, a gente pesquisou acho que 15 mil pessoas e dessa turma a gente conseguiu ter uma noção o que eles queriam, então dá para comprar um livro até R$ 100,00…

Luciano          Quem eram esses 15 mil?

Leo                 Seguidores de rede social nossa…

Luciano          Que já estavam… e foram chegando para vocês de forma orgânica…

Leo                 Forma orgânica.

Luciano          … vocês não montaram nenhuma ação maluca para capturar seguidores nada? Isso foi boca a boca.

Leo                 A gente deu algumas entrevistas para a Exame, para a Marie Claire, para a Globo, para mídias interessantes que acabaram trazendo, acabou atraindo um pouco de gente para o nosso canal e aí sempre tinha esse lado que a gente abria muito as informações e o pessoal gostava disso e aí quando  a gente faz a pesquisa a gente descobre que existe uma intenção de se comprar o livro mais do que comprar uma camiseta, comprar um chaveiro e aí a gente fala pô legal, intenção é uma coisa, mas conversão é outra, porque não adianta agora, de novo, por 30 mil reais aqui, fazer o livro e ficar mofando e aí a gente resolve fazer o financiamento coletivo como a ferramenta de teste de conversão, se todo mundo quer comprar o produto, eles vão dar o dinheiro na frente e a gente entrega o livro, a primeira campanha que a gente fez desse livro, a gente bateu a meta em 5 dias e o engraçado disso é que eu virei para a Raquel e falei assim, amor, ferrou, a gente vai ter que fazer  o livro agora. O que a gente escreveu? Fala para ele.

Raquel           A gente foi no Google e escreveu “como fazer um livro?”, porque a gente não tinha a mínima ideia de como fazer um livro e tem toda essa questão, se fizer com uma editora você vai ganhar 10% do valor do livro, então não ia resolver as nossas contas, então a gente tinha que fazer de forma independente para conseguir pagar aas contas e aí a gente consegue fazer financiamento coletivo, consegue produzir o livro, isso tudo em Miami, esse um mês que a gente ficou trabalhando no envio do carro que demora para o carro chegar na Europa, a gente aproveitou para trabalhar também e começar a organizar isso.

Leo                 Acho que o primeiro momento que começa a virar um negócio,  é a primeira virada da chavinha para ser uma coisa pessoal, mas também ter um negócio, o empreendedorismo por trás.

Luciano          Vocês fizeram por onde o crowdfunding?

Leo                 Pelo Catarse.

Luciano          Catarse. Em cinco dias bateu a meta do livro.

Leo                 A gente pediu o dinheiro exato para pagar o livro, foi 5 ou 6 dias, nem a gente acreditou, não é Quel?

Luciano          E produziram o livro de lá, em viagem?

Raquel           Na barraca, é.

Luciano          Na barraca.

Leo                 Aí nós fomos para a Europa, porque que é importante falar? A gente pegou o avião, colocou o carro no container e fomos para a Europa, boa parte desse livro foi produzido dentro da barraca, que a gente ia em cima do carro ou no McDonald’s.

Raquel           Que a gente não tinha internet, então a gente tinha que ir para o McDonald’s para trabalhar.

Luciano          Pegar o wi-fi deles lá.

Raquel           A gente chegou a dormir no estacionamento do McDonald’s uma noite para conseguir trabalhar e mandar o livro, então era assim, ia se adaptando.

Leo                 Correr atrás de ISBN, correr atrás de cotação na gráfica.

Luciano          Até isso? Eu achei que vocês tinham pego alguém para fazer.

Leo                 Não, a gráfica falava assim: que livro você quer? Aí eu mandava uma foto e falava quero igual a esse, porque eu não tinha noção de quero com luva, quero capa dura, eu sabia o que eu queria fisicamente, então assim, eu lembro a gente na Sérvia ligando para o ISBN no Rio de Janeiro e o cara…

Raquel           Gente, é um código que vai atrás do livro, um código de barras.

Leo                 … e a Raquel assim falando com a mulher, a mulher calma aí, só um minuto. Moça, eu estou na Sérvia, tipo a mulher não tinha nem ideia do que era a Sérvia, o Skype acabando o crédito e tudo isso todo dia a gente atrás, abrimos empresa pra poder pagar o imposto, aí abrir empresa à distância é difícil…

Raquel           Abrir contrato nos correios para enviar o livro para as pessoas, comprar pacote, comprar caixa, tudo isso.

Leo                 … mas…

Luciano          E o primeiro livro então cobriu América?

Raquel           Cobriu América.

Luciano          Foi o primeiro livro que cobriu América?

Leo                 Isso, em termos de…

Raquel           Cobriu América, é sobre América.

Leo                 Em termos de conteúdo é sobre América.

Luciano          É a parte da Europa era um segundo planejamento? Ou como vocês fizeram já planejaram, estava tudo pronto, estava tudo armado?

Raquel           O que mudou só que no planejamento a gente planejou enviar o carro para Portugal e aí começava de Portugal a viagem e a gente descobriu que o porto em Portugal não é o porto mais movimentado da Europa, era muito mais fácil mandar para a Holanda, então a gente mudou e chegou pela Holanda, mas foi isso, os países estavam todos lá.

Leo                 Foi só um ajuste.

Raquel           A gente fez 31 países na Europa, mais 11 meses de viagem pela Europa.

Luciano          Então, vamos lá agora, a impressão de vocês da viagem. Eu estou vindo das Américas e faço ao  contrário a viagem? Faço ao contrário não, faço direitinho, eu saio da América do Sul, aquela bagunça toda, entro nos EUA, primeiríssimo mundo e aí vou para a Europa, outros ares, qual é o impacto? A hora que você pega o carro e começa viagem na Europa, estou no outro mundo, é tudo outro mundo, como é que é?

Raquel           Eu acho que estava antes, quando entrou nos EUA.

Leo                 É, quando você entra nos EUA já é uma mudança voraz, de América Latina…

Raquel           Principalmente de violência.

Leo                 … é, a questão da violência infelizmente é um problema na América Latina, eu te falo isso globalmente, também nos EUA a vida já facilita um milhão de vezes, para de ter problema com a polícia, a gente era parado pela polícia o tempo todo no Peru, na Colômbia, no México, você entra nos EUA foram 4 meses sem ter um problema com a polícia, sem ser parado, camping é fácil, a estrutura é boa, você chega na Europa…

Raquel           Tem água quente, os campings todos tem… não tem nem gente trabalhando no camping, porque tem uma maquininha, você paga na maquininha direto quantas pessoas estão no carro, qual carro, tudo funciona, na Europa foi uma continuidade.

Leo                 … na Europa foi uma continuidade na sensação de segurança, de não ter que se preocupar com a variedade infinita de campings caros, baratos, campings públicos, hotéis, praias lindas, aquela coisa de você atravessar uma rua e estar em outro país e muda a língua, muda a comida…

Raquel           Até dormir, na Alemanha a gente dormiu no posto de gasolina, mas acho até a gente gosta de assuntos que geram discussão, acho que o mais legal da Europa foi quebrar estereótipos, então sabe, por exemplo, aquele estereótipo, o alemão é frio. E a gente dormir num posto de gasolina na Alemanha e acordar e ter um bilhetinho de alemão falando: nossa que legal que vocês são do Brasil se quiser pode vir acampar na minha casa, e o endereço do cara, você fala alemão é frio e o cara deixou um bilhetinho para ir dormir na casa dele? Então acho que Europa foi muito legal…

Leo                 Dinamarca também tudo…

Raquel           … isso de poder viver um pouco mais devagar.

