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Ciça Camargo -

Luciano          Muito bem, bem vindo a mais um LíderCast. São 10:53 da manhã, do dia 25 de junho de 2016. Eu nunca digo a data aqui do programa porque o programa não pode ser datado, mas hoje eu fiz questão de dizer porque 25 de junho é o dia do meu aniversário e hoje especialmente eu estou fazendo 60 anos. 60 cara, e aí eu não podia perder essa oportunidade de gravar um programa muito especial, na data do meu aniversário com um convidado mais do que especial, porque se não fosse ele eu não estaria aqui e eu vou fazer as três perguntas mais complicadas do programa, se forem bem respondidas o programa vai bem, quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz.

Luciano D.     Luciano Dias Pires, estou atualmente com 89 anos e mais dois meses e contando nove meses na barriga da mãe, quase 90 anos. Aposentado como profissional de relações públicas e como jornalista profissional, porém continuo na ativa. Resido em Bauru há cerca de 87, 82 anos morando em Bauru e nasci na cidade de  Botucatu.

Luciano          E tem um atributo fabuloso que é o fato de ser meu pai, certo?

Luciano D.     Exatamente, uma alegria imensa.

Luciano          Eu com 60, ele com 89, 29 anos nos separam. A diferença e que o “véinho” está aqui a toda. Eu não podia perder essa chance de trazê-lo aqui. Nós vamos bater um papo aqui falando um pouco da história e vamos falar um pouco sobre liderança e empreendedorismo porque tem umas coisas que meu pai andou fazendo na vida aí, que de certa forma explicam o que é que eu faço hoje, como é que é o Café Brasil, mas já deu uma tinta aí, quando é que, nasceu em 1927, é isso?

Luciano D.     1927, correto.

Luciano          Faz tempo hein?

Luciano D.     Faz um pouquinho de tempo.

Luciano          Começa a contar um pouco da sua história lá em Bauru, como é que foi?

Luciano D.     Eu nasci em 27, o meu pai, naquele tempo dos coronéis tinha gráfica, naquela época não falava gráfica, era tipografia, e ele era… esse pessoal, quando montavam a tipográfica, eles também montavam pequenos jornais e meu pai sempre teve jornais aonde ele militou, em Avaré, Itatinga, mas a mãe dele, a minha mãe também colaborava. Tinha uma redação incrível. Naquela época o ensino era do grupo escolar, mas valia pelo antigo curso ginasial inclusive, ela tinha uma redação muito boa, escrevia os seus artigos, mas um dia… mas meu pai sempre foi contra os coronéis da cidade que ele se instalava tinha mania de ir contra o coronel. A mãe contava que ele ia, por exemplo, mudava uma cidade, ele ia cortar o cabelo, o barbeiro falava não, não  precisa pagar, o coronel já pagou. Ia comprar no açougue, comprar carne, quando pegar e embrulhava a carne o cidadão falava não, não precisa pagar, o coronel já pagou e ele ficava revoltado com aquilo Até que um dia o cidadão falou para ele o seguinte, Pires, você tem condições de ir embora aqui de Itatinga, ou outra cidadezinha, ir embora daqui o mais rápido possível que o coronel contratou uns capangas e vão acabar com a sua tipografia toda e meu pai conseguiu lá um caminhãozinho e juntou tudo o que ele tinha lá da casa dele, fez a trouxa de roupa e já com, acho que dois filhos, rumou para Botucatu e foi em Botucatu que eu nasci, mas lá ele não parou de mexer com política, a minha mãe falou, você vai trabalhar aqui em Botucatu mas nada de política, mexer com nada disso, você vai executar o seu trabalho e lá em Botucatu ele trabalhou na Casa Carlos, ao lado do João Martins Coube, fundador da Tilibra, também trabalhava lá…

Luciano          Tilibra grande indústria gráfica.

Luciano D.     … grande empresa de repercussão internacional. O João Coube veio antes para Bauru, meu pai veio depois, chegou em 29, eu nasci em Botucatu, aí ele voltou, em 29, levou a vidinha dele lá de gráfico, naquele tempo falava tipógrafo.

Luciano          O vô Quito e a vó Inhazinha.

Luciano D.     É. E minha mãe, ela nos meados dos anos 30, ela foi uma das primeiras mulheres que ingressaram no quadro funcional da estrada de ferro noroeste do Brasil, isso parece que foi em 35 e ela então passou a trabalhar nos escritórios da ferrovia, inclusive no prédio antigo, era lá no começo da 1° de Agosto, depois mudou para o edifício novo da ferrovia, a estação Danobe.

Luciano          A minha avó, se ela tivesse vivendo os dias de hoje, seria uma dessas militantes pelos direitos femininos, porque a “veinha” era brava, numa época em que a mulher era uma posição muito terciária na sociedade, estava lá, os homens tomavam conta de tudo e ela tinha uma personalidade forte, ela agitava, andava aqui em São Paulo com uma bolsinha, com uma arma dentro da bolsinha dela…

Luciano D.     Exatamente. Ela inclusive mantinha correspondência com o presidente da república, ou ministros, eu lembro uma época, por exemplo, eu trabalhava na noroeste, já havia ingressado na ferrovia também, por concurso, entrei na Noroeste no dia 1° de outubro de 45 e me inscrevi para ter…conseguir construir a casa própria através de um órgão ligado à ferrovia, a caixa de aposentadoria e  pensões dos ferroviários e começaram a protelar o meu pedido alegando que eu era menor de idade, que eu não tinha condições, não era  arrimo de família, aquela  coisa toda e ela começou a soltar as cartas dela, eu assinava para os  ministros responsáveis por aquele setor em todo o Brasil, até que veio a resposta que, uma resposta de um deles falando que era por isso que o Brasil tinha comunista, dessas atitudes que tomavam, que eu sendo ferroviário, maior de idade, perito contador, eu era formado em perito contador, eu tinha direito, não tinha nada de ir arriba, eu tinha direito adquirido de construir a minha casa e aconteceu realmente que eu adquiri a minha casa própria e, interessante,  para pagar em 20 anos, naquele tempo era tabela price, você começava a pagar a mesma prestação que ia até o final dos 20 anos, não mudava o valor da  prestação, você tinha aumento de salário todo ano e a  prestação, praticamente ia diminuindo, foi a maneira como eu adquiri a casa própria, graças à atitude da dona Inhazinha, que ela tomava mesmo providência, mandava carta para todo mundo, inclusive ela fazia crochê muito bem, ela fez um vestido de crochê para a Hebe Camargo, mandou para a Hebe Camargo o vestido de crochê, ela fez um vestido de crochê para a esposa do presidente Figueiredo, mandou para ele também, ela tomava atitudes assim que no dia de hoje, como você falou, poderia ser uma mulher líder.

Luciano          E é engraçado que ela estava em Bauru e ela não conhecia ninguém dessa  turma, ela tomava providência e escrevia para o ministro, tente você que está ouvindo a gente aqui imaginar você hoje mandando uma carta para um ministro e  recebendo uma resposta do ministro sobre aquilo que você está pedindo lá, era um outro mundo, era um outro tempo. Mas você foi estudar aonde?

Luciano D.     Eu…

Luciano          Começou estudando onde?

Luciano D.     Eu comecei estudando em Bauru, no Grupo Escolar Rodrigues Abreu, que era a primeira escola de nível privado de Bauru,  na Avenida Rodrigues Alves, eu fiz lá até o terceiro, metade do quarto ano, depois eu não sei porque, minha mãe me tirou do grupo escolar e já me colocou no antigo curso preparatório,  esse curso preparatório era o curso que você se  preparava para uma espécie de um vestibular para entrar no curso ginasial, você não podia entrar no curso ginasial, naquela época, sem prestar esse  concurso, esse pequeno vestibular. Aí eu fui fazer o vestibular, no colégio São José, mas lá não gostei, falei para a minha mãe que lá rezava toda hora, aí ela me tirou do Colégio São José, me colocou com a dona Tita, professora Sebastiana de Pádua Melo, ela é mãe daquela professora que escreveu vários livros sobre ensino, agora me foge o nome…. Débora de Pádua Melo, uma professora bauruense que tem vários livros editados sobre ensino, vários setores do ensino e foi a pior viagem para mim, porque era uma mulher brava e eu falei assim, por que que eu não fiquei no colégio São José rezando? Lá era muito mais vantagem, ela era brava e Nossa Senhora, não tinha jeito. Mas a trancos e barrancos eu terminei esse preparatório, prestei o concurso…

Luciano          Como é que era? Não era uma sala de aula com vários alunos? Era uma professora…

Luciano D.     … era uma sala, a dela era uma casa onde ela residia, tinha duas salas, uma sala ficava os rapazes, os meninos em volta de uma mesa grande, 10, 15 meninos e na outra sala ficava outra mesa grande com as meninas também em volta da mesa, quando você fazia qualquer traquinagem, ela ameaçava colocar você no meio das meninas, mas naquela época você… não é como hoje, naquela época você ficava desesperado, não, sentar no meio das meninas não vou, hoje é diferente, hoje…

Luciano          Hoje a molecada quer

Luciano D.     … hoje o moleque quer sentar no meio das meninas e ela então foi exigente. Aí veio o dia de prestar o exame no ginásio do estado, era o ginásio mais eficiente da cidade, tínhamos o Liceu Bauruense, o Guedes e o colégio das irmãs, escolas particulares. Agora já no estado já era difícil o ingresso lá, eram grandes professores e eu fui prestar então concurso para entrar no ginásio do estado, no edifício que existe ainda lá em Bauru, uma escadaria íngreme e eu fiz o concurso, meus pais como é, foi bem? Acho que deu, dá para passar e aí marcaram para ir buscar, ver o resultado um dia X, então naquele dia eu fui arrumadinho, pus terno, gravata e fui lá para o ginásio, o ginásio do estado para ver…

Luciano          Que ano era isso?

Luciano D.     … isso foi mais ou menos em, acho que em 38, 1938…

Luciano          11 anos.

Luciano D.     … é, 11 anos, aí fui lá, quando cheguei assim na frente do portão de entrada, aquela escadaria, o servente estava parado, ele falou, você é Pires não é? Eu falei sou Pires, eu era mais ou menos conhecido porque o meu pai tinha gráfica, falei sou Pires, então vem comigo. Aí subi aquela escadaria com o servente, arrumando tudo a gola do paletó, da gravata, falei acho que acabei com o exame aí, passei em primeiro lugar, agora vou ser até homenageado aqui hoje, aí o cidadão foi comigo, parou em frente uma porta lá, na porta tinha uma lista dos que… do pessoal aprovado, ele pôs o dedo em cima, desceu o dedo até lá embaixo e mostrou  meu nome, último colocado, ele falou você passou em último lugar, não tem vaga. Eu cheguei em casa, aí eu mudei, cheguei em casa gritando passei, passei no ginásio do estado, só que não tem vaga, aí minha mãe foi saber lá o que aconteceu aí falou não,  ele passou em último lugar, a não ser que haja alguma desistência ele pode assumir, mas se não houver, não tem vaga para ele. Aí matricularam no Guedes Azevedo e minha vida acadêmica, estudantil, eu fiz todinha no Guedes, quatro anos ginásio, três anos de, aquela época a gente falava perito contador, era uma espécie assim de economista e depois assim já de adulto, bem adulto, passados vários anos, eu fiz o curso normal à noite no… eu procurei professores, era uma família de professores muito querida em Bauru, os Guedes de Azevedo e uma vez eu procurei e falei para eles, eu falei tem um grande número de jovens que quer fazer o curso normal à noite, mas eles trabalham, como eu trabalho na Noroeste, não tem jeito de fazer o curso durante o dia, eles falaram não, você traga para mim um abaixo assinado com mil assinaturas ou perto de mil, que nós vamos tentar criar esse curso à noite. Aí eu andei na rua, debaixo de chuva, de sol, com o abaixo assinado, pegando assinatura do pessoal e levei lá um grande número de assinaturas, entreguei lá para eles, aí eles conseguiram aprovação do curso normal à noite e eu fui fazer o curso normal, no período noturno, dois anos, passei e lá conheci aquela que hoje é minha mulher, Helena, ela fazia o curso normal à tarde e aliás nós tivemos vários entreveros, eu com ela, com a comissão de festa, porque o curso normal à noite era um pessoal mais adulto, pessoas casadas, aquela coisa toda, não era pessoal de festa nada, tinha os mais jovens como eu assim, mas também não estava a fim de festa e o pessoal da tarde não, as meninas queriam festa, aquele grande baile, entrega de diploma, aquela coisa toda, queriam festa e tudo e para ir se preparando e a turma da noite era contra e a gente entrou em atrito assim várias vezes, mas não aconteceram maiores problemas, eu me formei, fui receber meu diploma inclusive, mas nunca lecionei, o meu diploma de professor ficou na gaveta, não lecionei até hoje.

Luciano          Com que idade começou a trabalhar?

Luciano D.     Eu comecei a trabalhar mesmo, eu trabalhei nas Casas Pernambucanas, no escritório das Pernambucanas em 1943, por aí, depois da Pernambucanas…

Luciano          Espera ai, 43… 27 para 43… dá… 16 anos.

Luciano D.     … 16 anos, comecei a trabalhar no escritório da Pernambucana e lá  aconteceu uma coisa engraçada. Na hora do grande movimento, às vezes a gente saía também do escritório para auxiliar no balcão, auxiliar no balcão e aí um dia estava lá aquele movimento, aquela coisa toda, tinha um sub gerente da Pernambucana, o seu Raimundo, tinha uma vasta cabeleira, ele era um homem lá muito assim… muito vivo tudo e tinha histórias de mulheres também com ele e ele tinha uma certa convivência com as meninas da zona de meretrício em Bauru e…

Luciano          É o famoso puteiro.

Luciano D      … e ele… e um dia nós telefonávamos lá para ele encomendando e ele mandava assim amostra de tecidos de seda elas escolhiam, o rapaz anotava tudo, voltava, fazia nota fiscal, entregava e  não tinha ninguém para ir naquele dia lá, eu tinha 16 anos ainda, quer dizer,  menino não tinha malícia, não tinha nada, ele falou Luciano, você vai lá na zona, falei eu, na zona? Ele falou não, você vai. Mas eu não sei, nunca fui lá, não sei o que é isso aí. Não, você vai lá, procura lá a fulana, ela está esperando, você vai e leva essas amostras, vai mostrar lá para ela e ela vai escolher, você anota tudo e depois vem aqui, tira a nota e manda os panos, recebe tudo. Eu falei mas eu, logo eu? Não, não tem outro, é você mesmo e lá fui eu para a zona de meretrício, bobão, cheguei lá na casa X lá que eu vi o endereço, o número, comecei bater palma, bati palma, não vinha ninguém, o cidadão passou perto de mim e falou ô menino, aqui não se bate palma, aqui já vai entrando direto, aí eu falei bom, vou entrar, subi, aí veio uma madame lá de calcinha e sutiã me atender olhando lá, o Raimundo mandou? É mandou aqui as amostras, senta aí. Aí chamou as outras colegas lá também, as outras entravam, olhavam para mim com um sorriso, eu com a cabeça no meio das pernas lá com uma vergonha, desesperado, falei que hora que vai acabar essa reunião aqui, não aguento e elas cochichando olhando para mim, aí que terminou, eu quero esse, esse  pano, tantos metros, tomei nota, uma escadaria, desci aquela escada de cinco em cinco degraus, a hora que eu saí na rua eu fiquei tranquilo…

Luciano          Ah meu Deus, me fala uma coisa, quer dizer, eu vou dar a volta depois vou voltar aqui atrás, naquela época, nas cidades do interior, a zona não era o que é hoje, hoje se desmanchou isso tudo, hoje se perdeu completamente isso, mas naquela época tinha uma importância até social na  cidade porque, eu me lembro que era muito característico, você tinha lá, era o delegado de polícia, o padre e  a dona do puteiro, então era um…o gerente do banco e isso tinha um papel importante no desenvolvimento da sociedade como um todo o fato de existirem ali a zona do meretrício e era um negócio que era recebido com preconceito, mas ao mesmo tempo, no caso de Bauru, por exemplo, que tinha a Eny, o pessoal tinha um respeito gigantesco por ela porque ela tinha uma prática social na cidade e tudo mais, como é que era essa história dos puteiros naquela época?

Luciano D.     Em Bauru era o seguinte, Bauru a zona do meretrício independente da Eny, bem antes da Eny, era famosa porque ela começou a surgir inclusive com o crescimento da cidade e aquela construção da Noroeste do Brasil, chegada da Sorocabana, chegada da  Paulista, aqueles milhares de operários, eu faço a comparação com esses filmes de cowboy que é a ferrovia chegando na cidadezinha, aquele salão, aquela mulherada, era assim, era famosa, tinha até francesas na zona do meretrício,  ela funcionava…

Luciano          Deixa eu fazer uma pausa aqui só para quem está ouvindo a gente aqui e não conhece um pouco da história, Bauru estava situada assim, era a fronteira do estado de São Paulo, dali para a frente ia para o Mato Grosso, era mato e Bauru foi escolhido para ser um ponto de partida de onde a ferrovia saiu  para invadir o oeste do Brasil, foi dali e acabou virando entroncamento ferroviário, então virou o maior entroncamento ferroviário quando três ferrovias se encontravam ali e a  expansão de Bauru no momento em que houve a decisão da ferrovia começar a construir foi uma coisa louca porque de repente a cidade foi invadida por operários e acabou virando uma história de uma cidade que cresceu em função da ferrovia, então isso que meu pai está falando aqui agora é exatamente essa coisa de você, a partir daquele ponto, receber estrangeiros, gente do mundo inteiro que equivale hoje àquele pessoal que vai fazer os garimpos, chega no lugar, domina aquilo, e chega tanto garimpeiro, imediatamente cria-se do lado um prostíbulo. Não é?

Luciano D.     É, a Noroeste ela surgiu nos primeiros estudos, foi em virtude da guerra contra o Paraguai, que as tropas brasileiras tinham dificuldade para chegar aos campos de batalha, porque não tinha, era através das matas, através de rios tudo e o Barão do Rio Branco, na época, ele achou que devia ser construída uma ferrovia para ligar o Mato Grosso ao resto do Brasil, então surgiu o estudo, a Noroeste do Brasil, o início dela inclusive foi escolhido a partir de Bauru, antes porém a primeira ferrovia a chegar a Bauru foi a Sorocabana, a Estrada de Ferro Sorocabana, através de um ramal de Rubião Junior até Bauru, então a partir de 1905, Bauru já ficou ligada a São Paulo através da Sorocabana, você pegava o trem em Bauru e chegava em Rubião, fazia baldeação direto para São Paulo, a Noroeste do Brasil foi inaugurada em 1906, primeiro trecho da Noroeste de Bauru até Avaí, uma cidadezinha localizada a trinta e poucos quilômetros de Bauru, mas ela continuou, não houve assim interrupção na sua construção apesar dos problemas dos índios, problema de febre, doença, animais selvagens, mas a construção dela continuou, foi indo, foi indo até ela atravessar, inclusive, o Rio Paraná, com a ponte Francisco de Sá, depois parar nas margens do Rio Paraguai, atravessar o Rio Paraguai com a  ponte Barão do Rio Branco,  que é o orgulho da engenharia brasileira da época, chegar até Corumbá, na fronteira com a Bolívia e a Noroeste tinha um ramal que ia até Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, então a Noroeste era ligada a duas fronteira, é muito importante, em 1910 chegou a Paulista, a Companhia Paulista já vinha vindo, estava em Jaú, depois Pedreira e atingiu Bauru transformando a cidade de Bauru no maior entroncamento ferroviário do Brasil e quiçá da América do Sul, porque no estudo que existe sobre a ligação ferroviária de 2 oceanos, Oceano Atlântico no chile e oceano Pacífico em Santos…

Luciano          Ao contrário… Atlântico em Santos e Pacífico no Chile.

Luciano D.     … é, o Pacífico no Chile e o Atlântico em Santos, são 4 mil quilômetros para a ligação ferroviária se completar e só a Noroeste tinha 40% desse total, a Noroeste tinha 1600 quilômetros e a Noroeste foi de grande importância no progresso de Bauru e com esse movimento, gente que chegava a toda hora, a cidade, o plano da cidade mudou, tinha uma rua, Araújo Leite, que era a rua principal, ela perdeu a vez para Rua Batista de Carvalho que começou a sair de frente à estação, chegar até na parte central, transformou todo o centro de Bauru, os comerciantes e a cidade começou a crescer barbaridade e se transformou assim num eixo, Bauru, uma liderança na região toda e surgiu então esse problema, problema não, essa presença das mulheres, criando a zona do meretrício de Bauru bem no centro da cidade, era na rua, tinha o nome de Rua Costa Ribeiro e depois mudaram o nome para Rua Presidente Kenedy, era Rua Costa Ribeiro em 3 quadras…

Luciano          Foram botar o nome do Kenedy na rua do puteiro.

Luciano D.     … então das 3 quadras que existiam nessa rua Costa Ribeiro, famosa e tinha influência francesa, tem o Cabaré Maxims, tinha o Bar Paris Noturno, Bauru tem muita influência francesa na cultura e nome de locais, tinha uma firma na Rua Batista, a Parisiense e ali chegavam mulheres até francesas, tinha a Sinhá, por exemplo, declamava em francês, mulheres escolhidas ali e aquele movimento muito grande até que como a cidade cresceu em volta dessa rua, ela ficava no centro e até eu brinco muito com o coronel Ozires Silva, quando eu falo para ele, eu comento em reunião com ele, em festa, eu falo ó gente, o coronel Ozires Silva, quando era rapaz, era moço, ele tinha uma vantagem sobre nós colegas dele. Por quê? Porque ele morava há dois quarteirões da zona do meretrício, a residência dele, então eu brinco muito com ele sobre esse aspecto e a cidade então foi crescendo, foi desenvolvendo, até que uma certa época, não sei se foi nos anos 60, resolveram mudar …

Luciano          Tirar do centro da cidade.

Luciano D.     … foram tirar do centro da cidade, foi para um lugar bem afastado…

Luciano          O formigueiro.

Luciano D.     … foi  apelidado de formigueiro e lá foi instalado inclusive uma casa, casa das pedras, de uma das frequentadoras da antiga zona, uma casa tipo da casa da Eny, Antonia que era a dona, lá tinha essa casa das  pedras,  outras casas, com o tempo isso aí foi desaparecendo, acabou de uma vez e quando a Eny ficou no trevo…

Luciano          Deixa eu contar um lance interessante aqui, nos anos 70, talvez tenha sido em 72, 73, eu acho que eu tinha 18 anos, uma coisa assim, o formigueiro era um núcleo, a  Eny era outro núcleo, a gene vai falar um pouquinho mais dela aqui, e ali dentro do núcleo do formigueiro, tinha de todos os níveis, o que pudesse imaginar, mulher de todo nível e a casa das pedras era o melhor, era a  melhor instalação que tinha lá dentro do formigueiro e ela  ficou muito tempo meio perdida lá, meio parada e houve uma reconstrução e foi reinaugurada e nessa reinauguração o pessoal fez um negócio legal lá e mandou convites para todo mundo e chegou um convite na minha casa para o meu pai, um convite para o meu pai ir na inauguração da casa das pedras, evidentemente que eu não sei nem se ele viu, se ele ia, mas eu sei que eu peguei o convite, catei o convite, a hora que eu vi eu falei puta merda, peguei um amigo meu e fomos nós dois no  lugar do meu pai com o convite do meu pai para a inauguração da casa das pedras e eu também moleque de tudo, fomo eu e… o Guilherme que hoje é meu cunhado, fomos nós 3 lá e chegamos lá, chegamos eu, o Guilherme, filho do Tuta, Tuta super conhecido em Bauru, Guilherme chegou lá, sou filho do Tuta, ah  o Tuta, entrou, sentamos numa mesinha ali, teve show, teve show de artista paulista, foi uma coisa impressionante, uma baita festa que eu acabei com 17 anos talvez, frequentando ali por causa do convite que chegou para o meu pai. Mas eu estou contando essa história toda para mostrar como essa questão da zona do meretrício estava imbuída na sociedade, quer dizer, não era aquela coisa fora do ambiente social, fazia parte da cola social manter a zona do meretrício e aquele era um lugar de grandes encontros, era um lugar de reuniões e o exemplo acabado disso foi a Eny, como esse programa aqui é um programa de empreendedorismo e liderança, vamos conversar um pouquinho, conta um pouquinho essa história da Eny, porque a Eny é um grande case de empreendedorismo que olha, para ser repetido vai ser complicado aqui no Brasil.

Luciano D.     É a Eny, ela funcionou inicialmente lá na zona do meretrício do centro da cidade, mas não na rua Costa Ribeiro, que depois mudou de nome para rua, o nome atual lá, presidente Kenedy, ela ficava na Rio Branco, perto da Costa Ribeiro, ela adquiriu, era uma pensão, era uma cidadã daquelas donas da pensão vendeu para a Eny e ela ali começou a explorar, trazer moças bonitas de vários…

Luciano          Quer dizer, a Eny já começou como dona?

Luciano D.     … é, ela comprou, eu acho que quando ela chegou em Bauru ela frequentava alguma dessas casas, depois…

Luciano          De onde ela veio? Sabe de onde ela veio?

Luciano D.     … hein?

Luciano          Sabe a origem dela?

Luciano D.     … eu não sei, acho que é do sul, Rio Grande do Sul, não sei bem, não estou bem lembrado e ela…

Luciano          Eny Cezarino o nome dela.

Luciano D.     … é, Eny Cezarino. E ela adquiriu essa pensão, acho que pensão localizada talvez na Costa Ribeiro, depois ela mudou para essa casa melhor na rua Rio Branco, logo que chegava, era a primeira casa encostada na rua mesmo da Costa Ribeiro que era o grande centro, o grande centro assim da zona do meretrício…

Luciano          Que ano nós estamos?

Luciano D.     Não sei, acho que na década de 50, 40, 50, a Eny começou ali a frequentar e  trazendo moças bonitas, bem arrumadas, bem vestidas, não exploravam nada os clientes e começou a ser um centro de presença assim de empresários, de políticos, tinha alguns que chegavam, fechavam a casa por conta deles mesmos, não entrava mais ninguém, ficava lá aquela festa de madrugada e a Eny é o seguinte também, aconteceu um fato interessante uma vez, eu recebi a visita de um casal na minha casa para ver números antigos de jornal que eu faço, histórico de Bauru e começamos a conversar e a moça falou pois é, a minha mãe adora esse jornal, quando ela recebe ela fica vendo o jornal, lê e comenta, eu falei e seu pai, o que que faz? Ah meu pai está meio doente e tal. Mas ele trabalha com o que? O que ele fazia. Aí ela virou para o marido, posso falar?  O marido ué, fala. Posso falar mesmo? Fala. A minha mãe falava que ela foi a maior mulher da vida de Bauru, ela vendeu para a Eny a pensão dela, a Eny transformou naquela casa dela lá, a Eny que ganhou as honras todas da grande prostituta, mas fui eu que comecei, um dia ainda vou falar isso, vou dar essa história toda, que não admito que ela receba as honras de ter sido a mulher, a melhor mulher da zona de Bauru enquanto eu fiquei no esquecimento. Eu não falei mais nada.

Luciano          E o senhor descobriu que estava conversando com uma legítima filha da puta.

Luciano D.     Eu não entrei mais no assunto, eu lembrei da carinha dela, entendeu? Aí que eu lembrei da cara, quando era mocinho em Bauru, mas é uma história muito grande, muito bonita, mas esse programa da zona do meretrício foi em virtude mesmo do crescimento impressionante de Bauru naqueles anos, anos 20, anos 30, na presença das ferrovias.

Luciano          Mas vamos, fala um pouquinho mais da Eny. A Eny então criou esse ambiente que… ela conseguiu essa notoriedade pela qualidade do que ela levou realmente a matéria prima era de primeira qualidade e ela cresceu tanto que nesse  movimento todo em que o pessoal saiu e agrupou a zona do meretrício lá no formigueiro, a Eny escolheu ir  para outro lugar, ela se desligou dali e foi para um lugar que não tinha nada a ver com o formigueiro, era outro ponto…

Luciano D.     Tinha que sair da onde ela estava, na rua Rio Branco e  tinha um pormenor, quer dizer, em vários setores era muito respeitado. Um dia foram as mulheres da vida lá, o delegado mandou fazer o levantamento das mulheres da vida, fichar, elas eram fichadas, elas se submetiam inclusive a exame médico e um dia estavam lá na delegacia, aquele grupo de mulheres, inclusive a Eny. Aí o investigador lá, o policial foi falar com o delegado, o delegado era novo em Bauru. Ó doutor, a Eny está no meio delas, a Eny chegou mais tarde mas está aí a Eny, Eny Cezarino, Cezarino? Ela falou o que que tem a Eny? A Eny é uma puta igual às outras, ela vai esperar a hora dela ser atendida e foi, ela ficou lá sentadinha tudo, atendeu todas as mulheres, fazer ficha, aquela coisa toda e passado um tempo ela teve que se locomover, sair daquele, estavam mudando tudo, ia acabar toda a zona lá, nessa rua Costa Ribeiro, então aí ela  adquiriu lá uma área, uma grande área de terra lá no trevo de Bauru e Pauçú, e lá ela construiu aquela casa muito bonita, com piscina tudo e se tornou famosa. Uma vez era tão conhecida a Eny depois, eu viajei para a Europa uma vez de navio e lá conversando com o pessoal, o grupo de brasileiros, um deles falou ah você é de Bauru? Falei sou. Era um médico, acho que do Rio Grande do Sul, ele falou e a Eny, como é que está a Eny lá em Bauru? Falei está firme lá, a casa da Eny e tudo, fiquei pensando, eu estou aqui no meio do oceano Atlântico aqui, o médico lá do Rio Grande do Sul veio perguntar sobre a Eny. Ela ficou famosa mesmo.

Luciano          Ficou, no Brasil inteirinho e ela construiu realmente uma estrutura gigantesca, quem conheceu aquela casa sabe como é que era aquilo, era um negócio muito bem construído, de primeira linha, longe da cidade, quer dizer, não tinha nada em volta, estava enfiado no meio de um local bastante ermo ali e diz a lenda que iam para lá governadores, presidentes da república, aquilo era frequentado e o pessoal vinha de São Paulo para ir conhecer a Eny por causa da qualidade do serviço que ela prestava.

Luciano D.     Uma vez eu como, na minha função de profissional de relações públicas da Rede, sempre recebia a visita dos engenheiros que vinham da rede do Rio de Janeiro, de São Paulo, recebia lá aquelas reuniões que eles tinham, reuniões de estudo, aí uma tarde, uns três  ou quatro deles queriam conhecer a Eny e como é que a gente vai lá? Falei não, eu levo vocês, acompanham vocês lá à noite. Aí fomos no meu carro, fomos lá na Eny, ai quando entramos assim no estacionamento,  estava cheio de carro, uns 10 carros, tudo carro último tipo, importado, aquela coisa toda, aí um diretor falou assim, ah Luciano, vamos fazer o seguinte, já está cheio de gente aí já, vamos embora, vamos voltar para a cidade, vamos jantar,  não sei o que, falei não, aqui é tranquilo. Esses carros aí são das meninas que frequentam aqui, são meninas de luxo, são meninas sensacionais, são ricas, tem menina aqui que estuda filosofia, estuda em faculdade e tudo, aí entraram lá, foram lá fazer uma visita, então isso demonstra a pujança assim da Eny naquela época.

Luciano          E tinha uma importância social aquilo, isso merece um estudo de caso pela visão que ela teve. Bom, anos depois quando a Eny, a Eny foi esse sucesso todo ao longo dos anos 60, foi uma coisa fantástica, foi ao longo dos anos 70 e foi terminar no final dos anos 70, que aí ela morreu e aquilo acabou e…

Luciano D.     Acabou, ela ficou doente, teve um problema na vista, ficou muito doente, o pessoal que trabalhava com ela meteu a mão também, ajudou muita gente, gente que ela ajudou se virou contra ela também, entendeu? Teve um fim triste depois a Eny.

Luciano          E o enterro dela foi um grande acontecimento na cidade, porque estava todo mundo lá.

Luciano D.     Exatamente.

Luciano          Inclusive seu Luciano estava lá, não estava?

Luciano D.     Não lembro se eu fui lá, se eu fui eu fui assim em termos profissionais, cobertura para os jornais.

Luciano          Tá bom… Mas eu fiz questão de chamar isso aí porque realmente essas histórias das cidades do interior, todas elas tem uma história parecida aí. Mas aí seu Luciano, tem uma historinha interessante da dona Inhazinha fazendo um uniforme que você foi trabalhar ela botou um uniforme…

Luciano D.     Ela fazia… Ela costurava toda roupa minha, tem duas histórias assim, um dia ela achou lá um corte de um pano preto no fundo de um cesto lá de tecido, coisa que ela guardava, ela fez uma camisa preta para mim, eu tinha acho que uns nove anos, naquela época, usar roupa, qualquer peça de roupa preta era sinal de …

Luciano          luto…

Luciano D,     … de luto, uma mulher com vestido preto, o homem com terno preto, camisa preta, era luto, é que morreu alguém, ela fez a camisa preta, eu vesti, fui para a escola, no caminho os meninos lá, ô Luciano, quem morreu na sua casa? Aí cheguei lá no grupo escolar, os outros quem que morreu? Eu: não, não morreu ninguém, estou usando essa camisa sem… cheguei na classe sentei, a professora, ah coitadinho do Luciano, quem que morreu na sua casa? Falei não, não morreu ninguém, minha mãe fez essa camisa aqui. Acabou a aula lá, fui para a casa correndo do local que ela achou o pano preto foi jogado também a camisa preta que eu nunca mais usei a camisa em virtude daquele lá. Mas tem um outro fato interessante, eu fui trabalhar, tinha um cidadão lá, um maestro em Bauru, era um… tocava lá não sei que instrumento, era Radamés, o nome dele era Radamés Mosca, Mosca, esse era o nome dele, o sobrenome dele, Radamés Mosca, ele era maestro lá em Bauru, tinha escola de música tudo e um dia meu pai conversou com ele, falou ô Radamés, você não tem um emprego ai para o meu filho trabalhar, é menor e não sei o que, ele falou ah, eu tenho aqui um trabalho para ele sair, fazer compra, aquela coisa toda, ele falou então, vamos ver, ele falou você não precisa nem pagar para ele o salário, ele vai aprender música em troca de trabalhar para você, em troca ele vai aprender música aí com sua esposa, violão, piano. Ah vamos fazer isso aí. Só que eu tenho uma ideia, vamos fazer uma roupa diferente para ele para destacar a minha escola, aí ele desenhou uma roupa, um tipo daquele uniforme que não sei se existe hoje ainda nos hotéis americanos, ficava na porta do hotel para carregar mala, aquela jaqueta vermelha, calça azul com friso cor de rosa, aquele chapeuzinho redondo na cabeça, preso embaixo do queixo com elástico, ele desenhou e mandou para a minha mãe fazer e minha mãe fez, costurou fez, experimentou, aquela jaqueta com as pontas, tudo bem colorido, o chapéu acho que era verde, a camisa, a jaqueta vermelha, calça azul com amarelo, um friso amarelo e eu saio na rua com aquilo lá, eu trabalhava há uns dez quarteirões, eu morava nos altos da cidade e o escritório dele, a  escola era no centro de Bauru, na rua Araújo Leite quase esquina com a Batista de Carvalho e vou eu pela rua rapaz, descendo, andando lá e o pessoal, a molecada, aí palhaço, o carnaval não chegou ainda, onde que é a festa hoje palhação? Cheguei lá ele falou muito bem, ficou boa a sua roupa, só que essa pontinha da jaqueta aqui você tem que falar para a sua mãe cortar um pouquinho mais, você já vai sair agora, você vai lá na Tilibra fazer umas compras para mim lá de caderno, papel e lá vou eu rapaz, sai lá da rua Araújo Leite, entro na Batista de Carvalho,  em pleno centro da cidade, ando cinco quarteirões no centro e todo mundo dando risada de mim, ê palhaço, carnaval, não sei o que, fui lá na Tilibra, fui comprar as coisas, voltei, entreguei, quando chegou seis horas fui para a casa, arranquei tudo e falei eu não volto mais nesse homem nunca mais, joga essa roupa ai, não quero mais e não voltei mais no serviço, aquilo ficou gravado na minha mente aquela roupa que eu saí na rua.

Luciano          Vamos lá, como é que entra a imprensa na sua vida?

Luciano D.     A minha vida na imprensa é o seguinte, eu sempre gostei de futebol e nos tempos, nos anos 40, talvez até no início de 50, nós tínhamos o grande locutor esportivo, na Rádio Tupi, era o Aurélio Campos, grande nome do rádio de São Paulo, era o mestre de cerimônia do rádio, foi mestre de cerimônia na televisão, depois foi eleito deputado federal. Eu era um fã, ele era um grande locutor, o que ele falava no rádio, comentava, a gente tinha que seguir estritamente, porque ele falava, criticava o jogador, era atuante no rádio, era um grande nome do rádio na época e eu então gostava barbaridade da narração dele, tinha os comentaristas, Geraldo Bretas, outro comentarista, Ari Silva e  eu era fã dele, eu falei puxa vida, um dia eu quero ser locutor de  rádio, que nem ele. Lá perto da minha casa o campinho de futebol que a molecada jogava, eu costumava pegar uma latinha de massa de tomate vazia, como fosse o microfone, eu ficava irradiando aqueles lances da molecada jogando e fiquei conhecendo lá depois, em 34 inaugurou a Bauru Rádio Clube, a estação de rádio, meu pai tinha uma gráfica lá perto, eu sempre ia lá na emissora, ficava vendo assim o locutor falar e ficava pensando, como é que o cara fala aqui e sai lá no rádio, lá no outro quarteirão, a voz dele sai lá do outro lado e eu ficava lá sentado vendo o cara falando e depois teve uma copa do mundo em 38, meu pai foi ver a transmissão de rádio primeira, Galeano Neto transmitiu a copa do mundo, os jogos do Brasil e meu pai então… quando inaugurou a  Rádio Clube, meu pai e o sócio foram a São Paulo e pegaram representação de rádio para vender na frente da papelaria da gráfica, era Rádio Piloto e Rádio Cacique…

Luciano          Aparelho de rádio.

Luciano D.     … aparelho de rádio, então ele punha lá, ficava ligado o dia todo ouvindo a g8, a Bauru… por isso que eu ficava andando lá, ia ouvir falar, como é que fala aqui, sai aqui, aquela coisa toda e na copa do mundo ele retransmitiu, a retransmissão pela Rádio Mairinque Veiga, Galeano Neto e ele fez a instalação para retransmitir o jogo, encheu de gente lá em frente na… a gráfica dele ficava ali na rua, na quadra Seis da Primeiro de Agosto, em frente ali onde funcionou muitos anos o  Hotel Central…

Luciano          Só um detalhe para você que está ouvindo aqui, lembre o seguinte, que nós estamos em 1938, o que meu pai está dizendo é que ia ser transmitida uma copa do mundo, que era uma novidade absoluta a copa do mundo transmitida pelo rádio e o pessoal se reunia na rua para ouvir o áudio que estava sendo transmitido porque era uma novidade absoluta, quer dizer, rádio em rede mundial, isso já era uma novidade absurda naquela época.

Luciano D.     … é, porque naquele tempo nem todo cidadão tinha condições de comprar um rádio, não tinha aquele plano que tem hoje, cinquenta meses, não tinha nada disso, então o pessoal ia lá para, quem tinha rádio em casa, juntava trinta, quarenta, cinquenta pessoas para ouvir a transmissão. Esse campeonato o Brasil chegou lá sem qualquer credencial para esse campeonato, começou a ganhar os jogos e aquilo, por exemplo, cinema, eu ia ao cinema na vesperal, na hora do jogo não podia perder o filme do Flash Gordon, então eu ia na vesperal do cinema, durante o jogo e quando o Brasil marcava um gol, eles cortavam o filme,  aparecia na tela, Brasil 1 x Tchecoslováquia 0, era aquele povo dentro do cinema gritando, pulando, os adultos e as crianças, então ele instalou aquela venda de rádio e eu ficava ouvindo, e começou a crescer em mim um interesse pelo rádio.  Aurélio Campos, aquele meu ídolo em rádio, foi indo, foi indo e não dava certo em Bauru, depois que eu já adulto, já trabalhava na Noroeste, mas não dava certo teste, nada, na emissora de Bauru, aí um dia eu chutei o balde, eu pedi demissão da Noroeste, eu era funcionário por concurso, eu pedi, saí de férias no mês de janeiro de 1948 e fui embora para São Paulo, de lá eu fiz uma carta pedindo demissão, arrumei emprego na rua Paula Souza, número 497, pertinho da rádio Bandeirantes que funcionava na Paula Souza e eu na hora do almoço lá eu saia mais cedo, ia lá, comia alguma coisa e ia lá no auditório ficar ouvindo o cara falando na rádio e eu tinha parentes que trabalhavam em rádio em São Paulo, o Mauro Pires, na Rádio Difusora, Capitão Furtado era Evaldo Pires, na Tupi, tinha também na Bandeirantes o Tirso Pires e o Alceu Pires, o Tirso inclusive escreveu um livro sobre a história do rádio, foi publicado em 51, tenho um volume desse livro contando a história do rádio no Brasil, eu pedia para eles, me arruma aí um teste, aquela coisa toda e na Bandeirantes foi impossível, aí um dia o Mauro me telefonou, arrumei um teste aqui, você vem em tal dia aqui, eu ia lá, não dava certo, até um dia deu certo, mas nesse dia foi engraçado, eu estava sentado lá no corredor, na Rádio Tupi,  ou Difusora ou Tupi, sentado esperando ser chamado, aí uma hora eu vi lá, passou por mim a Hebe Camargo, menina ainda, meninota, Demerval da Costa Lima, eu conheci esse pessoal, Nagib Curi, outro grande nome, fulano, o maestro Erlon Chaves passando por mim ali, eu sentadinho ali no banco. Aí de repente eu olho lá longe vinha vindo Aurélio Campos, rapaz, o meu ídolo, ele vinha andando, falei nossa, o Aurélio Campos, ele passou por mim assim, olhou para mim e falou “Bom dia jovem”, nossa eu escorreguei na cadeira, quase que eu cai na cadeira, receber um bom dia do grande Aurélio Campos, aí apareceu outro monstro sagrado do rádio, Homero Silva, que é outro grande nome, apresentador do rádio e televisão, foi deputado estadual também, ele tinha um programa Clube Papai Noel, que revelou muitos cantores, inclusive a Hebe Camargo, o Erlon Chaves, maestro, revelou muitos nomes do rádio em São Paulo e ele chegou lá e falou, você que é o Luciano, primo aí do Mauro? Falei sou. Vem comigo. Ele, acho que atarefado também, muito problema lá, ele me chamou, está vendo aquele estúdio, você vai lá, toma um texto aqui, você vai naquele estúdio, microfone, lê esse texto eu fico aqui ouvindo, mas não me deu o texto bem antes para mim ler assim, olhar, dar uma lida antes, já li, fui de chofre assim no microfone, li o texto, aí saí ele falou é, você tem uma voz grave, só que você vai treinar bastante, mas treina, treina, treina e daqui seis meses você volta para outro teste. Olha, se ele não tivesse morrido, ele estava me esperando até hoje, porque nunca mais voltei para lá, nunca mais voltei, perdi o entusiasmo e nesse meio tempo chegou uma carta aos meus pais dizendo que eu estava para ser chamado para assumir outro cargo na estrada de ferro, quando eu saí de lá, eu havia prestado um outro concurso para um cargo melhor e financeiramente melhor também e que estava para sair o eu processo para comprar casa própria, também pela caixa da Noroeste, da  ferrovia, aí eu falei ah, sabe o que é? Eu vou voltar para Bauru, aí pedi demissão do emprego, não quiseram que eu saísse, iam aumentar eu salário, falei não, eu vou voltar para Bauru, não tem jeito. Aí deixei aquela São Paulo, aqueles sonhos que eu tinha de cinemas da época, Cine Metro, aqueles passeios na rua Conselheiro Crispiniano, Barão de Itapetininga, ver o meu Corinthians jogar no Parque São Jorge, aí eu deixei tudo para trás, voltei para Bauru, assumi o meu emprego na Noroeste, aí eu fui trabalhar, me convidaram, o Esporte Clube Noroeste era um clube autenticamente ferroviário, era só a diretoria ferroviária, aquela coisa toda, tinha gente da cidade também, mas a maioria tudo, foi fundado por ferroviários, aí eu fui convidado para exercer uma função no departamento social do Noroeste e de propaganda também, lá conversando um dia eu falei gente, vamos instalar um serviço de som como tem no Pacaembu aqui no estádio, a gente pode até conseguir propaganda em benefício do clube, ler a propaganda, anunciar gol no Pacaembu, gol aqui, gol em Santos, aquela coisa toda…

Luciano          Serviço de auto falante no estádio.

Luciano D.     … é, serviço de auto falante,  aí eles toparam, pegaram lá o funcionário da Noroeste que mexia com essas coisas, compraram a aparelhagem toda, instalaram e eu fiquei então o chefe do serviço de auto falante do estádio Alfredo de Castillho e eu mesmo procurava propaganda, eles procuravam também, lia os textos no intervalo, antes e depois do jogo, dava resultado das partidas que estavam acontecendo no resto do Brasil e um dia a Bauru Rádio Globo, no período noturno, a Bauru Rádio Globo ela começava a funcionar às 7 da manhã e ia até as 11 da noite, não tinha nada de funcionário de madrugada nada, isso nem pensar e a noite, das 8 às 11, eram dois locutores que trabalhavam, cada dia um que falava, cada um que falava e um deles pediu demissão, então estava faltando um locutor para aquele que falava com esse que saiu, acumulou ele falando todo dia, mas tinha que ter mais um, fazer o ping pong. Aí um dia na saída do estádio Alfredo de Castilho o José Fernando Amaral, que era um dos grandes locutores, um dos grandes nomes radiofônicos de Bauru, José Fernando do Amaral, ele falou: por que que não leva esse rapaz ai do auto falante para fazer um teste lá porque se ele aprovar já livra a gente de ter que falar à noite. Aí me convidaram, me convidaram, eu fui lá fazer o teste… lembrando sempre daquele teste na Tupi, falei será que vão repetir comigo aquilo, aí veio o Ivo de Barros Mainardi que era um dos grandes nomes de locução da G8, ele falou ô Luciano, vem aqui, você vai falar aqui, vai ler esse texto, anunciar música, eu vou ficar do lado de fora ouvindo você, aí eu comecei a falar, então, ler o texto lá de propaganda, anunciar as músicas e ele assim do lado de fora olhando, acompanhando, até que ele fez assim para mim e eu parei de falar, voltei ele falou, está bem, está aprovado, aí eu fui contratado. Fui contratado pela Bauru Rádio Clube, passei a atuar então no período noturno.

Luciano          De tarde era o executivo da Rede Ferroviária Federal…

Luciano D.     É, à tarde eu era o funcionário comum na Noroeste, eu trabalhava no almoxarifado, era escriturário da Noroeste trabalhando no almoxarifado, lá longe, depois da oficina…

Luciano          E à noite…

Luciano D.     … e à noite era, um dia sim, dia não, eu era radialista. Outro radialista que falava também era o, que depois foi prefeito de Bauru, Nilson Costa, naquela época ele era locutor, depois ele foi diretor do jornal da cidade e tudo e foi como eu falei para você antes aí, foi prefeito. Foi vereador, foi presidente da câmara e foi prefeito depois. Aí eu comecei lançar programa, fui trabalhar… passei a ser também locutor de auditório na parte da leitura de propaganda, tinha o rascunho, era o Eron Aguiar, o Horácio Cunha eram os apresentadores do programa de auditório e eu era o locutor comercial também e fui aí fazendo uns programinhas até que um dia surgiu uma ideia da gente lançar um programa do primeiro jornal falado do rádio bauruense e surgiu uma ideia para a gente lançar esse programa particularmente com o nosso programa João Simonetti, compramos a hora, a gente pagava a hora lá para a rádio. Pegamos toda a propaganda e o meu amigo Nelson Reginato tinha muito contato com o Corifeu de Azevedo Marques, o grande nome do rádio em São Paulo, que era diretor do grande jornal falado Tupi, era muito amigo dele, para usar a mesma música, o prefixo, era uma música penetrante, quando entrava aquela música o Brasil parava, quando a Tupi tinha  jornal falado, ele falou, pode, não tem problema. Ai usamos aquele prefixo, então lançamos, pela Bauru Rádio Clube, o grande jornal falado G8, uma hora de duração, das 10 às 11 da noite…

Luciano          Vocês pagavam pelo horário, é isso?

Luciano D.     … é, a gente comprava o horário, pagava e vendia depois para os anunciantes.

Luciano          Bom, foi assim em 2005 que nasceu o Café Brasil…

Luciano D.     Assim também?

Luciano          … exatamente, indo na rádio, comprando o horário e botando o programa no ar.

Luciano D.     Aí nessa época eu também já era redator regional do Diário de São Paulo e Diário da Noite, então eu acumulava, eu era do resto do Brasil era na G8, eu era redator do Diário de São Paulo e Diário da Noite e algumas vezes também trabalhava informações para a Tupi e trabalhava em publicidade também, eu fazia os folhetos para distribuir no cinema, chamava cine folheto, distribuía todo domingo nos cinemas, fazia o folheto para distribuir no campo do Noroeste também, com propaganda, no hipódromo, Bauru teve um jockey clube, distribuía no hipódromo, então eu era o homem dos sete instrumentos, eu fazia tudo. Trabalhava em vários setores e no rádio foi indo, foi indo depois houve um problema com a Bauru Rádio Clube não deu certo mais, um gerente novo assumiu, achava que eu ganhava muito e não devia, devia cobrar mais caro a hora para mim, mas eu não tinha, tinha mês que eu botava a mão no bolso, aí eu já estava sozinho no programa, aí eu era o homem dos sete instrumentos no rádio, publicidade, jornal. Depois eu saí, houve um problema no Bauru Rádio Clube, que eu falei antes, o cidadão achava que eu ganhava muito, tinha mês que eu tinha que botar dinheiro do bolso para pagar a hora, o horário e aí combinei com Horácio Cunha, ele era dono da rádio Emissora Terra Branca, eu falei para ele vamos lançar, eu estou com um problema na G8, quer lançar aqui o Rádio Jornal Terra Branca? Aí ele, vamos sim, vamos lançar, vamos começar já. A propaganda eu pego depois, vamos combinar o seu cachê, aí eu lancei na Rádio Emissora Terra Branca o Rádio Jornal Terra Branca, no mesmo molde daquele da G8, só que eu começava antes, eu vou pegar o publico, eu comecei a fazer o programa das 9:30 às 10:30, ficava longe a rádio, lá atrás do Estádio Alfredo de Castilho e já com os filhos pequenos, no fim eu deixei o rádio, acho que no começo, no fim dos anos 50 eu me afastei da parte do rádio e passei a ficar só na imprensa escrita de Bauru, fui redator em Bauru também do jornal sobre futebol do Equipe, que era do Wilson Brasil, fui redator desse jornal em Bauru também e fiquei nesse trabalho, aí ingressei mesmo, mas sempre o meu principal emprego era na Noroeste do Brasil.

Luciano          Na rede ferroviária. Quanto tempo foi lá?

Luciano D.     Na rede? Na rede eu entrei no dia 1° de outubro de 45 e me aposentei no dia 1° de julho de 82, vou fazer esse ano, agora dia 1°, que eu não parei de trabalhar, apesar dos quase 90 anos, eu vu fazer 34 anos aposentado de aposentadoria, 35, 37 que eu trabalhei e vou  completar agora então 34 de aposentado, mas jamais parei de trabalhar, mesmo aposentado em 82 eu já militava ainda na… o Diário de São Paulo não porque ele encerrou as atividades em 76, mas fiquei sempre… ah tinha a revista quando… eu acompanhei os primeiros passos da televisão em Bauru, uma iniciativa do pioneiro do rádio, João Simonetti e ele, em 58, ele lançou aí a ideia de dotar Bauru de uma emissora de televisão, da cidade mesmo, ele mandou um expediente, uma carta, um ofício ao Getúlio Vargas, ele tinha assim uma grande amizade com o Getúlio Vargas, problemas políticos e ele  mandou um ofício ao Getúlio pedindo um canal para Bauru, alegando que um dia ia surgir as repetidoras nas cidades do interior e cidade do interior não teria televisão própria, aí o Getúlio autorizou, concordou e ele então em fins de 58 já começou, ele fez um acordo com empresas de São Paulo que importavam aparelhagem para televisão, Rebratel e essa Rebratel fez o contrato com ele o seguinte, se você vender mil aparelhos de televisão, nós instalaremos, daremos a instalação da televisão instalada em Bauru, só resta pegar autorização, aí veio a autorização do Getúlio Vargas. Foram vendidos mil aparelhos de televisão e então começou funcionar a televisão em Bauru e eu na época passei a ser o redator da revista “7 Dias na TV”, era uma revista, eu não sei se existe até hoje, ela tinha uma edição… era de São Paulo e ela passou a dedicar uma página para Bauru, a edição de São Paulo, depois face ao crescimento da televisão em Bauru, passou a fazer uma edição só para Bauru da nossa televisão…

Luciano          Que produzia conteúdo próprio, tinha novela, tinha programa de auditório…

Luciano D.     … tinha novela, tinha programa de auditório, tinha tudo e depois tinha também… quando era da…passou a ser da organização Vitor Costa, comprou, aí a televisão também de Bauru, com os meios de Bauru não conseguia, não tinha condições de continuar, então foi vendida para o Vitor Costa, organizações Vitor Costa, tinha a TV Paulista, que era em São Paulo e aí começou a vir para cá e Bauru passou a ser uma espécie também de um laboratório. Eles mandavam artista que estava no início de carreira, se apresentar em Bauru e conforme ele saísse bem em Bauru, eles começavam a ter chance em São Paulo, assim aconteceu com o cantor Roberto Barreiro, Moacir Franco, Canarinho, eles vinham fazer programa em Bauru e tinha também os programas dos grandes nomes, tinha um programa que chamava Marido certo, marido errado. Eram dois casais discutindo um problema e tinha um casal que era certo, outro que era errado, era o Walter Foster, Iara Lins, Lourdes Rocha e tinha outro nome lá, o outro também nome de destaque da televisão, que vinha em Bauru se apresentar semanalmente com esses programas, aí Bauru foi… houve a inauguração antes, em 1960, foi inaugurado tudo, o  bispo de Lorena que veio benzer todas as instalações, foi uma grande festa em Bauru e nessa época então eu já era redator da Revista 7 Dias na TV. Aí depois com o tempo eu fui diminuindo as minhas atividades, mas sempre tendo em primeiro lugar a minha função na Noroeste do Brasil, depois. Aí eu passei para o setor de relações públicas da ferrovia e foi aonde eu me encontrei com relação à minha vida profissional, fui cair no setor de relações públicas e comecei a organizar muita coisa, me transformei como chefe do setor de relações públicas e uma certa época eu acumulei com a chefia de relações públicas da Rede São Paulo, a Rede Ferroviária Federal de São Paulo, eu fui chefiar a relações públicas em São Paulo, eu ia para lá, ficava quarta, quinta e sexta, sexta feira a tarde eu voltava para Bauru, ficava segunda e terça em Bauru, fiquei assim dois anos, mas aí vocês, os filhos, começaram já a dar trabalho, minha mulher sozinha para tomar conta dos três e eu cheguei e falei para o chefe lá, que ele queria me levar definitivamente para São Paulo, falei não posso, não  venho para cá, a vida aqui é difícil em São Paulo, não dá e também  eu estou tendo problemas profissionais, eu sou redator do Diário de São Paulo e também foi melhor, a família está pedindo água…

Luciano          Que a dona Helena como professora

Luciano D.     … a minha mulher lecionava, professora, até que ele me liberou e eu fiquei só mesmo na chefia de relações públicas em Bauru, da Noroeste do Brasil, tive intensa participação em vários seminários de relações públicas, era no Rio de Janeiro, na Rede Ferroviária Federal e é uma história assim que deixou bastante saudade.

Luciano          Aí nós vamos chegar num ponto importante, um belo dia pinta uma ideia, que é o seu Café Brasil, o que é o Café Brasil para mim, aliás tem uma coisa que a gente passou batido aqui, quem é que fazia lá o “amigo, amigo não importa…” faça ai, como é que era.

Luciano D.     Não, era assim, “amigo, amigo, não importa quem seja, preferirá como você, Antárctica, a estrela tutelar dos bons produtos, Cerveja Antárctica”, era uma frase dita por um dos locutores esportivos daquela época, uma fase áurea do rádio em São Paulo.

Luciano          E eu ouvi isso a infância inteira porque pintava e bordava, meu pai falava isso, chegava na hora do almoço aquilo, amigo amigo, não importa… e acabou viram o bordão de entrada do Café Brasil, que não é à toa que está lá, eu abro o Café Brasil assim, “amigo, amigo,  não importa quem seja, bom dia, boa tarde e boa noite, esse é o Café Brasil, eu sou o Luciano Pires”.

Luciano D.     A gente tinha mania de repetir o que os grandes locutores falavam, aquelas… Luciano do Vale tinha as tiradas dele, Geraldo José de Almeida, Canarinho, o Canarinho, aquela coisa toda e a gente…

Luciano          Vamos lá para o Bauru Ilustrado. E aí, de onde vem isso aí?

Luciano D.     Da minha função na Noroeste como profissional de relações públicas para falar sobre a ferrovia, a importância da estrada de ferro, chegava em duas  fronteiras, duas ligações com São Paulo, aquela coisa toda, eu tinha também que contar também, começar a contar a história de Bauru também, porque a Noroeste , ela nascia em Bauru, o ponto inicial dela foi em Bauru, foi ela, sem dúvida nenhuma. As ferrovias foram o ponto certo aqui do progresso de Bauru com aquela vinda quase que diária de gente para trabalhar e os passageiros que eram transportados, então para destacar no cenário nacional a importância da ferrovia da Noroeste, eu tinha que falar também, contar a história de Bauru que eu falava que eram duas histórias que se identificavam perfeitamente, uma ferrovia e uma cidade construídas com muito sacrifício pelo trabalho de homens e mulheres, aquela coisa toda, e comecei a falar contando, fui pesquisando, vendo todas as  informações de Bauru, comecei a falar sobre a história de Bauru também. Bauru, cidadezinha, nasceu com o primeiro slogan dela era, “capital da terra Branca”, Bauru, capital da terra branca”, esse slogan nasceu de um cidadão, jornalista que veio fazer cobertura em Bauru em  1927, tinha um acontecimento regional em Bauru e Bauru era uma cidade de areião, aquela areia que você andava, você afundava o pé na areia, então ele fez um artigo no Estado de São Paulo: “Bauru, capital da terra branca”, ele não criticou nada, contando daquela terra branca, o areião, a cidade que está crescendo e na época então pegou e ficou sendo esse slogan: “Bauru, capital da terra branca”, até que passado um tempo, um poeta da cidade, ele fez um artigo no aniversário de Bauru e botou: “Bauru, cidade sem limites”, sem limites por causa do crescimento, não tinha limite, aquela coisa toda e o Nicolinha, que era dono do Diário de Bauru, que publicou essa poesia, ele também assumiu esse slogan, a prefeitura assumiu, botou nos envelopes, aquela coisa toda e Bauru passou a ser conhecida como Bauru, cidade sem limites, então eu comecei a escrever na Noroeste tudo o que eu falava e o que eu ouvia, encaixava tópicos da história da cidade, a importância para a ferrovia e a cidade, a importância dela para a ferrovia e a importância, para a cidade, da ferrovia, aí um dia eu fiz, até hoje tenho guardado essa carta, eu fiz uma carta para o Nilson Costa, que era diretor do jornal da cidade, propondo, queria fazer um jornal meu,  particular, cinco mil exemplares, com doze páginas, tablóide e um jornal histórico, aí ele me deu o preço, custava tanto, eu comecei a andar pela cidade procurando, até que eu consegui o patrocínio necessário, eu que fazia tudo no jornal, eu diagramava o jornal, pegava propaganda, fotografava tudo e no dia…

Luciano          Ainda funcionário da rede?

Luciano D.     … é, a Noroeste nunca larguei. Aí então… e estava também no Diário de São Paulo, aí então no dia 13, uma sexta feira 13 de dezembro eu… é 13 de dezembro, uma sexta feira, na sede da Associação dos Engenheiros, com a sua presença inclusive, eu lancei esse Bauru Ilustrado com uma série de reportagens, boa parte da imprensa presente, a sociedade bauruense, coquetel e eu lancei e assim nasceu, no dia 13 de dezembro, o Bauru Ilustrado…

Luciano          Pausa. Pausa. E uns bons anos depois, numa sexta feira 13 de maio de 2005, nasceu o programa Café Brasil, na Rádio Mundial, os dois numa sexta feira 13, não é por acaso.

Luciano D.     … então e… é bom saber isso… aí eu lancei e fui fazendo o jornal, mas na época surgiu um problema, tinha um rebento lá do jornal, trabalhava na parte de propaganda, ia ser aniversário de Bauru, 10 de agosto, eu em março daquele ano, bem antes de agosto, eu comecei a trabalhar procurando propaganda para uma edição especial do Bauru Ilustrado que ia circular em agosto, e fui procurando a propaganda, autorização, o cara autorizando meia página, um quarto de página, rodapé, tudo, até que quando chegou perto de fazer essa edição, esse diretor do Jornal da Cidade procurou o Nilson Costa e falou para o Nilson, Nilson, nós estamos criando uma cobra aqui dentro, o jornal era meu, particular, o Bauru Ilustrado, ele falou por quê? Estou saindo na praça aí para pegar propaganda para a nossa edição especial de aniversário de Bauru e todo mundo fala não, já dei meia página para o Luciano, já dei um quarto para o Luciano e o pessoal está diminuindo a adesão…

Luciano          Quer dizer, estavam dizendo que não iam anunciar no jornal que era o principal da cidade porque estava anunciando no seu jornalzinho que era impresso por eles.

Luciano D.     … é, impresso por eles e anunciando que iam inclusive dar uma propaganda menor, um espaço menor, mas não teve nada, eu peguei, fiz o meu jornal, fiz cinquenta e seis páginas dessa edição, normalmente eram doze, a cidade toda aderiu, aí começou a surgir problema lá dentro do jornal, eles ficaram fazendo campanha, aí um dia eu falei, vamo fazer o seguinte: vamos transformar o Bauru Ilustrado num suplemento do Jornal da Cidade, que eu já estava encontrando dificuldade também de propaganda, foi uma fase meio difícil para a imprensa do interior, eu falei não tenho o rei na barriga não, vamos transformar o Bauru Ilustrado num suplemento do JC, vocês se preocupam com a parte publicitária e eu continuo sendo redator, vamos estudar um cachê e ficamos livres desse problema, mas assim mesmo comecei a encontrar resistência disso aí, aí eu falei mas eu estou sendo tonto, eu tenho que falar, eu não tenho que falar com o boi, eu tenho que falar com o dono da boiada,  aí eu procurei o Engenheiro Alcides Frescato, que era o presidente da empresa…

Luciano          Dono do jornal.

Luciano D.     … dono do jornal, falei ô Alcides, você gosta do Bauru Ilustrado, eu acho excelente, muito bom, conta a história de Bauru, bacana. Falei pois é, eu estou propondo lá para o jornal da cidade de transformar o Bauru Ilustrado num suplemento, eu fico sendo redator, estudo um cachê para mim, porque eu estou tendo dificuldade agora, nem isso estão querendo. Não senhor, espera aí, pegou o telefone, telefonou para o Jornal da Cidade, olha o Bauru Ilustrado, a partir do mês que vem vai ser um suplemento do JC. Ah não tem nem mais nem menos, vai ser um suplemento, o Luciano vai ai para acertar inclusive o cachê, aí a partir de maio de 77 o Bauru Ilustrado passou a ser um suplemento do JC, está durando hoje…

Luciano          E a tiragem que era de 5000 exemplares, foi para?

Luciano D.     … a tiragem do jornal, circula junto e  era, na época, 5000 exemplares, era uma tiragem muito grande, o próprio JC não tinha a tiragem diária e o meu era uma tiragem mensal mas era uma tiragem muito boa, então aí passou a ser o suplemento do JC, estou fazendo Bauru Ilustrado há 40… nasceu em… ele nasceu em 74, 42 anos que já existe.

Luciano          Como é que é aquela historinha do sujeito que foi…

Luciano D.     Ah, teve um cara que ele foi, quando eu lancei o Bauru Ilustrado, foi lançar, só faltava o rodapé de… a propaganda tudo rodapé, cada página dois rodapés, só não tinha propaganda na primeira página, então eram vinte e dois  rodapés, só faltava um rodapé para mim vender e empatar o que eu tinha que pagar para o JC empatava, mas eu queria lançar o jornal, aí faltava só um, industrial lá em Bauru, procurei, ele olhou e falou é, mas sua tabela está muito mais cara que o JC, eu falei não fulano, é que o JC ele tem a oficina dele, ele tem o maquinário, eu vou pagar para fazer, eles não, eles tem tudo deles, por isso que  é esse preço. É não sei o que, bom, eu vou autorizar, aí eu preenchi a autorização, três vezes, ele falou ainda três vezes? Eu falei pois  é, tem que ter uma  garantia,  eu preciso ter jornal na mão o mês que vem, ele é lançado agora, por exemplo, você me dá essa propaganda, eu fecho, lanço, o mês que vem eu tenho um jornal na mão prontinho para apresentar para os outros anunciantes aquilo que eu estou vendendo.

Luciano          Traz para valores de hoje, você está falando de quanto?

Luciano D.     Não lembro, seria ai 500…

Luciano          500 reais?

Luciano D.     500 reais, não sei se é isso, é uma pechincha, não, o primeiro número que eu falei era para lançar o jornal, sem número nenhum, ai ele falou bom, eu vou autorizar, e sabe por que que eu vou autorizar? Eu falei não, não sei. O seu jornal não vai durar três meses. Falei muito obrigado, três meses está bom ainda. Aí eu saí de lá louco da vida, se eu não precisasse daquela propaganda eu queria fechar, queria ver o jornal na rua, aquela coisa, já prontinho e entregue tudo para o pessoal, aí deu certo, ele autorizou três meses,  esse eu acho que já  morreu esse cara, se ele não morreu, se eu encontrasse com ele hoje eu ia falar ó fulano, aquele jornal que você falou que não ia durar três meses, está durando 42 anos.

Luciano          42 anos e é uma coisa única, não tem nenhuma coisa parecida feita no Brasil…

Luciano D.     Não, não tem. E eu acho que dentro da imprensa brasileira, é um suplemento assim dedicado inteiramente à cidade e tem matéria viu, eu estou fazendo agora o de julho, deve circular acho que sábado que vem ou no outro, o de agosto já estão lá digitando e já estou organizando o de setembro, inclusive com uma matéria sobre a Noroeste do Brasil que vai completar, ela foi inaugurada em 1906, vai ser cento e…

Luciano          110 anos.

Luciano D.     … é, apesar que não tem o que comemorar, hoje as ferrovias conseguiram reduzir a situação atual com a frase esplendorosa, o trem para São Paulo, por  exemplo, da companhia Paulista, se saia de Bauru às seis horas da manhã, chegava em São Paulo meio dia e tanto, na estação da Luz, você a pé já ia para o centro da cidade, se fosse fazer algum serviço que demorasse lá três, quatro horas, você já fazia tudo, às cinco horas você pegava o trem de volta para Bauru, às onze e pouco estava em Bauru de  volta, os caras os carros tinham primeira classe, numerado…

Luciano          Restaurante.

Luciano D.     … carro pulman, carro pulman, cadeira giratória, ar condicionado, um funcionário da Paulista só para atender o carro pulman e conseguiram e acabou tudo isso ai, acabou, um trem conduzia mais de… quase quinhentos passageiros, quinhentos passageiros corresponde dez ônibus de Bauru a São Paulo.

Luciano          É, foi uma decisão… isso é outra discussão.

Luciano D.     E a Noroeste acompanhou isso aí também, acabou. A Noroeste chegou a ser uma ferrovia, era a menina dos olhos da rede ferroviária federal. Era tudo certinho, funcionando normalmente, o centro de formação profissional para os filhos dos empregados, tinha tudo, serviço sanitário, serviço médico, uma beleza, acabou tudo.

Luciano          Isso está tudo lá, está tudo… dá para ver as ruínas disso tudo lá em Bauru até hoje. E aí seu Luciano, 90 anos, quando olha para trás, o que é que… quais são os atributos, lembra que esse aqui é um programa sobre liderança e empreendedorismo, quais são os atributos que o seu Luciano olha para trás e fala pô, isso, isso e isso aqui me ajudou a fazer. O que que é?

Luciano D.     É o amor por Bauru, não  é? Pela cidade de Bauru, como eu já frisei, eu vim para cá com dois anos, tive várias chances de mudar de Bauru, ir para São Paulo, mas eu recusei todas elas, essa vez que eu… uma vez, por exemplo, ah a Helena, minha mulher ia escolher cadeira, ela ia ingressar no magistério e escolher e São Paulo estava na agenda nossa, de escolher uma cadeira em São Paulo, eu conseguiria minha transferência, a Noroeste tinha um escritório de compras em São Paulo, eu tentaria uma transferência para esse escritório  de compras, tinha conversado com o pessoal do Diário de São Paulo de uma função, talvez no período noturno no Diário de São Paulo, já era jornalista profissional, tinha conversado lá com o Milton Camargo na Tupi de conseguir lá um plantão esportivo aos domingos, para poder aguentar o tranco em São Paulo, minha mulher escolheria uma cadeira lá num bairro,  mas quando estava tudo assim meio articulado, quando fui tentar essa transferência para o serviço de compras, eu não consegui, não consegui a transferência que já tinha muita gente lá e o negócio não deu certo, eu acabei não indo embora para São Paulo, mas se eu tivesse conseguido aquele horário de serviço nesse escritório, como era um local pequeno e era um número grande de funcionários, tinha uma turma que entrava às sete da manhã, ia até a uma, a outra turma ia da uma até às seis, então eu pegaria uma dessas turmas e ficaria com meio expediente para outras atividades, mas aí o chefe aqui em Bauru negou a minha ida para São Paulo que precisava mais de mim aqui do que em São Paulo…

Luciano          Você está ouvindo aí, toda hora ele fala “aqui em Bauru”, mas nós não estamos em Bauru não, nós estamos em São Paulo, nós estamos no estúdio do Café Brasil que eu fiz questão de trazê-lo aqui. Mas eu perguntei, ele deu uma patinada aqui, mas eu vou falar aqui, esses atributos para mim que ficam claros, primeiro é o seguinte, foi aquela questão de desenvolver uma série de habilidades aí que ele pôde com isso abraçar uma série de desafios, quer dizer, ele foi falar na rádio, ele escreveu, aprendeu a escrever, desenvolveu trabalho de liderança, virou jornalista, virou empresário, saiu para trabalhar com propaganda, foi vender anúncio, quer dizer, são todas as características que um empreendedor tem que ter e que é aquela de poder abraçar o tipo de desafio que aparecer na tua frente e também não se intimidou com as dificuldades quando apareceram, quer dizer, vamos comprar um espaço da rádio para fazer o programa? Vamos, a gente compra e depois dá um jeito de pagar isso aqui, vou manda fazer um jornal e vou eu bancar a despesa do jornal, vou bancar a despesa do jornal e aí eu me viro para fazer acontecer e essa, como  é que eu vou dizer isso aí, essa aração pelo desafio e pelo risco me aprece que foi uma coisa que eu acabei herdando também porque eu também sou maluco assim, entro de cabeça e começo um projeto e depois que eu me viro para saber se essa coisa vai dar certo ou não, mas o  importante é fazer o projeto nascer e fazer ele continuar adiante.

Luciano D.     Tem outra coisa também que eu… que aconteceu comigo, eu encontrava tempo ainda… eu fui presidente da Associação dos Cronistas Esportivos de Bauru, fui presidente da Liga Bauruense de Futebol durante anos, fui sócio de uma padaria, eu entrava na padaria às cinco horas da manhã, ficava até as dez. Voltava para a casa, tomava banho e ia trabalhar na Noroeste, voltava ás cinco horas do serviço, às sete horas eu voltava para a padaria, ficava até às onze horas da noite para fechar. Então, eu não via, praticamente não via os filhos, não via nada e eu fiquei dois anos nisso ai, depois falei sou louco, o que é que eu vou… está certo, vou ficar rico, mas é muita coisa, aí sabe o que eu fiz? Vendi minha parte da padaria para o sócio, que era o Paredes e eu peguei o dinheiro, fui para a Europa…

Luciano          Foi fazer aquela viagem.

Luciano D.     … fui fazer viagem, noventa dias pela Europa, onze países, deixei meus filhos com meu sogro e minha sogra, peguei a mulher e fui para a Europa, passear pela Europa, falei vou sossegar um pouquinho, vou conhecer o  mundo. Eu fui diretor e conselheiro da Beneficência Portuguesa trinta anos, diretor e conselheiro do Noroeste trinta anos, então sempre achava um tempinho  para fazer alguma coisa.

Luciano          E eu vou lembrar uma coisa importante aqui, isso aí tudo sem internet, sem caixa eletrônico, sem… sem telefone celular…

Luciano D.     Não, naquele tempo, para você falar com São Paulo, você levava o dia todo, interurbano para São Paulo, às vezes você marcava, a telefonista falava vamos marcar para as 8 horas da noite, então está marcado aqui, ás 8 horas eu consigo uma linha para o senhor, era difícil falar com São Paulo.

Luciano          Tudo era complicado, e no entanto a gente encontrava esse tempo para fazer tudo e a gente hoje aqui com todas as facilidades de comunicação com os espaços, os muros todos derrubados, a gente reclama que não tem o tempo de fazer as coisas que eu preciso fazer e olha as histórias, quer dizer, foi a mesma coisas quando eu trouxe o Osires aqui, a gente conversou e o Osires contou uma realidade que para nós que estamos vivendo esse mundo de hoje aqui, é completamente… aquilo era uma loucura, fazer o que eles fizeram, o que vocês fizeram naquela época, hoje em dia… hoje nem daria certo, nem daria para começar, porque está tudo muito mais caro, embora seja tudo mais fácil de ser obtido, é tudo muito mais difícil de ser custeado e é uma coisa interessante, é o mundo totalmente distinto daquele que se via naquela época lá. Seu Luciano faz jornal até hoje escrevendo numa Remington, para quem não sabe o que é isso, é uma máquina de escrever que é interessante porque você digita e já sai impresso, você  vai digitando, ele já sai impresso do outro lado, ele escreve, ele digita tudo numa máquina de escrever, entrega no jornal e o pessoal de lá digita outra vez aquilo, eu já tentei fazer com que ele trabalhasse com computador, mas não adianta, o bicho não tem saco.

Luciano D.     Sabe o que é, Luciano, é o seguinte, eu trabalhei… ah esqueci de falar, eu trabalhei em cartório também, quando eu trabalhei na Pernambucanas, eu sai da  Pernambucanas, eu fui trabalhar em cartório e lá eu me tornei um exímio datilógrafo, porque no cartório você não podia errar e apagar, raspar com borracha nada, se você errasse lá uma palavra, você  punha vírgula, “, digo,” e repetia a frase toda, então me tornei um exímio datilógrafo no cartório, isso me facilitou e eu quando comecei a mexer com computador, é muito sensível o computador, o teclado do computador, eu era do rol daquelas máquinas pesadas, bater duro no teclado e eu vou bater duro no computador, não consegui, não sei, encavala as letras, não sai, não dá certo, mas ainda um dia eu vou mexer com computador. Ah e tem outra coisa também, o computador, você começa a navegar e você… eu tenho meu tempo todo é pesquisa, fotografia, é pegar jornal antigo, folhear, procurar as coisas, pego uma fotografia, vou atrás da pessoa, tem gente que não sabe, dá a fotografia da família, não sabe quem é. Um dia, por exemplo, peguei lá uma fotografia de carnaval dos anos 30 e eu vi lá fulano, vi, esse aqui é fulano, ciclano, esse aqui não sei quem é e na frente da minha sala da Noroeste, na rua Primeiro de Agosto, tinha lá o escritório e um deles estava na foto, trabalhava lá, aí eu chamei, um dia ele passou eu falei ô Peri, entra aqui, venha ver, estou com uma foto aqui do carnaval, trinta e pouco aqui, está a sua mulher na foto, você não quer identificar para mim, ele falou esse aqui é fulano, esse aqui não  sou eu, eu  tinha  ódio de carnaval, não aguentava aquelas músicas carnavalescas no salão, de jeito nenhum, vou levar para a minha mulher, ela vai, ela identifica para você todos eles aí, ela tem a memória boa. Aí ele levou, no dia seguinte me procurou, ô rapaz, a foto está aqui, esse aqui é o fulano, aquele cara que você não sabia é esse aqui e aquele cara que você pensou que era eu, que eu falei que não, sou eu mesmo, eu falei como é que você não conheceu você? Ele falou não, eu tinha ódio de carnaval, mas a minha mulher naquele carnaval ela ameaçou, se eu não fosse no baile com ela, ela terminava o namoro comigo, aí eu aceitei, mas pensei que era um cara parecido comigo, então tem essas coisas que acontecem que eu às vezes conheço mais as pessoas que aparecem nas fotografias do que os próprios familiares.

Luciano          E foi diretor do museu lá de Bauru, naquele…

Luciano D.     Ah, teve essa atividade minha, eu fundei lá um Instituto histórico junto com uma entidade de ensino superior, funcionou lá parece que quatro anos  o Instituto Histórico, fui diretor, era coisa maravilhosa, tinha lá tudo, mas não deu certo, eles não quiseram mais, eu fui, que mais que eu fiz lá? Fui na gestão do prefeito de Lima, eu fui chefe do departamento do patrimônio histórico de Bauru, fui também… e então várias atividades assim ligadas à história de Bauru, ligadas à imprensa, eu…

Luciano          Só não se meteu em política.

Luciano D.     Não, política jamais, não quis, nunca, só uma vez eu fui inscrito num partido porque na Noroeste, quando criaram a Arena em Bauru,  o diretor da Noroeste era o General Ramírio Correta Júnior e quem estava preparando a instalação do partido era o… que foi prefeito de Bauru, depois deputado federal, Alcides Frescato, aí ele foi falar com o general, general, estamos fundando a Arena, o senhor vai ser o presidente de honra e o senhor leva o pessoal aí da sua chefia todo para lá, aí nós fomos para lá, no dia da instalação da Arena…

Luciano          Voluntariamente convocado…

Luciano D.     … é, tudo, tudo convocado pelo general da revolução de 64, botaram o livro da Arena lá, ele  pegou, aí o Frescato disse general, o senhor é o primeiro a assinar, ele assinou, virou para trás, alguém não vai assinar? Todo mundo assinou, tinha gente que queria assinar duas vezes o tal livro, aquela coisa toda, assinou, mas aconteceu um fato depois o seguinte: esse livro sumiu, esse livro desapareceu, ninguém achou e aí o general também foi embora, deixou a chefia da Noroeste, foi trabalhar na rede São Paulo, quer dizer, ele era presidente da Arena em Bauru foi embora e o livro sumiu,  sumiu o livro, aí lá um secretário do Frescato fez outro livro, organizou outro livro, pegando assinatura e  me procurou, foi na  Noroeste, olha o senhor precisa assinar o livro aqui da Arena, eu falei que livro da Arena? Eu falei eu não vou assinar. Não, mas o general aquela vez… Falei o general aquela vez, ele que assinou, ele foi embora de Bauru, não assino nada de livro mais nenhum, eu não sou político, eu assinei porque era… por causa da revolução  de 64, mas de jeito nenhum, ele ficou bravo comigo, mas eu não assinei o livro, então eu não… essa foi uma passagem assim rápida que eu tive em política, mas nunca… recebi convite para me candidatar a vereador, mas não aceitei de jeito nenhum.

Luciano          E aí, o que é que vem pela frente, com 89 anos de história, o que é que vem pela frente?

Luciano D.     Bom agora eu estou preparando um livro, a minha vida em Bauru, o livro vai se chamar “Éramos cinco”, que é a minha família, meu pai, minha mãe e os três irmãos, uma foto muito bonita vai ser a capa, tem cento e vinte crônicas da minha história em Bauru, essas histórias abordando políticos também, gente conhecida, professores, contando histórias, histórias, acontecimentos, essa história do menino lá que fez aquele uniforme, saiu na rua e chamaram de palhaço, aquela história minha na zona do meretrício, são  artigos assim interessantes envolvendo assuntos diferentes, reunindo nomes, pessoas, esse livro está assim, é que cada mês aparece um assunto, tem um assunto interessante que até minha mulher ficou brava comigo. O Gerson de Souza, da Record, repórter que faz reportagem no mundo todo, aí um dia lá em Bauru ele me procurou, ele estava em Bauru, na Record da nossa cidade, da Rede Record, ele procurou, Luciano e o negócio da zona em Bauru, como é que era? Falei é aquilo, era na Presidente Kenedy, era Rua Costa Ribeiro, mas tem? Eu falei tem umas casas que funcionaram ai, existem as casas, não com mulheres, as casinhas estão lá ainda, você não quer dar uma entrevista para mim sobre… eu falei posso, não tem problema, vamos combinar, ai fomos lá nessa rua, aí eu mostrei, falei aqui era a casa da Blanche, era uma casa de mulheres comuns, a Blanche, tinha a casada Lolita, aqui era o sobradinho da Idalina, aqui funcionava o Paris Noturno, o bar, o cabaré Maxim era aqui, aqui outro bar aqui, Meia Noite, tinha três bares lá, todas essas casas aqui, descendo um pouquinho aqui também tinha o rendez-vouz da Ofélia, não ficava dentro da zona e fui contando tudo o que aconteceu, fulano, aquela coisa toda aí ele fez várias perguntas, como é que era, falei não, aqui no bar, por exemplo, no bar Meia Noite, o cidadão pegava uma menina aí da pensão, vinha aqui jantar com ela no maior respeito, sentava no bar, é lógico que a sociedade não frequentava aqui, mas eles já estavam com uma moça ali, não tinha nenhuma atitude menos respeitosa. Depois voltava para a pensão lá e fazia o programa dele lá e aí ele gravou tudo, fez, jogou no ar lá na Record, Bauru. A zona, aqui foi a zona e tal e eu dando entrevista, aí eu saía na rua com a Helena, encontrava amigos, “ô Luciano, rei da zona hein”, aquela coisa toda, mas foi uma passagem interessante.

Luciano          E aí, seu filho mais velho está fazendo 60 anos hoje, qual é o conselho que dos seus 89 ou 90 você dá para o que vem pela frente?

Luciano D.     Conselho é, primeiro é elogiar o trabalho que ele faz e faz aquilo que eu sempre converso lá em Bauru com essa  meninada lá que está começando  na imprensa, que eu falo para eles o seguinte: gente, imprensa em jornal, rádio e televisão tem que gostar, tem que amar o que está fazendo, se não gostar, se vai se formar para ser um serviço a mais, fazer o que todo mundo mandar, não  funciona,  tem que ter  ideia, tem que gostar realmente, se você andar da rua, por exemplo, e ver lá um cidadão lá em cima pendurado num prédio de vinte andares limpando janela, por exemplo, a hora que esse cara descer vai lá, faz uma entrevista  com esse cidadão, como é que ele começou esse serviço, alguma vez ele passou por algum perigo, ficou pendurado, aquela coisa toda, você não vai depender só da  pauta, de se reunir a direção do jornal com os repórteres  ali, ver a pauta, já vem assunto, assunto, assunto e pronto, não dá, eu vejo  coisa errada, eu vejo aqui uma emissora de televisão, não sei se pode falar o  nome…

Luciano          Pode.

Luciano D.     … a Band News, a  Band News fica o dia todo fazendo… repetindo as notícias que aconteceram durante o dia, vem o locutor fala, aconteceu isso, aparece a gravação, aquela coisa toda, chega num momento ele fala assim, a loteria, a sena, o sorteio da sena acumulou, o próximo sábado, o sorteio foi na noite anterior, o próximo sábado espera-se um total de cinquenta milhões no sorteio da sena, e fala isso pronto, já várias vezes eu fiquei o dia todo depois, eles não põem, não dão resultado na hora também, então eles falam isso tudo e fala, apuração de ontem foi o seguinte 04… não dá, passa o programa todinho, falei é uma falta de imaginação, o cara não… é um jornalismo que o cara tem que… o jornal tem que informar, tem que falar tudo, eu falei outro dia para o cidadão que ele vai ser, falei ó, se você… aquela história do cara que queria ser jornalista e ele chegou lá na redação, levou um cartãozinho de apresentação do político, aí o cara falou ah, você quer ser jornalista, fazer jornalismo? Então vamos fazer o seguinte, vai ter uma reunião do partido tal hoje, você vai lá e faz a cobertura de tudo que vai acontecer. Você traz aqui, eu vou sair agora, vou voltar à meia noite, vou ler o que você fez, conforme for eu já publico amanhã. Aí o rapaz foi lá, foi lá o pseudo jornalista e foi, sentou lá, aí começou a reunião, começou a reunião, começou a discutir questão de ordem, quebrou um pau, quebraram cadeira, mesa, chamaram a polícia, rasgaram bandeira, não houve reunião nenhuma, não houve nada, aí o cara pegou, foi em casa, foi dormir, o futuro repórter foi dormir, dia seguinte todos os jornais publicaram o que aconteceu naquela reunião aí ele foi lá falar, dia seguinte ele foi lá falar. Mas não mandei você… falei para você fazer cobertura. Não, mas não teve reunião, eu fui embora para a casa, quer dizer, esse cara está até hoje, até hoje está procurando serviço. O outro cara foi procurar também levou apresentação, chegou lá o redator chefe falou faz um artigo aqui, eu vou dar uma saída, quando voltar, se estiver bom, púbica amanhã, fala sobre Jesus Cristo, faz um artigo sobre Jesus Cristo, deixa ai, aí o cara saiu, voltou, três horas depois voltou, o cara estava sentado com o papel na máquina de escrever, Jesus Cristo, falou cara, você quer ser jornalista e não escreveu nada sobre Jesus Cristo, faz três horas que você está aí. O senhor não falou se é pra dizer contra ou a favor. Ele falou está empregado.

Luciano          Muito bem então, então vamos aqui para o nosso final, seu Luciano, quem quiser ter contato com o seu trabalho vai ter que acessar o Bauru Ilustrado, o senhor não fez até hoje uma página na internet, não existe uma página do… tem o www.bauruilustrado já ou não?

Luciano D.     Acho que não.

Luciano          Esse é um projetão para o futuro que devia ser colocado aí e o livro também é um projetão que nós estamos cutucando para botar para nascer, mas ele tem aquele problema de ele burila burila, burila e o livro nunca está pronto, vai ter que dar uma brecada para poder lançar.

Luciano D.     Sabe que tem problema, inclusive do português, de revisão, o seguinte, umas dúvidas que existem, você sabe  que o Estadão, o Estadão quando cita rua Direita, Avenida São João, rua não sei o que, alameda não sei o que, ele põe caixa alta, rua, avenida, alameda, tudo em caixa alta, o Estadão, a folha não, a folha põe caixa baixa, avenida com a minúsculo,  então a coisa… estou lá, agora estou acertando, eu fui para o lado do Estadão.

Luciano          Eu sei o que é isso.

Luciano D.     Estou acertando tudo, estou procurando uma por uma para botar… alterar.

Luciano          Eu sei o que é isso, é a síndrome da perfeição que faz com que a gente empurra, empurra, empurra, e tem que dar um breque, botar no ar e depois arrumar.

Luciano D.     Perguntei para um professor outro dia ele falou não acho que você está certo, põe tudo maiúsculo, é o nome da rua, é um nome próprio, é rua tal. Tem um outro caso lá, por exemplo, da… ah, a expressão saudade, então você pega o jornal, pega livros, saudade, eles sentiram saudades da família tal, sentiram saudades daqueles locais, então eu procurei, aí eu descobri o seguinte, que palavra que exprime sentimento não tem plural, você não fala nós sentimos raivas daquelas pessoas, é sentimos raiva, nós sentimos ódios daquela pessoa não, é sentimos ódio, nós sentimos saudade, exprime sentimento, então você vê em vários… saudades, outro dia vi uma professora na televisão falando, é mas ficou uso e costume do povo falar saudades, mas é de acordo com o português certo você não pode falar assim, você vê por exemplo a expressão através do Luciano, nós descobrimos que aquele carro aconteceu isso, isso é isso, então você vai ver, através, o que é através? Através é através do ar… eu vi por exemplo eu vi através do vidro da janela que aquele carro bateu no outro, então você fala através do Luciano, está errado, então é por intermédio do Luciano, aquela coisa toda, então tem umas… nosso português é difícil, tem umas palavras que você usa de maneira errônea, aquela coisa toda e isso vou achando no livro.

Luciano          Mas breca e bota no ar porque mais importante que esses detalhes aí é o conteúdo que está lá dentro que tem que ser apreciado pelas pessoas, aí depois que publicar, faz que nem eu faço, eu pego o livro, fico puto da vida, começo a ler e vou achando os erros inteirinhos, na próxima edição eu vou corrigindo aquilo tudo  e vou pondo no ar.

Luciano D.     Outro dia lá, por exemplo, apareceu lá o cara escreveu lá para mim não sei o que e botou a dona Maria fez isso, aquela coisa toda, falei dona Maria, o cara botou dona, o D maiúsculo e ponto ou dona com d maiúsculo, eu falei ué, mas porque falara dona Maria com d maiúsculo se eu falo presidente com p minúsculo, deputado com d minúsculo, um médico fulano de tal com m… então a gente vai encontrando essas coisas e tem que ir acertando isso aí também, se não fica um negócio de um capítulo entra uma palavra assim, depois mais na frente… é difícil, e põe em jogo também o nome da pessoa que esta fazendo a revisão, isso também, às vezes a pessoa está com a cabeça cheia também, mas estou acertando.

Luciano          Vai sair.

Luciano D.     Vai sair, esse ano sai.

Luciano          Seu Luciano, muito obrigado por esse bate papo aqui, na verdade, se eu fosse cutucar a fundo nós íamos ficar dezoito horas contando histórias porque a história da sua vida é parte importante da minha e eu me lembrei de uma porrada de coisa aqui mas não dá, nós vamos ficar voando aqui até… e vamos acabar com a paciência dos ouvintes, então quero agradecer a sua visita, agradecer a presença de surpresa no meu aniversário, não eram para estar aqui, mas apareceram de repente e  dizer que não é à toa, muito do que o Café Brasil tem hoje está contado nessas histórias aí, dá para ver claramente essa ideia de desenvolver essas habilidades e buscar essa, como é que eu vou dizer, essa obsessão pela independência, eu quero eu fazer a hora que eu quiser, do jeito que eu quiser, não quero depender de ninguém para isso vou criar uma estrutura vou aprender as técnicas, vou meter a cara e vou fazer e vou construir e vou botar no ar, vem de algum lugar, vem da dona Inhazinha, vem do seu Quito, vem do seu Luciano e não  é à toa que muitas coisas que estão acontecendo ai tem uma história, então muito obrigado viu pela herança.

Luciano D.     Eu agradeço a sua gentileza, as suas palavras e a minha satisfação de ver um dos filhos ligado assim ao trabalho que eu também realizo, um amante também das coisas antigas, quando cheguei lá no seu apartamento ontem vendo aqueles quadros de coisas antigas, rádio, o rádio capelinha, aquelas  coisas assim eu falei, puxa, aqui tem um pouco do Luciano pai também e não só com relação ao seu trabalho, do seu irmão também, o importante na vida que eu falo é isso, é seja qual for o trabalho que realiza, tem que gostar, se não gostar, se tiver errado aquilo que ele faz, tem que mudar, tem que arrumar outro serviço até achar coisa melhor, o outro filho meu, Luiz Antônio, eu nunca fui de mexer com bicho, tive até criação de rato branco quando era menino, era uma gatinho na casa só, nunca pesquei na vida nada, o outro filho é zootecnista, diretor do zoológico em Bauru, envolvido com os bichos, aquela coisa toda.

Luciano          Há trinta e tantos anos também.

Luciano D.     Trinta e tantos anos, a minha filha tem habilidade também de fazer enfeites para festa, aquela coisa toda, então são dedicados,  isso é que é importante que eu gosto de ver a dedicação dos meus filhos para aquilo que eles fazem, isso é muito bom, isso é importante, eles estão no caminho certo e é com muita alegria que eu comemoro com eles assim datas festivas, aquela reunião nossa de fim de ano,  aquela coisa toda, as brincadeiras, mas é muito bom, agradeço a Deus por tudo isso que me foi dado.

Luciano          E vamos para o centenário do seu Luciano logo mais.

Luciano D.     E falar também o apoio da esposa Helena, que também sempre apoiou, sempre viu tudo, problema, aguentou firme os filhos quando eu trabalhava em São Paulo, todo mundo encaminhado, sem problemas maiores.

Luciano          Muito obrigado viu.

Luciano D.     Valeu.

 

Transcrição: Mari Camargo