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Ciça Camargo -

Luciano          Mais um LíderCast, deixa eu contar algumas coisas aqui, só para contextualizar essa nossa conversa aqui. Eu cheguei em São Paulo em 1975 para fazer a minha universidade e era uma época interessante porque eu me formei em 77, aí fui trabalhar com meu próprio escritório de criação etc e tal, e era uma época que estava nascendo uma coisa que chamava FM e São Paulo e tinha umas coisas legais acontecendo e de repente a Jovem Pan botou uma FM teste no ar,  que talvez tenha sido uma das coisas mais fantásticas que eu já vi na minha vida porque era uma rádio que foi ao ar sem ter nenhum compromisso com nada, ela foi para testar, então tinha músicas fantásticas, programações fantásticas e o rádio ainda tinha uma posição muito forte na vida da gente e culminou isso tudo em 77, 78, 79 onde a parte esportiva na rádio, Corinthians ganhando aquele campeonato depois de vinte e tantos anos, a Jovem Pan aquela loucura e um programa fantástico chamado Show do Rádio que fazia… Show de Rádio não é que fazia a cabeça da moçada toda no dia a dia, era um programa de humor, tudo aquilo que você, garotão que está ouvindo aí, que você está vendo na televisão, “pra lá e pra cá”, esses pânicos da vida, essas coisas, isso aí já tinha naquela época, já era super bem feito. Uma equipe fantástica, uns imitadores, então era um negócio maravilhoso aquilo e fazia a cabeça da gente, tinha hora marcada para a gente parar para ouvir aquele programa, isso é uma primeira situação para contextualizar, então eu era “fãzaço” daquilo e curtia aquilo de montão e ponto. Bom, anos depois, isso deve ter sido o que? Em 99, 2000, alguma coisa assim, eu fui convidado para fazer uma palestra num evento de uma empresa de papel e chego lá para fazer o evento, vou lá, faço a minha palestra, terminou a palestra, aquela zoeira toda e surge um cara no pé do palco, um sujeito barbudo, cabeludo, chega para mim, me chama, vou na beira do palco, ele vira para mim, me dá a mão e fala exatamente assim: “eu não sou muito de elogiar as pessoas, mas você é muito bom no que você faz”. Esse cara virou as costas e foi embora, depois eu fui descobrir que esse cara era o entrevistado que eu tenho comigo aqui e que também é um dos caras que estava por trás daquele Show do Rádio lá naquela época que fazia a minha cabeça, eu não sabia direito eu fui descobrir depois com amigos comuns e tudo mais e então já tenho uma conexão nossa aí desde 40 anos atrás. Embora a gente tenha se encontrado pouco nesse tempo todo, para mim é muito legal estar com você aqui eu espero que a gente faça aqui uma troca de ideias nutritiva. Vou fazer então as três perguntas mais difíceis do programa, presta atenção para não errar. Eu preciso saber como é seu nome, sua idade e o que é que você faz[

Roma             Luiz Henrique Romagnoli, eu tenho 58 anos eu não faço a menor ideia de qual seja a minha profissão, não sei o que eu vou ser quando crescer.

Luciano          “Tá” bom. Você crescer mais que isso não cabe aqui, você está grandão.

Roma             Agora a fase é de concentrar esforços.

Luciano          Então. O Roma é uma figura super conhecida no meio do rádio brasileiro, no meio da propaganda de rádio, no meio da… bom, ele tem uma história longa que nós vamos contar aqui e eu quero voltar lá atrás, Roma, você vem de onde?

Roma             Eu nasci em Marília, mas só para dourar a minha biografia, porque meus pais já estavam em São Paulo, eu nasci nas férias, então fui lá nascer perto da vovó, mas eu já estava em São Paulo, já morava em São Paulo, então essa parte foi só para ter um lugar.. ah sou do interior e tal, visitei mais em férias do que exatamente no tempo que eu nasci, eu sou paulistano e enfim, em 75, quando você estava indo  para a sua faculdade, eu estava indo para a minha, eu fiz comunicação na ECA…

Luciano          E eu estava fazendo comunicação no Mackenzie.

Roma             … olha só. Logo depois eu já comecei a trabalhar em jornal, primeira coisa que eu fiz foi jornal, apesar de desde então gostar de rádio, eu fui trabalhar na sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo, Jornal do Brasil que era dos grandes jornais do Brasil, desculpe o pleonasmo, na época disputando com a Folha, com o Estado, com o Globo, mas era considerado o grande jornal, a referência da política, da economia no Brasil com grandes caras, aprendi muito, aprendi fantasticamente. O rádio entrou razoavelmente por acaso, porque em 1980 eles abriram uma rádio em São Paulo, chamada Rádio Cidade e o chefe do JB, na época eu não era registrado, eu não tinha me formado ainda, até porque naquela época a ECA fazia greve que era uma beleza, a gente queria derrubar a ditadura a cabeçadas. Mas enfim, eu consegui um emprego registrado que foi na Rádio Cidade. Eu já tinha o contato com o Serginho Leite, no Show de Rádio, eu entrei no Show de Rádio, na verdade, depois que o Sangirardi, o autor, o criador, depois que ele morreu, que ai o Serginho ficou com a marca, a família fez questão que o Serginho Leite, também falecido, ficasse com a marca e ele me juntou, eu falei vamos fazer, vamos botar de pé, você escreve, vamos lá e aí eu passei a ser um sub Sangirardi escrevendo e dirigindo, mas o começo foi na Rádio Cidade, que foi a primeira das grandes rádios jovens FM, foi o primeiro estouro de audiência, coincidindo com uma época em que o jovem era um estouro de audiência, nos anos 70 de verdade desembocou aquela coisa do flower power, do paz e amor, desembocou nos anos 70 bastante confuso, mas em 80 o jovem já existia, o jovem já era principalmente mercado, ele já tinha voz e ele já tinha espaço, aí já teve que fazer mídia para ele, teve que fazer loja para ele, teve que fazer tudo para o jovem e o jovem passou a ser, como ainda é hoje, um personagem importante dentro do planeta.

Luciano          É interessante, com esse teu vozeirão aí eu achei que você tinha vindo de rádio, falei deve ter testado o rádio lá no interior, veio para cá…

Roma             Pois é…

Luciano          … que é a história de 99% dos caras de rádio que eu trago.

Roma             … exatamente, cara do rádio normalmente ele foi, como diz o Zé Paulo de Andrade, ele começou como pentelho de rádio, aquele cara que vai no estúdio, que vai pegar prêmio e fica ligando e vai lá tentar fazer alguma coisa, aí acaba, de tanto que aquele chato vai, ah faz uma coisa aqui, fala um negócio aqui,  escreve um negócio e quando vê já virou radialista. Meu caminho foi paralelo, eu comecei no rádio do lado de trás, eu era redator na Rádio Cidade, a única coisa que eu fazia no ar era com o irmão do Serginho Leite, o Paulo Leite, o Velho Milk, a gente fazia um negócio chamado Partido Nostálgico Televisivo, que eram imitações de séries antigas e que acabaram depois voltando todas, porque não se fazia nada muito melhor na época, então a gente fazia imitação, a gente fazia umas graças e tal, foi aí que eu conheci o Serginho Leite, que também passou um tempo na Rádio Cidade e depois foi todo mundo para a Jovem Pan e aí em 81, a Jovem Pan foi o grande estouro de audiência em São Paulo, numa época em que era uma referência para o jovem, porque não havia, para você ter uma ideia, você que está ouvindo, não havia MTV ainda, meus queridos, então a referência do jovem era a Rádio Jovem Pan, primeiro a Cidade, rapidamente, depois a Rádio Jovem Pan, tanto é que quando foram lançar uma revista de rock chamada Revista Bizz, o editor foi lá até a Jovem Pan, chamou o Serginho e a mim e falou escuta, a gente quer, estamos descobrindo como é que a gente faz, tateando esse publico, então a gente queria vocês dando uma consultoria, a gente acabou ficando lá um tempão também ajudando na Revista Bizz.

Luciano          Muito legal. Foi um período fantástico, aliás a história do rádio no Brasil é uma história fabulosa porque ela é feita de alto, baixo, alto, baixo de novo e agora está indo para um caminho que ninguém sabe direito o que é porque a tecnologia está desmontando as coisas, quer dizer, isso que nós estamos fazendo aqui, um sujeito atrás de um microfone, botando a tua voz que vai ser codificada e vai chegar no ouvinte, não vai morrer nunca, isso é a base do rádio, se vai ter uma torre lá fora, fazendo broadcasting daquilo ou vai ter um fio que vai chegar no computador, ou vai descer no meu Iphone, para mim isso é uma questão de tecnologia, mas eu assisti de perto isso, eu era um daqueles jovens que estava lá absorvendo aquilo tudo, curtindo a música que talvez seja aquele tenha sido um momento em que o Brasil realmente se abriu para o mundo, porque até então era muito difícil, as músicas para chegar aqui, você queria comprar um LP novo, era um dificuldade, não tinha, demorava para chegar, você dependia dos caras que traziam, a pirataria era um negócio institucionalizado não porque era barato, mas era porque não tinha como ter acesso.

Roma             Na fita k7

Luciano          Você dependia de alguém que viajou, que trouxe a bolachona, para você gravar aqui para poder ter acesso àquela música, então essa história hoje de você ouvir o negocinho, ligar o teu aplicativo aqui, baixar… isso, imagina… Se eu quisesse o disco novo do fulano de tal, ou eu esperava chegar aqui, ou ia ter encontrar um amigo do amigo que vinha para São Paulo para comprar aqui, para levar para mim lá em Bauru. Mas eu acho que foi um momento em que de repente a gente começou a ter acesso a tudo isso e mesmo sem ter internet ainda, as coisas começaram a chegar com mais velocidade ao Brasil e mais que isso, a cabeça jovem começou a ditar regra, que até então…

Roma             E tem um espaço aí, porque assim, o disco, ele é uma coisa dos anos 60 basicamente, porque nos anos 50 ainda era uma novidade, 78 rotações e ele veio substituir a música ao vivo, porque o jovem, os nossos pais, eles dançaram no baile, ao som de orquestras, com música ao vivo, aí começou a diminuir, começou bossa nova, depois começou o conjunto de rock e aí a tecnologia trouxe o vinil, o vinil era um jeito de ouvir música mais gregário do que hoje a gente tem, hoje você ouve música sozinho, basicamente você quieto, com seu notebook ou com seu celular, enfim, você ouve música sozinho. E na época não, na época, ouvir disco era um evento, chegou o disco novo dos Beatles, vamos lá moçada ouvir, você vê como a tecnologia, ela acaba também induzindo os comportamentos da gente e rádio também foi isso, o rádio jovem, ele veio num momento em que o jovem queria espaço, que o jovem estava começando a se soltar e veio num momento em que o rádio tinha passado por uma queda muito grande, os anos dourados do rádio se seguiram os anos prateados do rádio disck jockey antigo, daquele disck jockey Rádio Bandeirantes, “Enzo de Almeida Passos lhes diz” e aí o FM veio de novo resgatar e aí também tem uma outra questão, é porque os proprietários de rádio ganharam concessões de televisão e aí eles desidrataram o meio rádio para investir em televisão e aí o rádio que se vire. O rádio enfrentar crise é uma coisa absolutamente normal, é o que eu chamo de as novidades de sempre.