Luciano          Então, vocês estão levantando uma tese que é um negócio interessante, eu até já escrevi isso há muito tempo, que eu falo, vou de novo voltar, porque a minha grande viagem, a do Everest vai ser sempre aquilo e você fala, você consegue dividir claramente o Everest entre tudo aquilo que Deus fez e aquela região linda maravilhosa e as pessoas que moram lá, as pessoas que moram é um tesouro que quando você volta você fala olha o tipo de gente que eu conheci, com você é igual, é a mesma coisa?

Raquel           É a mesma coisa.

Leo                 A gente, nesses quase quatro anos que eu tinha falado, a gente ficou mais de um ano na casa das pessoas que a gente não conhecia e que convidava a gente pelas redes sociais, por exemplo, em Portugal, no dia que nós cruzamos a fronteira da Espanha para Portugal, chegaram exatamente 348 convites no nosso Facebook, das mais variadas cidades em Portugal, todas as pessoas falando assim, isso é muito legal, olha, eu moro em Porto, Porto é a cidade mais legal de Portugal; olha, eu moro em Guimarães, a cidade berço de Portugal, você tem que vir, todas as cidades…

Raquel           Braga, mais linda de Portugal.

Leo                 … todas as cidades tinham um argumento que a gente tinha que ir para aquela cidade, não é Quel?

Raquel           E não só a pessoa convidava a gente para ir para a casa dela, como muitas vezes ela ia dormir no sofá para a gente dormir na cama e ter um pouco de conforto…

Luciano          Como é que esse povo descobriu vocês?

Raquel           Pelo Facebook…

Leo                 … orgânico, amigos de amigos,

Luciano          Também orgânico, não foi nenhum tipo de ação do tipo vou estar em Portugal, vou preparar algo lá para capturar gente lá, não?

Leo                 Não. A gente falava vamos estar em Portugal a semana que vem, a gente deixava, tentava antecipar um pouco o que ia acontecer na viagem até Portugal, como já tinha um pessoal que seguia a gente falava vamos marcar um encontro  super informal num restaurante para trocar ideia, mas não tinha nenhuma ação direcionada por trás para captar.

Luciano          Foi o ambiente da mídia social que foi criando essas…

Leo                 Acho que a continuidade dos posts, a gente conseguiu, com muito esforço, colocar post no Facebook todos os dias, basicamente, da viagem, as pessoas puderam acompanhar isso, saber o que estava acontecendo, naquele canal que 20 dias volta tem um update, a gente conseguia dar um senso de continuidade, então ah, a semana que vem eles devem estar em Portugal, já vou preparar alguma coisa para eles…

Luciano          Caiu a ficha de vocês de que aquilo o Facebook não era o lugar que eu ia botar minha selfie da Torre Eiffel mas era um instrumento de trabalho de vocês?

Raquel           É, com certeza, o Facebook…

Leo                 Era os dois, a gente podia falar, todo mundo via onde a gente estava e ao mesmo tempo servia como uma plataforma para trazer gente.

Luciano          Vocês já tinham sacado que tinham… tinha começado um processo de construção de uma audiência proprietária que era quem lá na frente ia se transformar no negócio de vocês?

Raquel           Não tinha isso claro.

Leo                 Não, nesse ponto de vista tão conciso não, a gente até se assustou com a velocidade porque no começo, em termos de seguidores, crescia conforme a quilometragem, então tinha 1000 quilômetros tinha 1000 seguidores, 2000 quilômetros, tinha 2000 seguidores, ai a gente brincou um dia, falou assim ah, pelo visto a gente vai acabar com 130 mil quilômetros, vai acabar com 130 mil seguidores, puxa, se for isso animal. E aí numa época que a gente estava chegando nos EUA as coisas começam a andar, começam a vir 30, 40 mil seguidores por semana e a gente perde um pouco a noção, olhando em retrospecto a gente acha que tem muito a ver com “nós estamos visitando países que as pessoas já foram”, e as pessoas gostam de ver países que elas já estiveram…

Raquel           Relembrar uma viagem, é claro…

Luciano          E eu achava que era exatamente o contrário.

Leo                 Ela marca assim, Luciano lembra quando a gente foi lá? Lembra desse restaurante… E isso já era um engajamento super bom porque um comenta e a pessoa vem, começa a seguir, tanto é que quanto a gente foi para a Bósnia assim, ah ninguém liga muito para a Bósnia e a gente adorou…

Raquel           Por mais que a gente amou.

Leo                 … mas foi um termômetro, ah vai para a Itália, nossa enchia de comentários das pessoas na Itália, mas a gente não tinha essa noção, a gente sabia que ia ajudar a vender livro, isso a gente sabia que ajudava, quanto  mais gente…

Luciano          Qual foi o ponto alto da viagem, se dá para ter algum, na América.

Leo                 Ponto alto?

Luciano          É, aquele que você fala essa foi jogo duro.

Leo                 Eu acho que isso é sempre papo para horas…

Luciano          Mas não seja politicamente… tudo legal, não, aquele que você fala  quebrou minhas pernas porque eu não esperava, ou que fosse tão legal que fosse tão assustador, ou que fosse tão… aquele que você fala esse gravou, está gravado.

Leo                 … a gente passou na Nicarágua, um país que eu  já conhecia no primeiro ano  e era uma super dúvida como é que a Raquel ia gostar porque é um país que é bom para surfar mas não  tem muita coisa e por N motivos a gente ficou no hotel de uns brasileiros e empatia foi boa, era para a gente ficar lá três dias, a gente ficou quase um mês, então aquilo ali caiu assim meio que aaah… foi um momento, desde o primeiro ano…

Luciano          Na Nicarágua. Em que lugar da Nicarágua?

Leo                 … no norte, perto da fronteira com El Salvador, chama Miramar.

Raquel           Mas Leo, quando a gente está na patagônia também, que a gente acorda…

Luciano          Aquilo é…

Raquel           … primeiro acorda com um barulhinho assim…

Luciano          É a minha viagem.

Raquel           … aí eu falei Leo, será que tem uma puma em volta da gente? Lógico que não. Quando a gente abre o olho, no dia anterior tinha feito sol, a gente tinha fotografado, tinha nevado a noite inteira, então a neve estava começando a derreter e caindo, tudo completamente coberto de branco…

Leo                 E só tinha eu e a Raquel de turista no parque inteiro…

Raquel           … só, porque era inverno, então os campings estavam fechados, só tinha nós dois lá perdidos.

Leo                 Tanto é que a marca no chão, na neve é só minha, eu que fui fazendo a marca no parque inteiro e a gente ali…

Raquel           Então esse foi um momento também que a gente falou caramba, a gente está aqui, que animal.

Luciano          Na Europa, qual foi na Europa.

