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Luciano Pires -

apoio dkt

Luciano                 O LíderCast chega até você com o apoio do Linkedin, a solução que vem transformando a atração de talentos através das redes sociais profissionais. Bem vindo, bem vinda a mais um LíderCast. Hoje converso com Maurício Pereira. Este programa aproveita uma entrevista que eu fiz com Maurício para o Café Brasil, “Guerrilheiro Formiga” em 2011. A conversa foi tão fascinante, abrangendo a luta de um músico profissional no Brasil, que eu tenho eu trazê-la de volta. Música, inovação, empreendedorismo, é fascinante.

Maurício Pereira, um músico, ator, é jornalista, em 1985 criou, com André Abujamra, uma banda chamada “Os Mulheres Negras”, composta por dois homens, vê se pode, com a qual ele lançou dois discos: “Música e Ciência” e “Música Serve pra Isso”. No início dos anos 90 participou como cantor do programa diário “Fanzine” da TV Cultura e entre 1995 e 2009 lançou 5 CD’s, “Na Tradição”, “Mergulhar na Surpresa”, “Canções que um dia você já assobiou volume I” “Prá Marte” e “Carnaval “Turbilhão”. É isso?

Maurício                Isso ai.

Luciano                 Maravilha. Em dezembro de 96 realizou o primeiro show ao vivo via internet do Brasil, entrou no Guiness Book por causa disso, né?

Maurício                Vocês são todos meus netos.

Luciano                 Maravilha. Maurício, para te dar as boas vindas ao Café Brasil, um sujeito que você certamente conhece.

Por que eu estou usando o Itamar aqui, Maurício? Maurício, para mim você é filho do Lira Paulistana, eu vou te explicar porque. Quem não conhece, o pessoal de fora, o Lira Paulistana foi um espaço alternativo, era um teatro que ficava num porão, ali na praça Benedito Calixto aqui em São Paulo, onde toda a música alternativa de São Paulo se apresentava ali nos anos 70, comecinho dos anos 80 até durou um pouquinho e acabou ali e tinha um negócio interessante lá que era uma tribo, eram tribos que frequentavam ali para ver os seus artistas prediletos e o Lira acabou um dia, o Lira terminou, aquilo deixou um monte de órfãos por ai e a gente quando olha para o Brasil hoje encontra alguns representantes ainda que tem esse conceito, tem uma tribo que onde ele vai, vai atrás, nesse sentido eu acho que o Maurício ainda é um dos grandes filhos da Lira Paulistana que está por aqui, ainda bem, podia ser filho de outra coisa, é pior né?

Maurício                Mas aqui no Brasil a música e tão boa que quer que seja de quem quer que seja e que a gente seja filho, a gente está bem, eu sou muito… não é que eu seja mané ou Poliana, eu sou muito sem preconceito sobre a música popular, as vezes tem artistas ai desprezados pelas gentes mais intelectuais assim e eles trouxeram grande novidade para a gente, na forma, no conteúdo. A arte é um troço tinhoso, ela não anda em linha reta, às vezes ela pega a gente na esquina, de surpresa e às vezes não é o Shakespeare que pega, as vezes é o Odair José. Eu lembro em 73, quando o Caetano levou o Odair José para um grande evento musical que teve aqui, tomou vaia e hoje o Odair José é cultuado e saiu uma caixa de CD’s do Odair José com grandes caras da música mais refinada, endeusando, então…

Luciano                 Tem que ir devagar…

Maurício                … é, na miúda, então…

Luciano                 … mas é verdade, a gente costuma brincar muito aqui no Café Brasil, que nós tocamos a música brasileira que presta, mas tem um conceito muito forte por trás, é o seguinte, qual é o problema da arte no Brasil? É quando ela deixa de ser arte para ser comércio ou quando existe um movimento falso transformando em sucesso retumbante um projeto de marketing, não um projeto artístico, né?

Maurício                Eu acho que o problema é esse mesmo, o marketing.

Luciano                 É essa a grande encrenca, o projeto nasce artístico puro e de repente ele vira um grande projeto de marketing que 6 meses depois ele desapareceu. Mas vem cá, quem é esse tal de Maurício Pereira, cara, me conta um pouco dessa história do jornalista que virou músico, bicho.

Maurício                Agora que eu estou mais velho eu já faço até uma vaga ideia, funciona assim, eu sou um músico atípico, porque na verdade eu apareci, você falou do Lira Paulistana, eu apareci depois do Lira ali com o Mulheres Negras depois dos anos 80.

Luciano                 Você frequentava o Lira?

Maurício                Mais ou menos, cara eu nem sei o que eu via, porque se como músico eu nasci ali depois do Lira, mas eu sou um músico que nasceu velho, eu comecei a ser músico aos 25 anos, então na verdade o que fabricou a minha cabeça de músico foi antes do Lira. É que eu não virei músico logo que a minha cabeça foi fabricada, então para mim, basicamente, é jovem guarda, eu olho para trás assim, é jovem guarda, ai tem aquela indisciplina e ai sim tem em comum com o Lira e com outros tantos criadores de sem querer, fazer a música de um jeito mais livre. Não por acaso, o primeiro show que eu vi na vida, devia ter uns 12, 13 anos, foi um show do Hermeto Paschoal, e o nome do disco era “Música Livre de Hermeto Paschoal” então aí são as misturas que a gente vai tendo, eu acho que o que eu tenho em comum com o Lira, essa coisa paulistana da zona oeste de São Paulo, de a gente ter uma formação intelectual mais forte, é perto da USP, é classe média, que estudou, que leu e que ao mesmo tempo que tem um grande dose de informação correndo na veia,  quer fazer a canção popular, que é um troço vira lata, então isso deu num Itamar, deu num Arrigo, deu num Tatit, no Rumo e que é uma coisa muito de São Paulo. Por mais informação que a gente teve, a gente é uma civilização rueira, eu vou chamar a cidade de São Paulo de uma civilização rueira, eu estou vindo da Argentina agora, lá tem o termo callejero…

Luciano                 Callejero, vem da calle

Maurício                … é, então mesmo quando você tem uma formação linguística, eu tinha estudado jornalismo na USP, na hora de fazer cara, eu quero ser o Erasmo Carlos, eu não quero ser o John Cage, mas tem hora que precisa ser o John Cage também, não dá para ter medo de nada em São Paulo, você nasce misturado.

Luciano                 Eu vou te perguntar um negócio a respeito disso dai, mas eu queria ver uma coisa aqui interessante, aqui no fundo você está ouvindo “Imbarueri” é lá com os “Mulheres Negras”, é lá de trás né?

Maurício                Olha ó que coisa engraçada, o “Mulheres Negras”, que começou em 85, acabou em 91 e está voltando agora, está voltando…

Luciano                 Aí para, boa notícia.

Maurício                … o “Mulheres Negras” gravou dois discos pela Warner e fez uma fita independente, mas a abordagem do Mulheres era independente, porque uma gravadora grande para um artista pequeno, artista pequeno é o que vende pouco, mesmo na Warner, não tinha muito selo independente, não tinha MP3 nos anos 80. Então, muitos artistas que hoje estariam se auto produzindo, eles eram artistas menores dentro da gravadora grande. Quem eram os grandes da Warner?  Grandes vendedores, era Titãs, era Ultraje, era Kid Abelha,  o Prince, entre os estrangeiros, a Madona, o Lulu Santos depois foi da Warner, então esses eram os caras que na época vendiam 500 mil, 800 mil discos, Mulheres vendia 5000, mas tinha uma coisa de legislação que obrigava, obrigava, a gravadora, ela podia ter uma isenção de imposto se ela gravasse artistas  pequenos, então uma Warner, ou IMA que fosse não tinha nada a perder, porque grava um pequeno dá certo, pimba!!, então o Mulheres mesmo estando na Warner, já tinha a cabeça independente, a gente tinha uma newsletter, o Mulheres em 5 anos tinha uma newsletter de 5000 pessoas e a cada 3 meses a gente mandava um jornalzinho para os caras…

Luciano                 Pelo correio…

Maurício                … pelo correio…

Luciano                 … com selo…

Maurício                … isso, a gente pegava os endereços, gastava… a gente guardava um dinheiro numa caixinha para comprar selo para mandar, para ter envio de carta. A gente cultivava os nossos fãs, então para mim, nessa escola dos Mulheres Negras, em 30 anos não mudou nada cara, porque é isso, a gente bola a nossa mídia, a gente bolava as nossas estratégias de vender disco, o nosso show sempre teve roteiro, direção iluminação, então a gente cuidava da carreira toda. Mulheres Negras a gente era 3, eu, o André Abujamra  e tinha o Agnaldo Roca que era  nosso sócio de fora do palco, mano, a gente abriu uma microempresa, a gente tinha empresa em 1985 tinha empresa, então a gente era um guerrilheiro, tinha empresa para trabalhar, fazer um projeto para lidar com o SESC, para vender um show, então o Mulheres sempre foi guerrilheiro pró, quando eu saí do Mulheres não ficou diferente, eu continuei tendo a minha empresinha, minha maneira de trabalhar, me auto promover, ai passou a ter internet e eu fui um dos primeiros caras a ter site no Brasil.

