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Ciça Camargo -

Luciano          Muito bem, hoje é especial, Café Brasil daqueles especiais. Eu estou fora de casa, estou num lugar diferente aqui, estou dentro da Panela Produtora, só para você situar aí, estou dentro de uma salinha de gravação, uma sala pequenininha, estamos aqui em cinco pessoas sentados aqui conversando, esse violão que você está ouvindo o fundo assim é um violão original, sendo tocado ao vivo aqui e eu estava devendo esse programa há bastante tempo e a surpresa de hoje vai ser essa, vai ser um bate papo ao vivo, com som ao vivo, um Café Brasil muito especial falando com Rhaíssa Bittar, com o Daniel, com o Felipe, com o Janjão, a turminha da Panela Produtora que vai conversar um pouco sobre um monte de coisa, vamos falar de Brasil, vamos falar da música, vamos falar do ser cantora, vamos falar assim e vai e eu quero começar trazendo uma palhinha da Rhaíssa, nós vamos aproveitar aqui, o convite foi para participar do lançamento do disco deles, o disco mais recente da Rhaíssa, que é o “Matéria Estelar” e vocês estão ouvindo aqui os acordes de introdução da música que dá o nome ao disco: “Matéria Estelar”, quer ouvir um pouquinho? Quer ver?

Vamos aqui dar sequência da minha direita para a esquerda, eu quero saber nome, tem que falar a idade, desculpe Rhaíssa, mas tem que falar a idade e eu quero saber nome, idade e o que é que faz da vida para ganhar o seu ganha pão.

Daniel            Bom eu sou Daniel, Daniel Gali, idade eu… 37, 37 anos e tenho uma produtora de áudio aqui em São Paulo, sou produtor musical e compositor e trabalho com música aqui em São Paulo.

Luciano          Mas a maior qualidade você não falou, qual é? Você é o marido de quem?

Daniel            Ah sim… Da Rhaíssa.

Luciano          Muito bem. Que vem agora, quem é você?

Rhaíssa         Eu sou a Rhaíssa, Rhaíssa Bittar, tenho 25 anos e eu sou cantora.

Luciano          Cantora. Conheci mais uma, que legal. O senhor, por favor.

Felipe             Eu sou Felipe Treli, tenho 36 anos, sou sócio do Daniel e amigo e compositor, músico e produtor musical e toco a Panela junto com ele.

Luciano          Fazendo arte junto.

Felipe             Isso.

Luciano          E aqui á minha esquerda extrema quem está?

Janjão            João Vasconcelos…

Luciano          Não. Ninguém sabe quem é.

Janjão            Então, Janjão, 56 anos, novinhos agora, feitos o mês passado, técnico de som, nordestino…

Luciano          É esse sotaque…

Daniel            Agora ele é pardo

Janjão            … não e nordestino muito paulistano, que eu tenho mais tempo de São Paulo do que morei no Recife, então já sou mais paulista do que pernambucano.

Luciano          Conheço o Janjão há muito tempo…

Janjão            30 anos.

Luciano          Mais ou menos, por aí, 30 anos, eu cheguei aqui por intermédio do Janjão. Conversando com o Janjão há um bom tempo, ele me contou que ele estava trabalhando aqui e falou vou te mandar um CD aí legal, de uma cantora nova e de repente manda para mim o primeiro CD da Rhaíssa…

Felipe             Voilá

Luciano          … Voilá e eu ouvi, achei um barato e fiz um programa, toquei bastante, muita gente ouviu, foi até legal porque a gente publicou o programa e muita gente me escreveu para querer saber quem era, eu falei bom, faça o esquema do Café Brasil, vá atrás e aí, não é Rhaíssa, o que aconteceu dali para a frente?

Rhaíssa         E aí desde aquela vez, muita gente do Café Brasil veio conversar comigo dizendo ah, conheci seu trabalho no Café Brasil, aliás até o disco novo agora já tem gente me procurando.

Luciano          Só com uma palhinha, porque eu só toquei uma música outro dia no programa a gente colocou ali.

Rhaíssa         E eu estava até falando, legal do seu público que ouve, que te acompanha, que te ouve, o pessoal que não só curte a página, vai atrás como também manda mensagem, são pessoas que realmente ouviram, foi muito legal. É muito legal.

Luciano          Eu amo meu público, sabia?

Rhaíssa         Ah, muito bom.

Luciano          Mas então, o papo que eu quero levar com vocês aqui é o seguinte: é um pessoal jovem, eu fiquei super entusiasmado quando eu vim aqui conhecer a Panela, até porque rola um almoço aqui genial, é muito legal, mas é uma turma, uma garotada querendo fazer acontecer, pintando e aprontando, isso me traz então para bater esse papo com vocês, eu não vim aqui para fazer lançamento do disco, o disco vai ser o pano de fundo, mas eu quero conversar com vocês do ponto de vista dessa coisa do empreendedor brasileiro, quer dizer, eu estou na frente aqui de quatro pessoas que trabalham dentro do empreendimento próprio e com algumas características legais, mas a primeira coisa que vem na minha cabeça aqui é com a Rhaíssa, 25 anos. O que é que faz uma pessoa aparentemente normal resolver…

Rhaíssa         Aparentemente…

Luciano          … aparente mesmo, não sei se é mas…

Rhaíssa         … a gente tenta pelo menos na capa dar um jeito.

Luciano          … aparentemente normal ser cantora neste país.

Rhaíssa         Puxa, o que me fez ser cantora eu não sei direito o que foi viu, mas eu sempre amei música assim, eu sempre gostei muito de aparecer,  tem artista que gosta de estar no palco, tem aquele artista que gosta de estar atrás da cortina, que gosta de estar na coxia, que gosta de estar atrás na técnica, que nem o Janjão, tem esse artista que gosta de estar atrás, mas tem aquele artista que gosta de estar na frente, eu sou desse tipo assim, eu sempre gostei de aparecer, de ganhar a atenção as  pessoas de alguma forma, então… e puxa, desde criança eu gostei disso e fui aproveitando as oportunidades que foram aparecendo, curso aqui, curso ali, vai, conhece e aí e foi uma coisa até difícil de assumir assim, começo de ano agora fazendo checkup, passando no médico, aí tem lá: profissão: cantora, levou um tempo para eu assumir isso de: sou cantora mesmo, é meio esquisito assim.

Luciano          No Brasil é difícil, porque, eu vejo cantora, mas além disso o que você faz para viver?

Rhaíssa         É, exatamente, o que você faz assim, fora isso assim? Não, eu faço isso mesmo assim, eu canto.

Luciano          E você estudou para isso? Estudou para cantar?

Rhaíssa         Estudei, mas não… tem gente que estuda muito mais, eu ainda quero estudar mais, porque é uma coisa que não para, esse instrumento, a voz, está sempre mudando, às vezes você está um pouco mais triste, você está um pouco mais alegre, já muda a  sua voz, isso é uma coisa que minha mãe, que é locutora, me ensinou, toda a sua emoção passa pela voz, a pessoa não está te vendo mas ela está te ouvindo e ela está sentindo, ela vai sentir o que você está sentindo.

Luciano          Você está no podcast Café Brasil e eu tenho certeza que a turma está sentindo que você está curtindo.

Rhaíssa         E aí eu sempre observei muito e eu quero estudar ainda mais, eu quero estudar muito mais, porque conhecimento nunca é demais.

Luciano          Legal. Interessante isso, jovem assim, tomara que continue, eu quero fazer um desse programa de novo com você com 93 anos, a la Bibi Ferreira, em cima do palco e detonando.

Rhaíssa         Ah eu também quero.

Luciano          E para os dois agora aqui, Daniel e Felipe, qualquer um dos dois pode começa a responder, o que é que se passa pela cabeça de dois malucos resolver fazer uma produtora para trabalhar com música, com áudio nesse país aqui que eu não sei se remunera bem isso, se reconhece isso, se facilita da alguma forma, eu acredito que não, mas como é que é, me dá um pouco do histórico de vocês e como é que chegaram  nessa conclusão?

Daniel            Eu acho que, eu vou passar rapidinho para o Felipe, eu acho que ele tem mais para falar assim, mas eu ia falar rapidamente que tem que ter um, você tem que gostar muito do que faz e meter a cara porque não é fácil não. A gente tinha muitos sonhos assim, a gente vai vendo que…

Felipe             Ainda tem…

Daniel            … ainda tem, mas a gente vai vendo que eles são difíceis de alcançar e parece que quanto mais difícil é, mais você quer fazer, sabe assim, tem que ter muita força de vontade e tem que perseverar mesmo.

Luciano          Batalhar. Trabalhar.

Felipe             Eu acho e ultimamente eu tenho ouvido muito falar sobre isso, a questão da vocação, eu acho que isso envolve a resposta de nós três aqui, a Rhaíssa eu conheço desde muito nova e era muito clara a vocação dela para cantar, desde muito pequena ela já cantava muito bem, ela tinha um timbre diferente que todo mundo conhece e era assim, era um jeito de cantar com uma personalidade que é rara assim, você vê sem ela ter estudado ela já era, isso é uma questão de lapidar, eu acho que no Brasil a gente tem essa coisa do gênio incompreendido que o cara acha que nasce com algum talento, ele já acha que está pronto, eu acho que não, é uma questão de… e ela melhorou muito, você já vê uma diferença do primeiro para o segundo disco e a vocação nem sempre é uma coisa que você gosta de fazer porque não é só um prazer,  é também, mas é uma coisa que você precisa, o que eu sinto quando eu estou produzindo ou quando o Dani, quando a gente está compondo, é quase uma necessidade física assim, tem o filme da Edith Piaf que ali eu acho que mostra muito bem, a pessoa é quase uma… ela não pensa como os outros pensam, ela é quase uma autista assim, aquilo é uma necessidade tão grande, tão maior, que é como respirar mesmo, eu acho que quando você encontra a sua vocação, você não pensa se isso  vai dar dinheiro ou se não vai, se isso vai funcionar ou se não vai, você quer fazer sempre o melhor possível e acaba a gente consegue hoje viver de música, ninguém aqui é milionário e tal, mas a gente consegue ter uma vida com filhos, com família e tal, difícil, porque no Brasil hoje está tudo difícil mas porque a gente faz direito, isso é uma coisa que o Janjão é parte disso, todo mundo que trabalha aqui, decerta forma, o Daniel, batem muito e eu vou atrás desses caras que são sensacionais, eu sou um pouco mais de pensar e eles são mais de fazer, então eu estou sempre ali aproveitando um pouco disso, essa coisa de não, tem que ser muito bom,  a gente tem que fazer o melhor que a gente conseguir, às vezes não dá porque não tem grana, às vezes não dá porque não tem a estrutura que a gente gostaria, mas o que a gente pode fazer nunca vai fazer abaixo do que a gente consegue e eu acho que isso só com vocação, só se for uma coisa que é maior do que ah pô, acho isso legal.

Luciano          Acho uma coisa interessante o que você está falando aí, aquela coisa do dinheiro como consequência, o dinheiro vem lá e se você dá a sorte, que eu não sei se é sorte, é sorte coisa nenhuma, sorte é… eu sempre brinco dizer que sorte na verdade é preparo com oportunidade, se você estiver preparado, surgiu oportunidade você consegue e aí vem um bobão dizer que sorte, mas se você dá, tem esse privilégio de poder trabalhar com aquilo que você ama fazer, você nunca mais trabalha, mas por que você está se matando? Eu não estou me matando, eu estou curtindo de montão, então quando eu estou sentado aqui e se além disso, isso me dá dinheiro, eu sou o cara mais feliz do mundo, isso aí alimenta a gente, sempre falam bem, essa necessidade física que você tem de produzir alguma coisa que tem a ver com teu talento.

Felipe             Ao mesmo tempo tem aquela coisa também do cara que pensa que só por causa disso, só porque é sua vocação, vai ser sempre lindo, maravilhoso, é que nem casamento, tem aquelas fases que você está… meu, você precisa construir aquela coisa, não é uma coisa que vem fácil, então mesmo quando você faz o que gosta, vai ter aquele dia chato pra cacete, você não queria estar lá, você precisava… mas quando o fato de  ser  a sua paixão, a sua vida ali, ameniza esses dias mais… é o que eu falo, não  é que você sempre vai se divertir trabalhando, mas a chance de você se divertir trabalhando é muito maior.

Luciano          Claro, sem dúvida e por falar nessa coisa do talento, da diversão trabalhando, quero saber do Janjão, o Janjão, a gente pergunta o que você faz? Eu sou técnico de som, aí você já imagina um cara sentado numa sala cheia de botão e apertando botãozinho aqui, botãozinho ali, que coisa faz esse cara? Mas basta trocar dois dedos de prosa com o Janjão que você vai ver que o Janjão para mim é um cientista, é um artista cientista, começa a conversar, ele começa a contar as histórias, as coisas que ele inventa, que ele faz, de onde veio isso? Você caiu num estúdio sem querer, como é que foi isso daí?

Janjão            Não, eu acho que isso vem de casa…

Luciano          Lá de Recife.

Janjão            … de Recife, é Ricife, veio de lá, pai é aviador, técnico ao extremo com habilidade mecânica, elétrica, então isso, essa coisa do técnico, vamos dizer assim, é uma coisa que surgia na mesa, na hora do almoço, então… e na família, que é músicos e eu lembro ainda hoje de um primo do meu pai que tinha um conjunto chamado “Fugitivos”, que foi tocar lá em casa e eu fiquei maravilhado quando o meu pai me mostrou, pegou um reverb de mola e ele gritou ah e saiu no alto falante, aquilo era um negócio tão mágico, certo? Que a partir daquele momento aquilo era um negócio incrível e eu tenho um outro primo, mais ou menos da minha idade, que é o Zé da Flauta, produtor lá no Recife e que montou um estúdio, nós éramos sócios e montei um estúdio com ele, isso lá em 78, faz algum tempo e aí na época, a dificuldade no Brasil era monstruosa para aprender, você não tinha literatura, você não tinha escola, porque hoje você tem escola pra técnico de som, você não tinha nada, a única coisa que sobrava era a livraria do aeroporto, lá no Recife, quando chegava alguma revista de áudio e a gente ia lá folhear para ver o que estava acontecendo no resto do mundo e para essa revista não ser vendida, a gente colocava atrás de uma revista de moda,  alguma coisa assim, para poder no próximo fim de semana gente voltar lá e conseguir ficar vendo as figurinhas, porque meia dúzia de palavras em inglês não dava para nada, mas não tinha Google, então tinha um esforço muito grande e sempre que alguém viajava para fora e trazia catálogo e tudo mais, era isso, era a paixão e foi crescendo, crescendo, um dia surgiu a oportunidade de vir para São Paulo, que foi lá no estúdio que a gente se conheceu e chegando aqui, depois que teve a abertura do mercado, que a coisa melhorou muito e melhorou os estúdios, porque até os anos 90 era quem tinha alguma coisa trouxe de contrabando, então era um problema, porque você tinha aquela coisa da quarta via, aquele problema todo, ou seja, você brigava contra as leis para poder ter alguma coisa  para fazer melhor e é isso, a coisa veio da paixão, da paixão que surgiu dentro de casa mesmo…

Luciano          Esse estúdio ao que o Janjão se refere é o estúdio Bandeirantes.

Janjão            … sim…

Luciano          Não é?

Janjão            … que não existe mais.

Luciano          Não existe mais, mas era o estúdio interessante, porque se você entrava no Bandeirantes lá, não  era por causa do estúdio em si que nem era o the best, mas o povo que estava lá dentro era um negócio absolutamente sensacional, eu conheci…

Janjão            O estúdio tecnicamente falando era sofrível, vamos dizer assim, tinha uma mesa de baixo custo, tinha umas caixas que trouxeram componente e  fizeram com medida de palmo para lá, palmo para cá e achava que funcionava, então era assim, era tudo muito…

Luciano          Empírico, muita inexperiência

Janjão            … é,  muito empírico, exatamente, mas era isso, mas não tinha, tinha um time muito legal.

Luciano          Mas que legal, vamos aproveitar essa história do time, está claro para mim que tem um time aqui na minha frente, cada um com seu talento, então tem uma moça que é cantora, tem um sujeito que é compositor e as músicas todas do disco novo são suas, não é?

Daniel            A maioria, tem música do Felipe também.

Luciano          Sua e o Felipe também é o compositor e tem trabalhos também dele, aliás o Felipe tem um lado interessante dele que é o lado meio politizado e de vez em quando ele inventa de fazer umas loucuras aí e faz umas paródias de música brasileira com letra política e tudo mais que tem dado um barulho inteiro aí na internet, não tem?