Leo                 A Europa, essa visita a Sarajevo para mim foi muito legal, porque eu já tinha ido para a Europa antes, então assim, tem a parte turística bonita e chegar em Sarajevo, um país que em 1994, na Bósnia, em 94 estava em guerra enquanto a gente estava lá no Brasil curtindo a copa e a cidade cercada três anos e a gente nos túneis e ter filmagem assim, não é que tem imagem preto e branco da guerra, é imagem HD da pessoa na guerra, snipers, então eu olho e falo assim, para mim ali, não sei se é o ponto alto ou não, mas em termos de cultura eu olhei e falei cara, isso aqui é tão legal e ninguém vem para cá, por que a gente demorou para vir aqui?

Raquel           É e nem todo mundo sabe, mas a Bósnia é um país de metade maioria muçulmana na Europa, nem todo mundo sabe disso e a gente estava acampando num camping, chovendo, a gente na barraca assim, aquela chuvinha, final de tarde, sentados no computador assim, de repente começa, a gente estava acampando no quintal de uma mesquita, a chamada para a reza, a mesquita solta um som para as pessoas irem rezar e a gente levou um susto, porque é tão horrível aqui no ocidente quando você escuta aquela música da chamada das mesquitas, você geralmente pensa que vai ter um atentado terrorista…

Leo                 Os filmes sempre usam essa trilha para…

Luciano          É o estereótipo que se cria de cada uma das culturas.

Raquel           … e isso toca cinco vezes ao dia, então assim, às 5 da manhã, quando vai nascer o sol toca de novo e aí é um processo de você aprender quando tem aquele som que é a hora de você rezar, de você agradecer, de você estar ali, é o momento de  paz, não de medo, então isso foi muito legal  também.

Leo                 É bem o contraste do estereótipo que você vê no filme de guerra, é sempre a chamada, sempre começam… e a gente está ali, vê pessoas do bem rezando e sendo legais com a gente, foi bem marcante isso aí…

Luciano          Europa. Vocês fizeram a Europa, chegaram até a Europa oriental ou não? Qual foi o limite?

Leo                 Istambul.

Luciano          Chegaram até a Turquia.

Raquel           Da Escócia a Istambul.

Luciano          Passaram por todos os países ali.

Leo                 A gente só não foi para alguns países da ex união soviética, então Ucrânia a gente não foi, Bielo Rússia, Romênia, a gente fez o sul, fez Grécia, Croácia até a Turquia, depois fizemos Itália, Europa Ocidental, Polônia, Eslovênia, Eslováquia…

Luciano         O fato de ser brasileiro

Leo                 Ajuda…

Raquel           Abre portas.

Leo                 … o passaporte é bom, primeira coisa, é bem aceito, você não precisa de muitos vistos, na África, por exemplo, ajuda muito, as pessoas adoram a gente por ser um país colônia, que foi colonizado mas alcançou um certo sucesso econômico, então eles se espelham na gente, falam pô que bacana e o futebol, futebol, quantas pessoas não falaram assim Leo, Raquel, eu apostei no Brasil, eu perdi dinheiro, eu chorei. Eu falei por que você apostou? Eu não apostei, por que você apostou?

Luciano          O meu lá no Nepal, eu lá na montanha, com sherpas em volta de mim falando nepalês e a hora que eu falava que era Brasil eles: Ronaldo, Romário, falei onde eu estou, mal tem televisão aqui, Ronaldo e Romário. Que coisa impressionante. Aí vocês descem para a África.

Leo                 Da Inglaterra a gente coloca o carro no navio e manda para a África do Sul, a gente chegou, fomos fazer uma visita ao Marrocos, no norte da África, da Europa ainda e aí África do Sul a gente chega para ficar 10 meses e vamos fazer quanto? 14 países?

Raquel           14 países a gente fez na África.

Leo                 Esse é o plano, dirigir de um lado a outro, fomos para a Namíbia, cruzar por Botsuana, Zimbábue, vamos…

Raquel           Zimbábue também, a gente estava num parque, não tinha um turista, dirigindo no meio do parque tinha um cara cuidando de uma casinha com uma camiseta do Brasil, lembra? Tem uma foto no livro.

Luciano          Diga uma coisa, vocês ali foi quebra de estereótipo, a África foi?

Raquel           Total.

Luciano          Total, que vocês chegaram lá esperando aquilo que a gente vê…

Leo                 Chega lá esperando morrer, as pessoas acham que você vai pisar na África e vai explodir.

Raquel           A primeira coisa a gente já fala, Continente Africano, porque alguém fala que vai, em vez de falar vou para o Brasil, a pessoa fala vou para a América…

Leo                 América do Sul.

Raquel           … a pessoa fala Brasil, então a gente África tem 54 continentes…

Leo                 Países.

Raquel           … países, como que a gente fala que a África é uma coisa só, não é? Então acho que isso é a primeira coisa que a gente tentou falar de cada país, falar que você muda de país muda a língua, Namíbia, ninguém ouviu falar, mas Namíbia é um país, é animal, dá para ir como primeira opção de viagem para a África.

Leo                 Ai chega em Botsuana, você olha os índices de Botsuana tudo é melhor que o Brasil, menos corrupção, mais desenvolvimento, melhor IDH, melhor ensino, melhor alfabetização, vai convencer uma pessoa que Botsuana é melhor que o Brasil, então isso cai muito a ficha quando você chega lá  começa a ler, entender um pouco melhor o quanto tem coisa que pode melhorar aqui também, quanto a África é parecida com aqui, as pessoas acham que não, mas a gente chega, claro, por mais que você tente mitigar todos esses medos, você chega lá inseguro, vai dirigir pelo meio do nada.

Luciano          Me fala uma coisa, nesse momento, quando vocês chegam na África, o business já começou a ser desenhado? Vocês já botaram na cabeça está na hora do segundo livro, a Europa merece o segundo livro, a África merecerá o terceiro… aí nasceu essa ideia de que para cada continente eu vou lançar, ou para cada…

Leo                 Toda vez que a gente tinha uma ideia de negócio a gente perguntava…

Raquel           Para o público no Facebook

Leo                 … tudo o que foi feito no Viajo, foi sempre fruto de a gente perguntar para a turma e ver se tinha engajamento, ver se eles tinham interesse nisso, é claro que quando saiu o primeiro livro as pessoas pô, tem que fazer um da Europa agora. A gente fica com aquilo já meio como uma ideia, mas quando a gente chega na África do Sul a gente faz mais uma pesquisa, ver se a pessoa que comprou o primeiro livro gostou, o que ela achou, se ela tem interesse em comprar outro e ali a gente ah, vamos lançar, onde a gente lançou?

Raquel           Na África do Sul…

Leo                 … na África do Sul? É na África do Sul a gente lança o financiamento coletivo de novo…

Luciano          Para a Europa, o livro da Europa.

Leo                 … para a Europa e esse foi o melhor financiamento que a gente fez na época em termos de alcance, de levantar dinheiro…

Luciano          Porque vocês já estavam com um público muito mais…

Leo                 … duzentos e pouco… estava na metade do que é hoje, mas é porque a Europa é um continente que desperta muito interesse, tirando Miami e Nova York, é o próximo destino nas nossas pesquisas é para onde vai a turma, Portugal, então o cara quer comprar porque quer saber, quer ler, quem já foi quer rever, quem não foi quer aprender.