Luciano          Que você veio me perguntar como é que está a crise na rádio, você vai falar bom, eu não sei como é sem crise porque desde que eu conheço está em crise.

Roma             É eu tenho uma palestra assim, o rádio só perde matéria de tempo de crise para o teatro, que está em crise há 6 mil anos, mas hoje o rádio, ele é basicamente linguagem, é isso que a gente está fazendo aqui, que poderia ser num estúdio daqueles maiores, poderia ser numa rádio com antena, de verdade a linguagem do rádio, que é isso que a gente está fazendo aqui, ela permanece em todos os meios, hoje o dono de rádio, ele precisa saber que ele tem que guardar, ele tem que respeitar a marca dele, não o meio, não a concessão, não o rádio no dial, o que ele precisa para sobreviver é que a marca dele seja reconhecida, o que eu digo para o pessoal que me escuta em evento, em palestra, em consultoria e tal é assim: a sua rádio precisa ser muito importante, o caboclo precisa acordar e ter vontade de ligar a sua rádio, se não você já perdeu o dia, porque hoje a concorrência é no rádio, é na televisão, é na internet, é no computador, é no celular e mais um pouco vem aí a internet das coisas, você vai acordar, você vai passar, a sua geladeira vai te cumprimentar, vai dizer que está faltando leite, vai começar a conversar com você, vai tocar uma rádio. Torça, eu digo para os proprietários, torça para ser a sua rádio, porque se a rádio for produzida pela própria geladeira, você está frito.

Luciano          Acabou, é verdade. Você sabe que eu venho de rádio também, mas eu sou um bicho de podcast hoje, então abracei profundamente, acho que ele tem um caminho brilhante para seguir pela frente aí e quando o pessoal pergunta para mim o que é a coisa que eu acho que é a coisa mais importante que eu tenho no meu podcast, a coisa mais valiosa que eu tenho é a minha audiência, enquanto ela for minha, ela for a audiência proprietária, ou seja, quem está ouvindo o podcast não foi o cara que estava sentado ouvindo a televisão e entrou um programa, o meu programa e ele, já que eu estou aqui eu vou ouvir; não foi o cara que ligou o rádio e que por acidente me pegou, é alguém que foi buscar, é um saco, teve que aprender negócio de feed, baixar o programa, parar para ouvir, então tem um custo que o ouvinte paga para estar me ouvindo, portanto só aí já tem uma seleção natural brutal e a coisa mais valiosa que eu tenho é essa minha audiência. Então, eu tenho que fazer com que eu continue sendo relevante para ela e nesse sentido, o resto é tecnologia, quer dizer, para onde ela vai, o que ela vai fazer, isso não importa muito. Mas você sabe que esse programa aqui é um programa que fala de liderança e empreendedorismo, então eu quero buscar um pouco isso em você. Eu sei que você é um cara que há  muito tempo faz acontecer e falar muito a verdade agora, hoje em dia eu tenho meio dificuldade de enxergar o rádio como business, como negócio, o rádio como um negócio, me parece que ele foi, ele foi meio que descaracterizado, ele foi parar na mão de meia dúzia de caras. Tem gente que tem o rádio e se não fosse o rádio, fosse uma padaria era a mesma coisa porque caiu no colo do cara, então aquela história de o profissional de rádio que trata o rádio como um negócio, me parece que tem pouquíssimos, me aprece que virou uma coisa mais de conveniência, mas eu quero voltar lá atrás para pensar o seguinte, quando é que foi que você imaginou que nesta praia daria para ganhar a vida, daria para fazer disso o teu negócio, por que não estar trabalhando como um cara de carteira assinada numa empresa, etc e tal? Essa coisa do empreendedorismo você já tinha, estava na sua cabeça, nunca serei empregado de ninguém, vou fazer meu próprio negócio, como é que é?

Roma             É, de verdade minha última carteira assinada foi de 1982 e mesmo na época, eu já, de verdade eu estou lascado do ponto de vista de aposentadoria, se eu não tiver me cuidando, fazendo alguma coisa, aposentadoria oficial esquece, porque eu tenho muito pouco tempo de carteira assinada, depois que eu fiz Rádio Cidade, Jovem Pan, aí a gente foi para a Globo, fez o F da Globo e um pouco da Excelsior, que hoje é ocupada pela CBN, a gente depois saiu batendo perna fazendo show e o empreendedorismo esteve aí o tempo todo, eu tenho empresa faz 40, quase 40 anos, trinta e tantos anos…

Luciano          A Toda Onda…

Roma             … A Toda Onda, que já se chamou Gemeleco, já se chamou Camarilha e já foram duas, porque ainda hoje tem diferenças de legislação, eu tenho que ter dois CNPJ’s, um porque atende publicidade, então no Brasil o que não é obrigatório é proibido, então essas coisas sempre são complicadas e eu decidi empreender isso na época da Jovem Pan, porque o Serginho era um grande sucesso e a gente começou a vender o programa dele para emissoras do interior. Isso era um horror, porque na época era fita de rolo, quem está ouvindo aí, joga no Google, era fita de rolo, então era complicado você enviar aquilo lá, depois esperar o cara devolver, nem sempre devolvia, então era como negócio, ele parecia meio complicado, tinha uma outra área que dava certo, que eram shows, eventos, tanto é que o Tutinha, o filho do Tuta, o dono da Jovem Pan, ele tinha um excelente motivo, não, não vou pagar um salário bom para vocês porque o dinheiro vocês vão ganhar fora. É um contrassenso, mas enfim isso levou muita gente ganhar um salário baixo durante muito tempo, embalado ou por esse dinheiro extra ou pela fama, ou pelo fato de estar no ar numa rádio de ponta e tal e aí, desde então eu já tive dezenas de formatos de negócio, porque com mais rádio ou com menos rádio, teve uma época que eu fazia mais evento, eu fazia direção, fazia roteiro de vídeo, de evento e essa parceria com o Serginho me proporcionou isso, de sair da rádio e fazer junto com ele evento para empresa e fazer com ele publicidade, e fazer televisão, a gente fez um programa, grandiosíssimo Serginho Leite Especial , com  quatro episódios, que era mensal o programa e foi o antecessor do Casseta e Planeta e… até a gente perdeu todos os nossos diretores, a gente foi dirigido pelo Adriano Stuart, que já foi, a gente foi dirigido pelo Antonio Abujamra, que já foi também e o Fernando Faro que foi recentemente, de quem dirigiu o programa, o único vivo estou eu e ainda assim, mais ou menos. Então sempre teve essa história de empreender, mas num meio muito complicado, muito cheio de altos e baixos, a grande vantagem é que eu insisto nisso até hoje porque eu detesto rotina, eu gosto sempre… o mais gostoso é inventar alguma coisa e aí você vai põe para andar e nem sempre o meu lado empresário consegue fazer com que a empresa siga bacana, se fortaleça e tal, porque eu já estou com a ideia em outra coisa, já estou inventando outra coisa.

Luciano          Eu sei exatamente o que você está falando, porque eu sofro do mesmo mal que você sofre, que tem um lado artístico, aquele lado do produzir, do inventar, pintar e bordar e a última coisa que eu quero é ter que ligar para o banco para resolver um problema no banco, então você acaba deixando de lado e num ambiente como hoje em dia, no mercado, como hoje em dia aqui, se você não tem esse lado empreendedorismo, isso é mortal e eu diria para você que dos problemas que eu tenho na minha vida, 90% são o lado empresarial que é aquele que é mal resolvido porque o lado artístico consome ele todinho.

Roma             Eu sei que existem os caras que são ao contrário, eles são os caras do comercial, os caras do administrativo, mas eu nunca encontrei esses caras no jeito, na quantidade, no local e no tempo que eu precisava.

Luciano          Para te dar a cobertura que você precisava, até porque exige um grau de confiança muito grande aí, a gente tem milhares de histórias de gente que achou que encontrou a pessoa e quando foi ver, tinha quebrado a cara, não é fácil. Mas vem cá, você inventou uns projetos legais aí, trabalhou com um monte de artista, com um monte de gente maluca e em muitos momentos você foi um diretor, você era o cara que estava tocando aquilo adiante lá, quando é que você descobriu que você conseguiria ser o chefe? Ser o cara que ia dar ordem, seria o cara que ia dizer eu quero assim, eu quero assado. Como é que foi isso?

Roma             Sempre no susto, sempre no susto. Quando eu comecei na rádio, na Rádio Cidade, eu não sabia que… eu sabia que a rádio estava contratando, inclusive indiquei algumas pessoas, o pessoal da rádio está contratando e tal. Aí um dia meu chefe me chama e fala, olha, para conseguir te formalizar, te dar carteira assinada e tal, a gente vai te mandar para a rádio, então você vai ter uma  equipe, que aquela outra moça que você indicou, que eu contratei, então você vai ser o chefe dela e não deixa aquela molecada da rádio falar muita bobagem. Mal sabia ele que eu ia falar também muita bobagem naquela rádio, a gente chegou a  sofrer censura na época, censura um pouco mais calma, porque veio, ele  está vivo até hoje, do Delfim Neto, que era, na época, um ministro super poderoso e a gente fez uma  paródia do tempo que você conseguia fazer coisas interessantes com um nível de cultura, de referência bastante mais alto, então a gente fazia, na época do censo, a gente criou um personagem que era Senso, o homem do CENSO e ele chegou para entrevistar uma pessoa, que era a dona inflação, que estava lá no centésimo terceiro andar, 103% por ano, naquela época. E aí em algum momento ele olhava e falava: de quem é esse paletó imenso que está na sua cadeira? Isso aí deu uma certa chamada no saco, mas que foi bem bacana, passou. Então depois disso a chefia veio na Jovem Pan, aí me deram uma turma, pegaram meia dúzia de radio escutas e falaram ó, é essa a sua equipe…

Luciano          O que é radio escuta?