Felipe             É então, uma vez o Felipe Moura Brasil que escreve para a Veja, ele escreveu uma letra de Águas de Março, fez uma paródia e eu peguei, achei interessante mas meio de farra também, a gente estava num mês que estava meio tranquilo, eu comecei a fazer mas a minha brincadeira ali, aquela coisa da vocação, você está ali e tem… é quase uma gincana, você nunca está fazendo por um fim, nunca imaginei que um dia ia estourar no Youtube e aí você está lá e eu queria fazer igual eu queria o arranjo do Tom Jobim, eu conseguisse imitar cada nota da bateria, cada nota e aí chamei a Vanessa, que canta comigo, a gente tem uma dupla que é “A mamãe e o papai” a gente fez um disco aqui na Panela também,  para o nosso filho, em homenagem ao nosso filho e aí a Vanessa fez a Elis e eu era o Tom, eu fazia aquela voz toda…

Luciano          Ficou muito bom, você quer ver como ficou bom? Escuta só.

E aí, Tom Jobim e Elis de volta ao estúdio falando de política brasileira, que tal? O máximo.

Felipe             Foi ideia do Felipão que, meu xará inclusive, e aí eu fiz de brincadeira, mandei para ele, ele se encantou, achou que ficou legal e ficou mesmo, modéstia à parte, porque às vezes eu ouço, vem um amigo nosso falar assim, pô você peou a base do Tom em algum lugar? Onde você conseguiu isso? Eu falo não, foi a gente que fez e aí a gente fez uma sequência, fez a banda, aí fez, enfim, depois tem lá no canal Chinchila, vocês podem ver…

Luciano          Canal Chinchila?

Felipe             … é, o Chinchila do Youtube, mas isso é um projeto pessoal meu, não tem muito a Panela não se envolve com política, isso eu que sou um pouco mais esquentadinho.

Luciano          Mas então, a Rhaíssa também tem uma história interessante que você passou uma temporada na China, não foi isso ai? Antes de virar cantora pra valer, você já cantava? O que foi isso?

Rhaíssa         Quando eu me formei no colegial eu queria fazer intercâmbio, eu já estava fechado que eu ia para Taiwan, fui pelo Rotary…

Luciano          Taiwan, quer dizer, quando eu falo que você não é normal tem um fundo de razão, não tem?

Rhaíssa         Eu só fui descobrir que isso era tão bizarro depois que eu voltei e falava, ah morei em Taiwan um ano e todo mundo: como assim? Aí eu falava pois é, morei em Taiwan um ano de intercâmbio, então eu morei com família taiwanesa, a proposta era viver como uma taiwanesa por um ano, a proposta do intercâmbio era essa e putz, foi um barato assim, uma viagem maluca, tanto que quando eu voltei ficaram coisas de Taiwan em mim que ainda estou medindo como foi marcante…

Daniel            Mas resultou em música também, no primeiro disco tem música em chinês.

Luciano          Que será que quer dizer isso? De quem é a letra?

Rhaíssa         A letra só pode ser minha, deixo em português para o Daniel e eu só faço em chinês.

Luciano          É mesmo? E o que que é isso?

Rhaíssa         Foi uma brincadeira, na verdade a gente estava arrumando uns chapéus, que eu adoro chapéu e aí eu tenho vários em casa, tem um chinês, tem vários malucos e aí…

Luciano          Você tem um clipe com todos eles, então são seus aquilo? Eu estava vendo o clipe, onde é que ela arrumou tantos? São seus então?

Rhaíssa         Nossa… não, aqueles eu precisei de um apoio aí de uma água no feijão, que foi da Graciela Starling, que hoje é uma chapeleira incrível assim, todo evento que tem chapéu sempre tem um arranjo é ela assim e aí ela me emprestou várias coleções de chapéus para a gente poder fazer aquele clipe que aliás foi um clipe, o diretor foi o Janjão…

Luciano          Diretor, Janjão? Dirigindo um clipe?

Rhaíssa         … você vê que esse cara é…

Luciano          É multi coisa.

Rhaíssa         … multi tudo.

Luciano          Espera um pouquinho, então antes de a gente ficar falando aqui escuta um pedacinho. Se você quiser achar vai no Rhaíssa Bittar, Chapéu.

Rhaíssa         Rhaíssa Bittar, Chapéu, encontra essa música, esse clipe, tem até uma legenda em chinês, quem quiser acompanhar, mas esse clipe foi uma ideia do Janjão que aí a gente foi fazendo e resultou nesse clipe.

Luciano          Que é uma experiência interessante. Uma coisa que eu notei quando eu comecei a me enturmar com vocês, de ver algumas experiências de vocês com vídeo e não era aquela coisinha de botar, tinha um, aliás um dia até liguei para saber quem é que faz para vocês,  porque ele é filmado de uma forma tão livre, eu falei pô, isso é o que faz parte da estética deles e achei muito legal vocês irem por esse caminho, aliás esse é um caminho sem volta, preocupem-se com isso porque eu  sei que é aí que vai terminar, tem umas camerazinha já já aqui e não tem por onde.

Felipe             É o nosso assunto dos últimos dois, três anos a gente falando, a música agora tem que estar acompanhada, é uma outra realidade, as pessoas estão acostumadas a ver. Eu sempre falo, mesmo que o cara vá ouvir música no Youtube, o cara quer a capinha do disco, você bota no SoundCloud, ninguém dá play, você bota a capinha do youtube, neguinho dá play, então a gente pensa muito nisso, tanto é que todos os nossos projetos já incluem alguma coisa visual também.

Janjão            Eu queria voltar no clipe só para falar uma curiosidade, aquele clipe é feito todo em fotografias, uma a uma, a Rhaíssa falava, fazia a boca do fonema e eu fotografava, foram quatro mil e poucas fotos, só que quando chegou na hora de eu montar, eu não conseguia porque eu não falo chinês, então a Rhaíssa que teve que colocar as fotos sobre os fonemas porque ela fala a língua, então é muito estranho, porque a gente reconhece o som mas não sabe que boca serve para colocar no fonema.

Luciano          Por que é que nada do que o Janjão faz é fácil?

Daniel            Ele tomou Bardhal.

Luciano          Todo mundo é doido.

Daniel            O Janjão tomou Bardhal quando era pequeno, isso explica muita coisa.

Felipe             O Janjão, não, não é mentira, é verdade, não é mentira, ele tomou Bardhal, mas o que a gente sempre fala é que o Google quando tem dúvida liga para o Janjão e fala, estou numa dúvida aqui…

Luciano          Pergunta para ele…

Felipe             … pergunta para ele.

Luciano          … que bom. Deixa eu voltar então, eu trouxe aquela questão da experiência externa e tudo mais para trazer a gente para uma realidade aqui que eu queria conversar com os empresários, a empresária do negócio dela, o Janjão, etc e tal, como é  que é ser  empresário no Brasil? Eu não vou nem perguntar hoje, porque eu não sei se vocês têm a perspectiva do que era ser empresário do Brasil há 30 anos, não tem, mas hoje tem e aí? Nessa história do contato lá fora, quando a gente conversa com um cara lá fora, quando você vê uma estrutura lá fora, quando quer gravar um disco lá fora, a gente tem acesso à coisas que no Brasil você não tem, até as  facilidades que existem lá fora ainda são muito maiores eu aqui e a gente estava conversando na hora do almoço um negócio importante, quer dizer, e a questão não é só os equipamentos que eles têm lá fora com muito mais acesso do que nós aqui, quem está pilotando o equipamento que na verdade é o lance e aqui o Brasil está cheio de gente talentosa, mas agora do ponto de vista assim dos empreendedores do seu próprio negócio, como é que é fazer negócio no Brasil hoje? Manter essa estrutura aqui com gente, pagando salário etc e tal, como é que é isso?

Daniel            Boa pergunta.

Felipe             O Olavo de Carvalho, ele fala que quando você lê uma literatura, a ideia é você ter um sonho acordado dirigido, eu acho que ser empresário no Brasil é um pesadelo acordado dirigido pelo Kafka, mais ou menos isso, porque você… eu não gosto de glamurizar, eu vejo muito empresário falando não, mas o Brasil tem aquela coisa do jeitinho que é legal, porque às vezes a gente na dificuldade você consegue fazer, eu acho que a gente sem a dificuldade aqui, essa galera que está aqui especialmente ia fazer uma coisa muito mais legal ainda, ia conseguir, porque a gente ia ter acesso, ás vezes a gente acaba batendo no limite da burocracia, da grana, até da mão de obra, aqui a gente tem a sorte de ter uma equipe. O Davi que está ali fora também, que é técnico, a Tchandra, enfim, eu posso falar o nome de todo mundo aqui, então a equipe que foi meio que escolhida a dedo e também acabaram caindo aqui, sei lá, destino, qualquer coisa, que é muito legal, pessoas muito esforçadas, todas com muita vontade, mas é um negócio, quando a gente precisa de alguma coisa é muito difícil você achar um parceiro de fora tenha esse mesmo espírito, normalmente é uma coisa assim: ah tudo bem, está mais ou menos, está bom; putz, aí quando tem um cara legal também é puta, onde a gente vai conseguir a grana? É sempre depende muito do governo, de dinheiro estatal, a gente não trabalha, não gosta, não sei se um dia a gente vai precisar porque talvez chegue um momento…

Daniel            Daqui a pouco.

Felipe             … que você não tenha outra saída mas a gente dentro do possível, a gente não quer dinheiro estatal, a gente não quer, a gente quer trabalhar, viver em paz, mas os caras…

Luciano          Fazer o dinheiro, não é?

Felipe             … o difícil é isso.

Luciano          Tem uma coisa interessante depois do almoço, a gente voltou aqui e nós íamos subir para gravar, eu estava lá, de repente o Daniel passa, vai conversando aqui porque tem uns papéis para assinar, estava ele no computador lá assinando papel. Meu, você é compositor, você agrega valor ao negócio quando pega o violão, senta numa sala, se inspira e faz uma música fantástica como essas.

Daniel            Mas isso é sonho.

Luciano          Dá uma dedilhada aí em alguma coisinha que você fez para o disco novo da Rhaíssa, quer ver o que ele faz?

E aí, essa é tua praia, é fazer música, não é assinar papel, como é que é essa história?

Daniel            Pois é, mas tem, a partir do momento que você assume uma produtora, ainda mais no Brasil, chove papel, não tem como. Eu acho, o Felipe falou dessa luta que você tem, antes de ser empresário, quando eu era adolescente lá, era bem comunista, socialista, eu tinha essa visão que já é passada há muito tempo nas escolas, aqui no nosso país de que a gente tem duas categorias de pessoa: aquele que é coitadinho, oprimido e explorado e o explorador, as pessoas querem dividir a sociedade assim, então para mim, na época que falava não, mas o empresário explora os seus empregados, o empresário é o vilão da história…

Luciano          E hoje você é um.

Daniel            … então e hoje eu sou um empresário, era para eu ser o vilão agora, eu não consigo ser vilão de nada, não consigo explorar ninguém…

Felipe             Isso é o que você diz. Pergunta para o Janjão…

Daniel            … é, o Janjão está aqui para me deixar falar a verdade, mas aí eu falo puta merda, tem um cara que é o que está carregando esse país nas costas que é o empresário, é o cara que está pagando muito imposto, que está sustentando emprego ali na unha, eu acho que o país hoje está o caos assim administrativamente falando assim está uma bagunça, a quantidade de imposto que se paga é tão grande que hoje a gente tem um computador do meu estúdio que pifou agora, se a gente trás de fora, que a gente não faz isso aqui na Panela, se a gente fizesse isso você ia pagar assim um terço do valor do computador…

Luciano          Trazendo por baixo dos panos?

Daniel            … por baixo dos panos, óbvio, porque a quantidade de imposto é tão absurda, é tão gigante que você paga um terço do computador, então muita gente faz isso, a gente que é meio caxias, a gente gosta de fazer tudo certinho, a gente fala não, vamos comprar, a gente vai lá parcelar e vamos pagar uma fortuna na máquina porque a gente precisa para trabalhar.

Luciano          Eu costumo dizer que esse sistema, ele empurra a gente para clandestinidade, mesmo que você não queira, chega um momento que chega a ser questão de sobrevivência e aí chegando esse momento que nós estamos vivendo aqui, que é um momento terrível, que é quando você, o Felipe comentou alguma coisinha aqui, falou pô, eu arrumo um parceiro e o cara não tem o mesmo drive que eu, ah tudo bem, meia boca, todo mundo pisa na bola eu vou pisar também, isso acaba contaminando como um todo e de repente a gente acaba batalhando para ser uma ilha de excelência no meio de um lugar onde tinha tudo para ser uma grande ilha e não é, você chega aqui, onde você vai tem incompetência, ninguém faz direito, é tudo  meia boca, é tudo nas coxas e você fala bom, onde é que vai chegar? Qual é o caminho para ir adiante?

Felipe             O Maurício Pereira, nosso grande Maurício Pereira que todos nós gostamos muito, ele tem uma expressão que é muito boa, que é: “excelência na fuleragem”, é o que o brasileiro, como nós, tenta fazer, a excelência na fuleragem, vamos aí, mas sempre com excelência.

Luciano          Eu tinha uma dessa no tempo que eu trabalhava que falava o seguinte: “o brasileiro é imbatível na arte de automatizar a pazinha que limpa a cagada”, entendeu? Ninguém faz uma pazinha igual a nós, parar com a cagada ele não para, mas a maquininha nós somos o máximo aqui, então, agora me fala, vocês são artistas, como é que essa atmosfera estranha, essa pressão, essa loucura toda se reflete na arte de vocês? Dá para cantar legal com tesão com uma pressão como essa? Dá para compor legal? Dá para falar de amor numa pressão dessa assim?

Felipe             São duas respostas diferentes, o Daniel é o cara que ele consegue, você estava falando do documento para ele, é uma coisa que ele não sofre com isso, eu cada linha que eu assino, eu antes de começar a assinar eu estou sofrendo já, quando eu tenho que assinar, eu estou assinando, eu já vou reclamar do governo, então eu me desgasto muito nesse… é uma coisa de personalidade, o Daniel, eu não sei se é porque ele sofreu muito… no norte, era lá toda uma vida muito difícil, não que a minha vida tenha sido… mas é classe média, normal, ele lida com isso com uma naturalidade, eu acho que se tivesse menos papeis para ele assinar, ele ia ter mais tempo para fazer, mas eu, mesmo com os papeis, mesmo assim ele consegue fazer as coisas porque ele consegue ligar uma chavinha lá…

Luciano          Consegue abstrair.

Daniel            Não é que às vezes eu desligo total assim, eu paro de ler tudo o que está acontecendo, eu dou uma desligada.

Felipe             É, no disco da Rhaíssa você fez isso.

Daniel            Eu desligo. Você finge que não está acontecendo, se não, não dá.

Luciano          O disco novo da Rhaíssa é um disco, eu não vou dizer que é um disco temático, mas ele tem uma coisa comum por trás dele, ele conta, cada música é uma história de um objeto, não é isso?

Daniel            Isso, exatamente.

Luciano          Você pegou um objeto e falou vou contar uma história e aí você senta e inventa uma história inteirinha que tem a ver com o objeto inanimado, quer dizer, você olhou para uma, fala o que… Acabou de cantar, você olhou para uma pera e aquela pera criou vida; você olhou uma adaga e a adaga virou amante do coração do rei e aí vai. E aí?

Daniel            Foi o Felipe que viu a adaga.

Luciano          Foi o Felipe? O Felipe viu essa história. Então, como é que é? Como é que você abstrai dessa loucura toda para produzir?

Daniel            Então, você mergulha num universo paralelo ali, desliga do que está acontecendo fora, porque realmente é uma coisa que te contamina, ainda mais hoje com rede social, eu não tenho Facebook, por exemplo, mas não é porque eu acho ruim, não, eu acho muito legal  até, mas para eu conseguir fazer as coisas que eu quero fazer, eu já vi que não ia dar certo, porque você acaba se contaminando  pelo que está à sua volta, não  dá, então tem que desligar mesmo.

Felipe             Aí não adianta nada, que eu chego aqui, conto tudo que está no Facebook.

Daniel            Então às vezes você desliga mesmo, mergulha e eu comecei a procurar os objetos no mercado livre para escrever, ver a cara deles para escrever, acabei comprando, eles viraram até capa do livro, eles estão na capa os objetos, do disco, do livro ó, ato falho. Estão na capa do disco os objetos que eu fui comprando e buscando para ver, para assim, porque uma coisa que eu queria nesse disco, era que… eu estou falando de objetos, era uma armadilha que eu me coloquei assim,  porque podia virar uma coisa boba assim, quem eu sou? Na letra, tipo aquelas coisas de escola, de onde eu vim, quem eu sou? Então tinha esse problema, eu não queria, falei para isso não acontecer, eu vou ter que ser um pouco mais profundo do que as  características do objeto, para esse objeto criar vida, eles têm que ter características humanas assim, então a gente tem muito no disco de  medo da morte, aquelas coisas bem de ser humano, ter a consciência de que você vai morrer, de que está envelhecendo, então ficou um disco denso assim até.

Felipe             O que eu ia dizer é que não era uma pera, era a pera, não era uma adaga,  tinha que ser aquela, por isso que ele  sempre buscava o objeto e conhecer ele porque ele tinha que falar daquele cara que está ali, não é qualquer um.

Luciano          Tem uma divertidíssima lá, da caixa de fósforo é divertidíssima porque aquilo é quando você bate o olho numa caixa de fósforo a primeira coisa que vem é o seguinte, aquele monte de palitinho apertado lá dentro e aí você  pega e transformou isso numa música, como é que é?

Daniel            Essa aí a gente teve participação no disco de Paulo Padilha, Paulo Tatit, Paulinho Mosca, Paulo Boca de Cantor, um monte de Paulo, porque todos os palitos chamam Paulo.

Luciano          Você quando compôs esse tipo de coisa, você tinha em mente que quem ia cantar era a Rhaíssa?

Daniel            Sim.

Luciano          E aí?

Daniel            Essa dos palitos, eu tinha em mente que iam ser quatro palitos…

Luciano          quatro caras cantando…

Daniel            … quatro caras cantando e ela ia cantar ali no fim.

Luciano          E aí, que impacto isso trás quando você olha para uma pera, dá vida à pera e sabe que quem vai cantar, quem será a pera, vai ser a sua…

Daniel            Eu acho que isso ajuda, para mim ajuda.

Luciano          … ela deu uns pitacos aí ou não?

Daniel            Nessa música e em muitas outras…

Luciano          Não, em geral, ela lá deixa eu ver, essa pera eu não quero ser, foi muito assim ou não?

Rhaíssa         Imagina? Eu dou pitaco?

Daniel            Não, mas ela acaba interferindo bastante na hora de interpretar, ela caba dando uma personalidade para o objeto que às vezes não era o que eu tinha pensado, proposto e aí é que é legal, porque o artista, ele que, na verdade, o intérprete é que dá a vida àquela obra ali, então é legal, mas eu sempre falava um pouco para ela do personagem, como ele era, olha esse cara, ele está muito ressentido, ele está puto da vida, dava umas… mas às vezes ela falava não, mas ele não é tão puto porque tem isso e aí ela…

Luciano          Isso foi um negócio legal que a gente falou a hora do almoço ali que o Janjão vai entrar na conversa aqui de novo que é o seguinte, quer dizer, você criou a música, você imaginou uma situação tal, a Rhaíssa entra com o jeitinho dela de cantar e ela dá uma outra cara para alguma outra coisa, o Felipe contribuiu de alguma forma ali, aí vem na hora da gravação, o Janjão bota a mão e começam a acontecer coisas que não estavam no jogo, não é?

Daniel            O Janjão é um cara muito legal de trabalhar porque eu assim, tudo o que o produtor quer é não ficar falando de coisas técnicas, eu não quero falar de microfone, de pré, de… a gente acaba conversando porque é um assunto que me interessa e o Janjão é um cara muito generoso, sempre vai falando aquilo que ele sabe, o que ele está pensando e eu acabo me interessando, mas quando eu vou passar para ele o que eu quero da música, eu falo a mesma coisa que eu falo para a Rhaíssa, esse objeto é assim,  ele está sofrido, eu quero uma coisa triste, eu passo a sensação que eu quero, aí o Janjão vai buscar no som, ele pode falar melhor como que é receber essa informação e transformar isso.

Luciano          Então, eu queria ouvir um pouquinho disso aí, o que nós estamos falando aqui? Estamos falando desse jogo dos profissionais juntando seus talentos, cada um na sua praia e se juntam e dá uma coisa que nenhum deles seria capaz de fazer sozinho, quer dizer, é cada um juntando a gente vai conseguir uma coisa legal e duas coisas que eu queria ouvir, Janjão, primeiro essa coisa do papel que você como técnico que está lá, que é o cara que na verdade aperta um botão mas que ele acabe de me dizer que ao apertar esse botão você dá uma luz ou dá uma cor que era o que ele desejava lá, isso é uma coisa. E a segunda coisa…

Daniel            Ou às vezes, desculpa, às vezes ele vem com alguma coisa nova que eu não tinha pensado, mas que fica bom, nem sempre é o que  eu desejava, às vezes surgem coisas…

Luciano          E aparece uma contribuição que o artista dá ali.

Teve uma música de natal que vocês gravaram e que teve um solo de?

Janjão            Tuba.

Luciano          De tuba que foi o primeiro solo que foi feito e de repente vocês gravaram e aquele era o solo definitivo, quer dizer, quem está ouvindo está imaginando o seguinte, pô, os caras vão gravar um disco, então como é que é a história, chega lá, tudo anotadinho no papel, o sujeito vem aqui, a Rhaíssa ouviu, ela canta três, quatro, cinco, seis vezes para acertar, vem o cara da tuba, experimenta, ensaia, dá cinco, seis, sete takes, então eles vão pegar o que tem de melhor para montar o disco e não é bem assim, não é? De repente foi o primeiro take que era para ser o mais ruim, era o melhor de todos e é impossível ser reproduzido depois porque tem alguma coisa aí do talento, como é que essa coisa funciona?

Janjão            Essa coisa funciona no susto, ficou valendo esse solo por acaso, porque eu saí gravando, enquanto ele ia ouvir a música pela primeira vez, eu saí gravando.

Luciano          Vamos ouvir.

Quem que é ele?

Daniel            Eliézer Tristão.

Luciano          Eliézer Tristão, que disco é esse?

Daniel            Mas ele é muito alegre, é um cara muito alegre, gente boa…

Luciano          Que disco é esse?

Daniel            Eliézer Tristão.

Rhaíssa         É do disco “É Natal”.

Felipe             É um projeto que a gente tem que chama “Panela Apresenta” e tem vários temas, o primeiro que a gente fez foi o “É Natal”.

Luciano          Foi aquele que eu fiz um programa de natal especial só com ele, está certo.

Felipe             Vão achar que a gente paga jabá para você.

Luciano          A turma que ouve o Café Brasil sabe o seguinte. Eu falo mesmo, quando eu curto as coisas eu faço questão de trazer porque para mim é uma satisfação gigantesca, eu encontrar algo que pode ser legal e divulgar para as pessoas, eu fiz um programa recente lá sobre o Postmodern Jukebox, uma banda que eu acho na internet, acho fantástica e vem aqui, faço o programa inteirinho com ela e acho um tesão quando os caras me escrevem: pô eu nunca tinha ouvido, que legal. Eu estou cumprindo um papel ali de esparramar coisas legais que eu estou vendo, conosco é a mesma coisa, então… depois o jabá lá fora a gente acerta.

Janjão            Não só o imponderável do solo, certo? Mas do momento que eu tive a presença de espírito de gravar, porque eu poderia ter passado simplesmente o som, ele tinha feito aquele solo maravilhoso e a gente ia ficar com um solo muito bom, mas não era aquele, então acho que isso acontece muito em música se nível está mais ou menos de gravação, é melhor a gente correr o risco, eu não  lembro bem a primeira pergunta que você tinha feito…

Luciano          Não eu falei sobre essa tua contribuição de na frente de um botão, você bota uma emoção que é a que ele pediu para você.

Janjão            … então, mas eu acho que aí é que está, eu me coloco como um tradutor da ideia que ele tem na cabeça, eu tento colocar para todo mundo aquilo que ele imagina de som, nem sempre eu acerto, mas a coisa é o seguinte: ele me fala, ele me dá a ideia, ele diz olha, eu penso numa coisa assim e aí eu tento, com os recursos que eu tenho, certo? Chegar o mais próximo daquilo, então é fazer isso…

Luciano          Janjão, som é som, som é barulho.

Janjão            … não, não é bem assim…

Luciano          que história é esse de conseguir?

Janjão            … mas todo mundo tem um som dentro da cabeça, uma mixagem tem o dia dela, se eu mixo,  já aconteceu isso, na época que não tinha automação, hoje você recupera, você chega e diz olha, aquela mix não ficou legal, eu queria subir a voz. Você vai lá no computador, abre, ela está igual e você sobe a voz. Antigamente não era assim, a gente tinha que fazer na mesa e eu já mixei a mesa música um dia, dois dias  depois mixei e ela soava completamente diferente, porque eu estou num momento diferente e estou ouvindo diferente, só que agora a música não é mais nova, eu já conheci a música, então ela fica diferente, não quer dizer que é melhor ou pior a mix, ela é diferente.

Luciano          Se você estiver de bom humor, sai diferente.

Janjão            Sim, sai diferente.

Luciano          Me dá o gancho, eu fui, joguei futebol de salão que nem um louco quando era moleque e eu jogava no gol, era goleiro de futebol de salão, tinha dia que eu saia do jogo, meu joguei pra cacete, eu peguei tudo, por que que eu não pego sempre assim?  Por que que não  é sempre assim, porque eu não arrebento como eu arrebentei? Tem dia que eu estou super bem e tem dia que eu não estou legal e eu não conseguia entender isso, falava o que que é isso? Será que foi alguma coisa que eu comi? O que é? Você acaba de me falar isso, quer dizer, depende do dia que eu cheguei eu fiz de um jeito. Como é que se canta assim? Tem dia que você vem gravar e aí? Na hora da gravação, agora é a hora, esquece tudo que está lá fora, entrei aqui dentro e me tranquei e vou ser a melhor de todas e eu complementando essa pergunta, eu vou usar um pouquinho do que eu ouvi uma vez a Bibi falando dizendo que ela é uma atriz, quando ela sobe no palco não tem mais Bibi Ferreira lá, tem uma persona que ela encampa e aí não tem mais dor de pé, dor de cotovelo, ela vem e arrebenta para sempre fazer o melhor possível lá. Eu tentava fazer isso como goleiro e não dava certo, eu tomava os gols, como é que é compondo, como é que é? Como é que funciona isso no universo de vocês?

Rhaíssa         eu tento, eu tento esquecer todos os problemas para poder passar emoção, porque desde criança eu ouvi minha mãe falando, que a gente passa aquilo que a gente está sentindo pela voz e ainda mais ao vivo, mas você falando de estrutura de unir talentos, de unir pessoas que saibam um determinado, uma fatia daquele trabalho é muito importante para você poder fazer seu trabalho, se tiver um dia que o Daniel não está bem, o Janjão vai ser mais complicado, um dia que o Janjão estiver bem, vai ser mais complicado para a gente e aí, que nem, um disco, para a gente fazer um disco, tem muita gene envolvida e eu brinco que é um trabalho sem fim, porque cada vez mais vem mais profissional trabalhar com a gente para poder divulgar o trabalho, então a primeira etapa começa no estúdio, nesse CD, o “Matéria Estelar”, brinquei que aqui só tem megalomaníaco porque chegou o Daniel com a ideia de…. nem lembro de quem foi a ideia.

Janjão            Começou que o Daniel queria alugar uma sala que tem aqui em São Paulo, que é uma sala com equilíbrio acústico muito bom e a ideia, não, vamos alugar a sala do antigo estúdio Cardan, uma sala bacana para a gente gravar ao vivo, sala toda em madeira…

Rhaíssa         Para gravar todo mundo junto, todos os músicos.

Janjão            … é, gravar todo mundo junto, que a ideia do disco era essa no início, gravar todo mundo junto.

Luciano          Que faz toda a diferença, não é? Todo mundo junto.

Janjão            Faz toda a diferença.

Daniel            Sim, aquela preocupação do objeto realmente ter vida, ter emoção, se eu colocasse um clique ali e os músicos fossem atrás, já ia ter uma…

Felipe             Uma alimentação emocional

Daniel            Uma alimentação emocional, exatamente, então o disco não tem clique, a gente gravou o máximo que a gente conseguiu todo mundo junto, foi gravado.

Luciano          O que é clique?

Daniel            Clique é metrônomo que dá um ritmo, hoje em dia o pessoal põe um metrônomo lá que fica pi pi pi pi e o cara sai tocando naquele andamento.

Rhaíssa         O mais comum hoje é as coisas ficaram mais acessíveis, tecnologia, então você põe um clique e aí você grava primeiro um instrumento, depois outro instrumento e assim você vai arrumando o arranjo, colocando todos os instrumentos e aí veio essa ideia de gravar todos, para esse disco em especial, todos os músicos juntos para justamente não ter esse clique, alguns…

Daniel            Por isso que eu queria alugar a Cardan lá.

Rhaíssa         … é, alguns momentos teria a música seria mais rápida, outros não e isso ficaria por conta dos músicos ali ao vivo para dar essa noção.

Janjão            Então, mas voltando o negócio da sala, só para dar uma ideia geral, eu conversando com o Dani eu fali, Daniel, se a gente vai alugar um lugar vai ter um momento em que a gente vai ter que correr contra o tempo, porque você está gastando dinheiro e aí tem uma hora que a gente não tem um saco infinito, ele vai acabar, então para não acontecer isso, vamos investir o dinheiro que ia gastar nessa sala do aluguel na nossa sala de estar, transformando ela numa sala de gravação, porque aí a gente tem tempo para dedicar á música mesmo que tecnicamente não seja perfeito, mas é melhor que para a música seja melhor.

Luciano          Só para o pessoal entender, eu estou numa sala, dentro de uma casinha, na Vila Madalena, em São Paulo e é uma casa que devia ser residencial isso aqui um dia, foi uma residência que foi transformada aqui num estúdio, então quando o Janjão fala de uma sala de estar é realmente, é uma sala de estar normal que e repente vai ser transformada numa sala de gravação.

Rhaíssa         Olha só onde vai a imaginação, a megalomania.

Janjão            Mas acho que apostar nesse tipo de loucura é muito legal, porque depois, quando terminou o disco da Rhaíssa, já fizemos outros discos aproveitando essa sala, então, ou seja, não é aquela coisa que evaporou, aquele dinheiro que sumiu, então é um dinheiro que a gente empregou, que está aqui, que eu trouxe para mim uma responsabilidade terrível, porque eu tinha uma sala de estar que eu podia fazer o tratamento apenas no teto, eu não podia revestir as paredes, então foram noites de sono ruim, sabe, porque assim, eu não sabia o que é que ia acontecer até o momento da primeira gravação, porque por melhor que você aça todos os cálculos, faça tudo, tem o imponderável também na sala, ou seja,  o marceneiro não fez aquilo que você pediu, ele enganou, botou ali, você não viu e na hora de ouvir não dá muito certo, inclusive no dia da primeira gravação tinha uma parte da sala que não ficou legal e a gente correndo, eu dimensionei, Daniel preciso fazer umas coisas assim, a gente fez e colocou na sala e resolvemos o problema.

Luciano          Quantos músicos vieram para o dia da primeira gravação?

Janjão            No primeiro dia, a primeira gravação, sem testar nada, sem saber o som da sala, sem saber se todas as soldas de todos os cabos estavam boas, 17 músicos, mais a Rhaíssa para fazer voz guia.

Luciano          Era a Spock Frevo Orquestra

Rhaíssa         Começamos assim a gravação desse disco pouco megalomaníaco, porque começou com a história de vamos transformar a sala de estar em estúdio, vamos chamar uma big band, vamos chamar a Spock Frevo…

Daniel            No final a gente chamou duas big bands. Tem Spock e tem a outra que foi comandada pelo Proveta, grande…

Luciano          Bom, você que está ouvindo aqui quiser entender do que nós estamos falando, tem o link depois que eu vou colocar no programa aqui, lá no portalcafebrasil.com.br, você pode assistir como foi a gravação aqui, vocês botaram uma câmera aqui e mostraram, foi muito legal, aquilo lá é bem legal. Mas que interessante, isso que vocês estão contando é muito legal, ainda bem que vocês têm dinheiro para fazer isso, vocês estão cheios da nota, não é? Fácil fazer com dinheiro, não é?

Felipe             Milhões de dólares.

Luciano          Como é que é isso?

Daniel            É uma loucura, a gente tira, como é que é? Tira o cobertor… não tem um lance assim? Como é que é essa expressão?

Luciano          Cobre a cabeça para descobrir o pé.

Felipe             Exatamente, é meio isso, a gente vai vivendo assim, é engraçado isso, hoje tem uma demonização da publicidade, por exemplo, existe uma coisa que a publicidade é um mal, a minha opinião sobre a publicidade é que é o meio de comunicação mais honesto que existe, porque todo mundo sabe que é o dono do negócio falando que o negócio dele é bom, então ou seja, o professor de história que está lá ensinando um monte de bobagens, não está falando que tem uma coisa por trás dele, o cara que escreve um livro super, ele não está falando que por trás tem toda uma ideia, o cara que faz um filme de Hollywood, ele não está contando isso, mas a propaganda todo mundo sabe que é a voz do dono e a propaganda para a gente é muito legal, porque a gente vive disso, a publicidade é uma coisa forte para a gente e é meio que… a gente é maluco, ao invés de embolsar essa grana ou de pedir para o governo, a gente gasta nas nossas coisas e assim, às vezes está lá, é aquele rio que vem, às vezes ele dá uma represada, você fala ih caramba, agora como é que vai ser? Mas é o risco que a gente aceitou correr pela causa, para fazer coisas que agente gosta e não dependesse dos outros, a gente quer fazer um trabalho bom, é aquela coisa da vocação de novo, você quer se expressar de alguma forma, do melhor jeito possível e para isso quanto menos você depender, claro, a gente busca apoio e coisas assim, mas a gente não é contra ter apoios financeiros, mas como a gente é muito pequeno, a gente não tem, então a gente usa isso, a gente vai fazendo a “publiça”, ganhando o nosso dinheirinho e gastando tudo com big bands.

Daniel            Mesmo nas produções publicitárias, por exemplo, a gente gasta verba de produção chamando músico para o estúdio, entendeu? A gente gosta de agregar pessoas boas ao trabalho e para todo mundo trabalhar, todo mundo ganhar o seu cachê e o negócio girar, eu e o Felipe, a gente não tem muito aquele pensamento de muitos produtores de segurar tudo no estúdio, vou gravar tudo com máquina porque muitos clientes não percebem a diferença e não percebem mesmo, tem muito cliente que tanto faz se é trompete mídia ou um trompete de verdade, mas a gente até para a gente curtir, para a gente já é tudo tão difícil, não, a gente quer  fazer o nosso trabalho, pelo menos nosso trabalho vai sair direito, então a gente costuma chamar as melhores pessoas para fazer a música para o sabonete ou para pasta e dente, seja o que for e isso é divertido e também nos dá calo, porque você… eu sempre uso essa expressão, você aprende a usar martelo e prego, parafuso, alicate para fazer a cadeira que te encomendaram, quando você vai fazer a sua cadeira, são as mesmas ferramentas que  você vai usar, então você já aprendeu antes, fica mais fácil para você fazer.

Felipe             E a publicidade você tem que fazer muitas coisas muito diferentes, você tem que se arriscar e às vezes não dá tempo de você ter estudado tudo aquilo sobre, sei lá, que seja big bands, é uma coisa que a gente gosta, a gente ouve muito, então tudo bem, mas vamos supor que caísse uma big band, fazer uma coisa, a gente vai ter que ir lá aprender a fazer aquilo em uma semana e aí de repente você começa a ter repertório de produção, de como que se fazem as coisas e quando num disco pinta uma ideia, você já sabe como fazer isso de uma forma um pouco mais… você já fez, já passou por aquilo, não é  a primeira vez que você está…

Daniel            E o produtor não é aquele cara, a banda de um homem só, não, ele chama…  eu não sei tocar clarinete, nada, ontem a gente pegou um clarinete, não sai nada  e então a gente chama quem sabe tocar, quem sabe tocar acordeom, quem sabe, eu não vou nem arriscar pegar um clarinete lá e programar um clarinete horrível no midi, ridículo, então a gente chama as pessoas que vão agregar valor, aquela música vai ficar muito melhor, ele trabalhou porque ele vive disso também, o músico trabalha, vem aqui, ganha o seu cachê e a gente… eu acho que é um jeito legal de criar um círculo virtuoso.

Luciano          É aquilo que a gente falou no começo aqui, quer dizer, aquele tal solo que era aquele solo, se fosse um solo programado, ele seria igual àquilo o resto da vida.

Daniel            Então, essa coisa de  vários músicos no estúdio, uma coisa legal, o Proveta mesmo fala isso, ele sempre… cada músico tem a sua história de vida ali, dedicada ao instrumento também e para tocar, por exemplo, a Adaga, que foi uma música do disco, a gente trouxe o trio do Ricardo Herz, que é o Ricardo Herz no violino, Pedro Ito na bateria e o Mirri no violão, é um trio fantástico e…

Luciano          É frequentador do Café Brasil

Daniel            … um trio fantástico e o Pedro Ito foi o baterista da maioria das músicas do disco que é um baterista que eu adoro assim, acho um cara sensacional, muito criativo, eu sempre gosto de trazer ele no estúdio porque ele entra aqui, tem uma música chinfrim às vezes que você fez, ele transforma um negócio fabuloso porque ele enriquece qualquer música assim, você vê, puxa a música não era tão ruim, faltava o Pedro Ito, mas aí tem a Adaga por exemplo, dá para a gente fazer um pedacinho, eu não vou tocar o violão do Mirri nem perto, mas…

Rhaíssa         Essa história é dramática.

Luciano          Mas que grande sacada, uma adaga que se apaixona pelo coração do rei.

Daniel            Essa aí eu pedi, Felipe, faz uma música para o disco.

Felipe             Então, aquela história que a gente estava falando, o Daniel ele consegue fazer na adversidade, eu com dois filhos pequenos agora, eu estava ainda nesse momento pessoal  que é complicado, pela coisa em si, a minha filha estava com dois,três meses e o disco acontecendo e eu vindo aqui, pô querendo um pouco participar aí o Daniel viu a minha angústia, ele falou não, você vai fazer uma música, aí eu me tranquei aqui no estúdio B e falei, então ninguém fala comigo dois dias, é isso, você precisa do isolamento e aí já era uma música que já estava na minha cabeça, eu comentei com ele, o Daniel, generoso que é, ele falou não,  então vai lá e faz. Ele sabe que eu preciso de um tapa na bunda e aí eu me tranquei e fiquei e foi sofrido, foi uma música dramática para mim também, porque justamente por esse momento e eu falei pô, eu preciso fazer, o disco estava ficando lindo, impecável, e eu falei pô a minha contribuição não posso fazer e aí quando eu acabei a música assim, aí eu chamei o Léo, que é o nosso, não sei se ele vai ficar bravo que eu vou falar, aí quando eu mostrei, eu cantando, daquele jeito bem safado lá, eu falei Léo vem aqui, eu acabei eu acho e tal, aí quando eu vi ele assim, o cara estava parecendo uma criança, chorando assim, aí eu falei, eu acho que deu certo, falei acho que funcionou, aí eu saí de lá e falei Daniel, acho que temos uma música, aí ele veio e ainda veio com esse trio que é, eu sempre fui fã e o Daniel é mais cara de pau e ele liga para os caras e fala pô vamos ai, e os caras toparam, aí ficou incrível.

Luciano          E a Rhaíssa detona. E aí?

Rhaíssa         Puxa, foi o maior, essa música ela é bem dramática, foi bem difícil de…

Daniel            Foi a primeira música mais grave do disco e depois chegou o Maurício Pereira com uma mais grave para você.

Rhaíssa         Teve isso ainda.

Daniel            Ele pediu para abaixar o tom, isso é uma coisa legal de falar, que foi um episódio muito legal do disco que eu lembrei agora.

Rhaíssa         É a música da pedra, que foi composição do Maurício Pereira, ele deu a letra para a gente, a gente compôs, eu e o Dani, a gente fez a música e aí o Maurício, aí a gente mostrou para o Maurício ele falou ah, vamos “se juntar”, ai ele me deu uma aula de interpretação, porque o Maurício ele tem essa história de ser cantor ator e tal, então…

Daniel            Ele adorou a música, falou adorei, achei ótima, agora baixa três tons, aí a gente baixou o tom da música…

Luciano          Para ele?

Daniel            … não..

Rhaíssa         Para mim.

Luciano          Para você.

Daniel            … para ela, ele falou eu quero que você cante grave agora.

Luciano          Rhaíssa, você vem então com essa história de ser a cantora e etc e tal e o destino você sabe como é que é, o universo vai conspirando a nosso favor e de repente você está aqui, casada com o sujeito que é o dono do estúdio e amiga de não sei quanto tempo do outro e de repente tudo conspirando para que essa coisa funcione e de repente você já não é mais aquela independente dando murro em ponta de faca, já tem uma estrutura aqui. Como é que é isso?

Rhaíssa         Ah, a gente estava papeando sobre juntar talentos e cada um no seu quadrado para construir algo, um projeto precioso, pelo menos tentar e aí eu estava pensando que eu dei a sorte de encontrar, de me juntar com a Panela e a gente se completar assim, de conseguir, de a gente se dar bem e conseguir construir um trabalho, porque o mais comum hoje, a gente está falando de empresários, tem muitos artistas independentes, os cantores independentes que se viram nos 30 assim, faz  parte de todos os quadrados, porque assina papel, vai cuidar de editar a sua própria música, grava, é produtor, é músico, toca todos os instrumentos, tem artista, tem realmente cantor que faz de tudo assim, até a Lulina, que é uma cantora de Recife, ela gravou sei lá quantos discos sozinha, pôs na rede aí depois gravou o primeiro disco dela gravado em estúdio, então o que mais tem por aí são esses artistas que fazem o seu próprio produto, que fazem lá o seu próprio vídeo e cuidam do processo inteiro, geração Y que edita vídeo, grava, canta, assina papel, faz tudo ao mesmo tempo e com a  história da indústria fonográfica não ganhar mais dinheiro, de não vender mais disco, então você não tem mais aquela estrutura fixa, tem artista de tudo quanto é jeito criando de tudo quanto é forma assim, não tem mais receita, ah você grava aqui seu disco nessa gravadora, vai tocar nas rádios tal, não tem mais isso.

Luciano          Não, nós estamos vendo um monte de histórias ai de gente que de repente bota um negocinho ali no Youtube, com uma camerazinha e explode aí, nós falamos na hora do almoço, a gente não falou sobre isso ai? Quer dizer, é tão fácil hoje, do ponto técnico você produzir…

Rhaíssa         É tão acessível, não é?

Luciano          … que as  pessoas acham que qualquer um pode fazer, não é? E aí é o piloto que interessa.

Janjão            Exatamente é o que a gente estava falando que sempre a eficiência da máquina vai depender do seu operador, então era isso, porque é que nem o pato, que é um animal que nada, anda e voa, mal as três coisas, então eu acho que as pessoas têm que procurar quem sabe fazer melhor do que ela aquilo para ajudar, sabe, eu acho que isso é que é ser inteligente, ou seja, você chama, disso aqui eu não faço direito. Então quem é que faz? Fulano. Aí ele sabe mais do que eu, tem um cara que andou fazendo isso, um tal de Jorge Lucas e deu certo o negócio dele…

Luciano          Tem um filminho dele aí.

Janjão            … é, exatamente, ele chama essas pessoas, ele tem essa ideia…

Luciano          Que tem a ver com o baterista que entra aqui, pega a tua musiquinha meia boca e vira uma coisa.

Felipe             Isso é uma das coisas que o Daniel sempre fala, a Panela não pode ser nós dois, a Panela é o mundo, é quem a gente, quem é? Vamos fazer um frevo? Vamos chamar a Spock, vamos ver o que acontece, liga para eles. Normalmente esses caras muito bons, eles estão ansiosos por coisas boas, coisas legais, então acaba acontecendo e a gente fica, até a gente fica assim, caraca! Maurício Pereira fez uma música comigo, o Maurício Pereira que no mergulhar da surpresa fiquei encantado com ele e sou fã desde os 12 anos, do “Mulheres Negras” e de repente o cara é meu parceiro, então assim, as coisas acontecem porque as pessoas querem e se você chamar alguém mais legal que você, vai ficar melhor, óbvio que vai ficar.

Janjão            Eu lembrei de uma coisa, no primeiro disco da Rhaíssa, o Daniel,  na  escada, eu estava na sala, quando a sala ainda não era estúdio, eu estava na sala lá embaixo e ele apareceu na escada e disse, pô, estou precisando de um cara para tocar clarinete, eu disse o Proveta. Ah o Proveta…

Luciano          Proveta é o Nailor Proveta.

Janjão            … é o Nailor Proveta, eu disse espera ai, peguei o celular e liguei para o Proveta, que afinal de contas eu sou um técnico da antiga, então conheço as pessoas, liguei e disse olha, tem um produtor querendo gravar mas ele não acreditou, então fala aqui com ele, eu apresentei dessa maneira o Proveta e o Proveta ficou da casa, veio tocar no disco e depois veio fazer propaganda com a gente, publicidade, na boa.

Daniel            Eu acho que o segredo é você tratar as pessoas com respeito, honestamente, você abre o jogo, você tem o cachê para pagar, você tem que pagar o melhor que você puder, porque são caras que merecem o trabalho que eles estão fazendo é um trabalho especialíssimo assim, então eles merecem ganhar e eu acho que esse tipo de honestidade é importante nessa relação e você é uma mão lavando a outra e pronto.

Felipe             No bom sentido.

Luciano          Está vendo como você não é aquele empresário vampiro, que ia chupar o sangue, explorar.

Felipe             A gente sempre fala isso, pô o cara é amigo, vamos chamar e não vamos pagar? É justamente por ser amigo que você quer pagar.

Luciano          Acontece comigo, pô Luciano, você queria fazer uma palestra para mim aqui? Nós estamos sem grana, pô amigo me chama para pagar, não é para não pagar, porque sou seu  amigo vou fazer de graça?

Daniel            Outra contribuição importante, por exemplo, no disco é… hoje a gente falou bastante de som aqui, até por ser um podcast e tal, mas a gente trouxe o Jum Nakao para fazer a parte gráfica do disco que ficou lindo, quem quiser ver, pegar no link, vai ver que realmente ficou muito bonito.

Luciano          Eu vim aqui no dia que vocês fizeram a audição e o Jum estava aqui e estava aqui mostrando o que ele fez, os objetos estavam aqui, quer dizer, tem todo um conceito

Rhaíss           É a história, o que a gente não sabe, a gente chama quem sabe para fazer, porque se não o projeto fica do nosso tamanho e ele tem que ser maior do que a gente.

Daniel            E a nossa paixão acho que acaba envolvendo as pessoas, as pessoas se apaixonam também, como você, como o Janjão, como você, como o Jum.

Luciano          E não é à toa.

Daniel            Isso é muito legal para a gente, porque a gente vê que é um caminho.

Luciano          Bom, dá para ficar aqui até o mês que vem falando, mas tem que terminar, então a gente comentou aqui, vocês sugeriram, que música vocês estão sugerindo para a gente terminar?

Rhaíssa         A gente pensou em terminar com A lista…

Luciano          Que conta a história?

Rhaíssa         … que conta a história de uma lista telefônica que sua aí pelo caminho, coitada, desempregada, ninguém mais usa lista telefônica, alguém aí usa lista telefônica? Se tiver eu quero saber viu? Porque pouca gente usa. E ela sem utilidade está aí falando aí sua história.

Luciano          Então como a gente vai partir para o final em cima dela aí, deixa antes disso eu queria agradecer a vocês por…  vocês não vieram para o Café Brasil, o Café Brasil veio até a Panela, foi muito legal…

Rhaíssa         Que honra a nossa.

Luciano          … imagina. Muito obrigado. Quem quiser entrar em contato como é que é?

Felipe             Então, a gente tem o Facebook que é Panela Produtora.

Rhaíssa         Panela Produtora

Felipe             Então espera aí, volta tudo, a gente tem o Facebook que é Panela Produtora, a gente tem o nosso site que é pane.la e a gente tem as redes sociais, Twitter..

Rhaissa          Instagram

Luciano          O disco está a venda?

Rhaíssa         O disco nas melhores lojas do ramo.

Daniel            Inclusive uma nova agora que é muito boa, virtual que chama store.pane.la.

Felipe             Nós entramos no ramo do varejo agora, então temos também a nossa lojinha da Panela, store.pane.la que não só o disco da Rhaíssa como todos os discos da Panela, todos os quatro, por enquanto, esse ano já tem alguns, temos no Itunes, Spotfy, todos esses lugares já tem e todos os discos da Panela e continuará tendo.

Luciano          Tem um canal no Youtube?

Felipe             Canal do Youtube é Panela Produtora e o canal do Youtube é legal, a Panela, a gente, a Rhaíssa é nossa artista principal, mas a nossa  ideia é ser um agregador de talentos e é um selo nos moldes dos selos americanos  que o selo também tem aquela coisa, a gente não quer buscar o cara que vai dar uma puta grana,  claro que a gente quer, mas é que normalmente o que a gente gosta não dá grana então não dá certo, mas a ideia é buscar pessoas que a gente acha com muito talento que às vezes estão aí por aí e a gente… mas sempre passando  pelo nosso crivo, então seria isso, um agregador.

Luciano          Parabéns a vocês, Janjão, obrigado por me aproximar dessa turminha aqui viu, vai ter mais, vai ter mais.

Transcrição: Mari Camargo