Luciano                 Era essa a próxima pergunta, onde é que entra a internet no teu negócio, cara, conta ai.

Maurício                Em 19…. e… o Mulheres acabou em 91, aí entre 92 e 95, com o dinheiro do meu bolso eu fui gravando o meu primeiro disco solo, “Na Tradição”, no começo de 95 ele estava pronto, ai eu ia lançar independente, independentaço, até mandei prensar em Miami, num esquema para sair mais barato para eu não ficar na mão das prensas brasileiras…

Luciano                 Você que ia procurar as lojas para oferecer, para ficar com 5 disquinhos, 4 disquinhos…

Maurício                … no começo eu ia, no começo eu ia, na Baratos, na Pops, aqui em Pinheiros, na Baratos lá na galeria, abração para o Luis Calanca, a Pops até hoje, também e o Calanca são caras que tem os meus discos, então os parceiros guerrilheiros estão lá, estamos todos aqui. E eu estava terminando o encarte do disco e eu ouvia falar desse papo de internet, eu tenho um irmão que trabalha com internet, ele desenha, faz software e na época, tipo começo de 95 ele me falou, meu se liga porque eu já tinha um e-mail num BBS, Bulletin Boarding System, era um…

Luciano                 Eu me lembro disso.

Maurício                … BBS era em dos, você podia só trocar texto, não tinha o disco ainda e esse meu irmão me falou, aguenta a mão porque no segundo semestre vai chegar aqui no Brasil um troço que já tem nos EUA que se chama web, world wide web, é o www, é web. Falei porra, mas o que é web? Web é um tipo de uma internet que ela não é só texto, tem desenho, tem figurinha, tem isso, tem aquilo outro, falei ah que legal, então ele me falou, espera até agosto, setembro, que vai ter, daí além de você ter o e-mail você tem a página, você já bota isso no teu disco. E dito e feito, então eu segurei uns 6 meses o meu disco e quando eu lancei o “Na Tradição”, que foi tipo agosto, setembro de 95, já tinha web e o Rui Amaral, que é artista plástico, grafiteiro da pesada, estava fazendo sites, ele falou, eu preciso testar, preciso desenhar site, ver se funciona, ele fazia tudo torto mas funcionava, então logo em agosto eu já tinha um site, desenhado e funcionando, com links para jogar para mim, para me mandar e-mail, o que não tinha era banda, banda larga, para ter muita música, para ter imagem como tem agora, internet era precária…

Luciano                 Pô, eu me sinto conversando com o Fred Flintstone…

Maurício                … mas eu sou cara, aí eu fui um dos primeiros artistas a ter site, ai no meio de 96 o que aconteceu nos anos 90 de diferente de antes? As gravadoras estavam caindo, as rádios estavam no esquema de jabá muito forte e as rádios estavam se tornando redes de rádio. O Mulheres nos anos 80, a gente ia para Ribeirão Preto, as rádios não estavam em rede, então mesmo tendo rádio de jabá, tocava, é uma banda pequena como o Mulheres, tocava em Santos,  tocava na Estéreo Vale, que era a rádio de São José dos Campos, porque as rádios não estavam em rede. O que acontecia nos anos 90, Transamérica, Band, Antena1, jovem Pan, ficou rede, então toca em São Paulo, toca em Cascavel, no Paraná, em Campo Grande, no Mato Grosso e Santarém, no Pará, aí matou a gente, quebrou a perna da gente, que ai só toca os grandes mesmo, então eu não conseguia tocar em lugar nenhum, fazia os meus shows independentes, eventualmente viajava, mas não tinha acesso nem a jornais, rádios e TV’s, aí um dia eu fui no meu provedor, reclamar, porque usava McIntosh e você pode imaginar o que era um McIntosh no meio dos anos 90, nada funcionava, nada, tudo travava no Mac, o mundo tinha sido feito para Windows. Aí eu falei não, eu não vou escrever para o ombudsman, chamava Dialdata, era um provedor legal aqui de São Paulo, é eu não vou escrever para o ombudsman, porque vai que o meu não chega porque é Mcintosh, eu fui lá, toquei a campainha, descobri onde era, toquei lá, ah não, sabe o que é, eu tenho a página ancorada aqui mas nada funciona, ai eu queria falar com a assistência técnica, com o, como é que chama? O suporte técnico, ai me aparece um moleque de 14 anos, cheio de espinha, chamado João Ramires, pô cara, sei quem é você, eu falei, você sabe quem eu sou? É, você era do Mulheres Negras, você tem um disco, to ligado, eu ouço tudo, eu tenho um… não sei se já tinha blog naquele tempo, ele tinha um site dele que ele botava dicas de música, da cabeça dele, falei porra, então cara, eu tenho um mac, nada funciona, o fato é que ele  falou, é, mac não vai ter jeito tão cedo mesmo, ele é mais lerdo, os softwares batem, não era como hoje, aí conversa vai, conversa vem, ele me falou assim, moleque de 14 anos, ó, expliquei, contei minha história, já guerrilheiro, tentando fazer e tudo para estar com a água acima da superfície do pescoço, o pescoço para fora da água, ele falou, meu, dá para fazer um show ao vivo pela internet para o mundo inteiro, eu falei uai, eu acredito, claro que dá, tenho site, eu acho que dá, o que que tem que fazer? Ele falou meu, você topa? Eu falei topo, ele falou não, porque eu já fui num monte de artista eles não acreditam, porque ninguém tinha site, quem eu tinha site, eu tinha site, a Marisa Monte e o Gil logo tiveram site, ninguém tinha site, mesmo os artistas independentes, porra, você acha que o Arrigo e o Itamar iam saber, porque também, apesar de eles serem independentes, o Mulheres Negras, nessa coisa de auto comunicação, auto produção era de ponta, o Mulheres tinha uma visão diferente da turma do Lira, a gente…

Luciano                 Mas tem até hoje, vocês, o shows… o teu show, do André é a maior loucura, você chega lá tem um Mac no palco, no mesmo nível de importância que o artista, é você ele dialogando…

Maurício                … sim e o Mulheres, no mesmo nível de importância do artista tem o trato com as plateias, o trato com o ouvinte lá em casa dele, iluminação, que o Mulheres é muito… sempre foi multidisciplinar, guerrilheiro, lembra aquele Brasil, o filme? Que o encanador se precisasse ele desmontava uma bomba de hidrogênio também? É isso. Então o fato é que o moleque  me falou e reclamou que, pô, ninguém acredita que dá para fazer um show de internet, ninguém sabe nem o que é internet, falei vamos fazer, vamos. Isso era metade do segundo semestre de 96, falei o que precisa? Ele falou, você me arranja duas linhas telefônicas, isso foi no fim de 96, porque a data estava em cima, eu tinha uma data no Centro Cultural São Paulo que era um show especial de natal, em dezembro de 96, então eu falei, tem um mês ai, o que nós temos que fazer? Me arranja duas linhas telefônicas e na véspera me libera o Centro Cultural para a gente fazer um teste, aí eu tenho meus mano aqui, moleque de 14 anos tinha os mano dele pela internet, falei está bom, o que você vai fazer? É o seguinte, um 486, um porque ali era modem de 14k, um  486 para o som, um 486 para a imagem, a imagem eu vou fazer com uma camerazinha, não tinha web cam, era uma camerinha redonda de vídeo conferência, que ele ficava assim, clic, clic, clic, tec tec tec, tirando as fotos, então dava uma imagem quebradinha, o som, ele puxava da mesa, fatiava no computador, mandava para a USP que tinha um rub foderoso lá com um site americano, o LS idals, laboratório de sistemas integrados e a USP fatiava, digitalizava, mandava para um site americano que tinha Real Audio e esse site devolvia para o site do João Ramires, que chamava Cutural Net, então, com 10 minutos de atraso, chegava lá, som e imagem…