Roma             … rádio escuta é aquele caboclo, é mesmo, joga no Google. Na época do rádio, dos bons tempos do rádio, é aquele jovem que ficava ouvindo outras rádios e anotando notícias, ou ouvindo rádio da polícia, ou ouvindo o rádio do aeroporto, atrás de notícia e caía alguma coisa na mão dele, ele datilografava rapidinho, mandava para a chefia da reportagem que ia mandar, então, um repórter apurar de verdade, ou então virava uma notinha que entrava para o ar, depois de ser razoavelmente apurada.

Luciano          Que é mais ou menos aquilo que você faz hoje em dia aí para botar post no teu Facebook, você fica monitorando o teu Twitter, fica ouvindo, vendo Facebook dos outros, vendo site, aí quando você acha uma notinha interessante, você vai e põe lá, a diferença é que lá havia uma apuração, hoje em dia a gente põe o que quiser e faz aquele compartilhamento maluco lá.

Roma             Exatamente, não tem… É um tiroteio, quando eu penso no jornalismo como era feito no século passado, vão chamar, o que é feito hoje, o que é feito nas redes sociais, é muito mais maluco, é muito mais livre, é mais legal, é mais gostoso, mas é muito mais irresponsável.

Luciano          E exige muito mais de quem está lendo, o leitor hoje em dia tem que ter uma consciência muito maior do que tinha naquela época. Mas deixa eu voltar ali atrás, então de repente você tem lá teus rádio escuta, tem a menina, aquela turma toda, entra um cara na tua sala, com o olho cheio de lágrima, dizendo que ele está com um problema de família e que não sei o que e que ele  vai ter que faltar na semana que vem, ou que ele precisa de um aumento que o dinheiro acabou e de repente você que estava preocupado lá, escrevendo aquele teu texto maravilhoso, você tem que parar aquilo para resolver o problema de um cara que não é teu irmão, não teu parente, não é nada, mas é um funcionário teu que chegou ali e aí? Da onde veio isso? Como é que foi?

Roma             Nessa época da Jovem Pan, felizmente eu não tinha muita injunção, não tinha gerência administrativa, mas eu organizava o pessoal e fazia a coisa correr do ponto de vista jornalístico para a gente, mas eu tive nessa época que demitir gente, eu demiti hoje um dos grandes repórteres e apresentadores da TV que é o Fábio Panúnzio…

Luciano          É mesmo?

Roma             … é mesmo, e demiti porque a gente fazia uma coisa que era engraçada, que era solta e tudo mais e ele não tinha esse humor, ele começava a fazer umas coisas de humor que eram muito pesadas, muito esquisitas…

Luciano          Ele não tem até hoje, ele é sóbrio.

Roma             … exatamente, e aí ele queria entrar na onda da garotada, um cara muito legal e tal e eu percebia, eu testei ele fazendo externas, uma coisa assim e eu cheguei para o chefe da redação, está lá na Jovem Pan até hoje, o Zé Pereira, falei, Zé, eu vou devolver o Fábio para você, mas olha, ele vai ser um grande repórter. Zé falou é? Você achou? Acho que sim. Aí eu troquei de redator e ele imediatamente, mesmo estagiário, já foi, em um mês ele já estava repórter da Jovem Pan e iniciou essa carreira toda.

Luciano          Aliás tem um blog belíssimo, o Blog do Panúnzio é uma daquelas coisas que quando a gente acessa você vê que ele tem uma linha equilibrada, eu gosto muito dele, eu gosto bastante dele, teve que tirar do ar,  nego censurando, porque ele mete a boca e batia e dava os nomes dos bois, eu gosto do Panúnzio,  ainda bem que você demitiu ele lá.

Roma             É, pois é, eu me sinto obliquamente responsável por isso. Então a administração mesmo veio quando a gente montou um empresinha pequena, que precisava gerir essa coisa, show do Serginho, evento e tal, e era uma empresa pequena e na qual aí sim eu tinha que fazer esse papel e eu sempre fui muito liberal, até porque eu não  conseguia ser…há uma gestão típica na área de comunicação que é uma gestão do grito, há uma gestão que vem da época da grossura e que foi muito forte na televisão, então você tem toda uma leva de diretores, os últimos estão indo aí que era um diretor talentoso e grosso, do qual o auge foi o Boni. O Boni é um casca grossa, o Boni é um ogro e ao mesmo tempo um cara super criativo, cara de uma visão de comunicação fantástica, mas o Boni é muito grosso e ele criou uma turma que eram diretores que vinham da estiva, os diretores da Globo eram carregadores de câmera, puxador de cabo e eles foram aprendendo a fazer televisão e não tiveram verniz, a cultura  deles, o aprendizado deles vem muito depois, então eram caras que sabiam fazer, tinham criatividade, tinham visão, mas era uma coisa casca grossa, uma coisa de assédio, que hoje se chama assédio, eu não tinha essa… até porque eu vim de outro canto, com outra origem, eu sempre fui um líder quando eu fui, um chefe, mais liberal e a minha tendência é fazer com que a minha empresa ou local que eu trabalho, vire um pouco um quintal, talvez seja um pouco mais Google nesse sentido, mas também porque eu sei que eu posso exigir desse pessoal, dependendo do trabalho, virar noite, trabalhar horas a fio e tal, então é um pouco mais essa levada de…

Luciano          E essa turma vai fazer isso não porque você paga pra eles o salário, não porque você é o chefe deles, mas é porque eles consideram você um cara legal porque eles estão contigo no barco, porque eles dividem com você esse propósito e portanto, eles são capazes de se entregar um pouco além do que a entrega normal.

Roma             … e aí normalmente tem a questão de da admiração, eles fazem coisas que eles sabem que eu sei fazer e que eu sei analisar como é que está, se está certo ou não. Agora não, agora eu estou nesse momento eu estou com alguns projetos que tem a ver com internet, eu acabei de contratar nesses regimes estranhos que tem agora de trabalho, aparece de vez em quando, quando tem trabalho e tal…

Luciano          É um ficante você contratou, você tem um ficante.

Roma             … é uma garota, tem 20 anos, então a conversa com ela foi muito esquisita, porque eu estava tentando encontrar, estava tentando me encontrar com ela, saber como é que é, levou umas duas horas, a vantagem é que ela ficou as duas horas, conversou e eu acabei entendendo um pouco mais o que que essa menina, que sabe tudo de rede social e tudo mais, como é que ela é. Descobri até que ela é um ser humano, tem problemas, tem família, tem isso e tal e  eu consegui entrar numa certa sintonia com ela, me ajudou muito o fato de eu ter dado aula, dar aula faz com que você saiba se comunicar muito melhor com a juventude, que no fim das contas é com quem você acaba lidando a maior parte do tempo.

Luciano          Que te desenvolve o lado educador que no fim o líder tem essa coisa do lado educador. Deixa eu explorar você um pouco mais nessa tua questão aí dessa forma de liderar, porque é o seguinte, eu também sou altamente liberal, se eu tenho alguém trabalhando comigo, a última coisa que eu quero fazer é cobrança, eu não quero encher o saco de ninguém, eu quero assim, vamos fazer, não me obrigue a ficar pedindo, a cobrar, porque eu sofro, eu acho um saco, eu acho injusto eu contratar alguém para fazer alguma coisa e eu ter que cobrar por essa coisa que a pessoa deve fazer e também sou absolutamente liberal, que hora que tem que chegar? Eu quero trabalha e produz para mim, se precisar chegar às 10, chega as 10. Eu tenho que sair mais cedo, sai mais cedo, eu não vou ficar em cima, não vou ficar com essa cobrança, até porque meu tempo é valioso demais para eu gastar com isso aí tudo. O resultado disso é que eu sofro, eu sofro “pra cacete” e eu acho que você sofre também, porque você acaba desenvolvendo aquela história, eu sou o paizão, pô ele é legal, aí o pessoal não é nem por má intenção, a turma acaba trazendo para essa relação essa coisa de ninguém tem medo de você, o pessoa te respeita, mas não tem medo de você, o pessoal… então relaxa um pouquinho e até por ser ser humano, as coisas acabam e a gente sofre, é assim?

Roma             É, tem esse componente sim, eu lembro que numa época, foi a última vez que a gente colocou Show de Rádio no ar, foi na Rádio Capital, 2006, lá se vão 10 anos, olha que beleza. E a gente fez um esquema muito maluco, porque a Rádio Capital queria o Show de Rádio, mas ela estava negociando com uma equipe de esportes, que era a ESPN na época e que por algum motivo eles não fecharam e a Rádio Capital falou, só o programa não quero, quero se vier uma equipe de esportes e a gente montou uma equipe de esportes, com pessoal de esporte, inclusive Fiori Gigliotti, o grande Fiori Gigliotti, o último emprego, entre aspas, que ele teve, o último trabalho dele foi com a gente, fazendo comentário, na época do Show de Rádio.

