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Ciça Camargo -

Luciano          Sabe quando você vê a história do seu país acontecer e vê alguns personagens que você sabe que daqui há muito tempo, quando for publicado um livro de história que analisar a história do Brasil, esse personagem vai estar lá, vai ser citado ali pelo trabalho que fez e essas coisas normalmente ficam muito distantes da gente. Eu estou acostumado a ver isso no livro de história e de repente essas pessoas estão por aí e a gente consegue estar diante delas como hoje, então tem três perguntas aqui que são as fundamentais do programa e as mais difíceis, presta atenção, quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz.

Janaina          Bom, meu nome é Janaína Conceição Pascoal, 42 anos, profissionalmente eu sou advogada e sou professora de direito penal no Largo São Francisco e eu faço muitas outras coisas.

Luciano          Você é aquela Janaína.

Janaína          A Janaína, a mulher do impeachment, conforme o povo me conhece.

Luciano          Eu vou fazer a pergunta que todo brasileiro gostaria de fazer e agora eu estou assumindo o papel deles lá: Janaína, você é louca?

Janaína          Então, sob o ponto de vista clínico, com certeza não, porque eu até já perguntei para os especialistas, mas sob o ponto de vista figurativo eu acredito que sim, porque para enfrentar tudo o que eu enfrentei, só sendo muito louca, entendeu? Mas sob o ponto de vista clínico eu me certifiquei que não, pelo menos por enquanto.

Luciano          Vamos explorar um pouco mais isso aqui. Você sabe que o programa, o LíderCast é um programa sobre liderança e empreendedorismo, eu convidei você aqui por uma razão muito especial, porque para mim se alguém me perguntar hoje aqui, esse momento no Brasil, quem é que você usa como exemplo de alguém que fixa um propósito, vai e faz acontecer? É Janaína Pascoal, hoje é esse o nome e por uma grande sorte eu sou amigo do Flávio Morgenstern que também é teu amigo, você esteve com o programa dele, eu fui e Flávio me bota em contato com ela e eu trouxe você aqui, não é para discutir política, não é para falar de impeachment, nós vamos até tocar um pouco nesse assunto mas eu quero explorar esse processo, a cabeça da Janaína, como é que essa coisa funciona e para isso eu tenho que voltar um pouco lá atrás, saber um pouquinho de você, você nasceu onde, São Paulo?

Janaína          Eu nasci no Tatuapé, em São Paulo, escola pública até a oitava série, depois o colegial fiz escola privada até para poder preparar mais forte, um preparo mais forte para tentar entrar na USP e aí depois entrei com 17 anos no Largo São Francisco e moro lá desde então.

Luciano          Por que direito?

Janaína          Então, é interessante essa pergunta, na verdade, meu pai a vida inteira falou para a gente ó, direito é um curso bom porque você pode ser qualquer coisa, até advogado, então direito te abre portas para tudo.

Luciano          O que seu pai era?

Janaína          O meu pai sempre trabalhou como executivo em empresa, mas ele não conseguiu fazer a faculdade na época, vamos dizer assim, convencional, ele só conseguiu fazer a faculdade dele depois de ter formado as três primeiras filhas, aí ele voltou a estudar, fez psicologia, mas ele sempre teve paixão por direito, sonhava ser delegado de polícia e…

Luciano          E a mãe?

Janaína          … a minha mãe é dona de casa, pinta quadros, faz lá esculturas, mas é dona de casa, parou de trabalhar para cuidar dos filhos, quatro filhos.

Luciano          Quer dizer, você não teve o modelo de olhar para um tio advogado, pai advogado e falar…

Janaína          Eu sou a primeira advogada na família, primeira pessoa que fez direito, na verdade sob o ponto de vista de formação universitária, eu sou a terceira, porque os meus tios não conseguiram, é uma família, meus avós vieram do nordeste, Pernambuco, vieram para trabalhar, entendeu? Então os meus tios todos são pessoas que trabalhavam, pessoas muito trabalhadoras, mas pessoas simples, então não é uma família de acadêmicos, aí a geração que seria a minha, as primas mais velhas, duas fizeram nutrição na minha frente, então vamos dizer que eu seria a terceira pessoa da família que terminou um curso universitário, entendeu? E depois de mim, meus três irmãos fizeram direito, vários primos fizeram direito, meu cunhado fez direito, comecei a namorar muito cedo, então assim, eu influenciei, aí não sei se positiva ou negativamente, a família inteira…

Luciano          Quer dizer, você chegou no direito por seguir uma orientação do seu pai?

Janaína          Não, não, não, isso foi um dos pontos, porque assim, por exemplo, eu convivi na infância muito com os meus avós e os meus avós sonhavam que eu fizesse medicina, então alguém perguntava Jani, o que você vai ser quando crescer? Minha avó já respondia, médica. Minha avó é super mandona, eu acho que eu puxei muito o lado pernambucano nesse aspecto, minha avó é bem mandona e eu convivi muito com ela na infância e ela dizia que eu seria médica, meu pai gostava dessa história do direito, eu não fui fazer direito pelo direito, eu fui fazer direito pela São Francisco, eu sei que é esquisitíssimo dizer isso, eu queria estudar lá…

Luciano          Ah, você queria estudara na São Francisco.

Janaína          … é, eu queria estudar lá, entendeu?

Luciano          Se não fosse direito, se fosse administração de empresas, estava valendo?

Janaína          Eu não sei te explicar, entendeu? Você fala Janaína, você sonhou ser professora? Não, muito embora eu seja professora desde sempre, durante a faculdade eu dei aula de inglês, eu dava aulinha para as minhas irmãs, então assim, mas eu nunca sonhei em ser professora, nem nunca sonhei em ser advogada, entendeu? Eu queria fazer largo São Francisco, porque eu achava o seguinte, que as pessoas que de alguma maneira foram importantes para o país, saíram de lá e eu sempre quis ser importante para o meu país, entendeu? Eu falei, eu tenho que estar lá, é um negócio esquisito que uma menina pense desse jeito.

Luciano          Uma menina com 18 anos.

Janaína          Não, eu entrei lá com 17, então com 15…

Luciano          17 anos, então vamos lá, uma menina com 15 anos bota na cabeça que vai estudar na São Francisco, não é fácil entrar na São Francisco, não é fácil.

Janaina          Tanto é que eu não prestei as outras, entendeu? Porque eu queria ir lá, meu pai falava assim, mas presta as outras, a gente… que a família não é uma família que… não era uma situação que meu pai pudesse falar olha, escolha o que você quiser que esta tranquilo, nunca foi, mas a gente faz um esforço como fez para pagar o colégio tal, mas eu nem prestei as outras e não é porque eu achava que as outras não fossem boas, é porque o problema não era o direito, o negócio era estar no Largo São Francisco, entendeu?

Luciano          Você já começou dar uma pista para a gente fantástica ai sobre essa tua alça de mira, deixa eu ajustar a alça de mira, deixa eu focar no meu objeto, foquei, eu travei e lá vou na direção dele.

Janaína          Eu vou fazer um comentário super assim… politicamente incorreto, não é? Mas se há alguma coisa que eu foquei, a primeira coisa que eu foquei na vida, quando tinha 10 anos, uma amiga do terceiro ano do primário me convidou para o aniversário dela, a hora que eu cheguei no portão da festa, tinha um garoto dentro… do lado.. sabe aqueles portões de garra assim, de barra, então eu estava vendo dentro da festa e tinha um garoto encostado na parede, a hora que eu vi aquela criatura eu falei, eu vou casar com esse cara, eu tinha 10 anos, é meu marido até hoje.

Luciano          Eu não preciso perguntar se é seu marido ou não porque pelo jeito…

Janaína          É, eu falei assim, eu vou casar, entendeu? Eu nunca vi um olho tão lindo, um olhar tão lindo, tudo lindo, entendeu? Eu falei eu vou casar com esse cara. Eu brinco com ele, porque o pessoal fala nossa, você conquista tantas coisas, eu falo realmente, agradeço a Deus porque são muitas conquistas mesmo.

Luciano          Eu estou começando a ficar com medo de você.

Janaína          Mas a primeira conquista mesmo que eu reconheço foi essa paixão entendeu? Eu tinha 10 anos, ele aparentava mais por ser alto, tal, mas ele tinha 12, então vamos dizer assim, foi minha primeira vítima.

Luciano          Legal. Suas irmãs são iguais a você?

Janaína          Na personalidade?

Luciano          É, nesse vou para cima com trator e…

Janaína          Não, são muito sérias, trabalham também de maneira dedicada…

Luciano          Mas não tem esse ímpeto seu…

Janaína          Eu sou um tipo estranho, reconheço, entendeu? Reconheço assim.

Luciano          Como é que você explica isso, sair de um mesmo ambiente, a mesma família, mesma região… a diferença de idade de você para elas é muito grande?

Janaína          Eu tenho 42, a segunda tem 40, a terceira 38 e o caçula tem 31.

Luciano          Pertinho, quer dizer, esse grupo está no mesmo ambiente formado com a mesma cultura e uma sai uma espoleta espevitada e as outras não saem, saem diferentes, quer dizer, não é o contexto que faz isso, se fosse o contexto saia todo mundo igual, tem alguma coisa…

Janaína          Bom, e acredito no espírito, eu sou muito espiritualista assim, eu acredito no espírito, eu acredito em programação espiritual, entendeu? Eu acredito nessas coisas, então eu acho que nós não somos só meio, nós somos… tem o biológico, tem o sociológico, tem o espiritual, acho que essas coisas ditam muito.

Luciano          E conforme você engatilha isso você  consegue estabelecer o caminho. Mas vamos lá, você resolve entrar e entra na São Francisco, cá estou eu na São Francisco cursando direito e você tomou contato com aquele mundo e quando olhou para aquilo foi paixão ou você demorou para se convencer de que o direito era a tua praia.

Janaína          Então, não é o direito, é… Não é o direito, então por exemplo, se me perguntar, eu nunca fui numa peruada, você já ouviu falar na peruada?

Luciano          Já.

Janaína          Uma festa tradicional na faculdade, meus alunos se matam de rir quando eu digo para eles que eu nunca, eles acham que é mentira, mas eu nunca fui numa peruada, entendeu? Eu não tenho assim lembrança de festa, eu gostava de estar ai, entendeu? Então às vezes dava o horário do intervalo, eu ficava dentro da biblioteca sentada lendo ou eu adorava ficar sentada do lado do túmulo de Julius Frank, por exemplo, tem um túmulo ali no meio da faculdade, então eu gostava de estar ai, aí eu fui do 11 de agosto, fui diretora do 11, você perguntar, mas você não estudava direito? Estudava, porque eu sempre fui estudiosa, entendeu? Mas assim, você fala assim não, eu era apaixonada por tudo ali sabe, era apaixonada pelos livros, pelos professores, pelas aulas, pelo prédio…

Luciano          Já fez toda diferença, já fez, porque alguém que vai para um lugar como esse, para uma escola que não é uma escola fácil e não gosta daquilo tem um problema quase que insolúvel, no teu caso acaba sendo natural.

Janaína          … não, eu adorava, aí eu entrei para… no segundo ano da faculdade, eu já era diretora do 11, na verdade eu comecei a trabalhar no 11 de agosto já no primeiro ano da faculdade, no segundo ano eu era oficialmente diretora do 11..

Luciano          Do centro acadêmico…

Janaína          … do centro acadêmico 11 de agosto…

Luciano          … que é um centro importante no Brasil e que te expõe para os primeiros… um ambiente político.

Janaína          … sim,  e aí a gente virava a noite discutindo, porque como eu não perdia aula, o nosso grupo do 11 era um grupo interessante, a gente era estudioso, hoje eu falo para o pessoal, falo pô, vocês estão muito largados, eles acham que ser do 11 é só ser do 11, não é e a gente não perdia aula, então a gente virava a madrugada, a política era na madrugada, era no fim de semana, entendeu? Era fora do horário de aula.

Luciano          Quando que era esse, que época que era?

Janaína          Mil e novecentos… eu entrei em 92, 1993.

Luciano          93, é, estava saindo de um período altamente turbulento ali porque o Collor tinha caído.

Janaína          Então, eu fui uma das…. lá na São Francisco eu fui uma das organizadoras do fora Collor, eu fui uma das organizadoras.

Luciano          Você já começou com essa tua habilidade para derrubar presidente lá no Collor.

Janaína          Eu fui para a Paulista, eu chamei o povo para a sala do estudante, eu fiz discurso já lá, entendeu? E então ai em 93 fui oficialmente diretora paralelamente eu entrei no DJ, que é o departamento jurídico onde a gente presta assistência jurídica gratuita para a população carente, então eu também advogava, vamos dizer assim entre aspas nesse departamento, tive vários casos lá, atendia, adorava, entendeu? Atender a população, resolver os conflitos, mais do que ajuizar as ações, eu gostava de resolver os conflitos, entendeu? Então antes de entrar com a ação, isso é uma coisa que eu tenho no meu perfil, eu costumo desestimular as pessoas a entrarem com a ação, que é um negócio intrigante, às vezes um amigo me indica um cliente, aí o cidadão vai lá no  escritório, conversa comigo a tarde inteira e sai decidido a não propor a ação, então aconteceu de um amigo meu indicar uns trê  ou quatro e eu convencer todo mundo a não fazer nada, um dia o cara me ligou e falou pô Jana você está rica? Eu falei por que? Ele falou eu te mando os clientes você dispensa todo mundo? Eu falei não, só tem sentido promover ações, mexer a justiça quando é uma situação que justifica, porque o conflito judicializado, ele gera muito stress, é o gasto econômico, é o desgaste emocional, é a frustração, porque nunca o final, por mais que você ganhe, nunca é exatamente o que você gostaria, é a perda de tempo do juiz, do promotor, do delegado, é…

Luciano          Num país que está afogado em processos.

Janaína          … sim, então eu tenho essa mentalidade de buscar solução de conflitos, entendeu?

Luciano          Olha que insight interessantíssimo, quem olha de fora e não conhece a Janaína fala, pô essa mulher gosta de briga.

Janaina          Não, eu só brigo quando não tem jeito, sério mesmo, é dificílimo arrumar uma briga comigo, a pessoa tem que realmente fazer por merecer. É…

Luciano          Você se forma lá?

Janaína          Sim…

Luciano          na faculdade?

Janaína          … em 96.

Luciano          Tá, você pegou algum… que…. braço do jurídico você pegou? Você foi algum…

Janaína          Penal…

Luciano          … penal, você foi para o penal.

Janaína          … é, para o penal, aí por volta do terceiro ano assim, eu encontrei um livro sobre crime tributário, crime econômico, que era uma coisa nova na época e eu li aquele livro, achei interessantíssimo, falei eu quero trabalhar com isso, aí eu comecei a procurar estágio em escritórios particulares e lembro que tive uma proposta excelente de uma outra área e uma proposta mais humilde de uma segunda área, da área que eu queria e eu aceitei e aí foi um período super complicado porque eu estudava de manhã, eu fazia estágio a tarde, eu cumulava o meu estágio com os casos do jurídico e eu dava aula de inglês à noite e aos sábados, então assim, muita gente, durante o processo de impeachment falava Janaína como é que você está aguentando virar a noite, trabalhar feito um cão, ficar ali, eu falei isso é minha vida…

Luciano          É treino, você estava treinada para isso…

Janaina          … entendeu? Isso assim, é claro que a exposição foi muito grande e a responsabilidade muito grande, porque de certa forma foi um país com expectativa em cima do meu trabalho, mas assim, em termos de carga de trabalho, aquilo para mim é normal, normal não almoçar, normal não dormir, entendeu? Eu estou habituada com isso.

Luciano          E você então mergulhou nessa área do direito de crime…

Janaina          do direito penal…

Luciano          … voltado para o crime econômico…

Janaina          … sim, crime empresarial, aí trabalhei um tempo como estagiária num escritório dessa área, depois me formei e fiquei um tempo lá. Só que eu já estava fazendo a pós graduação, então aconteceu de ser incompatível fazer a tese da maneira como eu queria e trabalhara para uma outra pessoa, entendeu? Até porque as pessoas tem uma postura muito assim, ah, faz para cumprir tabela, entendeu? Eu não faço nada pra cumprir tabela, se eu faço alguma coisa, tem que ser bem feito, eu sou absolutamente neurótica nesse sentido, se eu vou fazer tem que ser bem feito, entendeu? Não importa o que, se você for almoçar na minha casa e eu for cozinhar para você, eu vou caprichar porque… posso até errar involuntariamente, mas a minha dedicação vai ser 100% para que aquilo saia bem feito e eu comecei a ser cobrada no sentido de não me dedicar tanto, não me preocupar tanto com a qualidade da tese e eu também comecei a perceber que eu teria dificuldade para trabalhar com uma outra pessoa, por exemplo, pegando casos nos quais eu não gostaria de trabalhar, entendeu? E aí eu saí do escritório onde eu trabalhava para ficar um tempo só estudando, quando, por uma coincidência do destino, uma pessoa com quem eu não tinha, naquela época, amizade, eu não, até hoje eu não sei quem indicou para ela, essa pessoa que hoje eu tenho uma amizade com ela, que é a Dra. Ana Sofia Schmidt de Oliveira, ela estava num cargo importante na Secretaria de Segurança Pública, foi ela que informatizou toda essa questão de dados criminais, estatísticas, tal, um dia ela me telefona e pergunta se eu quero trabalhar com ela na secretaria, eu não tinha nem ideia do que era, entendeu? Ela falou vem aqui que eu vou te explicar, ai eu cheguei lá, fiquei a tarde inteira, ela me explicando o que era uma companhia da PM, o que era uma seccional da polícia civil…

Luciano          Secretaria de estado?

Janaína          … sim, aqui em São Paulo, isso. Aí eu falei olha, Sofia, eu acabei de sair do escritório, eu estou no momento do doutoramento, estou na fase final, mas eu adoro aprender, você entendeu? Eu adoro aprender coisa nova, coisa nova me… eu reparo uma diferença muito grande entre o meu perfil e o dos meus colegas, por exemplo, professores na faculdade, eles gostam muito de estudar o tema que é o tema deles, as disciplinas deles, eu gosto de estudar, mas assim, chega uma hora que eu falo, eu preciso de coisa nova, entendeu? Por isso que eu crio muitas disciplinas novas, eu preciso, não é só pelos alunos, é por mim.

Luciano          Você comentou, eu vi você comentar por cima ali que você passou um período morando numa favela.

Janaina          Ah eu vou explicar, isso é na época da secretaria…

Luciano          Já chegamos lá, tá.

Janaína          … é, aí a Sofia me chamou para esse trabalho na secretaria de segurança pública, foi um momento que me ajudou muito como ser humano, por quê? Eu  vinha de um escritório de advocacia criminal, onde você vê muito o lado do acusado, entendeu? Então assim, o acusado é perseguido, é humilhado, as garantias individuais que são importantes, tá? Mas estar na secretaria me fez ver o lado da vítima, entendeu? O lado da vítima, a pessoa que é morta, a pessoa que é estuprada, a pessoa que é roubada, a pessoa que não consegue ver quem estuprou a filha ser punido, entendeu? A pessoa que de repente é humilhada por uma autoridade, ela vai denunciar e aí armam um processo contra ela, então eu vi um outro lado, então eu convivi muito com a polícia, entendeu? Eu ia para… Esse negócio da favela, que eu comentei, foi o seguinte, a doutora Ana Sofia criou um programa que foi um período muito complicado em termos de números criminais que São Paulo atravessava, ela criou um programa que foi o seguinte, a polícia militar tomou quatro favelas, fez prisões de pessoas significativas nessas comunidades, nessas favelas e aí num segundo momento, entraram os equipamentos sociais do estado, então entraram… entrou a polícia civil para tirar documentação, por exemplo, eu cheguei a entregar RG para homem de 50 anos que nunca tinha tido um documento, entendeu? Eu chorei quando isso aconteceu, chorava o cara, chorava eu, entendeu? Você não tem ideia do que é uma pessoa que não tem identidade, receber uma identidade, a gente que tem identidade não consegue imaginar…

Luciano          Não dá para se colocar no lugar.

Janaína          … e aí então foi isso, aí o pessoal da educação entrou, nós construímos quadra nas favelas e havia várias atividades diárias, entendeu? A ideia era o seguinte, a gente está por um lado prendendo, por outro lado profissionalizando…

Luciano          O estado ocupando o espaço…

Janaína          … isso, infelizmente foi um programa que durou um ano e pouco, entendeu? Essa coisa de governo muda o secretário, muda a equipe, não tem sequência, mas o período que nós ficamos lá, o meu trabalho em grande medida, tirando as comissões que eu presidia, que aí tinha… eu tinha  que estar na secretaria, o meu trabalho era estar na favela, então eu punha meu taierzinho, meu tubinho preto, eu tenho muito vestido preto, meu sapatinho, pegava uma viatura da PM e ia para a favela, entendeu? E aí passava o dia inteiro conversando com o povo, vendo se as coisas estavam funcionando, porque tinha tratamento de saúde, então e como esse grande trabalho de coordenação de todas as secretarias estava concentrado na secretaria de segurança pública e a Sofia, que era minha chefe direta, ela tinha que ficar na secretaria, eu era o braço dela dentro da comunidade, entendeu? Então assim, eu aprendi muito ali, entendeu?

Luciano          Quem era o governador?

Janaína          Então, eu acho que foi, eu não tenho certeza absoluta, mas eu acho que foi o período que o Covas adoeceu e o Geraldo Alckmin assumiu, eu acho que não tinha sido Geraldo Alckmin eleito, estava nesse momento de transição e então foi um período muito interessante, meu contato era exclusivamente com a Ana Sofia, porque tem gente que levantou isso para dizer que eu tinha tido cargo do PSDB, ah está vendo, ela teve cargo do PSDB, isso não é cargo do PSDB, isso é um convite que eu recebi técnico, entendeu? De trabalho técnico, não tem nada a ver com o PSDB e eu aprendi muito nisso ai, então a gente fez trabalho, por exemplo, teve toda uma reestruturação da carreira da PM, eu presidi essa comissão, então eu tive que visitar os hospitais da PM, eu tive que visitar, eu fui participar de uma missa na PM, você não tem ideia, a missa na PM que tem o policial militar capelão, é completamente diferente, porque na hora das oferendas, você leva o coturno, você leva os instrumentos de trabalho, entendeu? Do policial militar, eu fiz um estágio dentro do DHPP, com aqueles delegados mais antigos, me explicando qual é, como é que é uma investigação. Então eu lembro até hoje de uma aula que eu tive com esses delegados, que eles diziam assim, Janaína, a gente começa uma investigação se você tirar alguém da investigação, você já começou errando, se você disser não, olha o Luciano é um cara legal, poxa, esse cara aí jamais, ele não é suspeito, você já começou errando, entendeu? Uma investigação ela tem que estar aberta, aí eu fui conhecer o pessoal da polícia científica, por exemplo, dentro da faculdade eu sou umas das poucas professoras que valoriza a criminalística, a perícia, levantamento de local do crime, de onde é que eu trago isso? Primeiro do meu trabalho na secretaria de segurança pública, segundo do fato de eu ter tido uma aula com professor já falecido, seu Zarzuela, que foi um dos grandes criminalísticos do Brasil que dava uma aula de pós na sexta feira a noite, a gente ficava até as 11 da noite com ele estudando perícia, levantamento do local do crime, então assim, o que eu posso te falar do meu perfil, é que é um perfil muito multidisciplinar,  que nem sempre é valorizado, muito embora eu ache que é importante você ter esse…

Luciano          Deixa eu aproveitar essas dicas que você está me dando para passar um insight meu também, o meu contato com a polícia e tudo mais é como cidadão. Eu olho  de longe, não tenho parente, não conhecia nada daquilo lá e eu tive a chance de fazer palestras algumas vezes na academia do Barro Branco e ali ter contato direto com eles, então eu fui recebido, entrei, almocei com eles, tive lá dentro, conversei com os caras, bati um papo grande com os caras que estavam me assistindo ali, aquilo era como uma pós graduação da polícia lá e o contato com essa turma muda totalmente tua perspectiva do que é ser polícia, do que é ser um policial, que não passa de um brasileiro igual a mim, igual a você que está com uma farda e tem que cumprir uma função…

Janaína          … o que ocorre é o seguinte…

Luciano          … é uma sociedade.

Janaína          … eu costumo falar para os meus alunos que toda profissão tem sua dor, toda profissão tem sua dor, às vezes eu estou na situação de advogada e fico chateada que o juiz faça determinada coisa, o que que eu paro e penso? Eu me coloco na situação do juiz, entendeu? Então você tem que entender que toda profissão tem sua dor e que toda vez que você pega um determinado crime praticado por um membro de uma instituição e você generaliza aquele crime, você está errando, entendeu? E o que eu sinto que ocorre com relação à polícia, com relação às forças armadas, com relação até aos advogados que tem, existem muitas críticas, é uma generalização de situações que são graves, que devem ser punidas, mas que não são da instituição, entendeu? Aí começa, por exemplo, minha primeira diferença com o PT e com a mentalidade petista, com o petismo, porque eles tem uma mentalidade generalizadora, generalizante, sei lá qual é o termo mais adequado…

Luciano          Quem não está comigo é contra mim.

Janaína          … sim, e é assim, de demonização de instituições, então por exemplo, nessa época de secretaria que a gente teve uma comissão para redução da letalidade nas ações policiais, a ideia era que os policiais morressem menos e matassem menos, ou seja, atuações mais seguras para todas as partes, porque quando uma operação policial, ela é bem sucedida? Quando ela acaba em prisões, não quando ela acaba em morte ou ferimentos. Eu convivo com um cidadão, Paulo Mesquita, que já faleceu, foi Paulo Mesquita que criou, por exemplo, o disque denúncia em São Paulo, ele que idealizou, ele que operacionalizou, aí o Paulo foi vítima de uma leucemia assim daquelas trucidantes e por que que eu acho o Paulo um cara interessante? Porque ele era um estudioso da matéria de segurança pública, que eu acho isso importante, um grande pesquisador, um defensor dos direitos fundamentais, mas que não setorizava direitos fundamentais, entendeu? Ele via direitos fundamentais como sendo do ser humano, que é como eu vejo também, o ser humano polícia, o ser humano vítima, o ser humano preso, culpado ou inocente, entendeu? O ser humano juiz, então o Paulo foi uma pessoa que me ensinou muito, entendeu? Porque hoje quando você fala que as pessoas se apresentam como especialistas em segurança pública, na verdade elas não são, elas são especialistas em violência policiai, é outra coisa, elas estão preocupadas única e exclusivamente com a violência policial como se esta violência fosse a única presente e ela não é. Então, eu me preocupo com violência policial, claro, mas eu me preocupo com a violência também não policial, entendeu? E o Paulo, ele era assim, entendeu? Então o convívio com o Paulo fez com que eu aprendesse muito, como também o convívio com a Sofia.

Luciano          Legal, você está dando uns insights bem interessantes que é esse de você olhar o problema por todos os lados dele, quer dizer, eu não posso chegar na Janaína agora falar Janaína você é uma coxinha, você vai sentar na minha frente aqui e vai me dar uma aula de vida em favela que um coxinha nem sabe onde fica isso, e você esteve lá dentro, não só assistindo como participando, você esteve lá no dia a dia.

Janaína          É muito interessante como tem lideranças dentro dessas comunidades, muitas lideranças femininas…

Luciano          Você sabe que tem um estudo no Rio de Janeiro que eu preciso encontrar ainda, que é o estudo de uma professora, acho que da Getúlio Vargas, que ela fez um estudo fabuloso sobre liderança do ponto de vista das quadrilhas de traficantes que tem um processo de sucessão de liderança nas quadrilhas, que ela falou isso é um processo que se eu conseguisse reproduzir dentro de uma empresa, eu teria uma fábrica de líderes lá e eles conseguem fazer isso nesse ambiente da favela e você consegue ir lá e aprender, o tipo de coisa que não passava pela cabeça, como assim? E a professora vem e mostra. Eu preciso achar esse trabalho aí que é fabuloso.

Janaína          É, mas tem uma coisa, por exemplo, que eu disse que eu desmistifiquei ou desmitifiquei nesse trabalho, foi o seguinte: de que o traficante é bonzinho, o traficante não é bonzinho, o traficante vitima aquela população carente. Para você ter uma ideia, a gente construiu a quadra e estava tendo uma determinada atividade e uma senhora que tinha uma casa um pouco mais confortável do que as demais, ela serviu água para a gente, no dia seguinte destruíram a casa dela, porque ela serviu água, porque ela estava ajudando o estado, entendeu? Então essa história do traficante bonzinho, do traficante que ajuda a população, isso é uma grande falácia, essas pessoas são reféns, são trabalhadores que estão ali, de alguma maneira abandonados pelo estado, reféns do crime, então assim, eu não tenho essa visão romântica do traficante que é legal, que ocupa o lugar do estado, ocupa no mau sentido, entendeu? Não é porque ocupa para ajudar, ocupa para submeter.

Luciano          Vamos lá. Você então vai chegar na tua própria empresa, como é que é a sequência da tua vida…

Janaína          Do escritório você diz?

Luciano          Do seu escritório.

Janaína          Então, aí eu saí, fui para a secretaria de segurança pública, aí o meu orientador que era o Prof. Miguel Reale Junior foi chamado para a ser ministro da justiça, eu estava dando aula na FMU, tocou meu telefone, era o professor Miguel, aí naquela época eu tinha muito medo dele, ainda tenho, mas assim, eu tinha mais porque ele era muito mais bravo do que ele é agora e ele não dava espaço para você falar, Janaína, acabei de ser convidado para ser ministro, quero saber se você vai comigo. Eu fiquei tão assim, falei vou, porque não dava para dizer não para ele, ele era muito bravo, até falei para a esposa dele que ao longo do tempo, ela é a terceira esposa e eu acho que ela fez com que ele ficasse uma pessoa mais doce…

Luciano          É a impressão que eu tenho dele, quando eu vejo, é que é um sujeito doce…

Janaína          … ah você não conheceu antigamente, você não tem ideia do que é ser aluna dele, do que é ser orientanda dele. E aí eu lembro que ele falou isso e eu estava nessa coisa de sair da secretaria, só que eu já estava casada, então foi complicadíssimo isso, porque a família do meu marido é uma família convencional, o pai trabalha, a mãe fica em casa, como é a minha também, o pai trabalha, a mãe dona de casa e  eu lembro que eu saí da FMU, tinha dado aula, liguei para ele e falei olha, a gente pode almoçar? Aí no caminho, a gente foi almoçar na casa da mãe dele, nem sei porque, aí no caminho eu fui conversando com ele, falei olha, meu professor ligou, meu orientador, como é que eu ia dizer não? Aí eu cheguei na casa da minha sogra, ela pondo o almoço, e o Laércio falou: a Janaína foi convidada para ir para Brasília para assessorar o professor Miguel. Aí a minha sogra virou e falou assim, imagina que absurdo fazer um convite desses para uma mulher casada e eu já tinha aceitado, entendeu? Aí ele falou é mãe, mas ela aceitou, então assim, foi…

Luciano          A sogra, aquele olhar de sogra.

Janaína          … é, então assim, de certa forma eu fui quebrando sabe, protocolos em muitos ambientes, a ida para Brasília foi interessantíssima, porque foram apenas quatro meses e eu, depois descobri que muita gente inventava evento para poder ganhar as passagens, mas eu paguei todas as  minhas passagens, então toda segunda feira cedo eu ia para Brasília, eu sei que muita gente vai na terça, toda sexta feira a noite, muito embora muitos voltem na quinta, eu voltava de Brasília, pagando as minhas passagens, entendeu? Cheguei a ficar até de madrugada no ministério trabalhando sozinha, entendeu? Cheguei a ficar, foi legal essa experiência porque eu tive uma visão do centro da coisa, entendeu? Eu tinha a visão da ponta e eu tive uma visão do centro e isso é muito diferente, é muito diferente porque Brasília manda o dinheiro para as pontas fazerem, por alguma razão eu era muito cismada com ONG, eu era muito cismada com ONG eu achava que ONG desviava dinheiro já naquela época, eu sentia isso e Brasília  tinha fetiche com ONG, então se era ONG era bom e você vê que essas coisas, essas generalizações estão sempre erradas. Tem ONG boa, tem ONG que não presta, tem igreja ótima, tem igreja que não presta e eu vivi muito com pessoas que achavam assim, tudo o que é de igreja é ruim, tudo que é de ONG é bom. Eu convivi com isso nessas minhas experiências nos governos, eu convivi muito com isso, que ainda convivo dentro da USP, então foi uma experiência interessante conhecer pessoas com outra mentalidade, gente de outros estados, ver um pouco de como é que as pessoas veem São Paulo, então foram quatro meses, eu lembro que quando o Professor Miguel, porque o que aconteceu? O prof. Miguel fez uma grande reunião com várias lideranças e decidiram fazer uma intervenção no Espírito Santo, por causa do crime organizado, ele tinha tido o aval do presidente Fernando Henrique, estou te contando de memória, de repente eles podem ter algum dado que… ele tinha tido o aval do presidente Fernando Henrique só que ele anunciou para a imprensa a intervenção, houve uma reunião do presidente Fernando Henrique com o procurador geral, que na época era o Geraldo Brindeiro, e eles deram uma declaração desautorizando o prof. Miguel, entendeu? E aí o professor saiu do ministério e eu lembro que eu fui contra ele, acho que foi o primeiro momento que eu tive coragem de divergir do prof. Miguel, falei o senhor não  deveria ter feito isso e ele ficou muito bravo, imagina,  nunca tinha sido, acho que eu nunca tinha falado não, eu nunca tinha…

Lucianno        Confrontado

Janaína          … nunca, naquele momento eu confrontei e foi um momento que eu senti que a interpretação que a equipe teve foi de que eu estava preocupada com o cargo, entendeu? Só que eu nunca liguei para cargo, pelo contrário, a minha vida pessoal estava um lixo por causa daquele trabalho, mas eu achava que pelo país, a gente tinha que ficar, porque eu já sentia um crescimento do petismo muito grande, então, por exemplo, vários cargos dentro do ministério eram ocupados por petistas declarados, havia assessores com os quais eu tinha amizade, eram petistas declarados.

Luciano          Isso no governo Fernando Henrique?

Janaína          Sim, no governo Fernando Henrique, o que mais tinha ali era petista e eu sentia isso, esse crescimento, esse fortalecimento e eu achava que a gente tinha que ficar, entendeu? Para ocupar os espaços, porque se você não ocupa, os outros ocupam, só que eu fui super mal interpretada já naquele primeiro momento, porque muita gente começou a achar que era por causa do cargo, mas o cargo não me levava a nada, fora esse aprendizado, porque eu pagava minhas passagens, eu pagava para trabalhar, eu estava com problema em casa, porque meu marido não aceitava, a família do meu marido não aceitava, então assim, para você ter uma ideia, quando o professor saiu do ministério, meu marido abriu um vinho para comemorar, mas eu estava triste não por sair do ministério, porque eu sabia que aquela saída de alguma maneira…

Luciano          Ia abrir o espaço…

Janaína          … ia abrir um espaço, entendeu? E abriu mesmo, porque eles tomaram conta.

Luciano          Deixa eu perguntar uma coisa que está me cutucando aqui, em momento algum você está falando daquela coisa da Janaína pensando que que eu quero ser quando crescer? Entendeu? Eu estou me vendo como uma advogada, com a minha banca de advocacia, estou me vendo trabalhando como…  num cargo grande do serviço público, estou me vendo trabalhando em alguma… você tinha essa perspectiva?

Janaína          Então, Luciano, é o seguinte: você sabe se você  está vivo amanhã?

Luciano          Eu não tenho a menor ideia.

Janaina          Você sabe?

Luciano          Não.

Janaína          Eu não sei, entendeu? Às vezes a gente fica planejando muito… eu não acho que a gente tem que ser louco de não ter responsabilidade para com o futuro, não é isso, no entanto, às vezes você fica pensando muito numa coisa, querendo muito uma coisa e você perde a  oportunidade de aprender com o que está acontecendo, você perde a oportunidade de realizar enquanto as coisas estão acontecendo, entendeu? Eu sempre tive como mote para mim aproveitar o máximo em termos de aprendizado, o momento, o que está acontecendo, entendeu? Então assim, eu falo meu Deus, eu tive a oportunidade de trabalhar dentro da polícia, sabe, eu quis ver tudo, eu quis conhecer tudo, eu quis visitar todos os prédios, entender como funcionavam todos os órgãos, as pessoas às vezes achavam que eu era a, tão engraçado isso, houve várias passagens, que as pessoas achavam que eu era espiã, dos chefes,  porque eu ia em todos os setores e perguntava tudo, como funciona, o que você faz? O que fulano faz? Mas ninguém tinha mandado eu perguntar, na verdade eu fazia todas aquelas  perguntas porque eu queria entender, para mim, você entendeu?

Luciano          Então a impressão que me dá é que você tem uma gana, estou me preparando, eu estou aprendendo, estou me preparando…

Janaína          Lógico, a gente não sabe o que vem na sequência.

Luciano          Pois é, me preparando para o que?

Janaína          Para o que Deus decidir. Teve uma passagem no ministério que eu lembro, até eu precisaria conversar com o Eduardo Reale, o Eduardo Reale é sobrinho do professor Miguel Reale, que hoje a gente está mais afastado, mas é uma pessoa que eu gosto muito assim sabe, e aí teve uma passagem que o Eduardo foi para Brasília, mas o Eduardo não tinha cargo nem nada, chegou e Brasília assim no meio do nada, falei oi, você veio visitar seu tio? É. Só agora, mais madura, ele tinha ido para conversar comigo, porque estava todo mundo reclamando de eu me meter no trabalho de todo mundo, aí ele falava assim, Jana não, sabe o que é, vamos trocar uma ideia, vamos tomar um café, porque você quer, você quer que as coisas saiam, porque assim, eu tenho uma emergência nas coisas, entendeu? Uma emergência, então assim, se tem uma pilha ali de papel eu falo não, aquilo está parado por quê? Só que às vezes a pessoa entende eu que estou dando uma ordem, então começaram a reclamar para o ministro que ninguém aguentava a Janaína, entendeu?

Luciano          Janaína, eu entrevistei na mesma cadeira que você está sentada aí, o Aquiles Priester, o Aquiles é baterista daquela banda do Angra, um dos maiores bateristas do mundo hoje, uma carreira gigantesca, ele me contava a história, ele trabalhou comigo na empresa que eu trabalhava e  eu o trouxe para trabalhar comigo e o bicho era um trator e ele contou, sentado onde você está ai, exatamente a mesma coisa, do pessoal chegar pra ele e falar vai mais devagar ai, porque você vai acabar com a gente, baixa a bola aí porque se não…

Janaína          É, aí o Eduardo falava assim olha, evita ficar perguntando o que as pessoas estão fazendo, falei assim mas Eduardo eu quero só saber, eu quero entender, mas sabe Jana, você é mais nova, às vezes a pessoa acha que você está passando por cima, que você está fiscalizando, então do jeito dele, muito gentil, ele  estava me aconselhando e é bom, hoje eu me seguro mais, entendeu? Hoje eu me seguro mais para que as pessoas não sintam que eu estou, na verdade, tomando o espaço delas, eu incentivo que elas se desenvolvam, mas assim, eu acho triste ver uma pessoa sub aproveitada, por exemplo, entendeu? Eu acho super triste ver uma pessoa que eu estou vendo que tem potencial e que não está aproveitando, então eu tento, do meu jeito sabe, sei lá, a pessoa fez direito e não fez o exame da ordem, como? Ah mas eu não sei se eu quero, eu não sei o que eu quero, eu falo meu, você tem que ter a carteira, depois você pensa se você vai advogar ou não, não tem cabimento fazer o curso de direito e não ter a carteira da ordem, entendeu? E aí eu tenho uma irmã super light assim no sentido de respeitar, ela fala Janaína, você tem que respeitar o outro no seu momento, você não pode fazer essas coisas, eu falei mas Luana, só o que eu fiz foi dar uma opinião…

Luciano          Ninguém pediu, ninguém tinha pedido

Janaína          … mas Janaína, ninguém pediu, entendeu?

Luciano          Eu sei exatamente como é isso.

Janaína          Agora assim, às vezes, pensando num desenho, sabe aquele desenho do Pimentinha?  Do doutor Wilson?

Luciano          Qual que era?

Janaína          O Pimentinha, que bate…

Lucian            O Pimentinha me lembro, sim.

Janaína          … ele bate na porta do Dr. Wilson e sempre o Dr. Wilson fica, acho que o Pimentinha é insuportável para o Dr. Wilson, eu me sinto, ás vezes, o Pimentinha, entendeu? Porque ele tem uma baita boa intenção, ele quer fazer o bem, só que a pessoa não aguenta mais, então assim, tem situações que eu falo pô, para Janaína, Pimentinha, entendeu? Porque é muito isso, é fazer as coisas acontecerem, é fazer as coisas girarem, entendeu? É ver saindo produto, então…

Luciano          Você já nos deu aqui uma excelente descrição de como é que foi esse teu preparo, quer dizer, quem é essa figura que um belo dia aparece no cenário nacional, a gente olha, uma advogada, e ninguém faz ideia dessa tua história, quer dizer, de onde vem, o que é que tem ali, uma advogada querendo aparecer é sempre assim que aparece…

Janaína          Ah então, você perguntou do escritório…

Luciano          … então, eu estou vendo que você o tempo todo você está trabalhando de alguma autarquia, alguma coisa assim…

Janaína          … não, mas eram por poucos meses, repara que foi pouca coisa.

Luciano          … pois é, mas você estava no serviço público, você estava numa universidade, você era professora…

Janaína          Ah, professora eu ainda sou.

Luciano          … então, você estava ali trabalhando num ambiente de alguém e de repente surge esse momento em que você olha e fala assim, acho que eu posso ter o meu próprio negócio.

Janaína          Então, o que acontece? Eu saí daquele escritório, passei pela secretaria, passei pelo ministério por pequenos quatro meses, defendi a minha tese de doutoramento isso é, foi isso, defendi minha tese em 2002 e aí aconteceu o seguinte, uma pessoa me ligou e falou Janaína, tem um grande escritório empresarial, não vou falar o nome porque eu não sei se falharia, se algum problema, mas era assim top, que eles querem desenvolver a área penal deles e querem que você  desenvolva a área penal deles e  eles estão querendo conversar com você. Aí eu falei ah, tudo bem, tinha acabado de chegar de Brasília, tinha feito doutorado, só que eu cheguei… eu estava entendendo que eu estava recebendo um convite, mas aí eu cheguei no lugar, um mega escritório e tal e na verdade era um processo seletivo, aí então a pessoa me atendeu como se eu tivesse mandado um currículo, eu não entendi nada, para ser bem sincera, mas aí eu já estava lá aí eles falaram assim olha, você vai ter que fazer o toefl, para mostrar o seu inglês, você vai ter que fazer entrevista com o psicólogo, não sei o que, fiquei meio assim, falei bom, tinha entendido que eu estava sendo convidada já para o emprego. Eu adoro fazer prova, adoro prova, adoro teste, eu falei ah legal, quando terminou a bateria de teste eles me entregaram um negócio, eu nem sei se eu tenho guardado, a análise do perfil psicológico, tudo o que você possa imaginar, toefl, entrevista não sei com quem, eu adorei aquilo, tive um…. aí eles fizeram uma proposta eu falei ah, quer saber, acho pouco, aí eu liguei para um monte de gente que estava trabalhando assim, Jana, mas isso é uma mega de uma proposta, como é que você acha pouco, aí eu sei lá quanto eu pedi, tantas vezes, aí eles ofereceram mais um tanto, entendeu? Mas aí eu percebi que quando eu dizia que era pouco, o problema não era o dinheiro, eu sabia, no fundo e eu acabei conseguindo fazer essa reflexão, que se eu entrasse ali eu ia demorar mais dez anos fazendo o que os outros achavam que era importante eu fazer, entendeu? Tendo que cuidar das causas que os outros acham que é importante cuidar…

Luciano          E de acordo com a moral deles, a linha deles.

Janaína          É, então por exemplo, houve um momento que eu também não vou falar onde, que eu trabalhava para outras pessoas e entrou um caso de um político que tinha desviado muito dinheiro, entendeu? Enquanto os meus colegas pulavam de alegria porque aquilo era um caso muito importante para o escritório, eu estava me sentindo um lixo, entendeu? Eu não quero ajudar esse cara, entendeu? Eu não quero, ele tem direito de defesa, ele tem direito de defesa e eu sei que eu sou muito competente, se eu pegar, eu não posso trair, então eu vou fazer a melhor defesa, eu vou livrar a cara de um cara que eu quero que seja preso.

Luciano          Você está me dando uma… que… espera ai, para, para, para que você tá me dando, vai faltar programa aqui, você está tocando num ponto que é uma coisa fundamental, que é você olhar para aquele sujeito, você sabe que o cara é um tremendo de um advogado, que o cara atingiu o ápice do que ele podia na carreira dele e esse cara está defendendo um bandido que todo mundo sabe que é bandido e esse cara vai até as últimas consequências para livrar a cara desse bandido e esse cara é pago com o dinheiro do bandido e a gente para para pensar e fala meu, como é que a cabeça desse sujeito funciona?

Janaína          Então, mas é assim, vamos falar então…. se você pega uma causa, é isso que você tem que fazer, é trabalhar até o último minuto para beneficiar o seu cliente, esse é o papel do advogado…

Luciano          Mas o que você deixou claro…

Janaína          … eu jamais conseguiria aceitar uma causa e trair o cliente, não tem nada mais grave do que um advogado trair o seu cliente…

Luciano          … você antes de pegar a causa…

Janaína          … só que eu não quero pegar qualquer causa, você entendeu?

Luciano          … mas esse  é o ponto que eu queria colocar, você…

Janaína          Eu não quero usar, Deus me perdoe, mas eu não quero usar a minha inteligência, o que eu aprendi e eu sei que isso, sob o ponto de vista do advogado, não é considerado uma qualidade, eu sei…

Luciano          Esse é o ponto que eu estou batendo…

Janaína          … mas eu só estou sendo sincera, entendeu? É…

Luciano          Esse que é o ponto que eu estou batendo, nada te obriga a aceitar uma causa…

Janaína          Nada, é um direito do advogado, não, agora eu acho assim, se você aceitou, você tem que ser fiel ao seu cliente, entendeu? Isso está no nosso código de ética, então assim, quando me convidaram para integrar esse grande escritório, com uma grande proposta, eu percebi que se eu entrasse ali, passados cinco anos, eu estaria novamente sentida, tendo que trabalhar em alguma coisa que eu não sinto que é justa, que não me move, entendeu? Acredito que se eu tivesse pego aquela proposta até sob o ponto de vista financeiro, hoje estaria numa situação, que não me falta nada graças a Deus, mas assim, estaria numa situação muito provavelmente seria sócia desse grande escritório, o status é um negócio enorme porque é um ambiente que as pessoas… mas eu não teria a minha liberdade, você entendeu? Minha liberdade não tem preço e é aí que entra toda a minha dificuldade com partidos, muitos partidos já me convidaram para eu me filiar e  u sei que a depender do tanto que eu queria trabalhar para o meu país, pelo nosso sistema eu talvez precisasse entrar entendeu? Mas eu tenho pavor de perder minha liberdade, eu tenho pavor de pensar uma coisa e ter que falar outra, ou ter… você imagina a situação de eu ter que votar uma coisa que eu não acredito porque o partido mandou, eu morro, entendeu? Eu morro, não dá para mim, entendeu? Então quando a gente montou o escritório, eu e as minhas irmãs, por um período meu irmão também trabalhou conosco, depois ele saiu, foi para que nós pudéssemos ter liberdade…

Luciano          Quer dizer, foi naquele momento, você então recusou a aquela proposta…

Janaína          … eu recusei a proposta…

Luciano          … e vou montar meu próprio negócio.

Janaína          … e aluguei um escritório pequeno, que é onde eu estou até hoje, num prédio antigo, um escritório pequeno, onde nós trabalhamos naqueles casos que nós acreditamos que vale muito a pena colocar o nosso estudo, sabe, a nossa pesquisa, a nossa energia e eu canso, assim, meu Deus, eu não sei contar o tanto de caso que eu já recusei, para ganhar muito dinheiro, entendeu? Muito dinheiro. Mas que não era uma coisa que me movia, você entendeu? Eu viro a noite trabalhando de graça nalguma coisa que me mova, mas assim, o dinheiro, desde pequena que meu pai me fala a seguinte frase: “Janaína, dinheiro é importante, mas dinheiro tem que ser consequência do seu trabalho e tudo mais, não faça do dinheiro o seu deus, porque o dia que você fizer do dinheiro o seu deus, você está aniquilada, ainda que rica”, entendeu?

Luciano          Ainda mais sendo advogada.

Janaína          É isso, é uma coisa que internalizou em mim de uma maneira que eu acho que hoje, às vezes, até meu pai se arrepende, às vezes ele vê que eu estou perdendo oportunidades e para um pai é complicado, entendeu? Uma coisa é a gente, outra coisa é um pai que…

Luciano          Mas eu sei exatamente o que você está falando aí, eu sei quanto vale você chegar em casa a noite, botar a cabeça no travesseiro e dormir.  Eu não sei se você consegue, você pelo teu drive ai não sei se consegue dormir, mas pessoas que conseguem dormir, chega em casa bota a cabeça no travesseiro e fala é o seguinte…

Janaína          … então assim, às vezes tem casos assim, eu me envolvo muito com as causas que é uma coisa ruim para o advogado, entendeu? Eu não sou assim, ah deu seis horas da tarde ou sete horas da noite, acabou, o problema do cliente é meu, você entendeu? Eu carrego aquilo, eu quero resolver, então assim, eu tenho que trabalhar por mim, você entendeu? Não dá para trabalhar par os outros, não tem jeito.

Luciano          Deixa eu chegar agora naquele momento aqui, agora é o momento, é a curva da nossa entrevista aqui, o grande momento em que você, eu estou visualizando a cena assim, você está no seu escritório, são oito horas da noite, você ainda lá no escritório lá quietinha, de repente você nota que na janela vem uma luz, surge uma luz e uma voz diz para você assim: Janaína, vá derrubar a Dilma. Me conta esse momento, como é que começa essa história…

Janaína          Não foi só um momento, é uma sequência, entendeu?

Luciano          Como é que você chegou nessa… entrou nesse projeto?

Janaína          Veja bem, foi uma sequência de fatores, mas eu acho que o determinante foi a manifestação do dia 16 de agosto, quando me convidaram para subir no caminhão do “Vem para a rua” também uma circunstância ali meio inexplicável, teve um almoço no 11 de agosto, eu comentei na mesa lá que eu achava que cabia impeachment, um dos garotos que estava comigo na mesa conhecia alguém do vem para a rua, que eu não conhecia ninguém, pô Jana, você não sobe no caminhão para falar aí esses seus argumentos? Subo. Só que quando eu subi eu me emocionei demais, entendeu? Eu me emocionei tanto, eu bati tanto no peito que o meu peito ficou roxo por três meses…

Luciano          Até então ninguém sabia quem era Janaína Pascoal.

Janaína          Eu acho que mesmo depois…

Luciano          Não, naquele momento não existia Janaína que a mídia mostrou depois, você estava começando a surgir ali…

Janaína          Eu acho que não, eu já tinha participado de alguns programas falando de drogas, que eu fui presidente do conselho de drogas, falando de direito penal, entendeu? Do código penal que estava em andamento que eu acompanhei o projeto, mas assim, acho que nada nessa dimensão, aí eu subi no caminhão e comecei a falar que se a gente esperasse a oposição não ia acontecer nada porque a oposição era muito mole, que a gente precisava fazer por nós, que cabia impeachment, que eles não iam fazer nada tal, e quando eu desci, eu ouvi as pessoas falando muito assim, ah a gente está fazendo papel de otário, a gente vem para essas manifestações meio assim como se nós fôssemos marionetes, entendeu? Manipulados, é fica aquilo começou a me irritar, aquelas musiquinhas nos caminhões, eu falava o que nós estamos fazendo aqui? Entendeu? Tanto é que antes dessa manifestação eu cheguei a falar em casa, eu não vou mais, eu não vou mais porque eu não sou otária, a gente vai não acontece nada, ninguém faz nada, porque eu não achava que era eu consegue entender? Eu não achava que eu seria a pessoa.

Luciano          Que é o que todo mundo pensa, aquele 1 milhão que está lá, não é nenhum deles.

Janaína          Aí eu falava assim, não, esses caras estão enrolando a gente, eles estão fazendo isso aí com alguma finalidade que eu não sei qual é, mas eles não vão fazer nada, é para enrolar a gente. Aí eu subi no caminhão e eu, desculpa o termo, mas eu vomitei isso, entendeu? Eu falei gente, nós estamos sendo enrolados, não vai sair nada daqui, entendeu? Ninguém quer nada, isso aqui não sei o que é isso aqui, mas isso aqui não tem fim, não tem foco, manifestação sem foco não dá em nada, entendeu? E aí eu cheguei em casa nervosa, falei para o meu marido, eu tenho que fazer alguma coisa, entendeu? Eu expliquei lá no caminhão que cabe o impeachment, que tem elementos, eu tenho que fazer alguma coisa, aí eu comecei a ligar para as pessoas, entendeu? Liguei para os presidentes de instituições, grandes advogados, sugeri, falei vamos fazer, teve um amigo meu que até hoje ele fala Jana, quando você me falou eu achei que era brincadeira, só depois que eu vi na imprensa que eu vi que era sério e… Porque eu estava…

Luciano          Mas você tinha uma consciência interna de que você tinha as armas para fazer andar

Janaína          Veja, eu sou uma professora de direito, então assim, sob o ponto de vista técnico, ninguém melhor do que eu, percebe? O que eu não imaginava era que eu tivesse a dimensão política, você entendeu? Porque o da época do Collor foi a OAB, foi a associação da imprensa, ABI, não é isso?

Luciano          Era a ABI sim.

Janaína          A ABI, então assim, eu imaginava algo do gênero, você entendeu? Por isso que eu liguei para as associações, a associação dos advogados, várias associações eu procurei e então assim, mas a questão técnica, eu não tinha dúvida, porque assim, eu estudo muito, você entendeu? Eu sei que as pessoas não estudam tanto, então eu não tinha dúvida da parte técnica…

Luciano          Você estava falando que você estava ligando para a turma, ligando para o pessoal.

Janaína          Isso, e aí ninguém… as pessoas assim, sabe a gente às vezes fica magoado, mas você também tem que ter uma compreensão, essa coisa de se colocar no lugar do outro, porque eu fiquei muito magoada com as pessoas que me diziam, você tem razão mas eu não quero fazer isso, entendeu? Não quero participar, não quero expor meu escritório, não quero… Teve gente que falou que a mulher não deixava, entendeu? Aí eu ficava P da vida, mas meu marido e minha família, mas assim, você tem que se por no lugar do outro, aquilo que talvez estava muito maduro para mim, não estava para os outros, entendeu? Mas assim, quando você está envolvido, você fica às vezes magoado com as reações.

Luciano          E você acha que as pessoas vão pensar igual você, que ninguém…

Janaína          É, só que a gente tem sempre que parar e fazer esse exercício, olha isso que esta muito maduro, muito claro para mim, não está claro para os outros, entendeu? E esse exercício faz com que você não seja tão duro, não se magoe, não magoe, entendeu? E aí foi isso, o que me fez… eu não sei te dizer, eu não sei te dar essa  resposta, se o doutor Hélio não tivesse topado, se eu teria entrado, o que eu posso te dizer foi o seguinte: várias vezes em casa nervosa, eu falava se ninguém aceitar vou fazer sozinha, entendeu? Eu cheguei a gritar isso em casa, mas eu não sei se eu faria.

Luciano          Então, essa é uma pergunta que eu queria fazer para você, você tinha consciência que você precisava ter uma… não é uma equipe, que você tinha que estar num grupo com nomes de peso para que esse processo andasse ou não?

Janaína          Não era claro isso para mim, o que eu achava que eu sozinha não conseguiria, entendeu? Então assim não teve assim, eu achava que tinha que ser uma instituição, na minha cabeça…

Luciano          Que é natural, é natural imaginar que a força…

Janaína          … mas sob o ponto de vista técnico, isso não é o correto, porque a constituição fala em cidadão, não fala em organização, foi quando eu peguei a constituição para reler, eu falava assim, mas Janaína você está errada, eu converso muito comigo, falei Janaína você está errada, entendeu? Porque você está se apegando a essa história de instituição, mas a constituição fala cidadão, aí foi ganhando força, você entendeu? Falei assim, viu fazer isso aí, entendeu?

Luciano          Mas já tinham uns doze processos lá dentro, por cidadãos que entraram, de impeachment.

Janaína          Veja, com todo o respeito a todas essas pessoas, todos esses processos são importantes e essas pessoas também, eu acho que tem diferença quando isso é feito por um professor, por alguém que trabalha na área, entendeu? Não é questão de ser melhor, é a questão de ser alguém preparado para aquilo, entendeu? Então assim, o cidadão, ele consegue colocar no papel o seu sentimento, mas um professor de direito, que também advoga, ele consegue colocar da maneira técnica, entendeu? Então eu acho que faz diferença isso, a maneira da apresentação do pedido, a fundamentação, a capacidade de sustentar o pedido, entendeu? Eu acho que isso faz diferença, a convicção até.

Luciano          Quantos disseram que você estava louca e aconselharam você a não se meter nisso?

Janaína          Muita gente, agora o que aconteceu também, durante um bom período, mesmo aqueles que não diziam que eu estava louca, riam, porque diziam isso não vai dar em nada, só a Jana mesmo para acreditar nisso, isso não vai dar em nada, entendeu? Inclusive muitos petistas com os quais eu convivo comentaram isso, imagina, isso não vai dar em nada, o PT é fortíssimo, a Dilma é fortíssima.

Luciano          Como é que você chega no professor?

Janaína          Qual deles?

Luciano          No Hélio Bicudo.

Janaína          O dr. Hélio, teve um almoço do 11 de agosto, onde eu fiquei, não tinha mesa para eu ficar, no fim eu acabei me enfiando lá numa mesa que não era da minha turma, porque as mesas são divididas por ano, eu nunca tinha ido eu não sabia como é que era e aí um rapaz que sentou junto comigo, que foi meu calouro conhecia dr. Hélio, foi ele que falou, Janaína, você está convencida que cabe impeachment, não está? Falei estou. Ele falou, por que você não conversa com dr. Hélio? Eu tenho certeza que ele também está.

Luciano          Quem é esse cara?

Janaína          Ele chama Tiago, ele foi meu calouro, eu não tenho assim uma…

Luciano          Esse menino tem ideia do que ele fez?

Janaína          Foi, ele que deu, vamos dizer, ele que fez a ligação, entendeu? Ele foi o elo de ligação, ele tem ideia, ele tem, tem ideia. E aí ele ligou para o dr. Hélio, nós fomos à casa do dr. Hélio, eu já levei uma minuta do que eu imaginava como sendo o pedido, deixei com o dr. Hélio e ele no dia seguinte ligou e falou, vamos fazer.

Luciano          Vamos fazer. Gelou a barriga?

Janaína          Nessa hora? Sim. Aí eu fui lá na casa dos meus pais, reuni meus pais, nessas horas é sempre assim, minha mãe é contra, meu pai é a favor, sempre e aí eu falei, está acontecendo isso, eu procurei muito e agora eu achei alguém que…

Luciano          Teu marido?

Janaína          O meu marido é uma pessoa muito calma, entendeu? Muito calma e ele não comprou embrulhado, entendeu? Então assim, ele já sabia com quem ele estava casando, quando eu era pequena eu falava que eu ia ser deputada, eu falava que eu ia mudar o país, entendeu? Então assim, falava que ia ser presidente, então assim, ele começou a namorar comigo…

Luciano          Já sabendo.

Janaína          … na verdade nós convivíamos, depois… eu tinha 15, ele 16 e ele sabe que eu sou uma pessoa assim inquieta, já entrei em muitos projetos, esse negócio na época da favela, quantos finais de semana eu passei dentro da favela, entendeu? E às vezes ele tinha que ir junto, na época do 11 de agosto que eu era diretora, virava fim de semana, às  vezes ele ia junto, então assim, é claro que eu sei que ele preferiria que eu fosse diferente, eu sei disso, a expectativa dele não era essa.

Luciano          Mas ele também não impediu mas nem te empurrou, ele, Jana vai levando, foi isso? Ele não chegou para você vai, vai fazer.

Janaína          Não, ele apoiou do jeito dele, entendeu? Mas assim, ele nunca colocou objeções, entendeu?

Luciano          Quando você chegou na casa lá que você juntou seu pai, sua mãe, botou todo mundo lá para conversar, você fazia ideia dos riscos envolvidos nessa aventura que você ia entrar?

Janaína          Sim.

Luciano          Você fazia ideia de riscos, inclusive de ameaças de vida e tudo mais? Você sabia disso?

Janaína          Isso sim, o que eu não imaginei, como para mim estava muito claro, eu não imaginei que seria tão difícil…

Luciano          O processo, o processo como um todo

Janaína          … é, eu não imaginei que seria tão brigado, engraçado isso, inocente da minha parte, eu achei que eu ia chegar lá, mostrar, entendeu? E que…

Luciano          Está tão claro no papel.

Janaína          … é, porque para mim é tão claro, entendeu? É tão absurdo o que eles fizeram, que eu achava que ia ser mais simples, entendeu? Eu não achei que teria tanta rejeição como teve, entendeu? Mas assim, perigos, ah eu estava super preparada assim, psicologicamente.

Luciano          Vamos falar de alinhamento de astros. Pintou um Cunha no meio do caminho e não é só pintou o Cunha pintou o Cunha no momento exato, porque teve um lance de timing ali que se você tivesse entrado um pouquinho antes ou um pouquinho depois eu acho que não ia dar em nada, o processo entrou no momento exato, eu me lembro de uma entrevista do Cunha, eu não lembro como é que era o contexto lá, que os caras queriam saber como é que a cada momento ele tirava uma surpresa do paletó e punha na mesa e fazia aquele processo que ele fez de agitação e ele dizia o seguinte, eu tenho tudo guardado no armário, quando precisa eu vou lá e pego…

Janaína          Ah ele falou isso?

Luciano          … ele falou numa entrevista…

Janaína          Que engraçado, eu não sabia.

Luciano          … eu tenho guardado no armário, quando eu preciso eu vou lá e pego, ele é um cara privilegiado porque ele sabe de tudo como é que funcionava aquilo, no que ele fez, ele é brilhante, ele é brilhante…

Janaína          Ele é muito inteligente, você percebe até pelo jeito.

Luciano          … ele puxava e quando você via ele dava um nó.

Janaína          É uma pessoa difícil de ser lida, porque eu estive com ele acho que duas vezes, para levar o pedido, depois para levar um aditamento e…

Luciano          Não passa nada naquela cara, na expressão dele.

Janaína          … você não sabe o que ele pensa, entendeu? É uma pessoa assim  impossível de ser lida…

Luciano          É impressionante.

Janaína          … muito discreto, quieto, então tem gente que fala que eu estaria mancomunada com o Cunha, não tem por onde, entendeu? Não sei se é possível alguém estar mancomunado, porque ele é uma pessoa impassível de ser lida, entendeu? Veja, eu acho que foram muitos fatores…

Luciano          Vocês contavam com o Cunha?

Janaína          Em termos de…

Luciano          Em termos de ser o Cunha, se fosse um outro presidente que estivesse lá, ia bater e ia voltar, o processo ia bater e ia voltar.

Janaína          Não sei, de verdade não sei.

Luciano          Deve ter ido parar na mão dele uns 30, 40 e eu duvido que ele recusou aquilo tudo…

Janaína          De verdade, Luciano, eu não acho isso, eu não acho.

Luciano          Você acha que foi pela peça que você apresentou?

Janaína          Eu acho que foi pela peça, foi pela convicção, pela insistência, pela importância do nome do dr. Hélio, depois o reforço que entrou o professor Miguel, pela minha assim…

Luciano          Obsessão.

Janaína          … obsessão, pelas pressões populares, entendeu? Eu acho que precisava, entendeu?

Luciano          É o alinhamento dos astros que eu falei.

Janaína          É Deus, quando eu falei que era Deus no final, o pessoal me criticou, disseram aonde já se viu misturar direito com Deus, com não sei o que, mas escuta, é Deus.

Luciano          Não tem como explicar esse alinhamento de astros.

Janaína          Entendeu? Assim, não teve nada combinado, não teve nada sabe, eu fui para lá com a cara e com a coragem, sem avisar que eu iria, tomei chá de cadeira de 7 horas para conseguir entregar o pedido, doutor Hélio era alguém que eu não conhecia, entendeu? Professor Miguel eu conhecia, mas não quis entrar antes, decidiu entrar depois, entendeu? E eu acho ótimo que tenha entrado porque fortaleceu, mas assim, não teve uma situação que você diga assim olha, foi tudo orquestrado, entendeu? Como o PT tenta fazer crer, não teve, por exemplo…

Luciano          Que o PSDB pagou você para dar uma…

Janaína          … é entendeu? Não teve isso, entendeu? Pelo contrário, quando eu ajudei o professor Miguel a fazer o parecer para o PSDB, eu fui com o professor Miguel numa reunião e tentei convencer o PSDB a entrar, porque eu estava convencida de que cabia o impeachment, eu fiz assim, eu fiz de tudo para convencer, porque eu achava, naquele momento, que era um partido, uma instituição que tinha que entrar, eu vi que eles não iam fazer nada, entendeu? Você acha que eu gostaria de ter me metido nessa confusão? Eu gostaria que alguém tivesse feito, agora na medida em que ninguém faz, eu faço…

Luciano          Faço eu, sim.

Janaína          … e eu sou assim com tudo.

Luciano          Me fala uma outra coisa aqui, vocês quando começaram a se preparar e prepararam o processo todo, eu me lembro daquele momento daquela, a cerimônia da entrega da papelada, estava tudo lindo maravilhoso, foi uma surpresa para você quando você, além de tomar pedrada da esquerda inteirinha, você começou a tomar pedrada da direita também?

Janaína          Foi.

Luciano          Como é que foi aquele momento, deixa eu te dizer porque eu estou perguntando isso ai, porque é o seguinte, você estava entrando numa grande batalha, você precisa de aliados, você tinha aqueles seus aliados e acho que você contava também com a ala que é uma parte da oposição e tudo mais e aquilo que entre aspas, a gente chama da direita, que estaria entrando, opa, entrou um negócio que está valendo, vamos fazer também e de repente para sua surpresa uma parte da direita vem para cima e começa a atacar vocês.

Janaína          Foi, eu acho que houve duas coisas, houve a direita mais radical, que primeiro não reconhece nenhuma legitimidade no sistema político e começou a me destruir por eu, primeiro reconhecer essa legitimidade, ao pedir uma solução pela autoridade constituída, e depois por eu ter me unido ao doutor Hélio Bicudo que é tido como um homem de esquerda, eu não sei dizer se ele é de esquerda ou de  direita, eu sei dizer que a gente pensa muitas coisas parecido, entendeu? Então a gente pensa igual sobre aborto, sobre exploração da prostituição, entendeu? Eu não sei aonde é que a gente se coloca, mas eu me senti assim muito identificada com ele e então essa direita veio com sete pedras em cima disso, depois teve uma direita, talvez menos à direita, que é muito identificada com o PSDB e o PSDB, apesar das pessoas dizerem que não, foi contra no princípio, não nos apoiou, o PSDB só passou a apoiar quando não tinha mais jeito, é só levantar as entrevistas do Fernando Henrique, do Geraldo Alckmin e do próprio Aécio, entendeu? Então aqueles pensadores, aqueles jornalistas mais casados com o PSDB, eles também demoraram, eles até falavam em impeachment, mas não aquele, entendeu? A OAB também queria, num momento posterior, passou a defender o impeachment mas não o  nosso, o deles, entendeu? Não tem nenhum apoio da OAB ao nosso pedido, porque eles queriam que fosse o deles, entendeu? Então assim, aquelas pessoas que eu imaginei que poderiam nos apoiar, não nos apoiaram, bateram muito pesado, entendeu? Bateram muito pesado.

Luciano          Nesse momento você já estava exposta, todo mundo já sabia que tinha uma tal Janaína na história, então tinha lá Hélio Bicudo, tinham os grandes nomes e aparece uma Janaína e fica claro para quem olha aquilo que tem alguns entrando com a fama e a Janaína entrando com trabalho duro, ela era o bicho que pegava ali, nessa exposição você se tornou uma pessoa mais do que conhecida, você   ficou famosa no país, você virou uma celebridade no país aqui e eu estou te perguntando essas coisas de você montar o esquema, que agora eu quero chegar no ponto que me interessa aqui, eu tenho uma coisa que eu chamo de armadura emocional que é o seguinte, para mim faz parte do processo de você, em qualquer atividade que você entrar para executar alguma coisa, uma parte importante é você preparar a sua armadura emocional que é aquilo que vai evitar com que você se frustre ao ponto de parar de fazer que você seja atingida emocionalmente, que você quebre no meio do caminho.  Você tem uma armadura emocional que é um negócio absurdo e assustador, não cabe aqui onde nós estamos sentados aqui…

Janaína          Até eu me surpreendi.

Luciano          … isso que eu quero dizer o seguinte, essa armadura, você quando começou o processo acho que ela devia ter um tamanho e de repente você começa a tomar pedrada e começa uma pedrada e a pedrada que eu digo não é só a crítica mas de repente alguém te xinga pessoalmente, você ouve a pessoa falar alguma coisa, você sabe que você pode receber uma ameaça  e começa a receber ameaças, inclusive de integridade física, como é que você fez com essa armadura emocional, de onde vem isso?

Janaína          Você sabe que isso é uma coisa que me intriga porque eu mesma estou refletindo sobre isso, porque a gente também não é pronto, então a gente também às vezes se surpreende com as nossas próprias reações e como eu sou muito observadora, eu também me observo, então fazendo um, o que eu vou falar aqui talvez seja politicamente incorreto, mas eu fui uma criança que sofri muito bullyng, porque eu era muito gorda, naquela época não se falava em bullyng, não era esse nome, mas assim, por exemplo, eu lembro de uma passagem, eu estava no maternal e aí foram brincar de hospital e eu fiquei feliz da vida, até porque minha vó falava que eu ia ser médica, eu queria ser a médica, não, disseram que eu tinha que ser a mulher grávida porque eu era a única que tinha uma barriga, entendeu? Então assim, daí um pouco mais velha foram brincar de casamento e tinha um garoto que eu gostava, mas eu era feia, eu era gorda, então assim, me chamaram para ser o padre, entendeu? Então assim, por que que eu estou trazendo isso? Porque…

Luciano          Isso foi criando um calo, isso foi te criando um calo.

Janaína          Casca eu chamo, uma casca, entendeu? Depois eu entrei na USP, pensando completamente fora do que eles pensam, entendeu? Eu sou um bicho estranho dentro da USP e na USP você apanha pesado, é o tempo inteiro, porque além de tudo, na USP existe, quando você é criança e você é chamado de gordo e tal, tem aquela coisa da criança, existe uma igualdade, na USP todo mundo ali é doutor, todo mundo é filho de alguém, todo mundo tem história, todo mundo tem tradição, todo mundo fez não sei quantos cursos não sei onde…

Luciano          E deixam claro para você que você é menos.

Janaína          …sim, entendeu? É, porque assim, se você for olhar, eu venho do Tatuapé, eu não tenho família tradicional, eu sou uma intrusa, vamos dizer assim, e de  repente uma intrusa que pensa tudo diferente deles, entendeu? E eu me dou bem com as pessoas, eu não brigo, eu não entro em conflito, mas assim, sempre que é possível fica claro que eu incomodo, entendeu? Isso não é de agora, não é por causa do impeachment, isso é desde sempre, entendeu? Então às vezes as pessoas falavam, como é que você aguentou ali no senado, foi pesado, porque foi concentrado, mas eu falo, eu sobrevivo na USP há 20 anos, entendeu? Já aconteceu, quando eu digo USP, não é só a USP, é o ambiente acadêmico, então por exemplo, já aconteceu de eu ser convidada para dar uma palestra numa federal, fora de São Paulo e quando eu… já aconteceu, eu começo a falar, me tiraram o microfone, porque fizeram o convite achando que eu pensava uma coisa e viram que eu pensava outra e eu precisei brigar pelo microfone, porque eu falei não, espera aí, eu sou uma pessoa que trabalho, eu tenho minhas atividades, eu peguei um avião, eu vim para cá, vocês não vão me tirar o microfone porque eu estou falando algo diferente do que vocês gostariam de ouvir, aí tentam negociar para diminuir meu tempo, falo não, isso eu não aceito, porque isso é censura, entendeu? Então assim, eu sou uma pessoa que incomoda muito por quê? Porque além de eu pensar diferente, eu me manifesto, então as pessoas até toleram você pensar diferente, mas elas não toleram que você se manifeste, entendeu? Elas não toleram e eu vou dizer uma coisa aqui que eu não gosto de dizer, porque eu acho que isso  é bem discurso petista, mas é uma coisa real, quando você é mulher isso é pior, entendeu? É interessante isso, porque a mulher na vida pública, ela tem determinados lugares até onde ela pode chegar, se ela entende que ela tem que ocupar outros lugares, ou ocupar de forma diversa daquela que concederam a ela, ela incomoda muito, entendeu? Então eu sempre fui uma pessoa incômoda, porque eu não me vejo mulher ou homem, ou branca ou negra, eu me vejo um ser humano, mas os outros me veem, entendeu? Então assim, é muito incômodo, entendeu?

Luciano          E aí chega aquele dia daquele comício na São Francisco.

Janaína          Aquilo me causou muito problema.

Luciano          Pois é, deixa eu contar o que aconteceu comigo, eu vi aquela sequência, eu assisti aquele vídeo e eu botei um post no Facebook dizendo o seguinte, essa moça está descontrolada.

Janaína          Você fez isso?

Luciano          Eu fiz isso, eu botei o post, essa moça está descontrolada e eu não me lembro o que eu botei na sequência, alguém precisa falar com ela para ela baixar a bola porque eu senti que aquilo foi, estava over e eu falei, e esse over dela não é bom para esse processo, isso dá munição para todos…  O que é que foi aquilo? Foi um momento que sua armadura emocional não segurou, não conteve, você explodiu…

Janaína          Aquela semana eu recebi muitas ameaças, aquela semana, entendeu?

Luciano          Me fala, o que que é ameaça?

Janaína          Ah, eu não gosto de falar dessas coisas assim, ameaça…

Luciano          É uma carta, é um telefonema, é alguém na rua?

Janaína          Vem de tudo e aquela semana foi uma semana muito pesada nesse  sentido, quando eu saí de casa, porque assim, o que que aconteceu? Os organizadores queriam muito que eu estivesse naquele ato, mas eu não queria ir…

Luciano          Mas você tinha consciência da tua importância de estar lá, você sabia disso?

Janaína          … sim, por que é que eu não queria ir? Porque era um ato público, eu estaria no centro, eu era um alvo muito fácil e eu tinha recebido ameaça todo santo dia naquela semana e eu dei todas as desculpas do mundo para não ir, até chegar e falar olha, não dá para eu ir porque aconteceu isso eu não quero ir, mas as pessoas disseram Janaína, se você não vier, nesse momento, vão interpretar que você desistiu do processo, então quando eu saí de casa eu saí com o sentimento de que eu não voltaria.

Luciano          Você teve uma consciência naquele momento que aquele processo não era mais teu?

Janaína          Claro.

Luciano          Que aquilo já tinha ganho uma dimensão?

Janaína          Claro, entendeu? Aquilo era do povo, só que eu tinha um papel importante, então eu falei eu tenho que ir, entendeu?

Luciano          Você parou para pensar em algum momento assim tipo meu, olha o que que eu comecei, olha o tamanho da encrenca que eu arrumei.

Janaína          Várias vezes, sim, várias vezes e aí eu achei assim, meu Deus, capaz de eu não voltar, então eu fui muito tensa para aquele e quando eu estava esperando para falar, tinha um cara na ponta ali fazendo sinais para mim, entendeu? Me olhando com uma cara diferente, tanto é que eu chamei um pessoal que estava ali na segurança, falei olha, essa cara, estou cismada com esse cara, quando foi na hora de eu falar, ele tomou distância, entendeu?  Então na minha cabeça eu ia tomar um tiro ali, entendeu? Ai eu falei, quer saber, já que é, eu vou falar tudo o que está engasgado, só que aquilo tomou conta, você entendeu? Aí eu falei, eu estou em estado de palanque, de certa forma, da outra vez que eu subi no caminhão eu também bati no peito, é aquilo, é uma emoção contida por muitos anos entendeu? Olhar aquele prédio que a paixão que eu tenho por aquele prédio iluminado, do Largo São Francisco que eu acho que está tão dominado dessa mentalidade e de repente eu poder falar tudo aquilo que as pessoas, se você pegar o meu discurso, aquele discurso é extremamente racional, não tem nada de irracional ou louco ali, é extremamente racional.

Luciano          Foi mais a forma…

Janaína          Só que na hora explodiu, você entendeu? É, explodiu porque eu estava tão revoltada de estar sendo ameaçada por fazer uma coisa boa, entendeu? Por fazer o que era necessário, você consegue entender? Aquilo tomou conta.

Luciano          Janaína, eu entendo você perfeitamente, eu vou te falar uma coisa aqui, eu ficava vendo…

Janaína          E as pessoas achavam que eu tinha bebido, eu não bebo; que eu tinha me drogado, eu nunca usei droga, entendeu?

Luciano          … eu ficava assistindo depois, enquanto o processo estava andando e você estava sentadinha lá, o Cardozo numa ponta, as duas, as três…. a bancada do jardim da infância ali, aquela gritaria toda, eu ficava olhando ali, eu vou falar, aqui eu posso falar no programa, eu ficava assim, ela vai mandar ele tomar no cu, ela vai mandar ele tomar no cu, e você impassível, doutor, doutora, suas excelências, eu já tinha chutado o balde, eu tinha pulado no pescoço do cara, eu não conseguiria me controlar e eu ficava olhando para aquilo e falava como é que ela consegue, a essa hora, porque já estava lá há oito horas, nove horas sentada…

Janaína          A gente chegou a ficar quatorze horas lá direto.

Luciano          … como é que ela consegue a essa altura do campeonato ouvir de novo a mesma abobrinha que ela já desmontou quatro vezes lá atrás e ela voltar e argumentar tudo de novo outra vez, essas coisas não tem fim? O que essa mulher come para segurar.

Janaína          Olha Luciano, eu acho assim, eu tinha muito claro ali que se eu perdesse a cabeça, eu ia colocar o país…

Luciano          Tudo a perder.

Janaína          … sabe, eu ia arriscar o país, então eu sempre tinha isso em mente, o que eu quero? Eu quero deixar claros esses crimes, entendeu? Eu quer… então você ter que ter foco.

Luciano          Você sabia o que vinha deles?  Você chegou lá sabendo o tipo de provocação que viria?

Janaína          Não, foi muito mais do que eu imaginava, foi muito mais do que eu imaginava assim, mas eu falei ó, temos que estar prontos para tudo, entendeu? Temos que estar prontos para tudo e todo dia de manhã eu estava pronta para tudo e eu digo assim, o povo me ajudou demais, porque foram muitas as mensagens de apoio, mensagens de amor no sentido amor humano, entendeu? Não no sentido…

Luciano          Carnal, sim.

Janaína          … é, eu brinco muito com a nação religiosa que nós temos no Brasil, porque eu recebi cartas de católicos, cartas de espíritas, cartas de judeus ortodoxos e não ortodoxos, cartas, e-mails, cartões, os evangélicos do Brasil inteiro, até brinco, uma nação evangélica, do Brasil inteiro, de todas as igrejas que você possa imaginar, brasileiros que moram em todos os lugares do mundo mandando, entendeu? Então às vezes chegava uma carta assim ameaçadora ou ofensiva, entrava uma mensagem no celular de uma pessoa eventualmente que eu nem conhecia com um salmo, entendeu?

Luciano          Esse lado espiritual tem um papel importantíssimo nessa tua caminhada.

Janaína          Lógico, não, mas se não fosse a minha fé não teria conseguido, não tem, não tem formação jurídica, estudo, claro que eu precisei estar muito preparada ali, mas que faça você segurar, se você não acreditar que você está fazendo um bem e que esse bem é necessário, entendeu? E que Deus está do seu lado, entendeu? Então assim, quando eu recebia essas cartas, esses salmos, essas mensagens, entendeu? Era como se fosse assim, você está nocaminho certo, entendeu?

Luciano          Eu acho esse seu insight importante quero outro insight, quais eram os indicadores que você lidava para saber que você estava indo para a frente, que a coisa estava andando, quais eram os indicadores? Eu não sei como é que funciona o processo jurídico, tem um momento que fala passamos esta fase, ganhamos.

Janaína          Olha, um momento, o momento da aceitação da denúncia primeiro, que eu não estava esperando, entendeu? Eu lembro que eu estava na rua, eu fiquei pulando quando me disseram…

Luciano          Achava que não ia…

Janaína          … não, veja, eu sou uma advogada conservadora, o que é isso? Eu nunca conto com o sucesso, eu viro para você, se você me procurar eu falo olha, pela jurisprudência, pela lei, pela doutrina, você realmente tem razão e se tudo correr da maneira justa, você vai ganhar, mas eu não te garanto nada, porque nunca se sabe, ainda mais numa situação política como aquela, mas quando vou receber o pedido, para mim foi… nossa, lembro que eu pulava, entendeu? Meu Deus, foi incrível aquilo, depois teve aquele julgamento do supremo, que o supremo colocou várias fases não previstas, aí aquilo foi um banho de água fria, dei uma entrevista falei, foi um soco no olho porque eu achei que aí não ia sair mais, mas aí a comissão aprovou, o plenário da câmara aprovou, então já foi muito importante, depois vai para a comissão, então a cada aprovação entre essas várias fases, a gente ia dizendo que aquilo estava ficando mais forte, mas eu te confesso que até o último momento eu tinha dúvida se ia sair, entendeu?

Luciano          E acho natural porque eu jamais imaginei que aquilo ia vencer, quando o supremo fez aquela mudança e enfiou no meio do caminho uma pancada de… eu falei dançou, não vai passar…

Janaína          Porque assim, tudo foi feito para não sair, a verdade é essa, entendeu?

Luciano          Por que saiu?

Janaína          Foi Deus. É, foi trabalho da gente, foi a vontade do brasileiro, entendeu? Quando eu digo que foi Deus, não foi no sentido de desmerecer o nosso trabalho que foi muito, eu não sei quantas horas eu trabalhei nesse processo porque além das oras que eu estava lá, tem as horas da redação das peças, da leitura dos documentos, da leitura de livros para você poder sustentar, você entendeu? A concentração, então foi muito, foi… não consigo dimensionar o tanto de trabalho, mas eu acredito que foi uma chance que o Brasil teve, entendeu?

Luciano          Sem dúvida, a chance daquilo dar certo quando começou o processo e no meio dele era tão pequena, inacreditável.

Janaína          Eu quero explicar porque assim, tem… uma vez eu falei para uma aluna do mestrado, eu falei assim é, porque você deu sorte que você entrou aqui no mestrado da USP e a moça se ofendeu muito, como dei sorte? Eu estudei, eu passei nos exames e aí eu sempre tomo um pouco de cuidado com esse tipo de frase, você deu sorte, ou foi Deus, porque a pessoa pode achar que eu estou diminuindo o papel dela, mas assim, eu realmente acredito que pobre daquele que acha que faz alguma coisa sozinho, entendeu? Eu acredito mesmo que existe um plano superior, que existe um plano espiritual, que existe a força divina nas coisas, entendeu? E que se você se voluntaria para o bem, essa força ela vai te impulsionar, ela vai somar, é claro que se eu não estudasse, que se eu não tivesse… eu não teria, não teria sido eu, vamos dizer assim.

Luciano          Janaína, eu posso contestar cada coisa que você está falando aí, não acreditar em nada disso que você está dizendo, não ter força nenhuma, não ter nada disso, mas o fato de você acreditar que tem é o que te levou à frente, entendeu? O fato de você acreditar que isso tudo existe, é aquele momento que você fala, cara, está comigo, tem alguém comigo, eu vou adiante.

Janaína          Veja, eu não ganhei um centavo com isso, eu gastei muito, porque eu tive que pagar todas as despesas, eu tive um desgaste enorme sob o ponto de vista profissional, porque as pessoas acham que isso me trouxe ganhos profissionais, é o contrário, ninguém gosta de contratar quem está no… e outra, eu só estou querendo prender, quem é que vai querer me contratar, uma criminalista que está saindo por aí para prender e para acusar e assim por diante, entendeu? Quando você representa uma vítima, a vítima já é vítima, ela não tem condição, então assim, isso não me trouxe bônus em termos econômicos, em termos profissionais nenhum, como é que você enfrenta tudo isso, o risco de morte anunciado se você não acredita, por exemplo, na vida eterna, como é que você… veja…

Luciano          Esse foi o teu motor, sim.

Janaína          … como é que você enfrenta  riscos de todas as ordens e danos efetivos, se você não acredita no transcendental? Se você acha que é só aqui? Entendeu? Então às vezes eu ia dormir falando não, eu vou desistir, eu vou sair, eu não vou aguentar, eu rezava a noite, no dia seguinte eu acordava renovada, entendeu?

Luciano          Janaína, você sai desse processo diferente do que você entrou, eu não tenho dúvida nenhuma, casca mais grossa, evidentemente que você enfrentou bombardeio que eu vou te contar, tem que realmente. O que mudou, quando você olha para trás hoje assim você fala, faz quanto tempo que começou, dois anos? Um ano?

Janaína          Olha, o pedido eu apresentei primeiro de setembro de 2015.

Luciano          Não, quando teu amigo te apresenta para o…

Janaína          Agosto de 2015.

Luciano          2015, 2016 é um ano e pouquinho, você olha para trás, quando você resolveu começar aquilo lá aí você saiu hoje diferente, quer dizer, você hoje é a Janaína que todo mundo conhece, o que mudou em você? É a mesma Janaína? É tudo igual?

Janaína          Olha, a minha vida é muito parecida, entendeu? Eu faço de tudo para manter as minhas atividades normalmente, buscar o pão na padaria, entendeu? Eu faço assim, minha vida nesse aspecto é muito parecida, eu acho…

Luciano          Mas é do jeito que eu vi aqui, você é um tronco de enxurrada, onde bate enrosca, todo mundo que vê vai lá, Janaína, aonde você passa é assim, todo mundo quer te dar um abraço.

Janaína          É muito demonstração de amor, isso é muito legal, assim hostilidade na rua, eu só sofri aquele dia no aeroporto de Brasília, que eu acho que foi mandado, aquilo não foi espontâneo, mas no mais, são só demonstrações de carinho, de amor, entendeu? Agradecimento, pedido de selfie, teve umas duas vezes que uma senhora falou ah, eu não sei, eu não acho que foi bom, entendeu? E uma outra… mas assim, situação normal de conversa…

Luciano          Nada de agressivo.

Janaína          … nada, entendeu? Eu acho que eu me sinto mais, eu sempre, eu já, eu acho que eu já nasci velha, isso é uma frase que eu sempre digo, o pessoal da família até já conhece, mas eu me sinto mais velha, entendeu? Depois de tudo isso, assim eu acho que eu envelheci, que eu amadureci, eu aprendi muito lá com todos eles, mesmo com os que me agrediram, entendeu? Porque quando a pessoa faz uma coisa errada ela também te ensina, então por exemplo, quando eu olhava a senadora Katia Abreu falando e eu digo para você de todo mundo ali, a única que defendeu a Dilma com o coração foi ela, o resto era tudo fake, o resto defendia um plano de poder, defendia o poder, não defendia a Dilma, a senadora Katia Abreu defendeu a ex-presidente Dilma com o coração e ela muitas vezes se inflamava muito, entendeu? E eu acho que eu sou parecida com ela…

Luciano          Eu ia falar isso aqui agora…

Janaína          … é, então quando eu via a senadora em alguns momentos eu achava que ela exagerava, eu dizia, eu tenho que aprender com isso, eu tenho que ser mais comedida, entendeu? Eu tenho que não permitir me inflamar tanto, olha que coisa interessante, não é?

Luciano          Sim, eu ia falar isso agora…

Janaína          Eu via que ela estava sendo sincera, entendeu? Ela realmente gosta da ex-presidente DILMA…

Luciano          O tom da voz subia.

Janaína          …  e aí ela… o que acontecia? As pessoas se incomodavam, as pessoas não prestavam tanta atenção, entendeu? Então assim, eu aprendi muito, eu aprendi muito desse trato político, de não ser tão assim, dura, entendeu? Eles me ensinaram muito, aquilo foi uma grande escola, tanto é que eu falo para as pessoas, se eu tivesse lido mil livros no mesmo período, eu não teria aprendido tanto, entendeu? Então é legal você ver que às vezes também tem essa ideia de que político nenhum  presta, eu convivi com pessoas muito interessantes ali, pessoas que eu passei a admirar, entendeu? Então eu acho que também desmistifica algumas coisas.

Luciano          É a mesma experiência que você viveu dentro da favela, dentro da polícia e lá.

Janaína          É, é isso, o ser humano, entendeu? O ser humano ele quer ser bom, ele quer fazer as coisas direito, ele quer ter oportunidades, por isso é que eu acho que se a gente quebrar com esse ciclo vicioso de que tudo é esquema, a gente tem como conseguir, entendeu? Eu acredito de verdade que o ser humano  pode, que a gente pode conseguir, entendeu?

Luciano          Janaína, na reta final você sobe ali em cima na tribuna e chora, fala da Dilma, fala dos netos da Dilma e chora, e se eu não me engano você falou alguma coisa do tipo assim eu não queria estar aqui, eu não queria estar aqui fazendo isso aqui agora, você falou algo parecido com isso.

Janaína          Porque assim, acusar é muito duro.

Luciano          Então, o que foi aquilo?

Janaína          Então, muita gente me criticou, eu fui criticada pelo povo da Dilma, que achou que eu estava sendo sarcástica ao falar dos netos dela e eu fui criticada pelos apoiadores do impeachment, porque onde já se viu pedir perdão para uma criminosa? Até hoje as pessoas me param na rua e falam, por que você chorou? Você não devia ter chorado. Eu acho tão engraçado isso porque todo mundo tem uma receita do que você deveria fazer, como se você, como se a gente planejasse tudo, eu acho que as pessoas acham que eu sou um ser assim, o que eu tenho que ter é o preparo para enfrentar as situações…

Luciano          Elas estão pensando que aquilo é cinema, elas assistem aquilo como se fosse uma mini série.

Janaína          … jornalistas me ligam, doutora a sua performance, eu acho graça, entendeu? Porque eu não sou artista para ter performance, o que foi aquilo? Quem trabalha com crime e tem uma perspectiva diferente com relação ao criminoso, você entendeu? E eu especialmente tenho, porque eu acredito que o papel do advogado seja fazer com que o criminoso mude de rumo.

Luciano          E você contou no começo dessa entrevista aqui o impacto que foi para você virar e sair de ver o acusado para ver os dois lados.

Janaína          É, então assim, eu tenho muita dificuldade quando eu encontro uma pessoa que cometeu um crime e está deliberado a continuar no crime, eu tenho dificuldade, porque eu acho que a pessoa tem que querer ser melhor, você entendeu? Isso é um pouco autoritário da minha parte, eu reconheço, então assim, como eu acredito que a pessoa pode mudar, que a pessoa tem que ter… eu sofro de ver a oportunidade que a Dilma perdeu, a oportunidade que o Lula perdeu, entendeu? Sendo eles pessoas, ela a primeira mulher presidente, ele a pessoa mais humilde que chegou à presidência e eu sofro com a situação de eu precisar acusar, entendeu? Por isso que eu dizia o tempo inteiro, eu não me vejo como uma acusadora, eu me vejo como uma defensora do Brasil, entendeu? Por isso eu quis deixar claro que eu estava pensando também nos netos dela, também nos filhos da Gleisi, que teve um momento que teve um embate lá com a Gleisi, não me lembro agora qual, foram tantos, que quando eu fui dormir eu falei, meu Deus ela tem filhos, será que ela não pensa no país que ela quer deixar para esses filhos, com tantos desvios, tantos esquemas, então assim, eu penso nos filhos deles, entendeu? Talvez de uma maneira que não seja a que eles entendam a melhor, mas eu penso, então eu estava só sendo sincera, entendeu? Eu estava só falando a verdade, é sofrido, você acusar uma pessoa, mesmo ela sendo culpada, entendeu? Eu fico pensando se eu tivesse que mandar alguém para a prisão, eu acho que quando a pessoa por mais que o indivíduo seja culpado, ela mandar alguém para a prisão com gosto, eu acho que ela tem problema…

Luciano          Tem, isso é uma psicopatia.

Janaína          … você entendeu? Agora, você é um juiz, aquela é a sua função, entendeu? Ou você se dispõe a defender um país e nessa defesa você tem que acusar, no sentido de… porque aquilo é justo, você é obrigado a mandar para a prisão, entendeu? Mas eu não acho que uma pessoa possa ter prazer com isso, você consegue entender?

Luciano          eu consigo.

Janaína          Então acho que se eu fosse juíza e eu tivesse diante de uma situação em que é caso de mandar para a prisão, eu mandaria, mas eu nunca mandaria com gosto, você consegue entender? Então é isso, só que as pessoas, elas não se conformam, elas não se contentam com o justo, elas querem que você seja má.

Luciano          É a história do Brasil ganhando da Argentina, não basta jogar futebol, tem que dar show. Entendeu? Você tem…

Janaína          É, então assim, é eles… você não precisa ser justo, não basta você ser justo, você tem que ser mau, entendeu? Eu nunca vou ser má, entendeu? Nada que eu faço me move eu querer destruir, querer prejudicar, entendeu? Não adianta, não vão me contaminar desse ódio, entendeu?

Luciano          Onde você estava no momento da votação do impeachment quando… o último voto apareceu e o impeachment se configurou.

Janaína          Estava lá no senado.

Luciano          Você estava lá dentro, estava sentadinha lá em cima?

Janaína          Não, estava lá no meio.

Luciano          Eu não me lembro mais.

Janaína          É, estava no meio ali sentada.

Luciano          Você estava no meio da bagunça.

Janaína          É.

Luciano          Tá. Seu marido estava lá?

Janaína          Não.

Luciano          Você voltou para a casa, abriu a porta, entrou em casa, teu marido estava te esperando.

Janaína          Estava.

Luciano          O que aconteceu?

Janaína          Me abraçou, entendeu? Falei pronto, acabou, eu fiz a minha parte.

Luciano          Ele soltou um ufa!

Janaina          Não, é sofrido, eu acho que ser casado com uma pessoa como eu é muito sofrido, entendeu? É sofrido.

Luciano          E agora?

Janaína          Então, agora eu estou fazendo as minhas coisas, estou fazendo as minhas bancas na faculdade, estou trabalhando no meu escritório, entendeu? Muito convite para palestra, mas que por enquanto eu não estou dando, eu decidi dar uma recuada.

Lucano           Está montando um livro?

Janaína          Não comecei ainda, eu acho que tem que amadurecer um pouco…

Luciano          Vai guardar isso, sim, isso é para ser guardado.

Janaína          É, acho que tem coisas que você tem, eu brinco e falo, tem coisas que você tem que adormecer, se eu escrever agora, até talvez eu tenha mais fatos frescos na memória, mas eu acho que eles não estarão analisados da maneira que eles merecem ser, entendeu? Então eu acho que eu tenho que adormecer um pouco isso, não é para agora, eu vou escrever, mas não é agora assim.

Luciano          Você tem um blog, você tem algum site, algum lugar que as pessoas possam, alguém que quiser te encontrar…

Janaína          Tem o site do escritório…

Luciano          Que é o…

Janaína          É http://www.paschoal.adv.br, mas não é assim, é um site onde eu coloco, se eu escrevo um artigo para o jornal está lá, entendeu?

Luciano          Você não está em mídia social, que pelo amor de Deus, se você tiver no Facebook vai ser uma coisa horrível.

Janaína          Eu não tenho face, mas em virtude de terem montado muitos Twiters falsos eu acabei montando um Twitter, abrindo que é a palavra certa, eu tentei colocar meu nome, mas já tinham usado meu nome para sei lá quantos Twitters, então eu criei o @janainadoBrasil

Luciano          Janaina do Brasil é você mesmo?

Janaína          … é, sou eu mesma,  essa  sou eu.

Luciano          Vamos para o encerramento aqui, para terminar, você faria tudo outra vez?

Janaína          Faria.

Luciano          Do jeito que você fez, ou o que é que você corrigiria no caminho?

Janaína          O que eu corrigiria? Talvez eu tenha que amadurecer tudo para poder te dar, para poder te dar essa resposta, mas eu faria tudo, com todas as dificuldades, que não foram poucas, eu faria tudo de novo.

Luciano          A quem você agradece? Tira Deus. Aos seres humanos aqui, a quem você agradece de seres humanos?

Janaína          Eu agradeço, eu acho que eu agradeço a todos os brasileiros, eu agradeço porque foi um apoio muito grande, ainda está sendo, toda vez que eu saio na rua as pessoas me abraçam, reforçam que é isso mesmo, é isso que a gente precisava, entendeu? Eu agradeço a todos os brasileiros, é claro que eu sempre agradeço um agradecimento especial, no caso para o doutor Hélio que me estendeu a mão, depois entrou o professor Miguel que eu agradeço também, que ele tem um peso político grande, eu acho que não sei se teríamos conseguido sem esse peso político, entendeu? Mas eu tenho esse agradecimento especial ao doutor Hélio porque se ele não tivesse me estendido a mão, entendeu? Eu te juro que eu não sei se eu teria tido coragem de fazer sozinha, não é nem coragem no sentido de coragem de enfrentar, eu não sei se eu acharia que eu era…

Luciano          Forças para fazer…

Janaína          … não, eu acho que eu não teria percebido que eu poderia, você entendeu? Eu acho que foi só quando ele olhou para mim e falou é isso mesmo? Que eu percebi que eu tinha razão, porque até então todo mundo me falava tanto que eu não tinha razão, que você sendo um ser racional e tantas pessoas te falando, você fala meu Deus, será que essas pessoas estão certas e eu estou errada? Então eu não sei, se eu não tivesse encontrado o doutor Hélio e a filha dele que deu um suporte grande para a gente, entendeu? E a minha família também me deu muito apoio, eu não sei se teria acontecido, entendeu?

Luciano          Que legal. Bom, você que está me ouvindo ai eu não sei quantos insights você vai tirar dessa entrevista aqui, desse bate papo na verdade, mas eu tirei milhares deles aqui, porque enquanto eu conversava com a Janaína eu estava imaginando essa história dela reproduzida para um ambiente diferente, as vezes que ela quebrou, quantas vezes você quebrou, que seria o equivalente a alguém criar alguma coisa e quebrar, essa necessidade de você ter uma equipe para te apoiar, gente te suportando, um mentor que quando surge na tua frente ele te dá o gás que você precisa para fazer acontecer e vou te agradecer em nome dos brasileiros todos, seu puder falar em nome dos brasileiros que querem agradecer, que quero botar aqui em minhas palavras porque foi um, como é que eu vou dizer para você? É um privilégio assistir a história acontecer e ver a história acontecer assim com pessoas surgindo e essas pessoas mudando o rumo da história, entendeu? É tão difícil você encontrar gente que você… nessa tua cadeira sentou um monte de gente para entrevista e uma das mais fantásticas foi Ozires Silva que é um desses caras  que com a ação dele ele muda o rumo da história, você com toda a tua humildade, você chega lá e faz uma ação que muda o rumo da história, não foi sozinha, tinha um monte de gente envolvida mas se você tirar a Janaína da equação, a equação não fica em pé entendeu? Então você tem uma culpa tremenda disso aí e eu te agradeço do fundo do coração.

Janaína          Eu que agradeço a oportunidade, e como teu trabalho assim, o teu programa tem a ver com liderança, eu acho que o mais importante e isso norteou a minha vida inteira, entendeu? A palavra é trabalho. Trabalho, claro que tem a fé, tem a confiança, tem a dedicação, tem a sorte, eu acredito na sorte, entendeu? Porque às vezes alguém te dá uma oportunidade…

Luciano          E você não está preparado.

Janaína          …  é entendeu? Então assim, mas eu acho, a palavra é trabalho entendeu? Desde que eu me conheço por gente eu trabalho, eu com cinco anos  limpava a casa com a minha mãe, entendeu? Com cinco anos. Depois com treze anos eu vendi bijuteria, eu vendi trufa, eu vendi pão de mel, eu entreguei cesta de café da manhã, eu fui recepcionista na escola de inglês e tudo o que eu fiz, tudo, eu fiz com um amor imenso, entendeu? Então eu acho, meu pai sempre me deu o seguinte conselho, minha mãe sempre foi muito exigente, em todas as pequenas tarefas do dia a dia e meu pai sempre deu o seguinte conselho, olha, procure fazer aquilo que você ama, porque você vai passar a sua vida inteira trabalhando, se você não amar, e aí eu mudo um pouco essa coisa do meu pai, procure amar o que você faz, entendeu? Porque às vezes você tem um sonho, sonho ser tal coisa e você não consegue, de repente você está numa atividade que não é aquela que você sonhou, mas se você amar aquela atividade, você vai se destacar nela, entendeu? Você rapidamente vai ser diferente nela, entendeu? Então eu mudo um pouco a frase do meu pai, não procure fazer o que você ama, procure amar o que você faz. Desesperadamente…

Luciano          Mesmo que seja derrubar o presidente da república.

Janaína          … o que for, entendeu?  Eu acho que isso faz a diferença na vida da gente…

Luciano          Eu não tenho dúvida nenhuma.

Janaína          … eu acho que é muito ruim quando você começa a reclamar, quando você começa a focar no negativo, entendeu?  Então assim, teu trabalho está um saco, teu trabalho está ruim, está ganhando pouco, as pessoas estão puxando o seu tapete, para, respira e pensa,o que tem de bom aqui? E quando as coisas estão ruins, olha para o positivo, entendeu? Olha para o positivo porque é o positivo que vai te segurar, entendeu?

Luciano          E pega a lição principal que eu acho que você deu aqui hoje  que foi a seguinte, quando todo mundo olhava aquilo tudo e pensava assim acho que não é comigo, você teve uma luz que te falou é comigo e eu vou fazer e um milhão ficou babando, esperando alguém tomar providência, você foi lá, pegou a bola e tomou providência, parabéns e muito obrigado.

Janaína          Eu que agradeço. Beijo grande para todo mundo.

 

Transcrição: Mari Camargo