Luciano                 Casados…

Maurício                … casados assim, de um jeito genial, feito no braço e eu lembro que o Gilberto Gil tentou uma semana antes quando ele estava com a Warner, com a IBM e com o Globo e eles viram, a gente anunciou que ia fazer, eles viram e correram para fazer e não conseguiram, não deu certo, a IBM e o Globo e a Warner e não conseguiram botar o Gil no ar e os moleques de 14 anos conseguiram me botar, deu uns 20 a 30 mil clics, então durante o show a gente tinha um chat aberto, lá em dezembro de 96 e alguém ia falando, estou em Espanha mirando o show, porque a molecada já ali tinha esses contatos por internet, como é hoje, já molecada pensava mundialmente, ah estou na Austrália, estou vendo você, chegava atrasado tal, então foi um negócio maravilhoso e a coisa mais louca é que no dia do show caiu uma super hiper monstro chuva em São Paulo, obviamente ninguém chegava no centro cultural então a gente tinha um número x de pessoas assistindo e eu acho que muito mais gente pela internet viu a gente porque em São Paulo já alagava em 96 e foi assim uma epopeia e foi maravilhoso, eu acho que aquilo é… não sei se as pessoas dão importância para isso, mas aquilo é um marco da produção independente, da guerrilha, pode crer que é.

Luciano                 Ainda bem que bom que eu estou contando essa história aqui, que bom que você está contando para todo mundo ouvir. Vamos ouvir um clássico aqui hein? Pan y Leche.

Maurício                Pan y Leche, eu fiz essa música com meu primeiro filho no colo, minha mulher foi trabalhar e deixou o moleque comigo e eu estava compondo, ele devia ter uns 6 meses e compondo no computador, panela de pressão ligada, moleque no colo quase dormindo, de repente estourou a panela, voou sopa de mandioquinha para todo lado e eu no pânico e eu no pânico, acho que o reflexo não foi nem cuidar do moleque ou limpar a cozinha, foi fazer uma canção de um pai latino americano em pânico, com filho no braço olhando para o futuro.

Luciano                 Cara, é genial…

Maurício                Pan y Leche.

Luciano                 … ela é genial, muito legal. Eu vi num outro lugar você afirmando o seguinte, você dizia lá e chamou muito a minha atenção, você diz o seguinte, cara eu mais do que um artista de MPB eu sou um artista pop, você falou, eu sou pop, o que é esse pop para você, cara, o que significa pop? A gente tem uma, tem mil visões diferentes do pop, do que é pop, para alguns é muito ruim, para outros é só marketing, o que é esse pop, como é que você considera esse pop?

Maurício                 O pop para mim é uma musica que trabalha com elementos muito simples, eu poderia falar, é uma música muito simples mas dai eu estária dizendo que só o Roberto Carlos é pop, não, eu trabalho com elementos da música do Roberto Carlos e com outros também, então é uma música que tem elementos simples de entendimento e de comunicação, é uma música que se presta a ser comercializada, ela é rápida, ela é misturada de influência, eu posso ser italiano, posso ser zen budista, pode ser eletrônico, tudo ao mesmo tempo, é uma música intercambial e que funciona em São Paulo, funciona em Pequim, funciona numa roça do interior do Peru sabe, então é uma música que tem elementos que são mundiais, então o pop, ao mesmo tempo que ele é muito comerciável, ao mesmo tempo que ele é vendável, ao mesmo tempo que ele é burro, idiota, idiótico, não idiota, eu acho que o pop, ele traz em si o sagrado, porque tudo o que é possível e passível de ser tornado coletivo em grande escala, eu acho que traz o sagrado dentro de sim, então eu tenho orgulho de ser músico pop, é como se eu dissesse, eu sou um vira lata filósofo, guerrilheiro, poeta mas vira lata, sempre vira lata, sempre. Eu quero que todo mundo entenda a minha música e  pop é isso, é veloz e não tem medo do comércio, muitas vezes o sagrado está no comércio, ele não está na academia.

Luciano                 Você se considera não é colega, mas é assim, você está na mesma praia da Lady Gaga cara, ou são níveis de pops diferentes, como é que é isso? Tem pops diferentes? Como é que é?

Maurício                Todo mundo faz pop, é que alguns pegam os elementos mais imediatos, mais primários, mais velozes, então tudo o que tem numa canção da Lady Gaga tem na minha canção, aí é questão de dose, é a mesma coisa que você comprar um hambúrguer do McDonalds ou um hambúrguer daquele tiozinho no Ipiranga, que faz o x egg bacon salada…

Luciano                 do Oregon…

Maurício                … do oregon, é cada bairro tem um hambúrguer legal. Mário Manga me fala que o melhor x salada do mundo é na Bom Pastor, no seu Zé, sei lá… entende como? Então os elementos assim estruturais da Lady Gaga e do meu são semelhantes, ai ela usa é uma programação mais enxuta, é uma pressão mais forte de gravação, é o uso da redundância, que a redundância é importante no pop, diferente do meu, eu de repente eu tenho mais espaço para invenção, não porque eu sou melhor do que a Lady Gaga mas porque eu trabalho com audiências menores eu posso me dar ao luxo de ser mais…

Luciano                 Do que parar no meio da música e ir para um lado que ninguém espera, ela vai na sequência…

Maurício                … a mudar a dose de invenção e redundância.

Luciano                 A Rita Lee falou uma vez, eu ouvi uma entrevista interessante que ela dizia o seguinte, cara, se eu quiser escrever e gravar um blockbuster, eu tenho uma receita…

Maurício                Tem receita…

Luciano                 … ela falou, eu tenho uma receitinha, é assim, assim…

Maurício                … isso não é feio…

Luciano                 … eu posso fazer, ela falou.

Maurício                … claro, claro, eu dou oficina de canção popular em duas horas junta umas 30, 40 pessoas, a gente fabrica uma canção, aí eu falo para as pessoas, vocês querem ir por onde? Quer fazer um blockbuster? No A, parte A, parte B?

Luciano                 Oficina Canções Instantâneas, olha que delícia.

Maurício                Acabei de dar na Argentina, lá chamou Tarjer de Canciones instantâneas e esse sensorial da canção pop, introdução, A, B, refrão, solozinho, A, B, refrão e uma coda que a gente diz, que é o final, a repetição, tem estruturas clássicas de canção, o blues é uma estrutura clássica, o choro, o samba, para tudo tem uma estrutura clássica.

Luciano                 Como poesia, como poesia…

Mauricio                Como poesia…

Luciano                 … isso é um soneto é assim, é…

Maurício                … quadras, sextilhas e o que seja, lógico, não é pecado ter, muita gente acha não, a criação é um negócio puro que vem… vai do nada coisa nenhuma, vem do nada, a gente tem formas muito consagradas e a canção vagabunda, popular não é diferente, quando eu falo vagabunda, não estou falando mal dela não, falo vagabunda no sentido italiano, vagabundo, vagante, que anda na rua, que caminha por ai…

Luciano                 Está ao alcance de qualquer um…

Maurício                … sim…

Luciano                 … e qualquer um tem acesso a ela.

Maurício                … então esses formatos populares e ou comerciais, eles tem muita densidade estética dentro. Fim do ano passado o Ivan Vilela, violeiro maravilhoso que dá aula de viola na USP e que está coordenando o curso de música, coordena um pedaço aqui em São Paulo, eu falei isso para ele, essa história da excelência na fuleragem e ele me pediu e eu escrevi, está até a venda ai, um texto para a revista da USP, que foi temática no fim do ano passado sobre música e o Ivan pediu texto sobre a música de um lado B, ele não queria falar das coisas óbvias que já se fala e eu escrevi para ele um texto sobre pagode e sobre a quantidade de novidade estética e força estrutural de coerência estrutural que tem dentro de um pagode comercial desses, que é um tipo de coisa que gente mais intelectualizada ou do gosto mais refinado entre aspas, execra o pagode, isso é uma porcaria, você não é obrigado a gostar, mas que dentro disso tem, inclusive muita invenção e traz muita novidade criada debaixo para cima, do extrato social que teve menos estudo, que teve menos dinheiro, que mora na periferia, os caras encontraram uma maneira de tornar o samba, uma coisa pop, acessível de cheio de invenção.

Luciano                 De certa maneira isso explica esse fenômeno do Youtube, esses virais que aparecem no Youtube toda hora, vem do fim do mundo, são gravados com uma camerazinha de celular, numa praia e de repente o Brasil inteiro esta atrás daquilo lá, quer dizer, deve ter um… alguém me comentou uma vez que esse negócio chama-se meme, é um meme, um meme é alguma coisa que provoca uma cócega no seu cérebro e a única forma de coçar é pensar nele, então essa repetição te leva para esse sucesso todo, vocês estão ouvindo ao fundo Motoboys, como chama, fala o nome inteiro da música…

Maurício                Motoboys Girassóis, etc e tal…

Luciano                 Etc e tal, cara que me traz uma questão interessante, esse teu lance dessa tua paulistanidade.

Maurício                É forte

Luciano                 Você é um poeta paulista, aliás é um cronista, é um jornalista paulista e onde a gente vai na tua música, tem essa ligação com a cidade de São Paulo, quem está cantando com você aqui, essa gravação?

Maurício                É o Skowa, que é um parceiro querido, Escova que toca no Trio Mocotó e que vocês conhecem dos anos 80 e 90, ele teve o Skowa e a Máfia, que era contemporâneo dos Mulheres Negras e antes ele foi do Choro Roxo, que era um grupo que abordava o choro de uma maneira mais contemporânea e ele foi também do Sossega Leão que ali nos anos 80, que teve esse cenário de rock paulista, Titãs… o Sossega Leão era uma banda que fazia salsa e ninguém tocava salsa nos anos 80 em São Paulo, então eu era fã.

Motoboys é de um disco meu, que eu lancei em 2007 chamado “Pra marte”, esse disco, eu comecei a fazer ele em 2002, 2003, 2004, eu sou lerdo na feitura assim, levo uns 3, 4, 5 anos, não tenho pressa, foi um disco que eu escrevi inteiro como se fosse um disco de raps…

Luciano                 Ah eu me lembro dessa história.

Maurício                … então Motoboys, “eu tenho minha musa na calçada a andar por São Paulo horas e minutos me prensam, eu tenho tempo para pensar a vontade, contra a minha vontade, assaltado e por tesouros da minha cidade” e aí vai, ai chego uma hora eu falei não, não, não, eu pouca tinta, branquelo, classe média, zona oeste de São Paulo não vou, eu me nego a passar por turista deslumbrado e fazer um disco de rap, porque o rap talvez estivesse… sei lá, embora o rap nos anos 90 tenha sido, para a minha poesia mais forte que se fez em São Paulo nos anos 90, aí eu pensei, sabe o que eu vou fazer nesse monte de rap de preto? Eu sou branco, como diriam os blacks dos anos 60, eu parodio os manos, eu falo, i’m white and no proud, eu acho que uma coisa que eu tive que explicar para muitos músicos meus nos anos 90 é, meu, você é branco, seja branco, toque como branco, louve o Led Zeppelin, louve o Adoniran  Barbosa, louve o Gianni Morandi, sabe, pega a baqueta no meio, desce o braço cara, seja branco, não tenha vergonha de ser branco, que todo mundo quer tocar igual o James Brown e o Steve Wonder lá nos anos 90, então eu pensei, eu vou ser descaradamente branco quando eu fui fazer esse meu disco de 2007 “Pra Marte”, então eu peguei aquela prosódia de rapper, aquela divisão de rap que eu tinha feito, taquei melodia e imprimi um lirismo muito forte…

Luciano                 Ficou um barato, cara.

Maurício                … então ficou uma coisa bem paulistana, porque a gene ouve o rap, nem que vocês não sejam ouvintes, o seu ouvido se acostuma a frasear como rap, no entanto tem uma coisa: eu sou um paulista nascido em 59, em São Paulo, italiano com português que no meu tempo de criança, todo mundo era italiano com português e a melodia é muito forte, a gente ouvia o pop italiano bastante nos anos 60 e essa cultura mediterrânea, que ela está em São Paulo, ela tem muito do melódico, a música italiana é melodia pura, então falei, vou meter lirismo, vou meter melodia, então eu tratei de enfiar melodias nos meus raps, então o “Pra Marte” ele é um disco muito esquisito, muito lírico, muito poético, eu escrevi as letras como eu falo, então eu pensei, chegou a hora de eu parar de falar português e falar paulistano, eu já sou um cronista de São Paulo mas ainda escrevo no idioma estrangeiro, que é o português, que não é o idioma que se fala na rua de São Paulo, nem aqui no rádio, eu não sei se eu estou falando muito plural aqui, mas não é do meu feitio…

Luciano                 Nós somos basicamente coloquiais aqui.

Maurício                … nós estamos falando paulista aqui veio, né?

Luciano                 É isso aí.

Maurício                Então se eu preciso ir na USP fazer uma… vira e mexe me chamam par participar de um debate, se precisar falar português direitinho eu sei falar, mas o meu coração fala o dialeto paulista, nasal, sem plural, com a sintaxe bem quebrada, com excesso de pronome às vezes e eu escrevi o disco nessa língua, então um disco escrito em paulistano…

Luciano                 Não como um personagem, você não é um personagem…

Maurício                Não como personagem…

Luciano                 … você não é um personagem nesse momento, você está usando outro linguajar.

Maurício                … então pensei, cara, e sabe por que eu decidi me tornar paulistano convicto? Foi por causa de uma viagem ao Recife, que eu fiz no começo essa década passada, em 2002 ou 2003 eu nunca tinha ido lá, fui tocar e ai eu dei uma primeira volta no Recife antigo e vi aqueles prédios do século XVII, ai eu pensei, cara, 1750 no Recife, cheio de holandês, gerando muito dinheiro com a cana de açúcar, era o sistema colonial, era dinheiro que ia para ao mundo inteiro, era riqueza enorme, a maior empresa colonial do mundo. Meu aqui era uma cidade muito importante, tinha médicos filósofos, artistas, se estava criando a arte e trabalho intelectual em Recife, em 1640, ai eu pensei pô, claro, é por isso que em São Paulo nós não falamos português, esses caras em Recife, ou caras em Salvador, ou São Luís, ou mesmo Ouro Preto, ou Rio de Janeiro, esses caras são brasileiros de 3,4 séculos e nós, a rigor, em São Paulo somos brasileiros de um século, São Paulo em 1900 era uma porcaria, uma cidade sem importância econômica, cultural, São Paulo falou tupi até a metade do século XIX, moravam 3 mil pessoas aqui, não tinha nada, começaram a chegar os italianos no ciclo do café no fim do século XIX e a cidade se tornou uma cidade, no começo do século XX, uma cidade italiana, aí já tinha indústria, comércio, produção em massa, rádio, cinema, meios de cultura de massa…

Luciano                 E já é cosmopolita, ela nasce cosmopolita…

Maurício                … e falando um português, português fabricado por libaneses, japoneses, italianos, nordestinos, então a cidade foi cosmopolita, veloz e sempre ligada em indústria ou comércio, foi a única cidade que já estava no capitalismo com eletricidade, Salvador ou Recife viviam na luz de candeeiro, a cultura se sedimentava de um outro jeito. Meu, Minas tem barroco cara, nós não tivemos barroco em São Paulo, é outro pactus que fala né?

Luciano                 É e é uma coisa interessante que você está dizendo ai, você não consegue enxergar facilmente em São Paulo a personalidade que você enxerga, se você chega na Bahia, cara, eu consigo ver a Bahia, eu consigo ver o Recife, eu vou para o Rio Grande do sul eu consigo ver a gauchada. São Paulo é um pote, é uma grande mistura…

Maurício                Isso fazia com que nós, artistas paulistanos, correndo o Brasil, muitas vezes, porque a gente ficou arrogante também em São Paulo, porque a grana pesada esteve aqui no século XX, São Paulo é uma potência muito grande, ai você chega em Belém e nego te trata mal, parece que você é um brasileiro de segunda classe…

Luciano                 O metido né…

Maurício                … ou no Rio, porque você é metido e porque a tua brasilidade é cheia de coisa gringa, claro pô, porque o Elvis para mim é tão fundamental na minha formação quanto o maracatu, só que tanto o maracatu quando o Elvis são alienígenas para mim, só pizza e o pingado são naturais para mim.

Luciano                 E o que você gosta é cantar São Paulo, né cara?

Maurício                Eu gosto…

Luciano                 Vocês estão ouvindo ao fundo “Modão de Pinheiro”, por que “Modão de Pinheiro?  É “Modão de Pinheiro ou Modão de Pinheiros?

Maurício                Não, é de Pinheiros, mas eu falo Pinheiro, as vezes a gente precisa comer umas silabinhas ai.

Foi uma época que eu estava ensaiando, foi um show que eu fiz com o Théo Werneck, que é um guitarrista aqui de São Paulo. A gente fez um show juntos, ele guitarrista do blues, do pop, eu cantor autor e do pop e a gente fez um show de música caipira em 92 por aí, porque sempre a gente, tem a família no interior e a gente trouxe coisas que a gente lembrava, a gente cantou Tonico e Tinoco, a gente cantou “Tristeza do Jeca”, cantou coisas mexicanas, cantou coisas americanas, folk, caipiras. O Theo, ele morava na Capote Valente com a Arthur Azevedo em Pinheiros e eu todo dia fazia o mesmo caminho, daí um desses dias eu estava tomando banho e me veio o caminho na cabeça e eu fui rimando aquilo e fiz uma moda.

Luciano                 Virou uma música, olha a loucura.

Maurício                Agora, deixa eu fazer uma ameaça a mim mesmo aqui, que assim, os caras falam, pô o Maurício é paulistano, poeta de São Paulo, canta São Paulo, sim, sou poeta paulistano e canto São Paulo, mas é o tal negócio, eu não posso viver só disso, então se me meterem esse carimbo demais, aí eu vou dar um chute nesse balde e vou ter que me tornar outra coisa, como depois do Mulheres eu tive que me tornar mais lírico, porque o Mulheres era muito doido, não porque eu queira bancar o gostosão, pô eu faço o que eu quero, mas não, a gente precisa, eu sinto isso, manter a liberdade de se expressar como a gente bem entende…

Luciano                 E fugir de rótulo. Rótulo é mortal.

Maurício                … e a coisa mais fácil de ter é alguém, a imprensa, não é com má intenção, mas te rotula rápido, eles precisam te rotular…

Luciano                 É porque senão não consegue compreender, cara, a gente faz assim com tudo né cara.

Maurício                … e eu tenho trauma de rótulo, então quando pinta o rótulo, mesmo que esteja dando certo, aí eu pego a faca me suicido e faço de novo.

Luciano                 Mas até é um negócio legal, você é um artista peculiar, a tua origem, você é músico, é ator, é locutor, é produtor, é compositor, é um cantor que tem uma voz marcante não pelo poder da voz, mas pela personalidade que ela tem…

Maurício                É uma voz atípica.

Luciano                 … é única cara, ela é atípica e apesar disso você não é um alternativo daqueles herméticos sabe, que você bota e não consegue ouvir, você é muito fácil de ser compreendido e tem uma simplicidade no que você faz que chama muito a atenção, essa simplicidade o que é? Isso é uma convicção tua, é uma ferramenta de trabalho, é “eu sou assim e isso sai naturalmente” ou você trabalha para buscar essa simplicidade?

Maurício                Eu acho que um pouco é natural e um pouco é uma profissão de fé que eu fiz junto com o Abujamra quando ele estava no Mulheres, que a gente queria ter toda a invenção do mundo, quebrar todas as regras do mundo, ter todo o refinamento do mundo, mas o cara do ponto de ônibus tem que entender a gente, porque se não…

Luciano                 Vocês falavam sobre isso?

Maurício                Falava.

Luciano                 Vocês comentavam isso?

Maurício                Falava, acho que talvez isso eu seja mais preocupado até com isso do que o André, o André é mais uma força da natureza, ele ao mesmo tempo é refinado e é simples, mas para mim é uma coisa ideológica, por isso que eu falo que eu sou pop. Eu podia me vender como um cara mais refinado, porque a minha música tem muito refinamento, mas eu acho assim, o cara do ponto do ônibus tem que me entender, o cara que dorme debaixo do viaduto tem que me entender, o cara que trabalha numa roça ou guiando um trator no agro business tem que me entender, o cara de 90 anos tem que me entender, o milionário do Morumbi tem que me entender, o jeito de você ser universal é o pop. Madonna é acessível para todo mundo, ou Roberto Carlos ou algumas coisas do pop, aí são as minhas particularidades, mas eu sempre pensei, por mais refinado ou maluco ou fora do padrão que eu seja, de algum modo tem que ser compreensível para todo mundo, porque amanhã você está fazendo um show na rua, uma coisa é você fazer os seus shows em teatros, para um público de classe média, que consome música com mais informação, o cara que ouve o Wisnik, que ouve o sei lá, que ouve o Paulo Conti, que ouve o Tom Waits, aí é fácil, eu sou o Santos jogando na vila, é fácil, é time jogando em casa. Agora, as vezes eu vou para uma outra cidade fazer um show de rua e pode ser que lá tenha gente com outro universo cultural e essa gente tem que me entender, então…

Luciano                 Interessante isso, isso é uma proposta que é muito diferente do que era, por exemplo, os Tropicalistas nos anos 70 com aquela explosão que eles fizeram, que era uma coisa, de certa forma hermética, como eram as  poesias que se fazia naquela época, eles não estavam muito preocupados se o povo estava entendendo ou não e entraram com uma proposta completamente diferente, que me traz uma reflexão com você, quer dizer, há momentos em que isso é necessário, o que me parece que é essa ruptura, quer dizer, olha, todo mundo está entendendo, aparece alguém com um negócio completamente louco, aquilo arrebenta, explode e de repente é preciso voltar para a simplicidade para você poder fazer, quer dizer, há momentos em que você tem que promover essa ruptura, né?

Maurício                Sim, agora, os tropicalistas em especial, eu era criança, eu via o Caetano e o Gil eu gostava muito, se por um lado eles quebraram muita estrutura e eles faziam coisas muito malucas, por outro lado eu me sinto descendente deles, no sentido de que eles estavam no Chacrinha, eles usavam a guitarra, eles usavam…

Luciano                 Não tinham nenhum tipo de preconceito contra coisa nenhuma.

Maurício                … não, eles usavam pedaços de jovem…  eles logo abraçaram Roberto e Erasmo, lembro da Gal cantando Roberto e Erasmo, então os tropicalistas, se por um lado eles explodiram o formato da canção, por outro eles adicionaram muita coisa da música comercial, da música mais simples e dizendo, tem excelência na criação da jovem guarda, por exemplo e eram caras que tinham um conhecimento de bossa nova muito grande os baianos, mas que sabiam que a jovem guarda era importante também, que depois o Caetano trouxe Odair José e outras tantas coisas…

Luciano                 É interessando o que você está colocando, que as fontes deles não eram fontes primárias, os caras adoravam João Gilberto cara e o João Gilberto não é um cara fácil, não é um cara pop, popular, João Gilberto tem uma postura diferente ali.

Maurício                É.

Luciano                 Escuta aqui no fundo está tocando “Balangandans”, mais uma gravação com a Miriam Maria que é uma delícia, você que me mandou essa ai.

Maurício                A Miriam Maria é uma artista que ela é descendente do Lira Paulistana, ela trabalhou com o Itamar, foi uma das orquídeas, a cabeça musical dela foi criada bem aí e nos anos… no começo dessa década aqui ela gravou um disco que chama “Rosa Fervida em Mel” em que ela gravou vários autores de São Paulo e ela gravou “Balangandans”, eu gravei essa música no disco “Na Tradição”, ela gravou “Balangandans” de um jeito mais doce, mais orgânico, me trouxe um entendimento melhor dessa música, as vezes você grava de um jeito, a gente está fechado na própria cabeça e a Mirian expandiu o universo dessa música, é uma canção sobre o amor mais do que uma canção de amor.

E a Mirian Maria como a Virgínia Rosa também que foi uma cantora que trabalhou com Itamar, com Arrigo, turma do Lira, vanguarda lá, também foi das primeiras a me gravar, ela gravou “Pan e Leche”. É engraçado que eu sou um cara do pop, te falei que eu não sou exatamente da geração do Lira, mas essas duas cantoras da vanguarda, vindas da vanguarda foram duas das que primeiro me gravaram, eu não sou um cara muito gravado e são duas belas gravações.

Luciano                 E é interessante isso que você colocou aqui, do fato de gravar de uma forma como você faz uma música, você é o rei de fazer isso, você adora pegar umas músicas e dar um tratamento completamente distinto, tem um disco teu, fabuloso, uma delícia, o “Canções que Um Dia Você Assobiou” que é irresistível para um cara d minha geração, porque ali você pegou, você não se importou, o que tocava muito e você pegou e regravou e fez algumas coisas deliciosas, escuta isso aqui, isso aqui é o original com o Antônio Marcos, quer ver?

Aí entra o Maurício e faz uma coisa assim.

Cara, isso é soul music bicho…

Maurício                É soul music.

Luciano                 … isso é soul music, você pegou Antônio Marcos e deu uma roupa de soul music naquilo e não parou aí, o cara é muito maluco, ele vem com esse outro aqui, Ronnie Von, quer ver?

Olha o que o Maurício fez com “A Praça” cara.

Isso é rock.

Maurício                Total, Stones.

Luciano                 Isso é rock, você meteu o rock em cima da “A Praça”.

Você muda completamente a personalidade da música e mantém a referência, quer dizer, eu sei que música que está tocando, está tocando completamente diferente de tudo aquilo que eu ouvi, mas cara, é irresistível, o que é essa.. isso é uma homenagem que você está fazendo, é uma curtição, o que é isso?

Maurício                Esse meu disco aí, o “Canções que um dia você já assobiou” são aquelas canções que estão no inconsciente da gente, às vezes você não tem o disco, não gosta daquele artista, não gosta da música, não gosta daquele gênero, mas tem música que chega para você, você está no bar ela está tocando, você pega o taxi ela está tocando, ônibus, na estação rodoviária, tem… toca na novela você ouve, pá pá, então tem umas músicas muito simples que elas entram no coração da gente à revelia e eu estava com muitas dessas no começo do século XXI e eu resolvi exorcizar elas, eu pensei, quais são essas músicas que eu conheço, eu sei que todo mundo conhece mas que as vezes tem vergonha de falar ou que não… e aí a gente foi… eu fui pondo para fora, a banda, o Turbilhão de Ritmos, a banda com a qual eu gravei esse disco, são caras que tinham tocado comigo no Fanzine que era um programa da TV Cultura nos anos 90, diário, ao vivo, apresentado pelo Marcelo Rubens Paiva…

Luciano                 Já era Turbilhão lá?

Maurício                … não, lá não era.

Luciano                 Depois se formou para esse disco?

Maurício                Formou para esse disco, ali eu fui um cantor de programa de TV, eu cantei mais de 600 músicas em 2 anos, de todo tipo, de Noel Rosa a Amado Batista…

Luciano                 Era uma delícia, era uma delícia…

Maurício                …  maravilhoso, uma escola. E essa banda, programa acabou em 94 e no começo de 2001, 2002, essa banda caiu na minha mão, tipo queremos tocar, vamos brincar, vamos brincar, com essa banda eu só toco música dos outros e são músicos que fizeram baile, músicos que gostam de música simples, mas que ao mesmo tempo são cheios de ideias na cabeça, então a gente brincou de fazer música simples com liberdade instrumental, mas com pegada, que é a coisa paulistana, o rock’n roll é muito forte aqui…

Luciano                 Não cara, não há nome melhor para essa banda do que Turbilhão cara…

Maurício                É um turbilhão.

Luciano                 … é uma festa, você gravou ao vivo?

Maurício                Gravei ao vivo…

Luciano                 Pô, fantástico.

Maurício                … e o repertório veio fácil, porque alguma coisa, a gente tocou no Fanzine, alguma coisa todo mundo em volta, hoje em volta dos 50, naquela época em volta dos 40, então o que a gente ouvia nos anos 60? Jovem Guarda, pop italiano, Gianni Morandi, que eu gravei, eu ouvia Adoniran, aí depois quem viu novela ouviu “O Amor e o Poder”, Guilherme Arantes, então são coisas que tocaram no rádio, o rádio é muito fazedor do inconsciente coletivo ouvinte da gente. Então foi um disco que ele foi irreverente nesse sentido que para nós foi brincadeira, são músicas que dá para brincar, zoar, mas reverente, para eu dizer olha, eu me prostro como os budistas, eu me ajoelho diante das grandes canções e as grandes canções não são só do Dorival Caymmi e do Tom Jobim, as grandes canções podem ser uma canção como “Férias na Índia”, que é do Osmar Navarro, na jovem guarda, ou pode ser uma canção do Taiguara, como tinha nesse disco, ou pode ser “O Amor e o Poder” que é uma versão de uma versão…

Luciano                 Sim, eu já usei no programa, toquei tudo aqui, toquei a versão, da versão, da versão, toquei as três, você e as outras.

Maurício                … ou “O Homem de Nazaré” que eu participei de um programa da prefeitura no tempo da Marta, que a gente ia tocar nos CEU’s e meu trabalho é mais difícil, nem sempre eu conseguia ligar o público, aí eu tocava “O Homem de Nazaré” e as pessoas amavam e eu perguntava depois, por que, de onde vocês conhecem “O Homem de Nazaré” que é muito mais antiga, ele falou não, tem igreja que usa aqui na periferia, tem canções, é isso que eu falo, tem canções muito simples, as vezes com dois versos e uma boa frase musical, meu o cara faz um clássico que não vai morrer, que nem Mozart e Beethoven, então esse “Canções que um dia você já assobiou”, eu acho que é o meu disco mais sagrado, se tem algum disco que eu ponho na minha frente, acendo uma vela e de joelho eu me ponho à disposição do disco, é esse aí…

Luciano                 É uma festa cara.

Maurício                … e essa banda, de quando em quando toca comigo, ano passado a gente gravou um disco de carnaval e é o mesmo caso, são canções que a gente ia pular no baile quando a gente era pequeno…

Luciano                 Esse eu não tenho ainda, cara, esse eu vou precisar.

Maurício                … chama “Carnaval Turbilhão”.

Luciano                 Deixa eu te fazer uma pergunta, tem uma pergunta, fiquei curiosíssimo nesse disco, cara, porque eu ouvi e você deu esse tratamento, meteu soul music aqui, meteu rocão ali e de repente você entra com “Meu Mundo e Nada Mais”, do Guilherme Arantes e você faz quase aquilo que ele fez cara.

O arranjo é muito parecido, você levou, você não mexeu na música, eu olhei para aquilo e falei, por que cara, por que o Guilherme Arantes é o paulistano, é o cara da rua e aquilo estava… por que você não mexeu nela?

Maurício                Eu acho que essa música é uma que eu mexi, não tanto na forma mas eu mexi no espírito.

Então a minha maneira de cantar é uma maneira de… eu imagino o meu mundo e nada mais, alguém introvertido e revendo conceitos, para mim isso é uma maneira de se propor metafísica para o cidadão comum, então “O Meu Mundo…” até porque é uma música que você começa a cantar, aqui em São Paulo, pelo menos todo mundo canta essa música, então você não canta sozinho, então é um… no show eu abaixo a luz, falo para as pessoas, vamos meditar, quando eu fui ferido… então eu acho que o que tem mais de diferente da minha versão para o Guilherme Arantes, ele é mais pop, é uma produção de gravadora grande, então é mais enxuto de forma, eu improviso um pouco mais.

Eu acho que eu trouxe, de um certo modo, de um jeito mais introvertido. Eu divido ela mais jazzisticamente, eu quase falo ela em alguns momentos, mas é o clima que o Guilherme botou lá no original, não tem como fugir dele, essa música que não, se eu deixar ela muito… transformar ela num rocão rápido eu vou matar ela, porque tem isso, tem música que o original é tão bom, mesmo essas aqui, são todas versões, eu tenho para mim que sempre o original mata a pau, resolve.

Luciano                 Mas você é metido, cara, você faz umas que eu vou te contar, você quer ver uma coisa aqui, escuta isso aqui.

Vocês estão ouvindo “Cristina”, com o Tim Maia, esses sujeito aqui pega e ele consegue ser mais soul do que o Tim Maia, de repente entra tua gravação que é mais soul que a dele, quer ver ó.

E aí cara?

Maurício                Eu acho que aí, casualmente eu posso ter ficado mais soul que o Tim Maia porque eu ouvi mais vezes o Tim Maia do que o próprio Tim Maia e influências. No duro, quando eu falo um cara paulistano, ele é de tudo um pouco, se eu precisar cantar um samba canção, como eu gravei “Uma Loira” do Hervé Codovil, que foi um sucesso de Dick Farney, eu sei, eu fui cantor do programa de TV, então eu tive que abordar diversos gêneros e o paulista ele é meio tudo ao mesmo tempo agora e a soul music, ela, na minha firmação ali dos anos 80 no Mulheres, foi uma época que se ouviu muito soul, se ouviu muito funk a música negra americana, Prince, James Brown estava se ouvindo muito, Steve Wonder, estava se ouvindo muita música negra sincopada e Tim Maia sempre é um deus para nós, músicos brasileiros populares, é um dos grandes deuses da canção brasileira.

Luciano                 Eu gosto muito dessa tua capacidade de reciclar as coisas, de utilizar coisas que estão esquecidas, escuta o que vai entrar aqui agora, quer ver?

Que é isso cara?

Maurício                Pois é…

Luciano                 “Abrãozinho” é o nome da música.

 

Maurício                … “Abrãozinho”, eu sou um músico paulistano, tenho filho para criar, o que acontece em São Paulo? Muitos músicos acabaram tendo estúdio, essa é a diferença de São Paulo para outros lugares do Brasil, nos anos 90 e 2000, muitos músicos que não aguentaram o rojão do show bis, porque é muito difícil você se sustentar só fazendo show ou com disco, é muito difícil mesmo cara. Quem está ouvindo e quer ser músico eu digo, cara é muito difícil, então a gente começa a fazer de tudo e muitos músicos montaram estúdios para fazer jingle, o Zé Rodrix montou, o Renato Teixeira fazia muito jingle, vários manos meus da minha geração. Hoje muita gente tem, muitos músicos ali dos anos 90, eles tem estúdios. O “Abrãozinho” foi até um dos primeiros jingles que eu cantei, não cantei muitos. O Zé Rodrix me ligou, sabia que eu estava duro, porque claro, não precisa muito saber que um músico independente está duro, eu gravei o “Na Tradição” lá no Voz do Brasil que era o estúdio dele, então ele sabia que eu estava pagando o disco e ele ligou para mim assim: Pereira, vem gravar, eu quero você para cantar um jingle que eu fiz aqui. Falei pô Zé, não sou muito de fazer propaganda porque eu sou compositor, se eu canto um jingle isso vai influir em como as pessoas ouvem minha música, vão dizer que o cara se vendeu eu pensei nos anos 60 cara, aquele purismo, ele falou não, vem aí, aí eu fui lá para o estúdio do Zé, meio assim, pô, cantar um jingle, muitas vezes o jingle acaba sendo grosseiro, meio tonto, meio… tem que vender, as vezes… aí ele botou, ele começou a cantar o “Abrãozinho” começava e começava e a música não acabava, era uma música de 3 minutos, era um jingle gigante, era um jingle gigante, chegou a ir para o ar um pouquinho e ganhou prêmio, do Zé Rodrix. Aí eu falei pô Zé, que diabo de jingle é esse? Isso é uma canção, a história brasileira, isso conta uma história muito linda e de um jeito muito lindo e com aquela maneira, ou old school do Zé Rodrix no mundo em que a gente hoje, você fala da Lady Gaga, a gente é muito, trabalha muito com pedaços de melodia, com rif, com células melódicas, mas a geração do Zé Rodrix, do Milton, esses caras faziam grandes melodias, eles não tinham medo da melodia, de que ela fosse longa, que ela fosse cheia de novidade no caminho, então é um jingle do Zé Rodrix, com muita melodia contando uma história do brasileiro, é um jingle da Wolks, vocês precisam comprar o Wolks.

Luciano                 Legal. Eu tenho usado muito tuas músicas aqui, muito e elas sempre servem como o contraponto para alguma história e tem uma aqui que eu fiz questão, eu nunca toco inteirinha, é raro, de vez em quando, quando a música precisa, ela sai inteirinha, mas a gente sempre toca um pedacinho dela, teve uma tua comprida cara, que eu tive que tocar inteirinha, ó o começo dela aqui ó.

Que lance é esse de Bauru, Bauru é minha terra cara, eu nasci lá e você toda hora fala de Bauru, você deu uma entrevista lá, quando perguntaram para você, vem cá, onde é que toca você e você falou um monte, a UNESP, a FM de Bauru, tem um show lá, estou voltando de lá, que ligação é essa com a minha terra cara?

Maurício                São várias coisas, primeiro, nos anos 80, como eu te falei, que as rádios do interior não estavam em rede, elas acabavam tocando Mulheres Negras, principalmente nas cidades universitárias, como Bauru, Piracicaba, Jaboticabal, Ribeirão, São José dos Campos e a gente acabava tendo público nessas cidades. Então o Mulheres fez muito show no interior, Campinas, Pirassununga, onde tinha universidade o Mulheres ia muito, tinha fãs loucos, em Campinas. Eu lembro que tinha um fã clube que a primeira fila inteira dos show de Campinas iam caras vestidos de Mulheres Negras, coisas das mais absurdas, então no interior de São Paulo, que é um lugar que eu gosto muito, minha família, os mais velhos eram de Campinas, tinha maquinista de trem da Mogiana, então pegava o trem e ia para Ribeirão e eu sempre amei o interior de São Paulo, que muita gente não gosta, é só rodeio, eles elegeram o Collor, não cara, é muito especial o interior de São Paulo…

Luciano                 Tem uma raiz musical que vem de lá que é uma delícia.

Maurício                … que é o, a moda nossa…

Luciano                 Essa aqui é para você ó.

Vocês estão ouvindo aqui “Chico Mulato”, com Jacó e Jacozinho, que o seu Maurício Pereira fez questão de regravar e quando o Maurício Pereira botou a mão não é mais uma… como é que eu digo, uma música sertaneja, virou outra coisa, escuta só.