Luciano          Faz uma pausa, que você me lembrou, eu preciso contar um lance. Eu tive com o Fiori uma das experiências mais, como é que eu vou dizer? Emblemáticas, mais educativas, mais preocupantes, mais introspectivas da minha vida. Eu estava diretor na Dana, eu era o cara que cuidava de toda a área de comunicação, etc e tal e um dia marca e me vai lá o Fiori Gigliotti, com 136 anos de idade, ele entra na minha sala, senta ali na minha frente, com o terninho dele, aquele negócio. Senta e ele estava tentando me vender a participação numa cota em alguma coisa assim, sei lá se não era no Show de Rádio de vocês, mas ele estava lá vendendo e eu vendo na minha frente aquele ícone, para a molecada que não sabe, atenção, Fiori Gigliotti foi um dos maiores locutores esportivos, comentarista esportivo da história do Brasil com o tom de voz, a técnica, tudo aquilo, ele foi uma escola o Fiori Gigliotti, era um ícone e estava na minha frente esse cara, velhinho e batendo na porta para tentar vender um reclame no negócio dele e eu olhando aquilo falo, não é justo, não é justo esse ícone sentado na minha frente tentando ganhar um troquinho nessa altura da vida dele para conseguir botar o programinha dele no ar, foi quando meio que se eu tinha algum tipo de deslumbre com essa área da propaganda e tudo mais, o marketing e aí terminou de acabar lá, porque eu falei isso é um mundo de conveniência. Se houver conveniência tem, se não tem, não tem. Ele não está aqui pelo mérito dele, pelo contrário, se fosse pelo mérito  ele tinha que estar sentado lá no décimo oitavo andar e eu que tinha que estar na frente dele, seu Fiori, por favor me deixa anunciar no seu programa e ali aquilo caiu na minha frente, eu falei meu Deus, eu preciso rever isso tudo porque eu não sei, um dia vou estar eu no lugar ele, mendigando também um troquinho para botar no meu negócio e a minha história não vale nada, não valia nada ali na hora. Então foi a experiência que e tive com ele ao vivo que marcou para mim de montão, desculpa eu contar, mas a hora que você contou…

Roma             Sim, porque isso é muito a cara do rádio, o rádio foi ficando de um jeito que hoje você não é contratado mais, você tem alguns tantos contratados, você tem a turma da estiva, com salários cada vez menores e grau de formação cada vez mais ralo, são formados no ar, sempre foram, os jovens, eu tinha seis estagiários na Jovem Pan, seis rádio escutas, mas eles andavam no mesmo corredor que tinha  Milton Parron, que tinha o Vierano, que tinha Zé Nelo Marques, ou seja, há um ambiente para você aprender…

Luciano          Sim, os mestres estavam todos ali.

Roma             … exatamente, eles cruzavam, se trocavam, enfim, o aprendizado era direto.

Luciano          Você sabe que isso é um comentário, eu não vou perder o fio da meada, eu vou voltar lá naquela história do Fiori que você estava contando, que eu fui um tempo atrás, um dos primeiros trabalhos que eu fiz na vida, eu tinha uma coluna semanal no Jornal da Cidade de Bauru, na minha terra em Bauru lá…

Roma             Sim. A grande Marília.

Luciano          … é, Marília fica na grande Bauru, não é? Você sabe que nos anos 50 isso dava agressão, os caras saíam no braço. Eu estava lá, eu tinha uma coluna semanal e eu ia no jornal porque era  o comecinho, eu estou falando de anos 1973, 74, 75, e o Jornal da Cidade tinha uma baita de uma redação gigantesca e lá num cantinho tinha uma salinha que era o departamento comercial e anos, muitos anos depois, eu estou falando de coisa de seis, cinco anos atrás, eu voltei lá e fui de novo visitar o jornal para rever os caras e entrei no jornal e era uma puta área comercial com uma portinha que tinha uma redaçãozinha de nada lá. Aqueles caras que eu conheci não estavam mais lá e aí depois eu escrevi um texto falando, houve uma época que você circulava numa redação do Jornal do Brasil, do Estadão, da Folha de São Paulo, se bobear você trombava com o Carlos Drumond de Andrade, Carlos Drumond de Andrade escrevendo um texto, você encontrava Carlos Heitor Cony, você encontrava caras que eram ícones, o Nelson Rodrigues. Essa turma estava sentada lá trabalhando e escrevendo, fazendo a literatura deles em termos de jornal e quando você falou que você estava passando no corredor passa por mim o Milton Parron, você fala esses são os grandes nomes, isso todo acabou que meio que se perdeu, porque esses caras foram morrendo, o departamento deles que era a alma do jornal, diminuiu de tamanho e ficou pequena, agora o que vale  é a área comercial e eu não sei se isso não explica muito disso que nós estamos vivendo hoje em dia que é essa coisa rápida e que eu faço um baita sucesso, dura três meses, terminou acabou, ninguém lembra de mim e vamos embora e traz o próximo e aquelas coisas icônicas que a gente consumia acabam ficando para a memória…

Roma             Isso é uma coisa até do jeito como se empreende, aí não é só no Brasil, a internet, essa coisa desruptiva da internet, ela faz com que o jornal, principalmente o jornal impresso, o rádio, eles vivam um momento que é aquela coisa de você estar num trapézio, você pula para o outro e você sabe que você tem que ir para aquele outro mas você não sabe se você vai chegar e se não chegar vai ser um tombo, então os empresários, eles agem de um jeito muito defensivo e que acaba sendo um jeito meio suicida porque eles vão desidratando o produto deles para manter uma lucratividade em nome da manutenção da empresa quando deveria fazer ao contrário, investir na manutenção da marca, mesmo a custa da redução da empresa nesse momento, porque a sua marca que vai fazer você estar vivo no próximo momento, então se a sua marca é um jornal, não é demitindo trinta, quarenta caras que você vai conseguir fazer com que ele seja ainda importante, ainda a coisa mais importante da primeira hora do dia.

Luciano          Que junto com custos você reduziu a qualidade do teu produto, não é?

Roma             Exatamente e isso acontece nos EUA também, eu tenho acompanhado o que acontece por lá para saber enfim, eles tem mais tempo desse negócio de capitalismo, o deles funciona melhor, quem sabe tem alguma solução, mas muito dela é isso, os melhores exemplos são de empresas médias e pequenas que estão investindo em qualidade, com estruturas pequenas enxutas e buscando colaborações, buscando parcerias para chegar ao público e aí conseguir o tal do “monetizar”.

Luciano          É o tal, não é? Nós temos um exemplo acontecendo agora aqui que é fantástico, você evidentemente conhece “O Antagonista”, o site, é uma iniciativa de dois jornalistas, legal, caras conhecidos de nome, caras que tiveram a participação grande no jornal no Brasil, não são dois meninos que tiveram uma ideia e resolveram fazer, são dois caras maduros que evidentemente o nome ajudou bastante,  mas os dois se juntam e começam a montar um blog de noticiazinha pequenininha onde eles tem que reaprender o que eles faziam lá, botam esse treco no ar e chega em quatro milhões de views, cinco milhões de views a ponto de chamar um investidor. O cara vem, compra e aquilo ganha um alcance brutal e se transforma, talvez hoje, num dos grandes canais de informação que o mercado tem hoje, não é mais o Estadão e a Folha, os caras vão primeiro ver o Antagonista para depois ver o que está acontecendo lá e o ponto fulcral deles é o fato de eles trazerem coisas que os jornais não dão, então vem coisa lá que você fala que história é essa? O jornal só vai contar essa história dali a seis meses e eu estava olhando aquilo falei, não tem estrutura, não tem nada, não tem um departamento, não tem nada, são dois caras, o que eles tem? Conteúdo. E eles constroem essa marca em questão de meses, um ano depois ele já estão aí estourando, quer dizer, olha o poder que essa tecnologia, que essa facilidade que tem de a gente se juntar e começar a produzir coisa traz e esses caras, sem nenhuma estrutura conseguem bater num desses dinossauros gigantescos que estão na beira da marginal de Pinheiros e não tem como pagar as contas e esses dois carinhas pegando no pé deles  lá. Deixa eu voltar atrás vai, que a gente começa a falar dessas coisas e começa a babar, devia ter nascido 20 anos à frente, mas vamos lá. Você estava contando lá atrás, você estava estruturando, voltou com o Show de Rádio outra vez, trouxe…

Roma             E aí o Show de Rádio foi para o ar com uma equipe de esportes que era associada à nossa e o programa de humor e a gente falava muito, jornalista esportivo, o esporte em rádio tem muito espaço, por isso que eles falam tanta bobagem. Isso justifica um Milton Neves, que é o papa do nada, o Mirtão, Milton Neves, o estilo Milton Neves, olha uma revelação, ele começou em função da Jovem Pan FM e por conta do Show de Rádio, em 1980 para 81, o Show de Rádio com o Sangirardi saiu da Jovem Pan e foi para a Bandeirantes e levou uma parte, uma boa parte da equipe, o Serginho ficou, o Serginho Leite ficou, porque já estava no FM e tal e aí quando saiu o Show de  Rádio, depois do futebol criou um buraco, foi quando o Milton Neves foi chamado para fazer, porque ele era rádio escuta, o chefe dos rádio escutas, plantão esportivo há muito tempo e ele criou um programa, famoso Terceiro Tempo, então ele muito esperto, o Milton Neves é muito vivo, ele olhou o que estava acontecendo no FM, aí um dia ele passou pela gente, ô pessoal tô fazendo um programa aqui no AM que é igual vocês, um programa com pique, um programa com dinâmica e era realmente isso, ele não deixava as pessoas falar muito e rápido e ia para o vestiário, voltava ia para fulano, voltava, que era a dinâmica do FM, ao invés daquela longa peroração, aqueles comentários imensos que não paravam muito mais, a dinâmica, o pique. Então ele falou: tô fazendo um negócio igual vocês e aí a linguagem do FM foi para o AM através do Terceiro Tempo do Milton Neves, mas vamos lá, vamos voltar, então a gente teve o Show de Rádio num horário e numa rádio impróprios, a Capital não tinha, tinha uma equipe de esportes que era muito mais ou menos e a gente em um ano pegou aquilo do oitavo lugar do esporte e levou para terceiro já batendo na bunda da Bandeirantes, já estavam preocupados e mirando já a Globo, com uma equipe menor, mas com uma equipe que fazia aquilo com tesão fantástico, com uma equipe que tinha ex ídolos, gente que já estava começando a ir para a lateral de campo e que a gente recebia e que faziam participações, Fiori não, que era fixo, mas outros caras passaram por lá deixando colaborações muito legais e aí a questão era como é que empreendia isso, porque eu fui pelo menos a umas 150 reuniões e se tapinha nas costas pagasse conta de supermercado eu estava bem até hoje. Então as pessoas, ah Show de Rádio, puxa vida quanto tempo, que legal e tal, não, volta aí, vamos fazer alguma coisa. Não. E de verdade a gente acabou fechando com um preju bacana, um sucesso estrondoso de audiência, porque a gente quase quintuplicou a audiência da bola rolando, a gente fez uma jogada interessante que a gente pegou a Rádio Capital que é uma rádio popular, feminina, a gente não passava, a gente não dava cavalo de pau na programação, então vinha o Eli Correa,  era o reprise do Eli Correa no sábado, a gente sai com um programa meio musical, meio esportivo, meio de humor e aí a gente entrava no esporte, para não desperdiçar a audiência, enfim, para abraçar o público todo. Mas aí realmente teve um problema de não só de gestão mas também de entendimento do mercado, aquela coisa, Show de Rádio era uma coisa que, ou não adiantava explicar, ou não precisava explicar ou não adiantava explicar, porque aí tinha uma troca de geração de jovens na publicidade, aí não entendiam muito bem, não sabiam nem que tinha rádio AM e hoje isso vai se complicando hoje os caras de agência mal e mal conhecem rádio FM, então é uma… a tendência do rádio como mercado, como mídia, está ficando bastante complicado.

