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Ciça Camargo -

 

Luciano          Muito bem, mais um LíderCast, hoje está bem legal porque hoje é daqueles que eu gosto de fazer, é quando o sujeito senta na minha frente e eu sei quase nada dele e aí o que significa isso? Significa que eu descubro junto com o meu ouvinte as riquezas que tem os inputs que eu tenho com o convidado e não teve uma, nós já estamos com 48, 50 programas gravados e não teve nenhum que viesse alguém aqui que fosse desse jeito, que sentasse na minha frente, que eu conheço muito pouco da pessoa e que não fosse uma delícia de conversa que a gente vai descobrindo coisas ao longo do caminho. Então ele até me pergunta, vem cá, mas você quer minha biografia? Eu falei quanto menos você trouxer melhor é. A gente começa o programa com três perguntas fundamentais que são as mais difíceis do programa, que se você responder bem, o resto vai tranquilo que são o seguinte: eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Flávio             Bom, meu nome é Flávio Azm Rassekh, eu trabalho com estratégias de comunicação, tenho uma produtora de vídeo e faço mais umas outras 22 coisas não tanto quanto o Luciano, porque é o que a gente estava falando agora, eu nunca vi uma pessoa que joga tantas bolinhas para cima ao mesmo tempo que nem você, mas assim, eu tento também…

Luciano          É o one man band.

Flávio             …  one man band, exatamente, aquele cara que toca a bateria com o pé, na boca tá assoviando alguma coisa, guitarra na mão e fazendo percussão com o cotovelo, batendo na…

Luciano          Só que tudo mais ou menos, não é? É que a somatória impressiona, mas se você for olhar assim, é tudo mais ou menos, falou a idade.

Flávio             … tenho 48.

Luciano          48 anos.

Flávio             Sou de meia oito, nasci aqui em São Paulo.

Luciano          Legal. Então, o Flávio chega até mim por causa do sobrenome dele, repete o sobrenome.

Flávio             É Rassekh.

Luciano          Rasseckh. Origem?

Flávio             Iraniana.

Luciano          Perfeitamente. Ele chega aqui pelas mãos da Shideh, que tem o podcast que é só de mulher, que é minha amiga, a gente estudou junto no Mackenzie e tudo mais e a Shideh me mandou um e-mail falando, você tem que conhecer o Flávio e mandou para mim e para ele, vocês dois tem que se conhecer. Eu falei bom, vamos nos conhecer, sentamos, começamos a conversar e eu falei, vem coisa boa aí. Como é que é? Você veio… que origem é essa? Como é que chegaram aqui?

Flávio             Meus pais, meus pais são do Irã, o Irã é o único país do Oriente Médio que não fala árabe, tem ali outros países…

Luciano          Farse

Flávio             … farse, se fala farse lá, todo mundo acha que o iraniano é árabe, primeiro assim quebra de paradigma, iraniano não é árabe. Segundo lugar, naquela região todo mundo é muçulmano sunita, o iraniano é xiita, então tem uma diferença. Sabe aquele papo de o povo que a gente é caucasiano, que fala pô, o Cáucaso fica no Irã, então dizem que a origem das pessoas que estão na Europa e tal, é lá. Outra coisa interessante, no Irã, como não se fala árabe, se fala persa, é uma língua indo-europeia, nasceu na Índia, veio para o Afeganistão, entrou no Irã, entrou na Turquia, se transformou no que é o alemão, o inglês e depois o islandês, é a mesma língua.

Luciano          Que coisa.

Flávio             Inacreditável, ninguém consegue acreditar.

Luciano          O anglo-saxão…

Flávio             O anglo-saxão é uma língua indo-europeia e o persa também, vou dar um exemplo para você, em inglês, irmão é brother, em farse é “baraoder”, mãe é mother, e mãe lá é “maóder”, porta em inglês é door, para persa é “daar” e tem um monte de outras palavras…

Luciano          Pô isso explica esse quebra pau de iraniano com americano o resto da vida.

Flávio             … é briga de irmãos, primos. Então quando você vê essas línguas são irmãs, por exemplo, outra palavra que eu adoro, “dortar” que é daughter, é a mesma palavra, eu descobri que na Islândia, uma moça chamava Ulafs Dorrter que quer dizer a filha de Ulaf, de Olavo, a filha de Olavo e essa palavra surgiu na Índia, dortar, e foi parar na Islândia.

Luciano          É fascinante.

Flávio             Fascinante você vê como… fascinante a gente perceber como realmente somos irmãos, como temos a mesma origem e se você cavar um pouco, você vai encontrar conexões entre as pessoas no mundo inteiro.

Luciano          É fascinante.

Flávio             Fascinante.

Luciano          Quando é que teus pais chegaram no Brasil?

Flávio             Meu pai veio pela primeira vez para o Brasil em 1959, de novo, voltou mais três, quatro vezes, ele era primo do pai da Shideh. Ele é casado com a prima, a gente virou primo e aí…

Luciano          Vieram nos anos 60 então.

Flávio             Vieram nos anos 60.

Luciano          Para você que está nos ouvindo aí, você o menino de 25 anos, a menina de 23 anos, deixa eu dar um panorama aqui, eu cheguei em São Paulo em 1975, para estudar no Mackenzie, numa época que quando você abria o jornal, o Diário de São Paulo, por exemplo, tinha uma página inteira de um anúncio  falando de um país de raias lindas, um país que crescia, um país que tinha uma indústria fantástica, um país assim e no final tinha uma pergunta, que pais é esse? E aparecia ali, era o Irã, chamando as pessoas a ir conhecer e a investir no Irã porque era um país totalmente aberto para o ocidente, onde tinha uma característica interessantíssima, um imperador chamado Reza Pahlevi e uma imperatriz chamada Farah Diba e esses nomes, eu olhava, como é que alguém pode se chamar Reza e alguém chamar Farah, Farah Diba, aquilo rimava e era encantador aquele processo, então quando eu vim para São Paulo, cheguei aqui eu comecei a ir, vou e conheço a Shideh que é iraniana e vou na casa dela e começo a comer uma comida estranha, era uma cultura riquíssima e de repente lá para o final dos anos 70 tem uma revolução no Irã que muda o eixo da história da humanidade. Seus pais vieram para cá por iniciativa própria?

Flávio             Própria, meu pai…

Luciano          Ou sentiram que a barra estava pesando?

Flavio             … não, meu pai era Bahai, Bahai é uma religião que depois eu até posso explicar um pouco mais, minha mãe era muçulmana xiita, muito pouco religiosa, não  dava muita atenção para essas coisas, os dois se casam, eles tem uma história fantástica, meu pai e minha mãe se conheceram por conta de um trote que minha mãe passou numa sexta feira a noite e conheceu meu pai, foi daquelas histórias…

Luciano          Trote o que? Telefônico?

Flávio             … telefônico, ela pegou o telefone, passou um trote e quem atendeu foi meu pai.

Luciano          Que coisa.

Flávio             Meu pai, Bahai de origem judaica que no irã Bahai é perseguido, o judeu também não é bem visto, minha mãe, uma jovem muçulmana passou, meu pai jogou uma conversa nela e a história da vida deles começa, eu estou aqui no Brasil por causa de um trote de uma jovem de 19 anos passou, ela e mais duas amigas passando trote, sexta feira a noite e ela veio parar no Brasil por causa desse trote.

Luciano          Você vê que coisa, por isso que quando o pessoal fala de planejamento, vamos planejar, como é que você planeja, como é que uma menina de 19 anos pode ter um plano de vida que sobreviva uma situação como essa, um trote fez a história da vida dela adiante, como é que faz? Então tem um componente ai do…

Flávio             Tem uma mágica.

Luciano          … deixa as coisas, é, que eu não sei como é que é, uma hora eu vou ter que mergulhar nessa coisa.

Flávio             Eu acho que tem a questão da mágica, eu acho que tem uma questão, eu não sou daqueles caras que acreditam em destino, estava escrito nas estrelas, essas coisas, eu acredito em gente que trabalha, planeja, mas eu acho que tem um elemento de uma mágica no universo…

Luciano          Algo existe…

Flávio             … existe.

Luciano          … eu não sei bem o que é.

Flávio             … eu também não sei

Luciano          Você tem alguma religião?

Flávio             Tenho, eu sou Bahai.

Luciano          Você é Bahai, tá.

Flávio             Bahai, isso. E eu acredito realmente que o ser humano tem livre arbítrio, ele pode mudar o seu destino, mas existem elementos na nossa vida que tem a ver com acidentes da natureza, questões maiores como guerras, conflitos, questões econômicas de países, às vezes é simplesmente uma situação fortuita que…

Luciano          Sorte, a tal da sorte.

Flávio             … sorte, exatamente, você lembra daquela música famosa do Carl Orff, chama Fortuna Imperatrix Mundi, que quer dizer sorte, a rainha do mundo.

Luciano          Então ouça um pedacinho.

Flávio             Eles chamavam aquilo de música de taberna, é um poema muito bonito que realmente naquela época aquilo era uma contrapartida à visão religiosa, essa música do Carl Orff e é assim, eu acho que realmente eu sempre converso com os meus pais, meu pai agora faleceu, dizendo assim, pai, se você não tivesse conversado com o pai da Shideh, se vocês não tivessem combinado, se ele não tivesse dito vem para o Brasil, aqui no Brasil as pessoas são livres, aqui ninguém vai te tratar mal por causa da sua origem religiosa, ninguém está preocupado se você é iraniano, alemão, inglês ou japonês, aqui é um país de imigrantes onde você pode construir uma nova vida com gente que realmente é aberta e na década de 60 isso era uma realidade, o Brasil era o país do futuro.

Luciano          Sim. Eles vieram para cá então para fazer o que aqui?

Flávio             Meu pai, ele era economista, tinha estudado na França, minha mãe era muito jovem ainda e ele falou olha, eu vou começar a trabalhar com produto que tem no Irã, que tem um valor agregado altíssimo, o Irã vendia basicamente petróleo, pistáchio e tapete persa, ele falou petróleo eu não vou poder trabalhar, pistáchio não é a minha área, então eu vou na parte de tapete persa, ele começou a trabalhar com tapete persa.

Luciano          Vendendo e distribuindo aqui no Brasil?

Flávio             Distribuindo tapete persa aqui, trouxe muita coisa e tal e vendia e ele virou um daqueles experts que vendia tapetes antigos, tapetes especiais  e através dessa história de vender os tapetes ele conheceu muita gente, fez muitas amizades aqui no Brasil.

Luciano          O que tem tapete persa de tão especial que é tão mais caro do que aquele chinês que faz ali igualzinho?

Flávio             Na real cada cidade no Irã tem uma história e cada uma dessas histórias é representada num tapete.

Luciano          Que legal.

Flávio             Então, por exemplo, no Islã era proibido você ter figuras humanas representadas nas artes e animais, por quê? Por conta da proibição de Maomé para não ter adoração a figuras, era aquela coisa da iconoclastia, os muçulmanos, como em quase tudo o que aconteceu depois da história do Islã, levaram isso às últimas consequências, obrigando os artistas a produzirem o quê? Produzirem peças que de uma forma indireta representassem a realidade sem usar formas humanas ou de animais e esse é o segredo do tapete persa, sabe quando na época da ditadura os músicos brasileiros produziam músicas fantásticas que enganavam o regime?

Luciano          Sim.

Flávio             E você sentia que subliminarmente coisas estavam sendo ditas e aí você via a poesia que não é a poesia do bonde do tigrão, é poesia de verdade, como no Irã a opressão era muito grande, muito por conta dessa visão radical do Islã, até nos tapetes você vê essa sutileza dos desenhos, das cores e é isso que faz, o que que o chinês fez? Foi lá e disse, o tapete é feito a mão? Eu faço a máquina, é feito com lã de carneiro vivo, eu vou fazer com essa lã sintética, vou fazer na máquina e imito o desenho, pronto, tapete persa custa lá 400, 500 mil dólares o metro quadrado, o deles custa 100 e essa…

Luciano          Sabe que eu tenho uma tese para essa história ai, primeiro uma coisa interessante você está falando para mim, você está dizendo para mim que o valor do tapete persa está no conteúdo do tapete, nós estamos falando de tapete, olha que loucura, nós estamos falando de tapete que é um objeto que eu compro, ponho no chão e piso em cima e você vem dizer para mim que o valor dele é o conteúdo que está nesse tapete, que as pessoas, se bobear, nem olham porque pisam em cima. A segunda coisa que para mim é fundamental, independente dessa coisa do conteúdo, agora eu perdi, eu falei a primeira e perdi a segunda, o que era, que você falou, repete para mim, o que você falou no final.

Flávio             Eu falei que o tapete representava a…

Luciano          Tá, que você falou do chinês. Ah sim…

Flávio             … que o chinês produz em massa.

Luciano          … e aí a tese que eu tenho é a seguinte: por que você para na frente do  quadro da Monalisa no Museu do Louvre e você fica absolutamente hipnotizado por aquele quadro que nada mais é do que a pintura de uma mulher que nem bonita é e que está fazendo um sorrisinho ali, conforme você vê. O que te prende ali? A minha tese é o seguinte, não é a pintura que te prende, é o gênio do cara que ao pintar aquela pintura ele colocou nela uma energia que eu não sei explicar o que é, que te captura, então se você fizer uma cópia da pintura  pelo maior artista chinês que tiver, ele não vai conseguir colocar a mesma energia ali, portanto ela não emite essa energia e não te atrai.

Flávio             Cada obra cria uma história.

Luciano          Isso passa, então quando eu leio um livro e começo a chorar no meio do livro, o que está me fazendo chorar? Não é a história que o cara contou, é a energia do cara que estava escrevendo que colocou ali e eu tento usar isso n podcast também, quando eu faço Café Brasil, exatamente, se o cara está ouvindo do outro lado e se emocionou, ele pode ter certeza absoluta que eu estou emocionado aqui e o que vai acontecer com ele é se contaminar com a minha emoção e de repente você vem dizer para mim que o tapete persa carrega isso, pode fazer o chinês à vontade que ele não vai ter essa…

Flávio             E ele é feito à mão, um tapete desses, às vezes, demora, depende do tamanho, um ano, dois anos para ser feito, às vezes aquela pessoa vende um tapete depois de ter feito e dá entrada numa casa, porque o valor dele é uma casa pequena, e normalmente, você vê, numa sociedade tão opressora como a iraniana, que oprime as mulheres do jeito que oprime até hoje, a maior parte dos tapetes são bordados por mulheres, um ponto de cada  vez e essa genialidade toda, essa compreensão, esse filtro da realidade é todo visto pelos olhos dessas  mulheres, eu acho isso genial, você tem essa opressão toda, mas o produto de maior valor produzido no Irã é feito exatamente por essa casta da sociedade que não é tão respeitada quanto o homem.

Luciano          Por algum lugar, a liberdade tem que fluir, não adianta prender, por algum buraquinho ela vai fluir, no caso ali talvez seja através dos tapetes.  Você nasceu no Brasil?

Flávio             Nasci no Brasil, nasci em São Paulo.

Luciano          Brasileiro mesmo.

Flávio             Nasci em Higienópolis, naquele Hospital Samaritano que tem ali.

Luciano          Como é que foi essa, você foi estudar o quê?

Flávio             Arquitetura, fui estudar arquitetura na USP, meu pai era marchand, quer dizer, trabalhava com tapete, mas se transformou num especialista assim, dava aula quando o Pietro Maria Bardi era o cara do MASP, ele convidava meu pai para falar sobre tapetes, contar a história e ele, como eu, era um contador de histórias, ele gostava muito de usar as histórias para explicar o que era um tapete, como era a história da civilização iraniana e eu nasci ali em Higienópolis, fui estudar arquitetura na USP muito porque não tinha muita opção. Eu entrei em física primeiro, porque eu gostava de astronomia, olha a maluquice, o caminho  da cabeça, eu entrei em física primeiro, depois falei assim, mas eu não sou nem bom de matemática, o que eu estou fazendo aqui? Eu tive sorte de ter uma namorada que falou você passa o dia desenhando, você é um cara que gosta das artes, tenta arquitetura, dei a sorte de encontrar um designer, que chamava Fúlvio Nani, que era tio dela, morreu alguns anos depois e o Fúlvio era sócio do Carlos Araújo, o cara que é um dos maiores pintores do Brasil hoje, pinta em madeira e tal, um cara incrível e esse cara me deu a dica, ele falou explora a faculdade, a FAU, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, mesmo que você não saiba o que você quer, lá você vai ter espaço para descobrir durante esses cinco anos o que vai ser da sua vida, ele não estava errado.

Luciano          Isso era anos 80? 90?

Flávio             Anos 80, 87 eu entrei.

Luciano          Aí você na FAU, na FAU…

Flávio             Você jé conhece, já foi no prédio da FAU?

Luciano          … eu fiz comunicação no Mackenzie numa época em que você tinha, então era comunicação no Mackenzie, era arquitetura e urbanismo na USP e tinha ali uma, até uma pequena rivalidade ali entre as faculdades e tudo mais, mas eu conheço bastante, eu sei de muita coisa que aconteceu e que partiu daquela turminha, mas o meu foi anos 70, meados dos anos 70, depois mudou muito, eu não sei mais para que lado foi. Mas aí você se formou em arquitetura?

Flávio             Formei em arquitetura…

Luciano          E partiu para?

Flávio             … dentro da arquitetura eu encontrei já algumas das sementes do que eu viria a fazer no futuro, sabe que tem um curso de designer, tinha um curso de projeto, o curso de urbanismo e dentro do curso de designer, tinha um professor, que chamava Décio Pignatári, o grande Décio Pignatári…

Luciano          Com aquele nariz…

Flávio             … exatamente…

Luciano          … monumental.

Flávio             … monumental, o rosto dele parecia aquela, sabe aquela máscara que vem com óculos e um nariz e um bigode? Ele parecia que ele usava aquilo o dia inteiro, ele era um gênio que chegava com uma Brasília velha, daquelas antigas, sabe aquela pessoa que põe um negócio de crochê em cima da direção da Brasília para não ficar quente quando você põe no sol? Esse era o Décio Pignatári, um dos gênios da poesia concreta brasileira e um dos pais da semiótica, me apaixonei por semiótica e fui fazer a minha tese de formatura lá, o famoso TGI em semiótica, isso mudou a minha vida, me abriu a cabeça para o que eu pensaria em fazer no futuro, como me expressar de uma forma não verbal, mas simbólica dentro da comunicação, de repente eu falei, existe isso? Eu vou me aprofundar, na sequência, no meio da faculdade, eu fui morar em Israel, fiquei lá trabalhando lá e conheci um cara…

Luciano          Um iraniano morando em Israel.

Flávio             … Israel, isso, de origem judaica, de mãe xiita, pai bahai, de origem judaica. Vou morar em Israel, estou lá trabalhando, fiquei lá um ano, conheço um americano que diz assim para mim: isso que você tem no teu coração, isso que você está procurando, tem um homem, um escritor, um pensador, um gênio, que chama Joseph Campbell, procura esse cara, ele escreveu um livro que chamava “O Poder do Mito”, O herói de mil faces, as máscaras de Deus, procura esse homem, ele tinha falecido já há algum tempo e eu fui procurar a literatura dele, aí começa essa nova fase da minha vida, eu volto para a FAU, me formo fazendo o meu TGI em semiótica e aí começa um caminho totalmente diferente da minha vida que é eu decido, quando eu saio da faculdade, a primeira coisa que acontece eu digo assim, eu não vou fazer projeto, porque eu olhava para a cara dos meus amigos que faziam projeto e dizia assim, esses caras nasceram arquitetos, eu gosto de desenhar, eu gosto do conceito de pensar a cidade e tal, mas não é isso, eu sou um contador de histórias e eu acho que eu tenho que continuar contando histórias de algum jeito, eu não sabia como, falei alguém vai me pagar para contar história? Isso não faz o menor sentido, mas eu continuei nisso e ai eu cheguei, sentei com um amigo meu, o Beto, a gente estava assistindo um filme Iugoslavo a época, ainda tinha resquícios de Iugoslávia, o cara era um croata, eu assisti o filme, eu falei vamos fazer um filme? Ele falou Flavião, como a gente vai fazer isso? Eu falo não sei, vamos pensar, a gente pensa umas duas semanas e a gente descobre se a gente vai fazer um filme ou não, duas semanas depois ele volta para mim e diz, eu arrumei um filme pra gente fazer, o diretor chama Denoy de Oliveira, tem a Ester Góes e o Othon Bastos na equipe. Eu falei puxa e os caras vão deixar a gente trabalhar? Eles sabem que a gente nunca fez nada? Que a gente não sabe  porcaria nenhuma? Ele falou isso aí a gente explica depois. A gente arrumou esse trampo, vamos fazer, falei ótimo, e eu falei basicamente o que que eu vou fazer? Ele falou olha, nós dois sabemos desenhar, eu vou fazer a parte de cenografia, você faz produção de objeto e depois se você quiser fazer cenografia também, a gente monta os cenários do filme. Eu falei ótimo, onde vai ser? Onde era o estúdio Vera Cruz, sabe lá no ABC que tinham os estúdios? E assim começou meu caminho para o cinema, foi uma experiência traumática, tentar entender como funciona o cinema no Brasil, vi o resultado na tela e ver que todo aquele sonho se transformava numa coisa que você não tinha muito orgulho, quando o filme ficou pronto eu não avisei ninguém dos meus  amigos, venha assistir o filme que eu trabalhei, porque eu tinha me dado conta que a gente não sabe fazer, que a gente não sabia fazer cinema como eu imaginava que a gente ia fazer e depois e fui estudar cinema nos EUA, eu falei olha, então o segredo agora é eu continuar a minha educação, só que eu vou o que eu imaginava a meca do cinema, fui para Los Angeles e fui estudar na UCLA.

Luciano          Seu pai e sua mãe olhando esse moleque com essa cabeça voando fala vem cá, como é que é? Vamos começar a vender tapete? Filho, como é que é? Vamos conversar, vamos falar sobre tapetes? Como é que é?

Flávio             Vamos para a “lojinea”, meu pai morre na sequência, então tipo quando eu estou na faculdade eu perco meu pai e tenho que me virar trabalhando com tapete durante um tempo, eu trabalho, vendo as minhas coisas e tal, meio que para pagar as contas de casa, mas nunca estou feliz, eu sei que tem alguma coisa que eu tenho que trabalhar, eu sei que é na parte de comunicação, eu fui um pouco para o designer e eu ficava sempre pescando. Nesse meio tempo, eu sempre trabalhei com ONG’s, com organizações não governamentais, ONG’s como algumas pessoas chamam e eu sempre tive algum tipo de envolvimento com a área de  educação de crianças, trabalhava com jovens questões de empoderamento, mas também não sabia como isso ia se realizar, eu não conseguia visualizar isso como trabalho, eu sabia que eu queria trabalhar uma parte do meu tempo e uma parte do meu tempo eu queria ajudar os outros, eu olhava para o Brasil e olhava e falava assim, isso aqui é muito injusto, alguma coisa eu tenho que fazer, eu fui muito privilegiado, eu nasci numa família onde os meus pais me deram a melhor escola, eu aprendi vários idiomas, eu estudava na Cultura Inglesa, meus pais pagavam, Aliança Francesa, meus pais pagavam, eu dizia assim, eu faço parte de uma parte, de uma casta da população que recebeu tudo às custas de eu não sei bem o quê. Eu dizia assim, será que eu estou dando retorno? Eu estudei na USP sem precisar estudar na USP, eu poderia ter pago uma universidade, no  meu curso tinham dois negros na classe inteira, um sala de150 pessoas, será que a USP era realmente para uma elite, eu ficava me perguntando, o que que é que eu posso fazer para devolver um pouco do que eu recebi. Eu sempre fui muito grato ao universo, a Deus, aos meus pais, eu dizia assim eu tenho que devolver isso de alguma forma e aí ei continuei, eu fui estudar na UCLA e fiz o curso de cinema e …

Luciano          Você fez o curso de cinema na Califórnia?

Flávio             … na Califórnia, na UCLA…

Luciano          Você passava de carro assim, estava escrito Hollywood ali em cima, você pegava o jornal, tinha um anúncio procurando alguém para fazer o papel de Robin no filme do Batman, você ia na pré estreia do filme, tinha na plateia sentada em volta de você, pessoas dizendo assim, apontando o nome dos caras, olha lá meu primo, meu irmão, meu tio, meu sobrinho.

Flávio             … eu via os atores na rua, eu lembro do dia que eu entrei numa farmácia, estava a Sigourney Weaver, eu lembro de uma vez, eu estou numa loja de discos, está o Cuba Gooding Junior, eu lembro que eu estava na Banana Republic, dentro do vestiário, fecharam a loja porque já tinha dado o horário e estava Salma Hayek, que fez vários filmes…

Luciano          Frida.

Flávio             … Frida, então eu olhava e dizia assim, eu ia jogar bilhar na Sunset e tinha como parceiro, algumas noites, o Mark Wahlberg, que é um ator muito conhecido, eu dizia assim,  cara é como você morar no Rio de Janeiro e a turma que trabalha na Globo, os atores, os diretores, os músicos, sabe eu encontrei o Lenny Kravitz, eu encontrei gente que eu nunca imaginaria que ia encontrar em dois anos…

Luciano          E despido do glamour, sem glamour. Sabe que aconteceu isso comigo, guardadas as proporções, eu estava fazendo uma viagem por lá, cheguei em Los Angeles, estava lá com o pessoal todo, a família toda e aí eu pego o jornal, ia ter uma, não era nem pré estreia, era um treco que eu não sei bem o que é, mas eu sei que eles fazem projeções dos filmes algumas vezes antes de o filme explodir e tinha uma dessas, estava anunciado no jornal que era o filme do Spielberg,  “A Lista de Schindler”, falei quer saber de uma coisa, catei o carro, ninguém quis ir, eu fui sozinho, e fui para o cinema, sentei ali no cinema, isso que eu te falei, eu tinha visto anúncio no jornal chamando  pessoas para ir fazer teste de elenco do filme do Batman e tudo mais, aí eu sento lá para assistir o filme, “A Lista de Schindler” e o filme é uma porrada, é uma paulada, termina o filme, metade da plateia está chorando e eu sempre vou no cinema, eu fico até o último momento quando a luz acende, então começou passar aquela tela com aqueles nomes todos e os caras em volta de mim fazendo assim, apontava, olha lá o fulano, o ciclano, eles  estavam apontando os nomes dos amigos deles e aí que eu me dei conta, falei se bobear, eu estou no lugar onde esse filme foi feito e se bobear do meu lado está o cara que estava ali no filme o que para um garoto de Bauru que estava acostumado a ver só o glamour do cinema, falei como será que é estar no lugar onde as coisas acontecem? E de repente você encontra os caras sem glamour, despido de glamour, são pessoas normais e que sofrem ou entram dentro de um processo que vai botando glamour e quando chega no final, quando a tela liga e bota a Salma Hayek, ela tem 2,93 de altura…

Flávio             Quando ela tem 1,45 de altura.

Luciano          … ela é uma coisa… e é uma menininha minúscula.

Flávio             Baixinha, é pequena. É, mas que tem a luz própria, que conseguiu construir isso, eu acho que tem o aspecto que é da natureza mesmo, de algumas pessoas, teve algumas pessoas que eu encontrei aqui que eu disse assim, essa pessoa tem futuro, essa pessoa… e você vê quando lá na frente essa pessoa estoura, você realmente percebe, essa pessoa nasceu para isso. Esse é um talento.

Luciano          Então, de novo, vamos lá falar daquela força estranha. É inexplicável, outro dia eu estava vendo, eu não me lembro se era documentário, alguém estava fazendo e o cara comentando que o pessoal tirava sarro do Arnold Schwarznegger e ele falou o seguinte, pára para pensar um pouquinho, um sujeito nasce numa vila obscura da Áustria e resolve lá na Áustria que é um país que não tem expressão, ele decide que ele vai se tornar um bodybuilder e que decide se tornar o mister América, o mister mundo, sei lá…

Flávio             Mister Universo

Luciano          … e ele vai, começa, vai ganhando, se torna o Mister Universo, resolve que ele vai mudar para os EUA e resolve que ele vai fazer uma carreira no cinema e vira um ator super bem sucedido.

Flavio             Vira o Conan, primeiro, os caras chamam ele para virar o Conan.

Luciano          Super bem sucedido. Aí ele resolve que ele vai casar com uma Kenedy e ele casa com uma Kenedy aí ele decide que ele vai ser político, ele vira governador da Califórnia e falando, não é a língua nativa e aquele jeitão truculento dele e o cara, eu olho e falo assim, bicho, como é que você pode considerar um cara desse, qualquer coisa que menos do que extremamente bem sucedido e realmente quando você olha você fala meu, brutamontes, só tem músculo ali, o que esse cara, que luz é essa que consegue fazer um cara desempenhar dessa forma, quer dizer, qualquer carreira dessa que ele fizer sozinho, já era, me tornar o campeão de bodybuilder da Áustria, já é um baita feito, agora me tornar mister universo e depois no cinema e casar com… e virar governador, qualquer coisa dessa sozinha é um feito  e o cara faz quatro, cinco, seis coisas, uma atrás da outra.

Flávio             Eu acho que tem a associação de fatores sabe, eu lembro que eu aprendi uma vez que um acidente de carro não acontece por um erro, por dois erros, ele normalmente acontece por três enganos e o terceiro engano, quem é especialista da área, eles chamam de fator final, olha que interessante, um acidente não acontece e eu acredito que esse tipo de sucesso também é a combinação de vários fatores, eu acho que todo ser humano, eu tenho uma luz particular e única dentro de si, se você me permite, Luciano, tem uma história e eu vou chegar de novo no Arnold Schwarznegger, só que eu vou fazer um parêntesis e abrir um espaço aqui que é uma coisa meio mística, dizem que uma das provas da existência de Deus é que tudo o que é criado no universo é único, único. Nada se repete no universo, você é o único Luciano criado em todo o universo, nunca existiu alguém como você no passado nem nunca vai existir alguém como você no futuro, a você foram dadas qualidades, manifestações de beleza, inteligência, que são xsó suas e você tem uma contribuição única para dar para o mundo, nisso você entende que não existe espaço para inveja, nem ciúmes, porque cada um tem isso em si. Um filósofo falou uma frase há alguns anos que eu achei muito bonita, eu guardo isso para mim, ele diz assim que “a maior parte do ser humano, a maior parte dos seres humanos morre ainda com a música dentro do coração, nunca pode expressar isso durante a vida”. Quer dizer, ele tinha uma música no peito que ele nunca conseguiu expressar nessa vida, uma das formas de expressar isso é você realmente trabalhar as joias que você tem dentro de você. Eu acredito que todo ser humano é uma mina rica em joias de inestimável valor, só a educação pode fazer com que você encontre qual é a sua joia e você poder lapidar e polir ela para ela se transformar em alguma coisa especial, mas para isso tem algumas pré-condições e eu acho que quando você fala de liderança tem isso, que a primeira coisa é se conhecer e descobrir quem eu sou, o que eu tenho de especial? O que é aquela coisa especial que Deus me deu que não deu para mais ninguém e que eu  posso manifestar nesse mundo. A segunda coisa é nunca abandonar os seus sonhos por conta das circunstâncias, acho que a terceira coisa é não desanimar, não deprimir, eu mesmo, eu posso te contar uma história de quando eu resolvi assumir uma postura que não era a minha o quanto eu deprimi, o quanto eu fiquei triste, tentando encontrar um caminho que não era o meu, tentando atender a demandas da sociedade que não eram minhas, eu tinha que fazer esse caminho da comunicação e eu fui dizendo não, mas eu tenho conta para pagar, eu tenho eu fazer aquilo, quem é que vai pagar pelo que eu tenho? Mais tarde, só mais tarde eu me dei conta que esse caminho que eu tinha era só meu e que cada um dos 7 bilhões de pessoas nesse mundo tem um caminho e uma contribuição especial para dar.

Luciano          Você não acha que pensar assim sendo parte da classe média alta, classe AAA é muito mais fácil?

Flávio             Muito mais fácil.

Luciano          Porque você pode se dar ao luxo de errar, tentar de novo e se você não tiver grana para comer amanhã o seu tio tem, o seu irmão tem, sua mãe tem, etc e tal, lembra que tem um garotão nos ouvindo aí, ele está dentro de um busão, ele tem 23 anos, está indo para um trabalho que ele odeia, que ele não vê a hora de sair de lá, mas ele tem que ficar lá porque a graninha curta no final do mês vem dali, como é que esse cara pode…?

Flávio             Sabe que eu tive a bênção, eu tive a maior bênção do mundo, foi perder tudo, quebrar, aí você diz, putz, já vi gente quebrar, não, eu perdi tudo, quebrei nesse processo e ainda fiquei devendo uma grana federal para o Itaú, que eu tive que pagar depois, mais lá na frente e tal, renegociar isso…

Luciano          O que você quebrou? Era uma empresa?

Flávio             Na verdade era, eu montei alguns projetos que não deram certo e que tinham a ver com cinema, tinham a ver com produção e tal e eu tentei fazer as coisas do meu jeito, eu disse, eu não me adapto a esse modelo, eu trabalhei um tempo com cinema, disse não, eu quero fazer as coisas do meu jeito, só que eu quebrei e exatamente essas pessoas que estão ali, elas estão provavelmente numa condição bem mais confortável do que a minha que não só eu não tinha dinheiro para pagar meu aluguel como eu estava devendo dinheiro e de novo eu fui obrigado a ser verdadeiro comigo mesmo e dizer senta aqui, vamos descobrir o que é que você tem para oferecer para esse mundo e olha, demorou muito tempo para eu corrigir isso, demorou muito tempo, mas eu tive ajuda de muitas pessoas, eu tive um processo com, graças a Deus eu tinha amigos, eu acho que isso é que me ajudaram muito nesse processo, mas eu nesse processo, eu não desisti de trabalhar como ativista, eu não desisti de trabalhar no terceiro setor, eu não desisti de trabalhar com ONG’s e nesse caminho eu comecei a trabalhar com publicidade e aí…

Luciano          Cinema e publicidade

Flávio             … cinema e publicidade, porque eu disse, eu tenho que pagar as contas, eu não posso mais viver o sonho de  fazer cinema, eu tenho que encontrar uma forma de pagar as contas, aí você imagina um cara que cresceu do jeito que você bem descreveu, com todas as opções, agora quebrou, tem que trabalhar com publicidade e eu começo a fazer filmes com coisas que eu não acreditava, eu entro numa empresa e os caras me dão o filme da kaiser para fazer, eu falo para o cara, mas eu nem bebo, por que que eu? Não concordo com essa indústria do álcool, aí de repente filme de banco, eu ganhei um prêmio fazendo um filme de Caixa Econômica Federal, eu falei justo tinha que ganhar um prêmio fazendo filme de banco? Justo banco?  Que na minha opinião não produz nada de muito bom e brinca com o dinheiro das pessoas e tal, eu disse assim, eu não acredito nisso. Depois eu fiz trabalhos para a Unilever, fiz trabalhos  para a Natura, aí começou uma sequência, Casas Bahia, fiz coisa para o Ponto Frio, Óticas… você pegar uma lista, olha para  meu repertório, tem dezenas, de repente eu tinha centenas de filmes que eu tinha feito, comecei a fazer Varejão, filmava toda semana…

Luciano          Como diretor?

Flávio             … como diretor, como diretor e eu virei e falei, esse era o meu sonho, eu queria estar no set de filmagem, eu queria estar filmando toda semana, eu batalhei, batalhei, quebrei a cara e de repente eu consegui conquistar, eu filmava com regularidade.

Luciano          Mas não isso, não era isso, você não queria filmar isso, não é?

Flávio             Não era isso que eu queria filmar e você vê, o seu ranking muda perante as pessoas quando a sua situação diz não, agora o cara é diretor, o cara está mandando bem, olha os filmes dele no ar, trabalhando com atores famosos, estava dirigindo Paulo Betti, diferentes pessoas, eu olhava e falava assim, pô não era isso que eu queria? De repente me caiu a ficha, não era isso que eu estava buscando, eu queria poder influenciar as pessoas, aí eu fui fazer, tive a oportunidade de fazer filme de campanha política, não vou nem falar o partido nem nada, tive a oportunidade de trabalhar com talvez os maiores marqueteiros do Brasil e eu falei, e eu achava que essas pessoas estavam querendo fazer alguma coisa de bom para o Brasil…

Luciano          Queriam eleger o político dela.

Flávio             … nada disso, era tudo mentira de novo e eu sabia que não tinha que me meter com aquilo, mas era uma oportunidade de eu aprender, eu olhava para aquilo e dizia assim, puxa vida, mas eu quero trabalhar, eu quero trabalhar dentro desse contexto e aí teve um dia que eu decidi, eu falei assim, tudo o que eu aprendi na publicidade, tudo que eu aprendi dentro desse processo, eu vou aplicar para fazer o bem. Se eles estão usando a publicidade e a parte do marketing político para manipular as pessoas, eu vou fazer advocace, que é um lobby do bem, vou usar o que eu aprendi para influencias as pessoas para as causas que eu acredito. E aí eu comecei a trabalhar com várias instituições, eu fui parar no São Paulo contra a violência, que era o disque denúncia, eu queria entender porque que o Brasil, naquela época, matava 50 mil pessoas por ano, sabe que a guerra da Síria mata perto de 50 mil e o Brasil tem 50 mil mortes, aí eu fui comparar a história do Brasil com a história do resto do mundo, eu descobri que os EUA tinha 16 mil assassinatos por ano, tem 300 milhões de habitantes, o Brasil tem 200 milhões de habitantes, o Brasil mata seis vezes mais que o país mais armado do mundo, eu descobri que a Inglaterra tinha 600 mortes por ano, os caras tem 60 milhões de habitantes, eu olhei e falei será que o Brasil é o país mais violento do mundo? Aí fui fazer uma pesquisa, das 50 cidades mais violentas do mundo, 19 eram no Brasil, aí esse ano a estatística tem das 50 cidades mais violentas do mundo, 21 são no Brasil, eu falei vou trabalhar no São Paulo contra a Violência, eu quero entender o que é isso, eu quero entender porque talvez o brasileiro é o povo mais selvagem do mundo, imagina pensar isso? Eu nasci aqui, fui criado aqui.

Luciano          Sim e com a ideia do que o brasileiro é aquele povo divertido, cordial, amigo, simpático, ninguém é tão legal quanto o brasileiro, não é?

Flávio             É eu sempre achei isso, eu ainda acho, eu gosto do Brasil, eu não saio daqui, eu tinha possibilidade de trabalhar nos EUA em qualquer lugar que eu quisesse, eu tive proposta de trabalho, eu volto sempre para cá, mas eu queria que alguém me explicasse, me explica porque em 2015 a gente matou 58.500 pessoas no Brasil.

Luciano          Mais, foram mais de 60 mil.

Flávio             É, diz que o número oficial era esse, eu uso um número que eu nem acredito nesse número.

Luciano          Eu acho que é muito maior.

Flávio             É muito maior, eu também, eu não acredito, esse é o número que a gente tem, que você tem nome e endereço das pessoas que você encontrou o corpo, aí eu ficava pensando assim, Azm que é o meu nome persa, eu dizia assim, Azm é… será que ninguém consegue explicar, aí as pessoas dizem não, é desigualdade, é a pobreza. Bangladesh é mais pobre que a gente, não tem um dez avos da nossa, na verdade é 8% do número de mortes daqui. A Índia é muito mais pobre que a gente, espera aí, na África tem países paupérrimos, por que que eles não matam tanta gente? E aí eu comecei a entender que eu tinha alguma coisa para oferecer, que não tinha a ver só com diminuir os extremos de riqueza e pobreza, melhorar a situação de desigualdade de gênero entre homens e mulheres, mas era de descobrir que como é que você pode trazer justiça para a vida das pessoas e eu percebi que eu podia trabalhar com grupos de pessoas que estavam ligados a isso, mas aí de novo aconteceu aquela história, larguei a publicidade, não vou fazer nada que tenha a ver com  coisas que eu não acredito, quem é que vai pagar minha conta? Mágica, vai cair do céu? E eu comecei a trabalhar com ONG’s grandes até que eu fui trabalhar num projeto de uma ONG de Seatle, que chama Path, que é financiada pela Bill e Melinda Gates Foundation, de repente…

Luciano          Esse capitalista nojento desse Bill Gates, esse bilionário, trilhardário, capitalista

Flávio             Ele resolveu dar toda a grana dele, ele teve uma conversa com Warren Buffett, ele e a mulher, a Melinda Gates e acho que, imagino que todos vocês já conheçam essa história, mas assim, o Warren Buffett chegou para ele e falou, meu querido, você quer que seus filhos se transformem em Paris Hilton? Num desses garotinhos playboyzinhos que andam por aí? Se você der a grana que você ganhou com seu suor para eles, é isso que vai acontecer, eles tem que saber que eles vão ter que batalhar para construir a vida deles. Bill Gates disse que ia dar uma parte da fortuna, que era uma fração, 5 milhões de dólares para cada filho e o resto do dinheiro ia todo para benemerência, para caridade, ele montou uma fundação e a fundação montou projetos, de repente o seu amigo aqui…

Luciano          Vai parar lá.

Flávio             …vai para trabalhar com eles.

Luciano          Deixa e só para não perder esse embalo teu do Warren Buffett, eu me lembro que nessa conversa toda eles tiveram esse papo lá, eles estavam dizendo o seguinte, que o Warren Buffett estava pretendendo escrever um livro para ser lido por todos os bilionários e o livro chamaria o seguinte “Como viver com 500 milhões de dólares”, para ensinar um cara que ele não precisa de 7 bilhões…

Flávio             Ou 70…

Luciano          … não precisa de bilhões, ele pode viver muito bem com 500 milhões e o resto é o resto, mas é interessante, isso é uma discussão que dá um programa inteirinho, quanto é que é ser rico, não é? Quanto é, o que é ser rico, o que compõe ser rico? E por que essa compulsão de quem já tem querer muito mais, você vê o lance que está acontecendo no Brasil agora, essa loucura toda de escândalos, você fala, mas esse cara já está muito bem de vida, esse cara já é fazendeiro, para que que ele quer mais? É uma doença, isso é uma doença.

Flávio             Eu tinha uns amigos que um deles tinha helicóptero e eu descobri que ele tinha amigos que tinham helicóptero também e eu descobri que o helicóptero dele era um helicóptero de 1,5 milhão de dólares que era um helicóptero simples, porque quem era fodástico, pode falar isso?

Luciano          Pode, pode falar.

Flávio             É o cara que tem um helicóptero três, quatro, cinco vezes maior, mais poderoso e que aquele helicóptero dele não era o helicóptero é… então a agente se dá conta que quando as pessoas entram num clubinho desses de pessoas muito ricas, a comparação deles já não é mais entre quem não tem nada com quem tem uma fortuna, mas é uma brincadeira de um clubinho fechado de pessoas. Sabe hoje eu tive a bênção hoje de manhã de estar lá na OAB, no centro de São Paulo, eu fui participar de uma reunião e eu parei o carro no estacionamento, não tem como parar ali na Sé e fui caminhando até a OAB e durante três quadras eu vi o inferno na terra no centro de São Paulo, se te disser que eu vi dezenas  de pessoas deitadas no chão em um estado deplorável, inúmeras pessoas viciadas em drogas, pequenos assaltantes, prostitutas, todo tipo de mazela que você pode imaginar na sociedade, eu vi nessas três quadras, logo ali na frente da igreja da Sé. Eu diria…

Luciano          A Praça da Sé realmente virou um lugar, eu não sei descrever aquilo lá.

Flávio             … e assim, você caminhar no meio daquilo e você diz assim, será que eu não tenho nada a ver com isso mesmo? Será que eu vou voltar para…  eu morava em Higienópolis, agora eu estou morando na zona sul, eu volto e finjo que não é comigo? Que que eu tenho a ver com isso, por que que aquelas estão ali? Por que elas estão nesse estado? Por que o sofrimento tem que ser nesse nível? Por que o Brasil tem que ter 58 mil, ou 60 mil mortes? Por que a gente tem que ser campeão mundial de assassinatos? Campeão mundial de mortes no trânsito? Por que a gente tem que ter esse nível? E quando a gente culpa os governantes, entro no Facebook vejo meu feed cheio de gente que acorda de manhã e diz: agora eu vou protestar, eu vou me indignar, o que quer dizer indignar? Sabe, realmente será que a gente está fazendo alguma coisa para mudar a realidade? Ou a gente está sentado aqui reclamando de políticos e de governantes? Sem se dar conta da contribuição que a gente tem, sabe o Gandhi tinha uma frase que eu gostava muito, que ele dizia assim: “seja a mudança que você deseja ver no mundo”. Será que a gente faz isso mesmo? Será que a gente tem moral de reclamar desse jeito no Brasil sabendo do que acontece na esquina da nossa casa? Sabendo que você tem uma calçada na frente da sua casa toda esburacada que você tem responsabilidade de consertar, mas não conserta porque diz pô, gastar dinheiro com isso? Deixa a prefeitura faz. E esses questionamentos. Quando eu entrei no projeto que era financiado pela Gates, eu percebi que sim, existiam pessoas que poderiam financiar os meus sonhos e que eu, o meu sonho poderia encontrar com o sonho de outras pessoas, eu descobri que existem centenas de milhares de pessoas no mundo que querem trabalhar juntas, que querem realizar alguma coisa, mas eu tive que pagar um preço até chegar lá, eu tive que passar por todo esse caminho de trabalhar dentro de lugares aonde eu não gostava, de passar por coisas e de construir um conteúdo que pudesse ser de alguma forma de algum uso para as pessoas, tanto que hoje em dia eu faço palestras e esse é um caminho que eu escolhi, usar um pouco da experiência que eu conquistei na área de comunicação, na área de empoderamento, de educação e contar um pouco disso, contar algumas histórias que eu acho que podem transformar a vida das pessoas.

Luciano          Hoje você trabalha na fundação, é isso?

Flávio             Não.

Luciano          Você trabalha com o quê hoje?

Flávio             Eu trabalhei com a Path e com a Guem durante quase três anos, o projeto deles no Brasil acabou e eu procurei outras…

Luciano          Acabou porque tinha começo meio e fim, era isso?

Flávio             … tinha começo, meio e fim, eles tinham um valor que eles queriam gastar no Brasil, o valor acabou  aí eu comecei a trabalhar com várias instituições diferentes, eu, por exemplo, comecei a fazer uns trabalhos com a Turma da Mônica, então nesse processo eu fiz amizade com o Maurício de Souza…

Luciano          Grande figura. Esse eu queria um dia trazer aqui.

Flávio             … nossa, a figura do seu Maurício foi de uma generosidade, por exemplo, uma das minhas funções era convencer o seu Maurício a dar alguns dos personagens para o projeto que a Path tinha esse projeto que a Gates Foundation estava financiando e ele primeiro deu o cebolinha e a mãe, quando o projeto estava quase pronto eu cheguei para ele e falei olha seu Maurício eu quero agradecer agora…

Luciano          O que era o projeto? Era educação, o que que era?

Flávio             … estava ligado a lutar contra a fome oculta, então era um projeto que a gente chamava do arroz vitaminado, que era colocar vitaminas e sais minerais no arroz para poder melhorar a condição de saúde das nossas crianças e  dos adultos no Brasil.

Luciano          Fome oculta é aquela da pessoa que se sente saciada, mas não comeu os nutrientes necessários.

Flávio             Perfeito. Você explicou melhor, eu costumo explicar isso em dois minutos, mas basicamente é isso, é o cara que come, come, come, fica gordo, mas não tem os nutrientes no corpo, você tira o sangue dele para fazer um exame, você descobre que o cara está com nível baixo de ferro, vitamina B, vitamina D, você fala espera aí, esse cara não está gordo? Está gordo, ele come farinha, açúcar, gordura e sal, mas basicamente ele não tem acesso a vitaminas e nutrientes essenciais. Então se colocaria esse negócio no arroz e vitamina A e a gente começou uma campanha, a gente fez com o Cebolinha e com a mãe, aí ele virou para mim um dia, a gente já estava mais amigo e eu comecei a fazer os filmes da Turma da Mônica, eu comecei a fazer filmes para a MSP que é Maurício de Souza Produções, ele pegou um pouco mais de intimidade, ele virou e falou assim, Flávio, por que você não me pediu a Mônica? Falei seu Maurício, eu fiquei com vergonha, Mônica é o carro chefe daqui, eu imaginei o Cebolinha faz o serviço, ele chama a equipe dele e diz, pessoal, joga tudo fora, vamos fazer exatamente a mesma coisa com a Mônica e com a mãe, porque eram os dois personagens juntos, então eu via um homem de uma generosidade que eu fiquei muito espantado e ele continuou e a gente continuou trabalhando juntos, eu continuei fazendo alguns filmes para eles e continuei atendendo diversos outros clientes e hoje em dia eu estou fazendo trabalho de sócio na Art School com direitos humanos também e fui fazer um filme lá fora, que chama “O jardineiro” fiz várias coisas relacionadas a cinema, às artes e produção cultural, quer dizer, e agora eu comecei de novo um novo projeto e eu vou começar a caminhar numa direção de novo que é a de levar o que eu aprendi para outras pessoas, encorajar outras pessoas a buscarem o seu sonho, a realizarem os seus sonhos, mas sempre pensando no bem comum, não naquela ideia, você sabe que tem muita gente que vende a ideia do sucesso profissional, do sucesso individual e  eu não acredito nisso, eu acredito que ou é bom para todo mundo ou não é bom para ninguém, vender essa fantasia do sucesso individual eu não acredito mais nisso e eu quero poder ajudar pessoas, organizações, grupos a crescerem juntos.

Luciano          Tem um problema aí que essa história desse maniqueísmo  que o mundo parece que se transforma que ou você está oprimindo o indivíduo de um lado ou você  está empoderando, eu odeio essa palavra, empoderando o indivíduo do outro lado de formas que não tem meio termo, ou eu sou uma sociedade estatal que oprime o indivíduo não existe, ou eu sou uma outra individualista onde eu e eu e o resto que se dane e o meio campo…. e aprece que as discussões são nas duas pontas, não se discute o meio, está todo mundo discutindo ali, então ou eu sou contra ou sou a favor e não tem discussão no meio que explique esse momento que nós estamos vivendo no Brasil aqui é exatamente isso, então tem ideias legais nas duas pontas que se cruzassem as duas a gente podia ter, não vamos dizer o melhor dos dois mundos mas talvez alguma coisa um pouco mais equilibrada.

Flávio             Mas precisa de bom senso para ter essa conversa.

Luciano          Mas então essa é a questão, bom senso com Facebook?

Flávio             Não.

Luciano          Não. Bom senso do jeito que as discussões são raras hoje em dia não dá. Então a primeira coisa é você ter bom senso, mas é o bom senso é consequência de alguma outra coisa que vem com a questão da educação, mas principalmente com a tua capacidade de julgamento e tomada de decisão, quer dizer, eu não consigo ter bom senso se eu não sei julgar as coisas, então eu vou lá e te dou uma porrada porque  para mim, me xingou, quer meu mal, não vou admitir que você queira meu mal, vou te dar uma porrada, nenhum bom senso e parece que nós estamos chegando nesse… não sei se é o Brasil está nesse nível ou se é isso que é visto, a gente olha muito essas pontas, então o que aparece é o escândalo, é  a loucura, é o sangue, é a violência, não se fala do que não é isso, isso é que traz audiência e tudo mais, não é?

Flávio             E tem muita gente boa fazendo coisas legais no Brasil.

Luciano          Mas é o que mais tem, olha aqui ó, a minha carreira de palestrante, eu viajo esse país aqui de cabo a rabo, eu sempre falo, toda vez que eu saio de São Paulo para ir para algum lugar e falo o lugar, olha eu vou lá para interior, como eu fui, interior do Pará, fui fazer palestra lá em Marabá, fui fazer palestra no interior, uma cidadezinha do interior do Mato Grosso, eu chego lá tem puta de uma comunidade envolvida, a plateia tem 500 pessoas que estão lá sedentas para ouvir sobre inovação, sobre empreendedorismo, sobre liderança e eu nunca vou lá para ver o desastre, eu vou ver sempre gente querendo fazer acontecer e eu só sou um palestrante, como eu tem mais um milhão, todos eles viajando pelo Brasil e vendo esses núcleos onde tem gente fazendo acontecer. Então eu não acredito que o Brasil  seja ruim ou que o brasileiro seja ruim, acho que tem uma minoria, aliás eu vi até um negócio interessante, eu botei uma frase ontem, acho que do Henry Kissinger que dizia que são os 90% de políticos maus que fazem ficar ruim a imagem dos 10% bons. Mas eu acho que aqui é o contrário, a gente é, eu não diria que a maioria dos brasileiros que são ruins, o problema é que a gente não fala do que dá certo, a gente não fala do que é bom, a gente não conta as histórias legais, a gente só  conta as histórias de sucesso, as histórias de quem saiu do nada e virou bilionário e não conta a história do cara que não ficou bilionário mas que está vivendo uma vida decente e fazendo coisas acontecer em volta de si, aliás quando eu criei esse programa aqui, o LíderCast, era essa  a intenção, eu quero falar com quem? Não, eu não quero trazer aqui empresários bilionários, até vou trazer, legal que venham e é muito legal ouvir a história, mas eu quero gente comum, onde você está sentado aí já sentou de pastor batista a artista de rua, de circo que você fala, deixa eu ver tua conta no banco, ele fala eu não  tenho nem conta no banco, mas a importância desse cara na comunidade onde ele está é fundamental, ele  faz acontecer, ele muda a vida das pessoas, só que esses caras não tem suporte, não consegue chegar lá, precisa da lei para ajudar, a lei não ajuda, quer um financiamento o dinheiro não vem, é tudo caro, é tudo difícil, isso daí é muito difícil construir um país com tanto impedimento no caminho.

Flávio             Você falou sobre empoderar, a gente sempre cai de novo naquela, aquele ditado lá “não dê o peixe, ensine a pescar”, tem tanta sabedoria nisso, você sabe que se eu puder te contar, eu uma vez, você sabe que a Globo tinha uma época que eles tinham uma ideia que começou com o Bamerindus, que tinha um Brasil que dava certo, que eles tinham uns programas que eles mostravam coisas legais que aconteciam no Brasil, a Globo começou a replicar um pouco isso e durante o jornal nacional, essa história tem mais de 20 anos, tinha um clipezinho de uma história de alguém no Brasil e eu gostava muito de assistir isso porque eu dizia assim, deixa eu ver o que que eles escolheram para mostrar essa semana hoje, eu lembro que no Nordeste, eles pegaram uma cidade muito pequena, devia ter lá seus 20 mil habitantes e tinha um senhorzinho com mais de 70 anos nessa cidade que se sentia muito mal vendo as crianças que estavam nas escolas subnutridas e ele sabia que não tinha acesso à merenda escolar, não acontecia nada disso, essas crianças iam para a escola basicamente passando muita fome e ele decidiu que ele ia plantar para alimentar essas crianças, um velho de 70 anos, setenta e poucos anos e você sabe como é isso, 70 anos de alguém que nasce na caatinga é quase 100 anos da gente, tamanho o sofrimento, dificuldade que essa pessoa passou, esse senhor foi caminhando de casa em casa, perguntando se poderia plantar no quintal da casa das pessoas, as pessoas disseram, mas quem que vai cuidar? Ele falou: eu mesmo, eu passo aqui toda semana para cuidar dessa pequena horta, mas eu só peço para poder colher isso e depois levar para as escolas para poder alimentar essas crianças, o final da reportagem mostra o momento em que as crianças das escolas se reúnem para agradecer para esse velhinho, ele vive para cuidar dessas plantas dessas hortas para poder alimentar crianças que ele nunca conheceu na vida, que ele não sabe quem são.

Luciano          E que não saberá o que vai ser do futuro delas porque ele não vai estar mais aí.

Flávio             Mas ele decidiu, ele disse, se essas crianças passam fome, eu não tenho terra, eu vou arrumar um lugar para poder cuidar dessas crianças, vou arrumar lugar para plantar, para cuidar delas e eu fiquei me perguntando assim, que desculpa eu tenho para não fazer nada, que desculpa eu tenho para ficar em casa sentado fazendo sabe Deus o que? No computador, na televisão, até sendo lendo um livro que eu acho que a gente tem que ler mesmo, tem que estar no computador, mas assim, eu não acredito mais em ativismo de internet, eu não acredito em ativismo de quem fica dentro de casa dizendo eu reclamo, eu bato panela.

Luciano          Eu pago meus impostos e está resolvido.

Flávio             E pago meus impostos. Sabe, eu trabalhei com o Nelson Piquet, eu vou falar isso e se ele escutar também, não tem problema nenhum, eu não tenho, eu fiz a minha parte com ele. Eu trabalhei com o Nelson durante quase um ano, o Nelson Piquet tinha uma empresa, chamava Autotrac e eu fiz um filme de uma hora antes do IPO, antes da empresa dele abrir, ele queria ter um filme que explicasse tudo o que ele faz e o Nelson Piquet tinha a maior empresa de rastreamento via satélite da América Latina e olha, eu fiz um filme muito bonito para ele, explicando tudo, tudo o que acontecia, toda a tecnologia, todo o funcionamento de satélite dele e na época eu tinha um projeto que acontecia aqui, com o qual eu trabalhava, na Associação Monte Carmelo, fica em Porto Feliz, 200 crianças carentes com o qual eu trabalhei, durante 10 anos eu me dediquei muito a esse projeto e tinha um carinho muito especial e fui pedir para o Nelson ajudar, não ajudar com doação, mas tinha a ver com um negócio de imposto, que era uma dedução do imposto, se ele ajudasse ele ia pagar um percentual… e o Nelson mandou o, como chama? O diretor de marketing dele dizer para mim que olha, o seu Nelson não ajuda instituição nenhuma, ele não acredita nisso, ele paga os impostos dele e ele quer dizer para você que olha, ele ficou meio triste até de você pedir ajuda e tal para uma instituição dessas porque ele não queria ser constrangido com esses pedidos. Ele fez o IPO da empresa dele, eu acho que foi dois bi, o Nelson virou um dos homens mais ricos do Brasil e eu fiquei pensando dentro do meu coração assim, não quero criticar, eu pedi na época e eu recebi essa resposta e eu me dei conta que existem, entre os empresários no Brasil, uma visão de que eles não tem responsabilidade nenhuma sobre a realidade, eu percebi isso, que a única responsabilidade que eles tem é serem honestos com os funcionários e pagar os impostos, mas que a posição que eles têm no Brasil, não lhes dá outra responsabilidade se não essa.

Luciano          Mas você consegue generalizar dessa forma, quando você fala “eles”, dá a impressão de que todos ou a maioria, ou muitos, como é que você põe isso, como é que você quantifica isso?

Flávio             Olha, eu não tenho porque não tem um número para te dar…

Luciano          Deixa eu te contar uma historinha…

Flávio             Fala.

Luciano          … aconteceu comigo aqui, eu escrevi um, acho que eu fiz um programa, não me lembro como é que foi, eu contei uma história no programa lá que eu falava exatamente dessa coisa de poder se mexer e eu estava comentando ali sobre uma ideia, eu não me lembro mais detalhe como é que era, mas o conceito era o seguinte: era que dar para alguém, ah acho que eu falei do meu programa, que eu estava tentando financiar o programa e tudo mais que era complicado e que eu ia lá e os caras não queria fazer nada e eu dizia para o cara, eu não quero que você tire o dinheiro do Faustão para botar no Café Brasil, pega aqueles  10 milhões que você dá para o Faustão, tira 100 mil reais dali entendeu? Então o que você faz com 10 milhões, você faz com 9 milhões e 900 mil, faz igualzinho, pega aqueles 100 mil e põe aqui durante 1 ano, entendeu? No Café Brasil, o que para você não faz diferença nenhuma, para o Faustão menos ainda, para mim faz toda a diferença do mundo, então é uma fraçãozinha daquilo, eu falando no meu diálogo com os caras. Passa um tempo, eu recebo um e-mail de um sujeito que ouviu o programa, que ficou, e aí eu chamava os empresários, eu falava, você que é empresário bota na tua cabeça sabe, esse dinheirinho que você tem, que você está gastando aí, quebra em pedacinho, o que para você não é nada, de repente para aquela creche é muito. Me manda um e-mail um ouvinte lá de uma cidade do nordeste, vai me falhar agora o nome, ele é dono de uma rede de supermercado pequenininha que tem lá, ele me escreveu falando eu sou um desses caras que anunciam nesses programas populares porque são eles que trazem público para o meu supermercado, mas esse teu programa me incomodou, como é que você acha que eu podia ajudar? Aí eu contei par ele essa história, falei escolhe alguém na tua cidade e dá uma fração para essa pessoa, e uma fração é nada e passa um tempo ele me manda depois um e-mail dizendo que ele encontrou uma pessoa na cidade que trabalha com xadrez, jogo de xadrez nas escolas e ele manda uma foto para mim de um baita evento na cidade, na praça, um tabuleiro de xadrez gigantesco, aquelas peças grandes, um monte de criança, ele falou você está vendo isso aqui? Eu me aproximei desses caras e passei a contribuir com R$ 500,00 por mês e aqueles caras que tinham um projeto legal que não decolava porque faltava um dinheirinho, ele falou, esse meu dinheirinho que não fez nenhuma mudança no meu projeto de vida, não mudou nada na minha vida, criou essa loucura que você está vendo na cidade aqui e eu já estou procurando outros para ajudar, quer dizer, um empresário pequeno, numa cidade pequena com pouquinho dinheiro provoca uma ação que pode sei lá se vai mudar alguma coisa agora, mas talvez alguma daquelas crianças, por causa daquela participação, vão replicar aquilo no futuro.

Flávio             Com certeza, eu não tenho porcentagem, eu só sinto que assim, a gente tenha dados em relação à benemerência no Brasil comparados com alguns outros países, a gente sabe que a elite brasileira tem pouco costume de fazer benemerência, vou te dar um exemplo simples, por exemplo, eu estudei na USP, não paguei nada durante cinco anos, eu tenho um débito para com o estado e  para com a USP por conta de ter estudado lá, nos EUA, quando eu estudava na UCLA, tem uma concorrente que era a USE, os meninos chegaram para mim e falaram vamos lá na USE que é tipo como USP e Unicamp, eu falei vamos fazer o que lá? Eles disseram, hoje tem inauguração do prédio que o Steven Spielberg e o George Lucas construíram na USE, falei como assim? Ele falou, eles estudaram lá, ficaram muito ricos…

Luciano          E devolveram.

Flávio             … fizeram curso e decidiram construir um prédio, eu virei e falei puxa, tá falando sério? Ele falou é. Eu falei e? Ele falou, construíram o prédio, eles estão devolvendo para a universidade uma fração do que eles receberam lá dentro, esse é o conceito de alumini, eu não sei como  em  português a gente chama isso, mas é alumini que é o cara que sai da universidade e depois ele  sente que tem um vínculo com aquela universidade e que ele de alguma forma quer construir alguma coisa naquele espaço que o ajudou e eu acho que aqui falta isso, quantas pessoas a gente conhece que vão na USP e dizem assim, eu venho aqui para plantar uma árvore, nem que seja? Eu vim aqui para ajudar a minha faculdade a transformar, como chama? Alguma coisa de ou físico ou da parte discente, qualquer coisa, a gente não tem esse costume, a gente não tem costume de dar esse retorno e eu sinto que isso se reflete dentro das empresas, eu realmente, eu conheço poucas empresas e eu procurei muitas empresas para ajudar os projetos com os quais eu trabalhava e eu via que existia essa baixíssima compreensão, hoje em dia eu vejo muitas empresas fazendo e eu acho que eles perceberam que do ponto de vista de marketing é legal, ter uma área…

Luciano          Você pega a lei Rouanet que está tão… que é tão condenada, eu vi uma estatística outro dia que é impressionante que do potencial de empresas que poderiam usar a lei é assim 80% nem sabe que a lei existe e não tem a menor intenção e fazer nada, ou seja, esse barulho todo da lei Rouanet que a gente ouve, está restrito a 20% de quem pode usar, ou pode usar a lei para contribuir com coisas relacionadas á cultura, quer dizer, não é que a turma não dá, a turma nem quer saber se aquilo existe ou não, ou seja, não há mesmo essa…

Flávio             É essa cultura que a gente construiu no Brasil, então eu acho que assim, o que falta no Brasil, que devia ser ensinado em casa e nas escolas, são os conceitos ligado são altruísmo, compaixão, empatia e solidariedade, altruísmo, compaixão, solidariedade, empatia, da onde vem empatia, eu estava preparando uns posts para o Facebook, escrevendo para uns amigos estudando o que é empatia, da onde vem essa sensação de você sentir ao dor do outro, por que que a gente não sente a dor dos outros? Por que que a vida da gente fica restrita simplesmente ao que eu tenho, ao que eu desejo. Sabe, uma pessoa pode chegar e dizer assim não, eu gasto tanto dinheiro para comprar uma bolsa, um carro, mas se tiver alguém morto na minha frente, ou morrendo de fome ou pedindo comida ou pedindo água, eu me recuso a dar, quer dizer, para mim sabe, se você é cristão está faltando Cristo na sua vida.

Luciano          Então, olha a que ponto nós chegamos aí, esses elementos que você falou não se aprende na escola, não se aprende na escola, não se aprende na empresa, não se aprende no exército, não se aprende sei lá, isso você aprende ou na tua casa com seus pais ou em alguma religião, que elas tem esse efeito e você sabe,  quando a gente fala em religião o mundo cai na cabeça porque elas são tratadas como o mal do mundo, eu já cansei de falar no meu programa, várias vezes eu falo que a minha formação é cristã, eu frequentei missa e etc e tal até os 18 anos, quando eu parei falei bom, deixa eu dar um tempo aqui, vou cuidar da minha vida, em algum momento no futuro, quando eu estiver preparado a religião voltará até mim, ou espiritualismo, fiz até alguns programas a respeito, não tem problema nenhum, respeito todo mundo que tiver e tem uma profunda coincidência de que se eu sou como eu sou hoje foi por causa da formação que eu tive cristã e que se fosse muçulmana, talvez fosse igual, se fosse budista, seria igual, se fosse…

Flávio             Depende de onde você teria nascido, se você nascesse no Oriente Médio você não ia ser cristão, se você tivesse nascido na China, você ia ser budista.

Luciano          … no fundo é o que me trouxe até aqui foi aquilo que eu aprendi com essa… e eu tenho certeza absoluta do seguinte, o mundo seria muito pior hoje se não tivessem as religiões, elas têm um papel na sociedade que é contestado, mas isso são outros 25 programas, eu não quero me aprofundar nisso. Mas o Brasil é um país profundamente religioso.

Flávio             Isso, mas que tipo de religião, a gente lembra da mensagem de Cristo ou dos rituais, você percebe, tem uma diferença muito grande, o cristianismo é construído em cima de três bases: o amor, a caridade e o perdão…

Luciano          Altruísmo, generosidade.

Flávio             … compaixão, solidariedade, quer dizer, se você pensar, caridade, amor e perdão, se você for decupar isso, você vai ver sem perdão ninguém pode ser feliz, sabe tem um ditado que é atribuído a Buda, que ele diz  que o ódio e o rancor são o veneno que você toma esperando que o outro adoeça,  o veneno que você toma esperando que o outro adoeça. O que é a única forma de você se livrar desse veneno? É perdoando os outros, é perdoando e eventualmente esquecendo, o que que é que Jesus Cristo estava tentando ensinar? Exatamente isso, Ele não está ensinando para você perdoar para você dar uma vantagem para o outro que te sacaneou, é para te livrar de um veneno que vai te fazer infeliz, quando Jesus Cristo, ou Buda, ou Maomé, ou Bahal La, ou qualquer um dos grandes mestres espirituais da humanidade dizem para você que o serviço ao próximo é importante e que você só pode ser feliz ajudando os outros, é porque não existe felicidade maior do que manifestar amor pelos outros.

Luciano          Você sabe que esse programa aqui é sobre liderança e empreendedorismo e eu consigo traduzir perfeitamente o que você está dizendo aí nas lições de team building que a gente vê nas empresas, nos cursos de liderança, daquela história de trabalhar em equipe, etc e tal que nada mais são do que uma transposição disso que você acabou de falar para um ambiente corporativo que no fim das contas o que é? Olha, eu tenho que conviver com as pessoas de forma harmoniosa para poder obter alguma coisa que sozinho eu não conseguiria obter lá na frente onde todos juntos somos melhores ou mais fortes, ou maiores do que um só e eu traduzo isso para o ambiente corporativo e perfeito, se eu não souber perdoar eu estou ferrado, se eu não souber amar o meu próximo, quer dizer, todos esses atributos que quando a gente traz aqui e bota um rótulo de religião, tem um monte de gente que fica louca da vida, que fala não acredito, não quero isso, você não tem nada que falar dessas coisas no programa, eu falo abstraia a questão, tira da tua frente uma figura que você cansou de ver de um sujeito barbudo e cabeludo num quadro na parede e todo mundo dizendo que foi ele… abstraia dali,  pega essas ideias e traga para o seu dia a dia e bota aqui, você vai ouvir o teu pai falando exatamente a mesma e ele não está repetindo, ele está dizendo para você o seguinte: faça com os outros aquilo que você não quer, que você haja com os outros da forma como você gostaria que agissem com você…

Flávio             Chamam isso é lei áurea, você sabia? É a única lei que se repete em todas as religiões, não faça com o outro o que você não gostaria que fizessem com você, isso você encontra no budismo, no islamismo, no cristianismo, no judaísmo, na fé bahai, em todas as grandes religiões do mundo você encontra essa mesma história, posso te contar uma história de liderança?

Luciano          Por favor.

Flávio             Mês passado uma empresa de iogurte grego dos EUA chamada Chobani, se você quiser procurar na internet, o CEO da empresa antes de fazer o IPO, parece cheio de slogans, o presidente dono da empresa, um imigrante turco, que fugiu para os EUA, que acabou, por um problema onde ele morava, acabou se mudando para os EUA como imigrante, resolveu montar uma fábrica de iogurte no midwst, lá no meio dos EUA, aí esse cara pega, antes de fazer a abertura da empresa, colocar as ações da empresa no mercado, ele resolve distribuir 10% de toda a empresa para os funcionários e faz uma festa para distribuir as ações da empresa…

Luciano          Antes…

Flávio             … antes de fazer a abertura da empresa no mercado, a reação dos funcionários que chegaram, que receberam alguma coisa entre 80 e 200 mil dólares como recompensa sendo sócios da empresa, quer dizer, ele continuou tendo 90% da empresa, quando ele foi fazer a abertura na bolsa o que aconteceu? Ele tinha dado, foi uma das maiores estratégias de marketing e eu não sei se ele tinha pensado nisso, porque parecia que não, o valor da empresa dele subiu mais do que ele deu para os funcionários, então se a empresa valia 2 bi e ele deu 10% que era 200 milhões para serem divididos, na hora que eles abriram, a empresa foi para quase 2.5 bi, então os 10% que ele deu, viraram 250 milhões e ele acabou ganhando  mais 250 milhões, por que? Porque todo mundo disse, agora que os funcionários são sócios da empresa, esse iogurte só tende a ser melhor, eles só tendem a trabalhar melhor, eles só tendem a render mais e foi um ato simples, ele não deu 50% da empresa para os funcionários, ele deu 10%, transformou a vida de cada um dos funcionários da empresa, aumentou o valor na empresa no mercado e acabou ganhando mais dinheiro, você conhece um ganho maior do que esse? Não existe, isso é liderança, isso é liderança moral, é uma pessoa que acredita que o bem estar…

Luciano          Então você chegou lá…

Flávio             … o bem estar…

Luciano          … não, você chegou no ponto, você chegou no ponto que o atributo relacionado a moralidade que para mim é onde está a base de toda essa loucura que a gente vive hoje em dia, que é essa questão de você fazer a discussão moral das decisões, então eu vou tomar a decisão melhor para que mais resultado vai trazer, a mais adequada a este momento, etc e tal. Vamos discutir a questão moral? E eu não vejo essa discussão acontecer e para mim está aí a base, quando você fala por que matam 60 mil no Brasil? Eu acho que falta uma discussão moral…

Flávio             … moral, perfeito.

Luciano          … em algum momento do sistema se fala dá para achar esse momento? Fala não dá, por quê? Porque ele está em todos os lugares, todas as decisões que eu tomo ao longo do dia, se elas não tiverem o componente moral,  aí eu vou trombar na corrupção, no roubo da merenda, na sacanagem, no fura fila, naquela coisa toda lá…

Flávio             Andar no acostamento na estrada.

Luciano          … que é não dar valor a isso, quer dizer, a discussão moral não tem espaço e aí você vai ver essa loucura que aconteceu no Brasil aqui agora, quando você pegou, os caras prenderam lá o marqueteiro, o João Santana, o marqueteiro do PT, eu tenho um artigo, eu fiz um programa a respeito, que eu coloco ali ele explicando o que foi o trabalho político que ele fez ali para eleger os caras usando mentira, sacanagem, ele fala não tem questionamento, mas você contou uma mentira. Não, mentira não, aquilo estava no contexto, o problema é do meu adversário que não soube usar as armas que ele tinha, eu só estou trabalhando com o imaginário popular, falei como é que você pode botar o candidato dizendo que é contra as privatizações e ao mesmo tempo dizendo que a telefonia celular no Brasil está uma loucura, todo mundo tem celular, todo mundo tem acesso, aquilo foi uma revolução no país e ao mesmo tempo dizer que é ruim, ele falou não, eu estou trabalhando com o imaginário popular, ou seja, não há nenhum compromisso moral…

Flávio             Com a verdade.

Luciano          … nada, que é o que aconteceu com você quando começou a fazer os seus filmes e terminava o dia e você falava onde é que doeu? Tecnicamente perfeito, é o trabalho que eu amo fazer, estou adorando estar aqui dentro e no final do dia, está feliz? Não, não estou. Por quê? Porque moralmente eu não estou satisfeito, não era isso que eu queria fazer.

Flávio             Não estou feliz, não estou satisfeito e assim, eu estou gastando meu tempo, você sabe, os das da nossa vida, eles são presente que a gente tem, sabe que um ser humano que vive 76 anos, que é a média do Brasil, vive 28 mil dias, se você prestar atenção eu estou com 48 agora, eu teoricamente se eu viver a média do brasileiro, eu já passei mais da metade da minha vida…

Luciano          Eu estou fazendo hora extra.

Flávio             … sabe, sinceramente, é assim não diria que é hora extra ainda, mas assim, se você pensar bem, cada dia que eu tenho na minha vida que eu respiro,  é uma bênção, eu tive um pai que passou uma boa parte da vida dentro de um hospital, todas as vezes que meu pai saía do hospital e podia caminhar eu via naquilo uma vitória, eu dizia “poxa, meu pai trocou mais uma válvula do coração, meu pai fez mais uma cirurgia, abriu o peito mais uma vez e está aqui com a gente de novo, ele fez isso tantas vezes, na quarta vez ele teve que ir embora, não “guentou”, com 63 anos, mas eu contava cada dia que eu passava com o meu pai como uma bênção e cada dia que eu estou aqui, eu acordo de manhã, eu digo, eu tenho uma bênção de mais um dia poder fazer alguma coisa, esse dia eu vou gastar com o quê? O dinheiro que eu ganhei trabalhando, eu vou gastar com o quê? Quando eu gasto o dinheiro que eu ganhei, eu não estou gastando um número no banco, eu estou gastando dias da minha vida que eu gastei para juntar esse dinheiro, será que no final da minha vida eu vou me arrepender por não ter comprado uma bolsa ou um carro do ano? Ou o último Iphone que tinha para vender? Será que alguém se arrepende disso? Quando você escuta os estudos, o Hospital Albert Einstein fez esse estudo, nos EUA esses estudos foram feitos, conversando com pacientes terminais, o que que os pacientes terminais sempre se arrependem?

Luciano          Foi a distância que eu fiquei da minha família, foi os amigos que eu deixei de curtir…

Flávio             … de abraçar…

Luciano          … é, é isso aí.

