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Ciça Camargo -

Luciano          Deixa eu ver se eu consigo descobrir como é que eu vou contar como é que esse cara apareceu aqui. Eu já tinha tomado contato com o trabalho dele há um tempo, tinha lido alguma coisa a respeito, mas não tinha… achei curioso até, falei pô, uma hora dessa eu vou conversar com esse cara aqui, de repente eu estou aqui hoje entra um WhatsApp para mim, Luciano, aqui é o fulano, pô, me deram uma dica, eu queria te conhecer, eu falei uai, que maravilha, é  ele, é o  próprio, eu falei vem cá, se puder passa aqui, me liga a hora que você pode vir, ele me ligou, veio para cá, nós sentemos aqui e virou um LíderCast assim do nada, é assim que nasce muito do LíderCast, ele  acontece assim, é uma oportunidade que aparece e a gente está reunido aqui por um amigo comum que já participou aqui do próprio LíderCast. São três as perguntas fundamentais, eu  quero que você se concentre nelas, que você não pode errá-las, a primeira pergunta, eu quero saber seu nome, sua idade e  o que  é que você faz?

Raiam            Meu nome é Raiam Santos, eu tenho 26 anos e eu sou escritor, Luciano.

Luciano          Eu dei uma olhadinha no seu blog, no seu site, eu não me lembro, eu li ali e tem ali um artigo que você colocou ali: por que eu não tenho 1 milhão de seguidores onde num determinado momento você fala o seguinte, eu me descrevo da seguinte forma; e você faz uma descrição sua, meu nome é Raiam, tenho 26 anos, sou escritor e quero?

Raiam            Eu quero levantar a ambição da juventude brasileira, o conhecimento da juventude brasileira, essa é a minha missão de vida e isso bem muito… tem um livro chamado “Start with why”, de Simon Sinek, que é Começa pelo que você está aqui, e eu acho que tipo, todos os tapas na cara que eu tomei, toda a minha experiência de vida chegou para esse ponto, eu tenho essa experiência, eu fiz isso e eu quero levantar todo mundo comigo.

Luciano          Vamos lá então, vamos começar do começo aqui. 26 anos, esse sotaque indiscutivelmente carioca…

Raiam            Já deu muito problema esse sotaque, vou te falar.

Luciano          … negro e metido “prá” caralho.

Raiam            Marrento, carioca, marrento, mas é…

Luciano          Acha que quer mudar o mundo, vamos começar lá atrás. Eu quero saber…

Raiam            O mundo não, Brasil primeiro.

Luciano          … o mundo é consequência, a gente chega lá. Me conta como é que começa tudo, onde é que você nasceu, qual é a tua origem no Rio, tua família, de onde vem, como é que era?

Raiam            Eu cresci no bairro da Vila da Penha, bairro de classe média, média é a zona norte do Rio, eu não posso reclamar da minha infância, meu pai era piloto da Varig, que era uma senhora empresa para qualquer empregado na época, mas apesar…

Luciano          Seu pai era negro?

Raiam            … meu pai, negro.

Luciano          Negro e piloto da Varig nos anos…

Raiam            80 e 90, aí é aquela coisa, ele também foi um dos primeiros negros a passar para a escola preparatória de cadetes do ar, que na época da ditadura militar era o crème de la crème do Brasil e isso, essa mentalidade minha marrenta, auto confiante, vem mesmo de família porque é aquela velha coisa, irmão, para você ser negro no Brasil você tem que ser duas vezes melhor e é que eu chamo também nos meus próprios posts de arrogância positiva, porque se o negro brasileiro não  tem aquela arrogância positiva, ele vai se tornar uma vítima da sociedade e vai perpetuar esse, eu diria, complexo de inferioridade que a gente sente por aqui, por ter nascido dessa cor, ter nascido com menos privilégios. Eu não posso reclamar da minha infância porque um piloto de avião ganha bem no Brasil, só que tem um porém porque é o seguinte, eu cresci meio playboy, mas eu cresci em favela, eu cresci em área de risco, na área de Bom Sucesso, que é o Complexo do Alemão, porque o meu pai trabalhava e minha mãe também, eu cresci na minha avó, e minha avó, meus avós sobreviviam com um salário mínimo há, pelo menos, 40 anos e é aquela coisa, sempre na cabeça, olha só, você tem que ser o melhor, tem que, assim, não tem outra escolha e isso vem do fato de que meu pai é um negão de 1,90m, 150 quilos, que bota medo ele realmente bota medo e bota moral e eu chegava em casa com uma nota 8, ou 8,5 na escola e ele ficava triste e ele meio que, não, por que você não tirou 10? Por que você não tirou 9,5? A cobrança sempre foi muito forte e a disciplina também foi muito forte, essa coisa de hábitos, que hoje em dia eu estalo para quem, pô, só que me segue, hábito diário, depois a gente vai falar sobre isso, mas assim, essa disciplina veio da veia militar que meu pai teve na preparação jovem, a partir dos seus 15 anos, ele estava no ambiente militar num país sob ditadura militar.

Luciano          Sua mãe, negra também?

Raiam            Minha mãe não é negra, mas ela vem de origem pobre, minha avó de Bom Sucesso é mãe da minha mãe, ela é formada em Serviço Social e hoje em dia professora de yoga, e da minha mãe eu tiro muito essa veia do auto conhecimento, da meditação, da programação neurolinguística, ela sempre foi com essa coisa de yoga, ela sempre foi envolvida na parte mais espiritual da coisa, então de um lado execução…

Luciano          O milico…

Raiam            … exato…

Luciano          … o milico cobrando, do outro lado a mãe voando, legal. De onde vem esse seu nome?

Raiam            Mano é o seguinte, minha mãe é toda cheia dessas coisas de zen, de Índia, então tem um deus protetor na mitologia hindu chamado Naraiam e esse seria meu nome, só que minha mãe inventou Raiam, porque Naraiam seria muito afeminado, ela tirou o “Na” e ficou Raiam e essa aí é uma das maiores inseguranças que eu tenho, meu nome, hoje em dia nem tanto, mas assim, nos EUA eu passei 10 anos da minha vida nos EUA e nunca nenhum americano conseguiu pronunciar Raiam direito.

Luciano          Mas eles falavam Raiam (pronunciando como americanos)

Raiam            Não, você lê isso ai… Raima porque Raiam o cara vê R Y A N, ele me vê Raim, Riaman, Raman, não dá. Aí virou Brasil.

Luciano          Sabe que eu tenho uma história interessante aqui que é o seguinte, meu sobrenome é Pires. Pires. E lá nos EUA não tem outra, ficava esperando a hora de me chamarem no restaurante e chegava Mr. “Paires”, Mr, “Paires. Todo lugar que eu ia não tinha jeito, virava “Paires”, eu falei, vamos fazer uma coisa aqui então, eu vou começar a assinar meu nome como Paires, em vez de Pires, Paires, aí eu escrevia Paires e os caras me chamavam de “Peires”, eu não me conformei, comecei a assinar Peires e eles começaram a me chamar “Pires”.

Raiam            Mas assinou Peires com er…

Luciano          Estou te enchendo o saco, é que você mudava o negócio lá, Pires virou Paires, Paires virou peires, peires virou Pires. É complicado lá.

Raiam            Não dá, tanto que eu já tentei escrever meu nome em inglês com “n” no final, também não deu certo, mas o ponto bom disso aí é aquela coisa, procura Raiam Santos que no Google só tem um, só tem eu.

Luciano          Mas aí, você está crescendo lá e você resolve que vai ser o que quando crescer, piloto?

Raiam            Olha, eu queria ser jogador, como todo jovem no Brasil, mas eu não era bom de bola, eu fui federado no futebol e tal, mas eu fui cortado com 13 anos e isso me deixou assim, deprimido “prá” caramba, para uma criança ser rejeitado tão cedo e o grande…

Luciano          Cortado de onde?

Raiam            Do futebol, eu era lateral esquerdo, eu estava para me federar, o time do Zico lá que estava crescendo, na época o Zico estava botando muito dinheiro nesse time, era o que tinha o melhor centro de treinamento do Rio e eu estava na escolinha, me destaquei…

Luciano          Como é que chamava o time?

Raiam            CFZ – Centro de Futebol Zico, aí depois foi comprado pelo Flamengo, aí acabou o time, mas é o seguinte, eu, enquanto isso eu sempre fui muito cobrado na escola, estudar e tirar nota boa, é performance se não, não tem mesada, aí teve um cara do meu…. quando eu tinha 13 anos eu estudei no colégio chamado Santo Agostinho, que é um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro e eu fui reprovado numa matéria chamada “comportamento”. “Comportamento” é basicamente o professor te dá uma nota no fim do bimestre, como você se comportou na sala e a  pessoa que não tem média 6, ela é convidada a se retirar do colégio, se você pegar a média aritmética de todos os professores e eu fui realmente convidado a me retirar do colégio, apesar de ter sido, nesse mesmo ano o melhor aluno da escola em termos de nota e isso foi um grande baque para a minha família, o pai, enquanto meus amiguinhos ganhavam viagens para a Disney, eu passei as férias inteiras de castigo porque eu era da pá virada, da pá virada assim, eu questionava os professores, eu questionava a  estrutura da igreja católica no colégio, eu aprendia as coisas muito rápido, por exemplo, o tempo de aula tinha 50 minutos, eu aprendia as coisas nos primeiros 10 e passava os outros 40 avacalhando os amigos, as pessoas da sala que estavam tentando aprender, então foi aí que eu realmente, eu falei mano, isso aqui não é para mim,  isso aqui não é para mim vou ter que começar a me coçar para fazer alguma coisa diferente porque o caminho tradicional, que é esse caminho tradicional que é fazer a escola Santo Agostinho, se formar, ir para a PUC ou para a UFRJ, pegar emprego, tenho que fazer uma coisa diferente, aí volta na minha infância, eu quando tinha 5 anos, meu sonho, meu ídolo era o Jacaré do Tchan, era o Jacaré  do Tchan, por quê? Porque ele era o único negro de destaque que eu via na televisão, uma criança negra no início dos anos 90, ela, na novela não tem atores protagonistas negros…

Luciano          Como não tem?

Raiam            Na época? Fala aí, protagonista…

Luciano          Anos 80?

Raiam            Não, início dos anos 90.

Luciano          Início anos 90? Você já tinha o Milton das quantas…

Raiam            Milton Gonçalves sempre foi coadjuvante, então aquela coisa, não tinha e o que é que eu fiz? Eu comecei a dançar axé “prá” caramba, eu com 6 anos era o rei da lamb aeróbica, porque tinha um negão lá que era parecido comigo e estava na televisão direto dançando, mas assim, minha família dizia que eu era boiola, porque porra, rebolar, dançar axé é coisa de boiola, então eu, pô, boiola é palavra politicamente incorreta, desculpa aqui…

Luciano          Fala “viado”.

Raiam            Pode? Aí qual foi a solução?

Luciano          Aqui você pode falar à vontade, que aqui eu não vou pegar no seu pé, você não vai pegar no meu, podemos falar, quem está escutando lá é que, de acordo com seu repertório aqui vai dar a tinta do que nós estamos falando aqui.

Raiam            Está tranquilo. Aí o que aconteceu? Eu passei a importar heróis, porque nessa época eu só via o Mussum, que sofria bullyng do Didi o tempo todo e o Jacaré, que rebolava na TV e eu comecei a importar heróis negros, porque eu não via gente parecida comigo no topo, no destaque, no caso era época de Koby Bryant, Allan Iverson, Michael Jordan, Denzel Washington, pessoal americano e todo mundo morava…

Luciano          Futebol era cheio…

Raiam            Era moreninho, tanto que na época o próprio Ronaldo Fenômeno dizia que ele não era negro, teve até uma polêmica na época, ele não é negro, o Brasil tem esse eufemismo de ser moreninho, entendeu? E é aquela coisa, eu só fu ter orgulho da minha cor, orgulho de ser negro quando tive 15 anos, com 15 anos, veio o orgulho de ser negro, só com 15 anos e essa coisa de ter um lugar no mundo, onde pessoas parecidas comigo tinham sucesso em alguma coisa, fora rebolar, era os EUA. Eu botei na minha cabeça, todo mundo morava na Califórnia eu falei, eu sempre, essa parte da minha mãe, eu sempre acreditei muito na lei da atração, no segredo, programação neurolinguística, poder da visualização, eu falei, desde os 5, 6 anos eu falei, eu vou morar na Califórnia, vou morar nos EUA, daí aconteceu uma morte na minha família, minha tia distante morreu e vieram dois primos morar comigo no Rio de Janeiro, no apartamento de dois quartos da família. Do nada eu era um filho único mimado, com três  pessoas na minha casa, apareceram, agora minha casa com dois quartos tem cinco, e eles eram da minha idade, meio que invadiram o meu espaço, tudo bem que eles estavam numa posição muito ruim, acabaram de perder a mãe, mas explica isso para um moleque mimado de 14,15 anos. Para mim foi o fim do mundo e juntando uma peça de informação com a outra eu falei, chegou a hora de meter o pé daqui, com 14 anos eu queria fugir de casa, então eu vi várias maneiras de fugir de casa, o intercâmbio nos EUA foi a principal, mas a gente não tinha grana para pagar porque assim, beleza, meu pai tinha uma condição legal, mas do nada ele havia recebido dois novos filhos. Daí eu fiz um concurso, procurei em várias feiras de intercâmbio, para cá, Rio, São Paulo, na época não tinha nem Google direito, era Cadê, fui pesquisar para cima e para baixo, tinha uma agência chamada World Story que era um concurso de provas de inglês, prova de conhecimentos gerais e uma redação em inglês e os três primeiros colocados no Brasil iam ganhar uma bolsa para um negócio desse,  aí eu fui lá, fiz e passei…

Luciano          Ficou entre os três.

Raiam            … fiquei entre os três, com 14 anos, aí eu mostrei para os meus pais lá, olha só, mano, recebi isso aqui,  eu vou meter o pé. Aí ficou a decisão, olha só irmão, você vai ficar seis meses ou um ano, aí nós fomos lá bater na porta do padre da igreja lá que tomava conta do meu colégio e o próprio cara falou, fica 1 ano, mas aquela coisa, não sei se você manja do ensino público americano?

Luciano          É, o básico, não é?

Raiam            É uma bosta. É uma bosta, tipo…

Luciano          Já foi, já passou, aliás as discussões lá deles são preocupadíssimos com a queda do nível de ensino nos EUA e como é que eles estão perdendo para os asiáticos que estão invadindo aquilo lá e fazendo acontecer.

Raiam            Com certeza. Com certeza e eu fui avisado de antemão antes de ir para esse intercâmbio, olha só Raiam, você está ciente de que quando você voltar, você poderá perder um ano na escola, porque o  ensino americano é muito defasado, versus a melhor escola do Rio de Janeiro, Santo Agostinho, falei vamos cair para dentro, só que nesse meio termo um intercâmbio é o seguinte, pelo menos de high school, é tipo Tinder, você tem, sei lá, seus 40, 50 anos, sabe o que é Tinder? Você já usou?

Luciano          Sei muito bem.

Raiam            É o Tinder.

Luciano          Não uso.

Raiam            É o Tinder, o que a pessoa faz? A pessoa bota o perfil dela lá e a família bota like ou não e você recebe informação da família que você vai ficar, lugar dos EUA que você vai ficar, tipo três meses antes do intercâmbio e o cara pode cair tanto no Alaska quanto em Miami Beach, quanto numa fazenda no meio do Texas, meio que roleta russa, misturada com Tinder e eu até os 45 do segundo tempo não tinha uma família, eles explicaram para mim, olha, a gente não está acostumado a receber estudantes negros, essa questão da raça nos EUA, apesar de estarmos 50 anos distantes do movimento de civil rights, direitos civis, segregação, ainda existe e para as famílias que realmente tem bala na agulha para sustentar um filho a mais, voluntariamente durante um ano inteiro, é meio estranho ter um elemento extra negro, as famílias são brancas, do mid West americano. Então eles abriram o jogo para mim, você é um caso raro e a gente está vendo o nosso melhor para arrumar uma família para você, aí encontraram uma família negra no melhor lugar dos EUA, que era San Diego, Califórnia,  America’s Finest City, então assim, bunda virada para a lua, tanto lugar para cair, eu fui cair na melhor cidade, Califórnia, sol, praia, bonito “prá” caramba, de graça que é o intercâmbio, a bolsa que eu recebi, meus pais pagaram a passagem e pagavam minha mesada, só que essa família, eu só fui descobrir depois que eles estavam envolvidos com drogas, família do intercâmbio estava envolvida com droga. Na verdade, na verdade, a Califórnia tinha uma, ainda tem, quer dizer, antes era medical marijuana, que é para fins medicinais, a pessoa vai no médico e ela busca uma prescrição do médico, você paga 40 contos para o médico, fala assim, estou com uma dor de cabeça, ele assina para você pegar uma dose na lojinha, Califórnia é assim, só que para um menino que cresceu, pô, complexo do Alemão, Bonsucesso, droga é droga, droga é crime e eu perdi um primo para o tráfico, morreu no micro-ondas, perdi um primo para o tráfico e eu via aquilo, aquele consumo todo de drogas na minha família de San Diego, eu contei para os meus pais…

Luciano          Quem não sabe o que é micro-ondas, os caras botam o sujeito em botam pneu em volta do sujeito e joga gasolina em cima e põe fogo, isso é o micro-ondas na linguagem do tráfico no Rio de Janeiro.

Raiam            É isso aí. É “Tropa de Elite II”. E assim, eu cresci com aquela imagem que droga é crime, sendo que na Califórnia, droga, pelo menos o baseado de maconha acaba sendo mais popular do que o cigarro da Marlboro, entendeu? Talvez mais popular até que a cerveja, para um jovem, para um adolescente é mais fácil conseguir um cigarro de maconha na Califórnia do que um goró, uma cerveja e eu não sabendo desse elemento cultural da Califórnia eu contei para os meu pais, desesperados. Aí meus pais foram para a agência, a agência falou para outra agência que falou para a escola, acabou que eu fui expulso dessa família porque eu abri a boca, eu caguetei, falei que eles estavam usando drogas dentro de casa que era tipo, coisa privada da família então a família que realmente mudou minha vida, me trouxe para um lugar, única família negra que encontraram, me trouxeram para a Califórnia, eu fui expulso da casa deles, só que eu dei a  sorte do dono do terreno onde essa família morava, tinham três casas, o dono do negócio  todo, ele comprou as minhas dores e falou não, esse moleque vai ficar aqui e basicamente me adotou no intercâmbio, me adotou, o cara me adotou e eu estava tipo aquela coisa, bem na escola e bem no fute…. esqueci de falar, eu joguei futebol americano, me botaram para jogar futebol americano nessa escola ai de San Diego e foi a melhor coisa que aconteceu para um moleque que está querendo fazer imersão numa cultura, porque quando você vai para o exterior você tende a se juntar a pessoas que têm um background  similar ao teu e pelo menos ali naquele ambiente era uma escola de favela, uma escola de briga racial entre hispânicos e negros, não tinha brasileiros, o cara vai fazer intercâmbio ele se junta com um monte de brasileiro, tem brasileiro em todo lugar no mundo, brasileiro “prá” caramba, não tinha nenhum à minha volta e um professor meu, sabendo que eu jogava bola, futebol, falou a gente está precisando de você lá no time da escola e eu fui todo feliz, para jogar…

Luciano          Futebol americano.

Raiam            … futebol, era futebol.

Luciano          Não, futebol de pé, soccer.

Raiam            eu pensei que era futebol soccer, levei minha caneleira, minha chuteira do Ronaldinho, eu cheguei na porra do estádio tinha um monte de brucutu de 100 quilos se batendo, aí eu falei mano, isso aqui não é para mim, isso aqui é alarme falso, aí eu fui, técnico, desculpa, mas e o corpo a corpo? Desculpa, eu entendi errado, vou voltar para a casa. Ele não, fica aqui, chuta isso aqui, aí comecei a chutar, chutei 40 jardas, 50 jardas, o cara temos um quicker, aí foi aí que abriu a cabeça mano, eu estava bem, eu comecei a trabalhar naquilo como tinha aquela mentalidade de disciplina de militar, trabalhar até a perfeição, eu comecei a me destacar naquela posição de chutador de futebol americano, você manja de NFL?

Luciano          Também o básico, não sou curtidor não.

Raiam            É o cara que entra para chutar e sai, ele sai.

Luciano          Não toma porrada, ninguém bate  nele, está tranquilo.

Raiam            No mundo perfeito nunca ninguém vai tocar no quicker, se ele fizer tudo certinho, nunca ninguém vai tocar um dedo nele, ele entra, dá uns dois passos dele, chuta e sai de campo, se ele demorar meio segundo para chutar, aí que vem os brucutus te derrubar, aí é o problema, mas assim, se você está com essa disciplina bem treinada com os fundamentos, nunca ninguém vai tocar o dedo em você e o quicker acaba sendo um dos mais importantes do time porque eles faz os pontos e decide os jogos, então me colocaram de quicker e foi aí que deu um clique na minha cabeça, mano esse país leva o esporte a sério e  leva a educação a sério, pelo menos educação universitária é séria, porque as melhores universidades do mundo estão aqui, estão nos EUA,  você pegava o ranking das 50 melhores, tinha três no Japão, duas na Inglaterra e trinta e cinco nos EUA, então era por ali o meu caminho e eu falei tem jeito de eu conseguir uma bolsa para fazer faculdade aqui, se…

Luciano          Pelo futebol?

Raiam            Pelo futebol. Pelo futebol americano. Eu vou trabalhar duro, vou ganhar peso, porque assim, tem que estar forte, não precisa ser grande para essa posição, mas você tem que estar forte, porque do nada a bola cai na tua mão, você tem que aguentar o tranco, aí eu comecei a me alimentar bem, fazer supino, power, clean, agachamento “pra” caramba, fui em clínicas, nessa, como se diz? Nessa vontade de vencer no mundo universitário, porque o futebol americano ali para mim foi um step, porque eu queria porque queria ir para a faculdade nos EUA, só que estava meio tarde, tipo, estava com 15, imagina assim, vamos lá. Você é um cara do Uzbequistão, com 15 anos começa a jogar futebol soccer, da bola redonda e vem fazer teste no São Paulo, sub 15 do São Paulo, não vai conseguir, você está muito tarde, porque a pessoa começa cedinho, os fundamentos, as regras e eu sabia que eu era underdog, mas mesmo assim, eu tinha botado na cabeça, eu vou conseguir uma bolsa universitária e jogar na TV, porque nos EUA universitário bota 100 mil pessoas no estádio, todo sábado é dia de esporte universitário e eu queria aquela fama,  aparecer na TV e queria que alguém pagasse minha educação nos EUA, acabou que era um intercâmbio de um ano e o visto acaba depois de um ano. Eu precisava de um segundo ano para realmente tentar essa bolsa, eu precisava jogar, eu precisava me formar nos EUA, foi aí que eu tive a ideia que eu estou contando aqui essa história, hoje em dia é o meu sexto livro, Imigrante Legal porque eu consegui convencer o meu pai disciplinador, militar que anda na linha, a voltar para os EUA sem papéis. Mas assim, foi… eu tinha um visto antigo de turista, aquele visto de estudante eu não podia ter, porque era um ano só, já era e eu falei mano, se eu voltar para o Brasil, eu tinha que voltar para o Brasil com esse visto, se eu ficar no Brasil, meu pai está desempregado, Varig, 2006, 2007, foi quando a Varig começou a cair e estava sem receber, se com a estabilidade da Varig  o negócio já estava ruim lá em casa, imagina sem a grana. Aí eu falei mano,  eu vou apostar todas as minhas fichas nesse negócio aqui, eu vou apostar minhas fichas em voltar para os EUA de algum jeito, mandar bem no futebol americano e entrar para a faculdade, alguma faculdade vai me aceitar, tem centenas de faculdades, alguém vai me dar bolsa, aí o que eu fiz? Eu peguei um visto de turista, aproveitei a alta temporada porque assim, julho, o que acontece em julho nos aeroportos brasileiros?

Luciano          Você vai lá para a Disney.

Raiam            Criança, eu tinha 16 anos na época, 15 para 16, criança de 16 anos vai para os EUA para a Disney, o que que eu fiz? Eu comprei uma passagem para Miami, que antigamente não existia voo direto para Orlando, a pessoa tinha que parar em Miami e depois pegar a conexão para Orlando, então a minha imigração foi feita…

Luciano          Você falou que ia para a Disney

Raiam            Em Miami, eu peguei aquele visto de turista, aproveitando esse fluxo de pessoas da minha idade dizendo que ia para a Disney, eu vou para a Disney e vou assistir jogo de futebol americano, ah esse aqui é meu time, vai jogar aqui, não sei que e o cara da imigração aceitou, eu passei e me matriculei naquela mesma escola com o visto de turista, isso aí é ilegal…

Luciano          Como é que você conseguiu, como é que eles deixaram?

Raiam            Porque a Califórnia tem um loop roll.

Luciano          Sim, você tem uma brecha.

Raiam            Uma brecha que eles não pedem papeis para os estudantes de high school, escolas públicas, pelo grande número de estudantes, de imigrantes ilegais lá e foi aí que eu descobri que muita gente que frequentava a escola comigo também não tinha papeis, você precisava só de um comprovante de residência e uma identidade que pode ser a identidade da Califórnia, você pode tirar só com seu CIC, não precisa provar nada, ou seu passaporte, então usei minha identidade, matriculei e esse visto de turista eu estava semi-ilegal porque o visto, eu estava como turista nos EUA, estava estudando, jogando futebol americano, mas estava como turista, só que esse visto de turista…

Luciano          Vencia…

Raiam            … vencia naquele mês de dezembro, eu precisava estar nos EUA até junho para me formar e conseguir alguma coisa na faculdade, então ilegal oficialmente eu fiquei seis meses e na última temporada de futebol, quando os olheiros vêm para o campus para ver se você é bom o suficiente para eles investirem uma bolsa em você, bota aí uns 200 mil dólares de bolsa, nada vai para o bolso do atleta que isso é muito, tem uma lei da NCA que é amadorismo, universitário é amadorismo, ele passa quatro anos universitário e vai para o profissional no nível de cima, aí que ele começa a ganhar dinheiro, eu quebrei o braço, eu quebrei o braço no futebol americano, lembro que  eu falei, se eu fizesse tudo perfeito nunca ninguém ia tocar em mim? A história é a seguinte, nos EUA a educação anda de mãos dadas com o estudo, se a pessoa não tem uma média 6, 60% de média, ela não joga.

Luciano          Você falou educação com estudo não, é o esporte e estudo andam juntos.

Raiam            Isso, se o jogador, pode ser a estrela da equipe, ele não conseguir 60% de média, ele não joga, ele não joga e a gente, nossa escola era escola de favela, escola de gangues afro americanas e gangues hispânicas e chegou a hora do boletim, no meio da temporada, metade do time estava inelegible, inelegível para jogar por causa de nota, era o pessoal que não levava a escola a sério ou que não tinha tempo para estudar porque tinha que ajudar a família nas contas de casa, trabalhando…

Luciano          Pega o quicker e bota ele na defesa…

Raiam            Foi exatamente essa história, exatamente assim, eu sempre soube correr, mas assim, você tem a técnica, tem que saber cair, o jogador de futebol americano ele corre com o ombro e usa a ombreira, a proteção para amortecer a queda, eu fui jogar de runing back lá correndo com a bola, defesa de um monte de nego de 120 quilos em cima de mim, tomei um teco e eu caí apoiando o braço, aí eu quebrei o rádio e a una, é dois ossos aqui do meu braço, falei agora já era, porque para atrair a atenção dos olheiros tem que ter uma temporada inteira de estatística e o sonho tinha acabado por causa dessa lesão e meu  mundo desabou ali, só que é aquela  coisa, a merda já está feita, eu tenho que arrumar outro jeito, porque eu já estou ilegal, eu não quero voltar dois anos no Brasil, a situação da minha família lá no Rio está ruim, aí eu fui de novo pesquisar, correr atrás de alguma coisa, foi aí que eu descobri que as oito melhores universidades dos EUA eram as únicas que davam bolsa acadêmica para estudantes estrangeiros, no caso ivy league, você manja do…

Luciano          Do termo, sim

Raiam            Ivy league, que são as oito mais tradicionais, Harvard, Yale, Princeton, Columbia, Pensilvânia, Dartmouth, Cornell e Brown, essas aí também tinha MAT e as Stanfords,  dez de centenas de universidades, apenas dez abriam brecha para estudantes estrangeiros que não tinham grana para bancar, então apostei todas as minhas fichas ali.

Luciano          Lá vou eu fazer a seleção?

Raiam            Mas assim…

Luciano          Seleção.

Raiam            … é o vestibular mais top, mais difícil, mais difícil e eu por ter aprendido inglês com 15 anos e por ter estudado numa escola de favela, uma escola fraca pública dos EUA, eu estava muito mais defasado do que meus competidores que são preparados desde os 6 anos para entrar em Harvard, porque a peneira é braba, só o crème de la crème da juventude mundial estuda numa universidade dessa, aí tem o processo, você faz o SAT, que é tipo um ENEM, você preenche o seu formulário, você escreve uma redação e você tem carta de recomendação de professores e a segunda fase é uma entrevista com ex aluno e essa redação, ao contrário do ENEM brasileiro, que você tem que discorrer sobre aborto, ou sobre racismo…

Luciano          Os males do capitalismo.

Raiam            Exatamente.

Luciano          E aí vai.

Raiam            A redação da universidade americana é basicamente assim você tem quinhentas palavras para dizer porque você é foda, você tem que se vender, porque você merece a vaga aqui dentro?

Luciano          É focada no indivíduo.

Raiam            Focada no indivíduo, nas conquistas do indivíduo e no que o indivíduo tem para agregar àquela universidade e à comunidade dela. E eu sempre fui um cara marrento, eu sempre soube me vender nesse tipo de coisa e tinha um outro fator, que é o fator diversidade, não é cota, mas as universidades americanas adoram diversidade, aí você vai lá, Raiam é negro, ele é hispânico, ele é branco, porque a mãe tem sangue português e o melhor de tudo, ele é native american.

Luciano          Por que native american?

Raiam            O que é um native american, Pires?

Luciano          Lá é um índio.

Raiam            É um índio, um cherokee, chipewaa, … sendo que native South american, uma tribo aí tupi guarani, tupinambá, essas porra, eu botei que eu era native american.

Luciano          Daqui, era um índio brasileiro.

Raiam            Índio brasileiro, o brasileiro tem um monte de sangue misturado, se perguntarem eu mando uma foto da minha avó, da minha bisavó com cara de índia, sei lá, eu não tenho prova que eu sou da tribo mas eu coloquei lá, porque eu sabia que poucas pessoas dessa etnia aplicavam para a universidades top’s e eu fui admitido como native american, na universidade da Pensilvânia, que é onde o Donald Trump, o homem mais poderoso do mundo estudou na minha universidade, É isso aí, estudei na universidade do Donald Trump, eu estava meio triste…

Luciano          Dando “migué”, um “migué” atrás do outro.

Raiam            Ilegal, mas assim, é isso mesmo.

Luciano          Vamos usar aquele mesmo eufemismo que você usou no começo lá que você falou da arrogância positiva, você está dando um “migué” positivo, é um “migué” do bem, você não está sacaneando ninguém, você está se colocando ali, tá bom.

Raiam            Aí eu apelei para o lado emocional que é pô, o menino recém chegado, não botei que era ilegal, recém chegado aos EUA, tirou nota boa na escola, aprendeu esporte do 0, fala línguas, não sei o que e ele quer mudar a realidade do país dele, eles adoram isso, os americanos adoram isso, mas assim, aí beleza, fui admitido para a universidade da Pensilvânia, mais precisamente na Wharton Business School que é, já ouviu falar na Wharton Business?

Luciano          Claro.

Raiam            Qual a principal característica dessa  escola?

Luciano          Não sei qual é a principal mas eu sei que é dos grandes nomes aí na área de administração e tudo mais.

Raiam            É, a principal característica é: ela forma os tubarões de Wall Street, o pessoal do capitalismo ganancioso, quem está lá é para ganhar dinheiro, sangue no olho mesmo sem piedade, sem…

Luciano          Mas você escolheu isso? Você escolheu ir parar na área de administração ou havia…

Raiam            Eu gostava da palavra business, é bonita, era business…

Luciano          …  mas você teve essa opção, você podia ter escolhido algum lugar para ir.

Raiam            … tinha, é…

Luciano          Você escolheu business.

Raiam            … era o seguinte, eu estava entre relações internacionais e business, eu sempre fui assim meio comuna e meio capitalista opressor, eu sempre fui meio a meio. Era relações internacionais e business e essa faculdade ela oferecia os dois cursos em quatro anos, tinha um programa chamado huntsman, que é John Huntsman é um bilionário da indústria de químicos, ele é um mórmon e essa tradição americana de doar para a universidade onde a pessoa foi, ele botou muito dinheiro nessa faculdade, criou o programa dele e ele sempre foi muito bom para o negócio de diplomacia, o filho dele foi John Huntman Jr, foi embaixador dos EUA no primeiro mandato do Obama, apesar de ser republicano ele foi embaixador dos EUA na China, do Obama, o Obama botou um republicano lá, do time contrário e bancou esse programa que é metade relações internacionais e metade, já falei mano, eu estava em dúvida entre uma e outra, eu vou fazer esse programa e a faculdade bancou minha bolsa, falei mano, é, deu tudo certo, eu estou aqui, só que nesse lugar o filho chora e a mãe não vê porque as notas são competitivas, são comparativas, apenas 20% da turma ganha a nota A, o resto tem que brigar pelo B, pelo C.

Luciano          Você cresceu num ambiente de meritocracia graças àquela posição do teu pai e você caiu na meca da meritocracia norte-americana.

Raiam            É. E assim, não tinha muito assim aquela coisa de faculdade, vou te ajudar a fazer um trabalho, não porque um competindo contra o outro, então se eu tirasse 96% de uma prova e o resto da turma tinha 98, eu me ferro, apesar de ter mandado muito bem na prova, me ferra, porque eles simulam o mundo real, o mundo real tem a pessoa que manda bem e o resto se ferra e lá dentro é briga de cachorro grande, eles fomentam esse ambiente competitivo desde o início, lembrando que é graduação, o MBA de Wharton é totalmente diferente, porque não tem curva, MBA é parquinho, eu acho que MBA é parquinho de adulto, eu sou totalmente contra MBA porque eu vivi aquilo lá e eu vi os MBA’s bebendo todo dia, fazendo networking enquanto a gente estava estudando e as aulas eram juntas e os caras não sabiam porra nenhuma, quem fazia tudo, quem respondia tudo era o pessoal da graduação, 17, 18, 19 anos, o pessoal que ia para o MBA era o pessoal de seus 20, quase 30 anos, que estava meio que tirando dois anos de férias para decidir o que iam fazer da vida, então a gente tinha uma impressão meio negativa dos MBA’s de Wharton, apesar de ser um dos melhores MBA’s do mundo, não tinha essa veia competitiva dos caras, ponto positivo disso, me preparou para o mundo, ponto negativo dessa coisa, esse sistema ferra a cabeça da criança, do jovem e muito eu tenho caso de um capitão, joguei futebol americano na NCA, no universitário e o capitão do meu time cometeu suicídio, antes da semana de provas, ele tinha muita cobrança de nota, cobrança dos técnicos e por ser jogador você em três horas de estudo a menos do que os seus competidores, porque você está no estádio treinando e é muito mais que isso porque aos fins de semana, enquanto os estudantes normais, os chineses, indianos que tiram nota boa “prá” caramba, os estudantes normais estavam na biblioteca estudando, você estava viajando para jogar pelo time da faculdade, então automaticamente o jogador de futebol americano eram tidos como mais burros dentro da escola, então juntando a pressão das notas e o cara não tinha nota boa, ele se enforcou, se matou e todo ano tinha pelo menos cinco se jogando dessa escola, competição assim, sangue no olho, acirrada e não é à toa que você vai em qualquer banco de Wall Street em fundos de investimento em Nova York você vê Wharton, Wharton, Wharton… Eles preferem o cara dali por quê? Vamos lá. Aí passando um pouco a minha história para a frente, eu me formei em três faculdades, ganhei o prêmio lá chamado Academic all Ivy que é o jogador mais inteligente dos EUA assim, o melhor estudante e jogador. Estudante atleta. O cara que é bom de bola e bom na escola, que é um prêmio que eles dão uma vez por ano da Ivy League e eu ganhei esse prêmio em 2010 e isso, putz, me ajudou a ganhar um emprego em Wall Street, eu fui trabalhar num banco de investimento.

Luciano          Então você se formou em três faculdades?

Raiam            Junto com o futebol americano, era relações internacionais, negócios e eu, aí tenho que te explicar um pouco da terceira.

Luciano          São três masters?

Raiam            Bel Pesce não, é o seguinte, meu negócio não é Bel Pesce não, eu tenho três magers, ela tem vários manes e o caraca, eu tenho três magers, três pedaços de papel em casa, porque assim, eu era bolsista e eu tinha que estudar durante as férias, não tive férias durante quatro anos de faculdade e porque eu era atleta, eu fazia questão de botar algumas aulas fáceis para subir o CR…

Luciano          O que que é o CR?

Raiam            … CR é o DPA, que é o coeficiente de rendimento, suas notas, média aritmética das suas notas, que é aquela coisa, se o cara tem 90% ele vai conseguir um emprego bom, então minhas notas nessa comparativa, eu não conseguia nunca ficar no A porque tinha sempre um indiano, um chinês e um japonês que estudava mais que eu e tirava nota melhor, como é que eu fazia para balançar? Aí mais uma vez o “migué” positivo, arrogância positiva, o “migué” positivo era eu vou me encher de classes no departamento de letras e eu me enchi de classe de literatura espanhola, eu tenho um diploma em letras em espanhol, letras, Gabriel Garcia Marques, eu tenho um diploma em letras porque eu me enchi de classe para conseguir A, tirar nota boa, eu fiz intercâmbio na Espanha, me enchi de classe, chegou no último ano de faculdade, com tanto crédito que eu tive nas férias durante o ano, falou e, se você fizer mais três aulas aqui, você vai ganhar essa graduação em letras, falei vamos, estamos junto, vamos cair para dentro. E até é engraçado, até bem pouco tempo atrás eu não colocava nem no currículo que eu tinha graduação em letras porque ocupava espaço no currículo, ninguém ligava, ninguém nunca me perguntou numa entrevista de trabalho, e essa graduação em letras que você tem aqui? Aí eu tirei, mas hoje em dia o que paga as minhas contas são as letras, escrever no blog, escrever livro é o que paga as minhas contas. Beleza, é aquela coisa, o estudante de Wharton, ele é preparado desde os 17 anos para ser um tubarão de Wall Street, tubarão do mercado financeiro, essa competitividade e nas outras escolas que são mais famosas, tipo Harvard, Yale, Princeton, o jovem de graduação não estuda business, não tem contabilidade, não tem finanças, não tem estatística, não tem investimentos, não tem, o cara faz ciências políticas ou faz filosofia e no quarto ano ele é recrutado para um banco só porque ele é de Harvard, em Wharton ele está desde os 17 anos fazendo modelagem financeira, plano de negócios, marketing, estatística, investindo, contabilidade e é por isso que os bancos todo mês de fevereiro descem no m-track de Nova York até Filadélfia para recrutar essa galera, porque essa galera está pronta para o mundo e eu não sabia o que eu queria fazer da vida, eu dei uma de maria vai com as outras, pô se está todo mundo aqui indo para Wall Street…

Luciano          Lá vou eu.

Raiam            … lá vou eu…

Luciano          Que ano era isso?

Raiam            … era o ano da bonança do Brasil, 2010 para 2011, o Brasil estava bombando, então os bancos de Wall Street estavam precisando de mão de obra qualificada brasileira que falava português e espanhol porque tem muito investimento vindo dos EUA para o Brasil, do mundo para o Brasil, então esse moleque aqui é um bom ativo para a gente, entendeu? E o grande barato da coisa foi o seguinte: eu desde o início da faculdade já falei, eu não quero ser igual a esses filhos da puta aqui que querem ir para bancos de investimento, trabalhar numa coisa que não faz sentido nenhum, o cara do banco de investimento ele faz Power Point o dia inteiro e uma reta no Excel e esses relatórios nunca são lidos e ganha muito para isso, ganha, sei lá, 100 mil dólares por ano para fazer trabalho de formiguinha, ficar muito tempo no escritório. Um amigo meu que tinha uma graduação em estudos urbanos, acho que urbanismo, não tinha nada a ver com business, fez um estágio em Nova York, ganhou 18 mil dólares em 2, 3 meses, eu escutei aquela história falei mano, eu ganhava 100 dólares de mesada, como bolsista, meu pai mandava 100 dólares, pô 18 mil dólares por 3 meses de trabalho, eu quero isso para mim também, aí vem o fator cobiça, você vê o outro ali, você quer o que ele tem, que é diferente da inveja, a inveja você vê  outro ali, eu quero que ele não  tenha aquilo, eu quero que ele não tenha aquele dinheiro, cobiça para mim é bom, porque cobiça, eu quero chegar àquele nível, eu vou me empurrar para a frente, entendeu? Daí eu fui, entrei no programa, é chamado de anolis program, programa de treinee do City em Nova York…

Luciano          Citybank.

Raiam            … Citybank, no caso Citygroup que é a mãe do Citybank, a parte de banco de investimento do City de Nova York na classe de 2011, meu salário era 100 mil dólares por ano com 21 anos, pô, com câmbio de hoje é uma grana respeitável.

Luciano          Lá é um bom dinheiro

Raiam            Para lá é um bom dinheiro. 30 mil reais por mês com 21 anos é grande, pô, naquela época só jogador de futebol e ator ganhava mais do que eu, só que isso aí é a teoria, por quê? Na prática eu ganhava 118 dólares por mês…

Luciano          Por quê?

Raiam            Por causa do custo de vida de Nova York, eu tinha que pagar imposto, nos EUA não existe vale transporte, nem vale refeição, a empresa não banca seu plano de saúde, eu tinha que pagar aluguel em Nova York, que eu tinha que morar em Manhattan que era uma obrigação do banco, porque assim, deu treta às três da manhã de um sábado, você tem que estar lá em 20 minutos e se você morar em New Jersey, ou um lugar longe, você não consegue, não consegue chegar. Então era recomendação morar perto, se você for morar perto do trabalho tem que pagar, na época eu pagava, sei lá, 1800 dólares por mês de aluguel para morar num muquifo, dividir um apartamento de um quarto com mais um marmanjo, com mais um maluco lá, meu amigo, então no papel assim, a grana era muita, mas eu passava o ano inteiro no 0 a 0 até receber o bônus, aí o bônus dava para dar uma respirada e o bônus é assim, performou ganha, não performou não ganha, meritocracia de novo, aí é o seguinte, quanto mais você está nesse ambiente você vê, tem uma coisa muito comum da minha geração, que é você está num ambiente, você vê a pessoa que está acima de você e ao invés de sentir admiração por aquela pessoa, você sente pena, tipo eu daqui a 20 anos eu não quero estar igual àquela pessoa ali, eu acho ele um loser e isso para sua automotivação dentro do ambiente de trabalho é horroroso, junta esse fato de que eu tinha que vender coisa para cliente, tipo investimento. Invista na Gol Linhas Aéreas, a empresa era uma merda, mas tinha que falar investe aí, tinha que falar para o cliente investir por causa disso, disso e disso porque o banco tinha uma treta ali, tinha que empurrar ação, tinha que empurrar ação para os caras e essa foi a época do Eike Batista, que foi, eu vi tudo acontecendo assim, eu era junior, vi tudo acontecendo, vendendo água para o banco ganhar, para o  fundo ganhar, para o Eike ganhar e enganar o investidor, numa época em que o Brasil era o queridinho dos bancos dos investidores mundiais, o Brasil era o, pô, o tijolo fundamental dos Brics porque a pessoa não conseguia investir na China por causa daquelas grandes barreiras para o investimentos, o que ele faz? Eles investem comp da China, quem está altamente relacionado com a economia da China? O Brasil com suas commodities, então jorrava dinheiro no Brasil e dava para ver claramente que o negócio ia para o saco, mas era uma festa, era uma festa e também a parte do propósito, que eu passava o dia inteiro fazendo perfumaria, que é decorando Power Point, fazendo um bonitinho assim para vender um investimento para o cliente, fazendo planilha de Excel, ah deu um número lá que a ação deve custar 6 dólares, manipula aí, faz chegar a 10, assim para o cliente opa, isso aqui tem um potencial muito grande, vou comprar essa ação, manipular mesmo, não é por fatos, não chega esse número aqui e pronto, pode brincar com a planilha, chega nesse número aqui e pronto e era um ambiente assim, mano isso não é  para mim, isso não é para mim, aí aquela coisa, era um programa de dois anos, eu mandei bem, eu ganhei bônus e o caramba, só que eu mandei meu chefe tomar no cu no finalzinho porque era o seguinte, eu estava mandando muito bem, estava com bônus e tal não sei o que e chegou a hora da decisão, você vai ser promovido, pô, por performance era para ser promovido e eles me promoveram de título, de analista para associated, associado, só que eles me mandariam para São Paulo para pagar o mesmo salário, mas em real, então em termos de câmbio, eu ganharia 50% a menos por um trabalho pelo mesmo trabalho, um título a mais, eu falei mano, está de sacanagem com a minha cara, não vou fazer isso, mas assim, o ser humano gosta muito de títulos viu Luciano, títulos, títulos, ah você é diretor de tal coisa, é diretor, eu vi aquilo ali eu falei mano, não. Não, não vou. Aí eu mandei um e-mail bem agressivo para o meu chefe, escrevi um livro sobre isso e o e-mail está no livro Wall Street que eu te dei de presente agora, mandei e-mail para o meu chefe, duas semanas depois o negócio acabou e aquela coisa, quando você é empregado de uma empresa nos EUA, você é meio que um, eu diria que um escravo, porque você é um…

Luciano          Você é um exced.

Raiam            … é, sim, você pode trocar muito fácil um revolving door, mas no meu caso pior ainda porque meu visto de trabalho estava associado ao City, saio do City, sair é legal, sai do City, mete o pé no país e faltando um mês, o Brasil começou a chacoalhar, falei ih caramba, o dólar está descolando, vale muito mais a pena eu ficar aqui no país, sossegar meu facho e arrumar outra coisa por aqui, mas o tempo estava passando eu falei putz, vou tentar outra coisa aqui, vou tentar outra coisa nos EUA, vou tentar outra coisa, venceu eu falei mano, estava deprimido pra caramba porque esse tipo de trabalho realmente…

Luciano          Consome. Você estava lá há quanto tempo, nos EUA então?

Raiam            … um total, fiquei um total dos 15 aos 24, fiquei quase 10 anos nos EUA. Aí beleza, estava fazendo um processo seletivo em empresas dos EUA, aí teve um negócio chamado government shutdown, problema no governo americano que todos os órgãos federais do governo Obama fecharam por causa do budget, não foi aprovado, então emissão de visto, tá tudo fechado e mesmo se eu conseguisse emprego, eu não ia conseguir visto para ficar, falei mano, vou voltar para o Brasil, com uma mala eu voltei para o Brasil, eu estava com dinheiro no bolso, com uma mala, vou fazer alguma coisa da minha vida, não sabia o que eu queria fazer, quer dizer eu sabia que eu queria ser escritor, eu queria escrever, mas assim, como é que… não tenho contato nenhum em editora, todo mundo falava para mim que escrever não dá dinheiro…

Luciano          Mas você estava escrevendo lá já?

Raiam            Nada

Luciano          Você não tinha blog, não tinha feito nada

Raiam            nada, nada, eu queria…

Luciano          Você estava lá com teu terninho, cara do Wall Street

Raiam            … eu estava fazendo o meu ali, eu estava ali porque assim, basicamente esperando a morte chegar porque eu sabia que se eu continuasse ali, ou eu ia cometer suicídio ou eu ia ficar 50 anos naquilo ali e ficar triste, morrer triste, sem realmente realizar aquilo que eu vim na terra realizar.

Luciano          tinha as drogas também.

Raiam            Mano, volta, minha droga era “muié”, droga não porque essa parada da minha família de micro-ondas trauma, eu nunca mexi com isso por causa do trauma, não porque eu sou careta nem nada, mas esse mundo tem muita cocaína, tem muito MDMA, essas paradas aí.

Luciano          Qualquer um que assistiu “O Lobo de Wall Street”.

Raiam            Com certeza, mas na minha época era menos porque era justamente um pouco depois da crise de 2008, onde todo esse império ruiu, desmontou, então era uma época de vacas magras em Wall Street, mas mesmo assim a gente ganhava bem em termos relativos, de ganhar muito mais que a sociedade, tipo meus amigos que foram para trabalhar em economia real, eu era rico para eles e era muito difícil explicar, mano esse é meu salário mas não sobra nada no fim do mês porque eu estou morando em Nova York, mas assim, o meu vício era “muié”, quando você  esta desconfortável consigo mesmo você procura a felicidade em outra pessoa e Nova York é uma cidade onde todo mundo é assim, as pessoas, no fundo, no fundo são inseguras, então elas procuram a felicidade em outras pessoas, então eu considero a cidade com mais índice de sexo no primeiro encontro como em Nova York, Nova York é muito louco…

Luciano          Você arrumou uma namorada lá, alguma coisa assim ou não?

Raiam            Arrumei várias.

Luciano          Porque eu estou vendo uma coisa interessante, você é um lone Wolf, tudo o que você fez até agora você vem fazendo sozinho, é você e você, lá era você e você, de repente você está em Nova York, vai ter que tomar uma decisão pelo teu futuro e continua sozinho.

Raiam            Sozinho, quer dizer, tinha meus pais…

Luciano          Pois é, mas você não tem papai, preciso tomar uma decisão, me dá um insight ai, o que é que eu faço?

Raiam            Não, mas meu pai falou fica, meu pai falou fica, porque a economia do Brasil estava ruim, não sei quê, mas quando ele falou fica, estava meio tarde demais para arrumar outra coisa, meu visto de trabalho estava expirando, me deram uma data de validade, olha só, essa tua data de validade, arruma outra coisa até esse dia, se passar esse dia, irmão, você tem que meter o pé para o seu país, a gente não vai financiar um imigrante ilegal aqui, mal sabiam eles que eu já fui, já tinha sido imigrante ilegal, não tinha dado treta nenhuma, mas meu pai dizia, fica aí, fica aí. Minha mãe dizia volta, porque é coisa de mãe, ela sabia que eu não estava feliz, ela sabia que minha vida estava uma merda e eu voltei sem plano nenhum.

Luciano          Então, mas a tua decisão de voltar para cá foi pela falta de… se tivesse pintado uma oportunidade, você tinha ficado lá? Ou não?

Raiam            Acho que não, eu estava de saco cheio já, 10 anos, por exemplo, hoje em dia eu não quero nem pisar em Nova York, nem se me pagar, eu não gosto mais dos EUA, não gosto, apesar tipo minha família do intercâmbio, tipo o cara me adotou, o pai que me adotou, tipo eu sou herdeiro da família lá, mas eu não gosto de voltar para os EUA, não gosto e eu estava muito mal, talvez seja um vestígio desse trauma, que é um trauma, de que nos últimos  quase um ano de EUA eu estava deprimido, altamente deprimido, com pensamentos suicidas direto. Eu falei mano, eu não quero mais isso para a minha vida, então mesmo se eu tivesse arrumado emprego acho que eu teria voltado para o Brasil mesmo, porque naquela época meu sonho era ser famoso, eu queria ser famoso, porque assim, o cara é rejeitado na infância porque é preto, aí depois porque é imigrante, depois porque é mais pobre e tira nota mais baixa do que o outro e depois porque é peixe pequeno no  mundo de Wall Street onde todo  mundo ganha milhões e você ganha pouco, então era uma rejeição atrás da outra que eu chegava, minha hora agora de ser star, esse negócio da Bel Pesce, esse negócio tipo você vê que a  trajetória dela tipo é under dog em tudo, ela era feinha, gordinha da escola, ela foi para a frente, ela não era das tops mas tinha os caras tec, os técnicos mesmo, pessoal que roda programas são os mais tops e ela não fazia isso, então é aquela coisa, voltar para o Brasil e criar uma imagem maior de si mesmo, eu vejo que aconteceu isso com ela, de expandir essa imagem e eu queria para mim também, eu queria voltar e ser famoso, igual a Bel Pesce,  eu queria sérum ícone para o Brasil, entendeu? Aí qual foi o primeiro passo? Meu sonho é ser apresentador de TV, eu queria ser apresentador, tinha acabado de sair de Wall Street, eu queria ser apresentador de TV e eu virei apresentador de TV.

Luciano          Por que não retomar o sonho do Jacaré?

Raiam            É, mas pior que eu, nossa, eu tive que dançar “É o Tchan” na TV, no programa que eu tinha, eu sempre fui um cara muito top de network assim, eu dava…

Luciano          Mas vamos lá, deixa dar o break, até agora eu fiquei escutando você porque a história realmente é maluca, agora eu vou te fazer umas provocações aqui. Você volta para o Brasil, uma puta história lá atrás, qualquer cara na tua posição teria que voltar aqui com puta orgulho na mala, com teu diploma da Wharton, da maneira como você foi, com o sucesso que fez lá, isso aí por menor que seja é aquilo que o pessoa me perguntou da Bel, eu falo o seguinte, a Bel, ela não precisava ter inflado nada, se ela pegasse o que ela tinha conseguido lá e trouxesse e  falasse eu sou isso, já estava 10 anos à frente de qualquer outro aqui. No  teu caso então, que você volta com isso tudo na mão, fala bom, cheguei aqui com esse monte de credenciais que eu tenho na mão aqui e com uma credencial dessa eu posso arrombar as portas do Brasil, na área onde eu me formei, fazendo aquilo que eu fazia e você desce aqui e fala o seguinte: não, eu não vou para o mercado financeiro, não vou trabalhar em banco, não vou pegar esse meu currículo maravilhoso e detonar, arrumar um emprego numa grande empresa, eu vou me virar para o outro lado, então, como é que é isso aí, como é que você elaborou isso ai, não era muito mais fácil você ter aproveitado o empurrão lá do que você trouxe dos EUA e ter sucesso num outro lado aqui do que… e querer ser apresentador de televisão?

Raiam            Vamos lá. Vamos dizer que eu ganhava 9 mil dólares por mês em Nova York e eu estava triste por que eu iria aceitar um trabalho ganhando 5 mil reais no Brasil para ficar o mesmo nível de triste, para mim essa era a minha linha de pensamento, que o dólar já estava baixando a três, então, vamos lá, de 27 mil reais para 5  mil reais, porque eu ainda  era júnior, eu voltei de 22 para 23, ninguém do mercado financeiro brasileiro ia me aplicar salário de top assim, tente com MBA, então o que aparecia era coisa de 5 mil reais por mês, aí eu falei mano, beleza, 5 mil reais é um salário respeitável para muita gente, mas meu nível é maior, entendeu? Se eu estava triste e deprimido com aquilo ganhando muito, por que eu vou ganhar pouco para ficar triste e deprimido? E eu tinha dentro de mim falando o meu negócio é eu não nasci para isso porque eu tipo, aqui eu vou ser pequeno, quer dizer, pequeno assim, eu não vou agregar valor ao mundo, porque o que eu fazia não agregava valor em ninguém, eu falei, relatórios que ninguém lia, Power Point mal feitos, quer dizer, bem feitinho, bonitinhos mas assim, que enganava cliente, enganava empresa, não sei o que, não sei o que lá, esse é o mercado financeiro, isso aí é assim, ponto final, que essa coisa o cliente está em primeiro lugar, não, isso aí é tudo bullshit, aí eu com essa síndrome de Bel Pesce de querer atenção, querer ser famoso e ela já estava crescendo aqui, eu queria ser igual a ela, não maior que ela, ela era meu benchmark, como é que eu vou conseguir um público tão grande como a Bel Pesce? Essa época eu já queria ser escritor, mas eu não tinha escrito uma palavra no meu livro, nenhum dos meus livros, porque é aquela coisa, como e que você vai preencher o cálice dos outros se o seu não está cheio? O meu copo não estava cheio, então acho que foi por isso que eu realmente não conseguia escrever nada, não conseguia escrever nada e eu network, uma ligação para cá, na minha segunda semana de Brasil eu consegui uma vaga de comentarista de futebol americano no esporte interativo e eu tinha um programa lá, eu narrava e comentava jogos da NFL que estava crescendo “prá” caramba o Brasil na época e era uma zoeira boa, mas assim, eu tinha guardado uma grana, eu não ganhava um centavo por ali, mas eu sabia que beleza, pega o exemplo das grandes pessoas do mundo, todo mundo trabalhou de graça uma vez na vida, falei mano, estou trabalhando de graça aqui para um dia…

Luciano          Mas estou na área.

Raiam            …  eu estou na atividade para um dia eu chegar no ponto que eu quero chegar, que é realmente ser escritor, um dia, mas assim, criei um público e eu mandei bem no esporte interativo, a gente bateu record de audiência, apresentei o super bowl, trendin toping mundial, fui apresentador do dia, então pô, eu tinha métrica, eu tinha resultado como comentarista, que é aquela mesma mentalidade de vencedor que meu pai pôs na minha cabeça, duas vezes melhor que todo mundo, negro, ah não, tem que ser melhor, tem que ter disciplina, tem que estudar, então tudo aquilo, estudar, TV, eu fazia e um belo dia eu fui chamado para trabalhar na ESPN, aí a ESPN  que é o canal concorrente do esporte interativo e aí eu ia receber para fazer o que eu gostava, que era comentar jogo e apresentar programa na TV, então beleza, ESPN, eu uau! Um ano de comentarista, eu já vou para o tope eu nunca fui jornalista na vida, então eu cortei o caminho, cortei vários caminhos e eu fui todo feliz para a ESPN só que meu estilo carioca não colou muito bem com o canal na época e o pessoal do Twitter estava reclamando muito do meu sotaque, muito dos meus comentários que estavam funcionando bem com o esporte interativo que é o canal do povão, o pessoal que não tem NET em casa, pessoal de cidade pequena, o Sportv deles é o esporte interativo, que era canal de parabólica, então era canal do povão, meu jeito descolado, zoeiro funcionava muito bem no esporte interativo e não na ESPN que é um público mais classe A que tem que pagar, não só a NET, mas o premium da NET para ter ESPN e os caras lá, jornalistas, passava a transmissão inteira me zoando, zoando meu sotaque, me zoando, inveja, zoando, me zoando o tempo todo, aí um belo dia chegaram assim, ô Raiam, depois, passa uma hora e meia, eu estava me segurando para não falar nada, aí Raiam, está quente no Rio? Falei tá, tá quente. É, em São Paulo tá quente, tá quente no Rio? Falei é, tá quente, só que a diferença é que lá no Rio tem a praia de Ipanema e São Paulo tem o Rio Tietê e esse simples comentário no dia seguinte apareceu na primeira página da Folha de São Paulo, deu o que falar no Twitter e os caras me demitiram por causa dessa piada de mau gosto contra paulista, mas assim, eu tinha ficado 10 anos nos EUA e não sabia que tinha essa rivalidade tosca entre Rio e São Paulo, foi tipo, os caras me zoavam eu falei ué,  mas é fato, na geografia o Rio Tâmisa não está em São Paulo, São Paulo está no Rio Tietê e ponto final.

Luciano          Isso não tem nada a ver com geografia.

Raiam            Localização, o Rio Tietê é parte…

Luciano          Não tem nada a ver com geografia, você tocou num vespeiro lá, mas tudo bem, continua, e aí, botaram você fora.

Raiam            Botaram para fora, aí beleza, putz, eu gostava muito do que eu fazia, me botaram para fora, aí eu falei mano e agora? Vou fazer o que da vida? E aquela coisa, enquanto Isabel Pesce estava subindo, subindo, ai eu falei, olha só, deu tudo errado até agora, não me dei bem no mercado financeiro, não me dei bem no futebol americano, não me dei bem na TV, eu vou voltar para o fundamento que é o que? Que eu quero fazer da vida? Eu quero escrever livros, eu gosto, hoje em dia eu leio 200 livros por ano.

Luciano          Eu vi, você botou um número maluco lá.

Raiam            É, ano passado foi 256, não, 2015 foi 256, esse ano foi 206, mas assim, áudio book, eu gosto muito de áudio book, tanto que eu cheguei aqui com fonezão no ouvido, a pessoa acha, vê um negão mal encarado na rua, acha que eu estou ouvindo funk nesse fone, mas é livro, eu sempre gostei de livro, eu sempre gostei de escrever, eu sempre achei que eu escrevia muito bem, eu comecei a escrever, mano, comecei a escrever num blog, não, comecei a escrever textão no Facebook, começou assim, escrever textão no Facebook, aí falaram por que você não faz um blog? Aí eu botei um blog, aí tinha meia dúzia de pessoas lendo, aí eu falei…

Luciano          Que ano é isso?

Raiam            … 2014 para 15

Luciano          14 para 15, tá, é recente.

Raiam            … meia dúzia, é, 2015 assim, meia dúzia de pessoas lendo, aí eu vou escrever mais e mais, aí eu comecei a estudar os hábitos das pessoas bem sucedidas, pessoas que estavam onde eu queria estar, seja por carreira ou seja por dinheiro e todo mundo tinha alguma coisa que faziam todo dia, por exemplo, o que você  faz, qual o teu principal hábito, Pires?

Luciano          Meu hábito principal?

Raiam            É, hábito, você tem algum hábito, coisa que você faz todo dia, no piloto automático.

Luciano          É ali onde você viu que eu estava sentado naquela cadeira ali, no meio daqueles computadores e procurando conteúdo e aquela coisa.

Raiam            Isso é um hábito?

Luciano          É um hábito. Virou hábito, não é trabalho mais, é hábito já.

Raiam            Aí eu comecei a estudar pessoas, pô o Toni Robins toma água com limão de manhã, a Oprah ela escreve um diário de gratidão, o Abílio Diniz faz exercício diário, mesmo com os 80 e caralhada de ano que ele tem, velho “prá” caramba faz exercício todos os dias, o Ern Thomas tem um mantra, aí eu falei, pô, todo mundo aí que é top tem um hábito, aí eu comecei a estudar hábito dessas pessoas, falei mano, vou escrever um livro sobre isso rapidinho e testar como é o mercado do Amazon, como é que funciona, marketing, distribuição, pagamento, aí o que é que eu fiz? Peguei esses hábitos aí dessas pessoas tops, botei num arquivo Word, subi para a plataforma do Amazon e publiquei no meu aniversário, por que o meu aniversário?

Luciano          Nome do livro?

Raiam            Hackeando tudo, de Life Hacks, hacks de vida, para kackear a própria vida, hackear um jeito melhor, mais otimizado de fazer alguma coisa.

Luciano          Para quem não sabe ainda o que é o hackear, hackear acabou se tornando um termo lá de fora que aqui no Brasil ele adotou um lance interessante que é o no tempo que eu trabalhava na minha autopeça a gente chamava isso de engenharia reversa, você pegava um produto qualquer, desmontava esse produto, voltava atrás para ver como ele é feito e aí você podia fazer igual e até melhorado e hackear nada mais é do que isso, é chegar e copiar os bons hábitos. Houve uma época e que isso se chamava bait marking, entendeu, foi bait marking o nome disso e hoje em dia está muito mais bonito que chama hackear.

Raiam            É, aí eu botei um livro chamado Hackeando Tudo, no meu aniversário, por que no  meu aniversário? Eu botei de graça lá no Amazon no meu aniversário, no seu aniversário tem um fluxo de pessoas que vão na sua página no Facebook te desejar parabéns, você fica com cara de cu, ok, dá like, eu respondia com o link para o meu livro, olha só, não precisa me dar presente não, mas baixa meu livro, baixa meu livro, eu tinha 5 mil amigos no Facebook por causa da coisa da TV, baixa meu livro, baixa meu livro… Aí as pessoas leram, aí foi que começou, foi aumentando, aí começaram a pagar por ele…

Luciano          Você botou preço, aí você botou um preço?

Raiam            … é, só no primeiro dia foi grátis, aí no segundo dia começaram a pagar por ele, aí eu falei, tem coisa aqui, tem coisa aqui, opa, isso aqui pode ser uma mensagem de Deus dizendo Raiam, você está no caminho certo, continua, tem coisa aqui, tem coisa aqui e aí um mês depois apareceu um aplicativo de áudio livros, chamado Youbook, que estava crescendo também, não tinha nada,  bati na porta deles como eu  tinha batido na porta do intercâmbio, bati na porta da TV para trabalhar lá, bati na porta do cara de Wall Street para me contratar,  eu bati na porta desse aplicativo. Falei: eu sou o maior consumidor de áudio books, nessa época eu lia, eu escutava 100 livros por ano, maior consumidor de áudio books do Brasil e  aí eu queria fazer uma parceria com vocês. Ah tem um livro aqui, vamos gravar teu livro, vamos botar aqui teu livro, então o Hackeando Tudo foi colocado também na plataforma Youbook desde março de 2015, está sempre entre os mais executados da plataforma e eu recebo por play no Youbook, aí outra coisa, nossa mano, outra coisa, mensagem dois, está dando certo, continua, aí eu comecei a escrever peças, vamos dizer, motivacionais no blog, eu comecei a fazer um blog porque todo grande escritor do mundo faz duas coisas, ele lê muito e ele escreve muito, todos os dias, lê muito e escreve muito, eu lia “prá” caramba e eu escrevia “prá” caramba, então para botar esse hábito em prática não bastava só escrever no meu caderninho de gratidão, coisas pelas quais eu sou grato hoje, por exemplo, hoje eu vou escrever que eu sou muito grato por ter dado uma entrevista no LíderCast, do Pires, hoje sou muito grato porque eu almocei sushi em São Paulo, são coisas pequenas, então eu complementava isso com um blog e o blog foi crescendo, foi crescendo, crescendo até que um dia eu fui numa palestra do Luis Stuhlberger que é o maior investidor do Brasil, toca o fundo verde de trinta e caralhadas bilhões de reais, um dos melhores do mundo na profissão dele e ele deu uma palestra para os ex alunos de Wharton,  que é um network ferrado de Wharton em São Paulo, eu viajei para São Paulo para ir para essa palestra, aí oque é que eu fiz, o caras do mercado financeiro tem uma  linguagem muito técnica, eu peguei aquela informação ali, eu traduzi para linguagem do povão e joguei no meu blog, o negócio viralizou, aí eu abri a conta do Websense que eu tinha botado uns anúncios, aí eu vi dinheiro ali, eu falei ih, tem coisa aqui, assim como alguns meses antes foi no livro, eu falei tem coisa aqui e foi aí que eu comecei a estudar a fundo monetização de sites e hoje em dia mano, eu tenho quarenta e poucas fontes de receita diferentes, tipo ah se uma coisa me dá 50 reais por mês, é uma fonte de receita, então hoje em dia eu tenho 7 livros escritos, tenho o meu site que pô, tem mês que bate um milhão de acessos, eu dou palestra, porque eu dei palestra de graça  naquele ano do Hackeando Tudo, eu batia na porta das empresas juniores de faculdade, ó, fazer uma palestra aí, ouvi que a palestra do Raiam é boa, não sei o que, e assim, é aquela coisa, eu sou um cara agressivo, eu sou um cara eu dou tapa, tipo meus textos para o jovem é cheio de tapa na cara e aquele que você falou no início da entrevista que é porque eu não tenho um milhão de seguidores, porque nem todo mundo está preparado para esse tapa na cara, choque de realidade porque eu assim, eu não sou melhor que ninguém, eu não tenho fãs e eu não tenho essa coisa de idolatria, eu só apanhei mais da vida que o jovem normal de 26 anos, então eu tenho um conhecimento para passar, um pouco de experiência para passar, então são certas coisas que as pessoas me mandam, cara eu me identifiquei muito com isso, mas a grande maioria das pessoas, elas se sentem, vamos dizer, ofendidas pela minha linguagem agressiva, pelos palavrões, pelo conteúdo que eu passo e se você vê tipo, as pessoas que me seguem são esse pessoal top 1% de intelecto da população brasileira, da juventude brasileira.

Luciano          Que é a pessoa que consegue compreender esse teu, que ela não se incomoda com essa bobagem, ela não vai se incomodar com teu sotaque a ponto de pedir para você sair fora, não te mandar embora por causa do seu sotaque.

Raiam            Não tem mimimi e é aquela coisa, eu fiz questão, porque assim, como é que eu vou me posicionar no mercado literário? Eu quero ser um escritor, meu benchmark é o Paulo Coelho, depois eu conto do Paulo Coelho, como é que eu vou ser escritor? Eu tenho eu fazer uma coisa que as pessoas não fazem, então eu escrevo meus livros com parágrafos bem curtos, tem muito espaço em branco entre as linhas, tem palavrões e vocativos, porque a pessoa que está lendo, ela acha que está conversando com o autor e esse efeito é diferente do que a pessoa está acostumada, ela foi acostumada na adolescência, foi traumatizada com livros de Machado de Assis, Raquel de Queiroz, Euclides da Cunha, são livros de bons escritores, mas que não faziam nada, não tinham nada a ver com a realidade do jovem, então o que eu sinto hoje em dia é o seguinte, o brasileiro não lê, o jovem brasileiro não lê porque ele foi mal acostumado, das professoras na infância e adolescência, aí pô, ler essa merda aí não, o meu trabalho, além de escrever, é criar um mercado 0, é fazer o jovem ler, além dos recursos de escrita que funcionam muito bem, a pessoa lê meu livro e termina rapidinho, vai querer ler outro, outra coisa que funciona muito bem são os posts de ostentação literária, todo mês eu boto alista dos livros que, esse ano 2017, hoje é dia 11, já terminei 10 livros…

Luciano          São todos áudio books ou não?

Raiam            … 10 áudio books e 1 livro físico, minha memória é muito mais auditiva do que visual, então eu boto o fonezão no ouvido, eu caminho pela cidade, eu estou escutando áudio book, estou em casa escutando áudio book, sempre escutando áudio book, em 3x, velocidade rápida, porque meu cérebro está acostumado a receber informação nesse nível, desde 2010, quando eu comecei essa coisa de áudio book, em 2017 são 7 anos de prática, aquela coisa, eu boto lá, olha só, eu li 200 livros esse  ano e você está esperando o quê, vagabundo? As pessoas que tem uma inteligência emocional acima da média, ela vai interpretar aquilo ali como uma motivação…

Luciano          Uma provocação.

Raiam            … uma provocação e vai ler…

Luciano          E não é uma ofensa.

Raiam            … e a pessoa acaba lendo, não uma ofensa, não é uma ofensa, a pessoa acaba lendo mais e o meu in box todo dia de gente, gratidão, minha métrica hoje em dia não é nem livros vendidos, não é grana no bolso, é número de e-mails de gratidão que eu recebo dos leitores, porque eu sei que eu mudei aquela vida e eu sei que é uma equação muito fácil, quer ficar milionário? Agregue valor para 1 milhão de pessoas, porque a Kéfera do Youtube ganha mais dinheiro do que o doutor?

Luciano          Você acabou de definir meritocracia.

Raiam            Ah é?

Luciano          É.

Raiam            Eu pensei que meritocracia era aquela coisa de…

Luciano          Não, isso que você vai falar agora aí é uma visão marxista, esquerdopática, jurássica, e ultrapassada, a definição de meritocracia é o seguinte: crie valor para alguém, ponto. Crie valor para alguém, no momento que você criou valor para alguém essa pessoa vai te dar o teu mérito e daí para a frente, meu amigo, vamos lá, por que que o Neymar ganha o salário que ganha? Porque o Neymar cria valor “prá” cacete para o time onde ele está, para quem está assistindo e tudo mais e ele merece, não é porque é … o pessoal mistura tudo, eu estou soltando um e-book agora, eu fiz, 3, 4 programas sobre meritocracia e podcasts, foi uma sequência e transformei isso agora num e-book, logo mais vai estar saindo um e-book  aí que eu desmistifico essa coisa, falo para com esse papo furado aí, meritocracia, eu estou adorando a tua história porque ela realmente é isso, você nasceu e cresceu apoiado nessa questão de que você tem obrigação de ser melhor e ter obrigação de criar valor se você não quer dar valor você não vai ter sucesso, ponto. É muito fácil eu dizer o seguinte, olha não tenho sucesso por culpa do sistema, eu sou preto, eu não consegui porque eu sou preto, estou falando no teu caso, me mandaram embora porque meu sotaque é carioca, porque pobre de mim, é muito fácil fazer isso, é muito fácil botar no sistema, trazer para dentro de si e fazer o que fizeram lá em Wharton com você, senta aí e me escreve um texto dizendo porque você é foda, logo que nós abrimos aqui você citou o Simon…

Raiam            “Start with why… Simon Sinek

Luciano          Simon Sinek criou aquela história do círculo dourado, golden circle e o golden circle nada mais é do que exatamente isso, o que que é? Para de olhar para fora e dizer como é que o mundo me provoca minhas ações e olha para dentro de você e fala como é que eu posso provocar as ações no mundo, ele prega essa inversão no Golden circle, de dentro para fora e não de fora para dentro, se você pegar isso aí e levar para entender o mundo você vai ver que uma visão é a visão do socialista, a outra visão é do liberal, de dentro para fora e de fora para dentro, isso não tem mais fim essa história toda. E o que eu aprendo dessa tua história toda é que você entendeu isso muito bem, talvez até inconscientemente você está levando isso…

Raiam            Conscientemente?

Luciano          … não, inconscientemente talvez até porque a carga que você teve, você não tinha outra opção, teu pai te obrigava a ser assim, você foi para lá, você entrou num negócio altamente competitivo, entrou num cenário que se não fosse assim não tinha outra forma de ter sucesso, e o teu jeito de ser, então eu serei competitivo até o último dia da minha vida, não é porque alguém me pediu para ser porque essa é a água  que eu sei nadar, é nesse ambiente que eu funcionei. Como é que você lida com… tem muita gente com inveja, não tem não?

Raiam            Ah com certeza, pessoal das antigas assim, aquela coisa, ele saiu do mesmo lugar onde eu sai e chegou onde chegou, tem muita inveja, e tem aquela coisa também, é aquela eu botei um post no meu site há um tempo, também viralizou e chamou atenção do juiz Joaquim Barbosa que virou meu mentor hoje em dia  e foi um posto chamado “Preto vítima, eu não” e é exatamente o que você falou da meritocracia de ah não, o sistema me deixou numa situação negativa e o principal, a conclusão do post é a seguinte, arrogância positiva é bom, você pega todos os grandes negros da história, Mohamed Ali, arrogante “prá” caraca, i’m the best, Barac Obama, na campanha ele era o cara arrogante, Michael Jordan, arrogante, Denzel arrogante, assim mas é uma arrogância como mecanismo de defesa porque a sociedade inteira quer botar o cara para baixo e ele precisa daquele mecanismo para dizer não, pau na mesa, eu estou aqui, o próprio Joaquim Barbosa, no supremo, ele era assim, então eu peguei, se os caras como eu tem essa característica e assim, a principal crítica que eu recebo de invejoso, o cara é arrogante “prá” caramba, hoje em dia eu interpreto como, quase que um elogia, porque é uma característica minha, eu estou sendo autêntico comigo mesmo, assim, aquela coisa que você falou da Bel Pesce, Bel Pesce é uma mulher foda, ela é sinistra, ela é muito top, mas ela criou uma imagem que não precisava criar, entendeu? Ela já era muito top ali. Meu caso é o seguinte é meio que o caminho oposto, todos os meus moles estão a público, a pessoa pode procurar qualquer coisa, todas as merdas que eu fiz na vida estão em público e eu consigo, é um passo mais devagar, não estou comprando minha autoridade, eu vou crescendo a passos devagar, passos devagar… passos lentos, mas o ponto chave é a autenticidade, eu não boto uma máscara, eu sou assim, eu escrevo do jeito que eu falo, se tem palavrão, tem, se for para xingar o leitor eu xingo e ponto  final e eu sei que é aquela coisa, de entrevista de trabalho, quando você tem que botar uma poker face na entrevista de trabalho para conseguir aquele emprego, é o emprego não é para você, você vai se ferrar dentro daquele escritório, para sempre, vai ser infeliz.

Luciano          Você sabe que é uma coisa interessante que eu tenho notado também, me parece que esse mundo todo, se você juntar tecnologia, globalização, todas essas mudanças que aconteceram, as quebradas de cara que a gente deu ao longo do tempo aí com todas essas teorias de administração que empurraram o mundo para o caminho que a gente chegou hoje aqui, pintou uma carência por autenticidade, acho que a grande culpa disso também é a forma como a propaganda se levantou no mundo e tudo mais, criou-se uma carência por autenticidade que é um negócio que hoje o pessoal valoriza demais e eu em 2014, em janeiro de 2014 eu entrei no ano, dia primeiro de janeiro de 2014 eu tinha 12 mil curtidores no meu Facebook e a minha página era feita, tinha uma empresa contratada para mim que fazia, botava meus posts lá, eu botava alguma coisinha, não mexia muito, tinha 12 mil, dia primeiro de janeiro de 2014 me deu um estalo, eu não me lembro porque, não lembro de onde, mas eu falei eu vou a partir de agora vou eu fazer essa página aqui  e serei eu que estarei aqui na página, não tem mais ninguém…

Raiam            Uma assessoria.

Luciano          … bom, entrei, primeiro de janeiro eu comecei, agora sou eu e comecei a botar minha opinião e tudo mais e tomei uma decisão que para mim foi uma das mais acertadas da minha vida, a partir desse momento aqui eu vou me situar no espectro político brasileiro, eu vou dizer aonde eu estou, eu vou dizer que ideias eu defendo, vou dizer para que lado eu vou e vou dizer o que eu penso das coisas com todas as letras e vou botar minha cara aqui para bater…

Raiam            E vai pagar o preço por isso…

Luciano          … claro…

Raiam            Vai pagar o preço por isso.

Luciano          … sem dúvida nenhuma, bom, eu terminei 2014 com 120 mil seguidores sem comprar, não comprei porra nenhuma, eu  botei lá e a coisa começou a crescer, estou hoje com 201 mil seguidores no Facebook. Alguns posts meus são posts históricos, posts assim que tiveram assim 150 mil…

Raiam            Compartilhamentos.

Luciano          … compartilhamentos e foram posts assim, 30 de setembro de 2014, o nome do post “Em quem eu vou votar para presidente” e ali eu chegava com todas as letras, são esses aqui os candidatos, não voto nesse por causa disso, disso, disso, vou votar nesse aqui por causa disso, disso, disso, claramente, peguei, escrevi um sobre no meu Facebook, se você entrar lá, lá eu digo o seguinte, quem sou eu, aqui eu vim, o que eu defendo e no final  dele eu boto o seguinte, se você leu até aqui, você já entendeu quem sou eu, o meu livro,  o meu penúltimo livro que é o “Me engana que eu gosto”, eu abro o livro falando eu vou dizer para você onde é que eu estou, olha eu acredito nisso, sou contra isso, se você chegou até aqui você já entendeu quem  sou eu, não reclame daqui para a frente, porque você já sabe  qual é minha visão, o que eu estou vendo e eu sou absolutamente transparente, então meu podcast eu faço isso, no meu texto eu faço isso, eu digo em que eu acredito e porque é que eu estou falando aquilo que eu estou falando, não engano ninguém, não jogo para a plateia, ah vou, isentão, não estou em cima do muro, então no momento que eu comecei a fazer isso a coisa extrapolou e aí eu notei que havia essa carência muito grande por autenticidade, então eu não quero mais ouvir neguinho que joga para a plateia, eu quero ouvir quem tem opinião e se você olhar na mídia brasileira, aconteceu um fenômeno interessante, os programas de rádio que explodiram, um deles é o do Reinaldo Azevedo aqui em São Paulo que virou o campeoníssimo de audiência porque tem um maluco que chega lá, abre a boca e fala o que quer e meta a boca e dá nome aos bois e compra briga com todo mundo, ele tem metade das pessoas odiando profundamente, metade das pessoas amando profundamente.

Raiam            Foi por isso que você perguntou da inveja dos haters?

Luciano          Por isso que eu te perguntei, então eu falei, é claro que quando você fala de pagar o preço, eu sei que eu perdi um monte de ouvinte, perdi um monte de leitor que os caras viram, agora esse cara não me serve mais porque ele está defendendo um tipo de ideias que eu não defendo, eu falo bom, desculpe, esse não é leitor para mim, não é ouvinte para mim, estou indo embora, vá, tem mil pessoas que você pode ouvir e por favor, eu quero estar comigo as pessoas que sabem porque estão aqui, sabem oque estão procurando e valorizam o trabalho que eu faço, entendeu? Então para mim o maior orgulho que eu tenho é quando o pessoal me escreve aqui diz o seguinte, não concordo com uma vírgula do que você disse, mas eu não consigo não te ler, porque você me obriga a pensar…

Raiam            Eu faço as pessoas pensarem.

Luciano          … até para ir contra aquilo que você está fazendo, então é o que você está dizendo, essa é a base do que eu comecei lá atrás em 2004, quando eu criei lá a história do vou despocotizar o Brasil, o movimento pela despocotização nacional, eu falei o que eu quero aqui? Eu não quero que me siga, não quero que você acredite, não quero que você ache que eu estou certo ou errado, eu quero o seguinte, pense e tome a sua decisão, para que lado você vai não me interessa, mas pensou? Fez a escolha conscientemente? Entendeu? Usou aquilo que você podia para fazer a escolha, você fez a maior cagada da sua vida conscientemente ou foi vaquinha de presépio? Foi levado para aquilo porque não sabia o que estava pensando e quando isso acontece, para mim é maravilhoso, então quando eu li aquele teu posto lá do porque eu não tenho um milhão de seguidores eu falei queria eu ter escrito isso aí, isso é o que eu tenho falado e escrito há muito tempo, por que que eu não tenho um milhão? Por que eu tenho 200 mil e não tenho 1 milhão? Por que o Café Brasil nunca vai ter 1,5 milhão de downloads? Porque o dia que ele tiver, ele não é mais o que é hoje, ele virou…

Raiam            Verdade, vai ser mainstreaming

Luciano          … ele virou faustão, virou o faustão, eu tenho que agradar a menininha de 15 anos,  a vovó de 95, o cara de executivo, vai ficar tudo na média, vou ter que fazer um…. eu criei a coisa do mínimo divisor comum, qual é o mínimo divisor comum? Ali fica tudo na média, então é vídeo cassetada, vou botar pessoas em situação constrangedora, isso dá audiência, eu não quero isso, eu quero que a pessoa venha aqui porque ela se incomoda, então eu não gosto de ouvir o teu programa por causa dos textos que você usa, você fala muito. Problema seu. Eu não gosto porque você faz textão…

Riam              2000 palavras no mínimo.

Luciano          … não ouvi teu programa porque eu não gosto desse tipo de música. Minha resposta é a seguinte: azar seu, azar seu, eu não vou estar me justificando aqui, se você não ouviu, azar é seu, porque eu sei o que eu fiz, eu sei o que eu escrevi, eu sei o valor que tem e eu dei o melhor de mim e coloquei ali, se você não curtiu, azar seu. Porra, arrogante! Não, eu só estou dizendo o seguinte: você perdeu a chance de encontrar alguma coisa que podia ser boa para você por uma escolha tua, então não serve, não me interessa e estou muito bem com meus poucos seguidores.

Raiam            Nesse sentido a demissão da ESPN foi melhor coisa da minha vida.

Luciano          Eu ia falar isso em algum momento para você, que é aquele momento da história da vaquinha, eu estou a vida inteira, vivo daquela vaquinha até que um dia vem o sábio e empurra vaquinha, a vaquinha morre e aí eu tenho que me virar e a tua história é bem assim, quer dizer, no momento que você, agora tenho que me virar, quebrei o braço, agora vou ter que me virar e esse eu vou ter que me virar que é o momento da reconstrução e da refação e aí que é um negócio muito interessante que é o seguinte: tudo aquilo que você olha e fala o seguinte, pô o cara  passou 10 anos, estudou, fez Wharton, estudou business, o cacete par agora vim ser escritor de motivação? Escritor de auto ajuda, o cara pegou tudo aquilo que ele tinha lá atrás, jogou fora para fazer isso aqui hoje? Não, ele só consegue fazer isso aqui hoje por causa daqueles 10 anos que estão lá atrás, entendeu? É essa história que está lá atrás, tudo aquilo que te construiu é que traz você nessa posição que você está colocando aqui hoje, então eu entendo perfeitamente, não vai dar tempo de você explicar porque que você disse que o teu modelo é o Paulo Coelho que é um cara absolutamente execrado, ele é execrado, mas naquilo que ele se propôs a fazer, ele é um sucesso absoluto, então eu tenho que reconhecer esse cara, entendeu? Eu tenho que reconhecer o Gugu Liberato, o programa que ele faz é uma bosta, eu não assisto aquilo de jeito nenhum, mas o cara está há 30 anos no ar e ele fala para 30 milhões de pessoas, eu não posso desconsiderar que algum talento esse cara tem, eu não posso desconsiderar Wesley Safadão que sobe num palco e canta e que tem 11 milhões de seguidores, é tudo bobajada sim, mas esse cara conseguiu tocar e criar valor para 11 milhões de pessoas…

Raiam            Agrega valor, verdade.

Luciano          … e ele vai fazer um show e cobra 600 paus…

Raiam            600 paus de cachê e nego paga.

Luciano          … e aí?

Raiam            Paga e vai.

Luciano          … e aí? Tem ou não tem um mérito.

Raiam            Tem mérito. Aí é meritocracia que você falou.

Luciano          Exatamente, então você se distanciar disso tudo e falar o seguinte, é tudo lixo, Anitta é uma porcaria, é claro, eu odeio a música que ela está não escuto, a menina está na crista da onda, está ganhando dinheiro de todo lado, alguma coisa ela fez.

Raiam            Ela é inteligente “prá” caralho.

Luciano          E ela acertou um caminho ali, entendeu? Então como é que eu tiro fora todo esse meu preconceito todo e falo deixa eu ver o que essa menina fez para ver o que é que tem ali que pode ser utilizado, entendeu? Será que eu vou conseguir chegar naqueles números dela? Eu acho que eu nunca vou conseguir chegar porque eu não vou me dar, como é que eu vou dizer? Eu não me darei o direito de dançar um funk como ela dança, eu não me daria… até porque ficaria ridículo, eu não vou cantar o tipo de  música que esse cara canta, eu não vou porque eu não me sinto bem fazendo isso, portanto eu não farei para 11 milhões, mas talvez eu faça para 200 mil e consiga fazer que aquilo dê certo. Quem quiser te encontrar vai te encontrar aonde? Vamos lá, vamos ao jabá.

Raiam            Vamos lá, agora é hora do jabá. Primeiro de tudo, boca do funil é o mundoraiam.com onde eu escrevo minhas asneiras e assim…

Luciano          mundoraiam.com

Raiam            … mundoraiam… mundoraiam(pausadamente) é R A I A M .com aí é aquela coisa, eu desconstruo coisas, descontruí o comunismo no meu site, o  artigo mais lido é “não contrate um comunista”, aí eu desconstruo a MBA no exterior, desconstruí o próprio Paulo Coelho, tem um monte de coisa lá que assim, caramba, esse maluco aqui, ele fala umas merdas mas ele me faz pensar, eu tenho… eu já lancei, ó tenho 26, sete livros, aí vamos lá, o primeiro é uma espécie de auto ajuda para vagabundo, o “Hackeando tudo” hackear a própria vida com hábitos, de onde surgiu? O “Poder do hábito” é um dos livros mais vendidos do Brasil, só que o “Poder do hábito” o autor usa 300 páginas para explicar uma coisa que pode ser explicada em 10, eu não gosto disso porque eu preciso otimizar meu tempo, escrevi o livro curto, om a minha linguagem, sucesso de vendas na internet, hoje em dia está sendo distribuído pela Editora Leia nas editoras, segundo livro foi “Ousadia” que é um livro de viagens, eu contando histórias assim do mundo, eu fui para a Palestina, eu invadi a festa do Messi, coisa de zoeira, esse aí é o meu pior livro, “Ousadia”, o terceiro chama-se “Wall Street” que conta realmente essas inseguranças minhas e das pessoas à minha volta dentro do mercado financeiro, tanto no Brasil, tanto nos EUA e o pano de fundo é essa época em que o Brasil era o queridinho dos investidores internacionais, “Wall Street”, todos os livros estão no e-book e no Amazon e o “Wall Street” foi publicado agora pela editora Alto Astral, está em todo o Brasil também. Depois do “Wall Street” eu lancei o livro “Missão Paulo Coelho”, que eu comprei uma passagem para Genebra e eu invadi a casa do Paulo Coelho lá e arrumei uma treta com ele, eu fui até Genebra, eu descobri onde ele morava por causa de um vídeo da Ana Maria Braga e esse livro tem uma pegada mais motivacional de auto-conhecimento também, não é só uma zoeira de eu invadi a casa  do Paulo Coelho e ele está puto comigo, não, o spoiler é o seguinte, eu sou o maior fã dele no mundo só que eu odeio todos os livros dele, aí beleza, eu gosto de um que é o “Manual do guerreiro da luz”, depois “Classe econômica” que é uma série que mistura macroeconomia, turismo de baixo custo e geopolítica, “Classe Econômica” o primeiro capítulo do “Classe econômica” foi Europa comunista, qual é a ideia do Europa Comunista? O Brasil a gente acabou de sofrer o impeachment, saíram os comunistas do PT, para mim é tudo a mesma coisa, socialista e comunista é tudo a mesma coisa, saiu o comunista e está passando uma transição, uma transição, aí beleza, aquela coisa de benchmark, aquela coisa de hackear os outros que países do mundo passaram por uma transição parecida, uma transição tanto política quanto econômica, quanto de mentalidade, o que é que eu fiz? Fui para os países dos Balcãs no leste europeu ver o que aconteceu lá, então foram 10 dias, um dia em cada país diferente, eu fui na Bósnia, no Kosovo, na Sérvia, na Croácia, na Macedônia, um monte de  país e a conclusão é a seguinte: o comunismo deixou muito mais que um problema político, um problema de mentalidade das pessoas porque a geração mais velha, a geração dos pais é assim, tudo escrito para geração Y, a geração  dos pais é aquela nostálgica, nossa vida era muito melhor na  época do comunismo porque primeiro, a Iugoslávia, grande Iugoslávia era uma potência mundial, então eles tinham, todo mundo tinha…

Luciano          Orgulho do futebol, orgulho do basquete.

Raiam            … basquete, você manja então…

Luciano          Sim.

Raiam            … basquete, futebol, tinha comida para todo mundo, tinha emprego, tinha e todo mundo tinha férias na costa da Croácia, o governo pagava férias na costa da Croácia para todo mundo e tinha emprego, tinha tudo, do nada o comunismo caiu, o que aconteceu? Guerra, guerra, então é aquela coisa mano, eu acabei tipo eu sou anticomunista total, mas eu tive que dar um passo atrás por quê? Acabou o comunismo que era paz e o negócio acabou e ficou meio à deriva e as tribos do lugar, o bósnio queria matar o sérvio, o croata queria matar o sérvio e o macedônio também e a porrada comeu.

Luciano          E quem como todo brasileiro, todo brasileiro jamais viveu o que se passou ali que é o teu inimigo, o teu vizinho querer te matar, não faz a menor ideia do que é aquilo lá, eu fiz um post hoje, fiz um post hoje que vai ao ar dia 2 de fevereiro agora, dia 2 de fevereiro de 1943 terminou a batalha de Stalingrado e eu fiz um post pequenininho,  dia 2  de fevereiro de 43 acabou a batalha de Stalingrado, foi uma batalha em que os alemães tentaram invadir ali a União Soviética, ali teve a encrenca, eles lutaram contra os soviéticos e contra o frio e ali eles perderam a guerra  e fui quando começou a derrocada alemã foi ali naquela batalha e morreram entre uma e meia a dois milhões de pessoas, eu falo, então eu vou repetir para vocês, eu estou dizendo que aquilo foi um ano e pouco de batalha onde morreram 2 milhões de pessoas e ilustro o posto com uma foto das pilhas de cadáveres alemães ao longo do negócio lá e falo o seguinte, estou relembrando essa história aqui porque a gente não pode perder a perspectiva do que é uma guerra, entendeu? E nenhum brasileiro sabe o que é nós não temos a menor ideia do que é guerra, entendeu? E quando você pega um país como aquele que foi quebrado ao meio e foi uma coisa de ódio, aquele negócio de ódio de um lado exterminar o outro que nem Ruanda, um lado exterminando o outro, isso ai… pô.

Raiam            Mas so que anteontem vocês eram amigos, do nada o país teve a secessão e agora você vai querer matar o cara que mora do lado.

Luciano          Vamos guardar as proporções e você vê o que aconteceu com o Brasil  nos  últimos anos quando o Brasil foi se polarizando, então tem uma boa…. que é numa boa, nós estamos discutindo aqui, de repente no ano passado, eu deixei de sair com um amigo meu porque eu não suportava a conversa dele, então  eu me privo agora do chopp tão legal que a gente tomava porque ele pensa uma coisa e eu penso a outra…

Raiam            Isso é fichinha, você não perdeu sua vida.

Luciano          … pois é, mas é,… guarda as proporções, é assim que começa, começa com a polarização, então olha, você está com uma camisa  do São Paulo, eu estou com a do Corinthians, se eu estiver em 10 eu te encho de porrada, entendeu? O que é isso? Então como é que se explica? Imagine que isso ao cubo dá em Kosovo, dá naquela confusão toda lá.

Raiam            Exatamente…

Luciano          Como é que chama esse livro ai?

Raiam            … o nome é “Classe econômica Europa comunista”, é o número 1 da “Classe Econômica”,  o próximo vai ser Sudeste Asiático, o tema da modernidade, depois micropaíses e por aí vai. Depois do “Classe Econômica Europa Comunista” veio o livro “Imigrante Legal” que é sobre essa história que eu contei no começo do podcast mas muito mais sobre o estilo de vida do afro-americano, o que é ser negro no Brasil x ser negro nos EUA, quais são os costumes dos caras e porque eles conseguiram tanto a mais do que o negro brasileiro ao longo dos anos, pano de fundo é só essa minha história nessa escola segregada racialmente dividida entre brancos, hispânicos e negros e eu bem ali no meio nesse fogo cruzado estudando as relações raciais e eu era de uma, as duas famílias que eu tive negras, então aprendi os valores da sociedade negra americana, esse aí é o “Imigrante Legal” e por último foi uma coprodução minha com o Rafael Coelho que é “Arábia, a história de um brasileiro no Oriente Médio”, é um amigo meu, sentei para escrever o livro com ele, ele ganhou um bolsa para fazer um mestrado na Universidade do Rei Abdula na Arábia Saudita, na época em que o Estado Islâmico estava crescendo no mundo, então ele foi para a Síria, ele conta mais, ele meio desmistifica a cultura árabe porque ele morou, viveu aquilo ali e desmistifica, mostra para o povão que é meu público, o povão porque os árabes são assim e uma frase engraçada do livro é assim; “é mais fácil ser gay do que ser hétero na Arábia”, por causa da divisão entre homem e mulher, os homens se tocam muito e tem coisa homossexual “pra” caramba na Arábia Saudita porque o governo, a lei, porque assim, a principal característica é a seguinte: lá não tem constituição, a lei é lei de Deus, é o Alcorão e ele viajou pela Síria, pela Jordânia, os países, ele compara um país para o outro, pô a Arábia Saudita é o pior de todos em termos de linha dura, o Líbano é o melhor e a Síria estava ruindo e porque ele quase foi executado na Síria, aí tem umas coisas assim que ele conta e é sensacional, tem essa pegada, são 7 livros, já fiz meu jabá, “tamo junto”.

Luciano          Repete de novo o site é o?

Raiam            mundoraiam.com

Luciano          mundoraiam

Raiam            É o meu mundo que eu escrevo sobre o mundo, é o meu mundo.

Luciano          E no Facebook você está como no Facebook?

Raiam            Meu Facebook é Raiam dos Santos, R A I A M dos Santos.

Luciano          Perfeito. Meu amigo!

Raiam            Obrigado pelo tempo que você me deu aqui, você escutou muito mais do que falou…

Luciano          Mas eu escutei porque você tem história para contar, tem café no bule eu tenho que ouvir aqui e ficar na minha quietinho. Mas teve um momento aqui que eu soltei o bicho aqui, mas é assim que funciona, quando vem alguém com uma história rica como a sua a gente tem que deixar rolar porque tem muita gente que vai pegar muito insight do que você falou ai, boa sorte, continue em frente, não perca jamais essa tua arrogância…

Raiam            Aarrogância positiva.

Luciano          … essa tua arrogância positiva porque ela que mantem essa autenticidade e fica transparente, deixa as pessoas saber a que veio, porque veio, porque ai, como é que meu avô dizia, o que é combinado não tem preço.

Raiam            “Tamo junto”, obrigado.

 

Transcrição: Mari Camargo