Luciano          E é uma coisa interessante porque não é que a turma não ouve rádio, se você perguntar, não é que assim, acabaram, não acabou ouvinte, você pega uma cidade como São Paulo, num horário de pico de trânsito aqui, eu não duvido que a audiência decuplique ali e o interessante é que o Ibope não mede audiência de rádio em automóvel..

Roma             É, estão começando a fazer alguns cruzamentos, mas o oficial não leva em consideração.

Luciano          E o oficial também é uma conversa, quer dizer, é complicado, mas então não é que o pessoal não ouve, na verdade a gente ouve aquilo lá, o que aconteceu é que ele perdeu o glamour, mas você botou um treco ali interessante atrás quando você estava falando  daquela coisa de montar aquela equipe para o Show de Rádio, aquilo era uma startup, você chegou num lugar, falou tem um belo dia e tem um horário e etc e tal, me chamaram e eu vou montar um business, vou botar um negócio aqui, então você teve que selecionar as pessoas o que na verdade não era tão difícil, porque você já conhecia a patota toda, mas quando você teve que montar a equipe de esportes, a coisa complica e de repente você tem na mão lá 6, 7, 8, 10, 12, 15 pessoas que você tem que remunerar e se eu conheço um pouco do rádio, esse problema é teu, não é do departamento comercial da rádio…

Roma             Sim.

Luciano          … então você comentou en passant, eu queria explorar um pouquinho mais isso, quer dizer, você tem a ideia, você formata o produto, você define o que você quer, constrói aquilo, põe no ar e o negócio é muito bem sucedido e aí você tem que monetizar aquilo, então eu estou falando de algo que é, digamos, da época analógica. Estamos no rádio e o problema é igual, eu tenho que monetizar, eu não consigo, é meio difícil, como você falou, ou eu não consigo explicar, porque não adianta, ou então o cara já conhece, já sabe o que é, de qualquer forma eu estou falando de um programa de rádio, é muito  fácil: o que você veio fazer aqui? Vim te vender um programa de rádio, todo mundo entende o que é, quando eu chego lá e falo eu vim vender um podcast, o cara fala para mim “pode o que?” eu falo uta, vou ter que contar a história, então vamos voltar para ela. Mas continuou havendo aquele problema e de repente, você que é o elemento criativo se vê obrigado a ir cuidar de ganhar o dinheiro, esse animal criativo é diferente do animal comercial que vai ganhar dinheiro e no entanto tem que ser o mesmo cara, nesse teu tempo de estrada, tudo mais aí, quais são os problemas que você vê, onde é que está a encrenca aqui, por que que é tão difícil animal criativo ser um animal que vai buscar o dinheiro? E por que que não está cheio de animais que buscam dinheiro loucos para alimentar os animais criativos e fazer virar uma loucura, se o teu programa é tão bom, se dá tanta audiência, onde é que está o nó da pegada?

Roma             O que acontece é que primeiro, você, para vender o que é seu, você precisa ter uma facilidade, uma disponibilidade e ao mesmo tempo isso te impede de ser uma pessoa tímida e muita gente de rádio é tímido nesse sentido, no sentido de não saber se vender, eu vejo gente que vai para uma reunião: olha, vamos lá, porque eu tenho isso aqui, porque eu fiz, isso é bárbaro, isso é bacana. Eu fico com uma inveja mortal porque apesar de eu dar, eu faço o que eu chamo de sapateado de meia em sala de reunião, eu falo, sou muito engraçado, comento, mas de verdade a venda, as técnicas de venda que eu até conheço porque eu fiz muito evento de venda, acompanhei muitos profissionais de venda, fazendo suas palestras, teoricamente eu já deveria ter aprendido, eu não tenho o jeito de fazer, isso é uma coisa do componente, é do chip, você tem um chip para uma coisa, um chip para outra e o pessoal da comercialização, eles não tem o tanto de empreendedorismo necessário para falar: eu vou pegar esse cara e vou fazer com que ele seja um sucesso. Isso é uma coisa muito mais americana, aqui ainda não existe, a figura do agente do artista não existe, lá o caboclo faz sapateado num boteco lá do fim do mundo, ele tem um agente, o cara que vai atrás para vender e ganhar uma comissão, então…

Luciano          Ou seja, melhore teu sapateado, continua sapateando, vai ficando bom, que eu vou fazer você acontecer.

Roma             … exatamente, não tem essa noção da preparação, o mais normal, o mais comum é que o próprio artista tenha que vender o seu trabalho e aí tem resultados muito variáveis e aí tem coisas, assim, tem lance de sorte, tem jeito, tem simpatia, então às vezes você consegue vender um comercial, vender um pacote até para um cliente que não tem 100% de adequação ao seu produto, mas ele gosta do que você faz, ele eventualmente, não que queira dar uma força, porque hoje ninguém dá força, tenta obter o melhor possível dentro dessa simpatia que você gera, dessa empatia…

Luciano          Mas ai você esta vendo o que você está falando, não é o mérito do teu conteúdo, não é o mérito do teu trabalho, é um relacionamento extra que está entrando aí na hora, quer dizer, ou seja, se eu dei sorte de pegar um cara que gosta do que eu fiz, de quem eu sou, eu vou acabar fechando negócio com ele, não pelo mérito do trabalho que eu estou fazendo…

Roma             … da mesma maneira  que em muitos lugares, em muitos momentos, na área de agência, entre agência de propaganda e artista, eram os caras que frequentavam os mesmos lugares ou que tinham os mesmos vícios, tinham a sociedade do pó, gente que cheirava junto e que um patrocinava o outro, enfim, são ligações, são interesses que são da mesma rua, fazem a mesma coisa, são do mesmo jeito e aí você consegue o patrocínio de um jeito que não vem exatamente pelo valor do que você está vendendo, isso é uma coisa que é complicado. Agora nesse momento, essa atividade que eu faço há 30 anos, acaba se chamando produção independente de rádio, que hoje tem uma associação, que chama-se APRAIA, Associação das Produtoras Independentes de Rádio e outros conteúdos de  áudio, que chama APRAIA porque o acrônimo certo seria APIROCA e aí não seria legal você chegar com isso em eventos…

Luciano          Para quem já teve uma empresa chamada Camarilha, montar uma associação chamada piroca..

Roma             … é o de menos, mas enfim, nós como produtores independentes, temos exatamente essa dificuldade, porque a gente precisa criar, a gente precisa vender, porque nós somos empresas pequenas, continuamos pequenas empresas de conteúdo e que temos que fazer o marketing e eu espero que antes que eu vá me juntar aos outros, essa cultura começa a se espalhar melhor, da produção independente como existe na TV, hoje você tem, na TV, TV a cabo, até por conta de legislação, você tem produtora independentes.

Luciano          Principalmente por conta da legislação que obriga os caras a buscar, eles não tem bala. Deixa eu te perguntar uma coisa aqui, Roma, esse lance todo, você não acha que tem um componente aí que é um componente, nós como artistas temos dificuldade de valorizar aquilo que a gente faz, o que eu faço, por exemplo, o que eu faço, outro dia eu estava aqui mexendo, montei um projeto de um curso, vou lançar o curso aí botei lá o valor do curso, o curso vai custar 400 reais, chamei um cara, desses caras que estão lançando coisa,  o cara olhou e falou você está ficando louco, isso aí 400 reais é uma bobagem isso tem que custar 3 mil reais, como assim 3 mil reais? Não porque é assim, depois fui embora para a casa e falei quem é que vai pagar 3 mil reais para ver esse negócio que eu estou fazendo aqui? Não vale isso, não é possível, não pode ser, não tem. E aí o cara me deu uns links, falou: dá uma olhada nesses links aqui e eu fui olhar os links que eram outros caras lançando… deixa eu verse eu consigo encontrar um palavrão ofensivo no grau suficiente para tentar te explicar o que era: eram coisas abjetas, abjetas e eu olhava aquilo, o cara falando, oferecendo um negócio que você fala isso é nó, é  mentira…

Roma             Bateção de carteira.

Luciano          … bateção de carteira é 171, é mentira, é um horror, até chegava no final, isso aqui custa 3.900, eu vou vender por 1400 e 400 caras entraram e compraram aquilo e você sabe que não vai acontecer nada com aqueles 400 e o cara  vendia aquilo e eu falo como é que o cara bota, esse conteúdo que ele tem na mão dele é uma porcaria e ele está vendendo e fazendo dinheiro, o trouxa aqui que tem um conteúdo que, modéstia à parte, eu acho que é muito legal, não consegue acreditar que alguém possa pagar 400, 500 reais para ter aquilo ali e fica todo cheio de… será que não tem um componente assim da gente se auto…

Roma             É o componente que a gente deveria prestar atenção naquelas pessoas que falam: nossa, eu não sei como você consegue fazer isso, se eu tivesse que fazer isso eu iria ficar louco. Para a gente, criar certas coisas, fazer certas atividades acaba sendo fácil, porque a gente por formação, por vários motivos acaba fazendo aquilo de um jeito que é mais fácil de fazer do que para a média dos mortais e acaba ficando uma coisa sem o valor que os outros emprestam, os outros veem muito mais valor do que a gente mesmo. Ah vou sentar e fazer uma paródia para um programa de rádio, eu sento, faço uma paródia para um programa de rádio e gente que… se eu parar para fazer isso eu passo um mês e não consigo. Está bom, eu gastei quinze minutos, e ai, teoricamente eu deveria ser tão bem remunerado quando alguém que gastou um mês e não conseguiu, ou melhor de preferência, mas tem isso, a atribuição do valor é diferente, a  ótica é outra, o foco é outro.

