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Ciça Camargo -

Luciano          Muito bem, mais um LíderCast. Eu já comentei em alguns programas anteriores, mas não custa repetir: algumas pessoas ouvem as conversas aqui do LíderCast e imaginam pô, Luciano foi se preparar, foi saber o que os caras fazem, eu nunca faço isso, pelo contrário, eu acho que não me preparar tentando descobrir sobre o entrevistado e tudo mais faz parte do processo de descoberta que aquele que eu acho que é a alma desse programa aqui, que é a gente conversar e levar o assunto para onde puder. Mas sempre que possível faz parte do projeto do LíderCast almoçar com o convidado, então ele chega um pouco mais cedo, como aconteceu hoje, a gente vai, almoça junto, tricota à vontade e nesse tricotar já dá para ter uma ideia muito legal de que tipo de tema que a gente vai tocar aqui. Hoje foi assim, a pessoa que está comigo aqui hoje eu só conhecia de ver na televisão, de ouvir falar e tudo mais e eu acho que vai rolar um programão fantástico aqui. Tem três perguntas que são as fundamentais do programa e que são as mais difíceis, se você passar por elas o resto a gente leva tranquilo, que são eu preciso saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Diógenes       Então Luciano, maior prazer estar com você aqui, meu nome é Diógenes Lucca, eu tenho 51 anos, daqui a pouquinho vou para 52, no próximo dia 10 de junho e eu fui  policial militar durante 30 anos da minha carreira, hoje eu atuo como consultor, eu sou  comentarista de segurança da TV Globo e sou um palestrante também da parte de negociação e liderança, são as minhas atividades hoje.

Luciano          Da onde vem Diógenes?

Diógenes       Diógenes é uma história curiosíssima, meu pai era muito fã dos filósofos gregos e na época que a minha mãe ficou grávida ele falou, se nascer homem vai ser Diógenes, sem negociação. E meu pai tinha uma alegria muito grande por esse filósofo que era caracterizado pela simplicidade, Diógenes, ele tem uma história curiosa porque ele estava ali por ser muito simples ele vivia numa barrica e diz a lenda que um dia o imperador foi lá questioná-lo porque ele prestava serviço para a cidade e etc e bom, chegou lá com aquele seu séquito, seu estado maior, todo acompanhado, chegou na frente de  onde morava o Diógenes nessa barrica e falou assim para ele bom, você que prestou tantos serviços aqui, o que você  quer? Aí ele…

Luciano          Diógenes falou assim: sai da frente que você está atrapalhando o sol.

Diógenes       … exatamente, essa é a história e ai…

Luciano          Essa história é maravilhosa.

Diógenes       … é maravilhosa e ele tinha umas loucuras também de andar durante o dia com uma lanterna acesa e aí que perguntado ele falou, estou procurando um homem honesto, meu pai gostou muito dessas histórias e resolveu manter Diógenes, por isso que eu chamo Diógenes, aí aconteceu uma coisa curiosíssima, porque ele ainda era apaixonado pelos filósofos gregos quando a minha mãe ficou grávida, um ano e um mês meu irmão nasceu e ele queria por Demóstenes, aí houve uma crise na família, minha mãe falou não, Demóstenes não, é muito arrojado, ficou Eduardo e então meu irmão chama Eduardo, daí que veio o Diógenes.

Luciano          Policial 30 anos, policial, o que leva uma pessoa a querer ser policial ?

Diógenes       Olha, eu vou dizer o seguinte, meu pai, a gente veio de uma família muito simples, uma classe média…

Luciano          São Paulo?

Diógenes       … aqui em São Paulo, a gente nasceu na zona norte e meu pai, ele tinha duas coisas que acho que ajudaram ele a exercer uma certa influência não só a mim, mas também no meu irmão em relação a essa opção de  ser um militar, primeiro que nós vivíamos num período de exceção, eu sou nascido em 64 e com 14, 15 anos, estou me referindo a 78, 79, os militares estavam ainda em pleno poder, meu pai acompanhou essa trajetória e viu que obviamente o poder estava na mão dos militares, ser um militar naquela época, Luciano, era uma coisa assim de altíssimo prestígio, inclusive os jovens de classe média alta e ricos procuravam muitas escolas militares nessa época sabe, para poder entrar, os concursos sempre foram muito rigorosos, essa carreira ela assim, além de prestígio ela tinha outra coisa que importava muito para o meu pai que era a estabilidade. Meu pai como era de uma classe mais simples, ele imaginou o seguinte: falou não vou ter condições de sustentar meus filhos numa universidade privada e para alcançar uma universidade pública talvez seja um pouco mais complicado e ele também tinha essa predileção pela carreira militar, então ele nos estimulava desde cedo, a gente ia naquelas exposições do exército, nos desfiles de 7 de setembro, então houve essa conjunção de fatores a ponto de quando nós chegamos aí ao final do primeiro grau, as opções pelas carreiras militares já se faziam presentes e alguns amigos e eu nos interessamos e fomos fazer cursinho para poder prestar esse vestibular tremendamente concorrido, foi quando então eu entrei na polícia militar.

Luciano          Com 15 anos.

Diógenes       Com 15 anos eu entrei na academia de polícia militar do Barro Branco, aqui na zona norte de São Paulo. Na verdade, eu não queria ser da polícia militar, eu queria ser da força aérea, meu sonho era ser piloto inicialmente, mas eu tinha um probleminha de vista, uma miopia que naquela época era uma condição que não se aceitava, a vista era 00 que eles chamavam à época, eu passei na força aérea mas optei pela polícia militar porque eu vi que a minha chance de ser reprovado nesse exame médico ia ser muito grande, eu entrei na academia de polícia com 15 anos, fiz o colegial lá dentro, um colegial em regime…

Luciano          Numa época em que ainda existia o colegial.

Diógenes       … exatamente, ainda existe em algumas escolas na polícia militar não existe mais o colegial lá dentro, já deixou de existir, mas na época, na década de 80 ainda existia, então eu fiz o colegial lá dentro, é um colegial em regime integral, ou seja, a gente fica no regime de internato e além das matérias curriculares do segundo grau, você tem as matérias profissionalizantes, então tem toda a parte de estética militar, a parte de armamento, a parte de algumas doutrinas da polícia, já como um preparatório, é como se fosse uma atividade extra curricular, mas como está no regime integral você tem todo o tempo para fazer essas coisas. Eu tive filosofia, por exemplo, na escola militar, que você não tinha no colégios estaduais na época, eu tive não só uma língua, eu tive duas línguas que eram inglês e francês, então o currículo de uma escola militar, ele até hoje na marinha, na força aérea e até no exército, os colegiais profissionalizantes, nas escolas preparatórias que nós chamamos, elas ainda têm um altíssimo nível de prestígio e aí obviamente a grande vantagem é que você já conquista a matrícula garantida para o curso superior, quem entra nessa porta de entrada que é o colegial, passou por esse concurso, não precisa fazer um outro concurso, já emenda, isso acontece em todas as forças militares das forças armadas e também na polícia, acontecia à época e aí eu emendei mais três anos do curso de formação de oficiais, que é um curso…

Luciano          Eu fiquei muito bem impressionado, eu fiz duas palestras na Barro Branco e uma delas foi exatamente nessa formação, que é uma espécie de uma pós graduação para os oficiais, tinha na plateia 300 oficiais que estavam ali e eu conversando entre eles, conversando com o comandante, o comandante pegou e chamou assim, tinham qautro, fulano vem cá, estavam ali do lado conversando, vem cá, fizeram uma rodinha, conta para ele as teses e cada um deles começou a me contar a tese que seria o equivalente ao TCC dele e eu fiquei impressionado, porque eram, os caras estavam estudando temas assim profundamente pertinentes e que tinham a ver com psicologia, antropologia, sociologia e eu ouvindo aqueles caras falei o que é isso? Daqui vão sair 300 oficiais que vão comandar esse povo. Eu faço questão de colocar isso aqui porque nós vamos tratar muito desse assunto hoje da segurança pública e de polícia, etc e tal e há um imaginário na população brasileira que é muito diferente daquele de quando você tinha 15 anos, por isso que eu te cutuquei aqui, o que leva um garoto a ir para a polícia e você olhou e falou pô aquilo era todo mundo queria ser, era um sonho, havia um prestígio em ser lá e durante muito tempo houve um trabalho muito grande, hoje em dia você olha e se bobear o cara fala na polícia não, porque polícia eu tenho mais medo de polícia do que de bandido, não é raro você escutar esse tipo de coisa, então eu queria contextualizar esses dois momentos que a gente está vivendo, quer dizer, a formação policial continua sendo de altíssimo nível, um cara para chegar a nível de comandante ele vai passar por um processo de educação que eu não sei se tem muita coisa igual fora das escolas militares, não sei se existem currículos tão profundos, mas só botei aqui para contextualizar o que nós estamos falando.

Diógenes       Não, é verdade. O fato é que por exemplo, essa turma que você deu aula com certeza são oficiais capitães e oficiais majores e tenentes coronéis, os capitães fazendo um curso que nós chamamos de curso de aperfeiçoamento de oficiais que habilita o capitão ao oficialato superior, que começa com o posto de major e o outro que pega os majores e tenentes coronéis que já são oficiais superiores que fazem o curso superior de polícia. Esse habilita o oficial a ser coronel da polícia que é o último posto nosso, esses dois cursos hoje, Luciano, eles têm uma consideração em nível de mestrado e doutorado, são mestrado e doutorado profissional seguindo os padrões das forças armadas, é claro que ainda a gente não conseguiu fazer com que o nosso curso de mestrado seja equivalente a um mestrado civil, que você demora dois anos lá, o nosso curso é mais reduzido e o mesmo acontece com o doutorado, o doutorado no meio civil, vamos dizer assim, é de cinco anos para obter uma diplomação de um doutorado, lá o curso, ele é considerado doutorado mas é um doutorado profissional, agora eu posso falar uma coisa para você, mesmo não obedecendo essa exigência do MEC, que é comparado com os civis, existe alguns trabalhos e não são poucos no nível de doutorado e no nível de mestrado que eles não perdem em nada para um doutorado, para um mestrado comparado com… sabe, são trabalhos robustos, são trabalhos acadêmicos de altíssimo nível, nem todos são assim, nem todos são assim, eu gostaria muito que esses cursos continuassem caminhando para se equiparar àquilo que o MEC hoje, que o ministério hoje estabelece como um curso de mestrado e doutorado, a polícia não conseguiu ainda achar esse ponto, esse ponto de evolução, mas eu diria assim, que alguns trabalhos são muito bacanas, são muito parrudos em termos de ser…

Luciano          Ou seja, a academia da polícia não é uma fábrica de brucutus.

Diógenes       … não, não é, não é, ela obviamente infelizmente o espaço que a mídia reserva para a polícia é um espaço pequeno diante da grandiosidade da polícia faz, é claro que nós…

Luciano          Nós vamos chegar aí. Você então se forma, você seguiu todo o processo, saiu lá na frente formado…

Diógenes       Eu já saí tenente.

Luciano          … saiu tenente.

Diógenes       Saí aspirante a oficial, você terminou o curso declarado aspirante a oficial que é um estágio probatório, esse posto é um posto temporário, na minha época ficava seis meses a oito meses, agora já fica um ano e aí a partir daí você é promovido automaticamente ao posto de segundo tenente, começa sua carreira no oficialato, foi o que aconteceu comigo.

Luciano          Você tem irmãos?

Diógenes       Tenho um irmão. Tenho meu irmão.

Luciano          Mais velho, mais novo?

Diógenes       Meu irmão é um ano mais novo que eu, que seria o Demóstenes, lembra que eu falei? E meu irmão seguiu a mesma carreira, só que o meu irmão, ele não é policial, ele entrou na marinha, ele fez o colégio naval que era o colégio mais concorrido de todos os vestibulares, o mais pesado e ele passou no colégio naval, ele foi, ele não se adaptou muito bem na marinha, aí entrou na força aérea e hoje meu irmão é um coronel da força aérea, está terminando a carreira dele, investiu na área científica, meu irmão, ele é doutorado em sensoriamento remoto, participa da alguns eventos que cuidam desse assunto em Genebra, enfim…

Luciano          Seu pai e sua mãe viram vocês dois formados?

Diógenes       Meu pai, infelizmente meu pai no ano 2000 meu pai faleceu, minha mãe está viva até hoje, muito orgulhosa dessa trajetória nossa, meu pai viu os dois filhos formados, mas no ano 2000 meu pai foi acometido de um câncer muito agressivo no cérebro e em um ano a doença o levou, ele viu parte do nosso sucesso, ficou feliz a ponto de nos ver formados, mas não viu aí  o resto da nossa trajetória.

Luciano          Legal.  Então pelo brilho nos olhos eu estou diante de alguém que é um “puliça” que tem orgulho de ser “puliça”, maravilha, vai render a nossa conversa aqui. Você se forma então, em que ano era?

Diógenes       1984.

Luciano          84.

Diógenes       15 de dezembro de 84 terminei meu curso e fui declarado aspirante e fui trabalhar.

Luciano          E aí a tua ideia era realmente continuar, agora sou polícia e vou seguir carreira.

Diógenes       Aliás, muitos de nós, a maioria de nós, quando se forma numa academia militar e sobretudo no oficialato, a gente quer seguir carreira, a gente quer seguir a carreira, é a carreira que nós escolhemos.

Luciano          Então me explica rapidamente como é que é isso aí, tirei meu diploma de dentista, que é que eu vou fazer? Vou montar um consultório ou vou arrumar um emprego numa empresa. Um policial, estou aqui com meu, eu não sei o que que você, não é um diploma que você tem na mão, o que que é?

Diógenes       É, na verdade é uma carta patente.

Luciano          Então eu estou com a carta patente, agora o que eu vou fazer? Vou numa delegacia e falo vocês estão precisando de alguém aí?

Diógenes       Não, na verdade a polícia tem uma estrutura já toda compartimentada em diversos… a polícia, para você ter uma ideia, é uma polícia estadual, então nós estamos na polícia de São Paulo. Minha formação é válida para a polícia militar de São Paulo, a polícia está espalhada nos 645 municípios, com as suas diferentes estruturas e aí nós temos grandes comandos, comandos regionais, batalhões, companhias e vai descendo até o nível mínimo de um destacamento de polícia que é comandado por um cabo da polícia, um destacamento um pouco maior, um sargento; uma cidadezinha um pouco maior tem um pelotão, que aí já entra a figura do tenente; uma cidade um pouquinho maior tem uma companhia, que já entra a figura de um capitão e uma cidade ainda mais robusta como, por exemplo, a sua lá em Bauru, tem um batalhão, que é comandado por um tenente-coronel, então isso tudo está distribuído de forma muito organizada no estado inteiro e aí quando a gente se forma, uma turma se forma, eles fazem uma pesquisa um pouquinho antes para ver tem as vagas, onde tem as vagas disponíveis…

Luciano          Quer dizer, você não escolhe aonde você vai servir?

Diógenes       Não, escolhe também, porque aí tem uma questão de classificação e entre as vagas, as vagas disponíveis, os melhores classificados começam a escolher o que vão fazer, porque na polícia, a gente fala assim, policial, mas tem várias modalidades de trabalho sabe Luciano. Por exemplo, tem o policial do policiamento, tem o policial da polícia ambiental, tem um policial de trânsito, tem um policial da polícia rodoviária, tem um policial da parte administrativa, tem um oficial da área de telemática, tem oficial da área de inteligência, nós temos diversos departamentos, cada departamento desse tem alguns predicados, alguns requisitos e aí os candidatos, de acordo com a sua classificação, escolhem para onde vão, é claro que em  geral um recém formado, um aspirante, ele tem que começar a carreira naquilo que é mais importante para a polícia, que é no policiamento, então a maioria deles vai para o policiamento antes de ir para as chamadas unidades especializadas.

Luciano          Você foi para o policiamento?

Diógenes       Eu fui para o policiamento.

Luciano          Então vamos visualizar um momento aqui, você… se não for assim que funciona você me corrija por favor, mas eu quero que você volte no tempo aqui e imagine o seguinte, você acordou de manhã, está pela primeira vez colocando teu fardamento completo, porque é o primeiro dia que você vai sair à rua para o primeiro policiamento da sua vida, como é que foi?

Diógenes       Então, começou que eu já tive o privilégio de, ao iniciar minha carreira no policiamento, Luciano, eu fui para um batalhão de policiamento, mas um  batalhão de elite que foi a Rota, a Rota de São Paulo…

Luciano          Você começou na Rota?

Diógenes       … comecei na Rota, comecei na Rota a minha carreira.

Luciano          Que idade você tinha?

Diógenes       Eu tinha 21 anos. Só que a Rota, por ser um batalhão de elite, ele tem todo um ritual quando chegam os aspirantes, você não vai logo no primeiro, o primeiro dia, a primeira semana, nós fomos divididos em turmas, nós fomos em onze aspirantes para a Rota e aí nós fizemos, primeira semana, um revezamento para conhecer a unidade em todas as seções do Estado Maior, cada batalhão tem a sua, a gente chama de estado maior, que por exemplo, a primeira seção cuida do pessoal, a segunda seção inteligência, terceira seção operações, a quarta seção cuida da parte de equipamentos e suprimentos e a quinta seção, a seção de comunicação social, todo batalhão é assim.

Luciano          Para quem não conhece muito bem, a Rota é Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, era uma unidade, digamos assim, de elite numa época em que não se falava muito em polícia de elite, mas já era uma unidade de elite dentro da polícia militar, que entrou para a história com um rótulo que eram os truculentos que quando entrava era para arrebentar, era para quebrar e entrou para a história com isso, eu vou tentar agora completar essa história e mudar esse rótulo, explorando você um pouquinho. Por que que você foi parar na Rota? O que te levou? Você ficou bem colocado na tua…

Diógenes       Ótima pergunta essa aí, porque quando eu cheguei na polícia, eu não sabia nada de polícia, eu sou pioneiro na família, então quando eu cheguei na academia de polícia, que era a seis quilômetros da minha casa, eu não sabia onde era academia do Barro Branco, então era tudo novidade para mim, mas quando eu pus o pé lá que eu vi o que era ser um policial, eu falei se é para ser um policial, eu quero trabalhar na melhor unidade de polícia de policiamento e a Rota era a unidade de policiamento, eu me esforcei bastante para poder atingir a nota necessária e também, a Rota é igual aviação de caça, fazendo um comparativo, o aviador de caça, ele tem que fazer a opção, tem que ter a vontade dele e a vontade dos caçadores em receber esse sujeito, é uma vontade dupla, ele tem que ser bem recepcionado, ou seja, tem que ser benquisto e tem que também ter o desejo. A Rota é a mesma coisa, não adianta só querer ir para a Rota, tem que ver se os oficiais que estão presentes naquela época queriam você lá, enxergam em você um potencial para ser um membro daquela unidade e eu tive o privilégio…

Luciano          E eles vão saber de você, que vai chegar na mão deles um dossiê.

Diógenes       … vão pesquisar, eles pesquisaram todos e etc, eles selecionaram aqueles que eles achavam que tinham o perfil mais adequado e aliás, Luciano, foi o dia mais feliz da minha vida o dia que eu fui classificado na Rota e lá chegando, nós primeiro fizemos um estágio na parte administrativa do batalhão para entender o batalhão e depois nós fomos começar a fazer o estágio operacional, o estágio operacional, ele começa assim: você vai com um tenente, já consolidado, um tenente já formado e já está trabalhando lá e você vai no banco de trás, então vai o tenente, o motorista na frente e no banco de trás da viatura vai dois soldados, um de cada lado e você no meio e você fica só observando, é o estágio de observação, você fica uns quinze dias assim, sem abrir a boca, sem fazer muita pergunta e aí você vai sentindo como funcionam as coisas. Depois…

Luciano          A primeira vez você foi à rua ou foi assim?

Diógenes       … foi assim no meio do banco de trás, entre dois soldados.

Luciano          Volta lá, quero te explorar: esse dia que você saiu de casa e botou a farda de manhã e falou bom, hoje é o primeiro dia que eu vou à rua, como é que estava teu estômago?

Diógenes       Então, obvio que na academia eu já tinha feito alguns estágios, faz parte da formação acadêmica do oficial, você já fazer uns estágios supervisionados mesmo como cadete, então eu já tinha uma noçãozinha e muito reservadamente, eu conto, agora que todo mundo nos ouça, que eu era  tão vocacionado que às vezes, na hora de folga, eu ia procurar esses estágios fora do currículo, com os meus amigos que já eram formados e às vezes os caras me levavam, naquela época não tinha tanta… era até bem visto isso e eu fazia esse esforço para poder aprender mais coisas, então no primeiro dia que eu fui, na verdade não foi o meu primeiro dia, foi o meu primeiro dia oficialmente, mas foi uma coisa muito emocionante, Luciano, porque a hora que eu entrei naquela viatura, mesmo… a Rota, como qualquer batalhão de elite, ele tem uma série de ritualísticas, uma das ritualísticas da Rota era você andar com aquele braçal da Rota, que é o símbolo que a gente usa no braço, as letras douradas impecavelmente limpas e não é qualquer um que já chega e já põe o braçal, você tem que fazer um estágio probatório para ver se você pode receber o braçal, depois desse estágio e se você se deu bem no estágio, você foi aprovado no estágio, aí tem a cerimônia de entrega do braçal, é quando você está ali reconhecido como um oficial da Rota, ou como um praça da Rota, no caso dos praças. Então no primeiro dia eu fui com muita emoção porque eu estava pela primeira vez pertencendo ao batalhão de forma oficial, ainda que estagiário, sem braçal, sem nada, mas eu já me sentia do time, então foi uma coisa assim magnífica para mim, um momento marcante, não só ter sabido que eu estava indo para a Rota, mas quando eu comecei a fazer os meus estágios operacionais que a gente começa a ter uma visão do que é o trabalho de um policiai no dia a dia, fazer as abordagens, verificações, verificar como se procede, colocar em prática tudo aquilo que eu havia aprendido lá na academia, na formação, então foi um exercício prático daquilo que era a aplicação teórica que nós tivemos, foram…

Luciano          Quem era o governador na época?

Diógenes       Era o Franco Montoro ainda.

Luciano          Isso é pré Maluf ou pós Maluf?

Diógenes       Isso é pós Maluf.

Luciano          Isso é pós Maluf. Então a Rota já vinha com uma aura …

Diógenes       É, a Rota sofreu um revés curioso nessa gestão do Montoro que foi, até hoje o Paulo Maluf se aproveita desse negócio, colocando, ah vou por a Rota na rua, mas é bom que todo mundo saiba o que aconteceu de verdade para ele usar esse jargão, o Montoro, quando ele foi eleito, ele fez algumas alianças com partidos, na época, de extrema esquerda que começaram a patrulhar mais ideologicamente a polícia, a polícia andava muito à vontade sabe,  Luciano, diga-se de passagem e esses partidos começaram, esses grupos, essas organizações começaram a questionar algumas ações da polícia que eram de fato questionáveis,  só que a polícia não estava preparada para receber esse tipo de coisa e como o Montoro tinha feito algumas alianças muito importantes, ele resolveu por uma medida totalmente draconiana, ele tomou uma atitude que foi o seguinte: ele falou assim, olha, a partir de hoje as viaturas da Rota não serão mais cinza como sempre foram, elas vão ser em cinza com a porta branca, como eram todas as outras viaturas, a diferença da viatura da Rota vai ser um pequeno R estilizado, que até hoje é o símbolo do batalhão, pintado nesse branco da viatura, começou por aí, quando um leigo bate o olho e vê as chamadas  “asas brancas” , as viaturas com as portas brancas, ele não percebe aquele R estilizado, então deu impressão que a Rota deixou de existir, foi a primeira coisa que, um aspecto visual que deu a bala na agulha para o Maluf. A segunda coisa que o Montoro fez ainda em complemento a esse tipo de medida, foi o seguinte, a Rota, Luciano, ela sempre foi caracterizada por ser um batalhão que vai aonde os policiais ordinários não vão, na periferia, nas condições mais complicadas, onde a sociedade mais precisa da presença do policial, por ser um policiamento de elite, um policiamento robusto e fortalecido e com muita técnica é capaz de entrar nesses territórios às vezes mais inóspitos e o Montoro deu uma ordem naquela época que foi o seguinte: a Rota só vai patrulhar a zona central da cidade de São Paulo, foi como um tiro no coração, porque a Rota era vergonhoso para nós naquela época, ficar patrulhando aqui em Higienópolis, centro da cidade. A vocação da Rota era estar na periferia, então com duas medidas, duas canetadas, vamos dizer assim, ele fez o que? Ele tirou a visibilidade e tirou a Rota da periferia, a Rota nunca deixou de existir, nunca, ela nunca teve um dia que ficou sem Rota na rua, mas ela teve o momento que o aspecto visual dela ficou poluído, combinando com as outras e também um momento que ela ficou circunscrita apenas à área central, o que gerou esse grande trunfo do Maluf até hoje de falar “ah eu vou por a Rota na Rua”, “vou tirar a Rota da Rua”, “vou por a Rota na rua”, mas foi isso que aconteceu de verdade, foi esse momento e foi um momento que eu estava lá, inclusive…

Luciano          Você passou por essa mudança?

Diógenes       … passei por isso, isso aconteceu em 86, eu me formei em 84, fui trabalhar na Rota em 85, em 86 que veio essa mudança, aliás foi uma mudança muito triste para todos nós, muito complicada, sabe, para a Rota porque, como eu disse, era contra totalmente à vocação de um policial de Rota ficar trabalhando aqui na área nobre da cidade, a gente foi formado para atuar aonde era a área mais perigosa, as áreas mais necessitadas também.

Luciano          Esse programa nosso aqui é um programa sobre liderança e empreendedorismo, esse é o meu foco sempre aqui, vou tentar puxar sempre você para esse trilho aqui. É claro, quando você fala para mim da Rota e tudo, é uma tropa de elite, a gente entende que esse é um grupo de pessoas que só existe por atuar em grupo de uma forma, não consigo imaginar um núcleo que seja mais trabalho em equipe do que seja um grupo de elite de polícia e de repente sofre esse desprestígio, essa grande brochada. Como é que isso impacta num sujeito que vai sair na rua com a arma na mão e com o poder da força, o poder da autoridade sobre os civis normais e de repente esse cara está brochado, desmotivado, como é que se enfrenta isso?

Diógenes       Olha, não foi fácil, Luciano, ainda mais assim com 21 anos, que você está voando baixo, você entendeu? Você experimentar um revés como esse, isso catapultou o meu sonho, eu fiquei cinco anos na academia de polícia, do colegial até a formação, quase seis, juntando o aspirantado, para poder fazer aquilo que eu tinha sonhado e aí acontece logo depois, no início, na fase tenra da minha carreira um negócio como esse, foi muito difícil, mas hoje eu faço uma análise, Luciano, que eu lembro muito e gosto muito daquele discurso de Steve Jobs, quando ele se forma em Stanford, que ele faz uma alusão aos pontos que se conectam no  passado que você às vezes não  se dá conta sabe, e como eles no futuro, você vê que as  conexões foram feitas, eu adoro isso porque a hora que eu coloco a minha vida no retrovisor, eu vejo que isso me ajudou demais e uma lição que eu compartilho hoje nas minhas palestras, é a questão de a gente entender o conflito como algo que é muito mais comum entre nós, seres humanos, do que a harmonia, o entendimento, no livro que eu lancei há 2 anos, que chama “O Negociador”, a primeira lição que eu compartilho com as pessoas é de a gente resignificar o conflito, rentabilizar essa questão do conflito como algo muito mais comum, como  eu disse, do que a harmonia e o entendimento entre as relações interpessoais e quando você passa a interpretar o conflito como algo que é comum as…

Luciano          Inerente ao ser humano.

Diógenes       … inerente ao ser humano, a tua vida muda, você fica muito mais tolerante, você fica muito mais cauteloso, você sabe esperar melhor, que é uma baita de uma virtude, dar tempo ao tempo, achar melhor os princípios da conveniência e da oportunidade, então isso me ajudou demais, eu experimentei nesse momento, não foi fácil, foi muito desmotivante, mas obviamente é o que eu sempre digo, quem consegue sobreviver ao processo sai dele mais fortalecido, não é?

Luciano          Deixa eu colocar um ponto importante aqui que eu acho que tem tudo a ver com esse momento que a gente passa no Brasil, que é a diferença que existe entre conflito e confronto, quando você fala que o conflito é inerente ao ser humano, o conflito não só é comum, como é necessário, aliás do conflito é que vem o choque das diferenças é que você pode criar ideias novas, você pode chegar no entendimento etc e tal, passa pelo conflito de ideias, mas conflito não é confronto, do conflito você pode fazer uma escolha e brotar o confronto e  aí meu, aí é pau na cabeça, então quando você fala essa  coisa do conflito, é bom a gente sempre manter isso aí, estamos falando de conflito, que é o enfrentamento de ideias, é a hora que você tem que tomar uma escolha para um caminho, não é o confronto, que aí é bom ser da Rota na hora do confronto. Mas muito bem, aí você fica na Rota durante algum tempo e vamos chegar no GATE.

Diógenes       Então, aí o que acontece? Eu fico na Rota durante um tempo, eu saio e vou fazer um curso e nesse meio tempo é que acontece é que surge um novo projeto aqui na polícia de São Paulo que era necessário, a gente vinha de uma polícia, uma polícia que era defensora do estado, eu fui formado nessa polícia, a minha formação era uma polícia defensora do estado, a sociedade era segundo plano, com o processo de abertura democrática, que começou em 79 mais aquelas diretas já em 85, mais a Constituição federal em 88, nós começamos a viver, no final da década de 80 e início da década de 90, um processo de democratização do país, um início, não é? E a polícia obviamente respirando esses novos ares teve que achar um novo significado e adotou muitas medidas para poder estar convergindo com esse espírito. Uma delas foi a mudança dos currículos, a mudança do nosso fardamento, a mudança de foco, Luciano, por exemplo, deixar de ser uma polícia defensora do estado para ser uma polícia defensora da sociedade, o nosso fardamento mudou, ficou um fardamento mais urbano, mais decente, aquela coisa muito agressiva, aquelas viaturas pintadas de preto e vermelho que deixava todo mundo preocupado, passou a ser uma viatura com uma cor mais palatável, um cinza, etc, os conceitos de polícia comunitária, começaram a surgir nesse momento alguns convênios que a polícia fez com o modelo japonês que nós temos aqui que é de polícia de proximidade, de bases comunitárias fixas e móveis, tudo isso a gente copiou do Japão. Até hoje nós temos um convênio com a Jaika que é uma entidade japonesa que promove intercâmbios onde oficiais da polícia militar de São Paulo vão para lá aprender com os japoneses esse modelo que a gente gostou demais, tinha vários para copiar ou para se inspirar, a polícia de São Paulo preferiu o japonês que é essa  de polícia de proximidade, é óbvio que isso é um processo muito complexo, exige uma mudança  cultural e você sabe que mudança cultural não é coisa que se faz em 1, 2 ou 10 anos,  é uma coisa de geração, mas a gente começou a experimentar isso daí e aí surge a ideia de ter uma tropa semelhante às tropas especiais que acontecem no mundo inteiro, por exemplo, às vezes a sociedade tem um problema, ela chama a polícia, mas às vezes a polícia tem um problema, ela precisa chamar alguém e aí tem as tropas especiais, nos EUA são as SWAT’s, na Alemanha são os GSG9, na França ficou famoso agora por conta do Charles Hebdo o GIGN, na Inglaterra é SIS, aqui na Argentina são as Forças Especiales, ou seja, todas as tropas militares e tropas de polícia tem os seus chamados grupos especiais, nós optamos, aqui em São Paulo, por nos inspirar na SWAT, a SWAT de Miami foi a SWAT escolhida por nós até pela proximidade para ser o nosso motivo de inspiração. Em 1990 eles vieram para cá, fizeram o curso conosco, foi muito curioso esse curso, porque eles já davam cursos para outros países que queriam formar suas polícias e eles falavam o seguinte, está no meu livro isso inclusive, eu conto essa história, eles falaram o seguinte, olha, de 100 caras que vem fazer o curso com a gente, normalmente 40 chegam ao final, 40%, e nós achávamos que isso era uma, aqui no Brasil ia ser diferente, ia dar uma acochambrada, mas não deu outra, nós começamos esse curso com 28 policiais militares do GATE e com 35 policiais civis da polícia civil, dos 35 policiais civis, apenas 8 terminaram, porque a parte física da polícia civil, normalmente é um pouco mais fraca e dos 28 policiais do GATE, apenas 18 terminaram, nós perdemos 10 policiais durante o curso e aí você junta aí os 18 da polícia militar e os 8 da polícia civil, do universo, deu 40%, eles estavam corretos, a tradição se manteve, mas isso foi o pontapé inicial importantíssimo para nós, para a gente começar os trabalhos aqui de criação do GATE…

Luciano          O que quer dizer GATE?

Diógenes       GATE é Grupo de Ações Táticas Especiais, é uma tropa hoje que, desde que nasceu ela se mantem até hoje, o GATE nasceu em 88, nós estamos indo aí, já completar 30 anos, o GATE gira em torno de 60, 70 homens e hoje o GATE tem três responsabilidades práticas, que eu diria que são as mais importantes, as ocorrências com reféns localizados, ou seja, o cara vai fazer um assalto, não deu certo, fez um refém, então lá vai a equipe de negociadores do GATE junto com a equipe tática para pode resolver, uma outra atividade do GATE é a parte do esquadrão de bombas, quando tem ameaça de bomba, encontro de  objetos suspeitos de serem bombas, vai lá o esquadrão de bombas e uma outra atividade que a gente faz  quase que com exclusividade quando tem uma grande rebelião no estabelecimento prisional, o GATE também é chamado, fora isso a gente atua muito na formação  de outros policiais, treinando outros policiais, dando requisitos básicos assim de como lidar com o que nós chamamos gerenciamento de crise, então essa é a rotina do GATE.

Luciano          E o GATE é uma unidade em São Paulo ou tem no Brasil inteirinho?

Diógenes       O GATE assim, as polícias elas nós temos duas polícias, a polícia federal que tem o seu GATE que chama COT lá, que é uma tropa super bem treinada que dá atendimento à polícia federal nas atividades que dizem respeito à União, nos estados membros nós temos as polícias civis e polícias militares, cada uma delas tem o seu grupo tático que dá suporte às suas ações. Na polícia militar de São Paulo é o GATE, o GATE atua no estado inteiro, essa é a função do GATE, a gente fica aqui na capital, mas se tiver algum tipo de problema, como já aconteceu na minha gestão, dos 11 anos que eu fiquei no GATE, atendi ocorrências em várias cidades do estado de São Paulo, Presidente Bernardes, Presidente Epitácio, Campinas, enfim, litoral, a gente está aí à disposição do estado inteiro, mas a sede é aqui em São Paulo.

Luciano          Você ficou 11 anos no GATE.

Diógenes       Eu fiquei 11 anos no GATE, eu fiquei 4 anos como tenente, como fundador, fiquei do zero aos quatro primeiros anos, eu saí, fiquei seis anos fora e aí eu volto em 1998 para comandar o GATE, fico sete anos como comandante do GATE,  no período de maior efervescência da violência urbana, faço lembrar aqui que aquela facção criminosa auto intitulada PCC, começou colocar suas manguinhas de fora em 93, um ano depois daquela detenção, mas eles começaram a incomodar mais fortemente a partir de 98, que coincidiu no meu comando do GATE e culminou em 2006, quando fecharam a cidade aqui, então nesse período todo que o PCC estava arrepiando aqui a  boca do balão em São Paulo, eu estava no comando do GATE e tive muitas intervenções, muitas operações lidando com esse tipo de gente.

Luciano          O GATE se envolveu no episódio da casa de detenção?

Diógenes       No Carandiru…

Luciano          No Carandiru?

Diógenes       … no Carandiru o GATE se envolveu, o GATE, toda a tropa de choque estava envolvida, eu não estava nesse período, eu saí do GATE em 92, em março, o negócio explodiu em outubro, eu não estava no GATE naquela época, o GATE teve envolvimento nessa operação que resultou…

Luciano          Mas seus companheiros estavam lá e entraram…

Diógenes       … meus companheiros estavam lá e obviamente sofreram, foram processados todos eles, esse processo durou de 92 até recentemente, há questão de dois anos atrás, houve o julgamento, eles foram todos condenados, estão recorrendo  aí numa segunda instância, mas eu digo, está escrito no meu livro também essa história, eu costumo dizer que o Carandiru é a crônica de uma tragédia anunciada, Luciano, é a expressão que eu uso, porque o que acontece? Na década de 70, na década de 80, como a polícia não é uma polícia de muita pegada, uma polícia defensora do estado, quando tinha uma rebelião num presídio, Luciano, sabe qual que era a metodologia da polícia? A polícia ia lá, quando chamada, entrava, arrebentava tudo e todos, era corredor polonês e assim, quando era alguma coisa mais grave, Luciano, quando tinha assim funcionário como refém e etc, era comum sair três, qiatro mortos envolvendo os criminosos lá, os protagonistas, então morrer gente em presídio quando tinha uma coisa mais grave, não era muito incomum e também não era muito reclamado, a polícia foi se acostumando com esse tipo de coisa e aconteceram antes do Carandiru, do 111, aconteceram outros incidentes que morreram, por exemplo, no Manicômio judiciário de Franco da Rocha, teve um lá que foi uns 20, mais ou menos e nunca a sociedade falou nada e a polícia cometeu um erro, o erro foi o seguinte: deixar de perceber a mudança, Luciano, o mundo se caracteriza pela mudança e o mundo moderno pela velocidade essa mudança, cada vez mais, a polícia não percebeu essas mudanças, não percebeu os ventos democráticos que sopravam por aqui a partir de 79, não percebeu as diretas já em 85, não percebeu a Constituição cidadã em 88 e continuou agindo com a mesma modalidade, isso aconteceu em 92, já tinha 4 anos de Constituição, o Brasil já era outro e a polícia quando entrou lá, entrou para agir da mesma maneira que agia antigamente.

Luciano          Eu vou usar em alguns momentos o que está no imaginário popular aqui, porque acho que quando você fala em polícia no Brasil, nós temos um fenômeno cultural que aconteceu nos últimos anos aí que para mim é extremamente marcante que são os dois filmes Tropa de Elite, o 1 e o 2, no Tropa de Elite 2, tem um momento da abertura do filme, começa com uma encrenca dentro, uma rebelião dentro da penitenciária onde o comandante está aqui e  a tropa está lá e ele está comandando os caras, vai devagar, vai devagar e de repente um deles que é o comandante, eu não sei o que ele era ali, ele decide tomar a iniciativa por conta própria e mata o bandido lá…

Diógenes       É o Tenente Matias.

Luciano          … exatamente, tenente Matias e aí você fica vendo que o seguinte, o comandante que estava tocando aquele negócio, ele não conseguiu que o imediato dele agisse do jeito que ele pediu e você vê ao mesmo tempo o imediato lá na ponta, com a arma na mão, aquela adrenalina, o sujeito e você se coloca no lugar deles e fala  o que eu faria no lugar dessecara? Será que eu daria um tiro no bandido também para liquidar o assunto ou não? Como é delicada essa coisa da tomada de decisão e o filme depois de desdobra com as consequências daquele episódio lá, o que eu queria colocar para você era explorar um pouquinho você, essa questão toda de você exercera liderança de um time de pessoas que trabalham no limite da adrenalina e que em algum momento vai ter que tomar uma decisão de vida ou morte, quer dize, isso está muito além das decisões que eu tomo no meu dia inteiro, porque eu estou aqui, a decisão que eu vou tomar é a seguinte: eu vou ganhar ou vou perder dinheiro, vai dar certo ou dar errado o meu negócio, vou me dar bem aqui, vou fazer um bom negócio ou não vou. De repente a situação é a seguinte: mato ou não mato? Morro ou não morro? Como é que é liderar um grupo que tem que lidar com esse tipo de adrenalina?

Diógenes       Olha, Luciano, é uma pergunta maravilhosa, mas é uma pergunta que me exige uma resposta ampla, primeiro que começa num curso sabe, a gente já sabendo que esse é o universo que nos espera, esse o ambiente que nos espera e o filme Tropa de elite trouxe algumas coisinhas disso daí, um pouco talvez, fantasiosa também, mas assim, foi muito interessante alguns princípios de tropas especiais, voou dar alguns exemplos para você. O primeiro deles é o seguinte: nós acostumamos trabalhar com o desconforto, o desconforto é o nosso habitat, a gente é todas as atividades nossas, em termos de treinamento, elas partem desse princípio, vou dar um exemplo para você e para quem vai nos escutar, uma coisa é você fazer um rapel de cachoeira para treinar a técnica de fazer um rapel, outra coisa é você fazer um rapel de cachoeira ou fazer um exercício de rapel, depois de uma hora de educação física com meia hora de supinos aí no braço e seu braço em condições totalmente com lactose e etc e com dificuldade, a gente é treinado para trabalhar com desconforto, a gente é trabalhado no curso para lidar com situações de alta tensão, situações claustrofóbicas, para você ter uma ideia, a oração do guerreiro que é um mantra para nós, ela começa assim: “Ó Senhor meu Deus, dai-nos apenas aquilo que vos resta”, vou explicar, nenhum homem de operações especiais pede para Deus o que todo mundo pede, o que todo mundo pede, a gente parte do princípio que o estoque está baixo, a gente só pede o que sobra. “Dai-nos a sede, dai-nos o frio, dai-nos a fome, dai-nos a sede”, ao pedir isso para Deus, é como se nós fizéssemos de forma metafórica o entendimento duplo, primeiro que quem precisa da gente está numa condição super complexa, super difícil, onde tem escuridão, onde tem a fome, onde tem a pobreza, onde tem a desgraça, é lá que precisam da gente, mas ao mesmo tempo ao pedir isso, a gente ganha uma coisa que é um espírito de vencer os obstáculos, é daí dessa frase que surge o “missão dada, missão cumprida”, a gente não briga com meta, a gente vai para cima, é uma coisa da nossa formação. “Mas dai-nos acima de tudo, o Senhor, a fé, a força, a coragem e a vontade de vencer”, e a gente arremata a oração dizendo o seguinte: “Uns tem, mas não podem, outros podem mas não tem, nós que temos e podemos agradecemos ao Senhor”. Não é para qualquer um isso aqui, então a gente aprende a lidar com o desconforto, a gente…

Luciano          Recita ela inteirinha.

Diógenes       “Ó Senhor me Deus, dai-nos apenas aquilo que vos resta, dai-nos a sede, dai-nos o frio, dai-nos a fome, dai-nos a sede, mas dai-nos, acima de tudo ó Senhor, a fé, a força, a coragem e a vontade de vencer, uns tem mas não podem, outros podem mas não tem,  nós que temos e podemos agradecemos ao Senhor”, é a oração do guerreiro, isso é um mantra para nós, esse é o alicerce que vai formando um homem de operações especiais. Quer ver um outro, a indignação permanente, a gente não aceita nada que não seja 100%, do começo ao final do curso, é assim que a gente vai formando, então se você fala para mim, Lucca, uma empresa X tem 99% de eficiência, a gente não fica feliz, eu faço diferente para você, eu acostumo até dar exemplo, se eu falar para você que a SABESP tem 99% de eficiência, um leigo pode achar que é um índice bacana, mas nós de tropas especiais não achamos, porque três dias por ano você vai ter que tomar água contaminada, isso não  é legal, na hora que você abrir a torneira você nunca sabe que dia que é, se é o dia da água contaminada. Então, a gente tem essa indignação permanente, sabe essa inquietação permanente, outra coisa que é muito importante para nós quando a gente fala “missão dada, missão cumprida”, não diz respeito apenas à missão, a conquistar um objetivo, mas diz respeito ao comportamento, ao comportamento do dia a dia, das ordens, de cumprir sua tarefa, de chegar no horário, então tudo isso vai criando um caldo cultural na gente de controle e além do que a própria estética militar, a gente costuma dizer o seguinte: comandar é mandar com, essa é a expressão, a gente não é autoritário, não é ditador, a gente usa as inteligências para formar o time, é muito importante isso, mas a gente tem muita clareza de que um comandante delega tarefas, nunca delega responsabilidade, a responsabilidade para nós, Luciano, é indelegável, eu sempre falava para a minha tropa lá no GATE, tudo de bom e tudo de ruim que acontecer aqui é minha responsabilidade, como eu não consigo fazer tudo sozinho, eu preciso delegar algumas tarefas, algumas atividades, mas a  responsabilidade é minha, então onde manda capitão, não manda marinheiro.

Luciano          A sequência do filme lá é exatamente isso, o que acontece na sequência é a responsabilidade dos que estavam tocando lá, como é o nome do tenente ali, como é que é?

Diógenes       Matias.

Luciano          Matias. Ele errou?

Diógenes       Errou, porque o que acontece? Uma das coisas que faz parte da história antiga da polícia e eu espero que cada vez mais fique mais obsoleta e mais antiga, é uma regrinha de negociação, que eu trabalho muito, separar as  pessoas do problema, não é nada pessoal, você não pode levar para o pessoal, você está ali revestido da investidura do estado, é o  estado conversando com alguém, não é o Lucca pessoa que está ali, é o Lucca oficial, então a gente tem que separar um pouco as coisas e a polícia, muitas vezes, sobretudo a polícia antiga, os policiais “old fashion” que a gente acostuma dizer, eles ainda não conseguem lidar muito bem com isso  daí, eles levam para o lado pessoal, tem algumas coisas que se misturam, sabe, o cara, ele por exemplo, numa manifestação de rua, às vezes o sujeito.. é curioso sabe, Luciano, porque por exemplo, na formação de um policial que trabalha numa manifestação, por exemplo, ele aprende no curso a se proteger das pedradas, das garrafadas, das pauladas. Aí quando um manifestante, no curso ele faz tudo certinho, é avaliado por isso daí, se exige dele esse comportamento em equipe para se proteger, aí quando ele vai para a prática, um cara joga uma garrafada nele, ou joga um pedaço de pau, ele vai lá e parte para a vingança privada, está errado, então assim, numa tropa especial a gente lida muito com essa questão do comandamento, lida muito com a questão do controle, do auto controle, a gente explora muito que não é nada pessoal, a gente não tem, esse é um bom policial,  eu me refiro  aos  bons  policiais que não podem levar para o pessoal, o tipo de coisa e a gente tem vários tipos de medicamento, como por exemplo o sujeito que estiver colaborando e etc, a negociação é um bom remédio para resolver, ah mas se ele não estiver colaborando, nós temos outros remédios mais amargos, como é o caso do atirador de elite, como é o caso da invasão tática…

Luciano          Mas o sujeito que chegou nesse nível dessa tropa é uma máquina, ele chegou lá, ele passou por uma peneira…

Diógenes       … nossa…

Luciano          … para chegar ali…

Diógenes       … nossa…

Luciano          … quer dizer, nesse momento ele não é um cara que, um maluco com uma arma na mão?

Diógenes       … não, de jeito nenhum, de jeito nenhum, nossa, um policial do GATE, um policial de SWAT, um policial do BOPE, ele tem muita responsabilidade, em geral a gente treina muito para chegar nisso, a gente não entra no esquema de cometer loucuras, coisas tresloucadas, a formação nossa, o pertencimento nosso, o nível de comprometimento que a gente tem dentro de uma tropa, é sempre voltado a esses valores, quais são esses valores? As boas práticas, a doutrina e a lei, então a gente tem que seguir, esses são os nossos ditames.

Luciano          Essa polícia que você descreve aí não é a polícia do imaginário popular, eu vivi duas experiências que para mim, me mostraram claramente o meu lado como civil sofrendo a consequência da ação da polícia. A primeira vez aconteceu no estádio, eu fui assistir um jogo, comprei ingresso, era um Corinthians e Flamengo, eu e meu sogro, comprei cadeira numerada coberta, cheguei no Morumbi para entrar e aí eu me lembro que deu uma baita de uma confusão, os caras estavam invadindo tudo lá, a polícia foi lá e trancou e fechou o portão de ferro e a hora que eu estava chegando no portão, então aquela loucura, todo mundo gritando e um policial militar segurou o portão de ferro, fechou o portão e eu fui lá com o meu ingresso e aquela adrenalina toda e eu tentando argumentar com o policial que eu estava com o ingresso na mão e que eu podia entrar e o policial nem me deu atenção, eu fiquei indignado de ele não me dar atenção, depois que eu saí de lá eu falei mas se esse policial que está segurando o portão para evitar que aquela coisa vire uma guerra, ele resolve conversar com cada um que for falar com ele, esse cara vai ser devorado em dois minutos, então ele estava no papel dele, nesse momento ele é uma máquina que está cumprindo a missão de fechar esse portão, ele não me bateu, ele não me xingou,  ele  simplesmente me ignorou e eu estou com o ingresso na mão, eu posso entrar, mas no meio da manada, então isso foi uma coisa que marcou muito a mim. A outra que marcou foi com a polícia civil, eu voltando para a casa a noite, eu passei de carro, era de noite, então eu não vou parar na esquina, eu entrei rapidamente e entrei e atrás de mim tinha um camburão da polícia, no que eu parei no farol, o camburão parou atrás de mim, eu vi que ele abriu a porta, falei bom, não sei, de repente o cara desce, vem na lateral, me apontando uma arma, desce, desce e eu apavorado e  ele some da vista, quer dizer, ele saiu do meu ângulo, ficou atrás de mim e a hora que eu abri a porta que eu virei para trás, ele estava abaixado, com as duas mãos e apontando a arma para mim e gritando para mim: desce, desce, ai eu devagar fui tirar o cinto de segurança, desci, eu estava tremendo, estava todo cagado já  aí ele veio com a arma, quando  ele começou a  conversar comigo ele viu que não tinha nada a ver, que não era, eles se confundiram com o carro, eu podia ter tomado um tiro ali. Mas de novo, depois eu me coloquei na posição dele, falei bom, que postura esse cara devia ter tomado, ele devia ter chegado, batido no vidro e falado, por favor, o senhor abaixa o vidro que nós queremos conversar com o senhor? Bom, eles estavam vindo numa perseguição, confundiram o carro, então eu falo bom, tem  uma coisa que é a minha postura como civil diante de um sujeito que tem que tomar uma decisão de terminar um conflito, eu não sei se eu consigo dialogar com esse cara, ô meu, vamos conversar. Como é que vocês lidam com isso, sabendo que na frente de vocês tem dez caras que são inocentes, não tem nada a ver.

Diógenes       É, tem contextos e contextos, eu vou responder isso com um exemplo, esses dias eu fui chamado. O secretário de segurança foi ser ministro e deixou o adjunto Doutor Mágino foi homologado como novo secretário de segurança de São Paulo, ele deu uma declaração para um repórter numa entrevista longa num jornal e ele perguntado dobre o policial que eventualmente se exagera um pouquinho na hora de uma manifestação, como é que deve ser o tratamento, se tem que ser punido, etc e tal. E ele deu uma resposta um tanto quanto delicada, ele falou o seguinte, olha é muito difícil às vezes o policial se controlar diante de uma situação como essa daí, aí o repórter ficou meio indignado, até porque tinha acontecido um incidente com outros jornalistas, acabaram tomando, foram meio né, meio hostilizados ali pela polícia fazendo o seu trabalho. A polícia às vezes não tem condições de ficar muito bem naquele calor da ação e o repórter ficou meio indignado com a resposta e isso gerou uma polêmica e um outro veículo veio perguntar aminha opinião sobre isso, e aí a minha opinião, estou contando essa história para chegar à sua pergunta, como é que a gente se comporta? Tem situações e situações. Sabe Luciano, às vezes você vê na sua casa uma cena na televisão, de um policial durante uma manifestação que resolve, por exemplo, colocar os manifestantes para se evadirem, ou seja, para abandonar o local e tem que agir usando lá uma energia ou então até equipamento não letal, bombas de gás lacrimogêneo ou assim o que vale. E às vezes você vê uma cena que pode chamar a atenção que é um policial vendo, uma pessoa está correndo e ele vai lá e pega o cassetete para meio que acertar essa pessoa, alguém pode pensar, se analisar a cena por si só, pô, mas o  cara está correndo, por que esse policial vai lá atacar essa pessoa? Agora se sair e for para o local como já aconteceu comigo e você vê o contexto como um todo, você vai entender que aquilo não é que o policial queria aplicar um corretivo naquele que estava indo embora, é que aquele  gesto diante de outros tantos que estão nas imediações, demonstra que não está para brincadeira e que para seguir a mesma conduta de sair correndo.

Luciano          E o policial sabe disso e é treinado para isso…

Diógenes       Ele sabe disso, então…

Luciano          … não é bata num ser humano, é aplique…

Diógenes       … exato, eu não posso falar que todos, tem alguns policiais que saem da norma, que levam para o pessoal, que erram, são exagerados…

Luciano          … tem dentista que é assim, tem médico que é assim.

Diógenes       … mas assim, em geral, que o policial quer é que as pessoas abandonem, quando é o caso e a gente não pode fazer uma avaliação de uma cena estando no conforto da sua casa, no ar condicionado, sentado no sofá e vendo  apenas uma telinha e fazer um julgamento de uma ação, porque você não está sentindo o que eu chamo de calor da gasolina ali sabe, no  local, então esse policial, por exemplo, no caso que você exemplificou, que ele está ali, ele viu um tumulto, se ele, de repente, o que a gente acostuma dizer, isso é muito claro para nós que já lidamos também na nossa formação como lidar com multidões, a turba não tem identidade, Luciano, então se aquele cara, por exemplo, dá uma atenção e vai resolver o seu caso, tem dez falando com ele, ele deixa de fechar o portão que é a função principal e pode promover ali um pânico generalizado, e esse policial civil, no exemplo que você deu, não é esse o procedimento que se faz com uma abordagem, uma abordagem técnica, ela é feita considerando que a pessoa que está ali, muitas vezes é apenas um suspeito, ou está em uma atitude suspeita, ou tem alguma característica que gerou a suspeição por parte do policial, mas eventualmente não tem nada a ver, então tem todo um regramento que se faz para minimizar o problema, ocorre que em algumas circunstâncias, talvez tenha sido essa a sua, de repente o carro que você estava era um carro semelhante com o que tinha queixa de furto, era um cara sozinho e você passou, uma série de elementos deu um nível de suspeição maior, como o policial, juntando esse nível de suspeição maior, ficou mais preocupado, às vezes a  energia que ele dá para o atendimento, ela é compatível com aquele contexto, mas incompatível se você olhar de novo da telinha da televisão.

Luciano          É, do meu ponto de vista.

Diógenes       Exatamente, quando é assim, o que que um policial faz? Ele eventualmente percebeu que era importante exagerar na dose inicial e depois viu que foi desnecessário, o que ele tem que fazer é chegar: olha, Luciano, desculpa. Dar uma explicação. Então ele agiu como um bom policial, falou olha, peguei meio forte agora.

Luciano          Ele ofereceu, se o senhor quiser fazer uma queixa o senhor pode ir até a delegacia.

Diógenes       Em geral, por exemplo, para você ter uma ideia como é uma abordagem policial, a gente já começa assim, isso é o que diz a boa prática, você antes de fazer a abordagem você tem que ver o local, porque você tem que pensar no cenário pessimista, vai que é um bandido mesmo e o bandido não tem compromisso de fazer um tiroteio numa área pública, então não é conveniente você fazer uma abordagem num local que tem muitas pessoas passando. Então o policial bem preparado ele espera o melhor momento em termos de local, aí ele para a viatura com uma certa distância, ele sai e  ele começa aquela chamada voz de advertência, atenção cidadão, por gentileza, olha só, não falei nada, só dei três comandos que é para você sair daquele estado que você tomou aquele susto, veio aquela viatura com as luzes ligadas e o farol ligado e  está assustado, as pessoas comuns, se não for um bandido, ele se assusta e trava, então quando você fala assim atenção cidadão, por gentileza, desliga… tudo metódico, desliga o carro, desce do carro com as mãos à mostra,  isso é o procedimento, para quê? Para te dar um pouco de tranquilidade para você entender os comandos e também para o policial não correr riscos desnecessários, então essa é a boa prática nem sempre dá para fazer dessa maneira, às vezes a circunstância do momento, às vezes o contexto faz com que você abrevie uma ou outra etapa e aí aquele que recebeu a abordagem se sente um pouquinho incomodado, se sente triste, ou se sente mal atendido, ou sente que a polícia não ajuda de forma correta e aí cabe ao bom policial fazer o acerto e explicar, olha desculpa, é que a situação assim e você sai dali com uma boa imagem, eu gostaria que todos fizessem dessa maneira, mas infelizmente nós temos alguns policiais que ainda lamentavelmente tenham, como eu disse, tenham o foco errado, nós temos, aminha grande bandeira, Luciano, hoje ela é, e às vezes eu me sinto um Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento, é fazer a polícia resignificar o seu foco, o foco da polícia é o cidadão, o bandido é o segundo, é o ponto secundário, subsidiário.

Luciano          Você comentou isso muito bem na hora que a gente estava almoçando, que é a policia tem uma história em que o foco é o seguinte: pegue o bandido…

Diógenes       Custe o que custar.

Luciano          … exatamente. E nesse processo sai a bala perdida, nesse  processo sai o atropelamento, sai a porrada, porque no final eu quero pegar o bandido e você colocou uma coisa interessante, que você falou, quem pensa assim atropela um transeunte que está atravessando a rua para pegar o bandido, quem pensa primeiro em proteger a cidade acha que não vale a pena atropelar um transeunte  para pegar o bandido, o bandido vai fugir, paciência, eu não vou causar um transtorno geral por causa de bandido que fugiu.

Diógenes       Prisão ou a morte de qualquer bandido não compensa um arranhão num filho seu que está passando na calçada, ou na sua esposa que está dirigindo o carro dela tranquilamente na cidade. O foco é o cidadão, essa é a minha luta hoje, eu gostaria de ver um policial ajudando uma senhora a atravessar a rua, eu gostaria de ver um policial no parque conversando, interagindo com as pessoas, brincando com as crianças, etc e obviamente um policial tão forte, o necessário para poder, eventualmente, gerar uma resposta adequada para um criminoso, óbvio que faz parte da função do policial também, mas o foco é o cidadão.

Luciano          Você está falando em criar uma cultura de confiança numa sociedade que aprendeu a ser desconfiada, a gente desconfia de todo mundo, de tudo e todos e eu como cidadão não fui jamais treinado a me comportar diante de um policial, eu não tenho na minha cabeça o pensamento do seguinte: eu vou facilitar a vida do policial, ele veio me abordar e eu tenho que agir de modo a facilitar o trabalho dele, não, já estou indignado, outro dia eu cheguei no aeroporto, desci no aeroporto, a hora que eu vou passar ali, dois policiais me abordam, da policia federal e pedem meu RG e eu estava saindo com a mala na mão, não tinha nada, não tinha o menor cabimento o cara pedir meu RG na saída e vem e pede meu RG, meu primeiro, a reação foi de absoluta indignação, como assim meu RG? É procedimento. Aí eu tirei, mostrei meu RG e fiquei puto da vida de alguém me parar para pedir meu RG num lugar que… e aí depois que eu saí que eu parei para pensar, bom,  alguma razão esses caras…. eles não estão ali para me pentelhar, eles foram pedir meu RG porque alguma coisa deve ter acontecido e aí cabe a mim, entendeu? Se eu sou um brutamontes, um ogro, eu vou dizer para o cara não vou mostrar,  quem é você para pedir, vou arrumar um conflito e se bobear saio de lá de baixo de porrada…

Diógenes       O confronto.

Luciano          … desculpa, o confronto e saio de lá debaixo de porrada, depois vou reclamar que apanhei da polícia. Você falou um negócio importante na hora do almoço que eu queria pegar com você aqui um pouquinho, que era essa coisa de que as pessoas não são treinadas para pensar na segurança, elas não pensam em segurança, então o cidadão que não é treinado em segurança, ele vai, quando você chegar para ele e falar dê uma volta no quarteirão antes de entrar na garagem, o cidadão que é treinado com a segurança vai falar que boa sacada, eu vou perder mais um minuto e vou dar a volta, o que não é treinado em segurança vai dizer para você,  não me enche o saco, estou atrasado, não  vou parar, não vou olhar. Isso explica o conflito e o confronto.

Diógenes       É verdade, mas antes de chegar nesse aspecto, eu queria só fazer uma menção aqui de uma coisa que eu acho importantíssima. Eu hoje, por ser comentarista de segurança da rede globo, eu tenho feito as minhas intervenções e tenho, de vez em quando, alguns contatos com o pessoal de comunicação social da polícia. Outro dia aconteceu uma coisa curiosíssima. Um repórter da folha de São Paulo, ele fez uma pesquisa coletou uma pesquisa dizendo que uma parte da sociedade, uma boa parte da sociedade não confia na polícia, falou da palavra confiança que você se referiu e aí foi engraçado, Luciano, que quando a polícia viu essa matéria no jornal, a comunicação social ficou revoltadíssima porque de fato a esmagadora maioria das ações da polícia são razoáveis, boas, excelentes e ótimas, uma minoria é ruim, só que essa minoria ruim, ela gera um tumulto muito grande, ela gera um desgaste muito grande e aí a comunicação social resolveu fazer uma resposta para esse jornalista questionando a pesquisa,  quando eu vi isso, eles mandaram para publicar, óbvio, o jornal não publicou imediatamente, mas eles publicaram nas redes sociais que é um veículo livre, quando eu vi isso, na hora eu falei gente, vocês estão doidos, pelo amor de Deus, eles começaram a questionar a metodologia da pesquisa, questionar o autor da  pesquisa, eu falei pelo amor de Deus, vocês não façam isso, vocês estão matando o mensageiro, o mensageiro é o que menos importa, o  que vale é a mensagem, vamos analisar isso, vamos recepcionar  isso, para de brigar com essa questão pô, nós temos um problema de confiança sim, infelizmente.

Luciano          Talvez ele não seja do tamanho que está aí, mas ele existe.

Diógenes       Exato, talvez seja super dimensionado por conta do pequeno espaço de mídia que só é cedido para as nossas não conformidades, para as ilegalidades que nós cometemos ou para os crimes que nós cometemos e  não tenhamos um espaço sequer mínimo para mostrar a quantidade de ações positivas que nós fazemos mas não se esqueça de uma coisa,  para aquela pessoa que a gente cometeu uma não conformidade, nós somos 100%, para aquela pessoa que teve um ente querido assassinado por um policial de  forma não republicana, de forma ilegal, para ela é 100%, então não matem o mensageiro e aí é uma briga que eu tenho constante, porque eles tem que mudar esse paradigma, tem que aceitar crítica como uma forma de aperfeiçoar o método e voltando à pergunta que você me fez com relação á educação, esta é a minha constatação desde os 15 anos que eu estou na polícia, a gente vai coletando aí um cabedal de informações e de conhecimento e  de vivências, Luciano e eu tenho comigo uma coisa muito já estabelecida, o brasileiro, ele é mal educado em segurança, essa é a notícia ruim. A notícia boa é que isso está mudando, aos poucos nós estamos entendendo que a segurança é algo que exige da nossa parte uma certa atitude, que nós não podemos agir como cidadãos primitivos que pensam da seguinte maneira, pensam e agem, tipo assim, eu sou um cidadão, pago os meus impostos e é o governo e a polícia que tem que cuidar da minha segurança, não é assim nem aqui, nem na Dinamarca, nem na Suécia, nem na Suíça, em qualquer lugar do mundo, Luciano, nem o governo e nem a polícia são onipotentes, podem tudo, são onipresentes, estão em todos os lugares ao mesmo tempo e lamentavelmente, convenhamos, ás vezes não são lá muito eficientes também. Então, cabe a nós, enquanto cidadão, sem deixar de exigir instituições mais fortes, mais produtivas, mais eficientes e mais eficazes, também cuidar um pouquinho da nossa parte e eu vejo que há uma deseducão em segurança por parte de muitos cidadãos que querem viver numa cidade, como por exemplo, São Paulo com onze milhões de habitantes, se comportar como se ele estivesse em Zurique, na Suíça. É diferente, você tem que ter algumas adaptações, você no almoço também me contou que você mudou recentemente para perto da onde você trabalha, porque você agora tem uma qualidade um pouco melhor, você vem andando  para o trabalho, agora se você continuasse morando onde você morava antes em Alphaville e tivesse que trabalhar aqui, você gastaria um tempão para vir e  se você tivesse um compromisso aqui numa segunda feira, oito horas da manhã, o compromisso da tua vida e tivesse que sair de Alphaville, você ia sair cinco horas da manhã da tua casa, com três horas porque você sabe que o trânsito é complicado, uma chuvinha muda, uma manifestação muda e você sabe que numa cidade com onze milhões de habitantes tudo isso fica, às vezes, vira caótico e você adota margens de segurança para o teu cotidiano de trânsito. Se você é uma pessoa que gosta de teatro, por exemplo e você gosta das peças da Broadway e vai lançar uma peça importante aqui, “A Bela e a Fera”, “Miss Saigon”, “O Fantasma da Ópera”, uma dessas peças consagradas, você jamais vai pegar a sua esposa e sua filha e vai chegar no dia da estreia da peça na bilheteria para comprar o ingresso, porque a moça do caixa vai falar, cadê a câmera escondida, isso é uma pegadinha, você está brincando, os ingressos foram vendidos faz três meses, onze milhões de habitantes, tem muita gente que também gosta de teatro, então você nunca vai pegar um familiar seu para ir no dia das mães  ou dia dos pais, por exemplo, num rodízio, chegar lá ao meio dia e querer sentar para comer, se o seu programa é chegar lá e sentar para comer, desculpa, você escolheu o local errado no dia errado. Agora se o seu programa, Luciano, é chegar lá no rodízio, esses rodízios de carne e churrascarias tipo rodízio, chegar lá meio dia, sentar numa mesinha de espera, ficar comendo batatinha, tremoço, azeitona e tomando chopinho e batendo papo com a família e quando for lá pelas três horas da tarde, depois de três horas ser chamado para sentar. Se esse é o teu objetivo, você fez certo, ou seja, a gente se adapta a uma porrada de coisa na cidade, segurança a gente não quer se adaptar, então aqui nós temos um país, eu gosto de citar muito a frase  do Jabor, Arnaldo Jabor, quando ele fala que esse é um país onde quem não morre de fome, morre de medo, para mostrar que nós somos um país tremendamente desigual, quando você chega aqui das suas palestras, eu tenho certeza que o avião está pousando aqui em Congonhas você vê o cinturão de pobreza que nos cerca, nós temos um problema muito sério de desigualdade. Esses dias fui dar uma palestra para um francês, eu faço também esse trabalho para expatriado que vem morar aqui no Brasil, os caras chegam meio com pânico, vou na casa do cara e bato um papo com ele para explicar como é que funcionam as coisas aqui e  eu falei assim para ele, falei escuta, você está aqui há duas semanas,  qual é a foto que você tira do Brasil, qual é a sua primeira… se tivesse que resumir numa foto, numa frase, ele falou Lucca, esse é um país curioso o de vocês aqui, tem gente que anda de Ferrari e o outro morre de fome aqui no caminho, então a gente é um país de contrastes. Notícia boa é que isso está mudando, a gente está melhorando, a gente está evoluindo, a gente caminha para melhor, mas a notícia ruim é que isso demora um certo tempo, então a gente precisa, enquanto isso não chega, preciso que a gente se adapte a algumas coisas e tem pessoas que tem muita dificuldade, Luciano, de fazer essas coisas, de entender segurança como qualidade de vida e eu falo muito isso em palestra, porque mais importante não é o que o bandido leva de você, Luciano, é o que ele deixa para você, consequência pô, então por isso que essa medida simples, ter uma porta travada, um vidro fechado, evitar se desconectar com a realidade ou ao sair de casa ou ao chegar em casa dar uma olhadinha para ver se você pode fazer uma chegada, uma saída segura, isso é  determinante numa cidade que vive como nós…

Luciano          Diógenes, 60 mil mortos por ano no Brasil, a polícia perdeu a guerra? Ou isso não é problema de polícia?

Diógenes       Olha, nós temos um número de perda de vidas tanto dos crimes violentos como também de trânsito, só para fazer dois paralelos…

Luciano          60 mais 60 dá 120.

Diógenes       … é, 120 mil pessoas, então assim, é um absurdo. Agora uma coisa importante, eu tenho defendido isso, sabe Luciano, que é um erro também primário, o erro primário é achar que segurança pública é uma questão de polícia e polícia é uma questão de segurança pública, eu tenho defendido isso sempre que eu posso na televisão, nos meus artigos, para mostrar que segurança pública é muito mais do que polícia, segurança pública diz respeito à prefeitura, prevenção primária. Eu cheguei aqui hoje no seu estúdio, eu tive uma dificuldade, nós estamos no bairro de Moema, nós estamos na nata aqui, os bairros mais importantes, essa rua aqui tem dificuldades com numeração, uma numeração equivocada, sabe que se um policial tiver que atender uma ocorrência aqui ele tem dificuldade para chegar? Isso é prevenção primária, uma rua iluminada, uma rua numerada, uma rua sem buraco, que você não tenha um acidente que tem que trocar um pneu, por exemplo, eu estava vindo para cá, fui buscar a Talita, minha assistente, passei ali pela Praça Panamericana, tem gente morando na praça, sabe, ocupação do solo, comércio clandestino, tudo isso é prevenção primária, isso são portas de entrada.

Luciano          Dê uma voltinha na Praça da Sé, por favor, em qualquer horário do dia.

Diógenes       Eu fui fazer uma matéria recentemente na Praça da Sé, desculpa, no Largo da Concórdia, que também é o mesmo problema da Praça da Sé e estava tendo muito furto a transeuntes, mas por quê? Os caras colocam aqueles lençóis na calçada vendendo objetos de procedência duvidosa, que é a única forma que eles tem para sobreviver também, por outro lado, mas isso dificulta o acesso das pessoas, o trânsito e quem se aproveita disso são os criminosos, então você vê, olha, o comércio irregular, produtos muitas vezes pirateados, a prefeitura que não cuida e acaba gerando problema para a segurança pública, então são vários problemas que nós temos,  polícia não é segurança pública, segurança pública não é polícia. Falei do município, poder legislativo, com novas leis, com leis mais adequadas para algumas coisas, vou dar um exemplo para você, nós tivemos uma lei recente aí que foi a lei, o SINARM ali que cuida das armas, até muitos anos atrás, quando comecei minha carreira, o porte ilegal de arma, Luciano, era uma contravenção penal, coisa que você paga com uma cesta básica e um puxão de orelha, vamos chamar assim, descobriram que era preciso fazer uma ação mais efetiva, tipificaram, modificaram a lei e hoje você portar uma arma virou um crime mais grave, um crime inafiançável, uma série de consequências, porém pararam de evoluir a lei, hoje o sujeito assalta com fuzil e a pena para quem assalta com fuzil é a mesma pena para quem assalta com uma pistola de uso restrito, convenhamos, são coisas muito diferentes. Então a gente vê uma certa inércia do poder legislativo, hoje estava vindo para cá um pouquinho cedo, eu estava lendo os jornais, nós estamos com manifestações de greve do pessoal da Fundação Casa, a Fundação Casa está em greve porque eles estão, o governo do estado decidiu que tem alguns menores que deveria ficar internados e estão sendo soltos porque não tem vaga, não tem vaga, isso também gera uma sensação de impunidade, quer dizer, tem o sistema prisional que está caótico, o poder judiciário que é demorado para poder gerar as resoluções, o ministério público também não consegue abraçar tudo, então é um sistema que dá sinais de exaustão e tudo isso acaba gerando um incremento do crime, o crime passa a ter a visão, por parte dos criminosos, que o crime vale a pena e o grande protagonista desse processo complexo que eu dei uma passeada com você é a polícia, a polícia é quem mais aparece, mas é um erro achar que segurança pública é só polícia.

Luciano          Se eu pegar esse teu diagnóstico e aplicar esse diagnóstico na saúde, ele  é igual, se eu aplicar na educação ele é igual, se eu aplicar na legislação sobre empreendedorismo ele é igual, como é que você motiva alguém a sair de casa de manhã e correr o risco de tomar um tiro, sabendo que a situação é complicada, do jeito que você acabou de descrever um negócio que é tanto nó que você sozinho pode muito pouco, como é que se motiva um cara a acordar de manhã e tomar um tiro na rua para defender outro sujeito?

Diógenes       Então, eu vou falar para você, vou responder para você com o meu exemplo, eu hoje, eu entrei na polícia em 1980, eu contei para você e eu saí da polícia depois de 30 anos em 2010, a polícia que eu deixei, Luciano, é muito melhor que a polícia que eu entrei, é que a gente que está no olho do furacão, a gente não se dá conta de como as coisas melhoraram, o país melhorou demais, se hoje nós temos 50 mil mortes, 60 mil mortes, antes era muito maior, a gente não pode comemorar, aliás essa é uma das minhas críticas quando eu estou na televisão e faço isso aqui em São Paulo com muita propriedade, porque São Paulo tem uma mania, para você ter uma ideia, vamos falar só do número de mortes, São Paulo é o único estado do país que tem número de mortes por grupo de 100 mil habitantes que está dentro dos padrões da ONU, a ONU estabelece 10 homicídios por um grupo de 100 mil habitantes com uma condição assim, até 10 está dentro do…

Luciano          Não é epidêmico.