Luciano          Esses livros vocês bancaram inteirinhos, o crowdfunding pagou e a distribuição?

Raquel           A gente, a minha sogra.

Luciano          Foi o crowdfunding, quer dizer, não é um livro que está exposto na Saraiva à venda? Não é?

Leo                 Agora vai chegar em algumas, aqui no Brasil agora está colocando em alguns Market Place, Submarino, Amazon da vida, mas hoje se você quisesse comprar só vai comprar pelo meu site pelo Facebook, pelo Instagram, qualquer coisa nessa linha, então a distribuição era sempre nossa e fazer a divulgação nos nossos canais e entregava, minha mãe aqui no Brasil é a nossa, até hoje, é a nossa pessoa da logística, aqui em casa ela recebe o pedido, embala, manda isso também foi um desafio muito grande, como fazer? Estou longe, eu nunca vi no Brasil como a gente vai produzir isso? E aí a gente chega na África, lança o segundo livro, mas assim, nesse momento o segundo livro era coadjuvante, eu estava preocupado em o que é que eu ia fazer na África, como é que ia ser na África, onde eu ia dirigir, minha maior preocupação é assim o carro quebrar, o carro atolar, ficar parado no meio do  nada, porque todo o resto você meio que consegue, de uma forma, ah fala com o Luciano, fala com o Alberto, fala com o João, sempre a gente tinha contato de amigos ou de conhecidos que iam acabar ajudando num possível problema.

Raquel           Acho que a maior quebra de paradigma quando a gente chega na África, é descobrir como a questão do camping é desenvolvida, então assim, aqui pela América Latina você viaja, camping geralmente é um terreno baldio que o cara fecha e fala pode dormir aqui. Quando você chega na África do Sul tem uma questão cultural, então assim, é o programa da pessoa no final de semana, então você chega no camping tem uma churrasqueira individual, alguns campings tem assim até uma cozinha e um banheiro para você tomar banho, você vai parar seu carro e vai dormir no carro, então é tão desenvolvido que eu acho que a gente …

Luciano          Sou um mané mesmo… lembra da viagem que eu estava pensando, aquela que eu falei lá de Auschwitz, passou pela minha cabeça, em vez de ficar em hotel eu vou alugar um carro legal, até olhei, tem uns carrinhos pequenininhos que dá para você dormir no carro, tudo e vou falar, mas pô e se eu chegar no lugar e não tiver um camping, olha só, a gente não faz a menor ideia de como está evoluído isso nesses países.

Leo                 Na Europa tem um aplicativo, não vou lembrar o nome agora, que a gente comprou…

Raquel           Mas tem no nosso site.

Leo                 … foi 12 dólares, tem 9 mil campings, funciona off-line, está super atualizado, camping que está aberto, qual horário, quanto custa, pode levar cachorro, pode não sei o quê, aquilo ali assim facilitou muito a nossa vida.

Raquel           Mas na Europa as pessoas esperam isso, na África a pessoa não espera, então quando a gente chega e acampa em quase todas as cidades que a gente foi na África do Sul a gente acampou, Namíbia a gente acampou, Botsuana a gente acampou e aí a gente pode acampar na Zâmbia e acampar, o que eles chamam wild camp, em Botsuana, que é um lugar completamente aberto, o cara fala está vendo essa árvore? Você pode dormir embaixo e fiz café da manhã com elefante passando em volta do carro e você está ali, você inserido naquele contexto…

Leo                 Leopardo.

Raquel           … na natureza…

Leo                 A gente saiu 100 metros, a gente estava dormindo tinha um leopardo ali, eu vi, tirei foto assim, o leopardo estava do lado da minha cama a noite toda e a gente ali, antes que você pergunte, sem dúvida é o ponto alto da África, de você poder acampar no meio do nada.

Luciano          E segurança? Nenhum problema lá?

Leo                 Pessoas ou bichos?

Luciano          Pessoas, bicho é bicho, se o bicho te comer ele está fazendo o papel dele, se o leão for lá e te comer, é a natureza dele, ele é feito para isso.

Leo                 Segurança em relação à pessoa é violência urbana, você tem que tomar cuidado nas capitais, a África do Sul é um pouco mais complicado, mas uma vez que você vai para Namíbia, Botsuana… perigo está na capital ou nas cidades um pouco mais desenvolvidas, no geral, super tranquilo, de novo, estrutura de camping é bom, estrutura para turismo é bom porque eles recebem muitos europeus, então assim, chegou um determinado momento, depois acho que de uns 3, 4 meses na África, eu estava me sentindo como na Europa, eu deixava o carro aberto no camping, minha câmera ali em cima, porque no começo você fica super preocupado com tudo…

Luciano          Quanto tempo na África? 10 meses?

Leo                 Foram 10 meses.

Luciano          10 meses de África, que loucura.

Raquel           Começou pelo Malawi que é um dos países mais pobres do mundo…

Luciano          Não e a impressão, a mim que sou ignorante de África, conheço pedacinho lá, é que é tudo igual, onde eu for é tudo igual, o que é isso? É um país cheio de mato com bicho e gente preta, fim. E a impressão é isso que eu tenho daqui, quando você chega lá deve ser uma multiplicidade de…

Raquel           A África do Sul, para começar, é o país com mais línguas oficiais do  mundo, tem 11 línguas oficiais, então a gente foi fazer uma palestra numa ONG de criancinha desse tamanho que cada criança falava quatro línguas, porque elas crescem com um tio que casou com uma tia de outra tribo, então fala uma língua, na escola fala outra e aí você fala bom, mas aqui é difícil de você aprender uma segunda língua, como essas  crianças falam quatro? Estão lá vivendo…

Leo                 Você vai para a Namíbia é uma ex-colônia alemã onde 25% da população fala alemão, você entra no mercado tem todos os produtos que tem na Alemanha onde você tem dunas no sul, as dunas mais altas do mundo, um canyon, no norte você tem os elefantes do deserto, que são uns elefantes diferentes porque eles têm que andar mais para pegar água, aí você anda sete horas até Botsuana onde é totalmente… no norte é tropical, tem malária, você vai no sul é deserto, tem uma riqueza de vegetação muito interessante, mas é claro que em algum momento, em alguns lugares, é o que você falou, é você e os bichos e no fundo é isso que a gente estava procurando.

Luciano          Claro, é isso que eu quero ir ver lá, aliás a minha frustração foi essa, que eu chego lá, não foi na Cidade do Cabo, eu desci em Johanesburgo e aí eu ia ficar um dia lá, aí comprei uma excursão, falei pô, quero ir ver os bichos, peguei uma excursão e o que eu consegui ver foi um rinoceronte há 2 mil metros de distância, um pontinho marrom, aquilo  é um rinoceronte e uns cachorros dormindo, puta mico aquilo lá, mas aí, termina a África, qual é o próximo passo? Ásia.