Luciano          Você não acha que tem uma que é aí que as coisas estão se perdendo hoje em dia, então por exemplo, quando você olha para o rádio de hoje, compara com o rádio daqueles 30, 40 anos atrás, você num determinado momento você falou um negócio pra mim que  ficou marcado, que é aquela história de “nós tínhamos naquela época condições de fazer um trabalho com referências mais elaboradas, com uma profundidade intelectual mais elaborada, hoje é muito raso, hoje em dia se bobear são seis palavrões em sequência e a molecada toda, ah, eu consegui o que eu queria, todo mundo deu risada dos palavrões que eu falei, mas ninguém sai de lá com uma pulguinha atrás da orelha e fala meu, que puta referência que esse cara usou, isso é de um lado olhado com a ótica que eu tenho aqui do alto dos meus quase 60 anos, que de certa forma já me coloca numa posição complicada. Tenho que tomar muito cuidado com o que eu falo aqui, porque para ser chamado de saudosista, de antigo e o cacete é dois segundos. Mas, eu olho para isso tudo e falo não tem sustentabilidade isso tudo que eu estou vendo aí, nós estamos aqui sentados fazendo uma conversa, tem um quadro na parede aqui onde está Billie Holiday, isso aqui é eterno, a Billie é eterna, eu vou ouvir a Billy daqui a mil anos e vou achar aquilo do grande cacete porque ela é eterna, ela vai ficar. Se eu pegar um filme do Chaplin daqui a cem anos, o filme, duzentos anos depois, o filme continua tendo, aquilo fica e o que nós estamos vendo aí é uma porrada de coisa que não fica e no momento em que começa a ficar preocupante para nós, porque estão morrendo os ídolos, se você botar a turma que está na faixa dos 70 anos aí, daqui a pouco vai dar uma limpa e o que é que vem na sequência? Sabe, quem é o novo Caetano Veloso, quem é o novo Chico, quem é o novo Gil, quem é o novo Fernando Faro, quem é o novo? Esses caras não estão aparecendo para falar a verdade nem sei se nesse mundo novo tem que ter, me parece que tem que ter, mas o que vai ter agora é uma celebridade que tem uma bela bunda e brilha, ou em outras palavras, eu não sei se daqui a quarenta anos o meu neto, bisneto, vai estar  ouvindo Rihana e falando pai, o que é isso aqui? Eu acho que a Rihana já era, já foi atropelada e esqueceu, mas ele vai estar ouvindo Beatles, ainda vai ouvir Beatles. Você não acha que esse empobrecimento, ele explica muito dessa questão toda do “não ter valor”, do Fiori na minha frente sentado, batendo na porta, etc e tal e quando a gente perde a capacidade de valorizar essas coisas que geram valor para a gente porque elas se perdem, não consigo entender a média da população não entende, eu dou mais valor para as pegadinhas do Faustão no domingo do que para a entrevista com o Abujamra no programa dele, que ele fazia, quer dizer, não tem…

Roma             É tem, de verdade a gente tem uma questão nacional, a gente está eternamente defasado com educação e aí é a base de tudo, é muito visível quando você tem um meio novo e com o FM a gente viu e de uma maneira que na internet eu estou vendo muito mais corrido, por que que a gente conseguia fazer piadas, por que que a gente conseguia ter um humor mais refinado? Porque o meio era elitista, quando a gente fazia essa rádio Jovem Pan de 80, a Cidade de 80, a Jovem Pan de 81 e tal, o meio rádio, o aparelho de rádio era uma raridade, então você tinha o receiver, aquele grandão, joguem aí no Google, aqueles Marantz, aquele som bacana da sala, você tinha o rádio do carro…

Luciano          O TKS. TDK…

Roma             … e só depois… é… TDK era fita, TKR era… enfim, começou a aparecer o walkman em 83, eu lembro que o Tutinha trouxe o primeiro dos EUA, tinha  acabado de sair e aí teve uma explosão em massa, o que significa que no começo a gente tinha um público mais restrito, mais qualificado e mais educado, conforme foi abrindo, mudou o tipo de rádio que era primeiro lugar, então em 81 a Jovem Pan era primeiro lugar com música pop, com um pouco de rock, com música brasileira e com locutores com uma certa, um certo conteúdo. Anos depois a Jovem Pan perdeu a liderança, vieram outras emissoras porque chegou a primeira leva do pagode, porque chegou a primeira leva do funk, porque chegou a primeira leva do sertanejo e junto com ele veio, junto com essas levas, vieram ouvintes com outra qualificação e aí o rádio se espalhou, o FM se  espalhou, virou um sucesso maior ainda, mas muito mais espalhado e muito mais de A até E. Se você tem um público com um grau de educação um pouco maior, você não vai, o mau gosto, como diria Millôr Fernandes, nem o socialismo mais moderno acaba com o mau gosto e com o mau hálito, porque você vai continuar tendo gente que não tem, enfim, tem opção de fazer o mais fácil, mas você, pelo menos, tem uma quantidade mínima de informação embarcada que faz com que o trato seja melhor, a exigência seja maior. Então hoje um público que tem uma grande maioria, infelizmente, um analfabetismo funcional, que a internet ajuda a incrementar, porque hoje você não precisa saber escrever para se comunicar na internet, você com meia dúzia de palavras, você acaba se fazendo entender e a partir daí você não vai desenvolver o seu gosto, você não vai desenvolver a sua cultura, cultura não, porque cultura é uma coisa mais ampla, você não vai desenvolver, você não vai refinar o seu gosto, então você vai continuar sendo x-burger e o horizonte do x-burger é virar pipoca, ou seja, é desgastar mesmo que você tem dentro de uma certa faixa, dentro dessas limitações. A educação geraria um círculo virtuoso, mas é muito difícil, é muita gente, a gente está atrasado 500 anos, não tem como você repercutir isso numa rapidez que a internet permite, mas que você não tem base, você não tem…

Luciano          Qual é o teu papel, o teu papel como dono de uma empresa, como empresário, como um comunicador, como o cara que está produzindo conteúdo para, nesse contexto que você está falando, na verdade eu quero fazer não é nem uma pergunta, é uma contextualização, quer dizer, qual e o teu papel nesse contexto como um cara que tem poder de causar alguma mudança no ambiente ou nas pessoas que estão em volta de você e como é que você faz quando aparece aquela menina de 20 anos que sabe tudo do Facebook, Spotfy da vida e se você perguntar para ela quem foi Ronald Reagan ela não tem a menor ideia do que é que você está falando.

Roma             Deixa eu dar um exemplo absolutamente extremo, você falou da pegadinha do Faustão, eu, durante alguns meses fui responsável pela pegadinha do Faustão…

Luciano          Pô… era você?

Roma             … era eu e eu trabalhei durante três anos na Globo, com o Faustão, a maior parte fazendo coisas deliciosas que eram um quadro que eu fazia com o Serginho que era, enfim, passava lá…

Luciano          Que ano era isso?

Roma             … 99 a 2000, 2001.

Luciano          É muito diferente do Faustão de hoje, muito.

Roma             E a gente tinha um quadrinho que era uma paródia, com música, aquela coisa do retrato de domingo, a sogra, o sogro, mas a gente se divertia muito fazer o negócio com uma qualidade bem bacana. E aí acabou que eu fui ficando, fui ocupando mais espaço, chegou uma hora que veio o diretor do programa e falou, a gente precisa de você, não que eu fosse o supra sumo, mas enfim, eu era o cara do momento, no momento só tinha eu para tocar as pegadinhas porque estava subindo de audiência com o Sérgio Malandro e com o Gugu e tudo mais, eu depois de muito espernear, mas muito  espernear, era a única saída, fui, fiz e em algumas semanas eu estabeleci um código de ética para a pegadinha, eu falei para a  direção: eu não faço pegadinha com promessa de emprego, no país que a gente vive, é uma maldade, é uma sacanagem mesmo que seja só uma brincadeira você falar para o cara: ok, você está empregado e aí faz cair uma parede para o cara tomar um susto e era uma pegadinha, não, eu acho isso uma crueldade absurda, então não tem promessa de emprego. Enfim, escrevi algumas coisas que depois de um certo tempo foram adotadas pelo próprio Faustão, isso é o que eu pude fazer, eu pude dar uma  colaboração com um mínimo de ética, mantendo o humor, com o mínimo de bom senso, mantendo a audiência e com o mínimo… bom, depois eu engordei e tive.. a pressão estourou, ou seja, eu não resisti muito tempo, mas enquanto eu fiz nesses meses, eu aumentei a produção, aumentei a audiência e mantive um nível de ética mínimo, um mínimo de estrutura de humor que se manteve tentando fazer com que o riso fosse uma coisa fluente, mas não apelando.