Diógenes       … não é epidêmico, São Paulo conseguiu já baixar de 10, 9, alguma coisinha, às vezes chega até 8, quase 9, a média do país é 26 e alguns estados do nordeste 80, aí São Paulo comete um erro que é o seguinte, quando acontece alguma coisa,  São Paulo fala pô, mas nós temos estatísticas mensais que são publicadas, ninguém tem e é verdade, outros estados não tem, nós temos um número abaixo de  10 por 100 mil habitantes e a média do Brasil é 26 e tem estados do nordeste que tem 80, eles jogam essa informação como se fosse um motivo para comemorar, essa é a minha crítica, não é para comemorar, o administrador público tem que estar indignado o tempo todo, tem que estar inconformado, tem que estar em momentos de sempre questionar como fazer mais e melhor. Eu estou dizendo isso para você de forma genérica, agora voltando à sua pergunta, como é que a gente faz para se motivar diante desse quadro? A gente pode falar, eu falo com certeza isso, nós estamos evoluindo, nós estamos melhorando, nós estamos cada vez mais buscando mais tecnologia, nós estamos tendo melhores condições, você está vendo, por exemplo, alguns cargos públicos hoje muito cobiçados, não só pela estabilidade, mas por conta do salário, por conta da carreira, então eu vejo que nós caminhamos para uma melhoria, uma presença maior do estado, mas não maior no sentido quantitativo, maior no sentido qualitativo sabe, eu tenho percebido isso e a frase que eu resumo essa resposta para você é essa, a polícia que eu deixei é muito melhor que a polícia que eu entrei e obviamente os mais antigos, que é o meu caso, o pessoal que já deixou a força, a gente passa essa mensagem para os mais jovens, olha só gente, quando eu era capitão, comandante de uma companhia, eu tinha lá quatro viaturas, eu tinha uma área e eu tinha que diminuir os índices colocando as viaturas para patrulhar de forma aleatória essa área, imagina que uma companhia que cuida do seu bairro aqui em Moema, o cara tem lá cinco viaturas, quatro motos para patrulhar aqui. Hoje não, Luciano, hoje ele entra no sistema, ele vê aqui na Rua Aratãs, na Alameda Aratãs o que está acontecendo aqui, que incidência criminal que tem aqui, que hora que tem aqui o problema? Então vou colocar viatura aqui no horário que mais precisa, que os índices estão mostrando, então a gente foi conquistando passos importantes e as novas gerações, elas sentem isso daí, então cada um que entra, eu posso dizer para você assim, com uma certa tranquilidade, não vou falar de todos porque seria, falando de ser humano, isso é complicado, mas eu acho que tem um monte de tenente louco ai sabe, que também estava tremendamente com muita vontade, como eu estava na década de 80, quando me formei, em 84 que eu aí cheio de coisa para dar, cheio de coisa para fazer, um monte de garoto novo que está começando agora, cheio de energia, sabe que eu me inspiro? Eu vejo esses procuradores, esses caras do ministério público federal, uma galera jovem, uns caras na faixa dos seus 30, 40 anos detonando, querendo fazer um país diferente, eu tenho muito otimismo com relação a isso, eu acho que a gente… é duro a gente passar por esse processo, a gente vê que a gente perde um pouquinho de tempo quando você vê o congresso aí, por exemplo, monopolizado para ficar discutindo essas questões de impeachment, esse monte de coisa, quantos projetos estão na gaveta esperando aí coisas importantes para o progresso do país e a gente fica imaginando outros países que não estão vivendo essa crise, os caras estão já pensando em outros aspectos, coisas mais de produtividade, decrescimento.

Luciano          Sim, é para a frente a cultura, é para a frente.

Diógenes       Então às vezes dá uma sensação de que a gente está perdendo o bonde da história, mas eu tenho comigo o seguinte, Luciano, tem coisas que a gente precisa passar sabe, a gente precisava passar por um governo populista para poder… a gente precisava passar por um chacoalhão desses daqui para poder, por exemplo, fazer com que esses big shots aí, esses grandes empresários que eram deuses, aliás eram eles, depois Deus, depois Jesus Cristo, essa era a hierarquia, jamais esses caras pensavam que iam… então quando você coloca um Marcelo Odebrecht na cadeia, quando você coloca uns big shots desse daí, você passa uma mensagem importante para a sociedade. Eu tenho muita esperança de que essa operação lava jato que a gente está vivendo hoje, ela continue e a gente não cometa pelo menos, eu pelo menos já vi isso em discursos muito bem posicionados, para a gente não cometer o mesmo erro que cometeu a Itália, que começou aquelas operações mãos limpas, mas depois eles na curva eles derraparam e no final das contas não gerou os efeitos necessários. Me parece que essa juventude que está aí forte na operação tem consciência de que a gente não pode cometer esse mesmo erro e eu acho que a gente vai ter orgulho do país, lamento pela geração de agora, é uma geração que vai sofrer um pouco as consequências, mas eu imagino que lá na frente, daqui uns 20 anos isso você fala puta Lucca, mas 20 anos? É, para nós 20 anos é muito tempo, na Índia, eu fiquei um mês lá, quando você fala de 20 anos não é nada porque é outra dimensão de tempo. Eu estava lá em 99, acho que eu fui para lá e aí eu fiquei, a infraestrutura do país era muito ruim, não tinha as estradas, Nova Deli, um negócio louco e eu falei nossa, uma cidade, não tinha uma Anhanguera, não tinha uma Bandeirantes como nós temos aqui, aí eu falei mas vocês estão com uma estrutura… ele falou assim Lucca, fica tranquilo, daqui a  50 anos meu país vai ser bacana  e me chamou a atenção nesse dia, sabe Luciano, quando o cara falou 50 anos, eu falei gente, mas 50 anos, pô, se você falasse 5 anos…

Luciano          É outra perspectiva.

Diógenes       … é outra perspectiva de tempo, então a gente também tem que se flexibilizar um pouquinho nisso, eu tenho a impressão que a gente vai sair mais forte, melhor dessa, eu acho que está tendo um aperfeiçoamento, está gerando alguns tipos de controle mais eficientes, mensagens subliminares sabe, de que a gente pode ser um país melhor e eu acho que a gente tem…

Luciano          E cada um de nós tiver consciência do nosso papel nesse processo ai as coisas começam a melhorar.

Diógenes       Agora o que não pode, Luciano, o que não pode é, por exemplo, a gente vê muita gente falando tal, mas eu moro em Pinheiros, eu vou no Shopping Villa Lobos e eu vejo os mesmos caras que criticam A ou B, o partido A, o partido B, que criticam não sei o quê, mas o cara, tem dez vagas de idoso e o cara coloca a vaguinha, o carro dele sem o cartão lá sabe, então a gente tem uma certa hipocrisia na  sociedade que precisa também ser revista, sabe, mas eu acho que a gente caminha para isso, eu acho que a gente caminha para um futuro melhor.

Luciano          Eu também acho. Muito bem, tem assunto aqui, e eu não falei nem metade do que eu queria, eu queria que você contasse umas histórias Lucca aí, não deu para contar, a gente ia falar de maioridade penal, ia falar de armamento… tem assunto…

Diógenes       É só você me convidar para uma próxima.

Luciano          … vou ter que chamar para uma próxima, dessa vez com agenda para a gente poder levar adiante, mas hoje eu queria realmente abrir, acho que foi um papo muito legal, eu estou com dois livros seus aqui em mãos o livro chama-se “O negociador, estratégias de negociação para situações extremas”…

Diógenes       Presente para você, só vou fazer a dedicatória assim que terminar.

Luciano          … opa, muito obrigado, Diógenes Lucca. E o outro chama “Diário de um Policial”…

Diógenes       Isso.

Luciano          … submundo do crime narrado por um comandante do GATE. Estão aqui, estão a venda os dois, é fácil de achar?

Diógenes       É, um para HSM, está meio difícil de achar, está na terceira impressão, esse é um livro que já vendeu mais de 10 mil exemplares.

Luciano          Você escreveu um livro sobre negociação…

Diógenes       Esse livro é o seguinte…

Luciano          … para o mundo dos negócios?

Diógenes       … exatamente, esse livro é um livro voltado para o mundo corporativo, fui chamado pela HSM por conta de uma palestra que eu dei lá no fórum HSM de negociação, onde eu compartilho lições importantes que eu aprendi nas ocorrências que envolviam vidas e que são perfeitamente aplicáveis ao mundo corporativo, eu tenho comigo e defendo essa tese assim até a medula de que as tropas especiais tem muito a ver com as empresas de alta performance, empresas de alta performance, o senso de pertencimento, o senso do negócio, não brigar com meta, boa meta é para ser cumprida, eu falo que no mundo policial a missão dada é missão cumprida e no mundo corporativo a meta obrigatória, o choro é opcional, pode chorar lá na pau da bandeira, quietinho, escondido, mas a gente,  sabe, a questão de ser dono do negócio é muito importante, indignação permanente, buscar mais e melhor sempre, inconformismo, não ficar na zona de conforto, tudo isso é de tropa especial e são atributos muito apreciados no mundo corporativo e uma outra coisa que eu compartilho no livro são algumas lições de negociação sabe, por exemplo, a questão do conflito, trabalhar em equipe, aprender a ouvir, aprender a pensar com a cabeça do outro, reconsiderar quando necessário, são todos elementos e eu contextualizo isso com as histórias policiais, mas sempre com exemplos do mundo corporativo.

Luciano          Eu vou ter que te chamar de novo, nós vamos fazer um programa só sobre negociação.

Diógenes       Vamos, essa é a minha paixão ultimamente e para não ficar sem falar do Diário, o Diário de um Policial foi a Editora Planeta que viu a minha trajetória aí nos 30 anos que eu fiquei na polícia e falou olha, eu tenho um livro, o nome do livro é Diário de um Policial, eu quero que você escreva as suas histórias, aqui são ocorrências policiais que eu participei, esse é um livro curiosíssimo porque eu aposto e com você inclusive, que se você começar a ler meu livro e não terminar em dois dias, eu te pago o mesmo almoço que você me pagou hoje, porque é quase que um triller, eu tive orgulho de ter aqui o prefácio feito por Alexandre Garcia que é um repórter sensacional, um cara tremendamente equilibrado que sabe dos problemas da polícia, mas também sabe reconhecer quando a polícia age de forma equilibrada, de forma correta, ele é um defensor de uma polícia democrática como eu também sou defensor e também tem a quarta capa de um grande amigo, de um outro jornalista fundamental que tem uma formação totalmente de ciências humanos que é o Rodolfo Gamberini, que é um grande amigo, um querido, trabalhei com ele no SBT antes de ir para a globo eu trabalhei um tempinho no SBT, quando eu conheci o Rodolfo Gamberini, hoje é um amigo pessoal que me deu o privilégio de fazer a quarta capa e aqui são histórias emblemáticas, como o caso do Carandiru, como o caso do Silvo Santos que eu fui o negociador, tem algumas operações aqui curiosíssimas da minha carreira, coisas pitorescas que tem aqui nesse livro, então um livro muito gostoso de ler.

Luciano          Meu amigo, você vai voltar, estou com uma ideia maLucca aqui, pode saber sim. Quem quiser te encontrar, você está nas mídias sociais, tem um site seu?

Diógenes       Contato: comandantelucca é o meu site…

Luciano          comandantelucca.com.br?

Diógenes       … exatamente, é o site e eu tenho publicado aí no Facebook as coisas que eu tenho participado, tenho feito palestras que é o meu maior prazer é as palestras sobretudo de negociação e liderança, são dois temas que eu desenvolvo bastante e também uma que eu faço por conta do meu background, do meu currículo, que é a palestra chamada “Educação para Segurança”, onde eu ensino como as pessoas podem viver numa cidade como São Paulo com um nível de segurança legal, entendendo como pensa e age o criminoso e como o crime acontece, então essa é o meu desafio de ver e mostrar para as pessoas que o legal é ver a segurança como qualidade de vida, quando a pessoa deixar a segurança entrar como qualidade de vida na vida dela, a vida dela muda, muda tudo.

Luciano          Meu amigo muito obrigado pela visita, você vai embora com um gostinho de quero mais a gente vai estar de volta aqui para conversar um pouco mais.

Diógenes       Muito obrigado. Super abraço.

 

Transcrição: Mari Camargo