Assine o Café Brasil
Lidercast
Culpa e vergonha
Culpa e vergonha
Culpa e vergonha. Um artigo de 2007 revela o tamanho da ...

Ver mais

Por que eu?
Por que eu?
Ela foi a primeira mulher a assumir publicamente que ...

Ver mais

Cobertor de solteiro
Cobertor de solteiro
Cobertor de solteiro. Isca intelectual de Luciano Pires ...

Ver mais

O véinho
O véinho
Isca intelectual de Luciano Pires que pergunta: que ...

Ver mais

538 – Caçadores da verdade perdida
538 – Caçadores da verdade perdida
Podcast Café Brasil 538 - Caçadores da verdade perdida. ...

Ver mais

537 – VAMO, VAMO CHAPE
537 – VAMO, VAMO CHAPE
Podcast Café Brasil 537 - Vamo,vamo, Chape. Este é um ...

Ver mais

536 – A política da pós-verdade
536 – A política da pós-verdade
Podcast Café Brasil 536 - A política da pós-verdade. ...

Ver mais

535 – Hallelujah
535 – Hallelujah
Podcast Café Brasil 535 - Hallelujah. Poucos dias atrás ...

Ver mais

LíderCast 052 – Thiago Oliveira
LíderCast 052 – Thiago Oliveira
LiderCast 052 - Hoje vamos conversar com Thiago ...

Ver mais

LíderCast 050 – Bia Pacheco
LíderCast 050 – Bia Pacheco
LiderCast 050 - Hoje vamos conversar com Bia Pacheco, ...

Ver mais

LíderCast 051 – Edu Lyra
LíderCast 051 – Edu Lyra
LiderCast 051 - Hoje conversaremos com Edu Lyra, um ...

Ver mais

LíderCast 049 – Luciano Dias Pires
LíderCast 049 – Luciano Dias Pires
Lídercast 049 - Neste programa Luciano Pires conversa ...

Ver mais

045 – Recuperando do trauma
045 – Recuperando do trauma
Quando terminar o trauma, quando o Brasil sair deste ...

Ver mais

Vem Pra Rua!
Vem Pra Rua!
Um recado para os reacionários que NÃO vão às ruas dia ...

Ver mais

44 – Tudo bem se me convém – Palestra no Epicentro
44 – Tudo bem se me convém – Palestra no Epicentro
Apresentação de Luciano Pires no Epicentro em Campos de ...

Ver mais

43 – Gloria Alvarez – Sobre República e Populismo
43 – Gloria Alvarez – Sobre República e Populismo
Gloria Alvarez, do Movimento Cívico Nacional da ...

Ver mais

A carta que mudou a minha vida
Mauro Segura
Transformação
Mauro Segura conta em vídeo uma história pessoal, que teve origem numa carta recebida há 30 anos.

Ver mais

Tempo de escolher
Tom Coelho
Sete Vidas
“Um homem não é grande pelo que faz, mas pelo que renuncia.” (Albert Schweitzer)   Muitos amigos leitores têm solicitado minha opinião acerca de qual rumo dar às suas carreiras. Alguns ...

Ver mais

O caso é o caso
Fernando Lopes
Iscas Politicrônicas
Sobre a morte do assassino nojento, tudo já já foi dito; Fidel Castro foi tarde e deve estar devidamente instalado no caldeirão-suíte número 13, com aquecedor forte, decoração vermelha e vista ...

Ver mais

SmartCamp: as startups transformam o mundo
Mauro Segura
Transformação
Vivemos o boom das startups no Brasil e no mundo. O que está por trás disso? Mauro Segura esteve no SmartCamp, que é uma competição global de startups, e fez um vídeo contando a sua experiência.

Ver mais

LíderCast 051 – Edu Lyra

LíderCast 051 – Edu Lyra

Ciça Camargo -

Luciano          Muito bem, mais um LíderCast. Hoje é daqueles que mostram como é interessante essa coisa do networking, do contato, de você conhecer pessoas. Eu fiz aqui a gravação com o Geraldo Rufino, aquela figuraça. Quando eu terminei a gravação com o Geraldo, o Geraldo falou meu, tem um cara com quem você tem que conversar de qualquer jeito, na hora ele pegou o celular, mandou uma mensagem ali. Você tem que falar com o Edu, eu falei vamos lá, vamos falar com ele. A gente entrou e contato e cá está, diante de mim, bem vindo ao LíderCast, tem três perguntas iniciais aqui que eu costumo dizer para todo mundo que são as mais difíceis do programa, se você passar por elas, o resto você  tira de letra e as perguntas são muito  simples, quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Edu                Muito bom, primeiro obrigado por estar aqui, meu nome é Edu Lyra, eu tenho 28 anos e eu sou empreendedor social.

Luciano          Empreendedor social, o que será que é um empreendedor social?

Edu                Que bicho é esse? Eu falo brincando que o empreendedor social, Luciano, é um bichinho que quer mudar o mundo, é um bicho que quer mudar o mundo e que é um sujeito insatisfeito com o mundo que deixaram para ele, ele quer causar alguma mudança, quer resolver algum tipo de problema, então esse é o empreendedor social.

Luciano          Não é justiceiro social não, não é?

Edu                Não, não é não.

Luciano          É empreendedor social. E é uma coisa interessante porque você está juntando dois conceitos: justiceiros sociais, de certa maneira odeiam os empreendedores porque o empreendedor é aquela coisa de capitalista. Aliás tem uma onde nova por aí que está tentando demonizar o empreendedorismo, está dizendo que empreendedorismo é a ideologia do empreendedorismo porque isso que está destruindo o mundo, uma bobajada que não tem tamanho de gente que está perdida aí, que não sabe mais para que lado correr e quando você traz essas duas coisas e une as duas coisas e fala o empreendedorismo social, o cara que faz acontecer alguma coisa que tem como pano de fundo um alcance social, que significa que tende a ser do bem, tende a ser uma coisa do bem. Me conta um pouquinho da tua história, você vem de onde, nasceu onde?

Edu                Primeiro agradecer ao Geraldo que é um grande amigo, você acertou no alvo em convidá-lo para o seu programa, é um dos sujeitos mais incríveis que eu já tive a honra de conhecer na minha vida, adoro o Geraldo.

Luciano          É um cara que contamina a gente, ele contamina as pessoas.

Edu                Muito, muito, às vezes… quem tiver triste é só ouvir Geraldo que fica feliz, os vídeos que ele faz no face, enfim, ele é um cara incrível. Luciano, primeiro obrigado pelo convite, pela chance de estar aqui com você, sempre tive muita curiosidade em conhecê-lo. Tenho um amigo chamado Chico que sempre falava muito de você, mas muito bem, assim incrivelmente a partir daí eu comecei a pesquisar mais sobre você e seu trabalho, e só coisa boa, acho que é muito legal ter pessoas que dedicam sua vida para empoderar outras. Eu acho que é isso que você faz, para inspirar outras, mostrar caminho para outros e dizer que é possível, eu acho que isso é um gol de placa, como você decidiu tocar a sua vida, o papel social que você deu para a sua vida. Eu nasci… eu costumo dizer que a primeira coisa que eu aprendi na minha vida veio logo que eu nasci, porque quando você nasce alguém precisa te levar para morar em algum lugar, meu pai e minha mãe me  levaram para morar dentro de um barraco, em uma favela em Guarulhos-SP e foi o aprendizado de que você não tem o poder de decidir quase nada da sua vida, onde você vai morar, que cor você vai ter, se seu  pai vai ser rico ou pobre, sua conta bancária, você não decide, você ganha um monte de coisa de presente da vida e do mundo, no meu caso eu ganhei um barraquinho todo furado, um barraco que não tinha chão de cimento, era chão batido de terra, não consegui ganhar um berço, minha mãe botou para dormir numa banheira e ganhei um pai que inclusive eu adoro meu pai, mas à época era um chefe de quadrilha que roubava bancos, roubava cargas e dedicava a sua vida à criminalidade…

Luciano          A profissão do seu pai era bandido, era ladrão.

Edu                … eu digo brincando que meu pai era um CEO, só que o CEO de uma quadrilha.

Luciano          Ele era chefe de uma quadrilha?

Edu                É, era um CEO, com metas, assim, colocou metas altíssimas na quadrilha, um sistema de meritocracia, era um CEO.

Luciano          Aliás, eu vi um trabalho há um tempo, eu preciso até recuperar isso aí, se não me engano é uma professora da GV que fez um estudo de liderança baseado exatamente nas quadrilhas dos morros cariocas que diz que tem um esquema de sucessão ali que é um negócio inacreditável, até porque o chefe da quadrilha dura muito pouco e esse cara morre e já tem um cara para assumir o lugar dele e ela fez um estudo como é que esse processo de formação de liderança que você pode descartar um líder e já tem um novo no lugar dele ali.

Edu                Sem dúvida, sem dúvida nenhuma, eles tem um nível de liderança muito alto, outro dado que existe um problema que muitos traficantes vão presos e quem assume também é a mulher, mas ela não era do tráfico, mas ela assume porque é a forma que tem de bancar a família, então é um outro dado social muito gritante.

Luciano          Teu pai lidava com tráfico também ou era só assalto?

Edu                Também com tráfico, também com o tráfico, mas era muito mais assalto, mas também com tráfico de drogas e aí, Luciano, eu cresci enxergando esse cenário na minha frente: cenário de violência, cenário de drogas, cenário de quando meu pai estava na rua, ok, quando  meu pai estava preso era de pobreza extrema por outro lado, então foram dias… dizem que dos zero aos sete anos você precisa de estímulo, a criança, então o estímulo que eu tinha era isso, era violência, era pobreza, era muita droga, era muita arma e qual foi o meu ponto de virada na minha vida, Luciano? É que eu tive a sorte de ter uma grande mãe, então eu costumo dizer que ao mesmo tempo que eu nasci pobre e miserável, eu também nasci rico e milionário, pobre porque na minha favela não tinha escola, não tinha teatro, não tinha creche, não tinha cinema, não tinha nada, tinha um vazio, mas ao mesmo tempo eu nasci muito rico porque nessa minha pobreza eu tinha minha mãe, que foi uma mulher muito forte, que me inspirou muito e que me dizia todos os dias que eu podia, minha mãe me falava, era todo dia na favela,  filho, não importa de onde você vem, o que importa na vida é para onde você vai e você pode ir para onde você quiser, você pode o mundo e eu dizia mamãe, mas não dá, ó a favela, ó o barraco, ó o  pai. Ela dizia, você é maior do que tudo isso, você pode.

Luciano          Você tem irmãos?

Edu                Então, filho único por parte de mãe, então, Luciano, eu estou aqui  conversando com você, com a sua audiência, com o seu público porque eu tive uma mãe que me inspirou muito,  uma mãe que não me deixou desistir, quando a escola falhou, quando o estado falhou, d’eu nascer numa favela que eu não tinha escola, que não tinha infraestrutura. Eu nasci com os meus direitos sociais negados. A minha mãe entrou em cena, então minha mãe, ela na ausência do estado, a minha mãe foi a grande política social e minha mãe tinha uma força muito grande de dizer quem vai resolver a nossa vida somos nós, minha mãe nunca se cadastrou em nenhum programa social, de ajuda social, não criticando quem se cadastra, mas minha mãe decidiu não se cadastrar, porque ela dizia, se a gente se cadastrar a gente vai achar que esse é  o único caminho e tem um caminho muito maior que é o do nosso  protagonismo, então minha mãe sempre me ensinou que a saída estava na minha atitude.

Luciano          De onde vem essa mãe?

Edu                Minha preta vem de uma família muito simples também. Um pai que era faxineiro, meu avô criou a minha mãe fazendo faxina em empresas,  ele trabalhava como faxineiro em empresa, minha vó uma doméstica que cuidava do lar, minha vó teve, se não me engano, nove filhos e minha mãe também foi forjada na dificuldade, muita dificuldade. E    ntão o que minha mãe fez, que eu acho que foi uma das coisas mais acertadas da minha mãe, dado o tamanho da pobreza que a gente vivia, minha mãe decidiu  ter um filho só.

Luciano          Isso já é uma visão fantástica, que por outro lado, como é que ela se apaixona por um bandido? Se ela tem esses valores tão claros assim, como é que ela entra na paixão por um bandido? O que que é isso?

Edu                Bom, você tocou um ponto muito importante, quando minha mãe se apaixona pelo meu pai, meu pai não era bandido, meu pai era um atleta, atleta mesmo, maratonista, meu pai chegou a correr pelo Corinthians e aí num dado momento, ela já apaixonada, já vivendo junto, meu pai, as coisas não estavam dando certo para ele e como o meu pai entra no crime, Luciano? Vou te contar, ele cresceu junto com minha mãe num bairro muito violento em Guarulhos. Na década de 80 em Guarulhos tinha muito grupo de extermínio, que eram pessoas tidas como matadores mesmo, meu pai tinha um carro velho, acho que era um fusca amarelo, se não me engano, meu pai tinha um grande amigo e esse amigo pediu o carro do meu pai emprestado, falou Márcio, empresta para mim seu carro? Meu pai falou pega aí, a chave está ai, pega aí. Meu pai emprestou para o cara, esse cara estava jurado de morte na comunidade, estava jurado de morte e aí os  matadores viram o cara dirigindo o carro do meu pai, na hora os caras entenderam o que? Pô, o Márcio está com o cara. Aí os caras foram lá na porta da casa da minha avó e falou o Márcio emprestou o carro para um cara que está jurado e aí então o Márcio está acoitando o cara, acobertando o cara e fala para o Márcio que nós vamos derrubar ele. A família entrou em desespero, aquela coisa, meu avô foi lá, conversou, meu pai falou bom, se os caras vão me derrubar, o time dos caras é forte, já sei que eu vou morrer, mas se eu vou morrer eu vou morrer lutando. Foi a partir daí que se instalou uma guerra nessa comunidade, meu pai tinha um dinheirinho guardado, ele comprou uma arma e se armou para lutar pela própria vida e montou uma quadrilha com outros amigos, aí para quem já estava sujo, ele terminou de se sujar e começou a praticar roubos, assalto, foi a partir daí e minha mãe nessa guerra, já estava com o cara, assistiu tudo isso e decidiu ficar até o final com meu pai, então é uma história que você vê que ele era atleta, estava indo para um outro rumo e as coisas mudaram completamente…

Luciano          Edu, vou te provocar, fazer provocações aqui, faz parte do pedaço aqui…

Edu                Pode fazer, por favor.

Luciano          … não é tão simples assim, não pode ser tão simples assim, eu entendo perfeitamente o que você está colocando aí, entendo até a encruzilhada que esse cara entra, pô, os bandidos vieram avisar que vão me matar, avisaram a minha família, podem matar inclusive a minha família também, preciso me proteger, consigo compreender, vou comprar as armas, vou me proteger. Da postura passiva de me proteger, de comprar as armas e me proteger para a postura ativa de vou atacar outros para ganhar minha vida, tirando de outros, tem uma diferença brutal, tem uma quebra moral no meio disso aí que é complicada, é gigantesca. Como é que você enxerga, não sei se você chegou a conversar com seu pai sobre isso ai, qual é o momento dessa quebra moral? É aquele momento que o cara fala, bom, já estou armado, já estou me protegendo, me garanti, até agora está tudo bem, moralmente eu estou me defendendo, estou muito bem, como é que esse cara dá o passo seguinte que é violentamente tirar de alguém, alguma coisa que não pertence a ele, ele vai lá e usa aquela violência para tirar de alguém e aí a moral mudou completamente e o assunto não há mais justificativa. Isso é altamente complexo, é muito complexo, você chegou a conversar com seu pai isso aí? Falar pai, como é que foi o momento em que você apontou uma arma para uma pessoa e disse me dá o que é teu que agora é meu e praticou essa violência e passou a ser um sujeito ativo da violência e não mais o sujeito que se defende?

Edu                Pois é, isso é muito curioso, o tema que você toca, Luciano, acho que uma das coisas que deixaram meu pai mais decepcionado é que nessa guerra eles saíram mais como perdedores, porque eles perderam um amigo, que foi uma bala feriu ele e foi uma grande decepção, que era um amigo, enfim, de infância, o outro lado não perdeu em nada e agora você me fez refletir um tema que talvez nunca me perguntaram…

Luciano          Bem vindo ao LíderCast viu? Aqui acontece muito isso.

Edu                As pessoas ouvem, ok, vão embora, ninguém vai a fundo nesse tema.

Luciano          Minha curiosidade é saber se você conversou com seu pai a respeito disso.

Edu                Você sabe que meu pai, primeiro, só para a gente entender, meu pai hoje, meu pai tem, há dezenove anos pagou a dívida dele com a justiça. Meu pai foi preso pagou a dívida dele com a justiça e meu pai parou, ok, perfeitamente, nós mudamos de Poá, nós fomos morar em Guarulhos, desculpa, de Guarulhos fomos para Poá, meu pai é um sujeito… se meu pai estivesse aqui você falaria Edu, é mais fácil você com essa cara sua ter entrado no crime, seu pai não. Ele não tem a mínima aptidão, fala muito bem, um sujeito, enfim, você não acredita que ele entraria nisso, parece assim impossível, meu pai não conversa muito comigo sobre isso, muito pouco.

Luciano          Ele tem vergonha daquilo?

Edu                Ele se arrepende, ele tem um arrependimento muito grande disso, a fé ajudou muito meu pai, ele ter ido para uma igreja ajudou muito a transformar o caráter dele…

Luciano          Ele foi quando ele estava preso?

Edu                … ele depois que saiu, na rua ele… ainda na prisão ele fez um voto de que ele nunca mais iria para esse rumo e aqui na rua ele  cumpriu o  voto dele, de que nunca mais ele iria para esse rumo e não foi mesmo. Tem vinte anos agora, ele nunca foi, mas meu pai não conversa muito comigo sobre esse tema, nunca conversa, outro dia eu fui dar uma palestra no Banco Itaú, eu perguntei pai, você já roubou o Banco Itaú? Ele não fala, não, nunca fiz nada… e aí eu estava dando a palestra e a dona Milu, eu falei ó Milu, eu acho que meu pai nunca roubou seu banco e a família do Itaú…

Luciano          Pai, vou dar palestra, o senhor roubou meu cliente?

Edu                … pois é, o que para mim é uma grande satisfação, não dei palestra só no Itaú,  no HSBC,  uma porrada de banco, no Bradesco, o que minha família para eles era um risco, correto? Meu pai era um risco para esses bancos, ele poderia roubar esses bancos.

Luciano          Cara, isso dá um filme, isso dá um filme.

Edu                E hoje eu volto nesses bancos para dar palestra, ganho um dinheiro considerável e saio pela porta da frente, não fugido. Então, Luciano, eu acho que em boa medida, a pobreza e a violência, é até difícil de entender o que eu vou falar aqui, mas ela força as pessoas a saírem da naturalidade delas…

Luciano          Ela força algumas pessoas.

Edu                … algumas pessoas, não todo mundo, porque eu também eu podia ter sido bandido, aliás, eu tinha razões para ser bandido e ao mesmo tempo eu tinha um milhão de razões para não ser, então ela força algumas pessoas a cometer coisas que não gostariam de cometer. Infelizmente essa é uma realidade, existe um tecido social que empurra a pessoa que acorda, não tem o que comer, não tem nada, não tem dignidade, vê violência o tempo inteiro dentro de casa, essa é a minha maior preocupação, que quem vê violência o tempo inteiro dentro de casa,  tem chance de  repetir essa violência.

Luciano          Claro, porque ela se familiariza com aquilo…

Edu                É normal.

Luciano          … e  passa a aceitar, esse é o problema,  quer dizer, você pega, eu tenho uma frase interessante, não lembro quem foi que disse agora, que diz o seguinte: “o hábito justifica qualquer barbaridade” quando aquilo se torna hábito fica normal, que é aquela história do… há muito tempo, você está passando na marginal de Pinheiros, tinha um motoqueiro atropelado, aquilo era um acontecimento, passava na televisão, o helicóptero pegando o motoqueiro atropelado, parava todo mundo, que coisa louca, hoje em dia motoqueiro atropelado talvez motoqueiro não estou nem aí. O cachorro eu paro para ver, o motoqueiro não mais, ficou tão normal aquilo que eu me habituo e quando eu me habituo, emocionalmente eu não estou mais envolvido então aquilo passa a ser parte do dia a dia e aí é o grande problema, passa a ser aceitável e o hábito, quando ele torna aceitável essas loucuras todas, nós estamos com um baita problema porque o tecido social criou um nó e aí, meu amigo, é isso que o Brasil está vendo hoje. Como  é que você consegue viver num país que tem sessenta mil mortes violentas por ano e achar que é assim, você está feliz com isso? Não tem ninguém feliz com isso, mas isso deveria ser a prioridade número zero de qualquer política nesse país aqui. Escuta, vamos parar de matar gente e depois nós vamos discutir se o menino e a menina podem escolher o banheiro onde tem que ir, isso é a segunda discussão, primeiro para de matar gente. Vamos cuidar da dignidade dessas pessoas e não é assim, isso caiu num… é o terceiro, quarto, quinto item de discussão, então essa coisa do hábito. Mas eu não quero perder aquela passada que você deu ali porque você colocou um negócio fabuloso que eu já conversei aqui no LíderCast algumas vezes. Muitas pessoas que vieram aqui, que são caras bem sucedidos hoje começam assim, eu comecei a trabalhar com doze anos, com quinze anos e um modelo do meu pai era para o bem ou era para o mal e vários vieram aqui e disseram o seguinte, meu pai mostrou para mim aquilo que eu não queria ser e a partir daquilo que eu vi meu pai fazendo, falei eu não serei igual ele e fui buscar outro caminho, o teu caso é um caso interessante porque quando você fala que seu pai saiu daquela coisa há dezenove anos, você era um garoto…

Edu                Eu era um garoto…

Luciano          … você tinha nove anos…

Edu                Essa faixa.

Luciano          … então, quer dizer, o que era o modelo do bandido, de repente muda e vira… como é que isso funciona na cabeça de um garoto de nove anos, que é o filho do chefe da quadrilha?

Edu                … é isso aí, eu acho que você falou uma coisa que faz muito sentido, sabe Luciano, de eu ter tido na minha frente o que eu não queria ser, o que eu não poderia ser, então…

Luciano          Tua mãe dizia para você?

Edu                … dizia, isso era uma…

Luciano          Esquece o que você esta vendo.

Edu                … sim, sem dúvida, a minha mãe dedicou a vida dela para que eu não entrasse no crime. Esse aí foi o grande objetivo da minha mãe. Meu filho não vai ser criminoso e eu perdi primos também, eu perdi tios, eu vi a violência, eu vi a violência assim na minha frente, eu quase fui vítima de bala perdida, eu vi ela assim, amigos meus, da minha comunidade,  quando você falou de criminalidade de homicídios, a cada trinta e quatro minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Quando você falou a prioridade, meu, a gente está vendo, olha isso, isso não pode ser, então eu vi, isso ocorreu na minha frente, eu vi meus melhores amigos, alguns deles foram assassinados, mas por que isso ocorre, não é Luciano? Você começa a andar nas comunidades depois, naturalmente nós vamos falar mais disso, eu estou todo dia em comunidade, você não vê um teatro, não tem cinema,  não tem espaços públicos, não tem cursos, não tem opção, então quando você não tem opção, o estado, ele  deixa uma brecha muito grande nas comunidades,  muito grande e aí ela começa… o tráfico começa a imperar, ele se torna uma liderança estabelecida nessas realidades e aí o cara não vê outra opção. Então é aquilo que está chamando ele o tempo todo, então isso se torna normal, ir para o tráfico é algo lucrativo,  então as pessoas vão assumir essa realidade. Agora no meu caso, eu me lembro que um dia, vou contar uma historinha aqui para você, Luciano, para os seus ouvintes, eu estava no quarto quietinho, eu estava lá rabiscando  umas coisas, minha mãe entrou e falou filho, o que você está fazendo? Eu falei mãe, eu estou planejando o roubo de um banco. Minha mãe falou o que? Eu falei é mãe, para ganhar um dinheiro e reformar a casa para a senhora. Ela falou ah, tá bom e aí ela foi lá e contou para o meu pai. Falou ó Márcio, seu filho falou que está planejando o roubo de um banco…

Luciano          Que idade você tinha?

Edu                … eu tinha sei lá, dez anos, onze anos, no máximo. Meu pai foi lá, entrou no quarto e falou filho, você está planejando o roubo de um banco? Eu falei estou. Nossa, então o pai vai te mostrar, se tudo der errado o que a polícia vai fazer com você. Luciano, meu pai me deu uma surra, mas uma peia, que ele falou ó, terminou eu chorando, ele falou ó, se você quiser ir pode ir filho, mas se tudo der errado é isso que vai acontecer com você. Bom, é o jeito que ele tinha para me ensinar, funcionou, porque depois daquele dia eu falei se é isso, eu estou fora, não quero isso para a minha vida não. Então isso aqui é uma outra informação curiosa, porque na minha ONG tem filhos de traficantes, tem filho de todo mundo lá e tudo que o traficante não quer, é que o filho dele seja um traficante, tudo o que o bandido não quer, é que o  filho dele seja um bandido, então a última coisa que o meu pai desejaria para mim, é que eu seguisse o mesmo caminho que ele e minha mãe a mesma coisa, então o meu pai de um lado e minha mãe de outro, gerando consciência tanto pelo diálogo como  pela força às vezes, me gerou um repúdio muito grande a ir por essa direção e ao mesmo tempo eu acho que a rua, essa coisa da sobrevivência, da luta, gera em você também uma força interior muito grande e eu canalizei isso para um outro rumo na minha vida.

Luciano          É. E o interessante é que você estava num ambiente em que, embora você repudie, você compreende… eu digo o seguinte, você não justifica, mas você explica, eu consigo explicar, eu consigo compreender perfeitamente o que levou o cara a ser um bandido, etc e tal, não vou justificar essa opção dele…

Edu                Não justifico.

Luciano          … mas se eu consigo entender perfeitamente aquilo e sei que aquilo existe e não deixará de existir enquanto algumas medidas não forem tomadas ali atrás.

Edu                O crime nunca é justificável, Luciano, nunca. Não tem como você justificar um crime, porque, por exemplo, eu podia ter cometido, mas eu nunca cometi nada, então tem caminhos, tem outra chance, mas nem todo mundo tem uma força interior, tem uma consciência, nem todo mundo tem uma mãe chamada Maria Goreti e nem todo mundo teve um exemplo do que não queria ser como eu tive o do meu pai e nem todo mundo tem consciência.  Então tem pessoas que vão ter uma fraqueza emocional muito grande e que não vai demorar cinco minutos, elas vão cometer  o crime.

Luciano          Você era a única criança na casa, ou tinha outros filhos do seu pai?

Edu                Na minha casa eu era a única criança.

Luciano          Só você de criança lá, então você não tinha irmãos para dividir essa coisa.

Edu                Nunca tive irmão.

Luciano          Você estudou?

Edu                Estudei.

Luciano          Estudou, criança tudo, se formou, fez todo o caminho?

Edu                Sempre estudei, fiz todo o caminho, fui para a faculdade, estudei um período muito considerável, sempre tive educação, minha mãe e meu pai sempre me mantiveram na escola, meu pai e minha mãe, eles não me deram nenhum tipo de… como eu poderia dizer, eles não me deram o que eu queria ter, sei lá, por exemplo, na  época na escola as crianças tinham muito bichinho virtual, não sei se você lembra disso, Luciano…

Luciano          Sim, eu lembro.

Edu                … eu queria ter um bichinho virtual por tudo na minha vida porque todo mundo tinha, levava para comer, eu falava não, eu quero. Meu pai e minha mãe nunca conseguiram me dar isso, eu conto que um dia eu fui na casa de um amigo que a mãe dele me ofereceu Neston, eu não sabia o que era Neston, aí eu comi Neston, eu adorei o Neston, sabe quando você come assim, a mãe do menino falou você quer mais, eu falei quero. Cheguei em casa falei mãe, tem Neston? Minha mãe falou filho, quem te contou esse nome aí? Eu falei a vizinha. Ah esse negócio não é bom não, porque não  tinha, então o básico assim eles não conseguiram me dar, a não  ser moradia e às vezes a gente comia uma vez no dia, na outra… almoçava e não jantava, ou jantava e não almoçava…

Luciano          Isso depois que seu pai saiu do crime?

Edu                … já depois, talvez a parte mais difícil da minha vida foi depois que meu pai saiu do crime, porque ninguém queria dar emprego para o meu pai, ele decidiu que não ia mais roubar e como que a gente sobrevivia? Então essa parte ainda foi pior do que quando ele estava no crime.

Luciano          E é uma situação admirável então, porque ele tinha tido uma experiência que…

Edu                De luxo em algum momento.

Luciano          … claro, mas aquilo para ele foi tão impactante, pô cara, eu queria um dia trazer teu pai aqui, queria conversar com ele, eu vou especular o “veinho”, vou perguntar para ele, eu quero saber do gatilho, onde é que está o gatilho que virou a chave e  você de repente volta para a casa, tem dificuldade, não tem comida, não volta para o crime e  não volta mesmo, isso é uma história, eu vou trazer, eu quero o “veinho” aqui.

Edu                Com certeza, com o maior prazer, não volta e a gente passava muita dificuldade, Luciano, isso de eu pedir as coisas para eles e ele não poder me dar.

Luciano          Você fez, você foi para a universidade fazer o quê? O que você cursou?

Edu                Não, só para concluir aqui um pouco dessa coisa que você está comentando, que a gente almoça mas não janta e aí meu pai, ele criou uma estratégia muito interessante, que era o seguinte, todo dia, mais ou menos cinco horas, seis horas da tarde, meu pai chegava em casa e falava assim, filho se arruma porque hoje nós vamos jantar na casa do Tonho. E todo dia, de quarta a domingo tinha uma casa diferente para a gente jantar. Na minha cabeça, Luciano, meu pai era o cara mais influente da comunidade, todo dia tem um jantar, nem você, Luciano, é convidado para jantar de quarta a domingo e meu pai… pô chegava na casa do vizinho meu pai fazia aquela conversa, o cara recebia a gente, na minha cabeça meu pai tinha sido convidado realmente, mas não era isso, meu pai revelou a verdade no dia do meu aniversário agora, o último, ele falou que a gente não tinha o que jantar e ele basicamente criou um programa social chamado visitas sociais, que a gente simplesmente ia na casa do vizinho, entrava, dava oito horas, nove horas, o  cara tinha que jantar, a gente não ia embora e o cara falava  pô, você não quer jantar com a gente, mas era na primeira, meu pai dava um pulo, batia na barriga e falava “vambora” e a gente jantava ali com a  pessoa, com a família e participava de tudo e resolveu o problema do dia e meu pai, eu não… meu pai e minha mãe tiveram uma habilidade, Luciano, de que eu não sabia que a gente era pobre, quando eu falo isso, pode ser que algumas pessoas se assustem, Edu você não sabia que era pobre? Eu não imaginava, eu não sabia que eu era pobre, o Geraldo que veio aqui, ele conta uma coisa que é engraçada, que hoje em dia as crianças de seis anos sabe o que é crise, você pergunta o que é crise? Ah, segundo o William Bonner é um fator econômico, eu não sabia o que era crise, porque meu pai criava uma atmosfera de que a gente tinha alegria dentro de casa, ia jantar na casa do vizinho, só que eu não sabia. Para mim eu tinha sido convidado, então isso foi fazendo com que eu passasse a minha adolescência, que foi uma adolescência de pobreza extrema mas com alegria extrema, com amor extremo, porque para mim eu tinha meu pai dentro de casa a salvo, para mim eu estava muito feliz de poder estar do lado do meu pai, já que do zero aos sete eu quase não tive. Era muita alegria, então eu acho que essa é uma reflexão legal porque eu acho que em período de crise, Luciano, as pessoas mudam muito, o pai se  torna um cara mais violento, chega em casa, a pessoa ás vezes é da classe média, ganhava dez mil, passou a  ganhar cinco e acha que vai morrer,  que acabou, isso influencia muito as crianças também e torna-se, a gente começa a criar uma geração muito fraca, não é?

Luciano          É, eu escrevi um texto essa semana onde eu falava dessas… os cuidados que nós temos que ter nesse momento aqui que nós estamos vivendo de crise e o número um é você criar uma armadura emocional que não permite que você abalado emocionalmente tome decisões cego, não é? Que pô, a crise me abalou, onde eu olho tem crise, todo mundo fala eu estou mal, estou ferrado… emocionalmente eu começo a tomar decisões ai eu faço uma cagada atrás da outra porque o racional não se estabelece mais, então é interessante essa pegada ai.

Edu                Isso para mim foi fundamental, foi fundamental o que o meu pai teve a habilidade e a capacidade de fazer.

Luciano          Você nessa época… quando é que você começou trabalhar?

Edu                Eu comecei trabalhar muito cedo. Esses dias uma jornalista ligou, falou que estava fazendo uma matéria de trabalho infantil, escravo e não sei o que, eu falei olha, no meu caso foi bom, porque eu comecei a trabalhar ajudando meu pai, que com doze, treze anos eu comecei a trabalhar com meu pai, ninguém dava emprego para o meu pai, ele foi ser empreendedor, ele começou a vender água mineral, ele tinha uma Variant velha, aqueles carros Variant, não sei se você lembra, a gente lotava de água mineral, ia para a Cidade Tiradentes, Guaianazes, Ferraz de Vasconcelos vender. O carro não tinha freio de mão, então eu ficava pisando no freio enquanto meu pai descia, pegava a água, levava, pegava o troco e voltava para o carro e de novo… ou, naquela  época, nas periferias, ainda não era asfaltado, tinha pouco asfalto, nessa época de chuva era  barro para tudo quanto é lado, então às vezes o carro morria, tinha que empurrar eu dava o tranco para o meu pai, aí depois meu pai trocou numa perua, ele ia no parachoque da perua, subia, ficava fazendo peso e eu na subida para o carro ir, ia dirigindo. Nessa eu aprendi a dirigir com o  meu pai. Então, do zero aos sete eu quase não tive acesso ao meu pai, até oito, nove. Aí a minha adolescência trabalhando com o meu pai, foi o período que eu tive o contato com o meu pai, foi a época que eu mais aprendi, porque meu pai sempre foi um grande líder, então eu via meu pai liderando, sabe Luciano, vendendo e não sei o que, acreditando e o fato de eu estar aqui  hoje, foi muito desse período da minha adolescência e ter convivido com meu pai, a inteligência dele de rua. Ó, ali é risco, ó ali estão vendendo droga, ó ali vai ter assalto, ó não para na frente do farol, dá sempre uma distância do carro para qualquer coisa você consegue fugir, olha isso, olha aquilo, aquele cara, não vai andar com aquele cara, então isso foi me maturando para a vida, essa habilidade que o meu pai adquiriu, essa experiência em prisão e não sei o que, em me preparar para a vida, então para mim foi muito rico ter essa convivência com meu pai nesse segundo período da minha vida, foi uma preparação para hoje eu poder tocar meus negócios e poder liderar pessoas dentro da comunidade, porque hoje eu me dou, eu lido o tempo todo com a comunidade, com violência, com tráfico, com não sei o que, com risco o tempo inteiro, então meu pai foi um grande mestre.

Luciano          Muito legal, muito interessante.

Edu                Apesar de ele sido um exemplo negativo no passado, virou um exemplo extremamente positivo no presente.

Luciano          Impressionante.

Edu                É uma história curiosa. Então, Luciano, eu digo todos os dias que eu não posso desistir, eu não tenho desculpa para dar, primeiro, porque eu tive uma mãe muito potente, minha mãe até hoje, minha mãe está comigo, ela sabe que eu estou aqui com você, ela vê minha agenda lá, ó você vai para tal lugar hoje, trate bem o Luciano, conversa com ele, o tempo todo minha mãe sabe onde eu estou, a minha agenda ela vê, ela me acompanha.

Luciano          Você mora com seus pais?

Edu                Não moro, sou casado com Maiara, eu tenho dois anos e meio de casado, uma mulher que eu sou loucamente apaixonado, mas por outro lado eu não posso desistir porque eu tenho o exemplo do meu pai, do que ele é e meu pai abriu mão das drogas, abriu mão de uma vida de ter várias mulheres, abriu mão de ter dinheiro, é um dinheiro momentâneo? É, mas abriu mão de tudo para viver uma vida justa e então quando eu olho para tudo isso eu falo assim, cara, eu não tenho razões de desistir, eu não tenho desculpa.

Luciano          Até para não decepcionar meu pai.

Edu                Sim, sem sombra de dúvida.

Luciano          Me parece que ele fez tudo isso e pelo que você contou, ele queria que você tivesse um futuro e de certa forma, se você um dia conversar com ele, ele vai falar, que é talvez ele tivesse vergonha daquilo que ele estava fazendo cada vez que ele olhava para você, um menino de nove anos e aquele exemplo que você falou da surra que você tomou do negócio do assalto ao bando, para mim aquilo é fundamental, talvez você tenha salvado teu pai.

Edu                Pois é, você falou uma coisa que é muito curiosa, eu tenho um jornal em casa, está na casa do meu pai, muito antigo, da década de 80, um jornalista perguntando, uma foto do meu pai inclusive, o jornalista perguntando assim: o qual é o seu sonho? Perguntou para o meu pai. Meu sonho é sair daqui. Por  que? Ele falou, porque meu filho tem sete anos, eu quero terminar de criar ele. E o jornalista falou se você sair você não vai mais roubar? Ele falou nunca mais, eu vou criar meu filho, está no jornal isso aí, então está…

Luciano          Você é o fator motivados, você foi o cara que salvou seu pai.

Edu                Ele fala isso, ele fala isso.

Luciano          Impressionante isso

Edu                Ele fala isso.

Luciano          Vamos lá meu caro, você então… que loucura, muito boa história. Aí você começa então… estudou e tudo mais, você vai para a escola e escolhe um caminho, o que quer ser quando crescer, pintou alguma coisa assim na tua cabeça? Vou seguir tal caminho e quando crescer eu quero ser isso aqui?

Edu                Legal, eu decidi… eu não tenho um diploma porque eu não fiz o primeiro semestre da faculdade, eu entrei no segundo semestre, fiz meu TCC, aí eu tinha que voltar para o primeiro, eu falei eu não vou voltar para o primeiro, eu estudei jornalismo, por quê? Vamos lá, interessante, Luciano, por que que eu estudei jornalismo? Porque era o sonho do meu pai, meu pai sonhava, até que meu pai é um bom comunicador, meu pai fala muito bem, fala bem, fala corretamente, meu pai é um lorde, meu pai queria ser jornalista não conseguiu, virou bandido, aí eu vou no meu pai e falo, pai eu vou entrar na faculdade, o que o senhor me orienta? Ele falou filho, você é um cara que gosta bastante de ouvir, embora eu esteja falando, gosto muito de ouvir, Luciano, ele falou e você também se comunica bem, tem que ser jornalista, falei mas pai, jornalismo? Ele falou é, e era o sonho do pai, o pai não conseguiu, se você fizer, você vai se dar bem e você vai realizar o meu sonho. E eu fui e me apaixonei, naturalmente hoje eu não exerço a profissão de jornalista, mas foi uma coisa que quando eu estava fazendo lá, indo pegar o meu diploma mais a beca ali, eu fui o orador e eu vi meu pai lá embaixo chorando junto com minha mãe, aquilo para mim foi um dos momentos mais marcantes da minha vida, porque primeiro um cara da minha origem ter chegado na faculdade era quase impossível, ter sobrevivido também parecia impossível e ter o meu pai vivo, que essa era a minha maior dúvida, eu tinha certeza que eu ia perder meu pai, meu pai ia morrer, ali na universidade me ouvindo para mim foi um dos momentos mais marcantes da minha vida

Luciano          Eu não consigo nem imaginar…

Edu                Muito doido isso.

Luciano          … importa o que aconteceu naquele momento ali, aliás é sempre uma pergunta que eu faço para as pessoas que vem aqui eu pergunto, e aí, quando ele conta história de superação, a hora que você pegou o canudo e chegou pai, está aqui o canudo, o que aconteceu naquele momento, pô isso foi a vitória dele, a vitória da vida dele. E aí, aí você resolve fazer o que? Preciso trabalhar, preciso ganhar a vida…

Edu                Eu trabalhei um período como repórter em jornais da região, jornal Diário do Alto Tietê, Mogi News, o Diário de Ferraz, Notícias de Ferraz…

Luciano          Morando onde você estava nessa época?

Edu                … Poá, já em Poá…

Luciano          Você estava em Poá.

Edu                … uma comunidade em Poá e aí eu decidi…

Luciano          Quando você fala comunidade é uma favela de Poá?

Edu                … em Poá já não era mais favela, mas é um bairro da periferia de Poá…

Luciano          É uma COHAB?

Edu                … basicamente isso, basicamente isso, então eu a partir dali, pois é, me veio a ideia de fazer um livro chamado “Jovens Falcões” aí eu já estava né querendo fazer as coisas tal, animado, jovem, aquela coisa toda e aí começa a minha saga como empreendedor, a partir da ideia de fazer um livro, por quê? Eu fui no meu pai e falei assim, pai eu quero fazer um livro. Ele falou legal filho, qual que é? Aí contei a ideia para ele, contei o nome, ele adorou o nome, minha mãe adorou e eu falei pai, mas tem um detalhe, eu tenho que viajar o Brasil para descobrir histórias de jovens que do nada foram para o tudo, eu quero contar nesse livro, mostrar que o jovem brasileiro tem muito potencial, que o jovem pode, que e possível, que dá para empreender, dá para fazer as coisas…

Luciano          Conta a história do nome.

Edu                … então, o nome é partindo do princípio do jovem que não aceita viver no pó do chão, o jovem falcão é o jovem que quer voar, que voa e quem voa tem a visão diferente, eu acho que a vida é muito da visão. Se a gente olhar para a nossa própria vida na perspectiva errada, de novo, a gente tem razões para pegar em arma, se olhar para a vida na perspectiva certa, você tem razão para ser empreendedor, para brilhar, para fazer o que você quiser, meu pai falou, é que meu pai fez um gol de mestre, meu pai falou assim, tá bom, o pai te apoia, falei vou precisar de dinheiro pai. Meu pai falou assim, eu não tenho dinheiro, não vou te arrumar dinheiro, eu até teria um pouquinho, mas não vou te arrumar. Mas por que pai? Ele falou, porque se eu bancar, eu vou tirar um pouco do mérito da sua conquista, eu quero que você faça, mas pai, como que eu vou arrumar dinheiro? Ele falou não sei, se vira, se você conseguir se virar, você vai estar pronto para qualquer desafio que vier na sua frente. Eu falei pai, então eu vou atrás. E aí, Luciano, o que que eu fiz? Meu pai ele teve uns lances de genialidade assim muito incrível porque isso me forçou a ir atrás e aí eu comecei a, para arrumar dinheiro eu vendi notebook, celular, calça jeans, montei um comitê com quinze jovens e esses caras colocaram dinheiro no negócio a fundo perdido e eu arrumei o dinheiro para fazer as viagens e comecei a viajar o Brasil, descobri, quinze histórias lindas, botei no livro, voltei, escrevi. Na hora de publicar eu mandei para uma editora, a editora falou que em três meses me dava uma resposta, falei meu, em três meses a casa caiu já, ai eu falei meu, tinha que arrumar dinheiro para publicar esse livro independentemente. Comecei na porta dos empreendedores da comunidade, o dono do não sei o que, o cara me deu quinhentos reais, o outro oitocentos, eu coloquei as marcas na capa de trás do livro e é um negócio que ninguém me ensinou, Luciano, isso foi legal, hoje eu já sei captar recursos, mas pensando, dentro da comunidade pensando como que eu faço? Resolvi. Como que eu vendo? Montei um comitê com cinquenta jovens e a gente saiu vendendo livro de porta a porta por R$ 9,99 dentro da comunidade.

Luciano          Como assim montei, que entidade é essa? Quem é você que liga ô moleque, quer vir me ajudar? Ou você já tinha o embrião de uma ONG, você já sacou, o que era aquilo? O que é juntar cinquenta moleques? Se você falar para mim vou juntar cinquenta moleques para jogar bola, eu entendo, vão jogar bola, vai todo mundo jogar, agora juntar cinquenta moleques para vender livro a troco de que? O que move esses moleques?  O que atrai os moleques?

Edu                É isso.

Luciano          Quem era você para atrair cinquenta moleques?

Edu                Pois é, não tinha ONG nessa época, não tinha entidade, não tinha CNPJ, não tinha nada. Tinha um sonho e aí eu vendia o sonho para essas pessoas e falava cara, vamos vender livro aqui porque com esse dinheiro eu vou montar uma ONG para ajudar nossa comunidade, então tinha essa visão, com esse dinheiro eu vou melhorar a nossa comunidade e aí as pessoas vieram, vamos embora, vamos vender, vamos fazer. Em três meses nós vendemos cinco mil livros.

Luciano          Cara, isso é um sucesso editorial fabuloso. Na comunidade?

Edu                Dentro da comunidade, para pessoas que muitas delas nunca haviam comprado um livro na vida delas.

Luciano          Sim compraram aquele ali.

Edu                Nunca. Pela primeira vez elas compraram o livro “Jovens falcões” por R$ 9,99. Aí eu peguei essa grana e botei para criar, aí sim, o Gerando Falcões que é a ONG que eu toco até hoje dentro da periferia na comunidade e aí a ONG, o nome que eu coloquei foi Gerando Falcões e a partir disso uma outra grande história começou a se desenvolver, então eu digo o quê? Que o livro foi o ponto inicial para eu começar a empreender, porque eu não tinha dinheiro, não tinha patrocínio, não tinha o “paitrocinador”, não tinha nada, não tinha ninguém e tinha o sonho e a vontade, a partir disso, do nada eu consegui construir o que existe hoje, então isso é muito legal, eu acredito muito nessa coisa que as pessoas podem construir a partir do nada.

Luciano          Eu não tenho dúvida nenhuma, aliás se eu for contar a minha história para você aqui ela é assim, ela começa também, preciso fazer alguma coisa, começa aqui, começa ali, olha onde nós estamos, olha onde chegou, isso foi uma construção que ela vai baseada mas havia lá atrás, lá no começo, teve um propósito muito claro, teve um valor o qual eu abracei e o que veio na sequência que é o que o pessoal fala pô, que sorte que você deu, eu falo ô, puta sorte que eu dei, uma coisa leva à outra e você acaba chegando nisso aqui, quer dizer, nós dois aqui conversando, não é do nada, não é por acaso que nós estamos aqui.

Edu                Não, sem dúvida.

Luciano          Muito bem, então vamos entrar lá agora nesse teu grande sonho que é aquilo que acaba te trazendo aqui, que é uma ONG chamada Gerando Falcões, quando você pensou em preparar, você já tinha ideia que seria uma ONG, você sabia o que era uma ONG ou você não tinha ideia do que era, o que era aquilo?

Edu                Eu não sabia o que era ONG, essa é uma pergunta…

Luciano          Que ano era?

Edu                … isso cinco anos atrás.

Luciano          Só cinco?

Edu                É muito próximo, muito recente. Isso é uma pergunta legal. Esses dias a gente estava na favela fazendo uma ação de livros e aí eu levei alguns amigos aqui, amigos empresários para entregar livro comigo e aí tinha o Cido que é cabeleireiro e eu apresentei esse amigo empresário para o Cido e falei esse aqui é o Cido, ele é empreendedor na comunidade, o Cido se assustou falou Edu não, eu não sou disso aí não, do movimento ai não. Eu falei não Cido, empreendedor é coisa boa, ele é? As pessoas são empreendedoras mas não sabem que são, tanto que no dia o livro que as pessoas mais pediram é o dicionário, até que tanto dicionário, acabou em 5 minutos, aí o menino, ele inclusive é herdeiro do Girafa’s, ele era diretor de marketing lá, um grande amigo meu, muito próximo, o Ricardo Guerra, ele perguntou para a pessoa, que tanto você quer dicionário, a pessoa falou porque eu preciso entender o que o Willian Bonner fala na televisão que eu não entendo aquelas palavras difíceis, o PIB e não sei o que, aquele debate do Aécio e da Dilma, aquele povo fala aquelas palavras mas eu não estou entendendo nada, está falando do meu país é? Então quer dizer, as pessoas estão fazendo coisas legais na favela, mas por falta de instrução elas não conseguem entender o que estão fazendo, o nome certo, mas sabem que estão fazendo, que eu acho isso um dado muito importante até para os nossos políticos nas campanhas eleitorais, eles estão debatendo, parece um monte de estrangeiro debatendo um país e eles estão parece que são estrangeiros debatendo o meu país e fala coisas que estão tão longe da população, eu acho que eles devem imaginar que a população está entendendo o que eles falam, mas não está entendendo nada.

Luciano          Não estão nem aí e aí aparece um que entende e fala a língua que a população quer ouvir e aí meu amigo você vende qualquer coisa porque por maior que seja o absurdo, esse absurdo eu consigo entender, aquele outro que está falando um negócio fantástico eu não consigo entender nada, então eu vou aonde eu consigo entender e aí cria-se as histórias que você já conhece. Essa foi a conversa ontem, sabe o evento que eu te contei que eu fui ontem?

Edu                Ah legal.

Luciano          A discussão lá era o seguinte: como é que a gente leva essa discussão que nós estamos tendo aqui de altíssimo nível para um público que não tem a história para entender isso aqui, quem sabe falar essa língua? Quem sabe falar esse idioma? E eu acho que esse é o desafio que nós estamos vivendo no dia a dia no Brasil, que é poder traduzir essas coisas para um público que não está preparado para compreender, mas volta ali, você não sabia direito o que que é que você estava fazendo?

Edu                Não sabia, não sabia o que eu estava fazendo, tanto que essa é uma história muito boa para eu te contar, quando eu já estava ali, porque vamos lá. Então eu peguei esse dinheiro, aluguei uma salinha, uma salinha muito pequena, mas muito pequena, sei lá, 4×4, muito pequena, comprei dois computadores e uma menina para me ajudar lá, depois eu fui descobrir que eu estava errado porque a menina não era registrada, enfim, um monte de coisa e aí tudo bem e eu não tinha nem CNPJ, aí eu fui num evento, me chamaram para ir num evento, negócio do Fórum Econômico Mundial, na casa de uma pessoa chique, não sei o que, falei como eu vou, eu sei que eu fui, cheguei lá contei minha história, me deram cinco minutos para falar, tinha um monte de gente, eu contei, uma mulher lá se apaixonou por mim,  gostou e aí, olha que curioso, como que o mundo dá voltas, essa mulher vem “ni mim” e fala pô Edu, meu nome é Patrícia Vilela, não sei o que, uma mulher elegante, falei pô Patrícia Vilela, nem sabia quem era, depois eu fui descobrir que ela é casada com o vice presidente do Banco Itaú, de novo, a história do banco, eu falei pô meu, e ali, hoje  é muito curioso sabe, Luciano, porque naquela época eu não falava que o meu pai era assaltante mas nem a pau, que eu morria de medo de sofrer preconceito, então eu falava meu pai foi usuário de droga, para ela eu demorei pra contar, quando ela descobriu foi um movimento totalmente o contrário, porque ela passou a me admirar e me respeitar muito mais e quem falou que eu deveria contar a minha história do jeito que ela era, foi ela, eu falei não Patrícia, as pessoas vão ter preconceito. Ela falou Edu, quem tiver preconceito que tenha, mas muitas pessoas vão ser impactadas pela sua história e vão passar a acreditar na vida e  acreditar que pau que nasce torto não tem que morrer torto. Então você vê como tem pessoas, eu acho que tem uma elite muito brega no país, eu acho que tem, por  outro lado tem pessoas que realmente significam a elite do pensamento que não é de dinheiro, que dinheiro vai e vem, mas  que são avançadas no seu tempo e essa mulher conseguiu provar e aí o que que essa mulher me faz? Ela chega “ni mim” e fala assim, Edu, adorei a sua ideia, adorei o que você está fazendo, eu quero fazer um sid money em você, eu falei opa! Que é isso? Quem que é esse cara aí? Achei que era besteira, um sid Money, o que essa mulher quer comigo meu rei? Não estou entendendo o que é sid Money, ela falou não, é um investimento semente, quero botar um dinheiro no seu negócio. Eu falei pô, estou precisando de dinheiro. Ela falou, como você está de dinheiro? Eu falei estou muito mal. Ela falou então me manda a sua conta e o seu CNPJ. Eu falei o que? Ela falou espera aí, você não tem CNPJ? Eu falei quem é esse cara que não me apresentaram ainda? Não tenho CNPJ. Ela falou pô Edu, você tem que ter CNPJ, se você é empreendedor você tem que ter um CNPJ. Eu falei não, não sei o que que é CNPJ. Ela falou, você não tem uma ONG? Eu falei eu não tenho uma ONG não. Ela falou ah, aí essa mulher, ela mudou minha vida, porque ela colocou toda a rede dela, que é uma rede forte, para me capacitar, me treinar, para dialogar comigo, para me mostrar caminhos, foi a partir daí que eu montei CNPJ, montei estatuto, montei um conselho na ONG, a ONG tem um conselho muito forte, ela me botou metas, então ela colocou sessenta mil reais na ONG, que é o investimento semente, mais um outro dinheiro que veio depois e metas e expertise e coach e não sei o que e conselheiro e botou.. a gente cumpriu todas as metas  a ONG hoje, a partir daquele investimento semente dela hoje tem 30 pessoas…

Luciano          Ela quando ela fez isso, ela representava o que? Um indivíduo ou uma entidade? O que que ela…?

Edu                À época, um indivíduo, isso deu tão certo que ela percebeu que aí tinha um nicho e aí ela montou um instituto chamado PDR, que hoje é a ONG dela, atua para empoderar pessoas e transformar novos Edus, claro que não é isso, transformar… mas… teoricamente…

Luciano          Sim, o conceito é esse, quer dizer, encontrar…

Edu                … pegar líderes sociais que não tem apoio, não tem visibilidade e dar apoio da rede da visibilidade e um recurso inicial.

Luciano          Essa mulher é casada com um?

Edu                O vice-presidente do Itaú.

Luciano          O vice-presidente do Itaú.

Edu                Ricardo Vilela.

Luciano          Quer dizer, essa mulher é uma coxinha, certo? É uma coxinha, é uma elite, é uma exploradora, ela é culpada pelos malefícios que o país tem, se há um mendigo na rua é por causa do marido dela que pegou todo o dinheiro que o mendigo devia ter, portanto ela representa o mal da sociedade porque ela está consumindo os recursos que outros pobres não tem. É essa mulher que você está me contando a história. Estou fazendo uma provocação, que isso a gente continua ouvindo esse absurdo o tempo todo e o fato de você botar o rótulo Itaú nessa mulher transforma essa mulher num inimigo a ser combatido quando é completamente o contrário, se você está aqui conversando comigo hoje, se você construiu essa história toda é porque ela enxergou alguma coisa e foi lá e ela está usando o poder que ela tem e o poder que ela tem é o poder desse networking, de poder conectar as pessoas para transformar a vida da comunidade e indiretamente ela deve ter salvado a vida de uma molecada…

Edu                Muita gente, não, o que ela fez hoje tem um respingo em centenas e milhares de pessoas, a reflexão que eu faço, Luciano, sobre a Patrícia, que hoje a Patrícia não é mais investidora, até porque, o que eu falei para ela, ela queria renovar eu falei assim Patrícia não renova, não precisa. Ela falou assim, mas por quê? Eu falei eu queria que você fizesse o que você fez comigo com outras pessoas, eu não preciso mais disso, eu vou me virar, eu vou arrumar dinheiro, eu vou captar, eu vou conseguir, mas detalhe, o que eu acho que ela fez é que todo mundo, Luciano, tem um capital social, todo mundo, todos da Patrícia ao menino que está na FGV, ao menino que está lá na UMC, a pergunta é: o que a gente vai fazer com esse capital social? Ela colocou o capital social dela a serviço de um periférico.

Luciano          E da forma como ela podia fazer, eu coloco da minha forma, do meu jeito, então o meu jeito é dar dinheiro para alguém criar uma ONG? Não, não é, o meu jeito é outro, o meu jeito é isso aqui, é pegar essas histórias e levar adiante, conectar pessoas, é contar, eu estou usando meu capital social para isso, ela ousou aquilo que ela podia e tem milhares de pessoas fazendo isso e eu vou voltar de novo, que é impressionante como eu estou amarrando isso aqui com o que aconteceu ontem a noite, só para eu contextualizar. Eu ontem a noite fui convidado para fazer uma apresentação num grupo de formação de líderes que está ligada ao Instituto Liberal, o pessoal da Ideia da Liberdade, etc e tal e é um grupo que toda segunda feira se encontra num restaurante, que é um restaurante legal, de alto nível, é um grupo de garotada, tem tudo seus trinta anos, vinte e poucos anos, todos eles empresários, executivos, é uma moçada de primeira discutindo como fazer para levar essas ideias de livre mercado, de liberdade etc e tal para o Brasil como um todo e nessa conversa surgiu tudo isso que você está colocando agora sabe, que é essa coisa do poder que cada um deles pode ter para modificar as coisas. Então eu estava discutindo lá o seguinte: cada um de vocês agora quando voltar para a casa hoje, devia parar para pensar o que, como é que eu posso pegar essas ideias que eu discuti aqui e implementar no meu mundo, em volta de mim aqui, então eu sou um gerente de manutenção de uma indústria de refrigeradores, como é que eu, a hora que chegar amanhã de manhã para trabalhar, eu vou pegar essas ideias e impregnar quem está em volta de mim das ideias que eu achei que são legais e nesse momento eu estou cumprindo uma função social ali e aí eu contei a história de um cara que ouve o meu programa Café Brasil que há um tempo o cara tem um supermercado numa cidade lá do norte, nordeste do Brasil e eu fiz um programa provocando essas pessoas dizendo da dificuldade que tinha para monetizar o programa, para poder fazer, o pessoal que está lidando com arte, como é difícil isso e a gente conversou, esse cara me escreveu e perguntou como é que eu faço, porque eu só aplico meu dinheiro num programa de rádio popular, que é quem traz gente para o meu supermercado, eu falei não precisa parar, continua fazendo, só que faz o seguinte, eu não sei quanto você gasta por ano, ou por mês com propaganda, digamos que a tua verba na cidade aí seja… você gasta 4 mil reais de propaganda por mês, passe a gastar 3.100 e tira… aliás, 3.500, porque o que você faz com 4 você faz com 3.500 e pega esses 500 e entrega para uma ONG que você não está preocupado se ela vai trazer para você ou não clientes, mas você vai usar esse teu dinheirinho para causar uma mudança e o cara fez isso e ele me manda um e-mail dois meses depois com um evento gigantesco numa praça da cidade, centenas de crianças, pegou um pessoal que trabalhava em levar o jogo de xadrez para as escolas para ajudar a molecada a desenvolver o raciocínio lógico e rápido e essa molecada, eles criam um evento gigantesco ele fala essa ONG estava lá, não conseguia sair do zero porque não tinha dinheiro e os quinhentinhos que eu passei a dar para eles que para mim é nada, para eles foi a diferença e os caras estão organizando um baita evento na cidade e olha o tamanho do impacto que eu estou causando  aqui por tua causa, falando para mim, quer dizer, aí eu falei olha onde eu fui parar  por causa do estímulo que eu dei aqui, o capital social desse cara naquele momento foi quinhentos reais, que ele entregou para uma ONG que fez tudo acontecer e que muda a história da comunidade dele. Você já pensou se cada empresário brasileiro tem esse tipo de raciocínio e pega quinhentinho e eu vou para uma cidade, a minha cidade, Bauru, que tem quinhentos mil habitantes e eu consigo pegar duzentos empresários com quinhentinho… você não começa a mudar a história da cidade e encontro Edus e encontro gente e esses quinhentos caras começam a fazer… não muda o Brasil isso?

Edu                Muda o Brasil, muda o Brasil e aí Luciano, muito boa a sua reflexão, muito realista. O que você falou é real, é possível, eu gosto dessas coisas, que está ao alcance de todo mundo, quinhentos reais não vai deixar o cara nem mais rico nem mais pobre, não vai mudar em nada, passa assim que ele nem vê. O que eu acho, baseado no que você falou, essa história do coxinha, que ninguém tem culpa de nascer preto, pobre numa favela, então ele não pode ser julgado por isso, ele não pode sofrer bullyng, racismo porque ele não tem culpa, ninguém escolhe nada, ao mesmo tempo ninguém escolhe nascer rico, branco, na Faria Lima, ninguém escolhe, as pessoas simplesmente nascem, agora, as pessoas decidem se elas vão olhar só para o seu próprio umbigo, se elas vão viver, se toda vez que chegar no farol vai subir o insulfilm para não ver a realidade que existe no mundo e se a gente vai querer viver insuflado dentro da nossa própria realidade, as pessoas escolhem, aonde nasce ninguém escolhe, se vai ter pai rico, pai pobre, ninguém escolhe nada, agora tem um momento da vida que você começa a escolher, então essa é a hora que a gente decide se vai usar nosso capital social para tocar a vida das pessoas ou se não, então eu acho que isso que define, as pessoas tinham que julgar os outros por isso, se ela contribui ou se ela não contribui, acho que tinha que chegar o momento assim, sabe Luciano, falar meu o que você faz para ajudar o mundo? Ah… nada? Você não tem vergonha? Tipo o outro sentir vergonha, ah que  vergonha. Não, pelo amor de Deus, porque se não for assim não tem outro caminho para o Brasil, porque a gente já sabe, sei lá, eu não tenho muita, não sei se você vai se decepcionar com o que eu vou falar, mas eu não tenho muita esperança no poder público, não tenho esperança assim…

Luciano          Eu não tenho nenhuma esperança e pelo contrário, a minha batalha é exatamente essa de: para de jogar no colo desses caras, entendeu? Para…

Edu                Já está mais provado que a resposta não vem dali, pode trocar governo, não sei o que, mas eu não tenho uma sensação se vai mudar muita coisa, até parece que… porque até… como nós já dissemos, os caras parecem alienígenas, eles não estão falando a nossa linguagem, agora, eu tenho muita esperança, Luciano.

Luciano          Eu acho que assim que vai acontecer, eu acho que assim que vai acontecer e ontem eles me perguntaram isso, o que acha que a gente devia fazer, eu falei só tem um jeito nisso aqui, é primeiro, não se conformar de que há um terceiro que um líder virtuoso que vai mudar nossa vida, esquece disso e passe a causar um impacto onde você está, na tua região, junte… aí eu… você deve ter visto aí há uma semana apareceu em tudo quanto é mídia social, o povo lá que ficou cansado de esperar uma ponte que ia custar duzentos e cinquenta mil reais, se reuniu e fez a ponte por cinco mil reais, a ponte deve ser um bagaço, a ponte deve cair com o tempo, a ponte deve estar construída mais ou menos, se for o engenheiro lá é capaz de o cara glosar a ponte, mandar destruir e fazer outra ponte, mas os caras resolveram o problema, se juntaram e resolveram um problema, tem gente passando para o outro lado do rio? Tem. O problema está resolvido, já que o governo não vem, vou eu e faço. Quando isso começar a acontecer, a gente muda a história desse país, então de certa forma esse teu trabalho faz parte desse projeto de um indivíduo ter essa consciência de que a atuação dele pode causar impacto e onde isso vai parar? A gente não faz ideia, eu imagino daqui a quarenta anos você olhar para trás e falar, sabe aquele ministro, o ministro da saúde que está lá, esse cara veio do Gerando Falcões, é um falcão, esse cara é um falcão e aí, quando isso acontecer, está tudo pago lá. Me fala um pouquinho do Gerando Falcões, o que essa entidade faz?

Edu                Muito bom, Luciano, a gente trabalha no Gerando Falcões com três pilares que seria basicamente cultura, esporte e capacitação para renda, então imagina que na escola onde eu fui alfabetizado, que é a escola Bortolozo, tem como diretor o Marcelo, que é um grande amigo, a gente sobretudo aos finais de semana, é como se a gente tivesse construído a Disney favela. Então o jovem entra lá dentro e ele vai ter teatro, box, futsal, tênis, skate, coral, pintura, então tem uma infinidade de  opções, aí pergunta Edu, qual é o seu objetivo? Falo assim o meu objetivo é viciar essas crianças, eu sou o novo traficante da comunidade, é um novo estilo de tráfico. Por quê? Porque eu vicio crianças. Em quê? Só que é um novo vício e eu acho que esse é o vício que salva, o Brasil precisa viciar os seus jovens e entrar na competição, dizer assim: eu vou chegar primeiro e esse traficante vai perder porque ele não vai conseguir viciar esse menino em cocaína, nós vamos viciar em pintura, em teatro, em cinema, em literatura, em tecnologia e esse é o vício que vai jogar esse menino para um outro patamar, então eu posso te afirmar que as quinhentas crianças que estão debaixo do nosso chapéu, elas não vão se viciar em cocaína, nem em crack, porque elas estão viciadas num vício que salvou a vida delas, então a gente trabalha muito forte com isso. Agora a gente está estabelecendo um novo projeto em parceria com empresas de tecnologia muito grandes no Brasil inclusive, só não posso dizer porque ainda não está assinado o contrato, mas que é um curso, nós estamos montando uma central para formar jovens programadores dentro da favela, eu acredito que o novo Steve Jobs, o novo Bill Gates vai vir da favela, então nós vamos capacitar jovens para fazer aplicativo, para fazer software e os colocar no mercado de trabalho, um programador mais ou menos, Luciano, esse cara ganha quatro mil por mês, se a gente faz esses jovens ter um salário, sei lá, de quatro mil, claro que não vai começar com quatro mil, mas daqui num curto prazo de dois anos, isso é possível, esse cara vai ganhar mais dinheiro do que a mãe, do que o pai e do que os dois irmãos juntos, ele vai ser o cara raiz, como é que fala?

Luciano          A árvore genealógica?

Edu                Isso aí, nessa árvore aí que você falou, ele vai ser da história dos últimos anos, o cara que mais vai ganhar dinheiro na família. Mas agora veja, não é o dinheiro pelo dinheiro, é o protagonismo e é a gente mudar a referência de que não vai ser mais o traficante, o primo dele vai querer ser ele, vai querer ser… eu quero ser o André, porque pô, o André está falando diferente, chegou aí com jeito diferente,  tem uns amigos diferentes, está falando coisa nova, fez um aplicativo que facilitou a vida da comunidade, que integrou, eu quero ser esse cara, a gente muda a referência e aí por último, a gente muda a matriz econômica da favela que hoje é o tráfico, infelizmente, é o principal motor da favela e a gente põe a tecnologia e aí muda o padrão, então você muda.

Luciano          Claro e esse é um trabalhinho de formiguinha que é uma coisa que eu me bato muito, você não está pregando nenhuma revolução, você está pregando uma evolução, você não vai chegar num lugar e falar olha, atenção, peguei o botão e virei o botão, não é assim, você está pegando uma garotada, isso vai levar quanto tempo Edu? Ah, vai levar dez, quinze, vinte anos, eu vou ver o resultado daqui a quinze ou vinte anos porque é uma mudança evolutiva, não é desruptiva ali, que eu acho que não tem outro jeito, eu não acredito em desrupção nesse sentido assim, na questão da moralidade, na questão de mudança social, para mim não existe desrupção, vou para a rua, boto fogo no automóvel, isso tudo para mim é uma bobagem sem tamanho que não tem sustentabilidade, até provoca uma mudança e no momento em que você piscar, volta a ser o que era, o único jeito da mudança acontecer é esse processo evolutivo, é você treinar um cara e você falar muito bem, eu vou viciar esse menino nos vícios bons, nas coisas que são…

Edu                Saudáveis.

Luciano          … saudáveis e que vão preparar uma raiz em cima da qual esse moleque pode voar muito longe. De onde você vem, tem muito Edu?

Edu                Tem muitos Edus, mas pelo fato de os instrumentos sociais não terem sido colocados na comunidade deles, esses Edus morrem. A gente… vou te dar um exemplo muito claro, ele não se declara, mas dizem que o chefe do PCC é o Marcola, correto? Esse Marcola esteve sentado nos mesmos bancos de escolas que o Edu esteve, que o André e que o Marquinho estiveram, enfim, ele esteve na escola e a escola perdeu esse cara, então quer dizer, a gente precisa repensar o modelo que a gente tem porque se esse jovem está lá, ele está debaixo do nosso guarda chuva e a gente tem como dar o encaminhamento para esse jovem, mas se a gente perde essa oportunidade, outro segmento vai dar o encaminhamento, então a sociedade está perdendo de produzir Edus para ajudar a mudar o Brasil.

Luciano          Você está tocando num negócio Edu, que para mim é fundamental e tem a ver com uma discussão que se coloca agora e que ela é muito superficial e ela é agressiva que é aquela história, eu fiz a provocação com a moça do Itaú lá. Eu, Luciano, sou um coxinha, eu sou de elite, eu moro num belo apartamento e a culpa das mazelas da sociedade são minhas porque eu estou pegando os recursos de alguém e portanto eu sou uma classe a ser exterminada. Você está falando para mim a mesma coisa, você está dizendo isso para mim, você está jogando na minha cara, você está me dando um puta tapa agora para dizer que a culpa disso tudo é minha porque você está explicitando claramente que há um espaço que eu não estou ocupando, eu estou simplesmente me afastando, eu não vou lá na tua comunidade ver o que está acontecendo lá e eu me nego a acreditar que aquele moleque que veio me assaltar no ponto… no farol, eu tenho alguma culpa disso e  eu costumo dizer, não, a culpa é desse moleque, o moleque fez uma escolha errada, mas você me traz assim uma realidade e fala, você já pensou se diante desse menino tivesse várias escolhas? Se ele tem as escolhas e escolhe ir para o crime, aí eu consigo ver que tem alguma coisa moralmente errada lá, mas se não há outra escolha e a única saída é o crime, eu talvez tenha empurrado esse moleque para lá por não ter ido fazer alguma coisa ou por ter jogado na mão do governo resolver esse assunto e o governo não vai resolver, então eu deveria estar preocupado aqui com o que está acontecendo na minha esquina, o que está acontecendo aqui em volta? Eu tenho meu escritório aqui em Moema, estou num lugarzinho interessante aqui em Moema, cheio de gente em volta e o que está acontecendo aqui em volta? Será que eu devia estar preocupado com essa calçada, eu devia estar preocupado com a árvore, com o mendigo que está na esquina ou não? Ou devo largar isso tudo na mão de uma prefeitura que eu sei que não vai fazer, que vai demorar demais e vai cobrar caro. No momento em que eu acordar para essas coisas e começar talvez a fazer, eu começo a quebrar um paradigma que é aquele que existe hoje, eu escrevi a respeito disso aí, não sei se você lembra, tem uma estátua no Rio de Janeiro do Carlos Drummond de Andrade, na beira da praia no Rio de Janeiro, de quando em quando vai alguém lá e quebra os óculos do Drummond e outro dia foram uns caras lá e pintaram, picharam a estátua do Drummond e aí foi uma tremenda confusão, apareceu pichada e de repente um sujeito, que é dono de uma loja de tintas, foi lá, pegou solvente e ele limpou a estátua e apareceu na televisão e eu escrevi um texto a respeito, falando do cara que saiu da loja dele… por que você veio limpar a estátua? Ele falou eu estou na loja, eu vendo essas coisas, eu peguei o solvente, peguei o pano, vim eu aqui e limpei a estátua e todo mundo estava esperando que a prefeitura fosse lá limpar a estátua e esse cara vai lá e limpa a estátua e fala eu limpei porque eu acho que para mim é o meu dever fazer isso aí, tem gente que olhou para esse cara e achou esse cara um trouxa e eu acho que não é pouca gente,  o que esse idiota está gastando o tempo dele, o dinheiro dele, a  energia dele para vir limpar essa estátua quando a gente paga um monte de imposto e a  prefeitura não limpa, você vê o tamanho do nó? Então alguém tem uma decisão de praticar uma ação que não foi cobrada dele, que de certa forma se ele não fizesse aquilo não ia acontecer nada, ia ficara tudo como está e esse cara sozinho resolve e vai e pratica uma mudança, ele é olhado com desconfiança e vai parar na televisão por ter praticado uma ação que é tão diferente, é tão louca para nós que esse cara vira matéria, que esse cara fez? Ele pegou aquilo que é de todo mundo e considerou que é dele também e foi lá e falou eu vou cuidar daquilo que é de todo mundo porque também é um pouco meu e o brasileiro não sabe fazer isso, para nós o que é de todo mundo não é de ninguém e dane-se, está tudo largado e você começa a entender porque que essas coisas acontecem. Eu estou falando isso para, de novo, chamar aquela coisa do comprometimento individual, como eu como indivíduo tenho para que este país seja alguma coisa que preste. O Brasil não existe, o Brasil é um monte de terra, com umas árvores e uns bichos em cima, fauna, flora e o mundo mineral, o Brasil vai ser aquilo que esses indivíduos juntos fizerem. Se não tiver uma ação individual composta, eu mais você, mais um terceiro, mais  um quarto façamos alguma coisa acontecer, não vai acontecer nada, nós vamos botar o dinheiro na mão de uma mané lá em Brasília que vai juntar o dinheiro de todo mundo, vai dar a prioridade que ele acha que tem que dar, vai escolher aquilo que ele acha que tem que ser escolhido, nós vamos ficar esperando que ele venha resolver e ele não vem, então parabéns pelo trabalho que você está fazendo aí e se alguém quiser conhecer esse teu trabalho, quiser entrar em contato, quiser saber, eu quero entrar, eu quero te ajudar,  como é que faz? Aonde é que te acha?

Edu                Luciano, eu estou muito feliz de conversar com um cara que nem você que tem sensibilidade social, que tem essa visão, porque infelizmente isso não é comum. O que você fala do coxinha, eu acho que não tem problema nenhum não ser coxinha, de novo, não tem problema nenhum, eu tenho um monte de amigo coxinha e tenho vários amigos também petistas, tenho um monte de amigo, eu acho que as pessoas decidem ser  ou escolher uma área de pensar, o que eu acho é que a gente tem que olhar para baixo, eu acho que quem está em cima tem que ter a humildade de jogar a corda para quem está embaixo e dizer segura que eu vou puxar. Eu acho que é necessário, é necessário porque tudo o que vai, volta. Lá na ONG a gente tem um trabalho muito forte de tirar pessoas que…. do meu  pai, eu acredito que ninguém tem que morrer torto, então a gente tira muitas pessoas, a gente dá segunda chance para ex presidiário, muita segunda chance,  sabe  qual é o cara que é mais favorecido nessa história? Eu, porque a minha comunidade fica mais segura, o cara que podia me roubar, ele não vai mais me roubar e essa pessoa que eu dei uma segunda chance, que nós colocamos no mercado de trabalho, um dos caras que emprega o Geraldo Rufino na JR Diesel, esse cara cria um elo de confiança,  uma ligação emocional tão forte que o último cara que vai roubar a empresa é ele,  nem o último, ele não vai roubar, então o brasileiro precisa começar a pensar nisso que para a gente ter um Brasil melhor a gente tem que plantar um Brasil melhor para conseguir colher, ou a gente nem vai colher o que você falou, mas os nossos filhos, porque imagina os nossos moleques crescerem nesse país desse jeito e chegar… pô, então quer dizer, pelo menos pensando nos nossos netos, o que você falou é muito bom, realmente é longo prazo, não vai ser hoje e sobretudo um legado, eu acho que ninguém vai ficar discutindo, olha um vovô criou um chip para colocar nos… a família vai sentar ao redor da mesa  para falar pô, o vovô plantou uma árvore, pô o vovô sei lá, ajudou a curar o câncer, o vovô ajudou a melhorar a educação na escola X, o trabalho do vovô conscientizou milhares de pessoas, então acho que todo mundo pensa num legado, o que eu vou deixar como legado? Deixar só dinheiro no final os filhos vão brigar feito condenados, um vai querer matar o outro, vai dar o maior rolo e vai deixar o maior problema para a família, dinheiro é problema. Então a gente tem que pensar independente se  o cara tem vinte anos já começar desde agora a querer deixar um legado para quando as pessoas olharem para trás falar assim, meu o Daniel é um cara muito louco, além de fazer dinheiro mas tudo bem, ele fez legal, tem que fazer, não faz mal para ninguém fazer, mas o cara deixou um impacto no país, deixou um impacto na comunidade ou ele deixou um impacto na vida de dez pessoas, mas que a história  da Patrícia foi o Edu mas hoje olha o tanto de gente, é isso Luciano, eu acho que é isso e você participar desse processo de conscientização é um gol de placa com os seus programas, com as edições das suas entrevistas, das coisas que você faz. Para quem quiser conhecer mais o Gerando Falcões, a conversa tão boa que dava para ir até as cinco da tarde… gerandofallcoes.com, o site, nas redes sociais também Gerando Falcões.

Luciano          Não tem br no final?

Edu                Esse não tem br.

Luciano          gerandofalcoes.com

Edu                Nas redes sociais também todos Gerando Falcões, Facebook tudo Gerando Falcões, o meu pessoal é Eduardo Lyra, o Lyra com Y, quem quiser conhecer. Quem quiser ir lá visitar, que você falou é legal, e eu tenho uma responsabilidade nisso, porque se esse cara morrer sem consciência eu também tenho culpa porque eu não levei ele lá, por isso que todo sábado eu levo diversos executivos, diretores de empresas, universitários para passar o dia comigo dentro da favela,  eles entram nas casas dentro da favela, eles conhecem a dona Thereza, eles pegam na mão, eu falo assim, aquele ali está nas drogas, a culpa é sua também, e aí? Depois eles vão lá na Disney Favela, dentro do polo conhecer toda a transformação e na  hora de ir embora eu falo para o cara, Edu, que que eu preciso fazer? Eu falo cara, agora é com você, não sei o que você precisa fazer, o que seu coração pede para você fazer? Que aí o cara viu, então eu também tenho essa obrigação de derrubar muros e construir pontes, então quem quiser ir lá, é só marcar, é só agendar.

Luciano          Legal.

Edu                Eu tenho certeza que você nunca mais vai ser o mesmo e se você for o mesmo, realmente você é um insensível, é um coxinha.

Luciano          No mau sentido.

Edu                No mau sentido.

Luciano          Do coxinha como xingamento.

Edu                No mau sentido. É brincadeira esse negócio de coxinha é tudo brincadeira.

Luciano          Edu, grande, grande papo, você falou, dá para a gente ir longe aqui, mas valeu, valeu a recomendação do Geraldão lá. Eu vou mandar um agradecimento para ele. Eu quero ir lá um sábado desse aí, eu quero ir lá sim, quero conhecer mais e se tiver a chance de eu participar mais e ajudar mais, eu quero estar contigo nessa aí que eu acho que o trabalho que você está fazendo aí não há dinheiro que pague isso, tem um valor social que é uma coisa que realmente quem vai sentir isso é alguém lá no futuro que vai olhar para trás e falar, eu cruzei com um louco, um belo dia eu cruzei com um louco, minha vida estava indo para um lado, virou para o outro, cada trombada que eu dei nesse louco e tomara que tenha mais gente como você como a moça do Itaú lá, a moça do Itaú lá atrás que tenha essa consciência de olhar gente que está fazendo acontecer, acreditar naquilo e fazer crescer, é o único jeito de o Brasil sair do buraco.

Edu                E aí, Luciano, eu queria só agradeceras pessoas que me ajudam a fazer isso, a empresa, se você me permite falar, a empresa IS Logística é uma patrocinadora, o Guaraná Antárctica, Motorolla, a bala de mascar Menthus, a Universidade São Judas, o Gerações de Valor, são empresas, o Geraldão com a JR Diesel, são empresas que acreditam no Gerando Falcões, me dão a sustentabilidade, ok, para eu poder estar na favela fazendo transformações, então sem esses caras eu não conseguiria tocar a vida de  mais de cem mil jovens por ano, então sou muito grato a essas marcas e que venham mais. Pode vir que tem.

Luciano          Perfeito. Valeu meu amigo, um abraço.

Edu                “Tamo” junto.

 

Transcrição: Mari Camargo