Luciano          Perfeito, você sabe que eu tive uma experiência há um tempo, escrevi um texto, de tudo eu escrevo texto, isso é quase uma doença já, onde eu estava discutindo o seguinte: eu não quero tirar do ar o Gugu Liberato, entendeu?  O programa dele é questionável para o meu gosto não vai, não vou assistir, aquilo tudo é um saco, é horrível, apelativo e etc e tal, mas eu não quero tirar o Gugu do ar, porque se ele está no ar há tanto tempo, algum mérito esse cara tem, no mínimo ele consegue falar a língua de um determinado nível da audiência que tem aquilo lá, o que eu gostaria de fazer? Eu gostaria de ser o diretor do programa do Gugu, eu gostaria de estar dentro do programa dele para conseguir enfiar no meio daquela baboseira toda esses pequenos momentos de lucidez…

Roma             Você sabe que eu vivi essa experiência porque quem me levou para lá foi o Alberto Luchetti que dirigiu o programa sob a supervisão do Talma, o Roberto Talma foi para o Faustão com o objetivo de manter a audiência que a grande briga era com o Gugu, então no SBT, estourando, com banheira, com taxi do Gugu, enfim, com coisas de nível bastante questionável, a Globo tinha a obrigação de manter a audiência e manter a distância e não podia cair na vala comum como teve uns desvios como fez…

Luciano          O famoso sushi

Roma             … o sushi erótico, o latininho e tal, então o Talma foi para estabelecer um mínimo, um padrão mínimo, isso foi muito difícil, o Talma levava grandes artistas  da música brasileira, então no programa tinha o Daniel, que tinha acabado de ficar viúvo do João Paulo, ou o Leonardo, ou enfim, os grandes clássicos da música popularesca e levava grandes caras da música popular, então levou Caetano, levou Gil, levou Milton, levou Gal, e o que acontecia invariavelmente, a audiência caia, o Milton Nascimento foi uma coisa deprimente, porque teve que chamar o intervalo, as pessoas não tinham mais a referência do Milton Nascimento, então havia uma tentativa sim de fazer isso, mas era muito a custo, muito, muito. Eu lembro do melhor exemplo, pode ser até que eu esteja exagerando, forçando a memória, mas o Talma mandou fazer uma cobertura da festa de Parintins, uma festa maravilhosa, brasileira, uma super produção que o Spielberg veio e achou aquilo fantástico, que hoje influencia até as escolas de samba do Rio, aquelas animações, aqueles bonecos e tal, mandou dois artistas  para lá, mandou, tinha dois links, tinha dois repórteres, enfim, custou uma nota para fazer alguns flashes da transmissão de Parintins e ao olhar o people meet, ibope minuto a minuto, aquilo não rendia e o Talma desesperado, escuta, mas que tanto o Gugu está passando? O que que ele está fazendo? O Gugu estava hipnotizando uma galinha, sabe aquela coisa? Você consegue? Não sei como é que era, olha a galinha começa a ciscar de fasto, quer dizer, uma verba de centenas de milhares de reais, uma mobilização de gente, perdia para o apresentador e uma galinha, que terá custado dois reais. Então isso revela, por um lado o jeito de saber fazer, o entendimento do popular que o Silvo Santos, primeiramente e o Gugu na sequência tem e a dificuldade de você tentar estabelecer esses padrões mínimos de repertório, de cultura, é difícil mesmo.

Luciano          Você não acha que isso é uma ditadura, eu não tenho o termo certo para colocar aí, vou colocar como provocação, você não acha que isso é uma espécie de ditadura do proletariado, escolhe proletariado, bota alguma outra coisa que é o seguinte, olha: eu sou apresentador do programa, estou com o programa andando, estou de olho num aparelhinho que está na minha frente mostrando o seguinte, olha a audiência está aqui, começou cair, corre! Inventa alguma coisa para subir, quem está me dirigindo é aquele aparelhinho que não mede qualidade de porra nenhuma, ele mede quantidade de gente que está me olhando, então não sei se quem está me olhando é o cara que vai consumir o produto que eu estou trazendo aqui ou não, mas é alguém olhando, então se quem me comanda é aquele aparelhinho, eu estou programando um programa para ele, então meu programa é ruim porque o público pede coisa ruim ou meu público é ruim porque o meu programa tem coisa ruim, é perverso isso.

Roma             É perverso e você precisa ter muita consciência quando você está fazendo um programa de grande audiência, se dirigindo a qualquer meio de comunicação com muita audiência, porque você tem uma responsabilidade que vem antes de você fazer qualquer coisa, uma responsabilidade social que você tem de fazer alguma coisa melhor, você tem que sair de lá com a consciência de que você fez alguma coisa melhor para o seu público e manteve a audiência ou aumentou, então essa é a dificuldade. Apelar é razoavelmente mais fácil, até para apelar você precisa ter uma falta de vergonha, uma falta de pudor que eu acho admirável em certos casos, mas eu sempre aprendi e eu lidei com muitos mestres em rádio, em TV e tal, você precisa estar sempre um degrau acima do seu público, não cinco, não lá em cima, um degrau, ele tem que olhar você, ele tem que te admirar, ele tem que falar esse cara é muito bom pelo que ele faz, pelo humor, pelo jeito como ele fala, pelo jeito como ele cativa as  pessoas, pelo jeito como ele é bonito, enfim, de alguma maneira você precisa estar acima, um pouco acima do seu público, que ele precisa aspirar, ele precisa querer ser você, ele precisa se espelhar  em você. Agora, quando você vê um programa onde o cara fala, esse cara que está no ar é um bosta, quando você tem essa noção de que seu público acha você ridículo, você está fazendo um processo de reversão, então a dificuldade é essa consciência, isso é difícil porque não se passa mais isso, a faculdade não passa isso faz muito tempo, não se discute isso.

Luciano          Você está falando de ética, você está falando de moral e ética. Eu tenho, a tese minha é sem pressa, eu vou me dirigir a um garoto de 14 anos como se ele tivesse 18, vou falar com um cara de 18 como se tivesse 32 e eu jamais vou falar com um cara de 18 como se  ele tivesse 15, você já se enfiou nisso até o pescoço, que você fez campanha política de montão, quer dizer, políticos se dirigem a nós como se nós fôssemos crianças de 5 anos, ele fala com a gente num linguajar mais rasteiro possível, jogando para baixo a média que é para pegar o maior volume possível, eu até chamei isso, é o mínimo divisor comum, qual é o mínimo divisor comum? A média está lá embaixo, então o político vem ele sai do pedestal dele, vem para o meu nível e fala para mim, vamos lá com o titio, dá a mão para mim. Você vê os caras falando, você fala meu, o que… eu me sinto agredido e isso é um processo de empobrecimento, porque se ele é assim,  ele vai empobrecendo, ele não  vai puxando para cima e eu pelo contrário eu quero puxar meu público para cima porque eu sei que se eu conseguir, meu público não para quieto, cada vez que eu jogar água fora da bacia eu vou tomar porrada deles e eles vão me obrigar a subir cada vez mais, então isso é uma espiral crescente e positiva. Deixa eu voltar para o começo do nosso papo que nós estamos indo já para reta final aqui. Quando eu trago a conversa nossa aqui para dentro do ambiente empresarial e vejo meu papel como líder e eu te fiz uma provocação há um tempo, qual é o teu papel nesse processo, você deu uma resposta muito legal, trago para dentro da tua empresa aqui agora e falo o seguinte, como é que a gente faz no nosso dia a dia? Quer dizer, eu como líder, dono da minha empresa, o gerente geral, o vice presidente, o supervisor, o coordenador, não importa o quê, primeiro é a consciência de que qualquer pessoa em papel de liderança é um educador, mesmo que eu não abra a boca, tem um monte de gente me olhando o meu comportamento, então dependendo do que eu fizer, eu estou ensinando e eu estou dando aula de ética,  para o bem ou para o mal, quando eu abro a boca, pior ainda, porque aí eu estou começando a me comunicar com as pessoas, elas estão de olho em mim, então o meu comportamento é que vai ensinar a elas para que lado vai, então se eu quero ter uma sociedade melhor, eu tenho que entender que como chefe eu sou o educador que vai ensinar esses caras a ter uma sociedade melhor, quer dizer, se cada um de nós, imbuído desse fogo no rabo de puxar para cima, começa a exercer, você já pensou como seria essa coisa em cadeia, todo mundo puxando todo mundo para cima, não me acomodando, quer dizer, não vou dar  audiência para baixaria, não vou discutir a baixaria, não vou repassar o post que fala da baixaria, não me interessa que esses assuntos ocupem espaço, porque mesmo que você fale que isso é uma bobagem, está ocupando espaço de coisas que não são bobagem.

Roma             É, porque o cérebro é o mesmo, a quantidade de informações auditivas ou visuais, ou textuais, enfim, o que é possível captar é limitada, eu tenho um exemplo mais radical ainda, já que você falou de campanha política, além de  fazer campanha política, eu tenho uma experiência com o produto mais odiado do Brasil, A Voz do Brasil. Em 2002 enquanto eu estava em Brasília eu inventei “O Café com o Presidente” que era um programa de rádio que até hoje é um sucesso, mas que era muito mais um sucesso para o que foi feito especificamente para o Lula, para o jeito dele, para a maneira dele e para o jeito do rádio naquele horário, era o programa que entrava, entra ainda, segunda feira, que é o dia que as rádios não tem nada, às 6 da manhã que não atrapalha o jornal, enfim, tinha adequação, a outra coisa foi o desafio que Eugênio Bucci me colocou que era: a gente precisa mexer na Voz do Brasil, com os objetivos os mais nobres e cidadãos possível, a Voz do Brasil até  então era uma coisa chata, uma coisa que era uma chapa branca do governo direto e era uma coisa obrigatória e que não …

Luciano          E tecnicamente mal feita…

Roma             … tecnicamente mal feita…

Luciano          … porque era aquela voz do fundo de uma lata, horrível.

Roma             … o texto era ruim, a condução era ruim, eu participei do grupo, eu coordenei uma ação para melhorar a Voz do Brasil e fazer com algumas bases, por exemplo, os redatores que estavam acostumados a lidar só om release, durante um período, isso depois foi se perdendo porque é um esforço, é complicado você deixar de fazer o óbvio para fazer o legal, querido, o ministro não é o lide, não é a coisa mais importante, o mais importante é a ação, então assim, você que precisa tirar o seu passaporte, agora pode passar sete dias por semana em vez de cinco; chegou a vacinação para as crianças para três doenças assim, assim, assim, que é a função do estado, então isso é importante…

Luciano          Dostoiévsky falou isso, ele falou o povo não quer Deus, o povo quer o milagre.

Roma             … então é exatamente  isso, a gente conseguiu botar o ministro no segundo parágrafo e a gente fazia com que as pessoas, ok, pega a notícia, descasca o release, descasca , cadê a informação aqui, o que o meu ouvinte, o que o cidadão precisa ouvir? Isso funcionou durante algum tempo, a gente mudou apresentadores, a gente mudou as vinhetas, que estão aí até hoje, que tem berimbau e tal, são do Sérgio Sá, que fez também vinhetas do Café Brasil, enfim, isso é uma coisa que me orgulha muito…

Luciano          Roma, isso aí você aprende na primeira semana do curso de jornalismo, não é no primeiro ano, é a primeira semana, a primeira aula do curso de jornalismo, entra um cara e fala o seguinte, pega a notícia, debulha a notícia, puxa a coisa mais importante e você está dizendo para mim que vocês foram para lá para implementar uma mudança, quer dizer, como é que pode? Você está falando para mim, você está dizendo para mim, seja um profissional, conheça o que você está fazendo, faça do jeito que tem que ser feito.

Roma             Bom, até porque o Eugênio Bucci na gestão dele, ele conseguiu trocar a equipe de uma maneira muito forte, ele tirou muita gente que estava lá encostada, muita gente que estava lá indicada e trocou por profissionais qualificados, alguns concursados, concurso não significa exatamente qualidade, porque você tem o concurseiro que é o cara que ele não quer aquele cargo, ele não quer aquela função, ele quer…

Luciano          O benefício.

Roma             … o benefício. Enfim, a gente trabalhou com profissionais melhores, durante algum tempo a gente tinha duas redações da Voz do Brasil andando, a que mantinha o programa no ar e uma paralela que a gente montou, eu tinha uma chefe de redação muito legal, que a gente criou o produto que a gente debatia o produto, a gente pegava uma mesma notícia, ia voltava, descascava de novo, voltava e criou uma massa crítica muito interessante, que durante algum tempo seguiu. O problema é que primeiro, para fazer isso você precisa de um grau de liberdade e um grau de competência que você não consegue manter por muito tempo num lugar onde a força para puxar você para baixo é muito grande.

Luciano          E a chefia troca a cada quatro anos.

Roma             Sim, tem isso. E além do mais, não havia muito alguns… tinha algumas questões que ainda estavam… o que que a Voz do Brasil precisa ser? Ela precisa ser o que o jornal nacional mostra e eu defendia, porque tinha um diretor que falava isso, a gente precisa ser igual ao jornal nacional, porque o jornal nacional mostra o que é mais importante que está acontecendo no Brasil. Não. O jornal nacional mostra o que é mais importante do ponto de vista da emissora, a gente tem outro público e a gente tem uma questão que é, na minha opinião, isso é  o mais complicado, eu acho que deveria ser obrigatório, não nesse formato, durante mais algum tempo, até que o público tivesse uma massa de educação suficiente para pode decidir: não quero ouvir. Aí sim, aí a obrigatoriedade é dispensável.

Luciano          Até porque, Roma, a ferramenta como ferramenta é um negócio absolutamente impensável, num país do tamanho do Brasil você ter um canal de comunicação que abrange o território nacional inteirinho falando o mesmo idioma, no mesmo horário, quer dizer, olha o potencial desse produto, é um negócio inacreditável e no entanto ele já recebeu o rótulo de coisa que vem pela goela abaixo do governo, isso não vai recuperar nunca vai, a menos que se tire essa obrigatoriedade, falando o seguinte, quem quiser botar no ar bota, mas vai botar porque a qualidade dele é imperdível.

Roma             Sim, o Café com o Presidente não era e não é ainda obrigatório e a gente conseguiu colocar nas maiores redes de rádio…

Luciano          Porque devia ter um conteúdo?

Roma             … então, porque eu também fiz um trabalho junto às direções das emissoras de rádio, olha, estamos fazendo um programa que não é chapa branca, está aqui,  eu mostrava até um piloto, com notícias não, enfim, atuais, mas que não era exatamente o programa e quando começou, eles se deram conta de que o objetivo do programa era realmente fazer uma prestação de contas e era fazer jornalismo, a gente levou, eu lembro que na época, ainda do mensalão, lá atrás, a gente na gravação, a gente perguntou para o presidente, olha, tem isso, a gente vai falar? Ele falou não, mas esse não foi uma coisa assim: acho que cabe, num determinado momento eu fiz um sinal para o apresentador, ele introduziu a pergunta com o Eugênio Bucci, que era o diretor da rádio, que fazia acompanhamento, dando o OK e o presidente falou e a gente botou no ar e não tinha um grau de pré aprovação, pôs no ar, enfim, é um exemplo.

Luciano          Só com o Lula. Só com o Lula dá para fazer isso.

Roma             Sim, é.

Luciano          Mas legal. Roma, vamos para o final aqui?

Roma             Vamos lá.

Luciano          Só para terminar, eu só quero lembrar uma coisa aqui que você andou fazendo recentemente ai, você sabe que o termo queridinho do momento, além de monetização, é storytelling. Todo mundo fala de storytelling, eu falo meu, eu uso esse negócio desde os anos 80, trabalhei com isso lá em 1985, mas hoje está na moda, todo mundo quer storytelling, como se fosse a descoberta da mandioca. Você tentou um tempo atrás trazer de volta esse storytelling sob a forma das rádio novelas, você fez um trabalho legal, montou uma rádio novela, gravou a rádio novela e fez um negócio legal, com roteiro, com  artista, com gente conhecida e tudo mais fazendo os personagens, que é uma coisa instigante porque imaginar ouvir uma radionovela para essa molecada nova aqui é uma loucura, no entanto você pega um podcast que é o queridinho também, o serial nos EUA, aquele treco nada mais é do que quase uma radionovela, é um trabalho de investigação e é contado com efeito de som, com não sei o quê, o cara está lá, falar com o outro, você escuta aquilo e fala meu, isso aqui em 1950 estava no ar e era uma radionovela e milhões de pessoas ouvindo, os caras estão querendo trazer de volta, botar no Brasil também, vou fazer storytelling, isso é radionovela,  você tentou fazer há um tempo e o que que deu?

Roma             Eu consegui, até hoje eu estou com esse produto como amostra de que é possível fazer, eu consegui um cliente específico da região do Espírito Santo e Vale do Paraíba em São Paulo, que bancou o projeto, ele foi para o ar, foi para o ar em várias emissoras, algumas, a maioria emissoras comunitárias, porque com as outras emissoras da área de atuação dessa empresa, a gente fez um outro projeto diferente e  foi um grande sucesso, foi enorme o sucesso e aonde eu vou eu mostro e é uma coisa que em algum momento vai pegar, na linguagem do rádio, ela vai pegar quando tiver menos custo, quando conseguir ter um rebaixamento de qualidade para chegar no ponto onde as emissoras hoje se sentem confortáveis para fazer um projeto, para o rádio de hoje é um projeto meio caro, mas o mais importante é você se dar conta. Eu assisti um dia desses uma apresentação de um mineiro falando, esse negócio de storytelling, isso é causo. Que maravilha. A gente contar causo, causo  é storytelling, então eu acredito que a gente tenha como fazer essas linguagens através de produção independente, uma emissora não consegue montar um elenco, não consegue ter um departamento para isso da mesma maneira como não consegue fazer mais programa de auditório, não consegue fazer transmissão de grandes evento, a emissora, ela tem uma equipezinha pequenininha que dá conta do dia a dia, essas outras produções, elas deverão ser feitas pela produção independente, a hora que esse link tiver estabelecido, patrocínio, emissora, produção independente, isso começar a fluir, o rádio vai melhorar muito, porque de verdade o que a gente tem é produções que hoje o caminho delas vai ser um podcast, vai ser colocar num site e tal, daqui a  pouco as  emissoras vão começar a se  dar conta de que esse tipo de produção de qualidade traz ouvinte, cabe e nesse formato de produção, de produção independente porque eles não vão ter mais um palco “audictório”, não vão ter mais um estúdio como a Transamérica, Bandeirantes, tinham estúdios imensos.

Luciano          Isso abre um nicho fabuloso para negócios, para se montar negócios, então produtores de conteúdo que vão nascer aí aos borbotões e de novo, a produção do conteúdo não está baseada no valor do microfone que eu estou usando, não está baseada na instalação que eu tenho, está baseada na minha capacidade, no  cérebro, ter uma coisa que preste aqui dentro para produzir alguma coisa, legal, quem faz muito bem isso é a Toda Onda e é o Café Brasil.

Roma             Exatamente. E eu uso o Café Brasil, eu estou nesse momento eu estou vendendo meu peixe na área de marketing político, que a campanha está aí e a legislação está muito mais confusa, muito mais complicada e eu apresento, eu fiz uma apresentação num congresso agora no Mackenzie, congresso de marketing eleitoral, eu mostro, falo escuta, dá para você discutir política no rádio, eu mostro o Café Brasil, o Café Brasil toca música, mas o Café Brasil discute ideias e tem sete milhões de downloads de um programa de meia hora, o cara se dá ao trabalho de fazer isso, baixar e ouvir, isso tem muito mais valor do que pegar  um bonde andando em algum lugar, um programa, é um jeito diferente de você trazer a atenção do público e eu falo, na pré  campanha você não tem nada obrigatório, não tem rádio obrigatório, não tem TV obrigatória, você precisa ser muito, seu programa precisa ser muito bom, porque a opção que o ouvinte/eleitor tem é muito grande, então você tem que ter qualidade, então você tem que investir nisso e chegar nas ideias que você eventualmente tenha.

Luciano          Roma, vai faltar tanta coisa para falar, mas já deu uma hora e vinte aqui, a gente já chegou no ponto lá, muito legal, que legal. Se alguém quiser ter contato com o trabalho de vocês, tem um site da Toda Onda, tem um…

Roma             Tem o bom e velho todaonda.com.br, tem também no Face…

Luciano          Está como Toda Onda também no face?

Roma             Toda Onda também, a APRAIA, se tiver algum produtor independente e quiser ouvir e se associar, seu recibinho esta ali fora.

Luciano          Atenção podcasters do Brasil, a gente tem também, nós estamos dentro desse pacote ai, porque eles estão realmente se reunindo para discutir oportunidades, eu sei que vocês fizeram um trabalho interessante aí que foi até um namoro com a TV Brasil, alguma coisa assim, que precisa de conteúdo e talvez haja ali uma capacidade de facilitar até locais para gente colocar esse conteúdo, então etá valendo para podcaster também, não é?

Roma             Sim, porque… dá uma olhada na liga que dá rádio educativa com podcast, um conteúdo com storytelling, com causo.

Luciano          Sim. A APRAIA tem site?

Roma             APRAIA tem, por enquanto é mais fácil encontrar a gente no face porque o site… então no face APRAIA produtoras independentes de rádio, e “tamos aí e não é bafo”.

Luciano          Maravilha. Grande Roma, muito obrigado, prazer ter você aqui. Um abraço.

 

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo