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Luciano Pires -

apoio dkt

Fernanda                Primeiro obrigada pelo convite, aínda que por indicação, eu espero corresponder às expectativas, meu nome é Fernanda Antonioli…

Luciano                   Idade?

Fernanda                … eu tenho 28 anos…

Luciano                   Só isso?

Fernanda                … só.

Luciano                   … e o que é que você faz?

Fernanda                Eu sou… eu sou antropóloga social e eu brinco que… e eu trabalho na IBM e eu brinco que lá eu faço confusão, porque eu fui para a IBM com essa missão de fazer as pessoas saírem um pouco do senso comum e pensarem mais nesse lado humano, trazer esse lado humano para como se faz tecnologia, então eu trabalho no laboratório de pesquisa da IBM com inovação.

Luciano                   Então você que está ouvindo já entendeu né? Já ouviu só o que é que eu tenho na minha frente aqui, eu tenho uma antropóloga, aliás, na outra, na primeira série desse programa eu trouxe uma socióloga e a hora que eu perguntei para ela, o que que você faz, ela falou eu sou socióloga eu falei, posso pegar na sua mão? Deixa eu pegar na sua mão, eu nunca peguei na mão de uma socióloga e agora eu peguei na mão de uma antropóloga, olha que loucura! Antropóloga social, trabalhando na IBM, falando de inovação, cara isso é tudo que eu pedi a Deus, vamos ver se a gente leva esse papo aqui trazendo algumas informações interessantes, você sabe que o pano de fundo daqui é liderança e é empreendedorismo e eu vou querer fuçar um pouquinho para ver como é que você imagina que essas coisas funcionam.

Fernanda                Quase uma terapia.

Luciano                   Quase uma terapia, mais para mim viu? Me fala um pouquinho da sua história, como é que é, sua formação vem de onde, como e que você partiu para esse ramo de estudar antropologia e… de onde vem?

Fernanda                Eu fiz graduação em ciências sociaís e aí basicamente fui fazer ciências sociaís porque eu gosto de gente, naquela época de decidir o que eu queria fazer, se eu queria fazer… ir para exatas, humanas, eu superei a minha ideia de que eu queria fazer medicina, sabia que eu queria fazer humanas mas aínda estava muito presa à expectativa dos outros de que eu tinha que fazer direito, relações internacionaís, são as carreiras mais seguras e com emprego garantido…

Luciano                   Quem são esses outros?

Fernanda                … ah, família, amigos, escola, professores, eu sempre fui boa aluna, então era assim, ah que desperdício, era como… isso eu achava engraçado, essa noção do desperdício, como se eu fosse fazer algum curso que não fosse os cursos de auto empregabilidade fosse um desperdício. E aí eu conheci um cara, eu fazia yoga, conheci um cara muito bacana assim, ele era muito doido, o Fernando e ele tinha um background todo de mundo corporativo, multi nacional, ele era engenheiro e aí um dia ele largou tudo, resolveu estudar psicanálise e astrologia e aí ele me conheceu na yoga, ele falou, eu gostei de você, eu faço coach de carreira e eu quero te ajudar e aí eu comecei a fazer meu mapa astral com ele e fazer essas seções de coach com ele e aí eu decidi que eu não queria ficar nessa coisa do direito nem relações internacionaís, eu queria fazer ciências sociaís, porque eu gostava da ideia de entender alguma coisa com profundidade. Como queria entender gente com profundidade, nada melhor do que fazer ciências sociaís por causa desse aspecto cultural e multicultural que me interessava e aí fiz graduação em ciências sociaís, sempre gostei de pesquisa, então logo no começo eu comecei a fazer pesquisas de iniciação científica e aí entrei num tema muito bacana, porque isso, acho que acontece em todas as profissões, mas na antropologia acontece muito mais claro, para a gente muito claro que as pessoas vão para temas de pesquisa, tem a ver com quem elas são e eu sempre gostei muito de viajar, muito, é minha grande paíxão assim, eu acho que para mim, viajar é como se fosse meu oxigênio. Eu orbito a minha vida em torno de pensar quando que eu vou viajar de novo e aí eu fui estudar turismo internacional e eu tinha um interesse, eu gostava, eu fazia parte de um coletivo feminista, sempre gostei dessas questões de gênero, então eu queria casar essas duas coisas e aí eu tinha um incômodo, porque toda a literatura nessa área falava sobre o turismo sexual masculino, quando você cruzava turismo e gênero então era muito sobre turismo sexual masculino no Brasil, a presença dos homens do norte, viajando e tendo relações com as meninas… nesse contexto de prostituição. Eu falava gente, mas isso aqui está um pouco estranho, porque eu vejo um monte de mulher viajando, um monte e gringa viajando e por que que não se fala em turismo sexual feminino? E aí eu fui atrás dessa bibliografia e quis estudar isso no Brasil. Então eu passei 10 anos estudando esse tema do turismo internacional e da presença de mulheres estrangeiras viajando no Brasil, então essa foi a minha trajetória de graduação e também o mestrado, mas entre a graduação e o mestrado, por causa dessa coisa de gostar de viajar, além das pesquisas de campo que eu pude fazer aqui no Brasil, eu fui para Jericoacoara, fui para Bonito estudar esse tema, eu também fui convidada, eu passei… eu ganhei um prêmio do departamento de estado norte americano que era um programa sobre liderança, então foi a primeira edição e eles fizeram uma seleção pelo Brasil inteiro, selecionaram 18 estudantes de graduação para passar quase 2 meses nos EUA estudando liderança em instituições norte americanas, do ponto de vista de política, economia, história, sociedade. E aí essa experiência foi incrível porque eu estava muito presa a esse contexto acadêmico achando que meu futuro ia ser fazer toda a carreira acadêmica e dar aula.

Luciano                   E essa era a pergunta que eu ia fazer para você agora, porque enquanto você estava ali envolvida totalmente, você não tinha a menor ideia de que lá na frente o que que você ia fazer que tivesse fora desse trilho do acadêmico, né?

Fernanda                É. Eu não estava muito com esse pensamento no futuro, eu acho que também até é um gap na formação brasileira nas ciências sociaís, que a gente não tem essa visão trazida pela universidade do mercado de trabalho, principalmente nas universidades públicas e aí eu fui para os EUA e vivi aquela imersão cultural estudando sociedade norte americana e muito com esse foco de liderança que é um super valor na sociedade norte americana. E aí eu estava com 17 outros estudantes do Brasil, de tudo quanto é área, medicina, direito, ciência política, tudo quanto e coisa, engenharia, computação, então isso é uma experiência demais assim, porque a gente ficava o tempo todo juntos, estava estudando Estados Unidos e o Brasil ao mesmo tempo e essa formação, esse foco desse programa em liderança me fez ver que a minha formação em Ciências Sociaís e Antropologia era super bem vinda em aplicações que eu nunca tinha pensado no mercado, não só no que tradicionalmente se faz quando saí de uma graduação em Ciências Sociaís, que é ir para educação ou trabalhar em ONG ou museu, mas ir para o mercado, porque a liderança estava além disso e aí a gente tinha esses cursos, esses treinamentos para você encontrar o seu perfil de liderança, ou seus perfis de liderança e como que você pode influenciar pessoas de uma forma positiva naquilo que você faz. E aí esse programa me deu a outra cutucada que era em relação a estar fora do Brasil, porque eu acho, para mim é inebriante assim essa sensação de você viver numa outra cultura e de ter que viver aquele desafio de se entender e conquistar aquele espaço e se conquistar dentro daquele espaço enquanto você está lá e aquela cultura, aquelas pessoas, a língua e aí eu decidi que eu queria antes do mestrado fazer um intercâmbio e aí eu fui na lista da Unicamp, eu fiz Unicamp, tanto graduação quanto mestrado, aí eu fui na lista da Unicamp, de todas as universidades que a gente já tinha convênio que estavam com chamada aberta para o concurso para ir para lá e eu escolhi a que era mais longe, esse foi meu critério principal, eu olhei todas…

Luciano                   Geograficamente?

Fernanda                …geograficamente mais longe, foi longe que é o lugar mais longe que eu posso ir e das que estavam na lista da Unicamp. A que estava mais longe  era a universidade de Kopenhagen, aí eu apliquei e passei lá no processo e aí eu fui para ficar um ano. Então na época eu lembro que eu avisei, foi muito rápido assim, eu avisei meus pais, faltava um mês, porque foi quando saiu o resultado e eu tinha uma moto, então eu tinha vendido minha moto para comprar um computador e tinha sobrado metade do dinheiro da moto, mais ou menos. E aí eu falei para o meu pai, para a minha mãe, eu falei gente, olha só que legal, eu passei nesse intercâmbio, eu vou ser aluna especial da universidade de Kopenhagen e eu tenho a opção de ficar 6 meses ou um ano e eu decidi ficar um ano que seis meses passa muito rápido e meus país gelaram, eles falaram Fernanda você está maluca? Porque você vai ficar um ano num dos lugares mais caros do mundo? Eu falei não, mas está tudo certo, porque eu já vi, meu dinheiro dá para comprar passagem e dá para eu morar lá por um mês, aí minha mãe olhou e falou, e os outros onze? Falei ah, eu vou trabalhar, porque eu já investiguei também que todo mundo em Kopenhagen que tenha a minha idade faz graduação e trabalha, ou seja, vou conseguir um emprego…

Luciano                   Que idade você tinha?

Fernanda                … eu tinha 21…

Luciano                   21

Fernanda                … é, eu fiz 22 lá.

Luciano                   É a única filha? Você tem irmãos?

Fernanda                Não, eu tenho uma irmã, ela é 6 anos mais nova que eu, a Giulia, ela tem 22. E aí eu fui e cheguei lá no meio de um inverno, eu lembro que eu saí daqui de São Paulo estava 36 graus quase e eu cheguei lá estava menos 2, eu cheguei em dezembro e aí eu já tinha contatado algumas pessoas por internet, aí um amigo, de um amigo, de um amigo tinha conseguido um quarto para eu ficar um mês numa república de estudante dinamarquês e aí fui indo e aí me virei, trabalhei de baby siter, trabalhei em restaurante, dei aula de português, dei aula de inglês, fiz o que precisava…

Luciano                   Se virou

Fernanda                … é, que é o que as pessoas fazem.

Luciano                   O que que é, o que que é o que as pessoas fazem, na hora que você está jogada no meio do incêndio tem que dar um jeito de sair do incêndio. Que força é essa, tem muita gente que não topa fazer isso, fala o seguinte, pôo, Dinamarca, que língua que os caras falam lá meu? Que que é isso? Isso é o fim do mundo, não, eu acho que eu vou em Miami que tem os caras que falam espanhol ali mais pertinho, vou fazer em Portugal, vou aqui na América Latina que é tudo muito parecido com aqui, mas não outro mundo totalmente diferente desse aí. Pior que isso só se fosse para a China, ou se fosse sei lá, para a Rússia. Que força é essa que te obriga a ir par o lugar mais distante, o mais difícil, o mais complicado, que que é isso? E um auto desafio, é uma tentativa de você provar para você que você é capaz, é quanto mais desconhecido melhor, o que que é isso? Como é que você explica isso?

Fernanda                É interessante você perguntar isso, eu acho que eu tenho uma coisa assim em mim, um das coisas que eu entendo que eu tenho que são, é como se fosse um motor meu assim que é… é muita curiosidade, então isso é um lado e essa curiosidade faz a gente se expor e o outro lado é uma coisa estranha assim de um senso de justiça sabe, eu sempre tive isso, desde pequena assim que as coisas tem que ser justas e certas. E eu cresci, eu sou de São Paulo mas eu cresci em Vinhedo, que é aqui no interior de São Paulo, que é um lugar engraçado, porque tem um monte de condomínio fechado e eu cresci em um desses condomínios fechados e todos os meus amigos moravam em condomínio fechado e chegou uma hora, lá pelos 14, eu olhava para aquilo e eu achava tudo muito esquisito, falava gente, não é possível eu estou lendo jornal e não faz sentido.E aí eu resolvi trabalhar porque eu queria entender outro tipo de realidade, então eu… e também queria ter o meu dinheiro e aí eu fazia festa de criança de final de semana e sabe, recreação essas coisas, mas aí não era suficiente, porque lá pelos 15, 16 eu falava não, mas não é isso ainda, eu ainda sinto que eu tenho que conhecer outro tipo de gente que eu não tinha oportunidade de conhecer naquele contexto que eu estava vivendo, então eu decidi ter um trabalho com carteira assinada, então…

Luciano                   Quando você diz outro tipo de gente, você está se referindo a outras classes sociaís…

Fernanda                … classe também mas era mais do que classe, eu acho, era cultural também, porque eu sentia falta de uma diversidade cultural, era naquele momento assim de adolescência então sabe… As minhas amigas todas querendo ser iguais e eu sentia falta de ter o outro lado assim, ver mais gente e acho que classe era uma das coisas que me mostravam alguma diferença, então eu tinha esse olhar para a diferença que me incomodava e aí eu fui trabalhar, eu lembro que no meu aniversário de 16 anos a primeira coisa que eu fiz foi ir fazer a minha carteira de trabalho, porque eu já tinha conseguido um emprego e trabalhei numa loja, no centro de Vinhedo e eu lembro que foi até engraçado porque as pessoas ligavam em casa perguntando para os meus país se eles estavam precisando de ajuda…

Luciano                   Porque a filha estava trabalhando…

Fernanda                … é, e obviamente meus país ficaram muito bravos comigo, porque eles não queriam que eu trabalhasse, imagina! Pedi para o meu pai me ajudar a fazer o curriculum e ele falou que não ia me ajudar e aí eu fui, porque eu precisava ter primeiro tinha essa coisa de eu ter meu dinheiro, porque eu não gostava dessa história de mesada e segundo ter esse acesso de conversar, conviver com pessoas que, sei lá, precisavam trabalhar para pagar conta em casa, então acho que era o começo desse olhar para a diversidade, para entender que o mundo é mais complexo do que aquilo que eu estava vivendo então isso eu acho que fez muito sentido nessa trajetória toda sabe, quando eu fui para Kopenhagen já era isso em mim.

Luciano                   Sua irmã tem esse mesmo fogo no rabo?

Fernanda                Nossa Luciano, não, a Giulia é uma pessoa incrível, ela é uma fofa, mas ela é meu oposto.

Luciano                   Então vamos conversar um pouquinho disso é uma delícia…

Fernanda                Falar da Giulia?

Luciano                   … não, da Giulia não. Quero falar de duas meninas que vivem no mesmo ambiente, tem os mesmos país, estão no mesmo lugar, crescem na mesma família e saí uma completamente diferente da outra e não estou me referindo à bagagem cultural, estou me referindo a esse fogo no rabo, quer dizer, uma quer sair, estou te perguntando porque eu tenho na minha família casos assim, completamente… mas é a água e vinho e as duas irmãs se dão de montão e são totalmente diferentes. Isso tromba um pouco com esses conceitos que a gente discute no dia a dia que fala pô é o ambiente que faz a pessoa. Espera um pouquinho, como assim o ambiente que faz a pessoa se é o mesmo ambiente e saiu uma diferente da outra? Você é antropóloga, você deve ter metido a mão nessa cumbuca para saber um pouquinho, me fala um pouco disso aí, como é que é? Como é que você enxerga isso? Como e que você entende essa diferença?

Fernanda                É, eu acho que por mais que a gente viva no mesmo ambiente, a cultura é um exemplo disso, a gente está sujeito a impulsos diferentes, experiências diferentes, então eu acho que a minha história, por mais que seja mais ou menos no mesmo contexto, é completamente diferente da história da minha irmã, primeiro porque eu vejo o mundo de uma outra forma que ela vê, então a Giulia, é engraçado, porque eu tenho, acho que essa definição do fogo no rabo é boa e a Giulia ela é o contrário assim, ela adora o estável e eu gosto de desestabilizar, então… e aí mas eu também penso que talvez a Giulia só seja assim porque eu sou como eu sou, talvez, porque eu acho que essa diferença de 6 anos,  ela viu muito o meu conflito com os meus pais, porque claro, ninguém é assim sem causar, sem causar confusão, eu causei muita confusão, então talvez ela tenha o ambiente que ela viveu foi o ambiente em que ela viu a irmã dela causando confusão e ela talvez tenha optado…

Luciano                   … que não quero isso para mim.

Fernanda                … é, e ela tem um pouco mais de medo do desconhecido, então ela não teve esse drive tão grande para viajar, para fazer,. Ela… agora ela está trabalhando, ela terminou a faculdade agora, ela fez economia na Unicamp também e aí ela trabalha no mercado financeiro e optou por começar a fazer estágio cedo ao invés de fazer um intercâmbio, coisa que na minha cabeça nunca ia… a decisão nunca ia para esse lado, eu precisava ter essa experiência de viver fora e aí, voltando para a história de Kopenhagen, eu acho que também esse meu drive da diferença me incomodava, porque eu olhava em volta e eu falava, gente, ou eu tenho muita sorte ou eu sou de fato boa no que eu faço, ou sei lá, tem alguma coisa que eu não estou entendendo que eu preciso descobrir, porque na Unicamp eu tive ótimas oportunidades, eu tive bolsa FAPESP a faculdade toda, eu estava super bem inserida, professores sempre me ajudando e aí eu queria… eu sentia que existia alguma marcação de classe, eu não sei te explicar, mas parecia que era assim, ah ta bom, chega a pessoa perfeita aqui, uma menina inteligente, articulada, bacana, bonitinha então ela tem que ser a nossa herdeira.  Se por um lado isso é muito bonito porque é sempre legal você ser escolhida por alguém, mas por outro isso me causava um desconforto porque eu queria saber qual que era o meu valor mais cru e aí eu me vi nessa situação indo para Kopenhagen como uma folha em branco, eu estava indo para um lugar em que a forma como eu falava, a forma como eu me vestia, a forma… a cor da minha pele, o meu cabelo, nada disso significava nada, porque as pessoas, enfim, não é o mesmo referencial cultural, aquilo tem que ser sempre traduzido e nem sempre vai ser bem interpretado, então eu me vi nessa oportunidade de ser uma folha em branco e tentar me conhecer melhor e aí eu vi que eu era uma folha em branco bem amassada, porque você ser estrangeiro do sul do mundo, do Brasil na Europa, mesmo sendo uma aluna de intercâmbio, é uma coisa que te discrimina.

Luciano                   E ainda bem que você não foi para a França, para a Alemanha…

Fernanda                Pois é e assim, como mulher também, quando você fala que você, como eu sou né, minha família é de origem… meus bisavós são de origem europeia, então eu era confundida, poderia ser italiana, poderia ser francesa, portuguesa, israelense, poderia ser qualquer coisa, mas várias situações, quando eu falava que eu era brasileira eu sentia o preconceito, várias vezes, machismo, porque muitas vezes na Europa, você fala que você é brasileira acham que você é prostituta, o que tudo bem, eu poderia ser prostituta, mas no caso eu não era, então isso foi interessante viver essa experiência e ser essa folha em branco amassada e de você entender, de eu conseguir me olhar e ver quem de fato eu era e qual era o meu valor, porque aí eu me coloquei esse desafio, eu falei, se aqui que não tenho nada me protegendo, não tenho classe, não tenho cor, não tenho nem gênero, não tenho nada me protegendo, se eu conseguir me estabilizar e ter um apartamento, pagar minhas contas, ter emprego e bem a faculdade, eu sei que eu vou saber de fato quem eu sou, sem nada para me ajudar, sem nada… esses fatores que a gente tem de viver num país com desigualdade, então isso foi uma experiência, para mim assim, existia vida antes de Kopenhagen e depois, porque foi…

Luciano                   Quando tempo você ficou lá?

Fernanda                Eu fiquei um pouco mais de um ano, 13 meses.

Luciano                   E de lá você voltou para cá.

Fernanda                É, eu estava, eu ia fazer mestrado lá, daí eu ia fazer mestrado na Suécia, no sul da Suécia, já estava com tudo certo, orientador e tal, mas aí me deu também uma sensação de que eu tinha coisa para enfrentar aqui que se eu ficasse lá eu ia empurrar para baixo do tapete sabe…

Luciano                   É claro que sim, é claro que ia ser assim…

Fernanda                … e aí…

Luciano                   Me fala uma coisa, você então aplica um período interessante da sua vida de forma racional, quer dizer, você não foi para lá para fazer um intercâmbio do nada porque era moda, você procurou o lugar, foi por sua conta e foi lá e construiu a tua história ali, numa região, num país ou num, sei lá, numa área do mundo que para nós hoje é o paradigma, no Brasil quando se fala, como é que o Brasil devia ser, todo mundo fala, ah, devia ser a Suécia, olha a Dinamarca, veja a Noruega, a gente devia ser com são aqueles países de lá e você saí dessa realidade e volta para cá para essa barafunda que é esse país maluco aqui, como é que você… isso deve ter te dado uma oportunidade de enxergar o Brasil de um ângulo que pouquíssima gente consegue ver, quer dizer, essa tua experiência lá fora, vivendo a partir do zero, se construindo numa sociedade como aquela e voltando para cá e você olha para o Brasil e fala, meu, olha isso, como é que isso impactou em você, até na decisão de voltar para cá e de se estabelecer de volta aqui?

Fernanda                É, o primeiro impacto acho que foram as cores, porque é engraçado isso mas eu só fui ver… acho que como os esquimós veem muitos tons de branco, eu nunca tinha percebido quanto tom de verde tem no Brasil, mesmo em São Paulo, essa coisa meio cinza, tem muito tom de verde, eu achava engraçado, eu estou brincando com isso mas eu acho que é a experiência sensorial as vezes ela dá espaço para a gente ver outras coisas que são mais subjetivas…

Luciano                   50 tons de verde… olha que bonito isso! Dá uma história boa do Brasil.

Fernanda                … é, eu lembro que meu pai foi me buscar no aeroporto eu falei, pai, quanto verde, aí ele falou, é, tem bastante árvore, eu falei não pai, tem muitos tons de verde e ele ficou olhando para a minha cara. Ele tinha ido me visitar, ele e minha mãe tinham ido me visitar em Kopenhagen, ele falou ichi, vai longe isso aqui, mas aí eu voltei e meus pais morando lá em Vinhedo eu vim, voltei para morar em São Paulo e fui trabalhar com… na secretaria de direitos humanos da prefeitura de São Paulo, porque…

Luciano                   Por uma iniciativa… você queria isso, você queria estar dentro dessa….?

Fernanda                … porque eram minhas dúvidas. Eu estava nesse processo de filtragem, então, porque o que aconteceu em termos de carreira em Kopenhagen, a antropologia lá é super valorizada, é uma carreira hiper valorizada. O curso é muito concorrido na universidade e aí eu descobri todo um outro lado da antropologia, que era  a antropologia no mercado, um monte de consultoria, cheio de antropólogo, tem uma super consultoria dinamarquesa que atua só com metodologia da ciência, só não, mas toda essa entrada em metodologia das ciências sociais, trabalho de campo, etnografia, então eu voltei falando: gente, tem todo um novo mundo que eu descobri em Kopenhagen que eu posso atuar profissionalmente, mas aí eu tinha uma dívida, que eu acho que é uma coisa da universidade pública no Brasil, que eu falava, mas eu tenho eu saber se eu não me daria bem fazendo alguma coisa no estado, trabalhando na iniciativa pública, então eu tinha que tirar isso do meu… da minha checking list ali, saber se eu gostaria ou não. Então eu fui trabalhar na prefeitura de São Paulo e fiquei seis meses com direitos humanos porque eu vi que não era a minha praía mesmo e aí essa experiência foi muito chocante porque eu estava morando em Kopenhagen e aí a única coisa que eu consegui transportar para cá foi o hábito de andar de bicicleta, porque lá eu só andava de bicicleta, 60%, na época 60% da população de Kopenhagen andava de bicicleta como principal meio de transporte e aí eu voltei falei, não, eu vou andar de bicicleta e eu morava ali perto… final de Higienópolis, Santa Cecília e trabalhava no Páteo do Colégio, então eu só andava de bike, o que já foi um choque, porque é bem diferente andar de bike em São Paulo, em 2000 e… nem era agora que está tudo um pouco melhor, mas isso foi 2010 e aí imaginar essa situação de trabalhar com direitos humanos, então era todo o tempo vendo esse monte de problemas, essas 16 mil pessoas que moram, que vivem em situação de rua em São Paulo pedindo auxílio para o governo e o governo não podendo ajudar da forma que deveria ser e aí… e aí eu não dei conta, não era a minha… não era o que era para mim assim, eu ficava muito… me fazia muito mal sentir a ineficiência, não necessariamente a incapacidade porque tem muita gente capaz e comprometida, mas a impossibilidade de resolver alguns problemas então eu decidi que… risquei da minha lista, não era isso que eu queria fazer e aí eu fui fazer mestrado. Então voltei para o interior, que eu fiz mestrado na Unicamp e aí… mas já com esse norte de querer ir para o mercado em algum momento mas eu sentia que eu tinha que fazer o mestrado, primeiro para fechar a minha pesquisa que eu adoro minha pesquisa e eu queria dar uma profundidade um pouco maior para ela com o mestrado e encerrar esse capítulo ou quem saber fazer um doutorado. Era uma coisa que eu estava em aberto mas não sabia ainda e aí também ter um mestrado no currículo para ir para o mercado e aí eu fui fazer a pesquisa, fiz um ano das matérias do mestrado, aí o segundo ano eu tirei para ficar todo fazendo… me dedicando à pesquisa de campo, então eu fiquei três meses em Trancoso, que era meu… foi meu campo do mestrado e lá foi uma experiência incrível porque você conhece gente do mundo inteiro, de tudo quanto é jeito e pessoas muito doidas, que largam tudo para viver no nordeste do Brasil. Gente que tem histórias muito doidas, gente que trabalha de jornalista e viaja o mundo todo porque pode trabalhar de onde for e isso mexe muito comigo, primeiro que era a minha pesquisa, então eu passei 3 meses entrevistando pessoas e analisando tudo isso numa profundidade, numa intensidade muito grande e tem muito a ver com a forma como eu via a vida, de que tinha muitas possibilidades. Então eu voltei completamente desconcertada, no bom sentido, e sabendo que eu queria logo ir para o mundo e tentar comunicar o que eu tinha aprendido, o que eu podia aprender ainda de uma forma mais ampla do que o que a academia comunica e aí eu passei 3 meses na Europa, fazendo pesquisa também. E na Europa eu já comecei a procurar oportunidades no mercado. Então eu conversei, tentei marcar umas entrevistas com gente que eu conhecia lá, mandei currículo para todo mundo que eu conhecia para  me ajudar a construir um currículo e comecei esse caminho de tentar me posicionar no mercado, sabendo… e aí os feedbacks que eu comecei a receber eram desconfortáveis, porque se por um lado falavam nossa Fernanda!, você tem uma super qualificação, por outro eu ouvia muita coisa pessimista do tipo, é, mas você está um pouco velha para entrar no mercado num nível de entrada e você não tem experiência para entrar no mercado melhor posicionada, então, por exemplo, eu já não conseguia mais aplicar programas de trainee, perdi esse timing, e enfim, não perdi, estava fazendo outras coisas e aí… mas aí foi um pouco difícil assim, mas aí eu lembrava das outras coisas, não gente, se eu conseguir o resto isso aqui vai dar certo.

Luciano                   Mas o teu timing estava claro, quer dizer, eu agora estou indo para a iniciativa privada eu quero fazer parte de uma grande empresa…

Fernanda                Tá. E eu nem quis terminar meu… eu quis terminar e escrever meu mestrado já trabalhando em empresa, eu já não queria mais ficar focada só nisso, porque também o negócio vinha enlouquecedor, você ficar só escrevendo, eu já não conseguia mais assim. Eu queria começar a trabalhar e aí foi assim, aí eu fui, fui, fui, tive umas entrevistas horríveis de gente falando assim, esse tipo de coisa, teve uma entrevista com um cara que ele era um diretor de uma… de inteligências de mercado de uma grande multinacional e ele olhou para mim e ele falava, aí Fernanda então, sabe o que eu acho querida? Eu acho que você deveria voltar para a graduação, fazer um curso assim de marketing, porque o seu currículo, ele ia passando assim o meu currículo como se estivesse folheando uma lista telefônica assim, o seu currículo é… é muito bacana, mas não faz sentido e você está um pouco velha e eu tinha 25 anos…

Luciano                   Isso era aqui, aqui no Brasil?

Fernanda                … é…

Luciano                   Era um brasileiro.

Fernanda                … aqui no Brasil, é, aqui no Brasil, é, eu queria trabalhar aqui no Brasil. Eu tinha 25 anos, então assim, teve coisas muito chatas, de umas pessoas meio que sem visão assim eu acho hoje, estou pensando hoje já trabalhando se eu tivesse oportunidade de entrevistar alguém não colocaria a pessoa nessa posição. Mas aí surgiu uma oportunidade legal de eu ir trabalhar nessa área de comunicação e inteligência de mercado e que foi a minha entrada. E aí depois de um ano eu conheci o Fábio Gandour que é o cientista chefe da IBM num evento e aí a gente se gostou assim, conversou, tarará, ele falou, pô, você tem que ir lá no laboratório, eu quero te apresentar para um pessoal lá, acho que você está legal e aí foi demais assim, porque a hora que eu conheci o laboratório de pesquisa da IBM e eu estava ainda escrevendo o mestrado, precisava desse foco para conseguir terminar, foi super bacana porque…

Luciano                   Legal. Chegamos na IBM.

Fernanda                Chegamos na IBM.

Luciano                   Muito bem, mas antes de eu entrar na tua história dentro da IBM, eu queria bater numa outra tecla aqui um pouquinho mais. Houve uma decepção, você sentiu uma decepção na hora que você se lançou no mercado e começou a trombar com gente como esse sujeito que você acabou de contar aí em que você vê um cara numa posição de tomar decisões, definir sobre a vida dos outros e ser incapaz de encontrar coerência naquilo que você estava trazendo e você sabendo, pô, eu estou com tudo na mão  e esse cara não entende o que eu estou propondo, como é que você enfrentava isso aí, isso te deixou decepcionada ou angustiada, te derrubou em algum momento, de você falar puta merda, tudo aquilo que eu fiz não serve para isso que eu estou agora, ou esse trouxa não me entende eu vou achar alguém que entenda,  como é que você encarava essa…?

Fernanda                Eu acho que era os dois, porque deu um medinho, porque eu acho que você passa, eu passei por esse momento de me questionar, falar putz, será que eu fiz uma escolha errada? Porque eu via que eu estava competindo com pessoas que tinham formação em economia, administração e isso sabe, sei lá porque, tinha mais valor do que ter uma formação em antropologia.

Luciano                   Voltamos ao começo do nosso papo aqui, quer dizer, você começou a trombar com pessoas que fizeram aquela formação que estavam pedindo para você fazer lá no começo…

Fernanda                Pois é.

Luciano                   … vá no tradicional e de repente você descobre que o mercado quer o tradicional, não quer o diferente.

Fernanda                É. Pois é, aí eu vi essa… eu consegui encontrar a minha marca, que era essa questão da diferença aí da diversidade, porque… e esse cara que foi meio babaca me ajudou a pensar nisso, porque ele me fez uma pergunta meio babaca que o fato de eu… a resposta que eu dei acabou me ajudando, porque ele falou aí, pois é né querida, porque você não tem, você não fez estágio, você não fez trainee, aí eu peguei e falei então, mas se você olhar nesse período do meu currículo que eu poderia ter feito estágio, trainee, eu estava fazendo coisas super interessantes que podem ser boas para a sua equipe, eu tenho outras competências que podem ser complementares, então eu vi isso, eu falei bom, não existe isso com… acho muito legal quem faz estágio, quem faz trainee, mas enquanto as pessoas estão fazendo estágio e trainee não é como se eu tivesse sentada tricotando, eu estava fazendo outras coisas, então… e aí eu comecei a ver a importância do ter esse argumento da complementaridade porque a gente está num momento que cada vez mais é importante você ter essa diversidade de competências numa equipe, porque é tudo muito dinâmico. Se você especializa muito um membro da sua equipe, aquilo uma hora vai se tornar, vai se tornar um ativo meio frio para você, porque você especializou tanto aquela pessoa que aquele mundo já mudou e você não tem mais a outra competência que você precisa na sua equipe. Então eu acho que eu consegui desenvolver isso, mas foi frustrante. Mas essa frustração acabou me ajudando a ter a resposta que eu acho que foi a resposta que me ajudou a me colocar depois.

Luciano                   E você, eu não quero falar sorte, eu odeio falar que as coisas são sorte, mas você acabou dando a sorte de encontrar… ou digamos o seguinte aqui, qual é o elemento sorte nessa história, é você estar no mesmo evento que o cara da IBM, esse é o elemento sorte, estou no mesmo evento do cara da IBM, não é o fato de tê-lo encontrado ou falar com ele aqui, eu estava lá naquele dia, na hora certa, no lugar certo, pronta e disponível e disposta a assumir um risco e esse cara caiu ali, então esse digamos que é o elemento sorte e aí você vai parar numa empresa que tem um histórico de reinvenção que é um negócio… o case da IBM é um case fabuloso, era uma empresa, um gigante que fabrica computador e um belo dia para e fala, esse negócio não vai dar certo, eu vou ser outra coisa e não é que eu vou fazer computadores diferentes, eu não faço mais computador, vou trabalhar com outra coisa. De qualquer forma, é tudo dentro do segmento que é uma coisa complicada porque ele lida com… é uma empresa que lida com processos, o negócio o que que é, eu trabalho desenvolvendo processos para que as pessoas possam usar e assim facilitar a vida delas e processo é matemática, causa e efeito, isso mais isso dá aquilo, pa pa pa pa e aí você traz um elemento vivo que tem coração, sangue, que pulsa e põe ali dentro do processo e fala: agora pega esta matemática perfeita e faça ela funcionar e eu diria que a grande discussão hoje em dia, se você pegar os novos teóricos, os filósofos, está todo mundo discutindo como é que eu trago de volta esse elemento pulsante, humano cheio de sentimentos para dentro de um mundo que virou preto no branco, quer dizer, essa… eu vivi isso intensamente, especialmente aqui no Brasil, em meados dos anos 90, quando o Brasil abre para o mundo e traz para cá todos aqueles projetos de certificação ISSO 9000 e o que era um trabalho dinâmico acabou virando uma receita de bolo onde você chega para a pessoa, entrega para ela um roteirinho e fala, faça o que está escrito aqui e não se meta, não se atreva a inventar nada além do que está escrito aqui, porque se você fizer isso você me ferra, porque lá na frente eu vou ter uma surpresa e eu não quero surpresas e isso tira o elemento humano da jogada, quer dizer, passa a ser todo mundo máquina e aí uma antropóloga cai dentro de uma empresa que lida com sistemas que é para botar ordem na vida das pessoas e você vem com esse… Que nó é esse cara como é que você, como é que você lida com isso, como é que é essa função de você trazer essa visão humana para dentro de uma grande corporação que no final do dia tem que passar um risco e falar, o dinheirinho funcionou, entrou, somos uma grande empresa capitalista, nosso negócio aqui é ser uma grande multinacional e fazer tudo funcionar etc e tal, que meio que tromba com alguns desses conceitos tão caros a você, de valor de vida. Como é que é isso aí? Você desistiu daquela rebeldia social, etc e tal ou você está usando isso para integrar no teu negócio…

Fernanda                Eu não desisti, mas é que a gente… eu acho que eu fui vendo que tem várias formas de ser rebelde e às vezes…. e uma das coisas que a antropologia me ensinou é que a melhor forma de você se comunicar com uma pessoa, ou com uma cultura, ou com, enfim, é você encontrar a linha de comunicação daquela cultura e falar naquela língua então… e isso é uma das grandes aplicações da antropologia nesse contexto de mercado, que não adianta você querer inventar um novo brinquedo sem você entender como que aquelas crianças estão brincando naquele presente, naquele contexto, naquele mundo, então esse olhar para você ver como as coisas funcionam, para dialogar com aquilo e aí, através desse diálogo que só se dá a partir do reconhecimento do outro, você fazer parte de uma mudança, então eu acho que a rebeldia ela existe, porque tem sempre essa sensação de que as coisas podem ser diferentes, melhores, mais justas ou enfim, mas ela… eu só… eu acho que ela foi amadurecendo e eu vi que é muito mais…. é muito mais produtivo você dialogar, você conseguir entrar naquele mundo do que confrontar e aí na… eu acho que… na IBM isso para mim é muito confortável porque, confortável no sentido de que… de que é factível e eu gosto desse contexto que é desafiador também, mas eu gosto do desafio.Primeiro porque a IBM, como você falou é uma empresa que se reinventou e segundo porque o fato de a gente trabalhar com tecnologia, antes de você pensar nos grandes computadores, no mainframe, aquela coisa gigantesca, aquilo não estava na mão das pessoas, não estava na mão do Luciano, não estava na mão da Fernanda era um homem máquina que tinha um processo para operar aquela máquina e hoje a tecnologia ela está na nossa mão e isso foi dando poder para o indivíduo.Então o indivíduo ele tem muito mais poder hoje do que ele tinha antes, quando ele estava atrás de instituições e de processos. Então a IBM, por mais que ela seja uma empresa com super foco corporativo, ela está um pouco nessa atuação mais macro, o corporativo ele não existe mais só no macro porque hoje não existe mais simplesmente a realidade que você chega, sei lá, um CEO de uma empresa chega e fala, agora a gente vai usar esse sistema, vai esse software de meio e a coisa ser goela abaixo, porque as pessoas estão tão conectadas com aquilo que elas usam e podem fazer tanta escolha no dia a dia delas em relação às tecnologias que elas aplicam na vida delas e usam como ferramentas para tornar a vida mais fácil, que se o negócio não for bom ninguém vai usar e vai usar mal e isso vai atrapalhar os processos da empresa, então eu não gosto muito dessa palavra: empoderamento mas eu acho que talvez ela caiba nesse contexto de que esse empoderamento do indivíduo, ele ajuda também nesses processos mais macro e mais institucionais e eu vejo isso muito na IBM, porque é uma empresa que está muito atenta a essa necessidade de você dialogar e ter o consumidor individual central no seu processo. Então o meu papel ele é desconfortável para várias pessoas que estão acostumadas a não olhar para o humano, para esse lado todo mais subjetivo, mas por um lado ele é muito gostoso porque você poder ajudar essas pessoas e falar, então olha, agora não é assim mais que você vai desenvolver essa aplicação sem fazer uma pesquisa para entender quem vai usar, você precisa entender quem vai usar, porque se você não colher esse conhecimento, você vai fazer uma aplicação que vai ficar ruim e ninguém vai usar, então não faz sentido.

Luciano                   De lá, é do usuário é que vem…

Fernanda                E não é aquela coisa ah, porque minha tia outro dia me falou, tem o senso comum que é um grande vilão, o senso comum é um monstro do conhecimento, ah porque minha avó, não, porque minha mãe, não, não é sua vó, sua mãe, sua tia…

Luciano                   Os americanos chamam de horse sense, horse sense.

Fernanda                … então existe metodologia, existem formas de fazer isso, então trazer isso para dentro, mas eu vejo… eu não sei como seria atuar numa empresa, por exemplo, de varejo, não tive essa experiência, mas eu acho que estar numa empresa que trabalha com inovação em tecnologia e nesse momento que a gente está muito, a gente está bem nesse training point de ter que olhar para o que está na mão das pessoas, isso é muito transformacional…

Luciano                   A verdadeira revolução social que você sonhava lá com seus 17 anos de idade, que está fazendo acontecer é a tecnologia, eu costumo dizer para o pessoal, eu falo, o maior exemplo de distribuição de renda do Brasil acho que do mundo, aconteceu no dia que meu pedreiro comprou seu primeiro celular, quando meu pedreiro comprou um celular e aí eu descobri que quando eu precisava fazer uma obra em casa era só eu ligar no telefone e ele está trabalhando e toca o telefone e já é o João chamando ele para outra obra, isso é uma mudança cultural brutal e inclusive econômica, com alcance que… eu vi pouca gente falar a respeito disso ou estudar esse tema de como é que a tecnologia está provocando essa mudança social e aí você começa a falar sobre pô, tem que integrar mais gente, mais gente tem que ter acesso, todo mundo tem que ter acesso, cria-se agora uma nova minoria que é a minoria que não tem acesso à tecnologia, dos não digitais. Mas eu quero voltar num tema ali atrás que você falou que é muito caro para mim porque eu escrevo sobre isso há muito tempo, eu falo bastante nesse assunto, quando você falou da tua… de como é que você faz, eu tenho essa rebeldia e vou trombar num sistema onde tem um muro. Se eu vier correndo e trombar no muro é provável que eu me arrebente porque o muro é muito mais forte que eu, então não é inteligente eu chegar lá. Eu escrevi um texto há um tempo atrás que chamava-se “Água e Fogo”, era o nome dele, então eu dizia o seguinte, quando eu era moleque, meu, não gostou põe fogo cara, você é contra vai lá e põe fogo, bota no chão, bota fogo, incendeia essa merda, acabo com isso tudo e vou fazer de novo, depois que eu fiquei maduro. Eu falei, não é fogo, é água que chega devagarinho, ela não faz fumaça, não esquenta o ambiente, até o cara perceber que está acontecendo alguma coisa, está na bunda a água dele, já ganhou, então tenho que entrar dentro do sistema, fazer parte dele e a partir daí começar a provocar uma mudança. E o trabalho que eu venho fazendo sobre cultura brasileira é sempre assim, o cara, eu não quero que você tire o Gugu Liberato da televisão brasileira porque o programa dele é um horror, eu quero usá-lo para transferir através dele, porque se o cara está lá naquela posição e fazendo o que ele faz há tento tempo, algum valor ele tem, ele encontrou um caminho para falar com as pessoas, então através dele é que eu tenho que falar e não contra ele, e não bater nele, e a gente encontra hoje em dia muito, até na história do Brasil nesse momento aqui, nós estamos conversando hoje aqui, próximo de mais uma grande manifestação que vai ter dia 16 agora, hoje tem uma turma que está indo para a rua a fim de botar fogo e tem uma outra turma que você fala, calma, espera, vamos entrar dentro e vamos mudar o sistema por dentro, onde é que eu quero chegar, esse mundo aqui é tocado, isso são gerações que vão passando uma atrás da outra. Hoje em dia quem toma conta do Brasil e do resto do mundo é uma geração que tem 50, 60, 70 anos de idade, que vai morrendo e vai sendo substituída por uma geração nova. Ontem eu vi uma entrevista na televisão, Andrés Sanches, que é o cara do Corinthians lá, que é um, sei lá o que que ele é, é um ogro mas ele tem umas tiradas que são muito legais. A menina perguntou para ele o seguinte: vem cá, você acha que nós vamos conseguir dar um jeito no Brasil para nossos filhos? E ele falou, não, filhos você pode esquecer, está perdido, para os netos talvez, para nossos filhos não dá mais e ele ali estava reconhecendo que a geração que ele representa perdeu a chance de criar um país legal para os filhos, os filhos é que vão ter que arrumar e esses filhos têm 28 anos de idade, não tem 59, é a moçadinha que está chegando agora aqui. Você que está no meio do furacão, eu estou fora, eu já olho de fora hoje, olho de longe, posso meter a boca e falar a vontade, você está no meio do furacão, você está dentro de uma grande empresa, com alcance internacional, você está lidando com inovação, com coisas que mudam dentro do teu grupo deve ter mais um monte de Fernandas e Fernandos com 28 anos de idade e você também tem um rol de amigos que circula na sociedade como um todo aqui, como é que você enxerga isso, essa moçada que está vindo aí, ela vem com uma cabeça diferente, é só esperar sair essa velharada da frente que a coisa muda ou o buraco é mais embaixo?

Fernanda                Nossa Luciano, você me pegou porque eu tenho uma visão um pouco niilista talvez da minha geração também, não sei se é porque eu estou no meio do furacão, quando a gente vê as coisas de dentro a gente vê de outra forma, mas eu acho que se por um lado tem uma potência, porque tem essa… a gente tem essa formação transformacional e a gente foi uma geração criada por um pouco filhos da ditadura, então eu acho que isso deu uma liberdade, um senso de você tem que se dar ao respeito e lutar pelo que você quer e isso eu acho que é uma coisa muito da minha geração, por outro lado eu acho que essa liberdade ela traz um pouco do medo de assumir responsabilidade. Então eu  não sei te responder isso tão bem quanto eu gostaria, porque se por um lado eu vejo essa potência de transformação, por outro eu vejo uma marra porque eu acho que a minha geração tem medo de responsabilidade, são pessoas que tem medo de ir a fundo nas coisas e isso eu estou falando muito mais como pessoa do que como antropóloga, não é a minha, não é o que eu estudei, mas é o que eu vivo assim, então eu acho que assim, olhando isso como um desfio, não sei como que isso vai se resolver, mas eu olho para as gerações um pouco mais novas e vejo uma… eu acho que gerações um pouco mais novas que a minha já até, essa geração agora de 18, 20 anos está vindo uma galera bacana, um pessoal assim com uma cabeça muito mais aberta, muito mais tolerante,  uma visão super… bem melhor que a minha geração até sobre questões relacionadas à sexualidade, à igualdade, são pessoas… a coisa toda do orgânico, do meio ambiente, isso já está muito… para eles é muito mais… faz parte da formação deles, então eu talvez eu ainda acho que uma geração um pouco mais nova que a minha assim.

Luciano                   Que você está concordando com que o Andrés falou ontem, ele falou exatamente isso, falou meus filhos esqueça, o Brasil legal talvez os netos da gente consigam ter lá. Mas agora eu vou fazer um exercício com você aqui que é o seguinte: imagine que do outro lado aqui ouvindo a gente conversar, tem alguém que deve ter 26 anos de idade, 25, 27, está dentro de um ônibus, está indo trabalhar, um trânsito desgraçado, uma hora no ônibus, que saco, para um lugar que ele não é o lugar dos sonhos dele, não é onde ele queria estar, ele está vendo com problema, o chefe dele é um pentelho, os caras que estão em volta, cara, que saco meu, que vida, que horror, vamos conversar com esse cara?

Fernanda                Vamos. Vamos conversar.

Luciano                   Sabe por que eu te pergunto isso? Porque eu não vejo você nessa situação de jeito nenhum pela tua história, você não estaria nessa situação de jeito nenhum, a gente pode até discutir a parte tua que ah, mas que legal, nasceu numa família de classe média, tinha papai e mamãe, deram uma certa… você tinha um porto seguro ali, mas você  falou, cara, rompo com isso tudo e caio fora, você não vai viver dentro de um ônibus, durante uma hora e meia indo trabalhar num lugar que eu não gosto, você teria chutado o pau da barraca, acho que sim, conversa com esse cara que está nos ouvindo aqui. Ou com essa moça que está nos ouvindo aqui.

Fernanda                É, primeiro, primeira coisa que eu vou dizer para você, essa pessoa que está no busão, indo ou voltando de um trabalho osso, que você não gosta, é que a mente humana é muito inteligente, a gente esquece um pouco do sofrimento das coisas que foram muito difíceis, eu acho que isso assim, marca a gente, claro de uma forma que você nunca vai deixar de fazer parte da sua memória mas você consegue transformar isso numa coisa boa e eu tive momentos, é claro que eu não posso, eu fui muito privilegiada e eu tive muitas oportunidades… mas eu também tive momentos assim, de eu estar fazendo uma coisa completamente que eu achava que não era nobre o suficiente ou que não estava à minha altura e isso, sei lá, trabalhando de tanto nos perrengues de ter que pagar as contas morando fora ou mesmo aqui nesse começo de carreira aqui, eu tinha um trabalho que foi o primeiro trabalho que eu consegui, minha primeira oportunidade profissional no mundo corporativo mas não era o que eu queria e tinha muita frustração ali e uma das coisas que me ajudou muito a passar por isso, foi na verdade foram duas coisas, a primeira coisa era ter um ponto final, então eu nunca pensava naquela situação como algo…

Luciano                   Para o resto da vida.

Fernanda                … para o resto da vida e então era aceitar que aquilo era real, aquilo existia, aquilo estava na minha vida mas era temporário, mas ter um ponto final, falar eu só fico nessa situação até, no máximo, tal dia. Esse tal dia pode chegar e você pode revisar o seu prazo, mas você vai ter feito parte desse processo de planejamento da sua própria vida e a segunda…

Luciano                   Que é aquela história, … eu não sou assim, eu estou assim, entendeu, eu não sou esse merda cagão, cagado que está aqui, nesse momento eu estou cagado e se eu estou dizendo eu estou é uma situação da qual, talvez, eu consiga sair, não é porque eu nasci assim que eu vou morrer assim, segunda coisa.

Fernanda                … é… e a segunda coisa é que o próprio, a própria auto indignação com essa situação te mostra que de fato você pode mais, porque se não você não estaria indignado, você estaria ali achando que aquilo é o que você merece, então a sua própria indignação já é uma força e aí a segunda coisa que tem a ver com isso é que se você está numa situação merda, que você não gosta, você não tem muito a perder e ela é o seu melhor palco para o ensaio, para você ser aquilo que você quer ser, então usa essas situações merda para ensaiar, fala bom, já que eu estou aqui e eu não estou gostando, isso aqui é meio lixo mesmo e eu sei que é temporário, eu vou aproveitar para fazer, me tornar melhor versão que eu quero ser, então… é pensando até, uma atriz, um ator, esse profissional não pisa no palco para ensaiar uma peça ou a fala de um filme tinindo, aquela pessoa se expõe muito, leva muito esporro do diretor, faz muita besteira, tem um…provavelmente se machuca muito nesse processo de encarar o personagem e é só por causa desse ensaio repetitivo que ela consegue ter uma boa performance, ganhar um Oscar da vida. Então eu encarava esses momentos lixo como um ensaio e o bacana é que depois que você saí dele, isso obviamente te dá um orgulho enorme, você vai falando, putz, consegui mais essa. Isso te ajuda também a ter uma resiliência para a vida, porque a vida não é só o Oscar, você vai ter vários momentos de lixo na sua carreira, na sua vida pessoal várias vezes, não é como se agora eu trabalho na IBM, eu amo meu trabalho, eu amo meu ambiente de trabalho, mas tem dia que o dia é meio ruim, tem dia que as coisas não saem bem e essas experiências são boas para olhar para esses dias e falar, lembra de quando estava lixo e eu sabia que era temporário, eu encarei aquilo como ensaio, então esses foram os meus dois caminhos assim, eu… então para essa pessoa que está hoje meio desenxabida assim, meio frustrada, meio… às vezes até meio puta, eu poderia dar essa… transmitir essa minha experiência de ter vivido situações não tão desejadas desse jeito.

Luciano                   Você sabe que o LíderCast é… o assunto aqui é tratar de liderança e de empreendedorismo, quer dizer, na base dessa nossa conversa aqui, onde você conta a tua história, eu estou querendo fuçar aqui para ver qual foi o momento em que ela falou não, eu tomo conta disso, eu tomo conta disso e eu não deixo que a circunstância defina o que é que eu vou ser, eu quero ser a definição da circunstância e você vem parar, então, dentro de uma baita de uma empresa gigantesca onde é uma grande corporação, com milhares de pessoas trabalhando ali e eu quero colocar essa coisa do empreendedorismo, do fazer acontecer, quer dizer, você não está lá dentro para correr em cima de um trilho, fazer aquilo que está escrito naquele… não, você está lá para inventar coisas ser uma empreendedora dentro de um ambiente que na teoria não é um ambiente que gosta muito de gente que saí inventando moda né?…

Fernanda                De confusão.

Luciano                   … exatamente, o teu negócio é esse, criar confusão né? Eu entendo que para você estar lá e estar gostando tanto, a IBM deve gostar disso, ela deve gostar nessa área que você está atuando, de gente que cria confusão porque eu acho que ela enxergou que dali vão sair as ideias legais, mas como é que você vê essa coisa de você praticar o tal do empreendedorismo sendo funcionária, com um badzinho, com teu nomezinho ali tendo que cumprir o horário, etc e tal, dentro de um ambiente que de certa forma.. eu diria o seguinte: que a maioria absoluta das empresas é bem diferente daquela que você trabalha, tem ali aquela regrinha que você não pode fugir muito dela. Como é que você enxerga essa coisa do empreendedorismo num ambiente corporativo?

Fernanda                Dentro de uma empresa. Eu acho que primeiro não tem só uma forma de fazer confusão e não são todas as formas de fazer confusão que são bem vindas. Então acho que esse lado de eu gostar muito de diversidade de cultura, de viajar, me ensinou a me adaptar muito, então eu sou muito camaleoa assim e isso é uma coisa que me ajuda, eu acho, estar no ambiente corporativo porque eu consigo me adaptar sem deixar de saber quem eu sou, isso é muito importante porque no final das contas você vai para a casa no final do dia e se você não está sendo você mesmo, isso machuca, não é gostoso, vai amargando. Então eu acho que tem esse lado meu de ter essa percepção e essa experiência de me adaptar mas sem esquecer e sem perder o meu foco e saber quem que eu sou.

Luciano                   Você sabe que vai ter que fazer concessões e convive com isso…

Fernanda                É, e o outro lado é saber lidar com o risco, porque quando você trabalha numa empresa desse tamanho, não é como se você pudesse fazer um monte de besteira, você não pode, mas ao mesmo tempo você sabe que para você conseguir algumas coisas você vai ter que fazer uma besteirinha, ali de leve, só como um preço que você paga para conseguir o que você quer, então eu acho que essa visão do risco é super importante, porque risco sempre vai ter, então você tem que olhar, fazer o seu planejamento de risco e falar: quanto risco eu estou disposta a assumir, o que eu tenho a perder se eu fizer a opção A e não a opção B, então tem esses dois mecanismos. Mas aí tem um lado meu que é engraçado porque eu sou meio do contra, mas ao mesmo tempo eu gosto de estabilidade, eu acho que eu preciso do estável para ser do contra e minha história é assim: eu tive uma família que me deu um super suporte, meus pais são casados até hoje, se amam muito, então eu sempre tive uma base, eu acho que é por causa dessa base que eu consegui ser meio porra louca, então… e isso, esse foi o lado bom que eu consegui entender porque que eu queria ir para o mundo corporativo, porque não que isso vá durar para sempre, talvez quando eu tiver 40 anos ou antes ou depois, eu fale, bom, chega agora eu já sei quem eu sou, eu já consigo viver fora dessa esfera, mas para mim era muito bem vinda assim essa sensação de estabilidade em cima da qual eu pudesse fazer meus planejamentos de risco e as minhas confusões e brincar com a inovação e ajudar a empresa a olhar para outros lados, porque você arranja briga, as vezes as pessoas não vão com a sua cara, porque não é assim tão fácil e você é… eu sou total peixe fora d’água no laboratório, porque eu sou a única pessoa de humanas no laboratório inteiro, então eu trabalho com um monte de engenheiros, cientista da computação, matemático, então existe também esse preconceitozinho, exatas e humanas, mas você vai aprendendo a usar aquilo em seu favor e ler as pessoas, dialogar com elas e as vezes comprar briga, mas sabendo qual que é o preço que você vai pagar, sabendo avaliar risco, então eu acho que esse ambiente estável de uma corporação dá isso e tem uma coisa que eu gosto muito que é o poder da instituição que eu via quando eu estava de fora lá quando eu era… estava querendo escolher o que eu queria fazer, eu via o sistema como uma ameaça. Conforme eu fui vivendo eu também aprendi a ver o sistema como um apoio, acho que viver na Dinamarca me ajudou muito, porque é isso, você está o tempo todo amparado pelo sistema. Então eu lembro que teve uma vez que, foi assim, quando caiu minha ficha disso, eu estava perto do metrô e meu tênis estava desamarrado e aí chegou uma pessoa, muito educadamente, colocou a mão no meu ombro, eu olhei para trás, a pessoa olhou para mim e falou, boa tarde, eu falei boa tarde, ela olhou para o meu pé e apontou e falou, seu tênis está desamarrado, eu achei aquilo assim, eu quase chorei de emoção, falei mas gente, que país incrível, que o ser humano, o ser humano vai se dar ao trabalho de por a mão no meu ombro, não é que ele me cutucou, ele pôs a mão no meu ombro e falou que meu tênis estava desamarrado e eu agradeci, agachei, amarrei meu tênis e fiquei com aquilo pensando, fiquei uma semana pensando naquela cena até que eu fui começar a entender o que aquela cena significava…

Luciano                   Deixa eu ver… ele estava preocupado que você ia cair e machucar, e você ia ser uma despesa a mais que o estado ia ter que pagar por causa da sua falta de cuidado de não amarrar o tênis, se você não amarra o tênis você é um risco à sociedade…

Fernanda                E voilà…

Luciano                   … é isso?

Fernanda                É. E acontecia assim, você na Dinamarca, você não precisa usar capacete, mas se você não sinaliza que você está virando à direita, virando à esquerda, que você vai brecar, se você anda na contramão ou se você anda sem a sua luz sinalizadora a noite, você leva multa. Então se você está andando na Dinamarca de bicicleta e faz qualquer uma dessas besteiras contra as leis, as pessoas vão gritar com você e vão falar, você tem que por sua luz, mas você pode estar sem capacete, porque se você sofre um acidente e morre ou, sei lá, acontece alguma coisa, o problema é seu, ainda que isso também vá gerar um custo para o estado, mas enfim, é a sua liberdade como um cidadão que vive dentro de um… é o seu livre arbítrio, agora se você está fazendo coisas que podem causar um risco e um acidente para o coletivo, aí o problema já não é mais seu, o problema é meu e eu, como cidadão, tenho o direito de ir lá e me meter na sua vida e mandar você amarrar seu sapato, mandar você colocar luz na sua bicicleta, então eu falei, cara, isso é incrível, porque aqui não precisa de polícia, não tem polícia na rua quase, porque cada pessoa é o…

Luciano                   É o vigilante.

Fernanda                … exerce o poder que a gente outorgou ao estado quando a gente fez um contrato social, então o Leviatã aqui não é o estado, é todo mundo e então eu achei aquilo incrível e trabalhar numa empresa também significa isso, porque você vê a força de uma instituição, a IBM. Por exemplo, tem uma política super bacana e igualitária, em termos de gênero e em termos de sexualidade. Então na IBM se você é gay e sofre uma discriminação por um colega seu de trabalho você é obrigado, você fez um curso, você concordou com as regras da IBM que você é obrigado a escalar, então você é obrigado a falar para o seu gerente, por exemplo se o seu gerente ignora, você é obrigado a falar para o seu diretor e você vaí escalando isso até chegar na nossa CEO, nos EUA. Então o fato de você estar numa cultura assim, eu não vou ser Poliana, mentir para você e falar que as pessoas nunca vão fazer uma piada homofóbica, óbvio que elas fazem, porque elas são seres humanos, elas moram no Brasil e acontece, mas você tem a liberdade de poder transformar aquilo numa questão, então você tem o amparo de uma instituição para poder mudar aquela realidade e o fato de você, entre aspas, uma pessoa que poderia ser homofóbica se vê obrigada a trabalhar do lado de alguém que é gay, você está trazendo para aquela pessoa uma realidade quem sabe mudando a forma dela de ver aquilo e a hora que o filho dela for falar, mãe eu sou gay, ela vai saber que não é todo esse problema, primeiro porque ela tem  um colega que é gay e a pessoa é feliz e saudável e tudo bem, segundo que ela trabalha numa instituição que não discrimina, então a hora que ela… ela não vai mais poder falar para o filho dela, olha filho, eu sou contra você ser gay porque os gays são discriminados, porque na verdade é o preconceito dela. Então o poder da instituição, ele tem esses dois lados, então estar dentro e você aprender a dialogar com isso e usar esse poder transformacional ainda mais de empresas novadoras como a IBM. E isso para mim é uma coisa que me motiva, que me alegra, porque eu gosto desse desafio de poder fazer essa política do dia a dia, então eu não…

Luciano                   Legal. Muito bom, você abriu umas alas aí que se eu começar a falar aqui nós vamos embora até depois de amanhã, essa história toda da instituição, do estado etc e tal, isso é fascinante. Se alguém quiser falar com você e dizer assim, adorei sua entrevista, que legal, onde é que ela deixa uma mensagem? Facebook?

Fernanda                Facebook, pode ser, meu Facebook é Fernanda Antonioli, meu Instagram é Migrancias e o meu twitter também é @migrancias e também meu e-maíl, pode me mandar e-maíl que é: [email protected]

Luciano                   Legal. Gostou?

Fernanda                Adorei Luciano.

Luciano                   É bom né, papinho legal.

Fernanda                Gostei muito do papo.

Luciano                   Muito obrigado por você ter vindo aqui, quando a gente tiver a chance nós vamos falar um pouquinho mais. Eu quero explorar esse lado da antropóloga, mas numa outra oportunidade, está bom?

Fernanda                Qualquer parceria, bate papo, será bem vindo, adorei.

Luciano                   Beijo.

Fernanda                Beijo.