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Ciça Camargo -

Luciano          Eu trouxe aqui hoje uma daquelas vozes que caminham com a gente pela vida, um sujeito que eu ouvi durante muito tempo na rádio, sempre admirei e quis o destino que eu acabasse o conhecendo pessoalmente, numas situações bem legais, que a gente quando se encontrou sempre foi para produzir alguma coisa legal, sempre num evento interessante e aí dei certo, de eu trazê-lo até aqui, então hoje eu vou começar com aquelas três perguntas fundamentais e que exigem muito raciocínio para responder.  Quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Adalberto       Eu sou Adalberto Piotto, tenho 44 anos, já passei dos 40, isso é prova indefectível de que passei dos 40 e sou hoje um diretor de documentários, produtor de documentários, além de tudo jornalista.

Luciano          E um estudante, achei isso genial o dia que eu li, você fala: o que você faz? Eu estudo o jeito de ser do brasileiro.

Adalberto       Eu sou um dedicado estudioso da sociedade brasileira, um observador atento, verdadeiramente faço isso, percebi recentemente que faço isso, Luciano, acho que desde quando me entendo por gente, eu me lembro de coisas e comportamentos que eu observava e não só o comportamento da sua tia, do seu tio, não somente essa coisa do particular das pessoas, mas quando elas estavam interagindo com o público, com qualquer coisa pública, com o público de pessoas e com as coisas que são públicas, desde moleque assim, como é que as pessoas paravam, se chutavam a placa ou não, se xingavam a sinalização ou não, se passavam na faixa de segurança ou não, desde quando moleque, eu agora me dei conta que faço isso, isso revela uma tentativa de tentar entender onde você vive, o lugar onde você vive, com quem você vive, com as pessoas que você vive e o comportamento médio coletivo, eu sempre uso para poder definir coisas no Brasil. E digo que a média brasileira pensa assim e a média brasileira, a média é a média dos ricos, a média dos médios e a média dos pobres, a médias dos néo ricos, dos velhos ricos, dos néo pobres, dos meio pobres, da nova classe média, da velha classe média, a média é a média, a média é média, você está pegando a média daquele grupo e a média brasileira é muito igual, no raciocínio, se você pegar a média dos ricos, ela pensa da mesma forma que a média dos pobres, que a média de classe média. É incrível como isso é latente na sociedade brasileira, quando as pessoas reclamam do Brasil, eu me lembro de uma vez que alguém fez essa reclamação, eu falei assim: escuta, o Brasil é um ser inanimado, o Brasil é uma pedra, a mesma coisa, o que faz o Brasil ter movimento são os brasileiros, então são os brasileiros isso ou aquilo, claro que o Brasil é o coletivo dos brasileiros e do ponto de vista retórico, você ao falar Brasil, está se referindo aos brasileiros, mas eu preciso que as pessoas nunca esqueçam que elas estão falando dos brasileiros e não raro o que as pessoas dizem? Ah o Brasil como se isso não fosse elas. Desculpa, me perdoe mas é você também. Talvez você não faça parte dessa média, nesse comportamento, mas em algum momento você faz parte de alguma média brasileira, da média de alguma conduta, da média de algum discurso, de alguma retórica, de algum jeito de ser, de alguma forma de agir. Isso é muito claro. Quando eu me dei conta, tempos atrás, que eu fazia essa observação, porque as pessoas, ah mas eu nunca tinha pensado nisso, nossa, olha que coisa interessante que você disse, eu falei assim: tá, eu estou falando uma obviedade para mim, porque isso me era comum, eu olhava aquilo há muito tempo, eu via aquilo há muito tempo, desde me menino, por exemplo, comportamento em relação ao trânsito, comportamento, por exemplo, numa fila, num elevador, aliás eu preciso fazer um parêntesis, porque a história do elevador é a história mais cara para mim que existe: eu contei isso uma vez na CBN ao vivo, porque eu não resisti, naquele dia de manhã, isso foi mais ou menos acho que 2009 ou 2010, alguma coisa assim, eu fui num daqueles robocops aqui da Berrini sabe? Aqueles prédios modernésimos que tem ali e tinha um prédio que você entrava no elevador, você tinha que falar assim: “terceiro andar” e o prédio reconhecia, aparecia no três, você podia anular ou não no botão, mas eu não, ninguém me falou, era um prédio muito moderno para mim, coisa muito moderna você leva um tempo para entender e eu entrei, cadê a botoeira, ninguém me falou nada, era um gigante, até voltar na recepção, eu vi umas pessoas vindo eu saí, vou entrar e vou ver o que acontece, você faz por experimentação, não faz? Aí as pessoas entraram e quarto, décimo segundo, vigésimo, eu falei opa, já entendi, saquei rapidinho e eu sétimo andar e bom dia, ninguém respondeu, o elevador me levou ao sétimo andar como eu tinha pedido, mas ninguém me respondeu bom dia, eu falei assim para tudo que o mundo está errado, não é possível que as pessoas não falem bom dia umas para as outras, elas falam com a máquina, a máquina entende, esse mundo virtual está esquisito, você tem um companheiro virtual, quem? O elevador. E as pessoas não falavam bom dia, eu não estou reclamando, eu me lembro que o meu avô Ângelo, materno, ele, de uma outra geração, ele ficava passado quando ele cumprimentava uma pessoa na rua e a pessoa não respondia, como assim não  respondeu? Um absurdo, uma coisa tão simples, não tira pedaço. Eu falava vô, sabe como é que é, eu era moleque, fiquei muito com meu avô, pô vô, não adianta, a pessoa está com pressa, aquela coisa, uma nova geração tentando achar respostas e você é jovem você também não  estava muito preocupado se o cara respondeu ou não respondeu. Nessa no elevador me lembrei rapidamente dessa história, falei, como é que as pessoas não falam bom dia, porque não fala bom dia, boa tarde, boa noite, até mais? Pronto, acabou…

Luciano          Não custa nada

Adalberto       … e é uma coisa simples porque melhora o ambiente naturalmente…

Luciano          Claro, fazer um contato, você estabelece um contato com a pessoa…

Adalberto       … estabelece um contato, exatamente e o contato pode seguir adiante ou não, pode ser que gera alguma outra conversa ou não, pronto, acabou, mas as pessoas…. Essa do elevador foi a coisa mais fantástica que eu passei.

Luciano          É possível conversar com ele… nós estamos caminhando para isso aí, daqui a pouco você vai ter um amigo robô que é muito mais legal que muito amigo…

Adalberto       Alguém não vai gostar do que eu vou dizer agora, mas eu não vou resistir, não posso resistir: a espécie humana não pode se tolher em falar as coisas que pensa, desde que elas tenham pensado de verdade aquilo que elas vão falar, porque se não fala-se muita bobagem, mas enfim, eu estou impressionado. Eu queria saber quanto de música as pessoas ouvem, porque está todo mundo com esse fonezinho no ouvido, esses dias eu estava no ônibus, entrei no ônibus, eu estava indo para a Jovem Pan, esses dias não, foi 2014, na eleição que eu cobri a eleição pela Jovem Pan, aí eu pegava um ônibus, todo dia de manhã, primeiro que eu tive que convencer os meus colegas da Jovem Pan que eu ia de ônibus, falei pô, por que eu vou vir da Paulista  de carro? É um negócio infernal vir de carro aqui, pego um ônibus, passa a um quarteirão e meio da minha casa, o ônibus é bom, “tá” tudo bem. Aí tinha um moleque ali que pegou, estava com um fone de ouvido, aí foi passar no cobrador, o cobrador aquele sujeito meio matreiro também, não era um santo, mas nessa hora ele tinha razão e ele fez uma piada com o moleque e o moleque não entendeu, uma piada tipo assim, pô vai chover hoje, alguma coisa assim, uma bobagem dessas assim, o moleque, claro, com o fone de ouvido não entendeu, aí ele deu o dinheiro, não estava naquele cartãozinho, pagou no dinheiro, ai o sujeito perguntou, e eu na fila, imediatamente após esse rapaz, um menino em idade de cursinho assim, estava indo para aquele cursinho Objetivo que tem na Paulista, desce no mesmo ponto que eu, inclusive, desceria no mesmo ponto que eu. Aí esse o cobrador falou assim, tem 20 centavos, ou 30 centavos, alguma coisa para facilitar o troco? E ele não respondeu, 20 centavos, você tem? E já não era mais a brincadeira. Que ele fazia com quase todo mundo, esse cobrador, porque ele passa o mesmo ônibus todo dia, o mesmo cara, você começa a se familiarizar com o motorista e o cobrador, e o moleque escuta, dá para você tirar o fone? E ele: hã? E nada de… Tira o fone. Hã? Eu falei escuta irmão, puxei o fone dele, ele está querendo perguntar se você tem 20, 30 centavos, uma coisa ai. Ah eu não estava ouvindo. Claro que você não estava ouvindo. Mas é muita música, o que as pessoas ouvem tanto, rapaz?

Luciano          Tomara que seja podcast, viu, se for o podcast melhor.

Adalberto       Se for o podcast tudo bem, mas o podcast acaba uma hora, eles ficam 24 horas ouvindo.

Luciano          Se for o Café Brasil dá, porque tem 500 episódios. Grande Piotto, deixa  eu buscar um pouquinho da tua…

Adalberto       Eu sai falando…

Luciano          Mas faz parte, aqui…

Adalberto       Você me disse que era assim, não era?

Luciano          Aqui é assim.

Adalberto       “Tá” bom, nosso ouvinte nos perdoará, por isso.

Luciano          Não faz mal, enquanto tiver conteúdo legal eles perdoam bastante. Me fala uma coisa, me dá a tua origem, você vem de onde? Nasceu em São Paulo? Estudou o que?

Adalberto       Eu sou caipira e adoro dizer isso porque há uma forma equivocada que as pessoas se referem a caipira. O caipira é caipira, tosco é tosco e tosco pode nascer na Vieira Souto, pode nascer nos Jardins, pode nascer na avenida Beira Mar, qualquer uma dessas, caipira é um sujeito que nasce no interior e que gosta daquilo, que está mais associado ao campo do que propriamente ao mar, embora eu, aos 18 anos, fui à marinha e não fui ao exército, porque eu queria ir para a marinha porque eu gosto da marinha e queria ter uma experiência de serviço militar que na verdade acabou sendo uma escola de aprendizes marinheiros porque eu tinha que esperar mais tempo e eu tenho pressa, eu não queria esperar, então eu fiz um concurso, passei, entrei, fiquei lá o tempo que eu queria, passei no jornalismo, sai da marinha e segui minha vida. Mas tive uma experiência…

Luciano          Caipira de onde?

Adalberto       Eu sou caipira de Rio das Pedras.

Luciano          Rio das Pedras?

Adalberto       É uma cidade com… o IBGE, num dia de boa vontade do IBGE dá uns 30 mil habitantes. Trinta e poucos, ou 25, alguma coisa nesse gênero…

Luciano          E hoje é famosa pelo Mediterranée

Adalberto       Não, essa aqui é do lado de Piracicaba. Essa Rio das Pedras é mais chique, a minha é lá do sertão mesmo.

Luciano          De porta e porco mesmo.

Adalberto       Do lado de Piracaba. Eu estava lá esse final de semana inclusive.

Luciano          Sou de Bauru, viu?

Adalberto       Bom, então nós “tamo” no sertão aqui, que é uma maravilha e é uma cidade que é uma ilha num mar de cana, porque ali toda a produção, que já foi do café no passado, ainda tem alguma coisa de café, mas a maior parte é de cana de açúcar, as usinas representaram a dor e a delícia de  ser quem somos porque, claro, alavancaram a economia, mas uma usina de cana de açúcar tem sempre um problema, porque cana, quando se queimava, gerava aquela… o que a gente chamava de cisco, mas isso tem um outro nome, carvãozinho, sei lá o nome disso, que caía, sujava e aquele trânsito de caminhões, não era tão regulamentado como é hoje, hoje é muito melhor, mas você mora numa plantação, ao redor de uma plantação de cana e cana, depois quando você corta cana, fica aquela terra, venta, seco, às vezes o ar está mais seco lá do que em São Paulo, às vezes o ar de São Paulo é melhor que o do interior, por incrível que pareça, dada essa produção de cana, que hoje é muito melhor, hoje é muito mais regulamentada, essas coisas todas, mas sofreu muito isso. Agora, se esse país pode dizer ao mundo que tem etanol, que tem um combustível mais limpo, esse país precisa agradecer ao interior dele, é o interior que garante essa imagem positiva do Brasil e essa coisa que eu acho que a  cidade grande São Paulo muito menos, porque São Paulo é um lugar feito de gente de qualquer lugar do mundo, então cidades cosmopolitas são extremamente abertas, aliás só tem uma cidade cosmopolita nesse país, eu diria que só tem uma cidade cosmopolita na América Latina inteira, que é São Paulo, as outras todas, até porque o estilo espanhol de ser, que fez, por exemplo, a cidade do México, Buenos Aires e por aí vai, é uma coisa muito mais arraigada do que o que os portugueses nos deixaram e eu acho que nós criticamos demais os ortugueses ás vezes, acho que há um exagero na crítica. Os portugueses chegaram aqui em 1500, nós estamos em 2016…

Luciano          E eles tem uma resposta deliciosa para quem..

Adalberto       Verdade, quando criticamos?