Leo                 Saiu da África depois de 10 meses, no Quênia, praias também, ninguém sabe que tem praias paradisíacas na África também, a gente vai para a Índia, manda o carro para a Índia e ali era onde o bicho ia pegar em termos de dirigir naquele trânsito caótico e “vambora” vai começar o último ano de viagem…

Raquel           A Índia acho que foi assim o mais desafiador, a questão de ter mandado o carro por causa da questão burocrática, o carro quebrou, foi tudo muito difícil é a palavra assim…

Leo                 Frustrante para falar a verdade, porque nada acontecia da velocidade que a gente queria, não era uma questão financeira, uma questão de velocidade de trabalho, a gente tinha um problema de visto vencendo, ali foi… mas as poucas vezes na viagem que a gente perdeu o pé um pouco assim de falar meu e agora, não estamos dando conta, mesmo sendo organizado, planejado, estava fugindo do controle, mas de novo, você está onde você está porque você quer, a gente estava lá e quando você está lá também não tem para onde correr, então você tem que resolver.

Raquel           E também nessa parte do mundo, no planejamento o plano era dirigir Índia, Nepal e Bangladesh e mandar o carro de Bangladesh para a Tailândia, porque Mianmar era fechado quando a gente saiu do Brasil, você não poderia entrar de carro, isso é uma coisa que mudou, a gente fala assim, tem que ir se adequando e hoje é aberto, então a gente conseguiu ir de carro para Mianmar…

Leo                 Mas tem que pedir uma permissão para o governo, você tem data para chegar, data para sair…

Luciano          E esse trecho é o mais fascinante da viagem?

Leo                 A África é um bom competidor, essa história de acampar em Botsuana sem grade, com os animais passando ali, a gente sentado numa fogueira vem uma hiena e a gente tem que subir correndo para a barraca, esse tipo de coisa assim de você estar muito em contato com a natureza, para nós foi uma coisa muito, muito forte, quando você chega na Oceania, pulando um pouco a Ásia, estamos falando de Austrália e Nova Zelândia,  também são dois países que fascinam a gente pelo equilíbrio de desenvolvimento legal, com paisagens bonitas, então assim…

Raquel           Mas na Ásia eu acho que foi legal pelas pessoas, porque são países com culturas muito distintas, então assim, vai para a Índia, depois você vai para Mianmar, primeiro assim, a gente já dirigiu nuns lugares ali no canto leste da Índia que as pessoas já são mais parecidas com Mianmar do que com indiano, mas pertence à Índia…

Leo                 E que nunca tinham visto um ocidental…

Raquel           … é…

Leo                 … a gente também já teve essa experiência, eu falando com a pessoa e a pessoa olhando para mim e a pessoa pintava o rosto em Mianmar…

Raquel           … em Mianmar eles pintam, eles tem um produto que eles passam, um vegetal assim que eles usam que é uma maquiagem, que eles falam que faz bem para a pele, rejuvenesce, então, é uma bolota assim no rosto e a pessoa nunca viu estrangeiro, então a gente está nos lugares mais afastados e aí fica aquele choque assim, o Leo geralmente ficava barbudo então as pessoas ficavam completamente chocadas…

Luciano          Meu irmão conta um caso interessante, ele foi para o interior da Índia, trabalho com zoológico, ficou numa cidadezinha no interior da Índia, estava ele com mais dois brasileiros lá, eles resolveram fazer o que todo brasileiro faz, vou entrar num boteco, comprar uma cerveja e sentar na praça e tomar uma cerveja na praça e ele me mostra a foto do povo em volta assistindo aquela coisa inusitada que eram três caras tomando uma cerveja na praça, virou um acontecimento na cidade.

Leo                 Na Índia, eu falo, se você tem problema de chamar a atenção, vai para a Índia, você vai suprir todos os seus problemas de insegurança, todo mundo vai te adorar, vai te olhar, vai ficar em volta de você, você vai se sentir o Brad Pitt, na Índia você se sente o Brad Pitt, todo mundo em cima, que nem teu irmão, quem foi aí…

Raquel           Também tem até a questão, às vezes a pessoa vem coloca o filho no seu colo, porque eles acham que estrangeiro dá sorte, tem toda essa questão de ser auspicioso, eles acreditam nisso…

Leo                 Os casamentos…

Raquel           … então assim, a pessoa coloca o filho no seu colo e fala tira uma foto com meu filho e você está com aquela criança no seu colo, o que você faz? Ai todo mundo começa a ver e quer que você tire foto com todas as crianças da cidade…

Luciano          Virou um acontecimento.

Leo                 A gente tinha que fugir, fugia para o carro porque se não ficava lá o dia inteiro, casamento, o que você tem de casamento, convite, as pessoas convidavam a gente na rua…

Raquel           Porque no dia do casamento também dá muita sorte se você tiver um estrangeiro no casamento, assim, passou na frente de um casamento o cara quer te levar para dentro do casamento…

Leo                 Eu corria para não ir, porque a pessoas ficavam me chamando, a gente saia correndo, lembra? Isso é legal.

Luciano          Coreia do Norte. Como é que ela entra no esquema, ela estava no esquema?

Raquel           Não.

Luciano          Como é que foi isso?

Raquel           Na verdade assim, quando a gente está terminando a parte da Ásia não tem mais para onde ir com o carro e aí a gente teria que ou colocar o carro num container de novo e aí a gente fica nessa dúvida e a gente recebe um convite para ir acampar no alto da Muralha da China e aí a gente vai para a China para acampar no alto da muralha…

Luciano          De carro?

Raquel           … não, de avião e aí..

Leo                 A China é um pouco complicado de entrar de carro…

Raquel           … também tem a questão das permissões, e aí a gente foi acampar no alto da Muralha da China e quando a gente estava dentro da China, conversando com outros turistas, a gente descobre que você só pode ir para a Coreia do Norte de dentro da China e aí a gente se olha e fala, a gente está tão pertinho, imagina ter que voltar do Brasil até aqui, o voo é caro…

Leo                 A gente ficou na dúvida entre ir para a Coreia do Norte ou para o Tibete, o Tibete se mostrou um pouco mais longe, um pouco mais caro, a gente  falou meu, vamos para a Coreia do Norte, vamos ver o que tem lá? Vamos, quem leva? Começamos a achar uma agência e descobre que o processo burocrático é bem mais simples do que as pessoas imaginam, é mais questão de pagar e mandar os documentos, mas para você ter uma noção,  a gente pagou a agência no aeroporto, em dinheiro,  no dia do voo, porque a gente assim, foi super última hora…

Luciano          Quer dizer, mesmo você sendo um estrangeiro, não chinês, você na China consegue…

Raquel           Porque é o único país que tem relação diplomática com a Coreia do Norte, então você só pode, se você tentar comprar uma passagem daqui, você não consegue.

Leo                 … acho que não e aí a gente viu, a agência faz tudo, você manda sua capa do passaporte, faz umas reuniões para eles te explicarem o que pode e não fazer, o que não pode, para você se preparar para o que vai ser aquela viagem, porque não é uma viagem comum, é um país cheio de regras e a gente entra no avião, chama-se Air Coreo, a companhia aérea, uns aviões russos, super antigos…

Raquel           É a pior companhia aérea do mundo.

Leo                 … é considerada a pior companhia aérea do mundo, é um voo de uma hora e meia e a gente ficou cinco dias na Coreia do Norte, em Pyongyang que é a capital, apesar de ter feito uma visita até a fronteira, então passa pelo interior do país e assim, lógico, tudo pode ser um teatro ou não, Luciano, é difícil captar em cinco dias, mas é uma viagem interessante, é uma viagem diferente.