Flávio             … é só isso e você só tem mais amigos quando você manifesta mais amor, quando você manifesta mais solidariedade, mais empatia, mais compaixão, você pode ter um amigo no porteiro do seu prédio, naquele cara que entrega as flores, o carteiro, seja lá quem for, as pessoas com quem você convive no dia a dia, a moça que trabalha na sua casa, essas pessoas você tem que conquistar o amor delas, você tem que conquistar o amor de todas as pessoas que estão à tua volta, manifestando amor e só aí a gente pode ser feliz, porque a vida nesse mundo é uma batalha muito difícil, todo mundo que já passou por uma doença grave sabe disso, todo mundo que já perdeu um ente querido sabe disso, todo mundo que já teve uma situação de quebrar financeiramente tem que reconstruir a vida, sabe oque é isso. Agora, além de tudo isso, o que é que sobra para a gente? As pessoas que a gente ama, dá para levar isso para o ambiente de trabalho. Quando eu vi a história do Chobani, esse turco que tem o iogurte lá nos EUA, quando eu vi os funcionários chorando , alguns deles, os seis primeiros funcionários que trabalharam com ele, que receberam mais dinheiro, foram os que estavam há mais tempo com ele, eles dizendo, eu vi isso crescer, mas eu nunca imaginei que ele ia fazer isso por nós, eu sinto isso como a minha empresa também, quer dizer, esse cara não fidelizou o trabalho, o tempo, ele fidelizou o coração dos funcionários, imagina o que é fidelizar o coração das pessoas na tua empresa, se os grandes líderes buscassem isso, o ambiente de trabalho ia ser outro, você conversa com a maior parte das pessoas, elas dizem eu não estou feliz trabalhando aqui, eu não me sinto satisfeito com o que eu estou fazendo. Como a gente faz para transformar isso? E depende dos líderes, Luciano, só para não ficar muito longo, eu li uma pesquisa sobre psicopatia, você sabe qual é a função nas empresas que concentra o maior número de psicopatas?

Luciano          Qual é que é?

Flávio             Os CEO’s.

Luciano          CEO’s.

Flávio             Existe a maior porcentagem…

Luciano          Tem lógica.

Flávio             … de psicopatas no mundo, são os CEO’s, se você pensar bem, o CEO representa o quê? Ele é o presidente da empresa, ele é a pessoa que mais ganha dinheiro, mais poder e autoridade manifesta no dia a dia, ele é adorado e reverenciado pelas pessoas lá dentro, as pessoas olham para ele como um exemplo a ser emulado, a ser repetido, se essa pessoa que está no topo é um psicopata, como que você imagina, e olha pessoal, psicopatia é aquele cara que não sente a dor e não tem empatia pelo sofrimento dos outros, é uma pessoa que faz o que acha que tem que fazer, independente do sofrimento daqueles que tem…. se a busca dele é a busca de lucro, ele vai sacrificar cada um dos funcionários da empresa até conquistar aquele lucro. Imagina se ele é o exemplo?

Luciano          Vai a fábrica de “psicopatinhas” embaixo, é assim que funciona. É meu amigo, dá para a gente ficar aqui até longe, mas nós já estamos chegando aqui na nossa reta final, aliás, que hora já deu? Já deu um time legal, o papo quando ele é bom ele flui, eu não fiz uma promessa no começo do programa? Eu não abri o programa fazendo uma promessa? Você vê como é legal. Flávio, só para a gente chegar no final aqui então, dá para mim um panorama rapidinho sobre essa questão Bahai, eu comentei com a Shideh, falei que você vinha aqui, ela falou pede para o Flávio te dar uma dica porque está acontecendo, aliás, não está acontecendo, há  um problema sério com os bahais lá no Irã e nesse momento tem uma pressão muito grande, mundial, porque prenderam os líderes, etc e tal, dá para a gente um panorama, para quem não conhece o que é, saber.

Flávio             O que que é a fé bahai? A fé bahai acredita em três coisas basicamente, a existência de um só Deus, que todos os profetas de Deus, todos os profetas vêm do mesmo Deus e que todos os seres humanos são iguais, todas as religiões são irmãs, a gente acredita, tem o mesmo Pai, que é Deus e tem uma mãe diferente, que é a cultura, o tempo, a época, por isso que as religiões parecem muito diferentes, mas na verdade elas são todas irmãs, fazem parte de um processo de educação da humanidade, a religião, ela muda no tempo, o que era uma religião que antigamente podia trazer muita coisa boa, dependendo da forma que ela se destorce, ela pode passar a ser uma coisa muito ruim, hoje em dia a gente vê o Islã, o Islã é uma religião que trouxe muita coisa boa para o mudo, mas tem algumas linhas do Islã que são tão destorcidas que hoje em dia representam o que há de pior na barbárie no mundo, isso dito, a fê bahai nasceu no seio do islã, do mesmo jeito que o cristianismo nasceu no seio do judaísmo, os bahais acreditam em igualdade de direitos entre homens e mulheres, os bahais não tem dogmas nem rituais, os bahais acreditam que a religião e a ciência devem andar juntas, os bahais acreditam que a gente não precisa de sacerdote, não precisa de padre, pastor, rabino, sheik, mola, a gente não precisa disso, que o ser humano consegue se conectar com Deus através dessa mensagem dos profetas de Deus, Jesus, Moisés, Abrahão, Buda, Bahal. Lá como a gente acredita e a fé bahai é uma religião muito progressista, muito progressista, que pensa e projeta o futuro, é uma religião que se organiza de uma forma democrática, os bahais elegem os seus líderes, os líderes eleitos do Irã, depois da revolução de 79 foram presos e executados, mortos. Homens e mulheres. Simplesmente por preconceito religioso. Os bahais elegeram uma nova assembleia, nove novos nomes que foram novamente presos e novamente executados, alguns enforcados, outros fuzilados, esses últimos sete líderes que estão lá foram indicados, não são mais nove e foram presos pelo governo do Irã simplesmente porque essas pessoas são bahais e aí você diz: e o que que a gente faz em relação a isso? A fé bahai é uma religião que está espalhada no mundo, aqui no Brasil tem 56 mil bahais, dos quais 55 mil são de origem brasileira, a gente tem bahais desde o Amazonas até o sul do Rio Grande do Sul, a fé bahai está espalhada pelo Brasil, são comunidades pequenas, mas são comunidades organizadas que trabalham para o bem estar da sua cidade e trabalham para o desenvolvimento da comunidade bahai, aí você fala: poxa, o que que eu tenho a ver com isso, com o Irã, a gente aqui no Brasil consegue colocando pressão no governo brasileiro, pedir para que o governo do Irã respeite essas pessoas e liberte essas pessoas que estão presas, a gente não acredita que eles vão ser executados como os outros no passado, mas eles estão cumprindo pena por um crime que não cometeram, os bahais não se envolvem em política partidária, os bahais não podem carregar armas, os bahais trabalham pela paz, eles são conhecidos no mundo inteiro como pacifistas, só que alguns países islâmicos, principalmente o Irã, eles são perseguidos, exatamente porque tem uma visão progressista da realidade, os bahais acreditam que a mensagem religiosa, ela muda no tempo e ela vai se desenvolvendo e que ela precisa ser renovada, sabe, a gente vê como Jesus Cristo veio para renovar a mensagem do velho testamento, Maomé veio depois dele trazendo um pouco mais, Buda estava antes e você vê que cada um desses profetas vem trazendo um complemento, um pouquinho mais, quem tem a cabeça aberta consegue olhar para as religiões e ver que não dá para ter vários deuses, não dá para ser um deus dos judeus, um deus dos cristãos, um deus… que existe um Criador que é o Criador do universo como um todo, que é o pai de todos nós. A ideia de fraternidade universal deriva do que? Do conceito que a gente tem só um Pai. Fraterno quer dizer de irmão, somos todos irmãos de um mesmo pai. Agora, hoje em dia no Oriente Médio esse conceito é muito difícil de entender, então a questão religiosa é hoje talvez a maior causa de conflito e guerra naquela região. A gente vê isso, você vê, a questão palestina com israelense é uma questão que está fundamentada na questão religiosa, pode ser, pode parecer que você tenha uma questão de terras, mas não é assim.

Luciano          Não, mas na raiz dela não é…

Flávio             Na raiz dela não é isso. Então e a gente vê, se a gente conseguisse trabalhar a questão da paz a partir da ideia da unidade na diversidade, isso é um conceito bahai, unidade, não é unidade da uniformidade, só quem é parecido junto, unidade na diversidade e a gente acredita que eventualmente a humanidade vai entender isso, que a diversidade, ela é sinal de riqueza, que ela fortalece as pessoas, que ela enriquece a comunidade, que ela traz, você vê, dentro de uma empresa, quando mais diversas forem as influências lá dentro, mais forte é a empresa, pensa nas habilidades que você busca como um profissional de RH, você não procura habilidades muito diferentes para ter um leque que possa atender a todas as tuas necessidades e os desafios do dia a dia, ou você só procura gente que é boa de exatas, ou de humanas, não é assim e assim funciona na sociedade também, só que quem é fundamentalista não consegue entender isso, busca o quê? A homogeneidade.

Luciano          E fundamentalista em todas as áreas, não é só na religião, o fundamentalista ideológico não entende…

Flávio             Da economia.

Luciano          … na economia não entende.

Flávio             O cara fala, diz assim, eu sou um neo liberalista fundamentalista, ou eu sou de uma esquerda fundamentalista, você percebe, nenhum desses pensamentos leva ao progresso, porque são visões restritas.

Luciano          Estão nos dois extremos.

Flávio             Como você começou a conversa falando dessa coisa de qual é essa área cinzenta no meio disso? Você consegue ser uma pessoa que acredita no mercado, mas que ao mesmo tempo acredita que o estado tem um papel fundamental para reparar questões históricas, seja em relação aos negros, seja em relação às mulheres, seja em relação às minorias, é só uma pergunta, eu não estou dizendo que tem que ser assim.

Luciano          Mas a pergunta é válida e tem que ser e esse é um tema que tem que ser trabalhado e tem que ser estudado. Flávio, quem quiser tomar contato contigo, com essas ideias, você tem um blog, tem um site, como é que faz?

Flávio             Eu tenho Facebook que eu uso bastante e tem muitos seguidores lá e eu acho que assim…

Luciano          Como é que é?

Flávio             … só lá e entrar lá e seguir.

Luciano          Flávio…

Flávio             Flávio Azm Rasseck, se botar Flávio Azm já aparece, você pode me seguir lá e eu acho que a gente vai conversando, eu pretendo montar um blogzinho para colocar um pouco mais dos meus textos também e assim eu estou sempre aberto para conversar, hoje em dia já faço isso muito, cada semana tem quatro,cinco o número vai aumentando à medida que a gente vai conversando mais.

Luciano          Mas esse é o, essa é a ideia que a gente, a gente nem tocou o assunto aqui mas ele era fundamental, que é essa capacidade de conexão das pessoas e acaba aqui um leva ao outro, a Shideh me apresenta você, você fala comigo, fala de mim para o fulano, amanhã o fulano me liga, eu tive uma reunião ontem a noite num lugar que não tinha nada a ver, com quatro caras já nasceu um treco maluco porque eu fui capaz de conectar esses quatro com outro sujeito que não sabia da história e de repente está se fazendo uma terceira ou quarta coisa aí, ou seja, essas conexões feitas não é só lobby para ganhar o dinheiro da Petrobrás não, são conexões para o bem,  para fazer e construir. Obrigado pela visita, espero que você tenha gostado do papo aqui e acho que a gente vai ter algumas coisas para fazer junto, pode saber.

Flávio             Com certeza, obrigado, Luciano. Abração.

Transcrição: Mari Camargo