Luciano          Mas a resposta deles é deliciosa, eles falam assim: quando nós saímos daí o Rio de Janeiro era maior que Nova York, quando nós saímos dai Rio de Janeiro era maior e maior importante que Nova York, hoje olha o que aconteceu, o que aconteceu depois nós não temos…. Ontem eu fiz um post, aliás, Portugal ganhou a copa da UEFA, mas assim, terminou o jogo eu bati uma foto deliciosa deles levantando a taça, botei Parabéns Portugal, nós Brasileiros estamos torcendo por vocês, tomara que a gente aprenda com vocês e publiquei ali, deu 2000 compartilhamentos mas deu dois minutos para começar a entrar comentário assim: muito bem, agora devolve o nosso ouro, sabe assim, agora devolve nosso ouro, devolve o que vocês roubaram, não sei o que. O Brasil tem um lance aí de voltar no tempo e trazer de volta coisas que já tem 100, 200, 300, 400 anos e a gente não se liberta do passado, parece que…

Adalberto       Nós temos duas manias, dentro dessa lógica, agora vamos para uma coisa mais sofisticada de observação da sociedade brasileira, nós temos um problema com o passado, isso é notório e são dois os problemas: a gente é divorciado do nosso passado, o que é uma estupidez gigantesca porque não existe presente sem passado, é uma questão semântica, por sinal não é uma novidade, de novo não estou contanto uma novidade aqui. E segundo, a gente tem a mania de culpar o passado por tudo. Eu não sei o que é pior, o divórcio ou a mania de culpar o passado, mas o problema está no passado e se a gente não resolve isso daí, quando eu fui fazer o filme do Orgulho de ser brasileiro, a razão de me chamar de documentarista é essa, claro que eu fiz outras coisas, mas esse foi o primeiro longa metragem, eu queria pegar todos esses assuntos que a gente costuma pôr, como culpar, ah porque nós tivemos a coisa… nós somos uma civilização católica, ah porque a culpa é do catolicismo. Aí está lá o ex presidente Fernando Henrique Cardoso, insuspeito para falar do assunto dizendo assim, não, espera aí, não bota a culpa na igreja católica, tem religião que é muito pior, não, que nada, nós tivemos alternativa e outra, a religiosidade brasileira ela é muito sincrética, ou seja, tem muito sincretismo na história, ou seja, o sujeito segue essa parte, a outra parte ele não segue, não dá para culpar, nós não somos radicais católicos, então nunca fomos, diga-se de passagem. Em algum momento o sujeito lá ia na missa, depois fazia lá, tomava um passe aqui ou ali, rezava para não sei o que, jogava carta para descobrir como é que ia ser o futuro, ou seja, não é esse o problema e tinha todas aquelas outras discussões, ah o problema são os portugueses,  ah o problema foram dos ingleses depois, depois foram dos americanos, depois foram dos alemães que venderam aquela sucata para fazer Angra I, tudo bem, mas quem…

Luciano          A mistura de índio vagabundo com negro ignorante, com português aproveitador que…

Adalberto       … que é das coisas mais estúpidas…

Luciano          … que só fala do lado ruim, é uma mistura de coisa ruim, quer dizer, a raça brasileira,  se é que existe uma raça  brasileira, é resultado de uma mistura dos defeitos de todas as coisas que a formaram, isso é um absurdo, que se você olhar, todo mundo tem defeitos e tem uma série de qualidades, eu prefiro entender a raça brasileira como mistura das coisas legais que cada uma dela tem e…

Adalberto       … mas porque elas existem, agora, se você olhar para o defeito, você encontra, dr. Adib Jatene que dizia, se você quer achar defeito no país você encontra, agora, se você não quiser achar o defeito, quiser achar as coisas boas, também encontra, por que você tem toda hora? Mas isso que eu estou dizendo, há um discurso no Brasil, na média do brasileiro, a média de novo vou falar da média, que ele precisa de uma desculpa  para justificar o presente incompetente dele, a inanição dele por desejo de fazer a coisa certa, a incapacidade dele de se expor verdadeiramente, de expor a sua brasilidade, de se expor na sociedade, então é fácil, eu dou a desculpa… sabe como é que chama isso no cinema? Chama-se “coitadismo”, essa é a coisa da  sociologia e o cinema pegou um jeito de por o coitadismo, ganha-se o nome de favela move, um filme de miséria brasileira tem aceitação automática pelos críticos…

Luciano          No mundo inteiro.

Adalberto       … você não precisa… aqui no Brasil um filme de como os americanos tem loosers e winers, aquela coisa de um filme de ganhador aqui no Brasil, de coisa que deu certo não pega bem, pô não, espera aí, aqui está dando certo, mas olha aquela merda ali, mas escuta, espera um pouquinho, então vamos pegar o que deu certo aqui, vamos levar para lá, o objetivo é resolver o problema ou lamentar o problema? Porque me parece e eu estou convicto disso, na verdade, eu estou dizendo, me parece uma forma muito elegante mas eu estou convicto que as pessoas gostam da desgraça porque a desculpa está pronta…

Luciano          E porque ver alguém mais desgraçado que eu, de certa maneira me alivia um pouco, porque pô, é aquela…. você vai contar, pô, fui roubado e o cara ah, mas eu fui mais que você. Pô, fulano está doente. Não, o outro está muito pior. Parece que é um mecanismo de compensação. Deixa eu só, não quero perder a dica que você deu aí, esse negócio do cinema brasileiro ele é tão maluco que um dos maiores sucessos do cinema nacional e se você for enumerar, todos eles são coisas de tragédia, de briga, de pobre etc e tal, mas um dos maiores sucessos é “Os dois filhos de Francisco”, que é um filme belíssimo, o filme é um barato, o filme é legal, trata muito dessa coisa da brasilidade e tudo e o filme se desenrola durante quase duas horas mostrando o calvário que foi os moleques conseguirem fazer sucesso, a hora que o moleque faz sucesso acaba o filme, o filme termina na hora que deu certo, ou seja, ele traz a tragédia da vida dos caras e fez um baita sucesso porque é uma história de tragédia até o cara dar certo,  quando dá certo acaba e aí não tem mais um filme que mostre, olha  o cara que deu certo, a coisa do lado bom, porque é que funcionou.

Adalberto       Olha o cara vivendo bem agora.

Luciano          Pô.

Adalbert         Fruto de esforço dele.

Luciano          Que esforço, esse é coxinha…

Adalberto       Ah esse é coxinha?

Luciano          É, virou coxinha, só quer saber da vida dele e ele é rico porque tem um monte de pobre sustentando ele, ai meu Deus do céu. Vem cá, mas, deixa eu voltar ali, você foi estudar o quê? O que você fez? Quando você era moleque, você queria ser o que quando crescesse?

Adalberto       Ih rapaz, a história é longa, eu vou resumir. Vou resumir. Quando eu tinha 14 anos eu estava, digamos, inquieto na escola, eu ia para a escola como todo mundo, voltava da escola, mas eu estava inquieto, só isso estava me incomodando, aí na metade da oitava série, primeiro que eu mudava de escola, chegava um momento que eu estava achando que aquela escola…. Eu mudava, eu mesmo ia lá, fazia lá e levava para a minha mãe, minha mãe assinava, esse negócio não tem que ficar a vida inteira num lugar, ué, vai buscando coisas novas. É um pouco da inquietude. Bom, na metade da minha oitava série eu falei assim, hum, esse negócio está meio pacato, preciso fazer alguma coisa, estou querendo aprender algumas coisas novas, fui me inscrevi no vestibulinho, que era o nome, sei lá o que, um processo de seleção da Escola SENAI Mário Dedini em Piracicaba, fui lá e cursei, durante um ano e meio, mecânica geral e aí continuei o curso à noite, o curso regular da oitava série porque naquela época o SENAI, o curso técnico não equivalia à escola convencional. Me mantive lá, aí quando terminei o SENAI, eu prestei para o colégio técnico industrial de Piracicaba e fui fazer técnica e mecânica industrial, eu fui  registrado no CREA, diga-se de passagem, trabalhei na Caterpilar do Brasil que me contratou, a Caterpilar pegava uns alunos e fazia seleção, eu fui indicado por um professor e passei na entrevista e era o que eles chamavam de aluno aprendiz, nas férias do SENAI você tinha que ir lá na empresa, fazendo evidentemente atividades recomendadas para alguém que era menor de idade, essas coisas todas, quando você se formava você via, você não podia fazer hora extra, essas coisas todas, para não ter exploração, mas você era um funcionário do mesmo jeito, era a lei do aprendiz na época. Quando… aí chegou uma hora assim que no último ano do meu colégio técnico eu falei bom, já fiz tudo isso, preciso fazer outra coisa, pô vou para a marinha, aí queria fazer serviço militar, mas como eu completo 18 anos em abril, completaria 18 anos em abril, eu faço aniversário em abril e naquele ano, 1990, eu completei 18 anos em abril e você faria serviço militar no ano seguinte ao que você completou 18 anos, eu só faria em 91, isso para mim não me interessava, era muito tempo esperando, porque eu terminei meu curso em 89, eu ia ficar um ano… não, o que que eu fiz? Peguei e entrei na marinha, entrei na marinha, no segundo semestre, exatamente e fiquei lá, quando deu fevereiro, vim de férias para a casa, estava tendo vestibular na Universidade Metodista de Piracicaba, fui lá, prestei para jornalismo, passei, minha mãe ó, passou, você precisa decidir o que você vai fazer. Falei ah é? Bom, dei baixa na marinha, tinha tido a experiência que eu queria na escola de aprendiz marinheiro de Santa Catarina, em Florianópolis…

Luciano          De onde vem essa coisa de jornalismo? Por que jornalismo? Por quê?

Adalberto       … não, o jornalismo foi… eu sempre gostei muito de história e sempre gostei muito de política, meu pai é muito politizado, meu pai fez lá as coisas que ele tinha que fazer na época da ditadora militar, como liderar uma greve de piquete nas indústrias home lá em Santa Bárbara D’Oeste, tudo ali no interior, tudo na região de Piracicaba e sempre foi muito politizado e eu conheci o Ulisses Guimarães aos 14 anos, eu abri o jornal de Piracicaba e o Ulisses Guimarães ia fazer campanha para deputado constituinte para um amigo deputado dele lá que já vou me lembrar logo o nome dele, eu falei para o meu pai, pô pai, quero ir lá conhecer o doutor Ulisses, doutor Ulisses, aos 14 anos. Aí você imagina só, não sei se eu tinha 14 mesmo, acho que era menos do que 14, bom mas enfim, ou 13 anos, alguma coisa, meu pai falou assim não, tudo bem, vou ligar para o Adilson, o Adilson na época era o prefeito de Piracicaba, meu pai tinha conhecido o Adilson quando ele era só engenheiro de um prédio que o meu pai tinha sido o fornecedor, tinha uma pequena empresa que fazia eletrificação, tinham se conhecido ali no prédio e depois o Adilson seguiu a carreira, ligou e, traz o menino lá, era um outro tempo, doutor Ulisses acabou lá o comício, doutro  Ulisses pegou, desceu, me apresentaram ao doutro Ulisses, doutor Ulisses dedicou a mim longos 3, 4 minutos só a mim, aquele bando de puxa saco querendo tirar foto com o homem e ele só falou comigo e aquelas conversas que você tem com moleque de 13, 14 anos, o que você gosta na escola, menino? Ô, que bom que você veio aqui, a política precisa de gente nova, aquelas coisas todas que se fala para um menino dessa idade. Quando o helicóptero do doutor Ulisses sumiu em Angra, aquilo foi uma perda pessoal para mim, porque eu tinha Ulisses nessa lógica.

Luciano          Deixa eu voltar naquele tempo com ele fazendo uma pergunta aqui, tem todo o sentido. Quantos metros de altura tinha o doutor Ulisses?

Adalberto       Poxa, o homem era alto, rapaz, ele era bem alto.

Luciano          Mas para você como garoto ali devia ter uns 12…

Adalberto       Ele se abaixou para falar comigo né, rapaz, eu já tinha lá meu metro e 73 assim nessa época, mas ele se abaixou para falar comigo e ele foi de uma generosidade, tinha uma gentileza, de uma atenção, não era protocolar, não foi protocolar aquela coisa, ah tem um moleque ai, nada, até porque não era esse mundo de selfie de hoje, tira foto, não, nada, eu tenho isso na minha memória, a conversa sobre isso, estamos para fazer uma nova constituição nesse país, é importante que você participe na escola, fale para os seus colegas, ou seja, coisas que eu chamo de republicanas, de construção de um país, não estou aqui para fazer a baixa políticanão, isso não era o doutor Ulisses, muito pelo contrário, o doutor Ulisses não tem nada a ver com a baixa política, muito pelo contrário. Ulisses, ao lado de Tancredo, um pouco mais nos bastidores, quem deu a cara foi o Ulisses Guimarães, foi o homem da transição, a transição começou com o Ulisses, sem o Ulisses não tinha tido transição, a forma de lidar, porque as  pessoas hoje são ladeadas de liberdade, elas não sabem como foi esse país antes. Aí é que eu digo, as pessoas não tem problema com o passado, chegamos até aqui porque teve gente que superou muita coisa e muita coisa difícil para chegar até aqui, valorize o que você… o que fizeram por você, valorize o que você fez por você lá atrás, comece a dar  valor ao seu passado porque sem ele você sequer existiria, é uma coisa,  parece auto ajuda essas coisas, não é nada, até porque eu não tenho nenhum problema com auto ajuda nada, eu só tenho problema quando ela acha que ela se basta, ela não se basta, a auto ajuda é singular, o problema que o mundo é plural, coletivo, você tem que lidar com todo mundo, mas sabe esse tipo de coisa? Dê uma olhada para o seu passado, você fez coisa errada  ou certa mas foi isso que te trouxe até aqui, se você está numa situação ruim, você deve ter aprendido um monte de coisa e como não fazer de novo, se você está numa situação um pouco melhor, você fez alguma  coisa certa que te  trouxe até aqui. Se você está numa situação muito boa, você fez um monte de coisa muito certa que te levou até aqui e só a sua consciência vai dizer se ela foi certa ou errada, se você foi correto ou não, mas só a sua consciência pode determinar o que você pode ser a  partir de agora, isso vale para a sua vida particular, para a vida das pessoas que dependem de você e para a sua relação com o seu país…

Luciano          E quando a gente vai para esse mundo profissional, é impressionante, isso eu tenho visto cada vez mais, quando aparecem os modismos, que o pessoal bota os rótulos, aprece que o mundo se iluminou a partir desse momento e tudo o que aconteceu antes não vale mais, era bobagem, era besteira e não serve mais. Eu tenho uma história que eu escrevi num texto meu e eu uso numa das minhas palestras, eu fiz a viagem para o monte Everest no Nepal acabei adorando…

Adalberto       Eu lembro, você me deu entrevista na CBN por isso, foi aí que tivemos o primeiro contato.

Luciano          … foi, foi lá, faz tempo isso.

Adalberto       E foi num sábado, que eu tinha um programa de sábado.

Luciano          Foi por telefone, não é?

Adalberto       Foi por telefone.

Luciano          Eu me lembro disso, agora…

Adalberto       Era “Meu Everest” o nome do livro.

Luciano          Exatamente, boa lembrança.

Adalberto       Que você só foi até o acampamento…

Luciano          Até o campo base…

Adalberto       O campo base…

Luciano          … mas aí eu mergulhei nessa história para aprender a história toda e tem um lance que aconteceu ali que é genial e eu vou, se você me permitir eu vou contar ele aqui agora…

Adalberto       Aliás eu preciso fazer uma defesa do Luciano porque ele não vai fazer, então faço agora, o “Meu Everest” chama o Meu Everest, o livro, porque era o limite dele chegar ao campo base, não é isso? O que não é pouco. Para quem conhece o que é chegar no campo base do Everest, aliás, para ir até o Nepal e ir até o Everest, convenhamos não é pouco. Eu precisava te fazer essa defesa, é justa.

Luciano          … sim, mas ali tem uma história de um alpinista, um inglês que é o George Malory, que esse cara era um maluco, era um alpinista super conhecido, 1920 e alguma coisinha e era o cara que… o cara era um alucinado lá na Inglaterra e adorava montanhismo, esse cara resolveu que ia para o Everest, eles iam algumas vezes para lá e lá por 1924, alguma coisa assim, eles decidem ir para lá para subir a montanha e vão para escalar a montanha, agora você imagina o Everest em 1924, o que que era chegar até lá, como é  que era aquilo e os caras começam a subir, lá pelas tantas sobe ele, a equipe tenta ir até o cume, não consegue, volta e aí vai ele  mais um cara, ele e o Andy Irving, é o nome do outro sujeito, sobem os dois e lá do campo base o pessoal boa uma luneta e consegue enxergar os dois lá pelos 8 mil metros de altura que já é uma paulada e aquela… tem uma foto desse momento que aparece a montanha com dois pontinhos, são eles dois e aquela foi a última imagem, nunca mais esses caras apareceram, desapareceram no Everest, morreram e nunca mais se sabe a história deles e é uma discussão muito antiga de será que os dois chegaram no topo ou não chegaram? Não tem como descobrir a não ser que se encontrasse o corpo desses dois caras e no corpo tivesse a câmara fotográfica que estaria preservada e daria para revelar o filme e ver se eles chegaram no topo ou não. Então durante muito tempo se buscou o corpo dos dois, agora, achar corpo de alpinista no Everest é uma loucura, porque sei lá onde caíram, sei lá onde morreram e um garoto, um alemão, um alemãozinho, pega todos os dados disponíveis e começa a fazer um trabalho, lá para 1996, 97, ele começa a fazer um trabalho de plotagem em cima do Everest e faz um cálculo todo e determina o seguinte, se tiver caído em algum lugar, está caído aqui e determina uma região onde talvez estivesse os corpos dos caras. Em 99 os caras vão para lá, fazem uma expedição, seguindo a dica do alemão e encontram o corpo do George Malory caído no lugar que o alemão disse que ele podia estar. A câmara fotográfica não estava lá, não encontraram o corpo do segundo cara ainda, estão procurando até hoje, mas uma coisa que chamou a atenção que é o que me traz agora no que eu quero dizer para você,  é o seguinte: o sujeito que descobriu o corpo, ele estava caminhando lá, de repente ele viu uma coisa caída, parecia mármore, era o corpo do George Malory. Depois ele dá uma entrevista: o que mais me chamou a atenção ali foi o seguinte, quando eu mexi no corpo dele, que eu puxei e tirei as coisas, a roupa que ele estava vestindo naquela altitude que eu e estava lá, qualquer americano que hoje caminha pelas ruas de Seatle no inverno, está mais protegido do que esse cara estava aos oito mil metros de altura do Everest, esse cara estava com uma botina de couro, estava usando lãzinha, essas coisas nem pensar pela cabeça que você vai para lá, então a reação que se faz é o seguinte, esse cara era um maluco, era um alucinado, onde já se viu subir o Everest, para aquela altitude com uma bota de couro que não é apropriada, isso é um absurdo e a lição que eu tiro daí é o seguinte: é muito fácil você olhar para esse sujeito hoje e falar, esse cara é um louco porque ele subiu o Everest sem ter as  condições, mas é o seguinte, isso é o que existia na época, era o que tinha de mais adequado na época e esse cara, com essa coisa inadequada, rupa inadequada e com frio, chegou a 8 mil metros e abriu o caminho para quem veio depois chegar aos 8.850, então ao invés de você olhar e dizer que o cara é um louco, um maluco, você tem que olhar e dizer o seguinte: que coragem esse cara tem, olha até onde ele foi, traga isso para a tua empresa, se você está hoje no bem bom como diretor, o gerentão, etc e tal, dá uma olhada para os caras que passaram por uma inflação de 80% ao mês, não tinha internet, não tinha telefone celular, não tinha nada, não tinha computador e esses caras trouxeram a empresa até aqui, então olhar para trás e dizer o seguinte, eram ineficientes, tinha gente demais trabalhando é muito fácil fazer, agora olha por onde então trate esses caras como heróis e não como os caras ultrapassados  que não sabiam fazer, entendeu? Usei aqui porque é um exemplo que para mim é fundamental.

Adalberto       O que você está… você está fazendo de novo aquela coisa, você está tentando promover o bem estar do presente com o futuro que nós temos que eu falei, somos divorciados do passado e dá errado, dá errado porque você sempre julga com prepotência, só que é o seguinte, quando as pessoas. Voltando à realidade brasileira, veja só o que já foi resolvido nesse país, não vou nem voltar… ah quando os portugueses chegaram aqui, tiveram que desbravar, não vou nem, por exemplo, tem uma coisa que as pessoas pegam sempre, a Rodovia dos Bandeirantes, você já pensou na vida de um bandeirante naquela época? Aí se o sujeito for metido a politicamente correto fala assim é, matava os índios, a exploração. Você está usando a terra que ele desbravou então saia daqui. Vão brigar com esse problema? Eu conheço gente que xinga o Barão do Rio Branco porque ele foi lá e tirou o Acre da Bolívia, então tudo bem, você  quer devolver? Ah não, então, não agora… Então há uma contradição no seu discurso. Imagina só o que os bandeirantes fizeram ao desbravar esse país? Aí quando você vai no Rio Grande do Sul e eu sei porque sem polenta, sem polenta eu não existiria, porque sem polenta não existiria italiano nenhum no mundo e sem polenta não existiria o Brasil também porque os italianos que vieram aqui comiam galeto, radicchio porque é um almeirão que nasce rápido e polenta, porque você planta milho, você faz fubá e  o fubá dura um ano inteiro, porque esses caras vinham aqui para sobreviver antes de tudo, eles foram para o interior do país, imagina a situação, você viaja hoje para o exterior com dois cartões de crédito internacional, com seguro saúde, com passagem de ida e volta, num avião confortável, pode ser apertado na classe econômica ou não, mas enfim. O meu bisavô veio para cá assim como todos os outros, vieram na terceira classe do navio, sabe-se lá em que condição para chegar num país que não falava a sua língua, que você não falava a língua deles…

Luciano          A viagem deve ter levado um mês, dois meses…

Adalberto       … pensa bem, pensa bem, o que é e esses caras passaram por tudo isso, construíram o que construíram, essa cidade, por exemplo, que nós estamos, São Paulo, São Paulo é o que é pela imigração italiana, foi isso, São Paulo existe porque os italianos vieram para cá, porque São Paulo era um lugar subdesenvolvido ao extremo no final do século passado, no final do século XIX, perdão, e o começo do século XX, foi aí que começou a recuperação, por quê? Porque você trouxe um monte de gente que já estava um pouco mais instruída, que sabia profissões, profissões que eram necessárias, marceneiro, carpinteiro, essas coisas, esse sujeito, pedreiro, esse é o sujeito que você precisava, você precisava construir um país. Não se constrói um país com discussão sociológica se constrói um país nessa hora, um país que tinha uma densa povoação no litoral e muito pouca gente no interior, se constrói com pedreiro, com carpinteiro, essas pessoas são muito importantes, essas pessoas fazem a coisa acontecer, para usar uma expressão que você usou um pouco antes aqui. Depois disso nós tivemos todo aquele, a primeira metade do século XX no Brasil foi turbulenta, aquele momento de Getúlio, da república que estava se instalando e depois o que veio de Getúlio e a ditadura ou não e tudo mais, aí veio Juscelino que digamos foi um pouco um momento um pouquinho mais dourado do Brasil, mas depois veio a turbulência dos militares, tudo isso alguém passou, mais recentemente passamos por duas coisas, que eu digo que são as coisas mais fantásticas, nós somos o que somos e estamos onde estamos e estamos num lugar muito, muito, muito privilegiado, perto do que já estivemos. Quando reconquistamos a liberdade nesse país, isso chama-se democracia e quando superamos a hiperinflação que você citou há pouco, isso é que trouxe essa sociedade hoje, claro que a sociedade olha para si e fala assim, nossa, mas nós ainda temos, bom temos, esse é o nosso desafio, porque o desafio de quem nos antecedeu foi tudo isso, passar por tudo isso que nós passamos, o desafio nosso agora está em constituir uma sociedade justa, o desafio nosso agora está em construir uma cidade mais justa, o desafio nosso agora é uma cidade que tenha boa possibilidade de você se locomover sem sofrer tanto por ela, o nosso desafio agora está em despoluir rio, porque poluímos, ah mas os caras poluíram. Mas escuta, eu não sei qual era a vida do momento, errou-se no passado mas não errou-se no Brasil, o Tâmisa era insuportavelmente poluído, os rios japoneses eram insuportavelmente poluídos, bom, em algum momento eles tomaram a decisão de despoluir, é o que nós precisamos, tomar essa decisão agora. Eu faço parte de uma ONG de saneamento básico, é uma coisa que me é muito cara e te conto porque daqui a pouquinho e digo assim, a pessoa vai à praia no final de semana, ela pula aquele esgoto que desemboca na praia, que lá está e você pergunta: foi bom? Foi lindo, foi ótimo. Não, ótimo não foi, você pulou esgoto, foi alguma coisa, menos ótimo. Porque não pode, você não pode achar que aquilo é normal, primeiro porque tem solução, não é que eu estou procurando a tão desejada cura do câncer, não, saneamento básico tem solução e solução já conhecida e que não é cara, agora, você precisa se envolver com aquilo. Eu estou falando de saneamento para você porque quando eu comecei a escrever já como jornalista num jornal lá da minha cidade, chamava-se “O Regional”, eu descobri uma história que o prefeito tinha desviado, na época, que era candidato à reeleição, quando tinha sido prefeito na outra legislatura, tinha desviado dinheiro da educação para canalizar um córrego que é o Rio das Pedras, que passa no meio da cidade. Eu falei, ele desviou dinheiro da educação, ele não aplicou que na época era uns 25% da arrecadação em educação, que estava na constituição, na constituição de 88. Bom, um outro candidato me deu todos os documentos, eu chequei, era tudo verdade, eu falei bom, escrevi a matéria e dei-lhe uma pancada no prefeito, eu estava no segundo ano da escola de jornalismo quando eu fiz isso, eu entrei em 91, isso foi em 92. Bom, ele perdeu a eleição e ele me processou por calúnia e difamação, injúria na já morta lei de imprensa que tinha na época, o juiz não aceitou, se não me engano, acho que injúria, aceitou só difamação, o promotor… é, o juiz só aceitou difamação e calúnia, que eram os mais pesados, por sinal, apresentei todas as provas, fiz o que fiz, fui absolvido em primeira instância, recorreram a segunda instância e aí o processo terminou e eu ganhei. Porque acho que nem foi julgado em segunda instância porque o processo caducou, ou seja, prescreveu, houve prescrição, mas quando houve o julgamento eu fui absolvido porque eu tinha todas as provas e isso é muito caro, ele mexeu com duas coisas que, ou afetam o seu bem estar social ou comprometem ou não o seu futuro, educação e porque eu não consigo conviver com esgoto, eu não consigo conviver com a ideia de que as pessoas jogam lixo na rua, não faz sentido, todo mundo tem bolso e se for uma coisa pegajosa, bom, vai lá e tenta resolver um problema, mas você não pode abandonar aquilo porque aquele lixo volta para você, porque se você faz isso aqui o outro faz ali, não se construiu uma lógica de proteger a sua calçada e proteger a sua cidade, eu me lembro lá atrás que dizia, o público no Brasil é de ninguém, não, o público é de todos, esse é um erro que nós temos, a gente não cuida bem das nossas coisas, a gente não luta pelas coisas, a média brasileira, a média, de novo a média é a médias dos pobres, dos médios e dos ricos. A média brasileira abandona para fazer um debate depois, discutir o que, a média não luta pelas coisas. Vou citar um caso agora recente que eu comparo com um caso um pouquinho mais antigo: a lei Rouanet, por exemplo, que é uma lei de incentivo fiscal para projetos culturais, o estado brasileiro, lá atrás, descobriu que ele não conseguia fazer isso tudo, o que ele disse? Bom, a iniciativa privada pode fazer, vamos criar uma forma de incentivar. A lei tem defeitos? Tem, eu vou dizer até quais são, daqui a pouco porque eu fiz uso dela, fiz uso muito pouco dela, porque eu tive que colocar dinheiro privado meu, particular, para concluir o meu filme, mas isso não tem… sem a lei eu não teria começado, então eu preciso valorizar uma coisa que me deu a possibilidade do começo, ela não é perfeita? Eu não sei o que é perfeito no mundo, mas aí, quando surgiram denúncias envolvendo crime e que resvalaram na lei, ah vão acabar com a lei. Não, não se acaba com a lei, se melhora a lei, a lei criou uma indústria de entretenimento no país, a lei criou várias profissões porque você começou a ter demanda, São Paulo é a meca dos musicais por causa disso, o Rio de Janeiro tem cinema a dar com pau por quê? Porque tem uma lei de incentivo, o que eu acho, por exemplo, na história da lei, é que a lei tem que ter uma porta de saída, algumas atividades daqui a algum tempo não merecem, a empresa não pode pegar o dinheiro e aplicar num projeto dela, tem que aplicar no projeto de outras pessoas, às vezes você vai pedir para uma empresa hoje, eu estou com outro filme que é para falar sobre transplante de fígado no país, que já está em fase de captação e está terrível conseguir recurso porque você criou um vício nas empresas que elas vão lá, elas fazem algum projeto delas mesmas, ou seja, a empresa é um banco ou ela é uma metalúrgica, ou ela… de repente ela passa a ser uma produtora cultural, porque ela pega o dinheiro do imposto dela e aplica no projeto dela própria, esse é um defeito da lei, esse é um erro da lei, agora, não é um erro da lei, a lei não pensou nisso, isso foi uma coisa que foi criada depois, alguém achou uma brecha, então eu vou lá e eu corrijo a lei. Você se lembra da história da SUDENE? A SUDENE tinha uma lógica de existir superintendências de desenvolvimento do nordeste, ah porque em muita corrupção vamos acabar, não acabe com a corrupção, a SUDENE precisa existir, a SUDENE é um órgão que estuda aquela região, que tem noção de como você aplica o recurso, não, eu acabo, então não se luta pelas coisas no país, se abandona as coisas, se acaba com elas.

Luciano          Parece que é uma característica bem brasileira, se você aplicar isso em política, você vê o seguinte, o Brasil é um país que funciona aos trancos e barrancos porque a cada quatro anos para tudo e começa de novo.

Adalberto       Exatamente.

Luciano          Então terminou um mandato, assumiu um presidente novo, o que acontece? Destrói tudo o que vinha acontecendo, some com a equipe, para com essa coisa toda, troca todo mundo e começa tudo outra vez, eu me lembro que eu fui, eu…

Adalberto       Que é o que se chama de política de governo e não política de estado e a gente precisa de política de estado.

Luciano          … sim e quando você faz uma comparação, aquela velha comparação que a gente faz com a Coréia, por que a Coréia conseguiu um salto gigantesco em 25, 30 anos? Porque os caras botaram um projeto de longo prazo onde não importa quem era o governo, antes da hora, esse cara estava seguindo um plano e esse plano não era mudado a cada quatro anos, no Brasil os caras mudam, entram em o que tinha de bom acontecendo para, para se implementar uma nova ideia quando você deveria estar melhorando a ideia anterior, mas essa ideia da melhora das coisas parece que não existe aqui no Brasil, a ideia aqui é o seguinte, para isso tudo e começa outra vez e não se leva em conta tudo aquilo que você perdeu, o histórico que você perdeu por causa de meia dúzia de bandidos.

Adalberto       Não e se perde muita coisa, se perde o avanço.

Luciano          Se você pegar a Rouanet, olha, a Rouanet o ano passado, sei lá, teve 15 mil projetos, não teve 15 mil projetos roubando dinheiro, não teve, aí você pega, teve 3, 4, 5, 6, 10, 15, 20, 150, 1500 projetos foram sacanagem, mas teve 15 mil, tira 1500 de 15 mil você tem 13 mil projetos que foram legais, que aconteceram em lugares legais que mereciam a Rouanet.

Adalberto       Um pouco de aritmética faz bem, você olha para a matemática ela resolve, a matemática consegue resolver problemas sociológicos, eu digo, a matemática é tão poderosa que você, quando você põe no papel, você vê a conta e fala, espera um pouquinho, onde é que está o problema? E a lei com o objetivo nobre lá atrás, criou uma certa burocracia e quando você cria dificuldade, aparece o vendedor de facilidade, a burocracia tem um lado bom porque ela disciplina de forma até exemplar, cada ponto que você tem que seguir ou não seguir, quando se diz assim, vamos desburocratizar, é porque perde-se menos tempo, você ganha tempo para dedicar à sua função fim, não ficar cuidando de documento para lá e para cá e porque você tira esse atravessador pernicioso da história brasileira que é o sujeito que sabe da dificuldade, então ele vai vender uma facilidade, aí chama-se corrupção, ele fala assim, escuta, você quer que eu resolva o seu problema aqui? Você vê como é possível ter menos burocracia? Porque se ele faz isso, ele está fazendo uma coisa ilegal porque a lei prevê, mas se funciona do mesmo jeito, só que ele… o problema que funciona porque ele está levando uma grana, então quer dizer, a lei precisa hoje e a gente corre um risco de criar mais burocracia na lei e aí é que está o erro, você captou para que? Você captou para fazer uma peça de teatro. Está bem. Qual é o objetivo? Não, dentro da aprovação do projeto você tem que fazer isso, isso e isso. Você fez isso, provou que fez isso, acabou. Um filme, por que você precisa apresentar todas as notas e compra e venda, você não precisa apresentar nota nenhuma porque tem um mercado negro de nota aí, a verdade é essa, o que tem de nota fria. Quando eu comecei eu falei tá, mas escuta, você não faz ideia e eu peguei eu falei não, não vou fazer nada, faço um filme chamado “Orgulho de ser brasileiro”, você acha que eu vou entrar nesse negócio. E os caras fazem porque chega uma hora que o cara não aguenta.

Luciano          Claro, eu costumo dizer isso, que esse sistema ele empurra as pessoas para a ilegalidade.

Adalberto       Mas é a tal da burocracia exagerada, então é o seguinte, eu tenho que fazer um filme, ah um longa metragem, um longa metragem tem que ter mais de 70 minutos, pronto. Ah não, na nossa lei tem que ser 75, está bom, faz o que você quiser, só explicita no começo, qual é a regra? A regra é tem que entregar um filme e no final você tem que entregar um filme. Entregou um filme? O valor aprovado é esse, você pode captar isso e acabou. Tudo bem. Então acabou, faz o filme, entrega o filme, entregou o filme acabou o problema. A prestação de contas é o produto, não é isso? Agora, por que eu tenho que tratar a lei, o produtor cultural com toda essa burocracia, quando a indústria automobilística vai lá e quer que reduza o IPI para poder vencer mais carro e ela justifica com o emprego que ela gera, tudo bem, eu não estou nem julgando o mérito aqui. Cada carro sai assim, este carro foi financiado com redução do IPI, sai uma… ? Não, não sai. Segundo, ele tem que apresentar cada nota fiscal? Não, ele tem que apresentar que ele manteve os empregos, se teve contrapartida ou não, que o carro que ele entregou tem qualidade, ou seja, o cara comprou e recebeu, acabou, é simples, por que você tem que tratar? Agora, há um problema no meio cultural que artista acha que o mundo gira ao redor dele e eu, como eu sou jornalista, nessa hora eu falo vocês estão errados, vocês tem que parar com essa ideia, trata a coisa como uma indústria porque a indústria automobilística não quer ser tratada como um apêndice do governo, mas ela vai lá e pede incentivo, ela reclama incentivo e é assim no mundo inteiro, o incentivo é a lógica da economia, provavelmente isso deve ter existido na civilização romana, que foi uma das coisas mais desenvolvidas parecida com o que nós vivemos hoje foram os romanos, os romanos provavelmente devem ter falado, escuta precisa fazer um aqueduto aqui. Ah por quê? Porque, precisa levar água para cá, não sei o que. Pô, mas como nós vamos fazer esse aqueduto? Não sei o que, ah não, mas olha, eu não consigo fazer porque já estou fazendo outros quatro aquedutos que vem daqui, mas aqui um grupo, ah não mas tem uma empresa aqui, os agricultores, vamos “se juntar” e fazer, tudo bem. Ah mas precisa de incentivo, ah então vou reduzir o imposto deles, eles constroem, isso provavelmente deve ter existido lá em Roma, não tenho dúvida que isso existiu no império romano. Você tem um governo hoje que faz incentivo por quê? Porque ele não consegue controlar tudo, ele não consegue fazer tudo, governo nenhum do mundo vai fazer tudo, o sonho do socialismo, do comunismo, do governo central, isso é uma balela, isso não funcionou em lugar nenhum do mundo, isso é de uma hipocrisia imensa, ele tem pontos positivos porque ele conseguiu dar resultado em algumas coisas porque ele centralizou o poder dele, ele impôs, ah a União Soviética tinha atletas extremamente bem desenvolvidos e ganhavam medalha porque se gastava esse dinheiro só naquilo, o resto ficava sem nada. Eu ia na escola e identificava, aquele moleque saltava muito, que corria muito rápido, eu vou investir meu dinheiro nesse e o resto seguia lá a vida. Tanto que a gente viu a pobreza quando caiu o muro alemão e quando as cortinas de ferro foram abertas ou seja lá o que for, a gente viu a desgraça, que o capitalismo tem problema, claro que tem problema, você tem a liberdade para reclamar, você tem a liberdade para propor, para mudar de governo, para mudar de candidato, não sei o quê.

Luciano          Para não aceitar nenhuma das regras, você não quer, você não precisa fazer.

Adalberto       Você vai… e percebe… e isso você impõe à sociedade o dever de participar da vida pública do país, o que o politburo não te dá essa… o dever seu aqui é seguir o que nós mandamos, alguém achar que isso é modo de vida, então o que nós temos aqui, volto à questão inicial, é que a gente precisa lutar pelas coisas, a média brasileira desiste das coisas. Quando eu fiz o Orgulho de ser brasileiro, eu queria acabar com… primeiro com a favela movie, escuta, eu sou jornalista, eu já tinha passado mais de 20 anos da minha vida pondo um monte de gente pobre, de lugares pobres, reclamando lá e vendo que aquilo está, reclama, reclama, a miséria não comove o Brasil, a média do brasileiro não fica comovida com a miséria, então isso não choca mais ninguém, se não choca, o cara não se mexe. Aí eu disse assim, vou mudar o discurso, eu vou colocar parte da sociedade que deu certo para perguntar para ela porque que a outra parte não deu certo, porque se eu descobrir as razões que essa aqui tem é parecida com aquelas outras, a gente começou a juntar um país, se a gente juntar o país a gente percebe que a gente está mais junto do que a gente imaginava e as reclamações são exatamente as mesmas, os pontos de vista são extremamente parecidos e tem uma coisa, eu tenho um entrevistado do filme lá, que é o Didú Russo, que é um publicitário, hoje é um especialista, colunista de vinhos e gastronomia enfim e tudo mais e ele faz uma reclamação lá que ele fala, se a média do brasileiro é mal educada, o brasileiro chega num restaurante, não olha nem para a cara do garçom, do sommelier que está ali indicando vinho e tudo mais, o sujeito acha que o outro é empregado dele e tudo mais, quando alguém reclamou dessa parte da entrevista eu falei assim, você acha que se eu pusesse o presidente da Associação, do sindicato dos garçons, alguém ia dar bora? Ele é considerado inferior por esse arrogante, quando eu pego um sujeito que é da mesma classe social dele falo assim você é um mal educado, ele falou opa, como assim? É um igual reclamando do outro, porque não é o debaixo, o debaixo não tem o direito de reclamar porque eu sou superior a ele, a média não pensa dessa maneira? Quando eu pego duas pessoas que são da mesma faixa, do mesmo convívio, do mesmo sabe, do ponto de vista sócio econômico estão ali parecidas, aí ele reage, aí falou, escuta esse cara está me chamando de mal educado, porque no meio dele ele vai ser conhecido como mal educado, por um do meio dele, eu precisava provocar novos debates, porque eu sabia que alguns debates não estavam dando resultado, é a diferença de um jornalista fazer um filme de um cineasta fazer um filme, o cineasta pensa com cabeça de cineasta, eu digo para todo mundo que eu não tenho nenhum prurido de cineasta, se eu tiver que rasgar a fotografia, mexer, eu mexo em tudo, eu só não mexo no depoimento, o depoimento é minha cara, porque isso é prurido de jornalista, eu não posso tirar a essência do que diz, tanto que na edição, quando você vai editar um filme desse aí, eu tinha 16 entrevistados, todos muito importante, todos que tinham se exposto, que tinham me dado o que eu chamava de principal, honestidade intelectual, me diga verdadeiramente o que você pensa, eu não quero nada além disso, nem menos, nem mais e eles me deram honestidade intelectual, eles…

Luciano          O filme é fabuloso.

Adalberto       … porque eu precisava que debates novos acontecessem, porque eu sabia que os outros formados não provocavam o debate, aí o que que eu tive a primeira pancada que eu levei foi da crônica do cinema, dos críticos de cinema, parte só, diga-se de passagem, fazer justiça aos que reconheceram o esforço, dizendo que claro, acostumados ao favela movie, eu dou o discurso pronto, aí eu disse numa coletiva lá eu falei, “tá”, se eu fizesse um filme de miséria aqui, primeiro que seria mais fácil, eu vou numa favela, em cinco dias eu filmo todo mundo, acabou, o que eu levei três meses filmando aqui, eu faço em cinco dias lá, eu ia mostrar mais do mesmo se eu falasse nossa, que desgraça que é o Brasil, a gente ia continuar com esse discurso e assim levando a sua vida normalmente sem se preocupar com nada, agora você vai para a sua casa, você vai com raiva do que você ouviu, com raiva do diretor mas você vai continuar pensando. E não tem jeito. Você não vai dizer não para o seu cérebro, porque ele vai insistir em pensar porque eu bati onde você jamais imaginou que fosse apanhar e não sobra para ninguém, bate-se em tudo, questiona-se tudo e para come essa mania de achar que isso aqui deu errado, se deu errado você está dando errado, porque você está produzindo um país errado para o outro ali na frente. Eu tive uma senhora que veio lá, ela, no Recife, ela assistiu ao filme e foi na coletiva no dia seguinte, Luciano, é a coisa mais fantástica, ela me disse num determinado momento lá do filme que ela se reconhecia com aquela moça loira do estrangeiro, bom, essa moça, essa senhora era presidente das mulheres da Associação das Mulheres Negras do Recife, fisicamente ela é exatamente o que você pode chamar de cafuza, ou seja, é uma mistura e é uma mistura que se tem neste país, não é uma mistura brasileira, que as outras não são brasileiras, que é outra coisa que me irrita falar assim: esse que é o verdadeiro brasileiro. Ah você acha que é o que? Isso é preconceituoso, então, brasileiro é o mulato, o negro, não sei o que, não, isso aqui é um país de gente que veio do mundo inteiro, todo mundo que está aqui é brasileiro e pronto. O meu avô se achava brasileiro, o meu bisavô se achava brasileiro sem nascer aqui, porque é o lugar que estava dando vida para ele, ele vai chamar do que? Bom, e eu tinha ouvido críticas porque essa, a Iara, Iara Gouvêa, é uma paulistana que foi morar na Florida porque o marido foi montar uma empresa lá aí a empresa faliu, depois o marido morreu e ela ficou numa situação financeira muito delicada e não sabia se ia, se voltava, enfim, mas ela falava inglês e estava começando essa ascensão de brasileiros comprar apartamento em Miami, uma locadora de, uma imobiliária de lá falou você fala inglês, você conhece os brasileiros, você conhece a vida aqui e foi e ela me deu entrevista porque eu queria alguém que me desse opinião, a média dos brasileiros que queriam morar lá, ela refletiria no depoimento dela a opinião dessas pessoas. Iara diz num determinado momento do filme que é muito, que me é muito cara, ela é uma revelação no filme, que ela continuou morando lá, ela tinha saudade do Brasil mas ela tinha orgulho do Brasil, mas morando em Miami, porque ela tinha problema com a violência, deu o limite dela, o limite dela era esse, ela era mãe, viúva e com dois filhos pequenos, lá se sentia segura e as pessoas criticaram, que absurdo dizer que tem orgulho do Brasil mas morando fora, não sei o que e eu acho uma bobagem essa crítica porque o cara mora fora, porque o cara decidiu ir embora, não, não é assim que se trata essa coisa, bom, a crítica tinha dado uma pancada em relação a isso e em relação a não ter pobres, pessoas de bairros muito pobres assim no filme, porque não tinha feito mais um favela movie, por todas as razões que eu te disse, eu precisava provocar outros debates, essas pessoas já tinham falado comigo 20 anos no jornalismo, eu vi que não estava comovendo falei eu vou pegar a outra parte da sociedade para provocar, eu preciso tentar fazer o debate acontecer, eu preciso criar uma forma nova, que essa aqui eu sei que não está dando certo, eu não vou ser desonesto comigo se eu sei que não dá certo, eu vou tentar de novo, vou tentar uma nova, pensando de forma científica quase, aí essa senhora veio no final da coletiva, ah, posso falar com o senhor? Falei claro que pode, imagina. Ela veio falar comigo, queria dizer uma coisa, duas coisas sobre o seu filme: a primeira coisa, ela, uma senhora que mora numa favela do Recife, que preside a Associação das Mulheres Negras do Recife, que é uma mistura de negro, índio, branco, está tudo lá misturado nela e que, diga-se de passagem, é um doce de pessoa, muito, muito politizada, muito politizada, muito inteligente, aí ela me disse assim: eu queria dizer ao senhor que eu vi que as pessoas criticaram, seus colegas jornalistas, porque eu me lembro do senhor na CBN, eu ouvia o senhor na CBN, o senhor agora está fazendo cinema, os seus colegas jornalistas criticaram o senhor por causa da moça loira lá de Miami, mas eu me identifico com ela. Falei nossa, tudo o que eu tinha ouvido é que ela não representava os brasileiro, nada e essa senhora que é o oposto, do ponto de vista visual, dela, que mora numa cidade com menos segurança, enfim, ou seja, tinha dois opostos dizendo que ela se identificava. Eu falei é? E por que a senhora diz isso? Porque eu sei o que é sair de casa, uma mãe deixar dois filhos, ou três, ou quatro a mercê da violência, eu sei o que é para uma mãe que tem medo da violência e perder o filho. Ela pegou e elevou a discussão à condição da maternidade, a nobre condição da maternidade de protetora, não importa se você é rico, se você é uma mãe rica, pobre, você não quer perder o seu filho para a violência, você não quer expor seu filho.

Luciano          E se para isso eu tiver que sair daqui, eu saio.

Adalberto       Entendeu? E ela pegou, ela pegou a parte nobre do depoimento que era esse o depoimento da Iara do filme e eu já fiquei efusivo com aquilo, falei resolveu minha vida, estou feliz, pronto. Não preciso que dessa média pretensamente intelectualizada aí dos críticos de cinema entenda o meu filme, essa senhora entendeu, eu fiz o filme para ela, ninguém faz filme para a crítica. E eu já estava me dando por satisfeito e conversando, ela falou não, mas tem uma outra coisa. Eu falei pô, a senhora tem todo o tempo do mundo, eu falei para ela, estou feliz que a senhora tenha entendido porque o objetivo foi esse do filme. Eu queria lhe agradecer, aí vai falar sobre o ponto da ausência de gente pobre aspas no filme, que é a caricatura, eu tenho que pegar um cara da favela, você está entendendo?

Luciano          Sim claro.

Adalberto       É a caricatura do favela movie, eu queria lhe agradecer porque o senhor não fez um filme de novo expondo o meu povo como os culpados do Brasil ser assim. O que esse malandro, diretor de cinema acha que faz, está fazendo uma benemerência enorme expondo a miséria, i miserável explorando, eu não queria explorar o pobre de novo na discussão, eu achava injusto, eu não pus por várias razões, entre elas essa, o cara acha que está fazendo um benefício, (inaudível) escuta, de novo você está pondo a culpa do Brasil que eu sou o culpado de o Brasil ser assim? De o Brasil dar errado? Tem que ter a minha cara, a cara do meu povo? Ela me agradeceu. Falei assim, meu Deus do céu que maravilha que a senhora está me dizendo. Ela falou assim, preciso te agradecer porque toda vez que os seus colegas fazem cinema aqui e o cinema pernambucano é cheio disso, é sempre o meu povo o culpado de o Brasil ser assim, mostra uma desgraça e mostra o cara da favela, então parece que os personagens da desgraça brasileira estão localizados aonde? Na periferia, na favela. Na hora que o Brasil dá certo, não é lá. A hora que o Brasil dá errado é lá e ela veio me agradecer por isso, eu falei meu Deus do céu, ela entendeu que eu não quis explorar a imagem, ela discordava da crítica pretensamente intelectual, sabe esse tipo de coisa? Então esse tipo de discussão real, é meu dever fazer e eu vou insistir em fazer, eu não vou parar de fazer. Agora, eu sei que a média brasileira pensa o oposto, pensa porque está viciada num pensamento único.

Luciano          Piotto, você vem de um… bom, você fez o teu jornalismo, você foi… acabou indo parar em rádio e em rádio não é em qualquer rádio, você foi para a CBN, ficou como âncora na CBN, passou pela Jovem Pan, não é isso?

Adalberto       Agora, recentemente.

Luciano          Falou para grandes públicos de rádio do Brasil a fora, não foi pouco tempo que você fez isso, teu programa não era de leitura de notícias, era um programa opiniático, você tinha opiniões ali, eu me lembro de alguns grandes arranca rabos que aconteceram ao longo da sua carreira, exatamente por externar uma opinião e ter essa coisa acontecendo e um belo dia você fala deu. Deu. Está legal, eu já sou um nome conhecido, eu sou respeitado, eu estou aqui mas deu, eu vou partir para uma outra” coisa e você não escolheu alguma coisa óbvia, você foi trabalhar com cinema e não com o cinema dos grandes filmes  com atores da Globo que vão dar…

Adalberto       Entretenimento.

Luciano          … que vão dar dois milhões… você foi buscar cinema num país onde historicamente o cinema é uma coisa complicada e foi para um cinema que é um cinema de opinião, que você já sabe de antemão que ele não vai estar em 150 salas, não vai dar uma baita bilheteria, não vai ter patrocínio etc e tal. Isso evidentemente você já sabia que ia ter um desgaste sem tamanho que isso ia dar um trabalho gigantesco que talvez você não tivesse um retorno financeiro que você podia ter e que você ia ter dor de cabeça, vou ter um risco tremendo de de repente quebrar ao longo do caminho aí. Como é que se toma uma decisão, o que leva você a tomar uma decisão dessa que não foi aos 28 anos.

Adalberto       Não.

Luciano          Não foi, você já era…

Adalberto       Foi aos 39.

Luciano          Você já era um cara maduro, você já tinha família, filhos, etc e tal, tinha um bom emprego, você larga isso e parte para abraçar essa coisa extremamente arriscada.

Adalberto       Bom, vu pela ordem da sua pergunta, a minha decisão, eu saí da CBN aos 39 anos, em 2011, novembro de 2011, mas a decisão tinha sido tomada provavelmente em novembro, dezembro de 2010, um ano antes, ou seja, nada foi intempestivo, não se toma uma decisão intempestiva nessa idade mais, a menos que você tenha sido provocado e não é o caso, eu achei naquele momento que eu devia sair, a coisa que eu mais ouvi foi: nossa,  você teve coragem,  aí eu percebi o quanto tem de gente que deseja fazer a não reuniu ainda, eu não sei se coragem determinação, condições enfim, o que eu fiz? Vou dar a minha receita, não a recomendo não, porque isso tem que ser pessoal, cada um decide como que fazer, de que forma quer fazer, um ano antes eu falei, poxa, se isso continuar da mesma maneira, eu achando que não devo mais permanecer aqui, daqui um ano eu saio, mas para isso o que eu fiz um ano antes? Fiz uma economia brutal para ter uma renda minha, porque eu sabia que se eu pedisse demissão eu não ia ter nem aquela verba que você tem rescisória, essas coisas todas e me demiti. Chegou um ano depois eu falei bom, acho que deu, não tem mais, a empresa tentou me segurar, fez propostas, enfim, eu falei não, isso não é uma negociação, é uma decisão, eu tomei essa decisão e eu estou saindo bem, eu espero que a porta fique aberta porque do mesmo jeito que eu estou saindo hoje, amanhã eu posso até voltar. Hoje eu estou disposto a voltar ao jornalismo, eu queria ter esse tempo fora, eu queria fazer outras coisas, embora eu estivesse num cargo extremamente importante, eu estava no  topo porque eu era âncora de um programa de semana, de  dia de semana em que eu tinha toda a  liberdade para fazer, mas você tem modelos e chega uma hora que eu falei não,  eu  preciso fazer outras coisas, eu preciso criar coisas, eu preciso criar novas discussões e olha que eu fazia muito, a coisa que eu mais ouço quando eu cito qualquer… às vezes eu comento uma bobagem no Facebook o sujeito fala: que saudade de você na CBN, eu falo meu Deus do céu, isso faz tanto tempo, são incontáveis as vezes que eu ouvi isso pessoalmente ou por rede social, cada vez eu vejo isso, aliás o que me preocupa porque parece que o jornalismo se deteriorou demais.

Luciano          Parece?

Adalberto       É.

Luciano          Tá bom, mantém a sua elegância, eu não preciso da sua elegância, o jornalismo se deteriorou barbaramente, barbaramente.

Adalberto       É. O que é lamentável, porque o jornalismo é uma coisa que você vai precisar dele para o resto da vida, essas bobagens que diz ah o jornalismo vai acabar, escuta, quando começou a internet, só vou fazer um parêntesis rápido aqui, tinha uma discussão, a internet vai acabar com a televisão, vai acabar com o rádio. Bobagem, a internet é uma plataforma, ela não é uma geradora de conteúdo, gerador de conteúdo são as pessoas, as pessoas vão falar no rádio, no podcast, vão falar no rádio convencional, na televisão convencional, na tv a cabo, no Netflix, no vídeo do Youtube, no canal do Youtube, vão falar de algum jeito, quem gera conteúdo nunca vai acabar e quem gera conteúdo é a espécie humana, não me lembro de alguma tese de algum cachorro, mas cachorros sejam extremamente valorizados hoje em dia, não me lembro de ele ter feito alguma tese sociológica que impacte a vida humana. Aliás eu vou falar outra coisa que eu sei que é polêmica, as pessoas adoram falar assim, eu prefiro meu cachorro às pessoas, em relação a essa pessoa, eu também prefiro os cachorros dela do que ela, porque desculpa, há um limite nessa animalização das relações humanas, você não precisa deixar de gostar um tantinho do seu cachorro para entender que você continua um ser humano e você precisa se relacionar com as pessoas e talvez o problema não seja a outra pessoa, talvez seja você.

Luciano          De novo, você é muito generoso no uso do talvez, viu Piotto, para de usar talvez e seja um pouco mais enfático.

Adalberto       E aí chegou aquela hora, eu falei bom, eu preciso sair e eu preciso fazer, aí quando deu novembro de 2011 eu tinha uma poupança que eu conseguiria me sustentar durante um ano, se por acaso nada desse certo, o projeto já estava inscrito, estava aprovado mas não tinha dinheiro para o filme o Orgulho, que eu só fui começar a filmar… eu fui produzir o filme em maio e filmar em junho, junho, julho e agosto que eu filmei, do ano seguinte. Quando eu saí da CBN eu não tinha o recurso do filme, então eu não sai da CBN para fazer cinema, eu saí da CBN porque naquele momento eu achei que tinha sido o meu limite, eu precisava buscar outras coisas e dentro eu não conseguiria fazer.

Luciano          E você fez uma coisa, não é que você saiu para dirigir um filme, você saiu para ser o produtor do filme…

Adalberto       Isso.

Luciano          … você saiu para assumir 100% do projeto, não é isso?

Adalberto       Exatamente. Eu só me dediquei a isso, mas eu não tinha a garantia do recurso, por exemplo, eu tinha a minha poupança, a garantia do recurso que depois veio por incentivo nada, eu não tinha nada, o filme não tinha dinheiro, tinha uma ideia aprovada sim, o trâmite todo aprovado.

Luciano          Que tamanho era o orçamento para o filme?

Adalberto       O filme foi feito, acho que era 720 mil, o ministério cortou um monte de coisa, aprovou 500, acabou custando 820, a diferença você sabe de onde saiu, the left the right, do bolso esquerdo, do bolso direito, deste que vos fala, mas tudo bem, isso é risco, o capitalismo tem risco, eu não vou fazer essa coisa lamentável de boa parte dos artistas metidos a intelectuais brasileiros que ficam lá com o pires na mão, você corre, corre risco, isso  é da vida brasileira, banca, a ideia não foi sua? Tá, quando o ministério aprovou 500, eu podia falar então eu não quero, obrigado, você pode desistir do projeto, o governo, a lei não te obriga você apresenta uma ideia, uma vez que você mexeu no dinheiro, aí você assumiu o risco, então assume o risco, eu criticava produtor que ficava, fazia metade do filme e dizia ah o dinheiro não deu, as coisas ficaram caras e o cara não queria… aí ficava lá e aí fazia esse jogo sujo que é isso que manchou a lei Rouanet, o artista tinha uma determinada opinião, o produtor cultural, seja lá o que for e aí para conseguir o dinheiro mudava de opinião política, apoiava o governo para conseguir uma benesse do governo, isso chama-se desonestidade intelectual para ser elegante, porque para não ser elegante, chama-se sacanagem mesmo, esse é o tipo de coisa que não… por isso que ficou uma aha aquela artista, claro, porque tinha uma dívida com o governo brasileiro, esse governo politizou tudo, o governo Dilma  e Lula politizaram os governos, Dilma  e Lula politizaram tudo, na verdade partidarizaram não politizaram absolutamente nada, despolitizaram muita coisa e partidarizaram porque a política é extremamente maravilhosa, para de falar mal de política, reclame de partido, reclame de partidarização não de politização, a politização é exatamente o oposto da partidarização, você politiza as pessoas, as pessoas começam a se envolver e voltando ao ponto, eu saí quando eu comecei, saí da mesma forma que hoje estou decidido a voltar ao jornalismo, pode ser a CBN, pode ser a outra, como voltei à Jovem Pan por um tempo mas eu tinha outros projetos de cinema que eu disse posso voltar e cobrir a eleição, até dezembro eu garanto que eu estou aqui, tanto que foi de julho a dezembro, foi isso que eu fiquei na Jovem Pan e aí no ano seguinte eu fui fazer outras filmagens e segui o ano inteiro, que foi 2015, tanto que agora  estou disposto a voltar, porque eu acho que eu adquiri tantas experiências que me fizeram fazer filme, ser produtor, ser diretor, ser documentarista e ser empreendedor me fizeram um jornalista melhor do que eu era…

Luciano          Você tocou num ponto para mim que é absolutamente, ele é crucial, que é aquela do cara que decide que eu serei um jornalista e vou cobrir coisas sobre as quais eu não tenho experiência, entendeu? Eu não sou médico, não conheço nada de medicina e tem uma pauta sobre medicina, quer dizer, tem um lance de humildade no meio desse caminho aí que se não existir dá nisso que nós estamos vendo, eu não sei do assunto e eu começo a dar opinião a respeito.

Adalberto       E opinião incisiva, esse é o problema, é a opinião do ponto final, o cara baixa quase que uma sentença ali, é uma decisão baseada em que? Eu sempre estudei muito a lógica da burocracia brasileira administrativa, porque eu sei que boa parte dos negócios demoram aqui, você acha que um empresário não quer que a coisa ande rápido? Ele quer que ande rápido, o negócio precisa produzir, vender e gerar lucro e seguir a vida e todo mundo vai feliz. Eu sei o que á agrura de um empreendedor no Brasil, eu passei por isso porque eu, claro, tenho uma empresa, eu tive que abrir uma empresa, a empresa para gerar nota, essas coisas, eu vi todas as burocracias que tem para lidar com o estado brasileiro, quando eu fui… eu criei no filme uma coisa porque eu achava que como eu queria que a discussão brasileira acontecesse e eu fiz um filme para uma discussão nova, então eu dei uma contrapartida social gigantesca, eu distribuí todas as cópias do filme, todas, toas as 3 mil inclusive a parte que era só minha que eu não precisava distribuir e aí em uma outra coisa nesse país, tem um negócio que eu chamo de a dor de doar, quando você acha que um bacana não faz doação no país, pode ser porque ele seja um egoísta, um medíocre, um mesquinho, um vagabundo como cidadão, mas pode ser que ele não seja nada disso, seja o oposto disso e que ele enfrenta uma burocracia para fazer doação, pô, a história do Mindlin, do José Mindlin que tinha uma biblioteca fantástica, alguns livros que tinha três, cinco exemplares no mundo e ele tinha um, ah meu Deus do céu, o mundo é tão gigante, tem quatro livros desse no mundo e um, por acaso, está no Brasil, meu Deus que privilégio, aí foi doar para a USP, você se lembra do imbróglio daquilo porque não podia por o nome do Mindlin, mas meu Deus do céu, olha doador, você vai a Harvard tem nome de todo mundo que fez doação ali, qual é o problema disso? Ah mas nós somos a Universidade de São Paulo, não podemos fazer isso, até que alguém foi lá e falou gente, para com isso, o cara está fazendo doação de uma biblioteca gigantesca que por acaso vai estar disposta ao público que vier aqui, ele tornou uma coisa privada, pública e você não vai reconhecer isso? Por causa de uma bobagem de que não, mas a universidade pública não pode pôr o nome de uma pessoa aqui…

Luciano          Piotto, eu, semana passada, desculpe, semana passada… semana passada, eu fui para o Rio de Janeiro fazer uma palestra num evento da Universidade Federal Fluminense, o evento chama-se “Superação” cada ano tem um, é o décimo oitavo ano, os garotos organizam e tal, molecada de 20, vinte e poucos anos que organizam o evento e durante quatro, cinco dias eles trazem palestrantes e que fazem sequências de palestras ao longo do dia, então quatro, cinco palestras por dia para a garotada da escola que quiser ouvir lá e vai gente de todo tipo, então a ideia esse ano aqui era falar de empreendedorismo etc e tal, pô, esse ano levaram os ícones, levaram Juninho Pernambucano, levaram o Pedro Bial, cada um deles dando um enfoque do seu próprio jeito de ser, liderança, formação de equipe, aquela coisa toda, então só nomes, pô, Zico, Pedro Bial, o Juninho Pernambucano são nomes importantes, no meio deles tinha um tal de Luciano Pires que é um mané mas foi também…

Adalberto       Não, não é um mané não.

Luciano          … bom, e aí eu chego lá…

Adalberto       É um empreendedor do pensamento.

Luciano          … aí eu chego lá, vamos fazer, não sei como é que é, entra assim um pequenino auditório, acanhado e eles me dizendo, o Zico veio aqui foi um horror porque ficou todo mundo pra fora, não cabia no auditório, mas você não tinha um auditório maior na universidade? Porque trazer um Zico para cá é claro que vai explodir de gente. Não, tem um grande auditório aqui com 500 pessoas. Mas porque que esse evento não é lá? Não liberaram o auditório, mas por que está acontecendo alguma coisa lá? Não está acontecendo nada, as pessoas não liberaram o auditório porque quem cuida do auditório achou que não era conveniente trazer um famoso para botar ali porque não e não queria e não liberaram e o evento é o décimo oitavo ano que acontece e nenhuma das palestras aconteceu no grande auditório, aconteceu no pequeno auditório acanhado e você olha para isso e fala meu… Olha o volume de esforço dispendido, olha a iniciativa dessa garotada, olha as pessoas que eles levaram para lá, botaram Pedro Bial para falar para aquela turma lá num horário comercial, isso aqui merecia, no mínimo, o maior auditório da universidade e contar para Niterói inteiro o que estava acontecendo e que por favor venham ver porque esse é um momento importante. Não, fica num cantinho, jogam num canto, quer dizer, essa mentalidade que você colocou da USP parece que ela passa por todo o ambiente brasileiro de…

Adalberto       Com as ressalvas, as ressalvas de praxe, as exceções de praxe e um mérito aos pensadores que nós temos nas universidades públicas e eu sei que eu tenho alguns, alguns inclusive no meu filme, por exemplo, o filósofo Roberto Romano, a doutora Mayana Zats, enfim, eu não estou impingindo a esses nenhum comentário, muito pelo contrário, a esses eu devo agradecimento porque continuam fazendo pesquisa de alta qualidade insistindo com a universidade pública, com os órgãos de pesquisa e pensando a sociedade brasileira. Agora, a estrutura pensante da universidade pública brasileira é obsoleta, medíocre e atrasada e não ache que obsoleta é sinônimo de atrasado no que eu estou dizendo não, a obsolescência é porque ela não tem nenhuma pretensão de ser mais moderna, é isso que vem para mim e o atrasado é porque ela quis parar no tempo, ela não está preocupada em dar resultado, quando eu dizia, uma vez uma professora da USP me escreveu lá porque eu falei assim por que que a molecada não corta a grama da escola? A escola está com problema financeiro, escuta, primeiro que problema financeiro porque o estado está com problema financeiro, isso chama-se ICMS, aquela molecada não sabe que… eu tenho uma visão da escola pública que é um pouco polêmica, eu sei, mas eu não posso abrir mão do meu pensamento, eu posso discuti-lo mas abrir mão não posso até que alguém me prove que eu estou equivocado e tem uma ideia melhor, mas se é público você precisa se envolver para cuidar, aí vou lá e reclamo, o estado precisa passar mais dinheiro, o estado precisa mais dinheiro não é o estado, não existe o estado, existe os pagantes de impostos que por acaso aqui ele é ICMS, aquela molecada não sabe que é o ICMS que paga as universidades públicas estaduais de São Paulo, por exemplo, por que você acha que você não vai fazer nada, aí o cara vai lá e arrebenta o banheiro, picha o banheiro, escuta você está pichando a minha cara, a cara do contribuinte brasileiro, você quer tudo de mão beijada, ai eu disse, e eu reclamava desse tipo de coisa, ao vivo na CBN, até que uma professora disse que eu era persona não grata na USP, eu falei, tudo bem, na sua opinião, porque na minha opinião e de acordo com os meus direitos eu vou continuar entrando na USP sempre que eu atender à lógica da segurança e da  boa convivência, não tem o menor problema com relação a isso, essa coisa de pegar e empreender que eu te falei, quando eu fui fazer a doação das cópias do filme, eu ouvi assim, eu mandava primeiro uma cópia para o sujeito fazer uma análise…

Luciano          Quem era esse sujeito?

Adalberto       … não, secretários de educação, diretores de escola, diretor de universidade, porque eu queria que chegasse nas escolas e eram várias cópias, pô, foram quase três mil, distribui aqui e fora do Brasil também para alguns lugares que pensam o Brasil, discutem o Brasil, tinham interesse sobre o Brasil, aí eu chegava aqui o sujeito pegava e me dizia assim depois de ver o filme, o filme atende perfeitamente a nosso discussão curricular aqui, é muito bom, mas não posso aceitar. Eu falei bom, se você não quiser meu filme porque você acha que o filme não tem nenhum valor acadêmico eu entendo, não vou nem brigar com você, o que eu posso fazer? Dou as costas e vou embora, vou entregar a alguém que goste. Agora você me diz por quê. Eu cheguei a ouvir uma vez de um sujeito da escola, que eu preciso de um número. Eu falei número o que, de cópias? Não, eu preciso de um número para colocar isso no arquivo, porque se eu receber uma doação, a burocracia, veja a bobagem, isso foi universidade pública, quando eu recebo, ele precisa ter um número que passa a ser do acervo da universidade, você está fazendo uma doação e você tem que colocar aqui. Eu falei, mas você cria um número. Não, não posso criar um número, isso é um processo muito mais longo, como eu não comprei, então eu não gerei uma demanda, quando você compra, você vai lá para o departamento de compras, a doação tinha um problema para receber. Eu falei, mas é melhor do que você comprar, você não teve custo e você aprovou, do ponto de vista pedagógico, acadêmico, curricular. Não, não podia receber, eu tive que dar carteirada, eu digo para você que eu dei carteirada como jornalista para o cara aceitar como doação e resolvi esse problema da porcaria da burocracia, eu falei assim se você me disse que você não quer o filme porque você desistiu, do ponto de vista pedagógico, está bom, eu vou embora, mas se você insistir nessa tese que o problema é um número, como é que eu registro o recebimento disso, do ponto de vista burocrático, escuta, eu vou dar uma carteirada, aí eu cheguei em secretários de estado, secretários municipais, eu falei escuta, o cara está com problema disso. Não acredito, escuta mas, eu estou entendendo que ele não está fazendo isso de má fé. Verdade que eu tive que ouvir também de um sujeito que falou assim: mas  os professores não querem porque eles vão ter que mudar o curriculum do ano  para incluir o filme. Eu falei mas o filme tem 87 minutos, você não vai arranjar 87 minutos num ano letivo inteiro para exibir o filme? Não, mas é que tem que fazer parte, aí o sujeito que está tão acostumado à burocracia, mas tão acostumado à burocracia que ele acha que tudo tem que estar planejadinho no ano, você não pode mexer no ano. Eu falei tá bom, então se por um acaso os Estados Unidos tornarem-se um país socialista o que é o ó do borogodó, você vai continuar dando aula de geografia antiga porque os EUA fizeram isso em julho mas você planejou em janeiro, então você vai ter que mudar, você não vai mudar a geografia, os EUA  são um país capitalista, mas acabou de sair socialista, saiu no New York Times, no Estadão… como diria Jorge Bem Jor, deu no New York Times que os EUA agora se tornam… então você não vai mudara aula de geografia por causa disso? As coisas são muito engessadas, então tem um pouco de preguiça, tem burocracia demais…

Luciano          Aversão a risco.

Adalberto       … meu deus do céu, quando você propõe uma discussão que saia, eu vou usar uma expressão que eu vi lá na fundação Dom Cabral uma vez, que sai do quadrado, do seu caixote, não sei o que lá como eles diziam, que saia da caixa, acho que era essa expressão, mas escuta, o mundo é dinâmico, as coisas são dinâmicas, as  coisas mudam, você pode se adaptar, você fez um planejamento porque você é uma pessoa organizada, que ótimo, e você tem que provar mas você pode alterar aquilo, o curso das coisas muda.

Luciano          Claro e deve ser assim, ainda mais no Brasil, ainda mais no Brasil, se você me falar do Japão, se você me fala da Escandinávia eu consigo conceber um planejamento que olha, estamos pensando a longuíssimo prazo e vamos seguir passo a passo, aqui nós estamos num processo de esse país aqui de tarde eu não sei o que ele vai ser porque…

Adalberto       Eu posso lhe contar? Eu consegui fazer a doação, foi de uma dificuldade, nos lugares que envolvia agente público eu tive que dar carteirada em boa parte deles, um ou outro foi fácil lidar, mas a maioria não, quem eu consegui assim como parceiros que me fizeram, que se envolveram, que entenderam a proposta, por exemplo, eu tive uma proposta do CIEE, o CIEE que na verdade é um órgão privado, entendeu? Das empresas, mas que está no Brasil inteiro, recebeu trezentas cópias e exibiu o filme para os alunos que vão fazer lá cursos de estágio, aquelas coisas todas de preparação pra estágios…

Luciano         É um órgão que cuida da integração escola empresa que é um problema seríssimo no Brasil.

Adalberto       Centro de Integração Empresa Escola e o Bertelli, o Valter Maerovitch que conheceu o filme falou pô, preciso levar… que é um conselheiro, ai o doutor Valter falou assim preciso levar seu filme para lá, eu falei pô, eu quero distribuir, eu quero que o filme vá para lugares, eu quero exibir o filme, porque como você disse no começo, eu não consegui cinema, eu consegui uma exibição no cine SESC só, agora, o filme foi exibido na periferia, em associação de morador, foi exibido em escola, universidade, aqui e ali, o CIEE levou para seis unidades deles no Brasil que eu fui lá para participar do debate, que eu fui a todos onde eu fui convidado e conseguiu levar nas outras todas com debate em escola, eu sei porque rede social tem isso, um moleque assistia o filme lá, o Expro também que é uma coisa muito bacana também fez isso, um moleque assistia o filme e me achava na rede social e me fala pô, vi seu filme hoje na escola… Recebi uma coisa esses dias aqui, acho que faz o que, vinte dias, um menino me achou no Twitter, me mandou uma mensagem lá, eu falei assim, caramba, poxa, o filme está sendo bem usado. Evidentemente que algumas cópias provavelmente devem ter se perdido nos escaninhos da vida, mas ué, é tentativa e erro, você vai insistir, a história da insistência, alguns viram, na verdade não foram alguns, foram milhares que viram e muita gente, agora, o filme, por exemplo, eu tive muita dificuldade em exibir o filme em universidades no Brasil incrível, quando eu falei são obsoletas, são atrasadas, elas tem um problema de se modernizar, de modernizar o debate, tem uma carga ideológica pesadíssima, justo na universidade que deveria ser o lugar aberto ao pensamento, ao contraditório, pô a gente viu uma coisa horrorosa esses tempos atrás, o Fernando Henrique foi convidado por aquela associação de discussão de América Latina e EUA, os pensadores daqui ligados ao lulismo fizeram uma carta reclamando da participação do Fernando Henrique, aí os caras não deram nem bola para a carta deles, agora, como é que um pensador reclama do contraditório, não quero contraditório no debate, então não é debate, mas é tão estúpido, veja só, Fernando Moraes, pô, que não é um qualquer, o livro “Chatô” dele é fantástico, foi secretário da educação em São Paulo, olha que serviço se presta essa gente que coisa ridícula, mesquinha, pobre.

Luciano          Calando o contraditório, cale-se.

Adalberto       Como é que você… e outra, você não está… por acaso é um doutor honoris causa em um monte de lugar ai, é um sociólogo respeitado, um sujeito que tem uma experiência pública imensa, porque você concorda ou discorda dele tudo bem, agora, você está querendo proibir a ida dele lá? Baseado porque você não concorda, mas escuta, não é um debate? Tanto que não sei, 50 ou 60 fizeram isso, 500 disseram que não, que ele tinha que ir e a associação não deu nem bola, falou não, isso já está feito, essa discussão não são vocês que decidem, sabe essa coisa toda? Mas a dor de doar no Brasil é um negócio que existe ainda por causa desses problemas todos, agora, como é que você resolve isso, desiste? Não desiste, insiste.

Luciano          Sim, esse é o caminho. Você tem planos de fazer o filme chegar nas mídias sociais, Youtube, essa coisa toda?

Adalberto       Então, eu vu lhe contar: o filme nunca se pagou e por favor, eu quero só que o ouvinte tenha muita consciência do que  eu vou dizer agora, isso aqui não é só uma reclamação, é só um relato: eu não fui reclamar para lugar nenhum que o filme não tinha se pagado, eu paguei o que o filme extrapolou, foi o risco que eu corri, eu banquei, acabou, eu só estou dizendo porque,  quando depois que eu  fiz todos esses debates, depois que eu levei o filme para todos esses lugares, aí uma coisa que o Netflix, eu conheci o Netflix, o Netflix se interessou pelo filme, o Netflix é extremamente seletivo, eu não sabia… eu sabia que era seletivo, eu não sabia que era tão seletivo, porque eu conheci um monte de produtor de cinema que queria por o filme dele no Netflix, o Netflix não gostou do filme, não comprou o filme, comprou “O orgulho de ser brasileiro” comprou o meu filme, ficou um ano lá, a TAP, eu fui convidado para exibir o filme em Londres, numa exibição lá na embaixada brasileira mas é um evento promovido pela sociedade, não era um evento da embaixada, era um evento dos moradores, dos brasileiros em Londres e eu precisava de uma passagem para ir lá, aí do Dânio, que era um consultor da TAP falou não, eu falo com alguém lá, pô esse negócio bacana, tinha visto o filme e tudo mais, o Dânio Braga que é um dos maiores conhecedores italianos, um dos maiores conhecedores de vinho, dono de restaurantes, enfim, aí o Dânio falou não mas… ele era consultor da TAP, consultor de vinhos e gastronomia, enfim, ai o Dânio pegou, me levou à TAP, aí a TAP falou não, podemos fazer uma troca, a gente faz uma coisa bacana aqui, eu te dou a passagem e você cede o filme para o avião, pô, era a fome com a vontade de comer juntas, por quê? O sujeito exibia meu filme numa companhia aérea e eu sei que todo mundo assiste, você fica dez horas no avião, você tem que assistir alguma coisa e ainda tinha uma passagem para poder ir exibir o filme lá e depois aí eu vou te contar, eu tive dificuldades para exibir o filme em universidades brasileiras, mas por exemplo, o filme foi exibido na Universidade Sidney, na Austrália, o filme foi exibido na universidade de Tóquio, na universidade Hamamatsu, foi exibido na universidade do Porto, foi exibido, foi a convite do Kings College de Londres, que foi a segunda vez que eu fui exibir o filme, foi bem na copa do mundo em 2014 que eu fui lá, em dia de jogo do Brasil, antes tivemos o debate, enfim, e agora no final no ano passado, em 2015, eu fui exibir o filme na universidade de Columbia em Nova York e na universidade de Harvard, Harvard nunca tinha exibido um filme brasileiro e a convite das duas universidades que souberam lá…

Luciano          Com debate no final e tudo?

Adalberto       Com debate no final.

Luciano          Pô que legal.

Adalberto       Agora, é impressionante como você… eu sei que essa ladainha os brasileiros, nós todos já ouvimos várias vezes, você consegue espaço fora do Brasil, você não consegue dentro do Brasil, embora eu tenha conseguido, eu citei o caso do CIEE do Bertelli que foi extremamente não, vamos levar você para lá, você topa? Que lugares a gente pode fazer. Fui a Manaus  e foi contemplado as regiões, Manaus, Fortaleza, Brasília, São Paulo, Piracicaba e Campinas, Piracicaba…

Luciano          Se eu entendi, você ainda está procurando alternativas para rentabilizar o filme, é isso?

Adalberto       Não, mas o filme foi…

Luciano          Por isso que você não liberou ainda para…

Adalberto       …  foi para o Netflix, o filme está no Now da Net, está no Google Play, está nessas coisas que eles pagam por demanda, o Netflix compra o filme por um valor fixo e é deles, eles não prestam contas…

Luciano          Mas já saiu do Netflix, já saiu.

Adalberto       … ficou um ano lá. Exatamente no ano da copa, saiu em julho do ano passado, no ano anterior, 2014 até o meio de 2015. E o filme está sendo rentabilizado dessa forma, o Canal Brasil se interessou pelo filme, na verdade o Canal Brasil queria comprar o filme lá atrás mas eu segurei um tempo e tudo mais e agora decidi vender o filme para o Canal Brasil, vai entrar agora e aí eu tenho contrato com eles, por isso que eu não posso divulgar isso em rede social, mas por exemplo, eu peguei todos os extras do filme, todos, e alguns trechos do filme estão todos abertos no Youtube, está lá no orgulhodoc.com.br ou no Facebook do filme que é facebook.com/orgulhodeserbrasileirodocumentario.

Luciano          Para quem não sabe o que é, rapidamente, o filme trata-se de uma sequência de entrevistas com personalidades que vão de Fernando Henrique Cardoso a…

Adalberto       Romero Brito, Mayana Zatz, o Ferres, aliás o Ferres eu ah por exemplo, a história das pessoas que reclamavam, não mas não tem um cara que mora na favela… o Ferres mora na zona sul, no Capão Redondo, mas eu queria mostrar a outra face, o Ferres é articulado, escritor, polêmico, duro na crítica, inteligente, por que que eu tenho que por um cara politizado, que mora no centro e um coitado… não, vamos mudar a discussão, tem massa pensante em todos os lugares, vamos mudar a forma de discussão, Ferres não gravava documentário com ninguém, aceitou fazer o orgulho, não porque eu te conheço…

Luciano          A participação dele é bastante agressiva no filme.

Adalberto       Ele é duro.

Luciano          O que me chamou a atenção bastante, para mim foi até surpreendente, foi o Gerald Thomas, a participação do Gerald Thomas foi fantástica.

Adalberto       Gerald Thomas? Pô, você sabe que eu ouvi de um crítico uma vez? Uma bobagem, uma tolice, desse o crítico do Estadão, o Merten, que enfim, pegou e falou assim, é, você foi entrevistar Gerald Thomas que está lá naquele baita apartamento em Nova York, pessoas de Miami, porque uma vez eu estive numa favela no Rio, ela falou coisa linda é isso aqui, mostrando a Baia da Guanabara, eu falei assim, você subiu a favela ou você só ouviu? Não, eu vi no filme, falei você precisa ver o que que é o esgoto correndo na vala aberta, meu querido, se você acha que olhar para a Baia da Guanabara azul, linda e maravilhosa é bonito, você tem que entender que tem também a outra parte da vida da favela, você não está querendo discutir, você está querendo só pegar e usar um exemplo seu, Gerald Thomas mora num apartamento na beira do rio, que é um apartamento convencional, não tem nada de sofisticado mas ele se expõe, ele se dá para um debate de verdade. Ah aquela moça, que era a Iara Gouveia, gravou naquele apartamento chique, não sei o que. Não, o apartamento ela está vendendo, ela nos levou no apartamento porque tinha uma visão bonita de Miami de, tem um outro nome do bairro lá, mas era Miami, enfim, ela mora…

Luciano          Mas Piotto, tem mas tem…

Adalberto       … há um preconceito com quem…

Luciano          … mas é um outro lance interessante, a tua proposta é o seguinte: por favor, me dê a sua visão do Brasil a partir do teu ponto de vista, como é o Brasil visto daí? Daí, de onde eu estou não importa.

Adalberto       … mas essa gente é isso, eles não queriam que o Fernando Henrique não fosse no debate lá em Nova York lá recentemente? Não querem o contraditório, é uma pessoa que estou pronto para o debate mas elimine o contraditório, você quer discursar, boa parte das discussões, eu confesso a você, você falou assim você se expôs, saí da CBN, fui fazer um documentário e o documentário é pesado, ele não me dá retorno financeiro e é uma discussão de Brasil onde todo mundo se acha um especialista, então a chance de você ter aceitação do filme sempre vai ser conturbada, eu sabia disso, isso me provocou desgaste, cansou, é complicado e alguns debates eu, depois de muito tempo, falei pô eu não vou, a gora não dá porque quando você chega num lugar em que o sujeito não quer debater, ele quer afirmar, você fala não, aí não, você quer fazer um discurso, está bom, então você me convida se eu achar que vale a pena eu vou assistir seu discurso, aí você vai lá, faz a  sua palestra, entendeu? Agora, na hora que a gente for discutir, aí é um debate e respeitoso, pode ser duríssimo, mas tem que ser elegante.

Luciano          E todo mundo ganha com ele, todo mundo vai ganhar com ele.

Adalberto       Claro, mas desde que você ache que o contraditório faz parte do debate, essa gente acha que o contraditório não faz parte, mexeu na minha opinião constituída você é contra mim, não, não sou contra você, sou a favor de mim,  é diferente.

Luciano          Sabe que isso é um problema que eu vejo é o seguinte, no momento em que eu te dou a opinião deixa de ser uma opinião para ser a minha opinião eu passo a estar emocionalmente grudado a ela e quando você combate a minha opinião, eu sito que você está combatendo a mim, se você critica a minha opinião eu sinto que você está criticando a mim e esse distanciamento não existe e no Brasil com esse sangue que a gente tem aqui nas veias, é uma coisa interessante, parece que ninguém consegue se colocar, distanciar, olha aquela é uma ideia, vamos bater na ideia, mas eu não consigo bater na ideia sem bater no autor da ideia, aliás, espera aí, eu não quero nem ouvir a ideia porque se veio desse cara, não merece atenção mesmo que ele esteja dizendo que se eu soltar uma maçã do alto do prédio a maçã cai.

Adalberto       E quando você vai num debate e você… o sujeito leva claque para ele, aí você fala, coisa desonesta, você está levando uma claque porque daí o cara diz qualquer coisa, é aplaudido e você vai ser vaiado. Me lembro que a última vez que eu fui num negócio desse eu falei, ah não, gente eu não vou, desculpa, vocês foram desonestos no convite, vocês deviam ter falado assim, vai ter claque, você quer trazer a sua? Ou você não quer trazer a sua e você também não quer participar, me diga a regra clara, a gente está vivendo essa história toda aí e isso muito foi pela indigência intelectual do ex-presidente Lula que criou nós  contra eles, esse país não tem nós contra eles, não é da nossa formação, uma coisa que eu quando eu planejei fazer o filme e eu sabia disso porque isso foi pensado, nada naquele filme é por acaso, tudo é muito pensado para existir ali, a forma, o conteúdo,  porque que eu me exponho no filme, porque que eu achava que a pergunta era tão importante e ela revelava uma posição minha que eu tinha que dar  ao expectador o direito de saber porque o entrevistado está reagindo daquele jeito na resposta, porque a pergunta foi feita por mim, então é uma forma de você se expor também, ser transparente com o expectador, aí você ouve não, mas você queria se mostrar no seu filme, meu querido, se eu quisesse me mostrar no meu filme eu faria um filme só de mim que era mais fácil, porque que eu vou trazer 16 entrevistados aqui e trazer gente que discorda, porque as pessoas perguntam assim, você concorda com tudo? Eu falei assim não, mas eu preciso? Eu estou querendo trazer uma discussão, quero trazer pontos de  vista diferentes, tem coisas que são tão pequenas, Luciano, mas são tão pequenas, são você fala meu Deus do céu, não é possível que alguém ache…. ela não tem vergonha para fazer essa pergunta. Eu, em algum momento da minha vida disse assim: olha não tem pergunta ruim, tem pergunta e tem resposta, hoje eu vou dizer assim, olha, só pare para pensar se a sua pergunta faz algum sentido pelo menos para você, porque você descobre logo no segundo seguinte que aquela pergunta não fazia sentido nem para a própria pessoa, eu falei porque se não faz sentido para você, por que eu tenho que ouvir a tua pergunta? Eu sou aberto a debate, discuto, não tem o menor problema, agora, vamos fazer a coisa de uma forma um pouco mais inteligente, mais sensata.

Luciano          Vamos ganhar com isso? Vamos ganhar com isso.

Adalberto       A gente precisa, isso, vamos arranjar uma forma que todo mundo ganha com esse debate?

Luciano          Eu não estou interessado em ganhar o debate, eu não quero ganhar o debate, eu quero ganhar com o debate, não tem problema nenhum, se você vier com um argumento que desmonta o meu, eu vou sair de lá feliz da vida porque eu aprendi alguma coisa, eu saí diferente do que eu entrei, entendeu? Se eu ganhar, eu saí igual, quando eu ganho eu saio igual, se eu perco eu tiver a grandeza eu saio melhor do que eu entrei lá. Vamos para os finalmentes aqui…

Adalberto       Mas só para concluir, eu decidi fazer essa coisa, eu sabia dos riscos todos, assumi os riscos, mas era um desejo de provocar essa discussão, eu queria discutir a sensação do orgulho e essa noção do orgulho que eu achava que era uma bobagem, as pessoas falavam eu tenho orgulho, eu não tenho orgulho, o sentimento do orgulho de ser brasileiro e o oposto eram vomitados, não eram pensados e eu queria que se pensasse, eu queria discutir esses pontos que todo mundo reclama, essas coisas do passado, queria que o Brasil começasse a fazer as pazes com o seu passado, o Brasil no sentido os brasileiros e eu sabia do risco, eu queria empreender não um negócio, eu queria empreender uma nova discussão deste país. Eu creio que consegui começar esse projeto porque esse país é gigantesco, somos mais de 200 milhões de pessoas, mas eu não estou sozinho, tem muito mais gente fazendo isso, você está fazendo isso, eu conheço outras pessoas fazendo isso e eu achei que o áudio visual seria uma forma de marcar, de eternizar uma discussão.

Luciano          E é, Piotto, eu tive a chance de ver o filme, o filme é realmente para você sair com a cabeça borbulhando de lá e imaginar o seguinte, todo mundo tem que assistir isso aí, isso aí tem que entrar, por isso que é essa minha agonia, eu gostaria de agora dizer no microfone aqui, quer ver acesse ww tal e assista, ou leva para a tua casa. Mas vai chegar a hora.

Adalberto       E também não é um absurdo, acho, se você tiver Net, que a maior parte, boa parte das pessoas tem TV a cabo, tem Net e acho que custa R$ 4,90, R$ 3,90, não é caro. Quem já viu no Netflix já paga a mensalidade, estava lá, os outros meios também são R$ 4,90, R$ 3,90, que tem o Look, lookie.com.br que é uma locadora virtual, lookie, com ie no final que dá para achar ali também, além disso o filme está em várias bibliotecas de escolas, de universidades públicas no Brasil, basta procurar que vai achar e aí lá você empresta, assiste, volta, ou seja,está lá o DVD.

Luciano          E chama-se “O orgulho de ser brasileiro”.

Adalberto       E vai estar no Canal Brasil a gora também a partir de setembro.

Luciano          Ótimo, eu vou divulgar isso de montão. Meu amigo vamos aqui caminhar para o finalmente então, você acaba de viver uma experiência do empreendedor brasileiro, pior, o empreendedor cultural brasileiro, que é muito pior o empreendedor é difícil…

Adalberto       É dolorido.

Luciano          … o cultural então é coisa para maluco, tem que ser muito louco. E você termina esse teu ciclo, quer dizer, não é que você terminou essa experiência, você terminou um ciclo, o ciclo está aqui, terminou, você chegou no final dele,  não houve o retorno financeiro que não sei se você esperava por ele, mas houve o retorno de satisfação pessoal, o retorno da sensação do dever cumprido que é gigantesco e que talvez você olha para trás e fala bom, valeu a pena, continuo devendo, estou pagando, mas valeu a pena aquilo. E agora? Qual é o próximo passo, você falou de um vídeo, de um filme agora sobre transporte de órgãos.

Adalberto       Exatamente, porque de novo dessa insistência com o Brasil, o Brasil tem hoje um polo de transplantes de várias coisas, eu vou contar do de fígado porque eu conheci uma experiência em Pernambuco para quem não sabe o transplante de fígado começou com o Dr. Silvano Raia aqui em São Paulo que tem medicina de primeiríssimo mundo, pesquisador de primeiro mundo, mas um Brasil desse tamanho não vive só com centro de alta tecnologia como é São Paulo, você precisa espraiar isso para outros lugares, o Doutor Cláudio Lacerda é um médico que foi assistente aqui do Doutor Silvano Raia, ele é de Pernambuco, ele decidiu levar e criar um polo de transplantes no Recife que atende toda aquela região do nordeste e transplante de fígado no país é um negócio extremamente sério, eficiente e financiado completamente pelo SUS, o Sistema Único de Saúde, é uma política de estado, não de governo, porque ela persevera, ah eles estão toda hora fazendo algumas alterações, qual o critério da fila, que são critérios clínicos, ou seja, não há nenhuma diferença, às vezes o sujeito está sendo operado num Einstein da vida aqui mas quem paga é o SUS, ele ficou no quarto do Einstein mas  é SUS, por alguma conveniência, alguma coisa, não, não tem plano privado nessa história, quando você recebe você fala não, quero atravessar a fila, tem critério técnico para isso, critério ou seja  é um negócio que funciona,  quer ver que eu vou dizer, falei há pouco aqui contigo que a gente não uta pelas coisas, recentemente o jornal O Globo fez uma bela matéria, por sinal muito boa a matéria, dizendo que o Brasil nos últimos anos aí, cinco ou seis anos tinha perdido uma série de órgãos por falta de avião e as pessoas, é um absurdo, como pode, eu entendo, mas vamos olhar por um outro ponto de vista? Sabe por que que a gente está reclamando que perdemos o órgão por falta de avião? Porque a gente já tem uma estrutura para fazer transplante no país e essa demora muito para fazer, nós, lá atrás, ó o nosso passado maravilhoso, tivemos empreendedores, tivemos idealistas que construíram e um estado brasileiro que apesar dos seus problemas do SUS tinha uma estrutura financeira para financiar isso daí e existia isso daí, ou seja, nós tínhamos uma equipe médica no Brasil inteiro, várias equipes médicas, tanto de captadores quando de realizadores de transplante apta e competente para fazer, quanto tempo leva para você ter uma equipe dessa? Sabe quanto tempo levou para resolver o problema do avião? Uma canetada do temer, do presidente temer, eu falei assim gente calma isso ai resolve numa canetada o que não resolve numa canetada que a gente precisa valorizar é construir uma estrutura de transplante, uma política de transplante, uma lei de transplante, a forma como isso vai se dar e que funcione de forma exemplar, esse filme que se chama paralelo mil é porque conta os mais de mil transplantes que foram feitos no Recife dessa coisa de levar uma experiência bem sucedida em São Paulo para outros lugares do país porque esse país é muito gigante, alógica americana tem que ser entendida dessa forma, você tem Nova York mas você tem Seatle, você te Chicago, você tem Miami, você tem Houston, você tem Los Angeles, você tem… um país gigante não pode só um lugar muito desenvolvido, ele não vai dar conta, eu posso ter o melhor hospital de mundo em São Paulo, o Brasil não consegue ser tratado aqui, você  trata alguns que estão aqui, ou que vieram aqui, mas você  precisa ter centros de excelência em tudo no Brasil, no país todo e eu parto dessa história, paralelo mil por causa… os mil mais transplantes lá e paralelo porque dentro da lógica que a gente aprendeu, os paralelos próximos do Equador, paralelo baixo, seja paralelo oito, você não consegue fazer nada de qualidade, as  regiões são pouco desenvolvidas, são mais pobres, enfim e o mil é dos mais de mil transplantes é um número alto mas num paralelo que você imaginava que não iria ter desenvolvimento de tecnologia e tem lá um centro de transplantes de fígado extremamente qualificado comparável ao que tem de melhor no mundo. E de novo estou contando ali, estou querendo contar, estou numa fase de captação que está insuportável, está difícil porque você não tem altruísmo do empresário, o sujeito não olha, ele não para para ler, esse mundo corporativo está tão insuportável, o cara não lê, você escreve um negócio, que tenha meia página, uma página, eu fiz… eu posso te mandar? Eu acho que eu sou o único diretor de cinema que faz um trailer do filme sem o filme existir, porque na verdade eu vou lá, eu gravo algumas coisas, eu banco isso do meu bolso, porque eu faço um trailer que tem quatro ou cinco minutos que é um filminho do que pretende ser o filme, do argumento, eu chamo de trailer do argumento do filme porque isso me ajuda no convencimento, além de eu mandar um papel do projeto, da ideia, eu mostro um filme, porque isso é para convencer, está liberado no Youtube, publiquei num artigo que recentemente no congresso em foco, se você me permitir eu te mando e você publica porque…

Luciano          Qual é o orçamento desse filme?

Adalberto       … o filme acho que o orçamento que foi aprovado na ANCINE foi de 1 milhão e pouco para um documentário de 80 minutos, alguma coisa assim, por lei de incentivo, absolutamente lei de incentivo, que se eu pensar o orgulho me custou 820 há quatro, cinco anos, a inflação não está quase nada, mas eu não consegui convencer porque as pessoas não param para ver, não param para assistir e te dão respostas protocolares, ai você fala meu Deus do céu, eu estou querendo…. o momento em que as pessoas estão achando que o Brasil não dá nada, que o Brasil é um problema, escuta tem um negócio aqui que funciona e funciona de forma extremamente exemplar e com dinheiro público, você está reclamando que o dinheiro público é desviado, que tem problema num momento de tanta corrupção, olha, mas veja isso aqui que está funcionando, veja como aqui o serviço público conseguiu achar uma forma de funcionar por excelência atendendo os brasileiros de forma igualitária, igualitária no sentido de ser justo, ou seja, quem precisa mais vai ter mais, quem precisa menos vai ter menos, isso é tratar os iguais…. tratar os desiguais igualmente é muito injusto, que alguém vai precisar mais e outro vai precisar menos, você dá o que o cara precisa, então quer dizer, tem toda uma fila, uma estrutura, o problema recebeu agora essa história do avião, pô, apareceu um problema, uma canetada resolveu o problema, mas resolveu porque só precisava de uma canetada, antes alguém já tinha feito o mais difícil, o mais difícil de construir, então tem esse filme que está aí em fase de captação, estou insistindo, ontem eu falei com o Cláudio Lacerda que é um personagem do filme, que é um médico, o idealizador do polo de transplantes lá, falei para ele está difícil mas eu estou insistindo, vamos buscar de algum jeito apoio para isso, vamos tentar porque eu quero contar, é uma história de sucesso do Brasil, uma história de eficiência do serviço público brasileiro.

Luciano          Por favor, me mande ai que se eu puder fazer um barulho ai eu vou ajudar a fazer.

Adalberto       Se você puder eu agradeço e estou disposto a voltar ao jornalismo que eu te falei, a gora eu respirei, eu queria respirar e agora vou voltar às redações, estou visitando várias, o momento não está fácil mas eu estou visitando várias.

Luciano          Mas volte, quando voltar avisa a gente aí. Quem quiser entrar em contato contigo aí, redes sociais, onde é que está  o Piotto?

Adalberto       Estou no Facebook, exatamente Adalberto Piotto…

Luciano          O Piotto tem dois t’s no final.

Adalberto       … dois t’s e no Twitter também é Adalberto Piotto, mesma coisa.

Luciano          Perfeito, meu amigo, dá para a gente ficar aqui, já estouramos o tempo aqui, mas dá para ficar aqui…

Adalberto       Verdade? Você sabe que e sou conhecido como que estourava tempo de entrevista na CBN, eu recebia… as únicas broncas que eu recebia eram assim, você estourou seu tempo. Mas a discussão estava boa? Estava, mas você estourou, mas tudo bem. Se você me dissesse que a discussão estava inócua e eu estourei o tempo então eu cometi um pecado, mas não.

Luciano          É que o pessoal pô, vai durar uma hora e meia, vai, vai que é legal, se  estiver bom vale a pena fazer.

Adalberto       Não, a honra é minha, obrigado pelo convite.

Luciano          Grande Piotto, muito obrigado, espero que a gente tenha a chance de voltar, quero você de novo aqui depois para a gente contar essa história do seu segundo…

Adalberto       A venho com o maior prazer, tomara venha logo porque daí o filme realizou o rápido também.

Luciano          Um abraço.

Adalberto       Obrigado, até mais.

Transcrição: Mari Camargo