Raquel           E o que a gente tenta falar para as pessoas é você pode ir e achar que tudo é um teatro, mas as pessoas no final elas tem uma vida, a pessoa está preocupada em ter comida na mesa para o filho, as preocupações delas são muito parecidas com as nossas.

Luciano          Mas é aquela história, você chega lá, seus passaportes são recolhidos, você não sai do hotel sozinho em hipótese alguma, você não pode ir onde você quer ir, você tem um plano preparado por eles…

Raquel           Roteiro.

Luciano          … e todo dia você  vai seguir aquele roteiro com alguém grudado em você.

Raquel           Com alguém grudado em você.

Leo                 E não é só o grudado assim você pode andar sozinho mas sempre tem alguém ali há 30, 40 metros de você, sempre tem alguma diretriz onde você está indo, você não fica ao leo andando e pior, quando você vê a estátua, quando você vai nas estátuas do supremo líder lá que eles chamam, você tem que fazer reverência, mas de novo, se eu fosse lá para julgar, essa viagem teria sido horrível, porque é muito diferente das minhas crenças, é muito diferente do que eu acredito como democracia, valores, liberdade, mas eu fui lá para ver e isso foi uma coisa,  na viagem, que ficou muito forte, no começo a gente ficava assim, isso aqui no Brasil é melhor, isso aqui no Brasil é pior e uma hora a gente se olhou e falou assim calma aí, se a gente está viajando o mundo para ficar comparando, essa viagem vai ser um transtorno, então vamos viajar para ser uma esponja, para olhar, para ver, para…

Raquel           Ser espectador.

Leo                 … para ser um espectador e acho que a Coreia do Norte a gente chegou muito calejado disso, eu não cheguei lá para ver se era um turismo armado, por mais que tenha coisa que seja muito fantasiosa, mas é o que é. É experiência de você ir lá e ver com seus olhos sem ter que passar por um filtro de alguém que está escrevendo e claro que nem sempre você vai, tinha pessoas do meu lado que falava meu, olha isso aqui armado, olha isso aqui, está tudo muito estranho, mas cada um vai com uma expectativa, a gente foi lá para ver, vimos, fomos embora…

Raquel           E como curiosidade, metade do grupo que estava com a gente são americanos, então assim, os americanos têm um fascínio para ir, para tentar ver se tem realmente alguma coisa que está…

Luciano          É do inimigo, quero ver como é o inimigo.

Leo                 E você sabe que a gente fez uma série de vídeos com o celular mesmo, que você não pode filmar com a câmera e aí mostra essa coisa de a gente tentou desconstruir alguns mitos, tipo não pode tirar foto, não, você pode, você não pode tirar foto de um soldado, mas aqui no Brasil você também não pode tirar da cara dele, ou melhor, tudo é muito mais fácil aqui, é claro, mas não é aquela coisa, as pessoas acham que você vai chegar na Coreia do Norte você vai tirar o seu celular, as pessoas vão te prender, tem algumas linhas que não  são tão duras quanto as pessoas acham.

Luciano          É só não jogar no chão o jornal que tem a foto do Kim Jong-un…

Leo                 Você não pode desrespeitar o supremo líder lá dos caras…

Luciano          Aí você vai preso mesmo.

Leo                 Aí você vai ter que se explicar porque você fez aquilo.

Luciano          Fala uma coisa, a Arábia Saudita, Iraque, essas regiões que hoje estão conflagradas, vocês passaram por lá ou está no plano?

Leo                 Fomos só para os Emirados Árabes que  é um oásis ali no meio, Dubai, Abuh Dabi, não fomos para o Iraque nem para a Arábia Saudita, temos planos de voltar mas aí Omã, Barém, Kuait, países…

Raquel           Irã também.

Leo                 Irã também a gente gostaria.

Luciano          Onde o bicho não está pegando, não é isso?

Leo                 Temos a ideia de um dia ir para o Paquistão e Afeganistão, porque acho que Islamabad ou Cabul dá para ir, são lugares bonitos, as pessoas confundem às vezes o país, uma coisa é um país grande que nem o Afeganistão, a guerra não está nele todo, então tem regiões onde você pode visitar…

Raquel           Paquistão a mesma coisa….

Leo                 … Paquistão a mesma coisa…

Raquel           … tem regiões não é?  Mas a gente conheceu, por exemplo, a gente viajou três meses com um casal de ingleses que eles estavam vindo da Inglaterra e fizeram, entraram pela Turquia e fizeram todo o Irã, Paquistão, Afeganistão para entrar na Índia e foi tranquilo assim, sempre muitas pessoas, todos os viajantes que nós conhecemos que viajaram de carro pelo Irã falam que é o país mais belo do mundo.

Leo                 E onde é melhor recebido, porque como ninguém vai, as pessoas te valorizam muito quando você vai lá.

Luciano          É muita gente fala isso, que é um choque você chegar lá com a cabeça feira e descobrir que é totalmente diferente daquilo tudo que se coloca lá. Muito bem, terminou a viagem?

Leo                 Essa parte acabou. Foram 3 anos e 7 meses de estrada, chegamos no Brasil faz 4 meses.

Luciano          Tiveram a companhia do Café Brasil ao longo de bons momentos da viagem. Como é que vocês descobriram? Vocês estavam procurando um podcast para ouvir alguma coisa assim ou não?

Leo                 Eu conhecia do Brasil já, você da rádio, alguma rádio que eu ouvia para o trabalho de manhã alguma coisa, então já conhecia o produto, a gente já tinha ouvido algumas vezes aqui no Brasil e aí foi uma extensão natural, quando a gente começou a dirigir muito de procurar podcast, entrevista, tem a TripFM, sei lá, coisas que a gente baixa sempre para escutar e funcionava bem como companheiro.

Raquel           E mais do que pensar que a gente ouvia muita música, quando a gente acabava ouvindo Café Brasil trazia discussão, então a gente tinha discussão do que a gente estava ouvindo com o que a gente estava vendo, porque muitas vezes o tema que você estava discutindo, por mais que você não entenda aqui, a gente também via coisas na viagem, em outros países que se conectavam de alguma forma.

Leo                 E era uma forma também de se manter mais conectado com o momento político, o momento que acontecia aqui no Brasil, uma opinião interessante para a gente poder estar… a gente nunca se alienou muito do que aconteceu aqui, isso era uma forma gostosa de saber o que estava acontecendo.

Raquel           De uma fonte que a gente respeita.

Luciano          Escuta, essa pela dimensão, pelo tempo, a idade que vocês estão tudo, provavelmente é a viagem da vida de vocês, ela deve ter uma representação assim tipo ela, a partir dela tudo muda, ou vai ter outras e vocês.. eu digo o seguinte, estou pensando o seguinte aqui, vocês agora transformaram isso até num negócio, estão pensando como a gente transforma isso num business e tudo mais, mas o trabalho de vocês para o resto da vida vai ser viajar?

Leo                 Bom, eu espero que viagem faça parte da minha vida, não sei se vai ser o trabalho da minha vida, até porque eu adoro resguardar direito de  poder fazer um monte de coisa na vida.

Luciano          O voltar para o ambiente corporativo nesse momento não está no horizonte?

Leo                 Nesse momento não está no horizonte, até tiveram algumas ideias, mas a gente achou que não era a hora, até por uma mudança de vida, mas de morar em Portugal como a gente comentou, mas é importante dizer assim: nada impediria de voltar, porque a gente gostava, o que importa é que seja uma empresa com uma cultura que a gente goste, com pessoas bem formadas, onde o ambiente de trabalho seja muito interessante, eu não vou voltar para o ambiente ultra competitivo onde as pessoas talvez não se respeitem, isso seria muito complicado para mim, mas assim, trabalho hoje é transformar isso, hoje esse momento “Viajo, logo Existo” solidificar ele como empresa, como projeto, a gente acabou de lançar, que eu falei para você, o “Viajo, logo Existo” rumo aos 100 países, que é esse projeto da gente estar….

Luciano          Faltam quantos?

Leo                 … faltam 22 para a gente visitar, mais 22, agora não vai ser de carro…

Raquel           Na verdade o Leo tem três países a mais do que eu, que ele já conhecia antes então ele vai passar de 100.

Leo                 Isso é um detalhe.

Luciano          Não mais de carro?

Leo                 Não mais de carro.

Luciano          Por quê? Ah sim, porque demora demais dirigir até chegar.

Leo                 Eu quero chegar no Canadá, eu quero ficar no Canadá, daqui até o Canadá eu demoro 7 meses, 8 meses de carro, então não estou a fim de fazer esses 8 meses passando por lugares que eu já passei, principalmente agora que eu fiquei tanto tempo fora, eu tenho a afilhada que está aqui, que cobra que eu esteja mais presenta, eu tenho sobrinhos que nasceram agora, a gente quer pensar em ter filhos, então também queremos suprir essa vontade para esses países de uma forma um pouco mais rápida…

Raquel           Enxuta.

Leo                 … e tem muitas ilhas que a gente quer, quer ir para o Japão, para lugares no Caribe que seria um transtorno ir de carro…

Raquel           Islândia.

Leo                 … Islândia, então assim, o projeto é visitar mais 22 países até o final de 2018 e vão ser pequenos módulos, então a gente quer ir para o Pólo Norte, próximo para ver urso polar, queremos ir na Islândia para ver a aurora boreal, queremos ir no Japão para ir no melhor sushi do mundo, tem alguns projetos, isso tudo a gente está desenhando agora, então está acontecendo, não tem nada muito mastigado.

Luciano          Vocês estão há quanto tempo aqui?

Leo                 4 meses.

Luciano          4 meses.

Raquel           Não deu tempo nem de chegar, eu falo, a gente não conseguiu nem renovar passaporte, que é uma coisa…

Leo                 Foi atropelado pela velocidade que as coisas acontecem aqui.

Luciano          Vocês saíram de um Brasil e voltaram em outro.

Leo                 Muito diferente.

Luciano          Então…

Raquel           Você acha?

Luciano          … eu quero que vocês me deem esse insight, vocês saíram daqui em dois mil e?

Leo                 13

Luciano          13 e retornaram em 2017, vocês saíram de um Brasil e chegaram noutro, qual foi o impacto?

Leo                 É assim, se a discussão for econômica e política, mudou, como Brasil, a sensação que a gente está no mesmo lugar, continua tendo problemas de infraestrutura, de violência, o que a gente viu só nesses 4 anos, infelizmente, fora é que aqui uma coisa que já tinha pouco, que era o diálogo, ficou ainda mais difícil principalmente na época que estava aí entre certo e errado na política, se criou muito o estereótipo de quem é do bem ou é do bem ou é do mal, é branco, é preto, é coxinha ou é mortadela, segmentar demais acaba mais ainda com o diálogo que é você entender que tem meio do caminho, então assim, isso para mim, mesmo à distância, foi o que mais pegou de ver que o Brasil não só politicamente e economicamente passa por um momento mais difícil, mas que entre as pessoas que não estão diretamente ligadas com economia ou com política, acabou também o diálogo, ficou uma coisa mais… eu acho isso, você acha, então a gente não é mais amigo, falei caramba…

Raquel           Acaba brigando com a família por causa disso, tipo onde que se inverteu tanto em vez de a gente se unir, tentar fazer o país melhor, não, pelo contrário, a gente resolveu cada um tomar um partido e deixa o país afundar porque minha opinião é mais importante do que a opinião do meu amigo.

Leo                 E num país que nossos representantes políticos são fracos, não é que a gente é bem representado, então assim, realmente eu falo, esse cara eu sou comprado nele e olha, eu vou com ele até o fim, temos representantes que mudam de partido conforme muda a maré do mar, representantes…

Raquel           Todo mundo na lista…

Leo                 … todo mundo na lista de investigados, todo mundo… e no fundo todo mundo ali se entende, é política, eles não brigam entre eles e a gente aqui fora se mata.

Luciano          Eu imagino a frustração que deve dar em gente como vocês dois, que experimentou realidades de países do mundo inteirinho e aí vocês voltam para cá, olha para isso aqui e fala meu, olha o potencial que esse treco tem para dar certo.

Raquel           Eu acho que é mais frustração do que qualquer outra coisa, porque você fala, a gente tem a faca e o queijo na mão para fazer o país dar certo, mas parece que a gente não quer e não é o político, é a gente, porque a mudança está sempre no umbigo, mas é aquela história, quem quer mudar? Eu…. Está disposto a mudar? Não.

Leo                 A gente é um país a questão da segurança, é triste dizer isso, mas a gente está totalmente fora da curva em termos de segurança aqui, o que acontece no Brasil ouçam, não acontece na Tailândia, não acontece na Malásia, não acontece na China…

Raquel           No Vietnã

Leo                 … não acontece no Vietnã, não acontece talvez em Zimbábue, ah mas está em guerra na África, guerra é guerra, mas o que acontece aqui está fora de controle.

Luciano          Em tempo de paz.

Leo                 … em tempo de paz.

Luciano          Porque o Brasil em tempos de paz é inexplicável.

Raquel           E não está ligado á pobreza também, tem que falar isso para as pessoas, a gente foi para lugares muito mais pobres do que o Brasil e não te a violência que tem aqui e a gente acabou se acostumando com isso, isso é muito triste.

Leo                 E acho que a questão da corrupção no nível civil já, essa coisa de todo mundo a gente tenta corromper, ah perdi a carteira, compra carteira, ah eu tenho dinheiro o guarda para, compra o guarda, tudo se compra, enquanto as pessoas até que são mais privilegiadas financeiramente tiverem essa mentalidade, muitas vezes são formadores de opinião, não dá para você achar que o país lá na frente vai ser melhor, se você não for parte da mudança, ela não vai acontecer e enquanto não for bom para todo mundo, não vai ser bom para ninguém, porque na Suíça é bom? Porque é bom para todo mundo e o cara consegue…

Luciano          E há essa consciência de que há uma comunidade e somos todos.

Leo                 … é meu, é seu, a gente luta pelo mesmo, a gente preserva isso. Aqui fica cada um lutando pelo seu por N motivos…

Raquel           É o zelar pelo todo, zelar pelo país, zelar pela comunidade, zelar pelo seu  vizinho, zelar pelo que é de todos…

Leo                 Civil, o que é público, aqui a gente sente falta disso.

Luciano          Vamos caminhar para o nosso finalmente aqui, eu só quero mais um pitaco de vocês, como é que isso tudo vira um negócio? O que vocês estão… vocês falaram para mim na hora do almoço que vocês estão conversando com milhões de pessoas, milhões de propostas, milhões de coisas, para entender o que é possível fazer. O que vocês estão visualizando como um negócio? Se eu perguntar para vocês daqui a dois anos, o que você faz da vida, você vai dizer para mim o quê? Vou dar um exemplo, se perguntar para mim: o que você faz? Eu sou basicamente um escritor e eu crio conteúdo e ganho dinheiro a partir do conteúdo que eu crio e que distribuo de uma forma variada, então é podcast, esse é o meu negócio. O que vai ser o de vocês daqui a 2, 3 anos?

Leo                 Essa resposta me ajudou bastante já. Depois você me fala de novo. Basicamente o que a gente faz é geração de conteúdo, se você tiver que sintetizar, mas que envolve, aí você falou, a gente escreveu o livro, quatro livros, talvez tenha mais livros vindo, palestra, uma coisa que a gente tem feito para tentar dividir um pouco do que a gente viu, fotografia é uma coisa que faz parte, consultoria financeira a gente faz também, então assim, hoje como eu falei no almoço, está muito aberto, daqui dois anos eu me vejo como gerador de conteúdo, esse é o caminho, que geração de conteúdo é tão amplo, os canais de distribuição são tão amplos, mas é nessa linha que a gente está caminhando.

Raquel           E gerando conteúdo de viagem, trazendo informação, tentando trazer as nossas opiniões do que a gente tem visto pelo mundo e tentando, eu acho que ajudar, principalmente, as pessoas através dessa mudança de vida que é possível se organizar e se planejar e ir atrás dos próprios sonhos, se a gente conseguir levar um pouquinho dessa sementinha, e de novo, não tem que se viajar pelo mundo de carro, é qualquer sonho.

Luciano          Isso que eu ia comentar com vocês…

Leo                 Cada um tem sua viagem.

Luciano          … pode ser em Sorocaba…

Leo                 A sua viagem pode se aprender a pintar, a sua viagem pode ser aprender a tocar violão, aprender uma língua que você sempre quis, ou voltar a tocar piano que você não toca faz tempo, o que a gente tenta falar é vai atrás porque a gente fez um projeto teoricamente difícil, mas acreditem, nós somos pessoas normais, com um pouco de dedicação, pessoas comuns, a gente fala por aí que sou eu, mas podia ser você, isso eu acredito cegamente que podia ser qualquer outra pessoa no meu lugar, eu não fiz nada…

Raquel           Fora da curva.

Leo                 … é um corredor..

Luciano          Isso é legal chamar a atenção, quer dizer, eu não estou aqui na frente de um casal de bilionários, que começou com um pé na frente e outro atrás e deu certo e criou um projeto e ficou bilionário e que vira para mim e fala o seguinte: se eu consegui você consegue também, eu estou na frente de duas pessoas absolutamente… tem que pagar conta amanhã, tem que se virar, se não trabalhar não  vai pagar, não tem nada demais acontecendo aqui, só tem dois malucos…

Raquel           três

Luciano          … que… três… três  malucos aqui que decidiram que dá para inventar umas loucuras e partiram para fazer e de repente constrói… o avião é construído no voo, vocês foram construindo aquilo enquanto voavam, acho que o insight legal, o primeiro insight para mim que é legal é aquele que vocês deram logo lá no início, que é pô, esse negócio é tão legal que eu acho que vale a pena partir para ele e deixar esse outro negócio legal que eu estou fazendo aqui. Eu estou fazendo um negócio legal, mas encontrei outro que é tão mais legal que eu vou abrir mão dessa coisa legal para fazer outra coisa legal. Isso é dificílimo de encontrar, a maioria absoluta que eu encontro aqui me diz assim, eu estava infeliz, minha vida era um inferno, eu trabalhava que nem um cavalo e eu resolvi que eu tinha que parar para fazer uma coisa que eu amo e você partiram totalmente diferente, quer dizer, está legal, eu vou para uma coisa que  é muito mais legal e não foi subir um patamar…

Leo                 Ou tão legal quanto.

Luciano          … ou tão legal quanto e não foi subir um patamar, não é que eu saio daqui e vou… não, é totalmente diferente daquilo tudo que eu fazia, então legal, parabéns para vocês. Quem quiser encontrar, aliás, recomendação, o terceiro livro é da África e tem o prefácio muito legal o prefácio, eles me escreveram e pediram para eu…  me convidaram para saber se eu queria escrever o prefácio, falei cara que loucura e ai escrevi um prefácio falando da questão, como é que chama? “Estar lá” é o nome do prefácio, é isso aí.

Raquel           Não sei se você lembra que eu te falei que a gente leu o prefácio na fronteira da Índia com Mianmar…

Leo                 E você chorou.

Raquel           … abri o e-mail,  li o prefácio, chorei, a gente na fronteira fazendo a burocracia.

Luciano          Que legal aí saiu um livro muito interessante da África, é muito legal, tem mais um vindo agora aí?

Leo                 Já saiu, da Ásia que representa o final, é o quarto ano, saiu agora Ásia e Oceania, saiu no final de março, então a coleção em termos de livro está completa.

Luciano          Quem quiser encontrá-los vamos lá, me dê os caminhos. Entra no Google e põe “Viajo, Logo Existo” acabou.

Leo                 Se você fizer isso vai chegar na gente, site pelo viajologoexisto.com.br e por todas as redes sociais, Facebook, Instagran, Youtube, você vai achar a gente também.

Raquel           Palestras, também tem a agenda de palestras, então quem quiser ir ouvir um pouquinho da história, a gente está fazendo alguns eventos que são abertos.

Leo                 Está no nosso site, agenda, a gente está no Rio na semana que vem, tem um monte de coisa acontecendo, que mais?

Raquel           É isso, os livros também estão no nosso site. É isso.

Luciano          É isso aí, muito bem moçada, que legal, adorei saber dessa história aí…

Raquel           Obrigada pelo espaço.

Luciano          … e saber que os planos continuam, fizemos, está bom, agora vamos voltar para o dia a dia não, esse é o dia a dia.

Raquel           Vai dar para voltar e falar de outros assuntos.

Luciano          Bem vindo viu. Legal, obrigado pela visita, espero ter a chance de cruzar com vocês muito mais, convidei vocês oficialmente hoje se vão escrever venham, vamos botar no Café Brasil, vamos botar no portal, vamos fazer o pessoal conhecer esse conhecimento que vocês juntaram aí e que querem compartilhar, que isso é o mais legal, quer dizer, eu tenho a gentileza de querer compartilhar com as pessoas, muito legal isso aí.

Leo                 A gente agradece o convite, a amizade, prestatividade sempre, obrigado, parabéns pelo conteúdo aí.

Luciano          Continuem ouvindo o Café Brasil

Raquel           Continuaremos.

Leo                 Obrigado.

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo