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LíderCast 016 – Ozires Silva 1

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Luciano Pires -

apoio dkt

O LíderCast chega até você com apoio da DKT Brasil que lidera diversas ações de marketing social para incentivar o combate às doenças sexualmente transmissíveis e facilitar as políticas de planejamento familiar.  Acesse www.dktbrasil.com.br.

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Luciano             Hoje no LiderCast a entrevista é com uma daquelas personalidades que fazem parte da história do Brasil: Ozires Silva. Fundador da Embraer, ex ministro, ex presidente da Petrobrás, Ozires é natural de Bauru, a minha terra natal. Sai de lá ainda garoto, com o sonho de se transformar em engenheiro aeronáutico em 1947. Uma entrevista reveladora, emocionante, com momentos inacreditáveis que deixam clara a importância de quem decide cumprir um papel de liderança e assim impacta na cidade, no estado, no país e no mundo em que vive. Uma entrevista que para mim foi um privilégio.

Luciano           Muito bem, mais um LiderCast aqui, dessa vez vai ser mais do que especial, deixa eu contar porque. Meu entrevistado aqui, ele tem uma relação comigo e com a minha família que vai muito além da minha própria existência. Entre outros atributos fantásticos, primeiro ele é de Bauru, minha terra natal, segundo, amigo de infância do meu pai, se conheceram garotos lá em Bauru, ele faz parte de um grupo de pessoas que é um grupo assim diferenciado. Deixa eu contar um pouquinho de coisas que eu já vivi. Tem certas pessoas que a gente priva do contato e que conversa com as pessoas e aprende muito a respeito e principalmente tem aquela consciência de que essas pessoas, de alguma forma, entram na história do país, eu já vivi coisas assim, trabalhando junto com o Orlando Vilas Boas, fiz trabalho junto com Emerson Fitipaldi, que são pessoas que tiveram um impacto na vida dos brasileiros de certa forma e esse que está aqui comigo hoje é um desses, quem entram para a história do país, está nos livros e por tudo que fez aqui. É um prazer imenso tê-lo aqui conosco, eu quero saber aquelas três perguntas básicas para começar o programa: seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Ozires               Bem, muito obrigado por essa introdução, muito acima do que eu posso merecer, mas meu nome é Ozires Silva, pode me incluir entre os Silvas qualquer e eu estou vivendo agora 84 anos que são os primeiros 84 anos, eu digo sempre que os próximos 84 anos vão ser muito mais excitantes e o que eu faço hoje, eu me dedico profundamente à educação, porque realmente a educação foi me dito em Bauru, quando eu estava no ginásio, que educação transforma, então eu estou tentando transformar os jovens dando a minha contribuição para transformar os jovens para tornar esse país muito melhor do que ele é.

Luciano             Que grande trabalho.

Ozires               É um trabalho grande, mas vale a pena.

Luciano             Eu tenho certeza que você que está ouvindo a gente aqui já ouviu o nome de Ozires Silva, eu não vou ler o currículo dele aqui, mas eu vou passar algumas coisas pontuais, só para você entenderem quem é que está aqui na minha frente. Ozires Silva, piloto militar, engenheiro aeronáutico, foi o homem à frente do desenvolvimento do Bandeirante, o primeiro avião produzido aqui no Brasil, um projeto brasileiro feito aqui no Brasil, aliás eu vou dar uma pausa aqui para dizer uma coisa: 1968, 69, o Bandeirante foi para Bauru e  foi pilotado por Ozires Silva, chegou lá em Bauru para fazer uma demonstração, foi recebido pelo prefeito, uma festa no aeroporto, aquela bagunça toda e eu estava lá com 12 anos de idade e o Ozires pega e convida uma série de autoridades bauruenses para dar uma volta no avião, meu pai não voa de avião nem amarrado pelos dois pés, o que meu pai fez? Me  pegou e me botou dentro do avião, então eu voei no Bandeirante, naquele protótipo do avião pilotado por Ozires Silva em 1968 ou 69 em Bauru, eu estava dentro do avião.

Ozires               Deve ter sido em 69.

Luciano             69, foi isso mesmo e voei, estava dentro daquele avião, o senhor estava pilotando, olha que maravilha.

ozires e eu

Ozires Silva apresentando o Bandeirante em Bauru em 1969. Ao lado dele Luciano Pires, pai, embaixo o Lucianinho com 13 anos de idade.

Bom, depois disso ele fez mais algumas coisinhas, ele simplesmente criou, foi um dos criadores da Embraer, foi presidente da Petrobrás, foi ministro da infraestrutura, cuidou depois, voltou para Embraer, para a privatização da Embraer, foi presidente da Varig e, entre outras coisas, adotou algumas posturas inovadoras, foi trabalhar com uma empresa cuidando do desenvolvimento de pele artificial, bom…

Ozires               Pele natural…

Luciano             … pele natural, o homem não para, o homem não para, vamos voltar lá atrás. De Bauru saem algumas coisas esquisitíssimas, a gente quando fala eu sou bauruense, fala cara, mas de Bauru… Pelé apareceu em Bauru, o sanduíche mais famoso desse país aqui é de Bauru, o primeiro astronauta brasileiro sai de Bauru, Ozires Silva sai de Bauru, o maior prostíbulo da história do Brasil era em Bauru, o que acontece em Bauru, Ozires?

Ozires               … é bem maior, você sabe disso. Eu não sei o que acontece em Bauru não, mas eu me lembro que em 1943, foi publicado um livro no Brasil, com o título, “Brasil o País do Futuro”, o autor desse livro era Stefan Zweig, um  alemão e ele não falou diretamente do Brasil, ele apenas disse que o homem é produto do meio, de modo que eu diria que em Bauru deve ter um DNA qualquer que produz essas pessoas que procuram fazer diferença.

Luciano             Legal, legal. Mas vamos falar um pouquinho, porque eu tenho poucas chances de falar com bauruenses aqui, Bauru teve o primeiro jornal com offset do interior do estado de São Paulo, o primeiro jornal colorido, uma das primeiras TV’s de São Paulo foi lá em Bauru, que mais? A única avenida que explodiu totalmente, foi lá em Bauru, quer dizer, tem muitas coisa que acontecem ali, é bem interessante esse ponto aí. Mas eu quero ouvir, tem uma coisa muito interessante que outro dia eu vi, lendo um pouco da sua história que é aquela coisa daquele menino que fica invocado com uma coisa, o país do homem que inventou o avião não fabricar avião, me conta um pouco dessa visão, como é que essa visão surge?

Ozires               Bem, isso também é um produto de Bauru e o presidente da estrada de ferro noroeste do Brasil, cuja sede era em Bauru, ele investiu no aeroclube local e sinceramente eu acho que nós podemos dizer sem medo de errar que transformou o aeroclube de Bauru no melhor centro aeroviário do interior do país, eu não sei se você conhece esse episodio, mas os pilotos recrutados pela FAB para voarem na montagem da força expedicionária brasileira que participou da segunda guerra mundial, esses pilotos foram treinados em Bauru…

Luciano             Lá em Bauru.

Ozires               … em Bauru e ele investiu nesse aeroclube e o aeroclube tinha uma escola de aeromodelismo, uma escola de planadores e uma escola de pilotagem, eu fui uma das primeiras vítimas da escola de aeromodelismo e comecei fazer aeromodelo junto com um grande amigo que sempre fez parceria comigo, Benedito Cesar, o apelido dele era Zico também, de Bauru, nossos pais trabalhavam na Companhia Paulista de Eletricidade, CPFL, que era o nome na época e acabamos nos conhecendo nos apaixonando ambos pela mesma coisa e nós conversávamos muito sobre aviação, casualmente nós tínhamos um professor de química, no antigo Ginásio do Estado, lá em Bauru, que hoje é Ernesto Monte, nome de um ex prefeito…

Luciano             Onde eu estudei.

Ozires               … hein?

Luciano             Eu estudei no Ernesto Monte.

Ozires               … estudou lá, eu também estudei lá mas só com o nome de Ginásio do Estado. Ele era um professor de química mas apaixonado por Santos Dumont, então qualquer evento que se justificasse ele começava a aula com uma locução qualquer sobre Santos Dumont e nós vimos o aeroclube e lá no aeroclube também, por coincidência, tinha emigrado para Bauru um suíço, que fabricava planadores na Suíça…

Luciano             Conheci…

Ozires               … o Kurt Hendrix, talvez você tenha conhecido e o Kurt começou fazer um planador lá em Bauru, o Zico e eu, esse meu amigo, nós dois ficávamos observando o tempo inteiro e ele fazendo observações sobre as soluções técnicas que permitiam o vôo, porque evidentemente a natureza nos fez a incapacidade de voar, para voar nós precisamos de um artefato que teve que ser criado pela inteligência humana e na construção desse avião ele sempre comentava que existiam pessoas que tinham sido absolutamente diferenciadas na criação do avião, seja por pequenas modificações técnicas, por reais invenções de uma série de coisas que eram aplicadas no avião que faziam com que fosse, ele chamava até de pessoas especiais e foi aí pela primeira vez que nós ouvimos falar de engenheiros aeronáuticos e foi ai conversando uma coisa ou outra que esse professor de química, numa das aulas falando de Santos Dumont, quando ele terminou a aula eu perguntei a ele, escuta professor, nós tivemos Santos Dumont que foi realmente um sábio reconhecido no mundo inteiro embora não muito comemorado por nós, mas por que que todos os aviões do aeroclube de Bauru são americanos? E aquilo foi justamente, o professor deu uma resposta que realmente não foi boa resposta dele, mas o Zico e eu ficamos com isso na cabeça e então decidimos tentar ser engenheiros aeronáuticos não para criar avião, ninguém poderia imaginar, com 14, 15, 16 anos de idade, a gente podia ter uma premonição de que iríamos ser protagonistas da fabricação de aviões no Brasil de jeito nenhum, mas sem dúvida nenhuma nós queríamos trabalhar numa fábrica de aviões que nem sabíamos se existia ou se não existia, mas foi aí então que nós começamos, imagine com 15 anos de idade, sentado nos bancos da avenida Rodrigues Alves, lá no centro de Bauru, que tinha, na época, tinha um canteiro no meio e nós dois sentados ali discutindo qual o caminho seguir para sermos engenheiros aeronáuticos.

Luciano             isso em 1900 e… 45

Ozires               Em 1945, 46, tinha terminado a segunda guerra e a segunda guerra tinha contribuído muito para nós porque nós começamos a ver os aviões que saíam tanto do lado dos alemães como do lado dos aliados e nós sabíamos o nome de todos esses aviões, discutíamos as características técnicas, nos dando uma indicação que venceria a guerra quem tivesse o melhor equipamento, coisa desse tipo. E nós ficávamos ali naquela avenida ali de preferência sempre num banco que ficava em frente o tiro de guerra 82, que foi uma solução criada pelo Getúlio Vargas quando determinou que o serviço militar era obrigatório e os tiros de guerra resolviam o problema dos reservistas como eram chamados e foi aí um dia que o comandante do tiro de guerra atravessou a rua e nos surpreendeu falando, escuta, o que vocês discutem o tempo inteiro? Então nós falamos que nós frequentávamos o aeroclube, contamos essa história toda, que gostaríamos de um dia poder trabalhar numa fábrica de aviões, aí ele falou por que é que vocês não começam pela FAB? E aquele “por que vocês não começam pela FAB” foi como abrir uma estrada para nós de vida, ele disse você fazem um curso superior na força aérea, acabam sendo pilotos e vocês ficam próximos das pessoas que tomam decisões a respeito da aviação no Brasil e ele obteve os prospectos, nós fizemos o concurso como duas pessoas absolutamente normais, fizemos um concurso de admissão em 1946, onde nós dois fomos ao pau…

Luciano             Ah é?

Ozires               … é, aí novamente entrou em cena o suíço e o suíço falou um negócio que eu jamais me esqueci, ele me falou, vocês tem que entender que a vida é constituída por uma escada de subida as vezes muito íngreme, vocês falharam em subir o primeiro degrau, significa que vocês não colocaram esforções suficientes, estudem mais para vocês subirem e não esperem que a vida dê qualquer coisa de presente para vocês, cada degrau que vocês subirem vai ser produto de muito esforço, olha que…

Luciano             Isso é meritocracia na veia em 1940 e pouco da boca de um suíço…

Ozires               … na boca de um suíço…

Luciano             … em Bauru.

Ozires               … em Bauru isso foi em 1947 e aí nós voltamos, aí o Zico e eu, nós estudávamos na rua, inclusive andando, um disparava para o outro perguntas das matérias selecionadas pelo concurso  que esse próprio sargento, comandante de tiro de guerra tinha obtido, não sei aonde, mas ele trouxe os prospectos, currículo, tudo o que tinha que fazer par prestar um concurso e ser aprovado e realmente nós, em 1947, no final de 47, fizemos concurso e da segunda fez ambos fomos aprovados, mas eu vi um problema muito sério, no Rio de Janeiro, em relação fraude coisa dessa natureza, o concurso foi cancelado e nós não sabíamos, então quando chegou na data da convocação, que nós tínhamos recebido anteriormente por telegrama, o telegrama, naquela época era um meio de comunicação, nós nos largamos para o Rio de Janeiro…

Luciano             com 16 anos..

Ozires               … com 16 anos, chegamos no Rio de Janeiro, foi até gozado porque o dinheiro era curtíssimo, eu me lembro que nós pegamos a segunda classe da central do Brasil que era péssima escrito com Ç, passamos a noite toda no trem…

Luciano             Quantas horas era de Bauru até lá? Era de Bauru a São Paulo, depois…

Ozires               É, de Bauru até São Paulo nós até que íamos bem porque Cia. Paulista de Estrada de Ferro que a Paulista era muito boa, dava 6 horas exatamente agora, Central do Brasil não tinha hora de saída nem hora de chegada, nós passamos a noite toda na segunda classe muito mal acomodados, mas chegamos num domingo de manhã no Rio de Janeiro, nem ele nem eu conhecíamos o Rio, dinheiro curto no bolso…

Luciano             Falando porta, porco, Fernando…

Ozires               Exatamente, enrolando a língua como nós bauruenses, aí descobrimos que podia pegar o trem de subúrbio do Rio de Janeiro, a escola de aviação chamava escola da Aeronáutica, predecessora da academia agora, que está em Pirassununga e pegamos um ônibus que era um ônibus péssimo, a carroceria do ônibus fazia quase que um V, e batemos lá em Marechal Hermes, perto de Cascadura, na  zona norte, domingo, para nos apresentar, aí quando nós fomos apresentados lá, falamos com um soldado que estava na entrada da escola, soldado da aeronáutica, ele nos levou ao oficial do dia e o oficial de dia falou, vocês não sabem não que foi adiada a matrícula porque houve fraude no exame e tudo isso? Foi convocado um novo exame, e aí nós ficamos apavorados, não tínhamos dinheiro, não tínhamos onde comer, não tínhamos onde dormir, nada. Aí o oficial de dia, não me lembro dele, nunca mais consegui me lembrar dele mas foi um homem excepcional, ele falou bom, isso não tem problema, eu boto vocês num cantinho de um alojamento dos soldados e vocês ficam lá esperando esse negócio, como aconteceu, Luciano, eu não sei explicar, eu só sei que nós ficamos 4 meses num cantinho, no alojamento dos soldados de uma forma absolutamente irregular dentro de uma unidade militar, são coisas…

Luciano             Que coisa impressionante…

Ozires               … são coisas, agora o que era importante é que nós tínhamos um planejamento de vida, nós fizemos em Bauru um planejamento de vida, nós queríamos ser engenheiros aeronáuticos, pegamos o desvio porque era necessário, nós descobrimos que o Brasil não tinha escola de engenharia aeronáutica na época, mas aquele conselho do sargento lá do tiro de guerra foi ótimo, porque ele disse, realmente que fica perto dos aviões, fica perto da Força Aérea que um dia…

Luciano             Mais chance de acontecer era ali né?

Ozires               … mais chance de acontecer alguma coisa.

Luciano             Deixa eu lhe perguntar uma coisa aqui, deixa eu voltar um pouquinho lá para aquele… os dois meninos de 15, 16 anos de idade que chegam diante de uma encruzilhada que exige a eles sair de casa e morar longe da família num lugar que eles não tem a menor ideia de como é aquilo, ou seja, é na frente tem uma escuridão, sei que eu quero ir para lá mas é tudo escuro, como é que foi essa decisão de ir para lá, como é que foi a família ouvir o molequinho dizer estou indo embora para o Rio de Janeiro, como é que foi esse processo?

Ozires               Olha, o meu pai não colocou nenhuma observação, minha mãe ficou muito preocupada e engraçado foi que nem o pai e a mãe do Zico ficaram preocupados e nós embarcamos, mas efetivamente essa pergunta suscita exatamente uma coisa como nós vimos hoje no mundo das comunicações, como nós estamos fazendo agora e tudo isso, tudo com solução praticamente existente. Nós não sabíamos nada, minha mãe relutou bastante, mas afinal cedeu aos meus apelos pessoais, mas eu não tinha argumentação para ela sabe, que nós estávamos sendo impelidos, com uma vontade de ser engenheiro aeronáutico que estava mais distante que você possa imaginar, mas nós fomos impelidos para isso e quando eu fico pensando, eu próprio, infelizmente o Zico morreu muito cedo, mas quando eu fico pensando nisso, onde que eu arranjei tanta coragem para fazer uma coisa dessa natureza e o nosso conhecimento do Rio de Janeiro pode ser expressado pelo que aconteceu quando nós descemos do trem na Central do Brasil, eu olhei para um carioca que estava passando ali, perguntei, onde é que fica o centro, aquela pergunta típica que a gente fazia naquela época, nós não sabíamos que estávamos no centro do Rio de Janeiro, de modo que mostra exatamente que nós estávamos palmilhando caminhos  que nós não conhecíamos, nós tínhamos ideia do destino que nós queríamos, por onde ir não.

Luciano             É uma coisa muito louca, a gente avalia isso hoje aqui, sem Zico, dificilmente isso aconteceria, sem o suíço, dificilmente aconteceria, sem o sargento lá de Bauru, não aconteceria, sem guerra, eu acho que não aconteceria porque eu acho que a guerra trouxe aquela evolução tecnológica, aquela revolução que está acontecendo, olha como esses componentes vão se alinhando.

Ozires               Mas teve outros, por estranho que possa parecer, esse ginásio do estado, que hoje é o Colégio Santos Dumont…

Luciano             É o Ernesto Monte…

Ozires               … é, o Ernesto Monte, eu acho que também não teria acontecido, porque o diretor do Ginásio do Estado na época, era professor Antônio Cabral e ele trouxe professores novos de São Paulo e professores que eu lembro o nome deles todos, porque eram absolutamente excepcionais e um professor, de matemática, ele conversando uma vez conosco e nós falando sobre ser engenheiro aeronáutico, não tinha escola, aquela história toda, ele falou, então vocês precisam de educação, educação transforma, estudem bastante, ponham tudo que vocês puderem na cabeça, que as soluções vão aparecendo e foi exatamente, você veja que aquilo que o Stefan Zweig falou muito propriamente no livro dele, “Nós somos produto do meio” e o meio tem que dar esse estímulo para a gente, quando você perguntou sobre o processo criativo de Bauru, pode ter certeza que eu não sei se hoje ainda está lá, mas o DNA estava naquela época e foi essa direção, acabamos ficando lá, voltando na história anterior, imagine que nós chegamos nos primeiros dias de janeiro no Rio de Janeiro, em 1948 e nós fomos matriculados no dia 28 de abril de 48, ficamos num cantinho…

Luciano             Sem dinheiro para nada…

Ozires               … sem absolutamente dinheiro, a minha mãe as vezes colocava uma nota de 10 reais, vou dizer porque depois de 7 moedas, porque eu enfrentei 7 moedas no Brasil eu não sei quanto era, mas ela botava aquele dinheirinho numa carta e chegava para mim lá na Escola de Aeronáutica do Rio de Janeiro, quer dizer, a gente ia vivendo, quer dizer, então comia com os soldados, dormia num catre de lona, nesse tempo todo, então no dia 28 de janeiro de abril, nós fomos matriculados…

Luciano             Que impressionante essas coisas e a gente olha hoje, hoje eu tenho medo de mandar meu filho de 30 anos para a Inglaterra tendo acesso a tudo, falando com ele no telefone, olhando aqui a cara dele, ele está lá em Londres, fala comigo aqui e a gente fica conectado e nós temos medo, imagina naquela época, quer dizer, o pai e a mãe mandam  um filho e fala nem sei quando é que eu vou conseguir falar com ele de novo, porque não vai ser por telefone, naquela época, eu vou ter que mandar uma carta para ele, né?

Ozires               Não, não tinha telefone em Bauru praticamente, quer dizer, o primeiro telefone que chegou em Bauru, eu não sei precisar que data foi, mas imagine que os telefones, primeiro que chegou só no telefone público, quer dizer, é uma estação telefônica que ficava até na Rua Primeiro de Agosto e essa estação, a gente ia lá para fazer telefonemas, depois disso teve um telefone que eram de 3 algarismos só, até na minha casa foi uma festa quando meu pai conseguiu botar um telefone lá e que era 426, nunca me esqueci…

Luciano             426

Ozires               … 426, até eu brincava que era 4+2 = 6…

Luciano             Eu sou da geração seguinte que pegou 4 números, então o meu primeiro telefone lá em casa tinha 4 números…

Ozires               … tinha 4 números…

Luciano             Tinha 4 números.

Ozires               … mas era tudo isso, tudo isso somou e esses professores, o professor Cabral que era o diretor lá do Ginásio do Estado, colocou lá pessoas realmente diferenciadas e eles nos deram instrução pública, que eu diria eu é da melhor qualidade e nós estávamos realmente preparados embora tivéssemos ido  ao pau no concurso inicial, mas sem dúvida nenhuma foi o impulso que nós precisávamos e esse impulso, por força das circunstâncias, talvez da vontade, coisa dessa natureza. E se eu disser a impressão que nós tivemos, nós não achávamos que estávamos correndo nenhum risco, a gente estava percorrendo uma estrada que nossa, sabíamos que um dia ia dar para nós, para podermos ser engenheiros aeronáuticos, 48 entramos na escola de aeronáutica, predecessora da atual academia e em 51 nos formamos oficiais, o Zico gostava muito de aviões de caça, tudo isso, decidiu ir para aviação de caça e eu fui convencido por um capitão que trabalhava lá na escola de aeronáutica para aceitar uma opção que estava sendo aberta de ir para Belém do Pará, lá em Belém do Pará estavam colocando a FAB estava colocando esse serviço, esquadrão de apoio à população ribeirinha, voando aqueles aviões Catalinas que era um hidroavião anfíbio, muito próprio para a Amazônia…

Luciano             Então atenção para você que está nos ouvindo aqui, nós estamos falando em Belém do Pará em 1950 e…

Ozires               … 2…

Luciano             … e 2…

Ozires               … comecinho de 52…

Luciano             … 1952 na Amazônia.

Ozires               … na Amazônia, naquela época Belém era considerado dentro da força aérea como desterro, mas eu queria aprender e eu falei, puxa, se eu puder voar nesses aviões, atendendo as populações ribeirinhas, eu sempre tive na minha cabeça algum sentido de prestar um valor, criar valor para a sociedade, eu sempre pensava nisso e foi justamente fazendo isso eu passei 5 anos lá em Belém, voando esses aviões, voei um bocado Catalina e ajudei muita gente lá dessas populações ribeirinhas…

Lucianno           Pousando naquelas pistas de…

Ozires               … na água também porque o avião era anfíbio então a gente podia pousar na água também, foi uma das regiões que praticamente ninguém conhecia, em resumo eu diria que foi uma escola de Brasil, que aprendi um bocado, um Brasil foi muito útil depois, muito útil mesmo e o trabalho que nós fizemos foi muito apreciado inclusive pelo brigadeiro Eduardo Gomes, posteriormente ele foi candidato à presidência da república, não foi eleito, mas o brigadeiro Eduardo considerava Belém um desterro e uma vez ele foi visitar Belém, disseram lá no gabinete do ministro que ele era ministro da aeronáutica, que ele foi convencido que precisava pelo menos dar um pulo em Belém, ele foi e quando ele viu nosso trabalho ele falou, vocês estão aqui perdidos, não, vocês tem méritos suficientes para estar no correio aéreo nacional e aí nos deu uma promoção, nós entramos para o correio nacional, mas o Zico, que tinha ficado na aviação de caça, quando eu falo nós é porque nós fomos em 10, 10 recém formados para lá mas o Zico não foi porque o Zico ficou no Rio de Janeiro, em 1955 ele sofreu um acidente fatal e morreu…

Luciano             Novo assim…

Ozires               … ele morreu num acidente…

Luciano             … aéreo?

Ozires               … acidente aéreo, acidente no avião de caça, o Zico morreu e ele teve uma premonição dessa morte dele, dele ou minha, porque eu estava vindo de Belém, quando tinha acabado de ser transferido pelo brigadeiro Eduardo, pelo ministro, para o Rio de Janeiro, para o correio aéreo, eu sempre dormia no apartamento dele quando estava no Rio e ele falou que tinha sonhado que um de nós estava sentado dentro de um avião vendo o caixão do outro voando para Bauru para ser enterrado em Bauru, aí eu perguntei para ele, quem? Ele falou, não sei, um de nós. Uma semana depois ele morreu e o pessoal da FAB que sabia da nossa amizade teve a gentileza de sair do Rio, pousar em São Paulo para me pegar e eu me vi…

Luciano             E você foi…

Ozires               … e eu me vi sentado naquele avião vendo o caixão do Zico.

Luciano             Que coisa.

Ozires               … era, um negócio assim, uma real premonição dele, olha, sinceramente, Luciano, tudo aquilo que nós tínhamos pensado na estrada da vida que queríamos ser engenheiros aeronáuticos, aquilo tudo quase que morreu na minha cabeça.

Luciano             Era a pergunta que eu ia fazer, que é essa consciência de que esse negócio cai.

Ozires               E ele na realidade era realmente uma pessoa diferenciada, o Zico, se eu puder dizer, entre nós dois, ele era o líder do grupo, do grupo de dois e que tinha as ideias, criativo na área da aviação e tudo isso, de modo que eu perdi não somente um grande amigo, mas também um líder que estava do meu lado, mas aí eu continuei a minha vida…

Luciano             Mas espera aí, espera ai, deixa eu explorar um pouquinho mais isso aqui: aí de repente surge diante de si aquela realidade doída, de que eu estou me metendo num treco muito perigoso, esse  acidente aconteceu com ele, pode acontecer comigo, eu estou voando, estou voando com uma tecnologia que não estava tão evoluída assim etc e tal, não houve esse momento de parar e falar assim, eu acho que eu vou para outro lado, esse caminho… não?

Ozires               Não.

Luciano             Não, estava claro?

Ozires               Eu não colocava isso em dúvida, quer dizer, continuei a rota que nós tínhamos imaginado porque nessa época você vê hoje os jovens em esportes arriscados fazendo coisas quase impossíveis, a juventude se arrisca muito e eu não tive isso em dúvida, eu continuei a viver, mas sem dúvida nenhuma e aproveitando a sua colocação, eu fui nesse período de 55 a 58, 3 anos depois, eu era um oficial da FAB, chegava 7 horas no quartel de manhã, saia 5 horas da tarde, fazia minhas missões, voava no correio aéreo, viajava muito, ficava muito fora de casa, eu tinha me casado em 2052 com uma bauruense…

Luciano             Que era em mil…

Ozires               1952

Luciano             1952

Ozires               Nós começamos uma vida de casado em Belém, eu fiz uma economia enorme para pagar a passagem dela e levei minha mulher, Terezinha, para Belém e ela foi…

Luciano             Bauruense?

Ozires               … bauruense, e ela foi uma companheira extraordinária, ela participou muito disso, nós conversávamos muito a respeito de tudo o que estava acontecendo, aí novamente eu até diria para as pessoas que estão me ouvindo, quando você pensa em qualquer coisa e quer fazer, tem uma determinação, tenham endereço, tenha uma coisa qualquer, parece que as coisas conspiram para ajudar de alguma maneira, ou para prejudicar.

Luciano             Que a frase que se diz hoje é “o universo conspira a seu favor” quando você pensa e quer, o universo conspira a seu favor.

Ozires               Eu tinha que renovar a minha carteira de voo, eu já era instrutor do correio aéreo nacional, mas na aviação, acho que até hoje as pessoas tem que renovar, os pilotos tem que renovar sua licença a cada ano e fui ao Rio de Janeiro, eu tinha, pouco antes eu fui transferido para São Paulo, a convite do brigadeiro Faria Lima, irmão do que foi prefeito de São Paulo, estava recém instalado em São Paulo, venceu minha carteira, eu fui ao Rio de Janeiro, com um avião aqui da base aérea de Cumbica, fazer um treinamento que eu tinha voado bastante lá na escola de aeronáutica e aí anoiteceu, atrasou lá meu voo, minha prova e dormi na base aérea do Galeão, quando foi 3 horas da manhã fui acordado, era um colega meu, que eu já tinha conhecido em Belém, ele falou, Ozires desculpe acordá-lo a essa hora mas eu preciso renovar o meu voo, tenho que fazer um rechek, tinha a parte teórica e a parte de voo eu era checador do correio aéreo, ele falou, você se incomoda de levantar agora as 3 horas da manhã? Eu arranjei um avião e você faz o exame, faz o exame porque eu não posso perder aula do ITA, aí quando ele falou em ITA eu me interessei um bocado, aí realmente ele tinha arranjado um avião, nós decolamos lá no Rio, eu fiz o recheck dele, foi um recheck tranquilo porque não tinha tráfego nenhum, 3:30, 4 horas da manhã nós voamos e aí ele começou a me contar algo do ITA, pode imaginar que quando ele falou que o ITA…

Luciano             instituto Tecnológico da Aeronáutica.

Ozires               … que fazia engenheiros aeronáuticos, formava engenheiros aeronáuticos e ele foi discorrendo sobre o ITA e num certo momento ele interrompeu a descrição dele sobre o ITA e falou espera aí, você não quer ser engenheiro aeronáutico? Eu falei, olha, você nem imagina, aí ele falou, perguntou, fez uma série de perguntas quanto à qualificação, ele falou, você não deve ter visto, mas o ministro acaba de assinar uma portaria que aqueles oficiais que fizerem a aplicação, eu era, nessa época eu era segundo tenente, ele falou, se você fizer uma aplicação e receber a aprovação do ministro da aeronáutica e faça um concurso para o ITA, passando no concurso ganha uma bolsa integral para se formar em engenharia aeronáutica.

Luciano             Quer dizer, se esse cara vir lhe acordar as 3 horas da manhã e você vira para ele e fala o seguinte, cara, não me enche o saco, eu estou dormindo, e não vou fazer e você tivesse dito que não…

Ozires               Não, mas olha, eu faria aquele voo de qualquer jeito, mas quando ele começou a dizer que não podia perder aula no ITA, eu queria saber que animal era esse, o que é isso e foi aí que ele falou, começou a fazer umas perguntas sobre as minhas qualificações, os cursos que eu tinha feito, os aviões que eu tinha voado, ele falou olha, não há razão para o ministro da aeronáutica não aprovar um requerimento seu, olha, sinceramente, eu subi naquele avião como aviador, oficial aviador, desci daquele avião como engenheiro, a cabeça fez…

Luciano             Virou…

Ozires               … a cabeça virou e aí não dormi mais, voltei para o meu alojamento, não dormi mais aí fui cedinho para a decolagem no avião, não podia voar noturno então fui para a cabeceira da pista com o motor virando quando o operador da torre disse que o sol nasceu eu decolei e vim pelo Vale do Paraíba, voando baixo…

Luciano             Sozinho?

Ozires               … sozinho, vim voando baixo pelo Vale do Paraíba até Cumbica, que era a base aérea onde eu estava e fiquei matutando como que eu falaria para o brigadeiro Faria Lima, que tinha me tirado do correio aéreo nacional para criar um esquadrão de busca e salvamento aqui em São Paulo, eu falei, poxa, faz dois meses que ele fez isso, ele não vai me deixar, ele não vai me deixar abandonar esse projeto, até porque realmente o brigadeiro Faria Lima, naquela época, ele olhava para mim e dizia, você vai ter uma carreira na aeronáutica espetacular, aí foi, eu pousei em Cumbica lá pelas 7 horas da manhã e fiquei sentado na  sala de espera do brigadeiro e aí, quando o brigadeiro chega, eu pedi para falar com ele e perguntei se ele aprovava um requerimento que eu iria fazer para o ministro, ele tinha que aprovar esse requerimento, ele falou, negativo, falou não, de jeito nenhum não vou deixar que você jogue toda essa carreira que você embasou para crescer na FAB só para ser engenheiro aeronáutico, mas aí eu contei a história de Bauru, do sonho de a gente ser engenheiro aeronáutico, insisti muito, a secretária dele, cujo nome eu me lembro, Dona Elsie, ela entrava e saía na sala o tempo inteiro, não deixava incomodar, ela se interessou pelo negócio e até ela falou, mas brigadeiro, pensa um pouco…

Luciano             Ela se meteu?

Ozires               … se meteu na história, ela falou, pensa um pouco, o que o Ozires está dizendo faz o maior sentido, ela entendeu,  ele falou está bom, então faz o requerimento eu mando para o ministro. O ministro aprovou e aí eu corri para a casa aquele dia, até dei um beiço no trabalho aquele dia corri para casa para contar para a minha esposa Terezinha, bauruense também, contar para ela, o dia que eu contei para ela você pode imaginar a alegria dela.

Luciano             Imagino. Que idade você tinha na época?

Ozires               Eu tinha, isso foi em 1958, eu tinha 28 anos.

Luciano             28, então 10 anos depois daquele sonho na praça lá em Bauru, conseguiu chegar no ITA.

Ozires               Um pouquinho mais de 10 anos, mas aí então eu falei bom, hoje o brigadeiro Faria Lima assinou o documento, surpreendentemente a aprovação do ministro veio muito rápido até, veio muito rápida e eu mandei brasa para ver os prospectos do ITA para começar a estudar e o brigadeiro Faria Lima então, não sei que foi que deu nele, talvez ele reviu a situação dele, ele telefonou para a escola de formação, de aperfeiçoamento dos oficiais que era em São Paulo nessa época e deu instruções para o chefe da biblioteca comprar todos os livros que eu precisasse para eu estudar e aí foi trabalhar durante  dia e varar a noite estudando, um cara de 28 anos competir  com aluno de 18 para entrar no ITA, você  pode imaginar que não era… E aí acabei fazendo concurso de admissão, o concurso de admissão foi extremamente penoso porque eu não podia perder aquela oportunidade, eu não podia ir ao pau naquele concurso, falei meu Deus do céu, eu tenho que passar, mas cada momento que eu avançava nos estudos eu via que eu estava mais distante de ser aprovado do que eu imaginava, porque eu estava literalmente enferrujado e aí realmente estudei um bocado…

Luciano             E sozinho, estudou sozinho…

Ozires               … estudei sozinho…

Luciano             … não foi fazer um cursinho, estudou sozinho.

Ozires               … estudei sozinho, sozinho e com livros, inclusive, comprados pela biblioteca da escola da base e aí…

Luciano             Não tinha nem uma pessoa para lhe dizer olha, vai cair tal coisa, tal coisa, tal coisa, é mais ou menos assim que funciona, nada, era …

Ozires               … não tinha ninguém do ITA que pudesse trocar ideias, nada disso, mandei brasa o primeiro exame foi de física, você não pode imaginar, quando eu vi a prova de física eu quase chorei, eu quase chorei e eu pedia para todo mundo, inclusive a Deus, eu não posso levar pau nessa prova e aí, depois de um certo momento me recompus e falei bom, agora é entrar na racional eu vou ter que fazer essa prova e mandei brasa, fiz a prova, saí com a sensação de ter sido derrotado, o meu coração estava saindo pela boca e aquele dia eu saí de lá do ITA, eu estava com tamanha ansiedade que fui a pé até a cidade, são quase 5 quilômetros, eu fui a pé apressado porque eu não aguentava mais a pressão do coração depois de toda essa jornada ir ao pau, não ter passado…

Luciano             Uma pausa aqui, só para, de novo, para botar as coisas em perspectiva aqui, para a moçada que está nos ouvindo, quer dizer, independente dessa tensão toda de toda essa coisa que foi construída de 10 anos depois conseguir chegar lá e essa pressão etc e tal, tem um outro componente aí que a molecada de hoje não considera que é o seguinte, não é que tinha outra chance, que se não der aqui eu vou ali e faço ali, não tinha isso, ou era lá ou era lá, quer dizer, se não der aqui eu faço outra, se não der aqui eu faço o mês que vem, eu mudo de escola, não tinha isso, era uma chance só.

Ozires               Era uma chance só. É porque era a única escola de engenharia aeronáutica que tinha no Brasil naquela época, pensar no exterior de jeito nenhum, eu mal sabia o que era dólar, coisa dessa natureza, então não tinha jeito, eu tinha que passar e casualmente passei…

Luciano             Não, não foi casualmente.

Ozires               … foi incrível, aí eu passei, ganhei um pouquinho mais de confiança e depois nas outras 4 provas, que eram química, física, matemática e português, aí eu fui fazendo já mais calmo, mais na racional, acabei sendo aprovado, entrei para o ITA em 1958, em 62 eu recebi o diploma engenheiro. Foi muito interessante porque o meu curso foi bastante bom porque uma dedicação muito grande, o reitor me deixou para dar o meu diploma por último e eu não entendi, eu estava sentado lá vendo chamar os meus colegas e não me chamavam para entregar o diploma, aí o reitor falou bom, eu deixei por último para dar o diploma ao engenheiro mais aeronáutico que o ITA já formou ate hoje, o ITA tinha várias opções e as minhas opções sempre eram na direção da aeronáutica, me deu uma medalha, a medalha de ouro, de ouro mesmo, até o reitor acentuou, essa medalha não é uma medalha de ouro, era uma medalha de ouro feita em ouro, me deu a medalha e aí eu desci a escada lá com o diploma na mão, olhei para o diploma e falei, meu Deus, estou com qualificação certa e aí quando eu desci a escada o diretor do CTA, que tinha uma instituição de pesquisa lá, me convidou para trabalhar no CTA, na área de pesquisa e sabe aonde na área de pesquisa? No departamento de aeronaves, aí eu olhei par ao diploma e falei, qualificação certa no lugar certo e aí eu pensei comigo, cabe a mim agora fabricar o momento certo e aí o que aconteceu? Eu me formei em final de 62, 63 eu me vi sentado numa pequena sala lá do departamento de aeronaves e era o responsável perante a força aérea para as contratações e compras de aviões brasileiros. Eu comecei a travar contato com a indústria e comecei a ver bem de pertinho a história da construção aeronáutica no Brasil e comecei a olhar para aquilo e falei, por que com tantos pioneiros que nós tivemos depois do Santos Dumont, em 1906, nós estávamos em 1963, falei, puxa, quase 60 anos depois do Santos Dumont, por que nós não fabricamos avião? Aí veio a pergunta que nós fizemos para o professor de química no Ginásio do Estado, vaio à tona aquilo, falei o que aconteceu? Aí tinha uns colegas que começaram a se interessar pela minha história, eu conversando com eles, era um filme que certamente não era de vencedores não, porque no final nós éramos 4 colegas, 3 Silvas e um Silveira, até eu brincava com eles dizendo que Silva e Silveira pode empacotar azeitona…

Luciano             Ou dupla caipira…

Ozires               … mas não faz avião.

Luciano             … de repente volta aquela pergunta, por que é que o Brasil não pode… e lhe caiu a ficha na hora, a consciência de que eu sou o cara que posso mudar essa história?

Ozires               Não. Mesmo porque, dessa turminha de Silva e Silveira eu não era necessariamente um líder ali, era um recém formado, os outros já vinham de outras lutas do passado e a minha linguagem com eles parece que eu não falava a mesma língua, eles olhavam para as fábricas que produziam aviões, empresas privadas…

Luciano             Eram montadoras né?

Ozires               … não tinha, fazia até projeto porque o ITA, tinha sido criado em 1950, nós estávamos em 63, muitos graduados do ITA tentaram fabrica aviões, alguns até de projeto próprio, quer dizer, havia aquilo que o brigadeiro Montenegro, que foi quem criou o ITA, que ele dizia: “se eu fabricar sementes, quando houver o terreno fértil, vão dar-se as árvores” , quer dizer, então ele queria dizer, nós vamos fabricar o engenheiro e esperar que o terreno fértil surja, quer dizer, era um homem visionário, absolutamente competente e foi aí então que eu comecei a olhar aquela história toda desses colegas, mesmo os que tinham construído aviões, houve outros também que fizeram curso no exterior, nos EUA, na Europa, em particular na França e que tinham se graduado e voltado para o Brasil e tentado fabricar aviões mas tiveram sucesso e eu começava a ouvir aquelas histórias todas e um dia eu, reunido com os outros Silvas e Silveiras e falei para eles, fiz a pergunta fundamental para eles, será que não tem um denominador comum de por que nós não fabricamos avião? Não é possível que 60 anos ninguém possa ter tido sucesso, houve algum sucesso na fabricação do Paulistinha, por exemplo, por ação do Assis Chateubriand, em São Paulo, a Companhia Aeronáutica Paulista chegou a fabricar 800 aviões, coisa dessa natureza, mas nada que pudesse sacudir nossa presença, não só no Brasil como no mercado mundial e foi aí então nesse momento que eu lancei a pergunta para os Silvas e o Silveira, eu falei para eles, escuta, será que não tem um denominador comum que explique isso? Aí todos ficaram meio assim, é quem sabe, não sei o que, falei vamos estudar esse negócio direitinho e aí veio a ideia, depois de muitas conversas nó chegamos à conclusão que todos os aviões que tinham sido feitos no Brasil eram similares aos aviões fabricados nos EUA, e nós fizemos uma imagem na nossa cabeça de dizer o seguinte, isso é uma luta de box, onde tem um cara extremamente qualificado boxeando um cara que não tem qualificação nenhuma, quer dizer, no primeiro soco ele vai para o nocaute, então nós falamos não, se a gente um dia for fabricar avião, nós temos que fazer um avião que não seja creditado no mercado mundial, um avião diferente, absolutamente diferente.

Luciano             Inovação.

Ozires               Inovação, exatamente. E aí, com essa conclusão do avião diferente, a gente olhava para o mercado mundial, a gente dizia, não há espaço, todos os aviões que a gente imaginava, tipos de aviões, tudo isso que imaginava, não havia espaço e aí novamente a conspiração universal que nós falamos agora há pouco, eu fui convidado pelo estado maior da aeronáutica para ser o secretário, espécie de carregador de piano de uma comissão de alto nível, com efeito na FAB para verificar se havia segurança de voo suficiente no Brasil, porque tinha havido uma sequência de acidentes inexplicáveis na aviação comercial e começou a haver uma desconfiança de que o piloto brasileiro não era muito competente, e havia razão para isso. Até 1944 ou 45, só voava no Brasil em aviões comerciais, que eram muito antigos, foi praticamente durante a guerra, piloto estrangeiros, americanos, franceses, italianos, mas não brasileiros, os brasileiros em geral não gostavam de embarcar num avião pilotado por brasileiro e aí surgiu um decreto do Getúlio Vargas, dizendo que as tripulações dos aviões e as tripulações dos navios deviam ser…

Luciano             Brasileiros.

Ozires               … de brasileiros, então o pessoal dizia bom, colocaram, por decreto, por lei, gente incompetente para voar no Brasil…

Luciano             Está falando em cota, uma cota de 100% de vagas para brasileiros.

Ozires               … exatamente. E eu fui o carregador de piano dessa comissão para determinar se de fato isso era verdadeiro, que os brasileiros não tinham competência para voar aviões comerciais com passageiros…

Luciano             Mas isso era um estudo antropológico, sociológico, psicológico?  O que era isso?

Ozires               … pois é, mas foi feito pela aeronáutica e eram compostas por vários brigadeiros e coisa dessa natureza, tinha gente de fora e eu era uma espécie de escriba desse negócio para fazer os relatórios e coisa dessa natureza e foi aí então que veio o diferencial que jogou na minha cara uma estratégia possível de uma companhia que pudesse fazer um avião diferente. Eu estava lendo os relatórios e dos relatórios, de repente, aquela lista de transporte aéreo no Brasil, das cidades atendidas e tudo isso, de repente saltou para minha cara uma informação espetacular, dizia que em 1957, nós estávamos aí em 65, mais ou menos, nós estávamos discutindo isso desde 63, com fabricação de aviões no Brasil, ai nessa madrugada, eram duas horas da manhã, em 1965, esse papel na minha frente dizia que em 57 o Brasil tinha quase 400 cidades com transporte aéreo regular nos seus aeroportos, em 1965, que nós fizemos esse trabalho, apenas 45 cidades, isso podia passar desapercebido para muita gente, quando bateu na minha cabeça falei ué, por que? 90% das cidades brasileiras deixaram de ter transporte aéreo, um país gigantesco como o nosso precisa do transporte aéreo, nós estamos em declínio do transporte aéreo, coisa que não tem o menor sentido, falei, esse país precisa voar e o governo tinha lançado um programa nacional de integração do país. Falei poxa, um instrumento de integração é o avião e foi aí que comecei a refletir sobre esse negócio e deu um estalo, lógico, meu Deus do céu, o motor a jato tinha sido inventado e as grandes companhias do mundo começaram a olhar maravilhados para aquele novo motor que tiraram os aviões à hélice, só que os aviões a jato não podiam operar nos aeroportos pouco preparados das cidades periféricas, então todas as cidades periféricas deixaram de ter transporte aéreo sobrando 45 que tinham pistas razoáveis que pudessem usar o avião a jato, e resultado, aquilo mostrou para mim que se fosse possível fabricar um avião menor, adaptado ao, vamos dizer, geração de tráfego, capaz de decolar em pistas não pavimentadas, mais curtas, que o jato não podia fazer, que nós estaríamos perante um desafio absolutamente novo, eu fiquei excitado, eu voltei para conversar com os Silvas e o Silveira lá no CTA, quando o relatório já ficou pronto e falei para eles, acho que eu descobri o avião diferente, e aí começamos pesquisar no mercado mundial e vimos que 2500 cidades dos EUA deixaram de ter transporte aéreo no mesmo período…

Luciano             Pela mesma razão.

Ozires               … pela mesma razão, pela mesma razão, aí começamos a olhar tudo o que estava acontecendo só por revista, não tinha internet, não tinha nada desse negócio e começamos ver que nenhum fabricante mundial se interessava pelo avião pequeno julgando que o avião pequeno a hélice não teria oportunidade no mercado e aí nós começamos a analisar e dizer, puxa. Mas tem cidades ótimas de bom nível econômico que não são capitais, essas cidades nunca vão ter transporte aéreo? Puxa, a resposta óbvia era claro que vão, e aí nós dissemos, com que equipamento? Olhamos na lista de avião em produção, tinha alguns feitos nos EUA que eles chamavam de comuters, não da aviação regional e aí começou a aparecer na nossa cabeça a ideia de criar uma aviação regional, aviação regional que seja complementar as linhas normais, linhas centrais, as principais e vimos aí nesse  momento que se a gente fizesse um avião de sucesso, que pudesse atender as características  de voo das linhas aéreas, muitas partidas de motores naquela época, os aviões a jato tinham outro problema, que eles não podiam dar muitas partidas em seguida porque as temperaturas eram muito altas, de partida, quer dizer…

Luciano             Esse avião não era um DC3?

Ozires               Era 1ª e tinha paralelo exatamente isso, a substituição do DC3, eu falei, esse avião pode até substituir o DC3 e foi aí que essa ideia começou a crescer na cabeça e nós ainda enfrentamos dois problemas básicos, primeiro que nós não tínhamos credibilidade, o CTA tinha tentado fazer aviões, no passado, no começo da criação do CTA, tinha trazido até o professor Foch, da Alemanha, quando tinha terminado a guerra e o Foch não conseguiu, falhou, então quando eu falava isso para os meus colegas lá no CTA, mas o Foch faliu, porque vocês vão ter sucesso? …

Luciano             E o mais engraçado, quer dizer, num país que questionava a capacidade de um brasileiro de pilotar um avião, vocês vão se meter a fabricar um avião?

Ozires               … não, Luciano, agora uma mensagem para os jovens que podem estar ouvindo essa nossa conversa, você já notou, pergunto aos jovens aqui, vocês já notaram que quando há um problema no Brasil, nós começamos alinhando dificuldades, os americanos, sabe como eles fazem? Eles alinham as possibilidades de sucesso, de modo que aqui no Brasil é exatamente o contrário, quer dizer, se eu dissesse naquela época que eu queria fazer um avião, a primeira coisa que eles diriam, não vai voar, não vai dar certo, então ficava alinhando dificuldades e eu procurei então, com os outros silvas, falar para eles, olha, nós vamos criar um time que acredita que as coisas podem ser feitas…

Luciano       Incomodar o … uma mudança

Ozires          … mentalizar ao contrário e sempre dizer, dificuldades vão ocorrer sempre, mas a gente gerencia, mas a nossa rota é a rota do sucesso e aí foi que nós começamos a olhar o panorama e dissemos, bom, então tem uma chance de um avião desse tipo. Tentamos começar a coletar apoio para a ideia, mesmo dentro do CTA não conseguimos grande apoio, porque ninguém acreditava por que tinha essa espécie de urubu preto, por causa do fracasso do Foch. Então todo mundo dizia, não vai ser possível e partindo sempre das dificuldades, não acreditavam que podia ter sucesso, aí novamente nós fomos salvos numa noite, o Neiva, que era fabricante de aviões da Sociedade Construtora Neiva que até ficou muito conhecida fazendo uns Paulistinhas depois da Companhia Aeronáutica Paulista, telefonou 9 horas da noite num certo dia em 1965 e dizendo, Ozires, tem aqui um fabricante de avião francês que quer se mudar para o Brasil, ele teve um problema com o imposto de renda, teve que sair da França, se não ia para a cadeia, mas ele gostaria de se estabelecer no Brasil, fabricar avião no Brasil e o Neiva conhecia essas ideias que nós estávamos professando lá dentro do CTA porque nós éramos os contratantes dos fabricantes nacionais, então a gente conhecia pessoalmente todos eles e ele gostaria de conversar com você, aí era 9 horas da noite, eu falei, está bom, então amanhã cedo está pronto? Ele falou não, tem que ser hoje a noite, porque ele vai voltar, ele fugiu para o Marrocos em consequência do problema lá na Franca e precisa ajeitar as coisas dele, ele disse que vai embora amanhã cedo, aí eu falei, está bom, então vem aqui em casa, então 9 horas da noite nós começamos uma reunião, o Neiva, eu mesmo e mais um outro que eu decidi chamar ali, que era meu vizinho lá dentro do CTA e fomos discutindo. Eu vi a Terezinha, minha mulher, tinha uma espécie de sacada até o dormitório e ela de tempos em tempo aparecia com a cara lá vendo que aquela conversa não terminava e eu fiquei conversando com o francês um bocado de tempo, nós falávamos de uma alternativa e outra e no fundo da cabeça estava com a ideia do avião regional e a gente não empatava em coisa nenhuma, o francês era um sujeito muito francês, vamos dizer, muito cheio de si, da sua competência, como dizem os franceses rempli de soi-même mas quando chegou num certo momento, era umas 3 horas da manhã, eu viro para o francês e falei para ele sobre a nossa descoberta, que havia um nicho no mercado do avião regional e descrevi a aviação regional como complementar da aviação principal atendendo as cidades menores, o olho do francês começou brilhar, começou a brilhar, aí ele falou, sem dúvida, se vocês fizerem esse projeto eu venho ajudar e o nome do cara era Max Holste, ai eu pensei comigo, puxa, não é José da Silva, falei encontramos uma mina de ouro aí, quando ele começou a se interessar eu falei, puxa, fazer uma equipe nossa liderada pelo Max Holste, ah meu Deus do Céu, nós vamos conseguir apoio para o nosso…

Luciano             Grande jogada de merketing.

Ozires               … falei, porque nós mesmos não vamos conseguir, aí o Max falou, para esse projeto eu venho para o Brasil, eu vou para o Marrocos e volto dentro de 30 dias e vou começar a trabalhar com vocês, aí ele saiu, foi embora, aí eu parei, sentei na cadeira e a Terezinha me chamando para dormir, já era mais de 3 horas da manhã, eu falei, meu Deus, o que eu fiz?

Luciano             Entregou o ouro.

Ozires               Eu não tenho, não tenho autoridade, não tenho peso específico para oferecer qualquer condição de trabalho para esse francês, ele diz que volta dentro de 30 dias, aí eu falei, vou ter que arranjar uma forma de a gente contratar esse francês, como? No ambiente de absoluta incredulidade, foi aí então que voltei no dia seguinte para o departamento e chamei os outros Silvas e Silveira e falei para eles, olha, surgiu … e aí contei a conversa com o francês e um deles, que trabalhava comigo, tinha sido estagiário na fábrica dele lá na Franca, Max Holste Aviação, que tinha tido muito sucesso de fazer aviões que a força aérea francesa combateu no Líbano, na Líbia naquela época e foi aí então que nós começamos desenvolver o que nós poderíamos fazer para envolver o francês e aí um deles, um Silva, que até o nome muito parecido, Ozílio, Carlos da Silva, quer dizer, um outro silva, Ozílio teve uma ideia brilhante, o brigadeiro mais forte da FAB, que tinha o melhor orçamento era o diretor de materiais, esse brigadeiro era formado pela Escola Superior de Paris e era famoso na FAB pela admiração que ele tinha pelos franceses, Ozílio falou, Ozires, imagine se a gente consegue colocar o Max Holste em frente a esse brigadeiro…

Luciano             E arrumar um padrinho.

Ozires               … o brigadeiro pode ter até orgasmo de poder falar francês e foi aí que nós montamos os pauzinhos, todos através do meu chefe, que apoiou a ideia e conseguimos colocar o francês na frente do brigadeiro, não nós, porque nós não tínhamos nem hierarquia nem posição para isso, mas arranjamos uns amigos aí, colocaram o francês, uma hora de conversa com o brigadeiro ele saiu contratado e o brigadeiro…

Luciano             Olha que loucura essa história que estamos contando, tem uma coisa que a gente fala, nós estamos falando de fabricar avião, então o drive disso é uma questão de engenharia, engenheiros, engenharia, tecnologia, matemática e você está me contando uma conversa de política, vocês fizeram uma tremenda de uma armação política para conseguir..

.Ozires               … mas porque nós tínhamos confiança na nossa capacidade técnica de fazer avião, porque o ITA realmente ainda hoje é uma escola diferenciada.

Luciano             Mas o ponto que eu quero bater é esse, quer dizer não basta essa tua competência técnica se você não tiver um jogo político muito bem azeitado ao lado.

Ozires               Por isso que eu insisto, todas as escolas de engenharia do país ter aulas de marketing e vendas devem existir no curso que as escolas de engenharia no Brasil não dão e nós estávamos fazendo exatamente isso, você pegou o ponto absolutamente certo, dizendo o seguinte, nós temos que fazer um produto que seja requerido pelo mercado e venda e isso não é técnica, não é..

Luciano             Não, a técnica a gente resolve.

Ozires               … a técnica pegar o parafuso certo, coisa dessa natureza, é outro material, mas nesse estudo que nós fizemos das histórias de construção de avião no Brasil, nós vimos que todo mundo estava tentando fazer avião similar aos…

Luciano             Aos jatos…

Ozires               … aos americanos, coisa dessa natureza e perdiam no mercado, foi esse o denominador que nós descobrimos porque nós não conseguíamos fazer, nos 60 anos que transcorreu desde o voo de 2006 do Santos Dumont, até nós começamos nessa ideia o denominador comum do fracasso era justamente esse não pensar em vendas e distribuição, porque nós começamos a pensar nisso, nós fazermos um avião que vendesse, tanto é que o francês ficou de olho brilhando quando eu mencionei a ideia da descoberta desse nicho de mercado e foi aí essa direção. Foi muito difícil o presidente da Cessna visitou o presidente da república e o presidente da república, o que foi falado pelo ministro da aeronáutica para ele, mencionou esse projeto e o presidente da Cessna disse que era uma estupidez, que o projeto não tinha o menor sentido e até chegou a nós essa informação, através do meu chefe, eu falei para ele, manda uma mensagem inversa para o presidente, dizer para o presidente que se nós tivermos sucesso a Cessna não vai ser nossa concorrente, talvez eu possa dizer, hoje, nós estamos aqui em 2015, hoje a Embraer é maior que a Cessna, quer dizer, mostrando efetivamente que a gente estava absolutamente certo do que estávamos fazendo e foi aí então que, com o Max Holste começamos a ganhar credibilidade, afinal Max Holste pode fabricar avião, Zé da Silva não, mas aí foi…

Luciano             Vamos usar, mas o Zé da Silva pode usar o Max Holste, esse é o ponto.

Ozires               … foi aí que fizemos, quando você leu o meu currículo aí você disse, fabricou o Bandeirante e o Bandeirante foi esse avião que nós fizemos, foi um francês, botamos o francês no frontispício, a nossa equipe trabalhou por trás e o francês ficou como, vamos dizer, nosso chefe de equipe, nós púnhamos o francês sempre na frente, porque com os nossos nomes nós não poderíamos fazer…

Luciano             Era a rainha da Inglaterra, vocês botaram a rainha da Inglaterra lá na frente, todo mundo.. aí a moçada trás…

Ozires               … e foi aí que o contrário de todos os prognósticos, o pessoal lá de São José dos Campos, o pessoal do CTA achavam que nosso avião nunca ia voar, mas no dia 22 de outubro de 1968, as 6:15 da manhã, com apoio do Max Holste, do próprio brigadeiro que era o diretor de material, nosso avião tirou o pneu do chão pela primeira vez…

Luciano             Quem pilotou?

Ozires               … bom, foi aí uma outra história, porque eu queria fazer o voo, mas ninguém queria deixar porque eu estava liderando o projeto e o pessoal dizia que era um risco muito grande que eu não considerava absolutamente um risco, eu confiava no que nós tínhamos feito, mas não me deixaram voar, aí o próprio diretor do CTA, na época o brigadeiro Paulo … que foi o  primeiro aluno do ITA a ser diretor do ITA, quer dizer, ele se interessou pelo projeto, apoiou bastante, eu falei com ele, brigadeiro, então já que eu não posso voar, vamos ver se a gente certifica um piloto de ensaio, na França, por causa do Max Holste, nós tivemos muita relação com a França, a França nos dá um piloto qualificado para fazer esse voo, aí o brigadeiro falou, poxa e aí a gente não dá a impressão que isso aqui é pelada, que a gente está fazendo qualquer coisa séria e foi aí então que nós conseguimos que dois pilotos nossos, em curso na Escola Superior de Aeronáutica da França e se qualificaram como pilotos de ensaio e aí então foram eles que voaram o avião.

Luciano             Então me conta um momento, quero que você me conte esse momento, vamos ver, eu vou descrever aqui, vou visualizar um filme, o avião está na pista, motor ligado, cheio de gente em volta, você está em pé ali, assistindo aquele momento…

Ozires               Não era muita gente não porque nós fizemos o voo 6 hora da manhã…

Luciano             … mas quantos deviam ser 10, 12?

Ozires               … não… tinha umas 300 pessoas…

Luciano             Era bastante gente, o avião está lá ligado e de repente o avião começa a correr a pista e chega o momento, as rodas saem do chão e ele decola, qual é a sensação?

Ozires               … olha, indescritível, não dá para descrever, quando nós vimos aquele avião voando, ninguém acreditava que nós tínhamos feito aquilo…

Luciano             Eu estou arrepiado aqui até o olho arrepiado

.Ozires               … tinha gente chorando até.

Luciano             Que coisa impressionante.

Ozires               Foi realmente… mas aí, depois de tudo, aquela festa, todo mundo cumprimentar, começou a ir embora todo mundo, aí eu chamei os outros Silvas e o Silveira, eu os mantinha comigo, eu tinha assumido a liderança deles embora tenha chegado mais tarde no departamento, aí falei para eles, outra coisa que foi uma visão impressionante, eu diria, eu falei para eles, bom o avião está feito, agora nós vamos fabricar para vende-lo, quer dizer, eu coloquei o desafio logo em seguida, desafio próximo que nós tínhamos.

Luciano             Que aí é uma outra conversa gigantesca, porque o investimento é muito maior, conseguir alguém que acreditasse, transformasse aquilo…

Ozires               Nós tínhamos um avião demonstrador de um conceito, tínhamos o avião demonstrando ali que era possível fazer um avião regional e coisa dessa natureza, mas o mercado estava escondido, quer dizer, era um mercado em potencial e foi aí então que nós começamos a pensar como fazer, bom, hipótese 1. Entregar esse avião para uma das empresas brasileiras que estivessem lá, ninguém topou, inclusive o próprio Neiva, porque eu coloquei uma dimensão desse projeto que afastou todo mundo que ele tinha que ser um projeto internacional, porque eu sempre dizia que o número de tecnologias aplicadas no avião exigiria uma equipe muito grande de pessoas, não só das referências de tecnologias como a hidráulica, a eletrônica, a eletricidade e a própria aerodinâmica e assim por diante, a gente tinha que ter especialistas de tudo isso e o mercado brasileiro não pagava a conta, não era suficiente, então nós tínhamos que dar uma dimensão internacional ao projeto…

Luciano             E já se enxergava também esse avião voando lá fora.

Ozires               Voando lá fora.

Luciano             Vendendo para voar lá fora, no mercado mundial.

Ozires               Aha, vendendo para voar, porque o mercado brasileiro não absorveria e não forneceria condições suficientes como é o caso do mercado automobilístico, esses caras vieram fabricar automóveis no Brasil porque aqui, realmente, o mercado demandava isso e eu já enxergava isso com clareza, eu dizia não, nós temos que ir para o mercado mundial.

Luciano             E aí assustou os brasileiros…

Ozires               Nenhum aceitou. Aí eu conversei com o presidente da FIESP aqui em São Paulo e perguntei para ele se a gente poderia criar uma nova empresa com auxílio da FIESP, ele gostou da ideia e começou a fazer reunião com investidores, em potenciais investidores, não conseguimos êxito e aí começamos a saltar para os estados. Fui à Porto Alegre, fui à Florianópolis, Curitiba, praticamente todas as capitais, só não fui a Manaus e…

Luciano             Para ver se o estado comprava…

Ozires               Não para vender, a gente levantava capitais privados para fabricar o avião, mas não consegui…

Luciano             E olha que interessante, nesse momento não era o engenheiro aeronáutico que estava fazendo esse papel era o empreendedor, quer dizer,  parte engenheiro aeronáutico ficou lá atrás, agora eu sou empreendedor com …

Ozires               … foi isso realmente que eu fiz mudar a cabeça do pessoal, porque o denominador comum que nós tínhamos descoberto, era que o pessoal se dedicava a fazer o melhor avião do mundo, mas só que não tinha percepção que tinha que fazer o melhor sistema de venda do mundo, eu cito até o exemplo do Steve Job, se ele tivesse feito o iPhone uma beleza de produto que nós estamos usando hoje e tivesse ficado com ele lá nos EUA não fazendo com que o iPhone estivesse em todas as esquinas das cidades do mundo, certamente ele não teria hoje…

Luciano             Não tivesse criado o iTunes e todas aquelas coisas….

Ozires               … exatemente, exatamente.

Luciano             … quer dizer, mais do que a tecnologia em si tem essa cabeça do negócio.

Ozires               … a tecnologia foi absolutamente importante mas nós tínhamos feito o avião que provava o conceito e aí foi então que nós ficamos numa área cinzenta.

Luciano             Quanto tempo durou essa peregrinação?

Ozires               Demorou… não demorou muito, eu diria, deve ter demorado uns dois meses mais ou menos e nós ficamos sem alternativa, teve muita gente que sugeriu trazer capital estrangeiro, que é uma solução muito típica ainda do Brasil hoje, mas nós rejeitamos de cara, porque nós queríamos a propriedade intelectual e a marca nossa e o capital estrangeiro não iria permitir fazer um projeto de um avião que tinha sido, pode-se até dizer, tinha sido desenvolvido por amadores ou coisa dessa natureza, então falei, capital estrangeiro negativo, porque o capital estrangeiro não virá fazer o nosso avião, faz o deles mas nós não ficamos com a propriedade intelectual, nós vamos criar um empresa que vai morrer, porque não vai ter sustentabilidade porque o mercado brasileiro não se sustenta nessa direção e até hoje isso é verdade, então foi aí que começamos a pensar numa empresa no modelo da Petrobrás, em 53 o Getúlio Vargas criou a Petrobrás como sociedade de economia mista, capitalização brasileira e posteriormente capitalização privada e aí propusemos ao governo.

Luciano             Já tinha nome?

Ozires               Hein?

Luciano             Já tinha um nome?

Ozires               Como nome?

Luciano             Já chegou com o nome de Embraer ou não?

Ozires               Não, não.

Luciano             Se propôs algo, se propôs uma empresa.

Ozires               Não, não e outra coisa também, nós sabíamos que nem poderíamos participar desse processo, eu era oficial da aeronáutica, os outros eram engenheiros que trabalhavam no CTA, funcionários públicos, quer dizer, nós não imaginávamos que nós participássemos disso, mas lutávamos para que isso pudesse acontecer e foi aí então que pensamos na ideia, nessa ideia, foi proposto ao ministro da aeronáutica, não por nós, nós não tínhamos hierarquia para isso, foi proposto e o ministro da aeronáutica rejeitou, falou avião não faz avião, quem faz avião é o setor privado, cabe a nós ajudar se possível, correta a colocação dele, mas nós não tínhamos conseguido e aí novamente, vamos dizer, sei lá a divina providência, sei lá o que nossos ouvintes aí queiram colocar como nome disso, um fator externo que alterou tudo. Eu procurava motivar meu pessoal não contando muito para eles as dificuldades que eu estava tendo para dar aquele passo para a frente, para fabricação, como nós estávamos num centro de pesquisa, pode imaginar que num centro de pesquisas não tem muita gente pensando em vendas ou coisa dessa natureza e o pessoal estava pacífico, mas eu não contava para eles as vicissitudes que estávamos tendo para conseguir uma capitalização de uma nova empresa e foi aí que, trabalhando comecei a fazer o segundo protótipo do avião porque um protótipo eu sabia que não era suficiente para certificação, precisávamos fazer ensaios que um protótipo só não era suficiente, lancei de um segundo protótipo ainda dentro do CTA, começamos fazer esse protótipo, comecei coletar talentos do CTA, que pessoas que começaram a se interessar pelo projeto, ainda não numa formação básica de que nós iríamos chegar a uma empresa ou coisa dessa natureza, mas o pessoal começou  se entusiasmar, porque você pode imaginar que esse primeiro voo sendo feito com aviões que nós tínhamos feito dentro do CTA, aquela síndrome do professor Foch que tinha estado no passado, aquilo tudo sumiu e foi aí então que nós fizemos o segundo protótipo, continuamos a trabalhar e a minha motivação era colocar o pessoal com metas muito fixadas na frente para saber que nós estamos trabalhando para fazer alguma coisa, fazer o segundo protótipo para prosseguir nos ensaios, engraçado que ninguém chamava a atenção que tinha que fazer esse avião para vender, quem seriam os compradores, gozado que o pessoal não se preocupava com isso, agora eu me preocupava muito e foi aí então que 7:30 da manhã, dia 9 de abril de 1969, fazia 6 meses que o nosso avião tinha voado, o operador da torre, eu era major da FAB nessa época, me telefonou e falou, major o presidente da república está voando para Guaratinguetá, o aeroporto lá está fechado com nevoeiro, o avião do presidente não pode pousar em Guaratinguetá, ele foi desviado para São José dos Campos, dentro de 15 minutos o presidente vai pousar no avião dele aqui em São José dos Campos. Nós tínhamos feito construir uma pista muito boa lá, tinha conseguido apoio da FAB, fizemos uma pista muito boa, o avião do presidente um boeing, podia pousar e ele falou 7:30 da manhã de um domingo, não conseguia achar nenhuma autoridade para receber o presidente da república, o senhor pode receber o presidente da república? Eu major, eu dei 3 saltos para trás, porque eu falei, puxa, um major pedir uma entrevista para o presidente da república é impossível…

Luciano             69 o presidente era?

Ozires               … era o Costa e Silva, aí ele perguntou,  senhor pode receber o presidente da república? Eu falei, claro pô, bota o avião do presidente aqui na frente das nossas instalações, que eram muito precárias, até diziam como a gente usava muita madeira para usar os gabaritos, não tínhamos dinheiro para coisa nenhuma, e aí o presidente desceu do avião absolutamente sozinho, somente com a segurança, não tinha um politico, não tinha ninguém era domingo afinal, aí me apresentei ao presidente e comecei a falar com ele sobre os nossos projetos, tentando mostrar para o presidente que se a gente não tivesse uma companhia começada pelo governo, tipo da Petrobrás, nós só tínhamos petróleo por causa da Petrobrás …

Luciano             Eu estou rindo de imaginar essa conversa aconteceu aonde? Do pé da escada até onde?

Ozires               … até a entrada do hangar, onde nós estávamos trabalhando.

Luciano             Quer dizer a gente chama isso de elevator pitch, eu tenho o tempo que o elevador leva para chegar no andar é o tempo que eu tenho para vender a minha ideia, o seu tempo era da descida da escada até a entrada do hangar.

Ozires               É mas como não tinha nenhuma outra autoridade presente…

Luciano             O presidente era seu.

Ozires               … o presidente comigo só e aí eu já estava com experiência enorme de tentar convencer as pessoas porque eu tinha feito palestra apresentando o plano de desenvolvimento da fabricação de aviões no Brasil e para muita gente, então já estava com a cabeça bem preparada, então eu soltei a minha lavagem cerebral na cabeça do presidente, para o presidente mudar a política de governo que tinha sido transmitida pelo ministro da aeronáutica criando uma sociedade de economia mista como o modelo da Petrobrás, aí comecei chutar, sinceramente viu Luciano, foi chute no duro, comecei falar da Embraer de hoje, vendendo avião para o mundo inteiro, tornando o Brasil mais exportador de avião do que importador, inverter balanço de pagamentos e gerando talentos, gerando emprego no país, fabricando um produto que nós não estávamos na pauta internacional.

Luciano             Você estava tangibilizando uma visão ali, pegou a sua visão e tangibilizou para o presidente aquilo que viria a ser…

Ozires               E o presidente no começo, pode imaginar, estava um bocado amuado, porque pô, tem uma cerimônia em Guaratinguetá pô, estou atrasado e agora chega um cara vai vender para mim um produto que eu não sei do que se trata, mas aí começou a dar um estalo na cabeça dele, ele começou a fazer perguntas cada vez mais pertinentes, evidentemente aumentei a pressão, aumentei a pressão da conversa e fui em frente e quando terminou a conversa, o campo de Guaratinguetá abriu, chamaram o presidente para decolar, eu o acompanhei até a porta do avião, foi espetacular, ele subiu 3 degraus da escada, parou no meio da escada, desceu de novo, botou a mão no meu ombro e falou, vamos pensar nisso seriamente e olha, e ele pensou seriamente, então um mês e meio depois, dia 26 de abriu de 1969 eu fui convocado em Brasília para fazer, na reunião dos ministros, uma apresentação do plano de desenvolvimento de fabricação de aviões no Brasil e aí eu levei tudo aquilo que vinha somado nas conversas das perguntas dos empresários, todo aquele negócio, e naquela época a gente ia fazer as transparências, não tinha slide, essas coisas todas que tem hoje…

Luciano             Então vamos lá, vamos lá a provocação, o céu fechou, o aeroporto fechou, o presidente não pode descer, teve que desviar para o aeroporto, num domingo de manhã, a única pessoa disponível era o Ozires Silva, que sorte hein? Como o Ozires tem sorte hein? É sorte o nome disso?

Ozires               Olha eu refleti muito sobre isso, eu brinco sempre dizendo, só tem sorte quem vai e nós estávamos lá, quer dizer, então a gente pode fabricar a sorte, quer dizer…

Luciano             Eu costumo dizer que a sorte é a junção de preparo com oportunidade, se a oportunidade surgiu e você está preparado, o momento está criado, cria-se  momento, né?

Ozires               … e muito importante, você está lá, quer dizer, era domingo, 7:30 da manhã, imagine só, muita gente me pergunta por que que vocês estavam trabalhando? Não sei. Porque eu motivava meu pessoal em função de metas que eu colocava, metas ambiciosas e sempre tinha essas metas e sabe como é que as coisas, a gente sobretudo em trabalhos pioneiros como esse, em geral a falta é mais presente do que a disponibilidade das coisas que você precisa fazer, quer dizer, em geral você trabalha mais par cobrir falta do que efetivamente chegar no objetivo e foi exatamente o que aconteceu, então vale a minha colocação só tem sorte quem vai, o dia que, por exemplo, você 7:30 da manhã, puxa, domingo, eu não vou lá coisíssima nenhuma, não é isso?

Luciano             É isso aí, assim como 3 horas da manhã eu não vou acordar para voar com o cara.

Ozires               Não, até eu tive um caso desse tipo, em 68, depois desse voo de outubro que eu mencionei do primeiro voo do nosso avião, as pessoas tinham dado o couro mesmo, tinha trabalhado para fazer, tudo funcionário público, hora extra nem se falava, não se pagava coisa nenhuma, os caras…

Luciano             O pessoal estava apaixonado pelo desafio que tinha.

Ozires               … apaixonado pelo desafio.

Luciano             Então era uma causa aquilo, não era um negócio, era uma causa.

Ozires               Aí eu resolvi dar férias para o pessoal no período do natal para o ano novo e você veja como as coisas acontecem, no primeiro domingo depois de janeiro de 1969, eu tinha dado para o pessoal entre 23 de dezembro até mais ou menos 5, 6 de janeiro, folga para o pessoal, eles mereciam porque tinham trabalhado para valer, a minha mulher fez um macarrão no domingo, nós comemos macarrão, tomamos um vinhozinho, aquilo perfeito para o soninho da tarde, aí quando terminou o almoço eu falei para a minha mulher, eu vou lá no departamento, no departamento que a gente chamava era o departamento de aeronaves, ela falou pô você vai lá depois desse almoço aqui, vai dormir um pouco, descansa, você mandou o pessoal todo descansar, agora você vai descansar também, falei não, não, eu vou lá, aí fui para o departamento, como nós sabemos tem essas tempestades de verão no final do ano e tudo era descampado naquela época lá em São José dos Campos, com terra vermelha e poeira de tudo quanto é lado, quando eu cheguei lá no hangar, porta fechada, estava o nosso avião perto da porta do hangar, que era uma porta enorme, uma porta de mais ou menos uns  10 metros de altura, numa estrutura metálica e eu olhei para aquilo, estava tudo sujo e tinham uns soldados por ali, eu dei uma vassoura para cada um, eu próprio peguei uma vassoura e começamos a limpar, eu falei, vamos empurrar esse avião lá para o fundo do hangar, vamos limpar isso aqui, está uma sujeira muito grande e começamos a limpar, porta do hangar fechada, nós não notamos que estava formando uma tempestade de verão dessas com ventos, esse negócio todo, o vento começou soprar forte, mas forte para valer, o teto do hangar começou a se mexer, de repente o teto do hangar levanta, tira a porta do trilho e a porta desaba aonde o avião estava há 10 minutos atrás…

Luciano             Meu Deus do céu.

Ozires               … quem explica?

Luciano             Ninguém.

Ozires               Eu não tenho explicação, porque numa tarde, na hora…

Luciano             Podia estar dormindo em casa

Ozires               … era na hora do soninho da tarde de domingo, eu parei o almoço, fui ao departamento, tirei o avião de onde ele estava porque se aporta tivesse caído em cima do hangar acho que a nossa conversa aqui seria outra…

Luciano             Sem dúvida.

Ozires               … se eu corresse, não é verdade, quer dizer, então você vê que…Luciano             O acaso, o acaso é um acaso

Ozires               … pois é mais ou menos aquilo que nós falamos anteriormente, quando há uma determinação, você quer fazer, muitas vezes surge uma oportunidade que aqueles que desistiram não acontece, não acontece.

Luciano             Aí tem aquela apresentação, com transparências em Brasília, para todo o pessoal onde se mostra que era o sonho de ter uma empresa nacional para fabricar aviões e acontece?

Ozires               Bom, quando terminou a apresentação os ministros começaram a fazer perguntas, uma pergunta aqui, outra lá, os ministros que estavam liderando ali, eu diria era o Macedo Soares, da indústria e comércio, ministro do planejamento que era o Hélio Beltrão, ministro da aeronáutica era Marcio de Souza e Melo e o ministro, eu mencionei 4, eram 4 ministros e aí o Delfim Neto, que era o ministro da fazenda, verdadeira tzar da época, mandava um bocado, aí o próprio Delfim falou, mas qual vai ser o nome dessa empresa? Aí um dos meus colegas, o único Silveira entre os Silvas, quando eu decolei de São José dos Campos com o protótipo do avião para ir para Brasília para essa reunião convocada pelo presidente, ele botou um pedacinho de papel no meu bolso, botou no me bolso, leia isso no avião e o papelzinho que ele colocou falou, se alguém perguntar o nome da empresa sugere Empresa Brasileira de Aeronáutica – EMBRAER, aí quando eu decolei, até me esqueci do papelzinho, mas como o voo para Brasília, nós sabemos, levava duas horas para chegar em Brasília, no voo a Brasília eu estava pilotando e aí eu lembrei do papelzinho, tirei o papel do bolso e falou se alguém perguntar o nome da empresa sugere esse, aí o Delfim o finalzinho falou, mas como vai ser o nome dessa empresa? Eu fiquei quase desesperado, porque eu falei, meu Deus, ganhamos a batalha, quer dizer, a empresa vai surgir, aí me lembrou o papelzinho que o Silveira Garcia, que era o nome de Guerra, Antônio Garcia da Silveira tinha posto no meu bolso, aí eu falei, bom, nós sugerimos Empresa Brasileira de Aeronáutica – EMBRAER, aí os ministros, EMBRAER? É, está bom o nome, vamos fazer o projeto de lei…

Luciano             E nasce a EMBRAER

Ozires               … fazer o projeto de lei e realmente foi feito o projeto de lei, foi no dia 26 de junho de 69, no dia 19 de agosto de 1969 o presidente sancionou a lei.

Luciano             Perfeito. Nasce assim a EMBRAER.

Ozires               Aí nasceu a EMBRAER.

Luciano             Pois é, Ozires Silva tem em sua vida um pouco da história do Brasil. Foram 2 horas e 40 minutos de entrevista. Eu vou encerrar aqui a primeira parte pensando no conforto de quem ouve o programa, a segunda parte vai na sequência.

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Transcrição: Mari Camargo