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Luciano Pires -

apoio dkt

Luciano               O LíderCast chega até você com o apoio do Linkedin, a solução que vem transformando a atração de talentos através das redes sociais profissionais. Bem vindo, bem vinda a mais um LíderCast. Hoje converso com Aquiles Priester, velho amigo e baterista das bandas Angra e Hangar e mais uma porção de músicos pelo mundo afora. Aquiles frequenta as listas dos melhores bateristas do Brasil e até do mundo há anos e tem uma história maravilhosa para contar. Mais um LíderCast. Eu tinha pretendido começar lendo um texto que eu publiquei no meu livro “Meu Everest” chamado “Sim ou Não”, mas o texto é comprido, eu falei pô, se eu ler o texto eu vou acabar contando a história inteira então eu vou deixar, fazer de outro jeito, eu vou fazer o estilo normal de apresentação com aquelas 3 perguntas que são as fundamentais para dar o ponta pé inicial aqui. Meu convidado está aqui ao meu lado, eu quero saber o seu nome, sua idade e o que é que você faz.

Aquiles               Meu nome é Aquiles Priester, sou baterista profissional há 15 anos e tenho 44 anos.

Luciano               Muito bem, baterista profissional, chamado Aquiles Priester e tem 44 anos. Eu conheci o Aquiles, quando foi hein cara?

Aquiles               A gente se conheceu na época que eu trabalhava na Dana e eu trabalhava no complexo industrial de Gravataí e eu fui fazer uma palestra sobre mercado para a nossa divisão e você estava lá para fazer uma palestra sobre o marketing da Dana e ai quando eu desci do palco assim, você falou assim, quem que é teu chefe? Ai eu falei meu chefe é o Ivan Bulcão, ai ele falou assim, e ai você falou assim, você quer trabalhar em São Paulo? Ai eu falei hã? Ai ele falou, ai você falou de novo, você sabe quem eu sou? Falei porra, claro que eu sei, você é o Luciano Pires, diretor de marketing da Dana e ai você sempre bombástico, você finalizou assim, cara, o que você faz essas pessoas aqui não entendem, aqui só tem engenheiro que só gosta de número, você tem que trabalhar em São Paulo, lá comigo. Você quer ir? E ai o resto foi história. Mas foi bem assim, emblemático, como tinha que ser.

Luciano               Eu já tinha sido avisado de que existia o Aquiles, estava lá o nosso amigo Hara, que me deu a dica, falou tem um carinha interessante lá na fábrica de elastômeros, a fábrica de componente de borracha, nem sei o que é que você fazia lá dentro, mas a gente estava procurando gente para o departamento de marketing aqui em São Paulo, a gente estava expandindo, era uma época de grande expansão na empresa, 1990 e?

Aquiles               9

Luciano               9, 99 e eu já sabia que você estava lá, mas não conhecia, a gente foi bater um papo lá, peguei e dei essa cutucada, quer vir para São Paulo e te botei numa fria, porque você, casado…

Aquiles               É, casado…

Luciano               … com uma gaúcha…

Aquiles               … com uma gaúcha, família toda lá…

Luciano               … uma filha lá…

Aquiles               … uma filha lá de um ano…

Luciano               … de um ano de idade, quer dizer, tocando a sua vida e de repente eu te abro a oportunidade de vir para São Paulo e você topou vir…

Aquiles               … topei.

Luciano               … mas deixa eu voltar um pouquinho antes, cara, você nasceu na África do Sul…

Aquiles               Exatamente.

Luciano               … que história é essa, cara? E me disseram que o teu pai está na letra de uma música do Adoniran Barbosa…

Aquiles               Adoniram Barbosa, exatamente, ele é o Mato Grosso, aquela parte lá da música que ele fala…

Luciano               Espera ai, não precisa falar, eu vou ouvir… esse é o Mato Grosso, que é o seu pai? Que história é essa cara?

Aquiles               Na verdade eu… quando apareceu isso, e isso tem uma passagem disso na minha biografia, eu até liguei para o meu pai para saber melhor dessa história tal toda e ele falou que isso tudo aconteceu antes do Adoniran ser o Adoniran, era uma época que era muito dura para eles a vida aqui em São Paulo, eles eram amigos de quarto assim, de miséria, entendeu? Então ai quando ele teve a chance de fazer a música, ele citou o meu pai porque meu pai era muito amigo dele, era o cara que estava ali no dia a dia, resolvendo as coisas, sobrevivendo e ai o meu pai me contou essa história e ai eu perguntei, você não teve mais contato com ele? Ele falou não, depois que ele ficou famoso eu até tentei falar com ele mas foi impossível chegar até ele, então ficou a história…

Luciano               Mas ficou o Mato Grosso registrado lá.

Aquiles               Ele é o Mato Grosso.

Luciano               Que legal. Como é que você foi nascer na África do Sul, cara?

Aquiles               Então, o meu pai, ele foi a trabalho, ele trabalhava com construtora civil e apareceu uma oportunidade e ele foi a trabalho lá para a África do Sul levando 3 filhos pequenos sem ter a menor ideia do que ia acontecer lá. Então, o meu pai sempre foi um cara assim que ele sempre preferiu a aventura, o incerto do que o certinho…

Luciano               Quer dizer, a loucura já tem… está no DNA.

Aquiles               … é, a loucura está no DNA e o pai dele já era assim também, e aí meu pai, ele foi para lá, eles ficaram 11 anos, ele cresceu muito lá empresa a ponto de ele sair com outro sócio e montarem a própria empreiteira deles…

Luciano               Lá?

Aquiles               … lá na África do Sul, então ele foi um dos caras que ganhou muito dinheiro lá na África. Só para vocês terem uma ideia, naquela época, quando a gente voltou para o Brasil em 77, ele comprou uma Mercedes que foram feitas 200 peças só no mundo inteiro e pagou todos os impostos daquela época no regime militar, para trazer o carro para o Brasil, então tipo assim, ele torrava dinheiro como se fosse água, entendeu?…

Luciano               E gastou tudo.

Aquiles               … e ai chegou aqui no Brasil, ele foi para Foz do Iguaçu para trabalhar na Itaipu e ai chegou lá e viu os encantos dos cassinos na Argentina, no Paraguai e ai o dinheiro voou né parceiro…

Luciano               Perdeu tudo.

Aquiles               … voou, voou…

Luciano               Cara…

Aquiles               … em questão de,  sei lá, dois anos a agente estava praticamente na miséria assim, morando numa situação de aluguel e ai a gente… todo mundo em casa teve que começar a trabalhar muito jovem, tipo eu, o primeiro emprego meu foi com 11 anos assim, catando coisa na rua, ferro velho, lata, porque uns amigos faziam e ai eu via que eles conseguiam fazer dinheiro, então comecei a fazer para poder ter o meu dinheiro, quando a minha mãe percebeu que aquilo ali dava dinheiro, ela não deixou eu mais parar, entendeu? Que ai ajudava em casa, tal, mas depois disso eu trabalhei com um monte de coisa, vendi picolé, vendi salgadinho que a minha mãe fazia, então era uma época dura assim…

Luciano               E a escola?

Aquiles               … a escola a gente ia bem só que na própria escola, naquela época assim, isso foi tipo quando eu tinha uns 11 anos, mas até os 14,15… aos 14, 15 anos a tua mentalidade começa a mudar um pouco, você começa a entender um pouco mais do que acontece com as outras famílias e o que acontece na sua família e eu não aceitava aquilo, de dizer pô, mas por que a família do cara é tão bem estruturada, eles tem uma casa legal e a gente não consegue ter isso e ao mesmo tempo você começa a se interessar em interagir mais com as pessoas e você não se sente à vontade por causa da tua situação, onde você mora tal, aquele negócio de ter vergonha das pessoas saberem onde você morava porque ninguém imaginava que o cara que… naquela época eu já jogava futebol e eu era de uma certa forma popular lá na escola, então ninguém imaginava a verdadeira história do Aquiles, aquele cara que, de uma certa forma, conduzia o time lá na escola, a gente foi campeão do Paraná lá, então tipo assim, tinha uma coisa em mim que era muito forte de não querer aceitar a situação em que eu estava naquela época, entendeu? Então aí eu comecei a encontrar forças para fazer as coisas completamente diferente dos exemplos que eu tinha, dos amigos que se perdiam em drogas, dos amigos que bebiam, eu nunca bebi até hoje, nunca fumei, nunca usei drogas, então eu posso falar que eu sou virgem em drogas, talvez tudo por causa dessa minha infância que me trazia coisas que eu não queria para mim.

Luciano               E tudo isso em Foz?

Aquiles               Tudo isso em Foz.

Luciano               Que legal. Legal. Vocês estão ouvindo eu conversar com o Aquiles, o Aquiles é um metaleiro, eu estou na frente dele aqui, o bicho está com uma… hoje ele não está com as pulseiras dele, mas ele está o cabelão está aqui, aquela história toda. Então, quando você ouve um metaleiro na tua frente, eu não bebo, eu não fumo, eu não usei droga e tudo, é meio nó, mas você que ouve o LíderCast já viu que isso aqui é característico nesse programa, eu trago uns malucos aqui, a hora que você cutuca o maluco, o maluco é pai de família, é boa gente, aliás que é o teu caso, está casado com a mesma mulher desde?

Aquiles               Desde 90… a gente se conheceu em 91, quando ela foi fazer um cartaz de um show para mim, a gente se casou em 97 e a gente tem dois filhos, a Juliana, de 16 anos e o Arthur de 7.

Luciano               Pois é e esse é um metaleiro tá? Aquele malucão, metaleiro em tudo mais, mas vamos explorar um pouquinho…

Aquiles               Cheio de tatuagem…

Luciano               … então, mas aí você, aquele moleque, o que de certa forma essa tua raiz já começa a explicar alguma coisa, quer dizer, esse inconformismo, essa vontade de fazer acontecer, essa ideia de você saber claramente o que é que você não quer ser e isso é fantástico, porque aquela história, se é difícil para mim tentar entender, pô, o que eu quero ser na vida é muito  fácil eu saber o que eu não quero ser e quando você começa a eliminar da tua frente as coisas que você não quer fazer, você começa a enquadrar já, opa, é por ali que eu quero ficar, então não vou me comportar como aquele sujeito, não vou beber como aquele outro, não vou entrar nesse caminho, isso começa a te abrir um caminho, e ai a tua família sai lá de Foz e ai?

Aquiles               Não, na verdade o negócio foi um pouco mais duro. Eu me lembro que por volta de 85, depois do Rock In Rio 1, eu vi o João Barone tocando bateria, vi ele tocando no Rock in Rio e aquilo ali para mim foi, tipo assim, falei nossa, isso parece ser legal, tocar bateria para esse monte de gente, tal, e aquilo ali, tipo no dia seguinte eu montei uma bateria de lata no fundo lá da minha casa, virei a televisão para fora e comecei a imitar e eu me lembro que os Paralamas tocaram dois dias  e ai eu… naquela época que eu não entendia nada de bateria eu fiquei comparando o João Barone tocando com os outros bateras, eu falei esse cara toca de um jeito diferente, ele tipo, quando ele toca as notas aparecem mais, a bateria dele é montada de um jeito bonito e aquilo ai me interessou…

Luciano               Quer dizer, você não tinha nada a ver com música…

Aquiles               … nada a ver com música…

Luciano               Nada, teu negócio era futebol.

Aquiles               … exatamente, mas ai visualmente eu vi aquilo ali, me interessou, então a bateria, eu montei a bateria no fundo de casa e ficava tocando em lata lá tal e ai quando pintou a chance, na escola, que era uma gincana de matemática que a gente tinha que escolher alguma coisa para fazer, uma apresentação no ginásio de Foz do Iguaçu, que seria inaugurado 3 meses depois, então… e ai eu falei, cara a gente deveria dublar uma banda e aí a gente pegou uma banda que estava estourada naquela época que era o Ultraje a Rigor e ai a gente começou a dublar, então a gente ficava assistindo todos os sábados o Cassino do Chacrinha para ver como é que eram os trejeitos dos caras enquanto eles estava na televisão tocando, para ver como é que eles faziam, como é que o Roger que era o cantor fazia, como é que o Leospa, que era o batera fazia, e a gente ficava imitando eles.

Luciano               Que idade você tinha?

Aquiles               Nessa época eu tinha 15 anos e aí eu me lembro que a gente começou a ser chamado para ir para as festinhas da escola se apresentar…

Luciano               Imitando, fazendo…

Aquiles               … imitando o Ultraje a Rigor

Luciano               … não era nem cover…

Aquiles               … não, não era nem cover, era imitando, tipo, a gente dublava eles, então eu tinha uma caixa, um timbau e um tambor ali que eu fazia as viradas em cima, nunca tinha tocado com o bumbo, nunca tinha visto uma bateria completa, como ela era. E ai eu sei que a gente, de uma certa forma, a gente já era meio popular, eu e a minha gangue, pelo futebol e eu juntei essas mesmas pessoas para fazer o Ultraje a Rigor júnior, que a gente chamou, então a gente era duplamente popular, especialmente com as meninas, que falavam assim pô, me dá um autógrafo aqui tal, então a gente tinha mais facilidade nessa aproximação com as meninas, isso gerou um ciúme total, porque a gente tinha o benefício de jogar futebol. Então a gente  podia viajar para os, dentro do estado, representando a escola e a gente era abonado nas faltas, tinha uma…. a gente podia fazer, ao invés de prova, os trabalhos e depois a gente ainda começou a se dar melhor com todas as meninas naquela época, então era um sonho aquilo, tipo assim, cara a minha vida não poderia ser melhor, ai o negócio cresceu… isso tudo antes de a gente se apresentar no ginásio lá, que era o motivo que a gente fez, então a gente começou a ir para outras escolas, que eles ficaram sabendo que tinha uma banda na Escola Castelo Branco em Foz do Iguaçu e a gente começou a ir em outras escolas ganhando cachê par ir se apresentar.

Luciano               E os instrumentos, o que que era?

Aquiles               Instrumento a gente fez guitarras de pau, a gente foi numa loja, olha a loucura, a gente foi numa loja, a gente pediu para o gerente lá da loja para colocar uma guitarra no chão, em cima de duas cartolinas para fazer o molde, ai a gente foi numa madeireira e pedimos para o cara serrar aquilo e a gente fez. E aí a gente era tão ignorante que as cordas eram com preguinhos e com linha de anzol assim, entendeu? Linha de pesca e ai a ignorância era tanta que as 3 guitarras tinham 5 cordas, o baixo naquela época, que era bem conhecido, tinha 4 e a guitarra tinha 6 naquela época era uma coisa, hoje em dia tem instrumentos tipo baixo de 6, de 8 cordas, guitarra de 7 e a gente, na ignorância para fazer uma coisa igual, a gente fez todas as guitarras, as 3 com 5, então era o incrível aquilo e ai a gente começou a tocar e apareceu um festival de música em Foz de Iguaçu, o Primeiro Festival de Música em Foz de Iguaçu que foi o FEICANDO e ai a gente foi lá se apresentar e a gente foi interpretar mesmo, tocar…

Luciano               Aha, já tocar?

Aquiles               … exatamente, só que o único que tocava, tocava, era o baterista, que mesmo eu, quando eu dublava eu tocava mesmo, entendeu? Só que eu tocava mais baixo pra ouvir o disco.

Luciano               Mas e você foi aprender no que? Isso foi no tapa.

Aquiles               Foi no tapa, mas assim, eu conseguia tocar com as mãos, eu só nunca tinha tocado com os pés, ai eu cheguei lá numa bateria completa e ai os meninos, o Silvio, o Valmir e o Cristian, eles iam cantar, eles não iriam tocar, a banda, tinha uma banda de apoio que iria tocar lá para as pessoas que iriam se apresentar e ai eu cheguei, os caras falaram, então vocês tem o batera e vocês querem que a gente toque baixo, guitarra e teclado, sim, exatamente, então tá. Ai eu sentei na batera, falei cara, primeira vez que eu vou tocar numa batera com bumbo, tal não sei o que, eu não sabia tocar, ai eu contei e comecei a música, já taquei no prato e comecei a tocar e ai 3, 4 5 compassos assim, os caras, pára, pára, páara, mas e o bumbo, você não vai tocar o bumbo? Eu falei, eu não posso tocar o bumbo porque eu nunca toquei o bumbo, ai os caras falaram assim, não, mas cara, o bumbo é fundamental para o baixo, para o groove da música, eu falei não, mas tudo bem, só que eu não toco bumbo, ai eles falaram, então você não pode tocar, falei não, eu posso tocar, porque a banda é minha, eu que montei a banda e eu vou tocar, isso ai, quanto a isso, não tem a menor dúvida e ai os caras falaram não, mas não dá para tocar… enfim, a gente brigou tanto, os caras da banda, ele é nosso batera, ele que vai tocar, a gente está acostumado com ele e tal, enfim, nós tiramos o segundo lugar num festival que tinha mais de 200 pessoas que participaram lá em 4 dias, era tipo 5 minutos para cada banda, a gente tirou o segundo lugar com um baterista que não tocou o bumbo, então a quebra de paradigma já começou assim até numa época que você nem sabia o que você estava fazendo, entendeu? Mas a vontade de fazer era tão grande que a gente fazia e ai depois disso, né cara, a gente foi chamado para TV Naipe, em Foz, que era filiada do SBT…

Luciano               Tocando Ultraje?

Aquiles               … dublando Ultraje, a gente nunca tocou, a única vez que a gente tocou mesmo foi nessa vez, e ai nessa vez, quando a gente foi na TV Naipe, uma banda de Foz, uma banda de baile viu a gente dublando e antes de acabar o programa os caras estavam lá e ai eles me chamaram, o nome da banda era Tropical Band, falaram cara, você vai ser o nosso batera novo, eu tinha 15 anos, eu estava no primeiro ano do segundo grau…

Luciano               Você não tinha tido aula de bateria?

Aquiles               … não, nada, zero, nada…

Luciano               Você aprendeu na porrada?

Aquiles               … exatamente, é assim e aí…

Luciano               Dá uma pausa aqui, deixa eu recorrer a um negócio aqui que eu estou, você esta contando para mim aqui, eu estou criando uma imagem cinematográfica, então vou descrever para você a imagem e você vai me dar a sensação, tá? Eu estou imaginando você chegando naquele lugar onde você foi e alguém te apresenta a bateria completa e entre você ver a bateria e caminhar até ela, eu estou vendo uma cena em câmera lenta, com a música de fundo, aquela fumaça, aquela iluminação, e você chegando na bateria para, pela primeira vez, sentar e tirar um som… Como é que foi isso, qual foi essa sensação, cara? Aquele é o momento da paixão definitiva? Como é que foi aquilo?

Aquiles               Cara, eu já tinha visto a bateria outras vezes de longe, mas nunca pessoalmente. Lá em Foz a gente ia nas lojas tal, mas aquela era uma batera real que estava afinada, com as peles certas, com os  pratos tal, aí a primeira coisa que eu sentei na batera, quando eu fui assim sentei  falei, cara, isso é um bumbo, ai eu fiquei tocando no pedal devagarzinho assim tal e eu me lembro que tinha uma música do Ultraje a Rigor que se chama Inútil que começava só com bumbo e caixa…

Luciano               Vamos ouvir. Legal.

Aquiles               … ta, então eu fiquei com esse negócio na minha cabeça, ta, tu,tu ta tutu, tuta e ai eu falei assim, deixa eu ver seu consigo tocar isso, só que isso era só caixa e bumbo, então eram duas coisas só, ai eu tentei tocar e saiu exatamente igualzinho e ai o Silvio, que é meu grande amigo assim, o cara que sempre foi meu parceiro assim de vida, ele falou cara, você tocou Inútil, puta que pariu, você tocou Inútil, então foi uma emoção muito grande estar ali e por isso que a gente bateu tão forte de não aceitar que os caras colocassem o batera deles tocando e ai para você ver, o guitarrista deles era um guitarrista muito bom, de Foz do Iguaçu que se chamava Dante…

Luciano               Esse da Tropical.

Aquiles               … não, esse cara que estava na banda de apoio do festival e aí, cara, em 2003, em 2004 quando foi a primeira vez que eu fui tocar com o Angra, no festival, esse Dante, ele foi lá no back stage e falou assim, fala para o Aquiles que eu quero falar com ele, fala que eu sou o Dante, o cara que não queria deixar ele tocar no Feicando, e ai o cara foi até mim, me deu um abraço e falou, cara, olha só o que a gente tem aqui em Foz hoje, você virou um dos maiores bateras do gênero no planeta e naquela época a gente não queria deixar você tocar…

Luciano               Que do caralho…

Aquiles               … então, são essas coisas que realmente valem a pena, entendeu? Nessa vida. O cara se colocar numa situação dessa onde ele deixa de lado todo o orgulho dele e reconhecer uma coisa, que falar assim, cara, naquela época a gente não sabia o que a gente estava fazendo mas eu fico feliz que você nunca desistiu, porque esse tipo de coisa é o tipo de coisa que faz você falar assim, pô, eu não sou para esse negócio, uma pessoa, na hora de você brilhar, uma pessoa vai fala não, espera ai, você não está pronto ainda, deixa uma outra pessoa…

Luciano               Isso te desestimula e tem gente que…

Aquiles               … que aceita…

Luciano               … que aceita, aceita.

Aquiles               … e nesse caso não, a gente batia forte nisso.

Luciano               Que legal. Mas então, ai de repente esse pessoal da Tropical te chama e deve… eu não sei, você tinha 15 anos de idade, eu não sei se com essa idade você já tem condições de imaginar o tamanho da responsabilidade que é, espera um pouquinho, mas eu até agora eu sou o… eu estou chutando isso aqui tudo. Como é que é isso?

Aquiles               Foi engraçado assim, porque eles apareceram lá e falaram assim, você vai ser o nosso batera, eu falei, mas você gostaram de me ver tocando? Porque eu não toquei, eu dublei, mas aí o pai deles, que eram dois meninos e o pai, o pai deles que era o batera, entendeu? E aí ele falou assim, cara, mas você tem estilo, a gente viu você tocando, a gente viu que você não estava tocando com o bumbo, com a batera, mas você tem jeito, então você só tem que… aparece lá no nosso bar hoje a noite, sete e meia que ai você… a gente vai tocar, você fica olhando, você fica ali, daqui a pouco você vai ser o batera da banda. Aí beleza, a gente chegou lá, eu fui, fomos eu e o Silvio e quando a gente chegou lá os caras estavam esperando a gente com mesa pronta para a gente jantar, numa época que a gente era tão duro, que as nossas mães falavam assim, cara, vê se você consegue estudar na casa de  algum amigo porque amanhã não vai ter nada para você comer em casa, a gente chegar numa mesa dessas, com um banquete, com refrigerante para a gente, bife, batata frita, meu, eu comi tanto naquela noite que eu falei assim, cara, eu não sei quando é que eu vou ter a chance de comer uma comida de qualidade, porque esse bar era o Beer Garden, que existe em Foz até hoje, era um lugar assim da elite, que a galera ia para gastar dinheiro e para curtir a noite e ai comemos, conversamos tal, não sei o que, ai os caras falaram e ai? E ai Menudo? Eles me chamavam de Menudo, por causa daquela onda lá do Menudo, e ai Menudo, vamos lá? Eu falei, ué, mas ir onde? Vamos tocar pô. Falei não, mas a gente não vai ensaiar, ele falou não, mas que ensaio? Você não toca esses negócios? Ultraje a Rigor, RPM,  Rádio Taxi Lobão? É isso que a gente vai tocar, vamos lá vai, aí beleza, aí sentei na batera, o mesmo esquema, não toquei com o bumbo, aí tocamos uma música, duas, tal aí o batera falou, tá, o pai deles, agora você senta aqui do lado e fica me olhando tocar, presta atenção, isso aqui é rock, ai ele tocava uma música, tal, tocava duas, tocava três, aí eu tentava e assim, como era meio de semana, acho que era tipo uma quinta feira, tinha pouca gente no bar, então eu comecei a aprender tocando na noite. Depois desse bar, a gente passou para um outro bar, que se chamava Speedway, que era na esquina da Juscelino Kubitchek, lá em Foz e aí cara, aí que eu realmente entendi o que era a noite, porque ali tinha um monte de mulher que circulava e as meninas achavam incrível, as mulheres, naquela época tinham uns 25, 26 anos, achavam incrível um moleque de 15 anos já na noite tocando e aí todo mundo queria me pegar porque eles sabiam que eu era virgem, então meu, era uma loucura, todas as noites era tipo fugindo daquele negócio de festa e aí foi incrível assim, que quando eu fiz 16 anos eu estava tocando já na banda e eu estudava de manhã, então a gente tocava até 1:30, 2:00 horas e em Foz do Iguaçu era tudo a pé, cara, não tinha carro, não tinha ônibus, a gente não tinha esse costume, de pegar ônibus, então era tudo a pé, então a gente saia andando por 35 minutos até chegar em casa, dormia, 6:30 acordava, 7:15 estava lá na escola para ter aula…

Luciano               Ganhava dinheiro?

Aquiles               … ganhava dinheiro e nessa época foi aí que eu comecei a me distanciar um pouco dos meus amigos porque, tipo, eu estava entrando numa vida profissional precoce, então eu ia dormir muito tarde, acordava muito cedo e na hora do recreio, na hora que a galera ia jogar futebol, basquete, vôlei, eu ficava dormindo na sala de aula para aguentar o tranco outra vez e à tarde tinha futebol e aí eu pude abandonar os outros trabalhos que eu tinha, porque eu estava trabalhando na noite já, entendeu?

Luciano               Mas já pintou para você uma perspectiva de que aquilo podia ser o seu ganha pão?

Aquiles               Não, já estava sendo, já estava sendo.

Luciano                    Mas você enxergava que pô, isso aqui é carreira? Vem carreira aqui?

Aquiles               Sim, claro porque dai a gente… porque era uma banda bem estruturada, com equipamento de PA, com iluminação, com ônibus próprio tudo, então o meu sonho era, tipo assim, entrar naquele ônibus e ir  para a próxima cidade, que eles faziam temporadas, eles estavam ali em Foz do Iguaçu mas depois eles iam para Apucarana, Umuarama, Cascavel, eles faziam tipo de 3 em 3 meses. E foi nessa época que, com 16 anos, eles foram até minha casa falar com a minha mãe, ó, a gente quer levar o Menudo embora com a gente para viajar pelo interior do Paraná. De tempos em tempos ele volta para cá, tal e nessa época meu pai já tinha, digamos assim, desaparecido de casa, chegou num ponto lá na nossa situação que o meu pai, ele foi trabalhar no norte, numa empresa chamada Mendes Júnior  e ai a gente meio que perdeu o contato, ele desapareceu, ele apareceu 7 anos depois, no casamento da minha irmã, em Porto Alegre, então a gente ficou sem pai, durante 7 ou 8 anos, ai a minha mãe falou assim…

Luciano               Sem pai, sem renda… sua mãe que se vire…

Aquiles               … sem renda, exatamente, e a minha mãe sempre foi dona de casa, aí que a gente teve que começar a trabalhar mais e a gente meio que perdeu esse negócio da adolescência e da infância, a gente tinha uma realidade muito mais dura do que os outros colegas lá da escola, que tinham uma família estruturada e que tinham negócios, sei lá. Eu sei que a minha mãe falou não, eu não posso deixar o Aquiles porque é o seguinte, ele está estudando ainda, ele tem um pai, que apesar de ele não estar aqui eu sei que quando ele voltar, se eu deixar o Aquiles ir vai ter um problema muito grande para a minha vida e eu não quero isso. Então naquela situação eu fiquei muito desgostoso, para não falar muito puto com a minha mãe, porque eu pensei assim, pô, você acabou com o meu sonho, pô meu sonho era fazer isso tal, hoje em dia, não hoje em dia, mas há muito tempo atrás assim, eu já até agradeci minha mãe por ela ter feito isso, porque possivelmente, se eu tivesse feito isso, eu ia ser um Aquiles Priester que ia ser músico mas de uma vida paralela, mais ou menos como aconteceu com os personagens daquele filme “De Volta para o Futuro”, que quando eles voltam no tempo eles voltam para uma outra dimensão porque tinha tido um acontecimento que mudou completamente a realidade deles e isso ai iria ter mudado a minha realidade, como músico eu seria…

Luciano               Talvez você fosse, talvez você não tivesse mergulhado no metal, talvez você fosse um baterista correto tocando a vida…

Aquiles               … exatamente e talvez eu não iria ter estudado tudo o que eu estudei, especialmente nos 6 anos que eu fiquei nadando ali, eu me aprimorei em diversos aspectos, como pessoa, como profissional, trabalhei com muita gente que me inspirava, então, participei de cursos que poucas pessoas no mundo têm chance, porque a empresa bancava e o conhecimento é muito difícil você falar isso para um cara que tem 15 anos e ele entender, mas o conhecimento é a única coisa que realmente vale a pena nesse mundo…

Luciano               Que vai fazer a diferença para valer…

Aquiles               … que vai fazer a diferença para valer e que ninguém vai te tirar isso, porque é uma coisa tua…

Luciano               … o dinheiro acaba, o dinheiro vai embora, o que o dinheiro compra…

Aquiles               … a mulher vai embora…

Luciano               …vai tudo, mas o conhecimento fica com você.

Aquiles               … o conhecimento fica, então…

Luciano               Mas, fala uma coisa, aí aquela grande brochada então, aos 16 anos, sua mãe fala não, você não vai, a banda vira as costas para você e vai embora e ai?

Aquiles               E ai a gente montou a primeira banda de rock nacional em Foz do Iguaçu, que foi “Estilo Livre”…

Luciano               Já não tinha mais nada a ver com o pessoal da Tropical?

Aquiles               Não, essa galera era tudo mais velha né, eles tinham já 25 anos enquanto eu tinha 15.

Luciano               Mas quando a sua mãe dá o não, eles vão embora e desistem do Menudo.

Aquiles               Eles vão embora, é, porque eles fizeram aquela temporada ali de quase 9 meses ali em Foz e depois acabou o trabalho ali, eles tinha que ir para um outro lugar, então era assim que funcionava, eles eram meio ciganos, e aí cada lugar que eles chegavam, eles alugavam uma casa, onde eles ficavam e naquela casa aconteciam as maiores orgias que você poderia imaginar e eu com 15 anos eu ficava espantado com aquilo porque não era exatamente aquela visão que eu tinha do que era a música, eu realmente fui muito ingênuo e eu queria viver de música e eu queria aprender, então as coisas que o Silva, que era o pai dos meninos me passava, eu ficava praticando numa borracha e foi ali que eu aprendi, que ele falou assim, não, a gente tem que fazer um pad para você praticar e hoje em dia existem pads de diversos materiais…

Luciano               O que é o pad?

Aquiles               … o pad é um lugar onde você pratica quando você está fora da bateria, mas naquela época que era esquema roots a gente pegou um pedaço de tábua, a gente pegou um pneu, cortamos um pedaço do pneu, pregamos ali e eu ficava tocando ali com duas vigas de construção civil, que ele falava assim, usa essas vigas que são mais pesadas, quando você pegar nas baquetas que são mais leves você vai tocar muito mais rápido, então naquela época, com 15 anos e é exatamente o mesmo conceito que a gente faz hoje, hoje quando eu pratico, eu pratico com baqueta mais pesada e quando eu vou tocar com a minha baqueta Signature, eu toco muito mais rápido, então naquela época o cara já me deu uma dica que foi valiosa, então tinha muito esse negócio da noite, do bar, de você estar tocando por motivos profissionais, mas tinha muito esse negócio de que a raiz da música estava ali, que é o que realmente todo músico quer fazer, ele quer viver da música e naquela época com 15 anos eu vivia da minha música limitada por estar em uma banda que me viu tocar e acreditou que eu ia ter a chance. Então eu devo muito a esses caras porque eles me pegaram e me colocaram num mercado para eu visualizar uma situação que acabou virando real depois de 25 anos, que foi na época que depois que eu saí da Dana que realmente eu entrei de cabeça nisso ai.

Luciano               Legal. E ai, a tua ida para o sul, para Portinho, chegada na Dana.

Aquiles               Então, foi assim. Eu me lembro que essa banda, a gente estava indo muito bem, era 87, a gente montou a banda e ai era a primeira banda de rock nacional em Foz, então eles, a Fundação Cultural colocava a gente em todos os eventos da prefeitura, a gente ia em rádio, a gente conseguiu ir para Cascavel num estúdio gravar a nossa música, tudo sem a gente saber como é que funcionava e a gente começou a gozar daquele feito de ser a primeira banda de rock de Foz do Iguaçu, isso ai está cravado lá na história e todo mundo sabe.

Luciano               Como chamava a banda

Aquiles               Estilo Livre. Tem até um trecho de uma música lá no meu site, era muito tosco, mas na época era bom e ai a gente começou a angariar muitos fãs, meus amigos do futebol, meus amigos da escola, todo mundo começou a curtir o Estilo livre e ai até que apareceu uma oportunidade da minha irmã, a Dalila, ela ir morar em Porto Alegre com o namorado dela, que depois acabou sendo meu chefe durante bastante tempo num escritório de exportação de madeira em Porto Alegre e ai num desses papos ele falou assim, pô, você que está interessado nesse negócio de música que Foz é meio pequeno, já que a Dalila está indo lá para o sul agora, Porto Alegre é uma capital, você pode entrar numa faculdade de música, por que você não pensa nisso? Ah pô, ia ser uma boa e naquela época estava uma cena de rock nacional fervilhando lá no sul que eles tinham recém lançado uma coletânea que se chamava Rock Grande do Sul, que tinha Engenheiros do Havaí, The Fala, Replicantes, Garotos da Rua e TNT, que foram bandas que, se não estouraram nacionalmente, no sul eles ficaram muito grandes e eu pensei assim, pô, eu acho que pode ser uma boa ideia e nesse meio tempo a gente decidiu ir embora para Porto Alegre, eu, o Hércules, que era o meu irmão menor e a minha mãe, para morar junto com a minha irmã. E aí cara, foi assim a pior fase da minha vida, que eu estava com 18 anos, tinha namorada em Foz já e tinha esse negócio da popularidade com os amigos da banda, então quando eu cheguei em Porto Alegre, eu nem consegui me matricular na escola naquele ano, procurei emprego para caramba, não consegui e ai eu tive que começar a trabalhar de supridor de supermercado naquela época, que era o que dava para fazer e aí o negócio da música parado e a banda de Foz pegou e arrumou um outro batera e eles foram para São Paulo. Então aquilo ali me quebrou e eu tentando tocar em outras bandas e nunca dava certo. Então os primeiros 8 meses em Porto Alegre cara, foram horríveis, deprimentes, porque pensa bem, um cara com 18 anos, que tinha uma vida incrível e que estava caminhando para dar certo lá em Foz, de repente e saio de lá por um impulso e estava perdendo, estava perdendo toda aquela sensação de estar vivendo. Então comecei a ficar triste para caramba e naquela época não é que nem hoje, que tem e-mail, que tem WhatsApp, que tem celular que você pode mandar mensagem lá, naquela época era por carta, então eu escrevia carta para os meus amigos para saber como é que estava e quando sobrava alguma grana eu ia até uma central telefônica para ligar para os caras, para pagar a ligação na hora, porque a gente não tinha telefone em casa, então foi muito foda para mim essa época assim de segurar aquela onda e me manter focado no meu objetivo. Só em 91, 3 anos depois… não, só em 90, dois anos depois que eu entrei na primeira banda e ai começou, tipo, show aqui, show ali, comecei a ser conhecido na cena pelo cara que ia em todos os shows que tinham de rock em Porto Alegre, eu era o cara que todo mundo me via mas ninguém sabia o que eu fazia e ai comecei a entrar em bandas aqui, bandas aqui e o problema que eu tinha é que a minha personalidade sempre era muito forte no conceito de querer fazer o negócio certo, então eu queria sempre ensaiar mais, eu queria fazer músicas melhores, eu queria gravar uma demo, eu queria mandar material para a gravadora, eu queria ir para São Paulo e na maioria das vezes os caras queriam se divertir com musica, não pô, vamos tomar umas, vamos curtir, vamos viajar no final de semana, depois a gente volta, depois a gente tem a nossa vida normal, eu tenho minha faculdade, eu tenho meu trabalho e eu queria colocar a minha vida focar a minha vida nisso, tanto é que várias vezes em Porto Alegre eu fui tentar fazer aula mas o salário que eu tinha lá no supermercado não era o suficiente para poder fazer aula, então foram várias coisas assim que eu tinha que suprir de uma outra forma, as necessidades que eu tinha, então entrei em banda, sai de banda, porque a gente nunca fechava o pensamento do que fazer para a gente crescer, então essa fase foi uma fase bastante ruim…

Luciano               E era sempre dupla, jornada dupla, você trabalhava num negócio tradicional e tocava…

Aquiles               … e tocava…

Luciano               … nas horas teoricamente vagas…

Aquiles               … e continuava estudando, então tipo, eu estava acabando o segundo grau, depois eu fiz cursinho, fui fazer faculdade porque assim, na minha cabeça, por mais que tivesse certo que de alguma forma eu iria ser músico em algum momento, eu tinha que ter um plano B, eu não podia apostar tudo naquilo. Exatamente isso que eu falo para todos os meus alunos e para todos os meus admiradores. Quando os caras chegam até mim num workshop e me falam, cara larguei tudo para ser músico, eu falo, então volta e pega tudo de volta, você tem que sempre ter um plano B, você não pode apostar tudo…

Luciano               Dá até um frio na barriga, com isso, o cara, larguei tudo e entrei de cabeça…

Aquiles               … exatamente, é, larguei tudo… é, porque, cara, é muito difícil, é um… e no meu caso, tipo hoje em dia eu tenho uma carreira sólida, internacional, eu sou um dos bateras brasileiros que mais trouxe reconhecimento para a bateria do Brasil no mundo inteiro, teve tipo, naquela  época que eu comecei a trabalhar na Dana, que foi de 95 a 97, começo de 98 que eu larguei a bateria, o meu foco era outro.

Luciano               Então, então ai mas você chega… eu imagino que chegou num momento em que você falou bom, negócio da música não sei se vai dar, não deu, eu vou ter que arrumar agora um emprego para valer e de repente você chega na Dana que é uma multinacional, não é uma empresinha. Como é que você chega lá?

Aquiles               Foi assim, eu me lembro que com 24 anos, depois de eu ter estudado dois anos de bateria, eu fiquei de 92 a 94, eu trabalhei como office boy, com o meu cunhado, então era o emprego perfeito, porque por ser da família, eu tinha algumas regalias que eu não teria em um outro emprego. Eu me lembro que fazendo aula com o Kiko Freitas, ele era muito exigente e eu tinha praticamente o dia inteiro para praticar dentro do meu escritório, então eu tinha um pad de borracha, o meu metrônomo e todas as coisas que eu tinha que fazer com banco e resolver telefone eu fazia do meio dia às duas, almoçava e ia para a casa, voltava e das duas às seis, praticava outra vez.

Luciano               Ficava num cantinho…

Aquiles               Exatamente e o meu cunhado, ele viajava muito, então praticamente eu estava sempre sozinho e isso me beneficiava com pedal duplo, eu colocava o pedal duplo encostado na parede e ficava batucando ali, praticamente o dia inteiro, então eram 8 horas de prática todos os dias, aí eu votava para a casa, das 7:00, 7:30 até as 11:30 praticando dentro do meu quarto. Todos os meus amigos que moravam ali perto, os caras já ouviam, pô, o Aquiles está em casa, vamos lá. Aí eles iam e falavam cara, vamos jogar bola, vamos no shopping, vamos fazer isso…

Luciano               então, mas essa prática no quarto não era numa bateria, era sempre no padzinho…

Aquiles               … sempre no padzinho…

Luciano               … sempre padzinho.

Aquiles               … para não fazer barulho porque nessa época a gente morava em um apartamento e todos os meus amigos sempre falavam meu, vamos lá para a festa, vamos isso e a galera já começava, já estava começando a beber, a usar drogas tal e eu fazia aquilo, era por mim e eu queria, eu nunca imaginei que o Aquiles Priester poderia ser esse Aquiles Priester que ele é hoje, eu desejava aquilo mas eu não tinha nem ideia de como fazer aquilo, mas assim, eu sabia que a primeira coisa que eu tinha que fazer, eu tinha que ser um bom músico…

Luciano               Sim, tinha que ser bom…

Aquiles               … eu tive um bom professor, o Kiko Freitas era um cara que me puxava muito e mesmo naquela época que eu sempre fui um cara mais voltado para o rock, quando eu cheguei até o Kiko Freitas que é um cara que, tipo sabe muito, hoje ele toca com o João Bosco, então é música brasileira, é jazz, é fusion, eu cheguei para o Kiko e falei para ele assim, cara, o que eu quero de você, eu quero absorver o teu conhecimento, a tua sofisticação para tocar isso no metal, ai ele falou assim, eu não tenho a menor ideia de como você vai fazer isso, mas eu gostei da tua astúcia, dessa tua vontade de fazer uma coisa nova, então na minha cabeça eu encontrei uma forma de falar assim: não, eu quero tocar metal que metal sempre foi uma coisa especialmente nos anos 70, 80, era uma coisa mais tosca, era coisa de na raça, diferente dos bateras de metal que existem hoje, que são pessoas que estudaram e que tem técnica e ai eu coloquei isso na minha cabeça e comecei a fazer isso…

Luciano               Como é que o metal pintou na tua vida?

Aquiles               O metal pintou na minha vida em 86, nessa época eu estava ouvindo muito rock nacional e ai eu ouvi uma música na rádio do Iron Maden e ai eu pirei naquele som, falei nossa, isso aqui é muito bom, ai liguei na rádio…

Luciano               Você lembra o que era, que música era?

Aquiles               … sim, o nome da música era Caught Somewhere in Time do disco Somewhere In time, que foi lançado, acabou de fazer 29 anos, foi lançado no dia 29 de setembro de 1986.

(https://www.youtube.com/watch?v=QkUVto9fOpo )

Luciano               Escuta ela ai… Legal.

Aquiles               … então quando eu ouvi essa música, pirou assim a minha cabeça e foi a partir de 86 a 91 eu só ouvi Iron Maden, eu me recusava a ouvir qualquer outra banda, juro, era muito metódico e a partir de 92 que eu comecei a ouvir outras coisas…

Luciano               Então, mas o que pega, cara, porque, cá entre nós, você não conseguia entender as letras, a coisa era absolutamente melódica, aquilo é energia, ritmo, a batida, o que era? E falar em melodia com metal cara…

Aquiles               Então, naquela época eu nem sabia como traduzir isso, como chegar nessas palavras para dizer o que me marcou, mas eu não sei, era uma coisa de uma energia que foi ali que eu falei assim, é isso que eu quero fazer, eu quero ser um batera de metal, quero ser um batera de metal, eu quero viajar o mundo inteiro que nem esses… que nem… esses caras, tem milhares de fãs e tocar numa banda de metal, só que isso só foi acontecer, a primeira banda de metal que eu tive foi em 92, a Spartacus, mas não era um banda muito no estilo do Iron Maden porque era em português, então já limitava o esquema do território, então a primeira banda de metal que eu tive mesmo foi em 97, no final de 97, quando estava indo tudo muito bem na minha carreira lá na Dana, eu falei assim, agora eu já dei entrada no meu apartamento, já dei entrada no meu carro, já estou com carro, só está me faltando uma coisa que eu nunca tive nessa vida, que é a minha banda de metal. Foi ai que eu montei o Hangar, mas antes disso, até eu chegar na Dana, foi assim, depois de todo esse empenho que eu tive, os meus amigos sempre me dizendo meu, você está muito longe de tudo, você nem tem banda, você não vai dar em nada, pô, vamos lá se divertir com a gente e tal, eu mantive o meu foco naquilo que eu acreditava e ai, com 24 anos, depois de ter estudado tanto bateria, eu estudei tanto bateria nessa época que eu estava trabalhando que eu meio que fiquei fora do mercado, ai quando eu perdi esse meu emprego de office boy eu falei bom, agora eu só posso trabalhar com música, eu vou dar aula e vou tocar em bandas e ai eu comecei a tocar em bandas de cover, só que o seguinte, eu queria mostrar o conhecimento que eu tinha, então tipo, eu queria colocar técnicas muito avançadas para tocar música dos Paralamas, do Cidade Negra, dessas coisas que você toca em bar para as pessoas dançarem e eu fui passando em todas as bandas até ser eliminado de todas porque eu não tinha o perfil, eu tocava com dois  bumbos, era uma loucura, hoje em dia, vendo aquelas fitas daquele época eu vejo como eu estava louco, mas dentro da minha loucura, eu achava que eu estava fazendo certo…

Luciano               Você estava além, você estava além…

Aquiles               … exatamente…

Luciano               … você estava over né?

Aquiles               … é, daquilo, ai eu falei assim bom, estou com 24 anos, estou cansado de, antes de entrar no ônibus, olhar qual é o cobrador que está ali para ver se não era o cara que estava ontem quando eu pulei por trás porque eu não tinha dinheiro para passar, falei: chega para mim. Então com 24 anos, depois de ter estudado batera durante dois anos como a coisa principal, eu estudava realmente perto de 11 horas de bateria por dia, durante 2 anos, você vira um monstro, não tem como você não virar um monstro e aí eu falei, não quero mais e aí a Patrícia, a minha esposa, ela conheceu a filha do então presidente da Dana da América do Sul, o nome dela era Angélica e ela era filha do Hugo e aí ela falou, mas eu tenho um premo meu que ele é muito legal e ele é meio louco assim, meio irreverente, pode ser que ele goste do teu namorado O nome desse cara é Ivan Bulcão, e ai ela me conseguiu uma entrevista lá com ele e eu fui para lá e eu cheguei com cabelo comprido, peguei uma camisa de um amigo emprestada para causar uma impressão melhor e fui para lá e aí ele sentou lá, depois de tipo, cara, não estou brincando, eu tentei marcar essa entrevista com o Ivan quase 3 meses cara, porque ele estava sempre viajando, sempre fora tal, eu tinha ficado até íntimo já da secretária dele de tanto que eu ligava, aí até que eu venci ele pelo cansaço, porque assim, ele… eu não tinha qualificação, com 24 anos eu não tinha faculdade, eu não tinha nada, tinha somente o segundo grau e ai de tanto persistir até que um dia ele me atendeu e falou, cara, vem pra cá vai, vem para cá e era longe pra caralho, distrito industrial, não tinha nem como chegar lá sem ter carro, tive que arrumar um carro emprestado para ir até lá, aí cheguei até lá, conheci o cara assim na hora que eu vi ele, eu já gostei dele e eu vi que foi tipo assim, ele também gostou porque eu cheguei para ele falei, a primeira coisa que eu falei para ele, que até hoje eu me orgulho muito, muito prazer, tal não sei o que, ele… e ai eu entreguei o currículo falei cara, aqui não tem nada, tipo assim, eu praticamente o que eu tenho hoje era como se eu tivesse 18 anos, então eu tenho 6 anos que estão meio que perdidos ai no espaço, mas eu só quero te falar uma coisa cara, se você me der uma chance aqui nessa empresa pelo que eu vi, eu vou te provar que você escolheu a pessoa certa e eu vou muito além do que qualquer coisa que você possa imaginar e aí ele me olhou assim na primeira fala assim falou assim, é Aquiles o teu nome né? Falou olha Aquiles, eu estou nessa empresa já faz um bom tempo mas eu nunca, numa entrevista de emprego, eu nunca vi um cara ser tão incisivo numa coisa como você, então eu vou apostar para ver o que acontece. Então ele me marcou uma entrevista psicológica, um teste para ver qual que era o meu perfil, tal, e ai eu fui com essa mulher, fiz o teste e aí levou mais uns dois meses até ele pegar o negócio, olhar e falar, ok, vamos chamar esse cara.

Luciano               Só para situar a moçada aqui, nessa época a Dana era uma empresa com 5000 funcionários, com linhas de produtos mais diversos, era uma multinacional de origem norte americana que estava num momento de expansão gigantesca, estava crescendo muito no Brasil, junto com a indústria automobilística, abertura de mercado, era um momento de… ela estava quase no auge da empresa no Brasil, é quando você entra então num ambiente corporativo onde os chefes tem gravatinha, onde todo mundo trabalha de uniforme porque é uma baita fábrica onde tem segurança na entrada, na saída, tem o refeitório, tem tudo diferente do que aquilo que você tinha experimentado até então, né?

Aquiles               Exatamente.

Luciano               E você, a primeira coisa tem que cortar o cabelo…

Aquiles               Não, então, isso eu até perguntei para ele, você quer que eu corte o cabelo? Ele falou não, não tem problema, pode ficar assim…

Luciano               Esse era o Ivan…

Aquiles               … você pode ficar assim, aí eu fiz essa entrevista e demorou muito tempo, eu sei que cada vez que eu tinha que voltar lá na Dana, eu pegava o jornalzinho, o Pinhão, que depois eu acabei participando muito dele e eu me lembro que eu lia a histórias de pessoas que tinham entrado como office boy, que eram diretores, gerentes, eu falava… e ai especialmente as revistas que vinham de fora, que tinham os dirigentes que moravam nos EUA mostrando a casa, falei cara, é isso que eu quero agora, bateria eu não quero mais, eu quero isso aqui, vou entrar de cabeça nisso aqui e eu vou fazer a minha vida aqui como essas pessoas fizeram e aí, quando… eu me lembro que o texto psicológico foi muito bom, foi muito bom tanto é que a mulher, ela também, ela foi incrível que ela botou isso, a Elisângela, que é secretária do Ivan me contou depois, o negócio ficou durante uns 3 meses em cima da mesa do Ivan com envelope fechado e aí quando ele abriu o negócio, quando a Elisângela abriu, tinha um post it falando assim, não sei onde você vai encaixar esse menino, não, não sei onde que você vai encaixar esse jovem, mas empregue ele, foi isso que ela falou para o cara. E aí demorou… eu eu sempre ligando, pô Ivan, Ivan está viajando… e foi esse dia que o Ivan falou assim, Elisângela, cadê esse… o teste desse menino, porque esse menino ele é muito insistente, eu estou impressionado, nunca vi nada assim, chega a ser uma coisa assim de obsessão e aí ele pegou o negócio, analisou e aí na próxima vez que eu liguei a Elisângela falou, ele quer que você venha para cá no dia tal, você pode vim que você já vai fazer o exame médico, você já vai começar a trabalhar, cara, aquilo ali para mim foi um sonho, eu não sabia onde eu ia trabalhar, muito menos ele e aí que quando eu cheguei lá, eu pensei assim, bom, vão me botar no escritório, porque pô, o Ivan que está me dando essa oportunidade, quando eu cheguei lá, me deram o uniforme, jaleco, botina eu falei, puta, eu vou para a fábrica, puta que bosta, ai quando eu cheguei lá eu fui apresentado para o Paulo Rocha que era o meu chefe imediato, ele falou assim cara, você vai trabalhar no SOPE, o que é o SOPE , o sopé é solução de problemas em equipe, você vai ser o cara que vai motivar as pessoas a trabalhar, tipo dando ideias para melhorar o processo de fabricação deles, tudo o que você puder, aí cada vez que esse cara der uma ideia e isso reverter em ganho para a empresa, ele também ganha, então isso é uma forma de você motivar as pessoas e eu não tinha a menor ideia do que era isso. Eu sabia que tinha um arquivo lá dentro da divisão, sobre um monte de coisas que tinham sido feitas nessa época que eu não estava lá e com. Comecei a ler, comecei… ai foi um mês, dois meses, três meses, eu não fiquei satisfeito com o que estava acontecendo no SOPE, tinha eu e mais o Milton, que era um cara que estava meio que encostado lá porque ele tinha machucado a mão, eu sei que o SOPE era basicamente a divisão dentro da divisão onde ficavam os caras assim que a gente não sabe o que fazer com esses caras, ah, põe lá no SOPE, lá ele não vai incomodar tal. Só que eles botaram a pessoa errada lá no SOPE, um cara louco para fazer coisas e eu comecei nos arquivos, comecei a olhar e eu vi que tinha tido há muito tempo atrás lá em Gravataí o dia da ideia, ai comecei a ler como é que era. Num dos dias que o Ivan apareceu, eu falei cara, preciso falar contigo quando você puder hoje, você pode falar? Você me avisa tal, logicamente que ele não pode me avisar, ele devia ter um monte de coisa para fazer, três tentativas, na terceira ele me recebeu, ai eu falei, ó, encontrei esses negócios do dia da ideia aqui, eu tive uma ideia, não sei o que você acha, sei que é uma empresa que a gente trabalha com produtividade, que tem que atingir meta e tal, mas eu acho que isso aqui vai ser uma forma de motivar o cara porque a gente pode fazer esse dia da ideia. Aí eu falei para ele, a gente para cada turno por 45 minutos no final do turno, faz tipo um coquetel com refrigerante, café, bolachinha, uma coisa que eles não tem geralmente aqui na empresa, põe 3 ou 4 serralheiros e fala para os caras assim, agora vocês tem 45 minutos para dar a tua ideia, pegar o serralheiro e implantar ela, quando elas tiverem implantadas você vem, coloca nessa urna e a gente tira daquela urna e faz sorteio com coisas para a casa dele, ai ele falou assim, tá, mas porque para a casa dele, não, porque dai ele leva para a casa dele e motiva a família dele, que ganha jogo de prato, que ganha jogo de faca, coisa simples assim, mas coisas que nunca tinha sido feito. Aí ele falou assim, cara, você é um puta de um louco mesmo, mas cara eu acho que pode ser que dê certo, ai na mesma hora ele chamou todos os chefes de produção e falou ó, seguinte: a gente vai marcar um dia da ideia aqui e nós vamos parar a empresa por 45 minutos em cada turno nesse dia e vamos ver o que vai acontecer. Meu, os caras queriam me matar, como que você… meu, mas não pode e se der errado, não sei o que, aí o Ivan, como sempre foi um cara assim que preferia tentar antes de se acomodar, ele falou bem assim, a gente só vai saber se a gente tentar, então é o seguinte, eu não quero resistência, o Aquiles que é o cara que está fazendo isso, ele vai ter que fazer treinamento de 15 minutos antes com o cada turno para explicar como é que funciona tal, então no começo estava todo mundo com o pé atrás, até os próprios funcionários, o que eles gostavam é que era 15 minutos que eles não iam fazer nada, então eles entravam lá numa sala, a gente batia um papo, eu expliquei, cara, no primeiro dia da ideia, a gente divulgou todo o esquema em um mural, então os nossos murais da divisão de elastômeros, eram uns murais que eram atualizados semanalmente com coisas novas, então começou a chamar a atenção dentro da divisão de Gravataí e ai eu me lembro assim que eles perceberam que estava tendo uma movimentação diferente ali dentro, eu sei que no primeiro dia da ideia, depois que a gente divulgou os prêmios que as pessoas podiam… eu me lembro que a gente ia todos os meses a um supermercado, comprava as coisas e deixava na entrada da divisão para a galera ver, olha o que você pode ganhar se você der ideia, cara, o programa de ideias da  nossa divisão disparou assim, era uma média de tipo assim, de ideias implantadas, a média era de 11,3; 11,4 e aquilo ali fez praticamente a Dana Gravataí abrir o olho para o que estava acontecendo e eu me lembro que esse primeiro dia da ideia foi um sucesso, tanto é que Pinhão foi lá, bateu foto, a gente foi foto de capa, a divisão de elastômeros sempre foi o patinho feio junto com a forjaria, ninguém dava bola, cara, depois disso deu um negócio e . Eu sempre fui um cara muito bom em registro, em tipo assim, até hoje a minha carreira toda eu tenho isso registrado, então, tenho várias pastas com recortes, com tudo. Eu comecei a fazer a mesma coisa com o que estava acontecendo dentro da elastômeros, mostrando os gráficos, então o funcionário, ele se via envolvido com aquilo porque ele estava vendo assim, eu estou fazendo parte disso e ai uma outra parte que foi legal disso foi quando eu comecei a fazer pesquisa de mercado e levar grupo de funcionário para visitar auto peça por conta minha, para o cara entender a importância que ele tinha dentro daquele processo e ele se sentia orgulhoso daquilo, tipo assim:cara, agora eu entendi o que eu faço, porque eu não tinha a menor.. para mim eu só botava o negócio ali dentro e isso ia para o mercado, agora quando eu fui lá no aplicador e ele me disse porque que ele gosta da Dana, porque tem explicação aqui, porque a embalagem é assim, você voltava com uma outra mentalidade. Isso foi contagiando a fábrica inteira, até que teve um dia que eu peguei esses registros e fui mostrar lá para o Ivan, falei, olha só isso aqui,, ele  falou, cara, você fez tudo isso, puta que pariu, deixa aqui comigo e ai eu sei que ele ia ter uma reunião com todos os gerentes das plantas de Gravataí e Porto Alegre, com o Ruperto Gimenez, que era o vice presidente, ai beleza, ele levou os livros lá, fez a apresentação dele e mostrou o que estava acontecendo dentro da divisão de elastômeros, ai tipo 3 dias depois ele voltou e ele pediu para a Elisangela e falou, ó o Ivan ele quer falar com você, dai bom, fodeu né, fiz alguma merda, porque assim ele nunca chamava você, então quando chamava é porque tinha alguma merda. Mas, ele soube  preparar bem, ele falou assim, entra ai, fecha a porta, pô, fechou a porta, falei pô, agora fodeu, eu estava já preocupado, falei pô, mas eu dei entrada no apartamento, estava contando com essa grana tal não sei o que, falei bom, agora vou ser mandado embora, fiz alguma merda, ai ele falou assim, você sabe o que você fez? Eu não conseguia esboçar reação, falei cara, não tenho a menor ideia mas deve ser muito grave, ele falou, você tem ideia do que você fez cara? O Ruperto, que é o presidente, que é o vice presidente da Dana me elogiou na frente de todos os gerentes cara, aqueles caras que a gente está sempre brigando por meta tal não sei o que, foi a primeira vez, eu acho que naquela época ele estava há quase 6 anos lá, ele falou, foi a primeira vez que eu fui elogiado dentro de uma sala de reunião com todos os gerentes de todas as plantas, cara, você não tem ideia do que isso significou para mim e foi tudo… você está aqui há 6 meses, você fez essa revolução fudida, olha o que você está fazendo. Ele falou assim, quanto é que você ganha, isso nunca mais eu vou esquecer, R$ 382,50, isso é um absurdo, você está fazendo uma revolução aqui, você ganha menos do que operador de máquina, isso não pode, ai ele chamou o Fernando Boer que era o gerente da divisão e chamou o Paulo Cesar que era o gerente de RH e eu ali na sala, tipo, ansioso para saber o que estava acontecendo, meu, esse moleque aqui está fazendo isso, está fazendo aquilo, tal não sei o que, eu não sei como é que vocês vão fazer mas cara, em 6 meses eu quero esse cara ganhando R$ 1500,00 meu Deus, eu pensei, pô de 380 para 1500 era um… era… ai o Paulo falou: Ivan, você sabe que a gente tem regras aqui dentro, a gente não pode fazer isso, a gente vai dar… você sabe bem disso, ai eu sei que o Ivan falou assim, ta bom, a gente tem regras, mas se ele estivesse seguindo as regras isso não estaria acontecendo. A elastômeros hoje é bate Market para todas as divisões e todo mundo quer ter um Aquiles dentro da sua divisão por causa das coisas que ele fez e ninguém falou para ele fazer, ele foi fazer, ele falou, eu  não quero saber, daquele jeito que o Ivan fazia, eu quero ele daqui a 6 meses, vocês façam a progressão, eu quero a progressão no meu e-mail com cópia para ele de tudo que ele vai receber nos próximos 6 meses, cara, ali minha vida mudou, ali minha vida mudou e  a partir dali, cada vez mais eu tinha mais autonomia dentro da empresa, ou seja, tinha aquele negócio de passar o cartão, mas como eu estava muito fora do mercado fazendo coisas então e nas apresentações que era uma vez por mês, cada vez eu trazia mais coisas e foi numa dessas vezes que ai eu conheci você…

Luciano               Voltamos ao começo…

Aquiles               Exatamente…

Luciano               … da entrevista.

Aquiles               … foi ali que eu vi você e eu me lembro que foi surreal isso ai cara, porque assim, tinham pessoas que estavam ali na Dana, cara, há tipo 15, 20 anos, desempenhando muito bem aquela função, mas eles não viam uma outra forma de fazer as coisas e ai os caras começaram a ver que eu estava começando a viajar para São Paulo para fazer pesquisa de mercado, para participar de reunião com distribuidor, para saber onde é que a gente podia melhorar, então eu estava meio indo muito além do que eu poderia. Foi aí que me botaram na engenharia, para fazer esse trabalho com mercado de reposição, e aí foi uma loucura, não parou mais, tinha um monte de coisas que eram, eu sempre fui muito bom em registro, em mostrar como está dando resultado aquilo, eu me lembro que tinham um monte de coisas que a gente fazia para a montadora que não tinha uma pessoa para desenvolver aquele produto para o mercado de reposição e a gente perdia venda, cara, em um ano, em um ano eu botei mais de 60 produtos no mercado de reposição e aquilo ali, tipo, deu um ganho de quase 980 mil dólares a mais que não estava previsto. Naquelas reuniões que eles faziam e eu ia até o contador e pegava todas essas vendas para poder montar as minhas apresentações, então quando eu ia apresentar eram coisas que nem o próprio Ivan, nem o Fernando e nem o Rocha, ninguém sabia que estava acontecendo e o impacto, eles sabiam que o número estava um pouquinho além daquilo e foi ai que numa dessas apresentações que eu expliquei olha, isso aqui não estava no mercado, agora está, expliquei as visitas que eu fazia com os funcionários para motivar eles a entender a importância deles no processo e fora isso eu comecei a dar treinamento em todas as divisões, do Brasil, da Dana, sobre esse negócio do programa de ideias.

Luciano               Aí eu vou lá, te faço uma provocação e como é que é? Você chegou em casa, chegou para a patroa e falou, senta ai, que eu vou te falar que está acontecendo uma coisa ai, como é que foi?

Aquiles               Cara, aquilo ali…

Luciano               Esse momento em que surge diante de você uma nova encruzilhada, outra encruzilhada, só que essa é diferente das anteriores, você tomou porrada de montão, agora não era uma porrada, era um baita desafio que ia te tirar o rumo, ou colocar no rumo, como é que foi, chegar em casa com a esposa e ai?

Aquiles               … então, antes disso teve um outro evento que foi muito importante, foi quando eles me chamaram para ir para a engenharia, ai meu salário melhorou mais ainda, eles falaram assim, só que agora Aquiles, você é a Dana para o mercado, não sei se você consegue entender isso, falei não, entendo bem, pô, ou seja, eu sou o cara que vai… eles vão me ver como Dana, como a divisão de  elastômeros, isso era uma sexta feira a tarde…

Luciano               Corte o cabelo.

Aquiles               … não, ai ele falou assim, se você… você está no caminho cara, você  está no caminho perfeito, agora você vai começar a ir para São Paulo sempre, mas você sabe, até agora como você era um cara mais interno essa parte visual não atrapalhou tanto, mas agora você vai lidar com cliente externo, com caras que são muito grandes, de repente você não vai se encaixar tanto nesse formato, ai eu falei, entendi, você está falando do cabelo né? Ele falou  meu, é uma coisa que você tem que pensar, isso foi uma sexta feira a tarde, na segunda feira cedo eu entrei com o cabelo cortado na empresa, meu foco era tão grande naquilo que eu não queria que nada atrapalhasse e o cabelo cresce depois e para mim naquela época a música já tinha ficado para trás. Já era de uma outra fase, eu sempre fui um cara que sempre fiz parâmetros com meus grandes ídolos, então os caras com 24 anos já tinham um disco lançado no mundo inteiro, fazendo turnê, eu já estava com 24 e eu não tinha dinheiro nem para andar de ônibus, falei então não é para mim e aí essas oportunidades assim que apareceram em 97, 98 assim foram coisas que eu fui trabalhando aos poucos e eu comecei a voltar para a música mas sempre sabendo que nada poderia atrapalhar o meu emprego e ai quando você me chamou para ir para São Paulo, o desafio maior era como que eu vou, como que as pessoas que trabalham naquela divisão vão aceitar um gaúcho vindo para ocupar um espaço na divisão deles e por que não poderia ser uma das pessoas que já estava lá? Eu sabia que ia ter esse negócio de você estar indo para pegar e ocupar e sempre quando você vai, quando você sai de um cargo numa empresa para ir para um outro lugar, para uma outra cidade, todo mundo sabe que tem uma equiparação salarial, que você tem um monte de benefício, um monte de coisa e eu era um cara muito novo perto das pessoas que estavam trabalhando ali, então eu percebi assim que na minha frente todo mundo, porra Aquiles, legal, tal, batia nas costas mas quando virava as costas os caras, porra, esse gaúcho ai, por que trouxeram esse cara e na verdade eu nunca fui gaúcho. Eu morei em Porto Alegre muito tempo, sou muito grato a tudo que eu absorvi dessa vontade que… dessa vontade que o gaúcho tem de fazer as coisas, dessa vontade de valorizar as coisas locais, mas eu nunca fui gaúcho e eu percebi que as pessoas tinham uma resistência grande comigo em São Paulo e uma das coisas que eu mais me arrependo hoje, isso é uma coisa que eu vou levar para o túmulo, é por isso que eu acho que você nunca deve subestimar a si mesmo, você tem que realmente mostrar o que você é, doa a quem doer. Eu me lembro, que numa das primeiras apresentações que a gente foi fazer para a equipe de vendas, para todo mundo, que até você me cobrou depois, falou pô, mas só aquilo caralho? Aí eu me lembro que a gente era quatro coordenadores no Brasil inteiro e a minha apresentação era tipo, meu, apresentação assim para calar a boca de qualquer equipe de venda do mundo inteiro, porque eu mostrava a ação, quer dizer, mostrava um investimento, mostrava a ação e mostrava o resultado, então era uma coisa muito forte. Quando eu fui eu tive que ajudar os outros coordenadores a fazer a apresentação deles porque eles não tinham esse dinamismo e o conhecimento de como chegar naquilo e aí quando eu fui ajudar os caras eu fiquei praticamente uma semana dentro daquela empresa… da empresa me preparando para a apresentação e a gente sabia que era importante para a divisão toda, só eu quando acabou a minha apresentação, a minha apresentação engolia a dos outros 3 e aí eles encarecidamente eles me pediram para eu reduzir um pouco as minhas coisas para a gente poder ficar…

Luciano               Equalizado.

Aquiles               … equalizado porque eles falaram assim, pô, você é um cara novo para caralho, você tem um puta de um futuro, a gente já está aqui há muito mais tempo, a gente tem família, a gente não pode perder o emprego, tal, entraram por aquele outro lado, eu sei que eu, na bondade, eu aceitei fazer isso e ai eu me lembro que quando… a apresentação não foi ruim, mas não mostrou o por que você trouxe o Aquiles para São Paulo, e você me cobrou isso, falou porra meu, cadê sua apresentação, você tinha me mostrado outras coisas, por que você… falei cara, os caras me pediram para fazer isso e tal, para equalizar melhor o grupo, que ia ser importante para a gente como um todo, eu sei que a partir daquilo ali foi muito ruim, porque a gente começou a ser questionado sobre por que não poderia ter sido uma outra pessoa e tinha que ter sido eu, porque eu…

Luciano               É, você nunca foi bem aceito no grupo porque você é muito metido cara, você é muito enfiado, é muito de fazer, é muito metódico e a gente passou por uma saia justa grande lá, de te mandar para alguns lugares aí, o pau quebrar, os “os nego vim reclamar” e eu dar risada, porque eu sabia que era o Aquiles e a gente passou por momentos bons  lá de encrenca, você estava num ambiente que é um ambiente relaxado, era um ambiente da venda, pô, vamos lá e você vinha com aquela coisa metódica e não encaixava, até porque tinha resultado, então a diferença era muito grande lá e muito bem, ai chega um dia, nós vamos para um churrasco e ai no churrasco você vem me procurar, para conversar comigo, conta essa história.

Aquiles               Eu me lembro que nesse meio tempo, quando estava morando em São Paulo, eu também aproveitava para fazer as coisas pela minha banda, o Hangar, então levava as coisas na Galeria do Rock, eu sempre ia depois do trabalho, então eu ia de terno e gravata e todas as lojas e as pessoas com quem eu me dava, eles achavam que eu era o empresário da banda, até que a gente conseguiu marcar um show em São Pulo, aí os caras foram no show, chamei, a banda vai tocar, os caras foram lá e me viram na bateria, falaram, pô, você é o batera? Não sabia que você era o batera. É, sou o batera e ai esse show teve um empresário chamado Marcos Cardoso que veio falar comigo, falou, cara, estou pensando em trazer um vocalista internacional aqui no Brasil para gravar um disco, eu queria que você fosse o batera, que eu já estava pesquisando pra caralho, você é um cara que está sendo bem falado ai no meio, eu queria que você gravasse a batera, falei, eu topo e aí esse vocalista era nada mais, nada menos do que Paul Di’Anno, que foi o primeiro vocalista do Iron Maden. E ai voltou toda aquela vontade de ser músico, falei cara, vou tocar com o vocalista do Iron Maden, e ai eu me lembro até hoje do primeiro ensaio que a gente fez, quando a gente tocou uma música do Iron Maden chamada Remember Tomorrow…

Luciano               Lá vai…

(https://www.youtube.com/watch?v=afBRj58PYSI )

Aquiles               Lá vai… Eu sei aquilo ali me arrepiou na hora, falei cara, esse aqui é um sonho para mim, eu estar tocando depois de tudo isso que aconteceu, de todo o tempo que eu não pude me dedicar à bateria e nesses tempos de Dana tal…

Luciano               Mas você volta para a bateria depois que você estabiliza na Dana, ainda lá no Rio Grande do Sul, você retoma a bateria e forma o Hangar.

Aquiles               Exatamente é. Só que nessa época eu estava fazendo…

Luciano               Lá no sul.

Aquiles               … exatamente, só que nessa época eu estava fazendo faculdade então o único tempo livre que eu tinha era final de semana e aí o seguinte, o meu horário era o horário fabril, entrar as 7 e sair as 5, depois ia para a faculdade as 7 de novo, saía de lá 11:30, chegava em casa meia noite e meia, acordava de novo as 5 e assim ia indo. Mas nos dias que eu não tinha aula, ou que o professor mandava a gente embora, ao invés de eu ir embora para a casa antes, a minha mulher sabia que eu ia estar lá na faculdade, eu ia para a casa do Mike, que era o nosso vocalista para praticar bateria, então mesmo cansado, dentro do meu carro sempre tinha uma bolsa com calção, meia, sapatilha, camiseta para eu ir tocar, então eu sempre deixava umas duas mudas lá porque quando pintava o tempo eu ia e final de semana, cara, mesmo com filha pequena, não tinha boi, eram de 6 a 8 horas de ensaios, sábado e domingo, religiosamente, mesmo sem show, por causa da banda que a gente tinha que melhorar tecnicamente a gente tinha que aproveitar o tempo que a gente não tinha, então esse foco sempre teve e ainda é assim até hoje. Eu me lembro que… vou até fazer um adendo aqui, que quando eu fui gravar esse último disco do Tony MacAlpine, que sempre foi um grande ídolo, eu estava indo fazer uma masterclass em Porto Velho e ai cheguei em Porto Velho, depois de sair de São Paulo as 7 da manhã, isso ano passado, e cheguei lá as 3 da tarde e ai o cara me pegou no aeroporto, dono da escola e eu falei para ele assim, cara, o que você vai fazer agora? Ele falou, estou indo lá para a escola, tenho que resolver umas coisas, falei quanto tempo você vai ficar lá? Eu vou ficar umas 3 horas. Falei então beleza, vamos para lá direto, eu não quero ir lá para o hotel agora que eu tenho que praticar um groove, ai o cara me olhou falou, você tem que praticar um groove, falei é, preciso praticar um groove, beleza. Ai cheguei lá, peguei a minha batera e comecei a tocar o groove, era um groove completamente insano assim, com figuras diferentes de manulação, em cima nas mãos de 4×4 embaixo 3×4, 5×4, então era uma coisa bem difícil que eu nunca tinha feito, eu sei que momentos depois para mim, momentos depois, o cara bateu na porta e falou, cara, preciso ir embora, mas que horas são? 9:30 da noite, então eu fiquei durante 6 horas praticando aquele groove sem parar e eu não percebi o tempo passando, então muitas vezes as pessoas me falam assim, mas quanto tempo que você pratica hoje em dia? Eu pratico o tempo que é necessário para as coisas que eu tenho que fazer, se eu não tenho que tocar, se eu não tenho que fazer nada, eu vou ficar em casa com meus filhos, assistindo DVD, passeando, mas quando tem que praticar não existe nada que tire o meu foco do que eu tenho que fazer. Bom, nessa época daí lá do Paul Di’Anno a gente gravou o disco e fez a primeira turnê, foi a primeira vez que eu fiz turnê, que aí eu tirei 15 dias de férias, que você me deu e ai a gente foi fazer tipo 7 shows nas capitais aqui no Brasil.

Luciano               Só uma dica, na época eu sabia que você tocava guitarra, eu sabia que o Aquiles era… guitarra…

Aquiles               Bateria…

Luciano               … naquela época eu sabia que o Aquiles era baterista, mas para mim era aquela história, um batera de hobby, eu não sabia que você tocava para valer batera, o pessoal, ah ele é baterista, eu ah legal … também é outro baterista e para mim, quando surge aquela… naquele churrasco é a primeira vez que eu paro para pensar, falo meu, acho que esse cara deve ser bom…

Aquiles               … eu sei que a gente fez a turnê, ai eu fiz solo de bateria e aí nas principais capitais toquei em Porto Alegre, depois de assim, todas as pessoas que me conheciam da cena falavam, esse cara é o cara que está tocando com Paul Di’Anno, foi esse cara que fez esse solo de bateria? Então as pessoas no Brasil viram que tinham um baterista de metal que não era o batera do Angra naquela época, porque até então, naquela época, a única banda de metal que tinha aqui no Brasil era o Angra, então as pessoas me viram e falaram assim, cara, olha o que esse cara toca, que absurdo, Paul Di’Anno e aí foi que a gente apareceu a oportunidade de a gente fazer uma turnê pelos EUA, de trinta e poucas datas e aí eu já tinha tirado férias, tinha todo o negócio e aí no churrasco eu cheguei para você, a gente já com o visto todo tirado, tudo pronto, passaporte bonitinho para ir embora e aí eu cheguei para conversar com você, falei cara, estou meio aperreado, preciso falar uma coisa para você que eu não sei nem como te falar, porque depois de tudo o que você fez para eu estar aqui, de repente eu vim te falar aqui mas cara, pintou uma oportunidade de eu fazer uma turnê fora do país com o primeiro vocalista do Iron Maden e eu não sei o que fazer, queria que você me ajudasse e aí você lembra desse papo?

Luciano               Puta se lembro, eu lembro que eu não sei nem que cara que eu fiz, como é que Paul Di’Anno, que eu nem sabia quem era, mas quando você falou o Iron Maden eu falei cara, que é isso bicho?

Aquiles               Parece meio grande isso…

Luciano               … é, que coisa estranha e eu me lembro que eu falei para você, falei ó cara, ai você comentou o que eu faço agora, ou peço demissão e vou embora, porque eu não tenho 30 dias para tirar, eu não posso sair 30 dias, não tem como fazer e eu me lembro que eu acho que eu comentei com você, não sei se foram essas palavras, eu falei para você, olha, não vale a pena viver com esse “e se” para o resto da vida e se eu não for cara, esse não der e você vai passar o resto da vida pensando se eu tivesse ido… e eu dizia não vale a pena viver com isso…

Aquiles               … chega a arrepiar isso, porque eu me lembro que foi exatamente isso que você falou, você falou, Aquiles, não sei como a gente vai fazer para você ir, mas você tem que ir porque cara, se for um outro mané lá no seu lugar, pode ser que esse negócio dê muito certo e você não vai se perdoar nunca mais, você não vai ser nunca mais o mesmo Aquiles aqui na Dana, você não vai ser o mesmo Aquiles na tua família, isso vai foder a tua vida, então cara, não sei como que a gente vai fazer mas você tem que ir, enfim, a turnê acabou não rolando, porque o Paul Di’Anno é tão problemático que os caras não deixam ele entrar nos EUA há muito tempo e aí a turnê foi cancelada e a gente assim, tipo com a mala pronta, você já tinha me liberado, tinha dado um jeito para eu ir…

Luciano               O jeito que eu dei foi o seguinte, você tinha 15 dias em haver, falei tira os 15 e os outros 15 a gente vai… eu vou encobrir aqui, eu vou dar um jeito de encobrir aqui, depois você compensa lá na frente e a gente aqui se organiza entre nós e a empresa, entre aspas, não vai ficar sabendo, é claro que ia ficara sabendo, mas eu falei vai, depois você vai compensar isso de uma outra forma lá.

Aquiles               … e aí foi uma loucura porque a gente estava praticamente, assim, saio ou não saio para o aeroporto, que estava esperando o Paul ir pela fronteira do Canadá para tentar entrar e aí seguraram ele lá, não deixaram entrar e cancelaram a turnê e aí a casa caiu…

Luciano               Outra brochada homérica…

Aquiles               … ai eu voltei para a Dana assim, tipo quebrado e aí você falou ué, e aí? Que você está fazendo aqui? Falei cara, você não vai acreditar, isso foi tudo era uma sexta, a gente tinha que viajar na segunda feira voltei para a Dana você falou meu, o que você está fazendo aqui? Falei cara, a turnê foi cancelada, o cara não conseguiu entrar e aí nesse meio tempo a vida seguiu, trabalhando, trabalhando aqui, trabalhando lá e aí eu sei que eu sempre ia nas feiras de música aqui de São Paulo, a Expo Music e essa turnê ia ser em agosto e aí em setembro eu fui na feira e aí o Edu Ardanui, que toca guitarra no Doctor Simm, naquela época eu tinha tocado com o Triton que tinha ele, o Frank Scolari e o Sergio Buss que era um cara que tinha tocado com o Steve Vai fora e ai ele me apresentou para o Kiko Loureiro, num dos stands de guitarra que eles tinham lá, que eles estavam juntos, falou ó cara, e eu estava de terno e gravata, porque eu tinha saído da Dana e tinha ido lá para a feira e aí eu sei que ele falou ó, esse cara aqui toca dois bumbo pra caralho, esse cara é impressionante, aí o Kiko me olhou, falou assim, sério? Você toca bateria? Você parece um executivo, falei não, é que eu tenho um outro emprego na Dana e eu tirei meus discos, tirei o disco do Hangar, ai ele falou, ah vocês abriram para  gente lá em Porto Alegre, pô essa banda está crescendo. Aí eu tirei o disco do Paul Di’Anno, ele falou, pô, você que gravou esse disco? Falei sim. Cara, vamos fazer um teste então para ver como é que é e aí eu me lembro que a gente começou a falar e nesse meio tempo eu estava morando aqui em São Paulo já. Aí a gente começou a fazer, eu me lembro que ele falou… eu falei cara, só que a minha batera está em Porto Alegre, que eu tenho um show em Porto Alegre no final desse mês e aí depois eu vou trazer a batera para cá, que vai ser o último show lá e eu quero a minha batera aqui, ele falou meu, mas não dá tempo, é tipo 10 dias, a gente tem que agilizar isso aí, mas eu tenho uma batera lá, você toca lá na minha, eu falei não, mas cara, eu quero tocar na minha batera porque eu sei que eu vou tocar melhor e eu acho que eu vou fazer um teste melhor, então eu vou… eu acho que vou impressionar mais vocês, aí ele falou pô, mas você vai trazer a batera para casa e aí se você não passar no teste, eu falei não, mas essa hipótese não existe, a batera vai ficar lá na tua casa e aí nesse meio tempo a gente ficou trocando e-mail e aí o Rafael, que era o outro guitarrista falou, cara, a gente vai ter que nesses 3 dias depois ele falou assim, cara, a gente vai testando outros bateras enquanto isso, aí eu dei uma outra trucada, falei cara, vocês podem testar o batera que vocês quiserem cara, mas não decidam o batera da banda até vocês me verem tocando, então foi tipo um ultimato, depois eles me falaram isso entre eles, falando assim, eles pensavam assim, meu, das duas uma cara, ou esse cara sabe muito bem o que ele está fazendo, ele tem certeza absoluta que ele é capaz, ou ele é um puta de um falastrão, então a gente… os caras que a gente testou até agora não foram suficientes para o que a gente precisa, então possivelmente esse seja o último cara para a gente testar, a gente não sabe mais o que fazer, então vamos esperar ele e aí a bateria… a gente fez o show em Porto Alegre, a gente voltou para cá, a bateria foi lá para a casa do Kiko e cara, eu fazia coisas que eu duvido que alguém faria naquela época, eu ia para o aeroporto como um passageiro normal levando a bateria inteira e eu conseguia convencer as pessoas sem pagar nem um excesso e trazia a bateria pelas empresas aéreas assim, dois taxis me seguindo com a batera toda, para tirar a batera, já era uma batera grande, com dois bumbos, hoje em dia cara, eu vejo assim que eu fui muito louco, possivelmente hoje em dia eu não iria tentar fazer isso, mas naquela época era uma outra época, tipo assim eu peitava as coisas, eu ia…

Luciano               Não e além de ser uma outra época o seguinte, você tinha 30 anos de idade…

Aquiles               Exatamente, é.

Luciano               … você tem 44, daqui a pouco você vai ter 55 e muda tudo…

Aquiles               … muda tudo né, eu sei disso…

Luciano               … porque você vai fazer uma avaliação de custo benefício que fala cara, essa loucura eu não faria, mas com a juventude cara, com a energia, você bota… isso é que é legal.

Aquiles               … cara, e aí foi impressionante, quando a gente montou a batera lá, aí outra vez o Rafael veio falar, meu, não dá para você montar mais ou menos a batera para cá porque depois quando tirar… eu falei, cara essa batera não vai sair daqui, aí ele falou pô, você  está confiante, eu falei não cara, eu sou a pessoa certa para a tua banda cara, eu com cabelinho curtinho e aí eu me lembro quando eles não me deram, eles não me pediram para tocar coisa antiga porque eles sabiam que eu era capaz de tocar, porque eles ouviram meus discos, eles foram até num show meu lá no Hangar para me ver tocando aquilo Black Jack, eles viram que eu era capaz, eles me deram uma música nova, que o nome dessa música é Running Alone, dá uma escutada ai…

Luciano               Vai.

(https://www.youtube.com/watch?v=LdBs309FsQs )

Aquiles               … e aí essa música eu peguei e eu não tinha onde tocar bateria aqui em São Paulo, eu não tinha um estúdio, eu não tinha um local, então fiquei escutando no carro, no meu Fiat Pálio lá da Dana que tinha um toca fitas, fiquei ouvindo lá e aí eu peguei e arranjei na minha cabeça a música, tipo assim, aqui vou fazer assim, vou fazer aqui e antes da gente tocar, eu pedi para eles, cara, vocês podem sair daqui 15 minutos para eu testar só os meus arranjos, depois vocês voltam a gente faz? Não, beleza, eles foram para cima, lá na casa do Kiko e aí barulheira, toquei, toquei, toquei e eu tinha esse CD que tinha só o clic e a guitarra então botei o fone, toquei, falei beleza, é isso aqui. Chamei os dois caras, falei, vamos tocar. Aí depois eles, claro que eu toquei a música de cabo a rabo com os arranjos e com as minhas ideias, eles ficaram impressionados para caralho mas o próprio Kiko me disse assim, cara quando você tocou dois compassos na minha frente eu já sabia que era você o cara, tecnicamente não tinha o que falar, mas assim, a gente precisava saber como é que você era, se você não era um puta de um louco, se você, qual que era a tua estrutura familiar, como é que você era tal, e aí a gente começou a, timidamente, se conhecer um pouco mais, a gente ia em show juntos e ai as pessoas ah o Aquiles é assim, então eles fizeram uma …

Luciano               Foram junto assistir palestra do Luciano Pires…

Aquiles               … é verdade, é verdade. De certa forma eu que introduzi o Kiko nesse mundo, naquela época ele era muito mais voltado para o mundo de guitarra e algumas vezes a gente fazia workshop juntos e que eu tinha a minha parte que eu fazia, eu primeiro, depois ele entrava, a gente tocava as coisas dele, tocava as minhas coisas, então ele via essa forma como eu falava com o público e que eu tinha uma certa facilidade e o Kiko sempre foi um cara mais travado para falar espontaneamente, tipo ele é um cara metódico, se ele põe uma coisa na frente dele ele vai ler e ele te convence, mas para você sentar na frente de uma plateia e começar a falar e desenvolver o assunto, ele não tinha essa habilidade, foi ai que eu te apresentei e aí até que você foi num workshop nosso  lá no Souza Lima, que você foi assistir e aí começou a rolar e aí ele começou a entrar nesse mundo corporativo, aí eu sei que tipo a gente começou a ter uma afinidade musical grande, a gente… e aí toda essa fase da composição das músicas do disco Rebirth, a gravação na Alemanha, eu fiz tudo estando empregado na Dana, então eu saia da Dana, eu ia para a casa do Kiko, ensaiava a noite, dai voltava para a Dana durante o dia, quando a gente foi gravar o disco na Alemanha que eu precisei de 10 dias foi logo depois da Automec de 2001, aí eu fui para lá, pô, fiquei a semana inteira na Automec e já peguei um vôo depois e fui direto, então eu estava cansado daqui já e eu me lembro que fui gravando o disco e vai chegar no momento que eu vou ter que falar com o Luciano sobre o que está acontecendo, mas eu queria  ver até onde isso ia. Eu sei que a primeira coisa que a gente teve que conversar sobre números, quando eu estava lá na banda, eu me lembro que meu salário na Dana era muito bom e os caras quando ficaram sabendo quanto eu ganhava, eles falaram assim, cara, você tem que pensar muito bem se você vai deixar esse teu emprego porque aqui na nossa banda nem em turnê japonesa, que é o melhor cachê que a gente tem a gente vai chegar num mês que você vai tirar isso aqui, você vai ter que fazer outras coisas, você vai ter que dar aula, fazer workshop, mas a tua renda não vai mais ser essa daqui e a música é todo mês você trabalha para pagar as contas, não é uma coisa que você não sabe quanto é que você vai ganhar a não ser que você esteja em turnê e aí eu tive que chegar e conversar com você, você lembra desse papo?

Luciano               Não.

Aquiles               Não lembra?

Luciano               Não lembro cara.

Aquiles               Cara, esse papo foi assim outra vez aquela mesma história, cara o que eu faço? Aí você falou exatamente da mesma forma e falou cara, você tem que ir, pensa bem, aí vai, entra um outro mané nessa banda, você vai ficar tipo para sempre com esse  negócio, você nunca mais vai se resolver como pessoa porque você vai ver a tua chance passando e eu acho que você tem que ir, aí você até brincou, vai lá, se mete com esses metaleiro, com esses vagabundos aí porque é isso que você sempre quis. Falei cara, mas eu não sei, estou com meu apartamento fechado em Porto Alegre, não vendi ele ainda e aí se eu sair da Dana aqui  eu vou ter que pagar aluguel, não sei como é que é esse negócio de receita, tem minha mulher, tem minha filha, eu não quero passar pelas coisas que eu passei até os 24 anos, quero coisas que realmente são coisas que até hoje eu me lembro bem, hoje parece ser até meio engraçado mas até você chegar naquilo, quando você passa por aquilo, você valoriza muito as coisas e aí eu sei que você me falou uma coisa assim que nem um pai falaria, você falou assim, cara, você tem que ir porque é uma chance da tua vida, se você ficar aqui você não vai conseguir, eu falei cara, mas tem esse negócio da renda, aí você falou assim, cara você vai, você vê o que acontece, você tem de 6 meses a 1 ano para você voltar para cá, se der alguma coisa errada lá você volta para cá que a gente arruma… você vai ter no mínimo o que você tem hoje,  aí você ainda falou assim, se eu estiver aqui, aí eu falei bom, como você já está há muito tempo, acho que você vai estar aqui por um bom tempo ainda e foi isso que me fez ir…

Luciano               Que ano era?

Aquiles               … isso foi 2000 para 2001, foi 2001 esse papo, tanto é que o meu último mês de trabalho na Dana foi agosto, porque em setembro eu fiquei o mês inteiro praticando para a turnê que ia começar em outubro, mas essa história não é tão bela assim, sempre tem a caixinha de surpresa e eu me lembro que aí você ainda falou assim, cara, mas ó, eu te conhecendo como te conheço você não vai ser só o baterista do Angra, você vai fazer… você não volta mais para cá, caso você achar que você precisa voltar você pode voltar mas eu te conhecendo eu acho que você vai fazer umas coisas maiores do que ser o baterista do Angra e ai eu fui, saí do emprego, peguei uma rescisão incrível, porque ainda você foi bem legal, você tipo, como se você estivesse me mandando embora, então pagou todos os direitos e aquilo me deu uma receita muito boa para eu poder viver os próximos meses, a turnê começou em outubro, então tinha show todo final de semana, coquetel, a nova sensação do metal brasileiro, olha esse batera Aquiles Priester, a gente gravou um puta de um disco que foi esse disco anos depois ele se tornou um divisor de águas em termos da bateria do metal melódico no mundo, todo mundo usava esse disco como bate mark pelas coisas que eu fiz nesse disco com aquela mentalidade que eu tive quando eu fui fazer aula com o Kiko Freitas, eu quero pegar as tuas coisas de jazz, as  tuas coisas do fusion e aplicar isso dentro do metal, então o meu approach naquele disco foi uma coisa assim que ninguém estava pronto para ouvir naquela época.

Luciano               Qual é uma música que a gente consegue ouvir isso bem?

Aquiles               Cara, tem várias músicas mas tipo assim eu acho que a Acid Rain é uma musica assim que mostra os drags nos bumbos, paradinha no meu raid, cestinhas extremamente rápidas e até então não tinha sido lançado um disco com batera brasileira naquele nível…

Luciano               Eu não entendi nada do que você falou, mas vamos ouvir um pouquinho, espera ai… Pronto.

(https://www.youtube.com/watch?v=ZXV3-V-NEWU )

Aquiles               … então eu sei que … outubro, novembro, dezembro a gente acabou o último show em dezembro, no dia 20 de dezembro foi o último show, acho que foi dia 23 de dezembro em Brasília, eu voltei a Porto Alegre, a minha família já tinha ido para Porto Alegre, a gente passou o natal lá e eu feliz para caralho, pô, estou no Angra, estou vivendo meu sonho, aí janeiro, fevereiro e março, país do carnaval, não rola nada para o Angra, nada, zero e aí as contas continuam chegando, aí eu nunca mais eu vou esquecer de uma data, o dia 22 de fevereiro e dia 23 de fevereiro de 2002, foram as duas primeiras noites que eu passei em claro por causa do Angra, falei cara, não basta ser só o batera do Angra, eu tenho que ser o Aquiles Priester que toca no Angra porque as contas começaram a chegar e a receita  não era o suficiente porque a gente não estava tocando e aí eu tive que começar a mexer nas minhas receitas que eu tinha guardado e foi aí que o sinal de alerta ligou e aí eu comecei a perceber que eu tinha que fazer outras coisas e aí nos intervalos que o Angra tinha eu comecei a fazer workshop, eu fui o primeiro louco nesse país a viajar com uma estrutura de levar tudo para um workshop, eu levava o sistema inteiro de som dentro de um trailer, a bateria gigante, os microfones, chegava com o circo, o cara me dava uma tomada e um palco e eu montava, então eu fico imaginando o seguinte, que isso foi uma revolução tão grande, porque um workshop de bateria nunca foi isso, aquilo ali se tornou um gran show, porque era uma coisa muito grande comparado ao que era um workshop de bateria. Geralmente o baterista ia dentro de uma loja, pegava uma batera local, tocava umas coisinhas, sem microfone, sem nada, uma coisa local e eu, a gente ia para dentro do teatro, botava PA, levava técnico de som, a minha estrutura de workshop hoje,além de mim só 3 pessoas que viajam comigo.

Luciano               É um show.

Aquiles               Exatamente um show, tem back drop, então eu fico imaginando o seguinte, se o primeiro workshop de um cara foi o do Aquiles Priester naquela época ou então hoje em dia, qualquer outro workshop do cara não é nada, porque o workshop, o conceito, é uma coisa muito mais simples, muito menor e o meu negócio não, é tão grande como se fosse um show meu, com qualquer banda que eu esteja tocando, então eu me lembro que tinha anos, quando o Angra não tocava, que eu chegava a fazer perto de 100 workshops e aí isso começou a me dar uma renda até melhor do que eu tinha no Angra e aí que a gente começou a ter problemas de agenda, de receita, chegou num momento que os caras precisavam que eu ficasse livre para poder cumprir a agenda da banda, mas financeiramente para mim já não valia mais a pena e aí novamente por causa de problemas com empresariamento, de receita, de royalties a gente chegou num impasse que eu tive que dar um novo passo, tive que falar assim, cara, se eu ficar nessa banda eu possivelmente não vou ter mais vontade de praticar, não vou ter mais vontade de tocar. Estava viajando praticamente o mundo inteiro mas eu não estava feliz, porque eu não estava com as pessoas certas, que tinham o mesmo pensamento ou que não tinham a transparência que eu tinha. Então começou rolar um monte de ciumeira dentro da banda, porque o meu merchandising era merchandising individual que mais vendia nos show do Angra, aí depois de um certo tempo foram vetados todos os merchandising individuais das pessoas dentro do Angra e na verdade, mesmo quando vendia alguma coisa de qualquer integrante na banca de merchandising da banda, todo mundo ganhava, era uma receita que ia para toda a banda, porque a gente vendia para o Angra e depois o Angra revendia e todo mundo recebia.Mas, tinha uma coisa de ego, pô é meio difícil para mim aceitar que um cara que entrou depois da banda está participando de festivais de bateria no mundo inteiro, tem patrocínios internacionais, tem produtos assinados com empresas internacionais, então foi uma coisa que começou a crescer porque as empresas de fora começaram a enxergar o trabalho que eu estava fazendo aqui no Brasil, que era uma coisa ímpar, que nunca tinha sido feito e até hoje as pessoas falam isso, os patrocinadores que eu tenho, o meu relacionamento com eles é exatamente o mesmo relacionamento que as bandas multiplatinadas tem, a forma como eles cuidam desses bateras que tocam em arenas fora daqui, em estádio é a mesma forma que eles cuidam de mim, a importância que eu tenho para essas empresas pelo trabalho que eu fiz aqui no mercado brasileiro, ou seja, todas as marcas que eu uso são as marcas que mais vendem…

Luciano               Que é o mesmo, você está fazendo uma coisa que você fazia na fábrica de elastômeros…

Aquiles               Exatamente.

Luciano               … é a mesma coisa, não mudou nada…

Aquiles               … não

Luciano               … e eu me arrisco a dizer o seguinte, se você tivesse decidido ser médico pediatra, você estaria do mesmo jeito, arrebentando como médico pediatra porque o que vale é o teu processo, a tua maneira de pensar, o jeito de encarar com profissionalismo essa história do vou medir, a história do botei na frente, ninguém me tira da cabeça, então se você fosse engenheiro, construtor, qualquer lugar  que você estivesse funcionaria porque esses atributos, eles estão além da questão de ser um músico talentoso ou não, não importa o teu talento ali, com seus atributos você conseguiu levar essa coisa a diante.

Aquiles               Tem coisas que a gente fazia na época, tipo pegar o carro com trailer levando 3 mil quilos de equipamento indo para o nordeste de carro e depois voltando durante 4 ou 5 dias sem parar, só para poder levar para aquela galera o mesmo workshop que eu apresentava nas capitais aqui para baixo, então são coisas que as pessoas não esquecem elas se lembram disso até hoje, ou então quando o Hangar entrou num ônibus e foi para o nordeste levando todo o equipamento de PA, palco inteiro, foi uma coisa que nem uma outra banda de metal tinha feito. Depois no ano passado a gente repetiu o mesmo feito com o Noturnal, que é uma banda que esta crescendo muito, ou seja, onde eu entro existe o processo de como o Aquiles faria, o Aquiles entraria naquele processo daquela banda, então tem algumas pessoas que veem isso de uma maneira boa, tipo assim, o cara esta agregando valor à banda e está mostrando umas coisas que a gente não teria a menor ideia de como fazer porque ele teve embasamento 100% diferente, a gente o tempo inteiro que a gente ficou trabalhando no mercado musical, ele teve dentro de um mercado corporativo que ele tinha obrigação de dar resultado e isso de alguma forma encaixa na minha forma de trabalhar e de tocar bateria hoje, eu tenho que dar resultado, o show de amanhã nunca pode ser pior do que o show de ontem, é uma coisa gradativa, tem que sempre crescer.

Luciano               E os problemas que você encontra são os mesmos daquela época, porque vai ter gente que vai resistir a isso, vai ter gente que não consegue acompanhar o ritmo e vai pedir para você abaixar a bola, ou vai querer ah não vou porque é demais para mim e de repente você está dentro de um time, um depende do outro e aí para gerar conflito bom, esse é o Aquiles que eu conheço…

Aquiles               É fácil, então de uns tempos para cá eu percebi que a marca Aquiles Priester ficou muito forte, ficou muito grande que muitas vezes tem bandas que não comportam um baterista como  Aquiles Priester dentro da banda e isso foi um conflito meu de saber assim, devo eu baixar a bola ou não? Ai eu me lembro daquela apresentação, aquela apresentação foi muito importante para mim.

Luciano               Qual delas?

Aquiles               Aquela apresentação onde eu me nivelei com os outros para soar mais como um time, para parecer mais como um time, só que o meu time é a minha família hoje, então eu tenho que ser melhor para eles, eu tenho que ser melhor para mim e eu tenho que ser melhor no mercado competitivo que todos os dias as pessoas querem o que você está fazendo, então assim…

Luciano               E outra, isso vai te botar num nível tal que você vai escolher quem vai tocar do teu lado, cara…

Aquiles               Exatamente

Luciano               … você não vai tocar com um mané, você não vai tocar mais com mané.

Aquiles               … exatamente, é isso que está acontecendo hoje em dia, hoje em dia eu sou um cara 100% agraciado, eu toco com o Tony MacAlpine que é um guitarrista que me inspirou, um disco dele, o Maximum Security, uma música chamada Hundreds Of Thousands, que você vai dar uma escutadinha agora…

(https://www.youtube.com/watch?v=kygRtshJJkg )

Foi essa música que me fez ouvir isso, eu falei cara, o que é isso, que baterista é esse e o baterista era o Jim Castronovo, que guitarrista é esse, que músico incrível é esse? E aí eu sempre costumo falar nas palestras que eu faço em faculdades, escola de música sobre a minha carreira baseada na minha biografia ou nos meus workshops que o grande feito do homem nessa terra é você propagar o bem, é você fazer o bem, mesmo que você não saiba se vão ser aquelas pessoas que estão recebendo o bem que vão te devolver o bem, de alguma forma esse bem vai voltar, pode ser através de outras pessoas, através de outras ações e eu sou um cara muito sortudo por ter conhecido pessoas como você, como meu amigo Silvio, como o Rocha, como o Ivan, que foram pessoas que pegaram esse meu poder e catalisaram, falaram assim, cara vamos direcionar essa força para um lugar que a gente sabe que esse cara assim, ele tem um poder, ele tem uma coisa que é só dele, mas ele precisa ser canalizado para o lugar certo e isso é uma coisa que eu sou muito grato a todas essas pessoas que me ajudaram e então até hoje é exatamente dessa forma que eu penso, eu tenho que propagar o bem, eu tenho que deixar uma mensagem boa para esses caras e a minha história é exatamente… é a maior quebra de paradigmas do mundo cara, pô, eu morava em Foz do Iguaçu, longe de tudo, eu tinha todas as chances de ser um traficante, porque eu trabalhei trazendo muamba da Argentina, do Paraguai, me ofereceram para trazer drogas e eu não quis, eu sempre cito nessas minhas palestras e nesses meus workshops que a nossa vida, assim como você já falou, ela é formada por sins e nãos, é você que decide quando você quer quebrar um paradigma, quando você quer fazer uma coisa nova…

Luciano               E a miséria não pode ser justificativa moral, ela não é moral, porque há uma escolha ali…

Aquiles               Há uma escolha…

Luciano               … não é pelo fato de eu ser miserável que eu sou bandido… sou bandido porque sou miserável, não, tem 500 que também são e não são bandidos, é uma escolha moral…

Aquiles               … é uma escolha, porque desde pequeno, quando eu olhava em volta falava assim não, isso aqui é o que eu não quero para a minha vida, então se está todo mundo indo para esse lado, eu vou para esse outro aqui, porque eu preciso encontrar uma outra forma de fazer as coisas.

Luciano               Deixa eu ir para o final cara, se não nós vamos ficar até… vou me ferrar para editar isso ai. Vou para o final aqui agora. Vou caminhar para o final então, eu quero falar de mais uma brochada, você é visto no mundo inteiro, vira capa de revista, tem o DVD mais reconhecido ai da história da Modern Drummer, é o primeiro brasileiro que consegue entrar no ranking, está entre o ranking dos 5 maiores bateristas do mundo, não é do Brasil e só, tem fã clube no mundo inteiro etc, o pessoal te vê e você está evidentemente na vitrine e um belo dia você recebe um convite para poder ser escolhido como um dos bateristas Dream Theather, quem não sabe que é o Dream Theather é uma das big bands que, é metal, o que que é ali?

Aquiles               É metal progressivo.

Luciano               Metal progressivo.

Aquiles               Se você citar 10 bandas mais importantes de todos os tempos…

Luciano               Ela é uma delas… Dream Theather…

Aquiles               … ela é uma delas.

Luciano               … esses caras te chamam para você ir lá e você vai e participa e é um negócio interessantíssimo que esse processo de audição virou um produto, foi trabalhado e foi apresentado para o mundo inteiro, todo mundo acompanhou, eu me lembro do teu fã clube  aqui e você foi, participou e não foi escolhido, fala disso.

Aquiles               Aquilo ali foi meio fora assim, eu me lembro que depois que eu voltei, na verdade quando eu acabei a minha audição eu já sabia que eu não ia ser o cara, porque você sente a vibração, você está falando com as pessoas ali dentro da sala, eu me lembro que aquela noite eu passei acordado a noite inteira pensando, será que  agora acabou? Acabou minha carreira agora porque eu tive a chance, a maior chance e eu não fui o cara selecionado, então na minha cabeça passou um monte de coisas, tipo assim, cara, agora deu para você porque você saiu do… até ali ninguém sabia que eu tinha ido para lá para fazer a audição e eu só fiquei sabendo quem eram os outros bateras 10 dias antes de ir para lá, porque dai o empresário falou, olha, eu acho bom apresentar todos vocês porque vocês estão exatamente no mesmo barco agora e aí eu vi todos aqueles nomes  daqueles caras que eu tinha o DVD deles na minha casa, aí eu falei assim, cara, agora o negócio ficou sério, ficou muito sério porque pô, eu fui o praticamente o único cara da América do Sul e que realmente vivia de uma banda de metal, os outros caras todos eram já educadores, pessoas que trabalhavam com DVD’s, com metros e ninguém sabia quem era o Aquiles Priester. Daí eu fui lá fazer a audição e a maioria dos brasileiros, especialmente, e eu preciso falar isso porque eu tenho tocado no mundo inteiro e a reação deles é diferente como o Aquiles que foi participar daquela audição, o brasileiro fala assim, é o Aquiles não entrou porque ele errou e os outros caras de fora falam assim, meu, você foi um dos 7 caras no mundo, está numa audição que é considerada a audição mais famosa da história da musica moderna e você estava lá, para substituir o cara que foi o maior influenciador de bateristas dos últimos 20 anos, então isso tem um peso e aí a pergunta é por que eles me escolheram? Não foi… eles me escolheram pelo que eu tocava, eles queriam ver como é que seria o Aquiles tocando aquelas coisas deles, logicamente que é, praticamente assim, o meu pensamento naquela época era, você lutou, lutou, lutou esse tempo todo, você passou a tua vida inteira para chegar nesse momento e você desperdiçou isso, você tem que encontrar uma forma, ali eu não tinha outro caminho a não ser seguir fazendo as coisas que eu tinha feito mas como eu sempre tenho muito bom senso e eu acredito nas coisas boas que você faz, uma porta que fecha abre outra, aí eu me lembro que o Tony MacAlpine ele ligou para o John Petrucci que é o guitarrista da banda e perguntou, de todos esses bateras, esses 7 bateras que você fez com exceção do que você escolheu e com exceção do Virgil Donatti e do Marco Minnemann, que eu já toquei junto, quem é o outro batera que você acha que encaixaria no meu tipo de música? E aí o Petrucci me indicou para ele, falou cara, pega o Aquiles, porque nas audições o som de batera dele foi um dos melhores que teve e todos os bateras usaram a mesma bateria, mas é aquele negócio da forma como você toca, então ele falou cara, o som dele é muito  bom e eu acho que tem tudo a ver com o tipo de música que você faz, então Tony MacAlpine é um artista menor do que o Dream Theather? Lógico que é, mas em termos de realização pessoal, para mim isso teve um peso que eu não consigo nem dimensionar, porque eu comecei a tocar esse tipo de música por causa do Tony MacAlpine  e aí o ano passado, em outubro de 2014 a gente estava realizando uma turnê dos 25 anos de lançamento daquele disco, o Maximum Security e eu estava tocando aquelas musicas…

Luciano               Que você ouviu lá atrás, 25 anos depois…

Aquiles               …  é, então eu ia estar ganhando muito mais dinheiro lá no DT? Com certeza, infinitamente, exclusivamente eu não estaria mais nem morando aqui, só que as pessoas, elas tem que pensar elas tem que ser um pouco mais sensatas cara, pensa bem, eles escolheram 7 bateristas do mundo inteiro, 6 bateristas moravam nos EUA, você tem ideia do problema que seria tirar um brasileiro com família, trabalhar toda a imigração dele, o greencard, os esquemas do imposto, será que não daria para a gente resolver isso com qualquer um dos outros 6? Mas só que eles me disseram o seguinte, cara, a gente queria o melhor do mundo em cada especialidade, então se você ver esses bateras que estão ali, não tem nenhum que seja parecido um com o outro, é cada um especialista no seu ramo e é por isso que você está aqui. Então se você pensar o seguinte cara, olha a quantidade de bandas de metal que tem no mundo inteiro, eu fui o único cara de uma banda de metal que foi para lá, eu devo ter algum valor, então nessas horas que você tem que  rever a tua própria história…

Luciano               É aquela história do brasileiro, quem ganhou a prata, não interessa…

Aquiles               … não interessa, exatamente

Luciano               … e ai foi segundo colocado não me interessa, então ou é tudo ou é nada…

Aquiles               … Agora, impressionante como os próprios americanos, o meu nome depois dessa audição, você pode ver pelos meus vídeos, pela minha mídia social tem muito americano, que é um mercado que eu sempre quis entrar e que nem o Angra conseguiu me colocar lá, porque o Angra é uma banda muito pequena lá e quando os caras vão no show do Tony tem um monte de gente que vai para me ver tocando e eles sempre falam, cara, te conheci na audição do DT, depois eu fui olhar teus vídeos, meu Deus cara, aquelas coisas que você toca é um absurdo, ou seja, possivelmente eu não era a pessoa mais certa para aquela banda, mas isso não significa que eu não sirva para outras coisas, é mais ou menos como emprego, você vai lá, tem 7 pessoas, se eu vou selecionar o cara que eu achar que é melhor para o meu negócio.

Luciano               Para quem começou tocando sem tocar bumbo, teve que enfrentar o cara que não queria deixar… lá atrás, cara, qualquer coisa que vier pela frente é aprendizado…

Aquiles               Mas é lógico que tem um massacre aqui do povo brasileiro, a galera meio que massacrou, eu acho que de uma certa forma eu entendo essa atitude deles, porque…

Luciano               Sabe para mim o que é essa atitude? É que é a frustração nossa, de brasileiro, que a gente queria ver um brasileiro lá…

Aquiles               Exatamente…

Luciano               … a gente fica frustrado ao não ver o brasileiro lá e cara, isso é bobagem, é coisa cultural…

Aquiles               … agora os caras, eles não se dão conta de que todos os outros 5 caras que não entraram também, porque que ninguém atira tantas pedras neles? Porque tinham 7 pessoas, só entrou um cara, então todos os outros 6 não valem nada? É uma coisa que eu não entendo.

Luciano               Bom, aí você está de novo no Rock In Rio…

Aquiles               Não mas antes disso uma coisa muito legal, depois dessa minha exposição no mercado americano, me chamaram para tocar no Modern Drummer Festival que é a mesma revista que me colocou no ranking, em 37 anos de ranking dessa revista numa um baterista brasileiro tinha entrado lá e meu DVD foi eleito o melhor DVD institucional do mundo, você tem ideia do que significa isso na bíblia da bateria mundial um DVD que não foi gravado em inglês, foi com legenda, entrar e ser eleito o melhor DVD do mundo, que é uma coisa que tem muita importância para eles e depois disso, no ano seguinte eles me chamaram para ir tocar no Modern Drummer Festival e ai foi um feito para a música brasileira, nunca nem um outro  baterista, com exceção do Airto Moreira, que já mora lá há mais de 30 anos, tinha tocado no festival e eu sou um batera de metal, eu sou um batera que tem um público segmentado, é um movimento limitado, segmentado e eu consegui entrar lá e eu quebrei várias barreiras, eu toquei nos maiores festivais de bateria do mundo e eu tenho todos os bateras que participaram daquela audição, a gente se  tornou próximo, tipo o Tom Masleng, ele é um grande amigo meu e ele é um cara que ele me chama para os eventos anuais que ele faz e ele  fala em público das minhas qualidades como batera, então se esses caras me dão um aval e acreditam no meu trabalho, se as empresas internacionais que eu trabalho acreditam e me levam para tocar no mundo inteiro porque eles acham que eu sou uma pessoa que faz a diferença enquanto eu toco, por que que eu tenho que me importar com meia dúzia de pessoas que comentam as coisas na internet sem ter uma cara?

Luciano               Você só tem que prestar contas para um cara, que é você mesmo cara, se isso está te botando satisfeito, então em 85 te desperta o amor pela bateria, essa coisa maluca que pode ser baterista ouve o Barone tocando num Rock in Rio e de repente, 2015, 30 anos depois está você no palco do Rock in Rio tocando com duas bandas e realizando… cara…

Aquiles               O grande sonho da minha vida…

Luciano               … esse arco né, que volta é essa para chegar lá. E ai?

Aquiles               … então, teve uma coisa mais especial, tipo o João Barone tocando em 85, ele está usando os pratos da Paist que eu sou patrocinado hoje e eu tenho produto Signature que são vendidos no mundo inteiro e no show de 30 anos dos Paralamas do Sucesso está o Barone tocando com o meu shimbau Signature para todo mundo ver, então isso é surreal e o que eu recebi de mensagem nesse dia das pessoas falando cara, o Barone está usando o teu prato e a gente se tornou assim amigos, a gente respeita, eu continuo respeitando muito o Barone, continua me influenciando muito e ele é um cara que ele reconhece isso em mim, ele falou cara, o que você fez pela bateria do Brasil, ele até brincou um dia, ele falou assim, cara, tenho até uma inveja branca porque o que você fez pela bateria do Brasil em termos de exposição e em termos de feitos, ninguém mais fez e possivelmente se tiver uma outra pessoa que consiga fazer isso, as pessoas vão sempre lembrar quem foi o primeiro que fez isso, isso é uma coisa real e de repente, 30 anos depois eu estou á tocando com o Noturnal, que é uma banda nova que a gente tem há praticamente 2 anos e a minha bateria é a maior bateria do festival inteiro, a logística que a gente teve que preparar para coloca a minha batera foi maior do que logística dos had liners, tipo do Mettálica, das grandes bandas que tocaram lá, de alguma forma isso ficou marcado e a gente fez um show muito certeiro, a gente levou alguns elementos extras do metal, a gente colocou dançarinas de pole dance lá para dançar como zumbis, o Tiago teve uma brilhante ideia de trazer a mãe dele, que foi uma cantora extraordinária dos anos 60 e 70 aqui no Brasil, que depois teve que ir embora do país, então a gente fez um show que era metal suficiente para todos os metaleiros mas com uma coisa nova e foi isso que nos deu espaço na mídia, naquele final de semana nós entramos como as 10 coisas mais legais e mais inesperadas do festival, pô, isso ai é uma coisa legal, você ser uma banda pequena, que não tem o apelo comercial que uma banda pop tem e você estar em todos os veículos maiores veículos do Brasil chamando a atenção e aí uma semana depois eu estava lá no palco outra vez, tocando com uma nova banda minha chamada Balt Trash e foi o primeiro show da banda e a gente arrebentou, então hoje em dia eu tenho que dizer que não existe sonho…

Luciano               Que você não tenha realizado…

Aquiles               … é, tudo o que acontecer daqui para a frente é vantagem agora.

Luciano               Essa era a pergunta que eu ia falar para você no final, para a gente chegar no final aqui. E o futuro?

Aquiles               Cara, o futuro ele pertence àquele garotinho lá, o Aquiles Priester de 16 anos, que eu não sei de onde sai tanta força e tanta energia para fazer essas coisas, o Tony MacAlpine, que é um cara que tem 10 anos a mais do que eu, ele fala assim, Aquiles, eu fico impressionado com a tua energia, mas não é só quando você toca, é o tempo inteiro, tudo o que envolve a turnê, tudo que envolve a música, você está sempre feliz de poder estar fazendo isso, eu acho que é exatamente esse o segredo todo, você saber valorizar as coisas através da sua própria história e não ficar se baseando na história de outros, você se valorizar e você falar assim, cara, eu estou aqui hoje porque eu realmente dediquei parte da minha vida para que isso aqui acontecesse, eu fico muito feliz de ter milhares de seguidores e de pessoas que se inspiram na minha história que não é a história daquele músico que tem músico na família e que o pai fala assim, não filho, eu vou te bancar porque eu sei que aqui está um caminho, eu vou te botar já no ciclo, eu fui fazendo as coisas por conta sem saber como fazer, na base da intuição, então eu acho que aquele Aquiles de 16 anos sempre que aparece uma dificuldade na minha vida hoje, eu falo assim, ok, esse Aquiles de 44 faria assim, mas o que o Aquiles de 16 anos faria? Então eu sempre sigo o Aquiles de 16 anos porque eu sei que ele vai realmente em busca de quebrar esses paradigmas e de fazer as coisas de uma forma ingênua, mas 100% passional.

Luciano               Eu fico feliz cara, de fazer um pedacinho parte dessa história de certa forma…

Aquiles               Você foi fundamental cara.

Luciano               Mas eu fico super feliz cara de…

Aquiles               Eu sempre cito você em todas as palestras que eu faço, quando vou em faculdades, escolas de música, nos meus workshops tem uma parte que é dedicada à minha biografia, eu conto a tua história sempre, falo para as pessoas seguirem você que você é um cara diferenciado, você é um cara que também, não importa aonde você esteja, você vai fazer a diferença pela forma como você conduz as coisas e pelo que você é naturalmente, você não precisa se preparar, você já é assim.

Luciano               Eu vou te dar a minha dica então, a tua dica para o teu futuro é o seguinte, quando é que você vai tocar jazz hein?

Aquiles               Bom, eu já estou muito bem, a gente já começou a fazer um acústico, então acho que o próximo caminho, depois que eu ficar velho e não tiver perna para tocar 2 bumbos, quem sabe a gente não vai para o jazz.

Luciano               Ai vai ser o Aquiles eterno. Valeu cara. Um abraço.

 

Transcrição: Mari Camargo