Maurício                Então, essa coisa com o interior tinha lá com o Mulheres e eu continuei tocando no interior depois do Mulheres, sempre gostei, eu acho que é um público quente, que entende esse estado de espírito meio brincalhão da gente, o interiorano de São Paulo, o paulista do interior ele é muito divertido, muito carinhoso, ele é meio italianão sempre, então dá para você ser meio grossão que eles dão risada e são muito afetivos e o “Loira do Caravan” foi uma vez que eu fui tocar mesmo em Bauru, com o Paulo Freire, Paulinho Freire violeiro e na volta eu falei para ele…

Luciano                 Você não vai me dizer que a história é verdadeira cara…

Maurício                … eu vou dizer que é praticamente verdadeira cara, na volta eu falei para ele, não vamos voltar pela Castelo, eu tinha que deixar ele em Campinas, nem vamos pela Washington Luís, vamos por dentro, lá em Brotas eu sei que tem um caldo de cana, a gente come um peixinho em Piracicaba e quando a gente estava perto, entre Brotas e Torrinha e quase para descer para Piracicaba, uma Caravan jogou a gente fora da estrada, aí eu falei para o Paulinho, a pessoa que estava dirigindo aquela Caravan usava um óculos espelhado, tinha o cabelo muito brilhante, loiro e não tinha cabeça nenhuma e aí como diria o BB King, that’s a story everybody know, ouçam a música.

Luciano                 É uma delícia cara.

Maurício                Mas é isso, interior é muito querido para mim, o interior paulista.

Luciano                 Muito legal cara. Nós estamos chegando no final aqui, eu quero… tem mais duas ou três coisinhas para falar aqui, uma delas que eu achei uma delícia foi você pegar o Adoniran Barbosa e transformar em reggae, cara.

“Saudosa Maloca”, bicho, Adoniran para você é um ícone, não é não?

Maurício                É e é mais do que apenas o Adoniran, vamos dizer, Adoniran é Deus, Demônios da Garoa são os apóstolos, porque o contato com Adoniran foram os Demônios. Quando eu era pequeno eu tinha duas bandas que eu amava, eram os Incríveis, muito paulistanos, rock’n roll, jovem guarda e os Demônios, que cantavam aquele Adoniran com aquelas histórias da cidade, meu avô morava no Belém, putz então a gente passava no Brás, aquelas coisas leste, Trem das 11, eu cheguei ainda a ver o trem da Cantareira, quando era pequeno, então coisas de São Paulo, falado tudo errado, eu adorava ver aquela abertura de vozes, então… e o Adoniran, sendo paulista, eu sei que o veinho lá no céu, ele deixa a gente fazer o que quiser e todo paulista, de algum modo, tem o pé no pop e no rock’n roll, então se a gente descer o braço dá certo, não pode é querer ser granfino cara, que aí dá problema.

Luciano                 Eu usei uma música sua que me gerou um programa inteiro, chamado “Um Dia Útil”, olha a entradinha dela aqui.

Que é uma delícia, é você cronista nesse momento, é um cronista contando um pouco da sua vida, aquilo não é uma poesia, você pode escrever como se fosse um texto, um texto normal e me gerou um programa, mas depois eu fiz um outro programa que eu achei interessante, eu queria perguntar para  você, para o final aqui, eu fiz um programa chamado “Envelhescência”, onde eu conto de um período da vida da gente que não é nem a velhice nem a maturidade, saímos da velhice, da maturidade e vamos para a velhice, no meio tem um negócio chamado “Envelhescência”…

Maurício                Nem me fale…

Luciano                 … que é onde nós estamos cara, como é que você está lidando com isso cara, essa transição, como é que isso interfere no teu trabalho, quando você olha para trás e vê, pô, eu, Maurício de 30 anos para cá, o que está acontecendo agora, cara?

Maurício                Muitas coisas. A vida de músico independente, as coisas acontecem muito devagar, então por exemplo, nesse momento nós estamos aqui em março de 2011, depois de 17 anos de estrada com o Daniel Zafran, foi com quem eu gravei “Mergulhar na Surpresa”, a gente fez nosso primeiro show internacional esse fim de semana passado em Buenos Aires e a gente foi muito amado lá, então tem o lado que é depois de 20, 25 anos na estrada você começa a ser reconhecido e eu que sou um cara introvertido, que tenho um caminho solitário, cabeção guerrilheiro, não abro muito… tem horas que eu sou intransigente e pago o preço disso. Então depois de 10, 25 anos, eu aqui com 51 anos, estou colhendo um pouco de fruto, esse é um lado, estou mais tranquilo, na hora de eu fazer um disco eu não tenho pressa, eu posso esperar um ano, dois anos, se eu não tiver o que dizer eu não digo, tem coisas na estrada para eu fazer, então tem um lado que estou menos ansioso, outro lado é, eu tenho 51, é duro chegar no fim do mês e não ter  dinheiro e eu sei que a carreira é muito louca, a profissão é muito difícil, eu preciso ter preparo físico para talvez chegar aos 70 e estar ralando igual, então o que eu estou fazendo? Estou fazendo pilates, então eu estou mais forte do que eu era há 10 anos atrás, parece gozação…

Luciano                 Mas é verdade cara.

Maurício                … eu ando, eu tento me manter fisicamente forte e tento, a minha cabeça, eu tenho um filho de 19 anos, tenho 3 filhos, o de 19 está tocando, tem uma banda, de vez em quando ele me chama par tocar com ele e por ele eu estou tocando com músicos mais jovens e bebendo em fontes de gente que tem 30 anos a menos que eu e eu estou então muito em contato com o que se está fazendo em São Paulo agora, então eu estou muito ligado, apesar de eu ser um jovem guarda, um beatlemaníaco velho, eu estou ouvindo Tulipa Ruiz, Carina Buck, Rômulo Fróes, Catatau, Rodrigo Campos, Rafael Castro, Marcelo Geneci, toda essa gente é muito familiar para mim. Ouço e com vários deles eu já toquei, então é um jeito de eu me manter vivo é fisicamente eu estar forte e o outro é conhecer o que está acontecendo e ao mesmo tempo tentar manter a calma porque a gente às vezes se empolga, que acho que aos 50 anos alguma coisa vai andar mais rápido, então eu tive um dia de glória em Buenos Aires antes de ontem, mas saber que eu chego aqui, sou guerrilheiro formiga e tenho que cavar cada centímetro, então preciso estar fisicamente forte e mentalmente não muito ansioso e tentar fazer música de um jeito que ela não fique datada, que é por isso que o “Mergulhar na Surpresa” depois de 15 anos, eu fui levar um show 0 quilômetro para Buenos Aires e as pessoas estão querendo ouvir, então é isso, é uma hora de olhar para trás legal, estou me reconhecendo. Já fiz muita coisa, já errei, já sei o que dá certo ou não e olhar para a frente e pensar, pô, o preparo físico não é o mesmo e a profissão não me permite diminuir o ritmo de trabalho porque é difícil ganhar, então é um momento de pensar muito mesmo, de ver como é que eu consigo me manter, não é jovem, é me manter vivo, ativo e funcional, porque muitas coisas eu já não consigo mais fazer, então o que eu não estudei de instrumento eu não vou recuperar mais agora, tem coisas que a minha voz já não alcança mais, então é pensar, sabe jogador de futebol velho? Eu jogo…

Luciano                 Sim, vai correndo menos e vai ….

Maurício                … eu faço pivô, inteligência tem que ser as vezes a inteligência tem que ser grande, então tem que ser maior.

Luciano                 Pô cara, eu sou teu fã,

Maurício                Obrigado.

Luciano                 … sou teu fã, tenho todos os discos, faço questão de usar, a gente adora isso aqui, eu reconheço essa dificuldade, esse trabalho, também estou aqui em São Paulo ralando, o Café Brasil é uma iniciativa pessoal, absolutamente independente. Nós estamos tentando montar uma coisa nova por aí e cara, eu acho que isso é legal, saber que você tem uma fidelidade de público, tem uma tribo onde você vai aquela turma está lá, eu sei que você se alimenta disso, a gente brinca aqui com a turma que escuta, fala meu, manda um e-mail falando alguma coisa porque o que nos alimenta é esse retorno…

Maurício                E muito importante.

Luciano                 … quero te agradecer por ter vindo aqui, uma hora de papo aqui, mas acho que foi legal, a turma vai gostar bastante, eu espero que se interessem para descobrir essas tuas… o Maurício Pereira com esses  discos todos ai…

Maurício                É porque apesar de eu estar 30 anos na estrada, eu continuo fabricando meu público, às vezes você encontra uma pessoa e fala, quem é você, onde você estava? Não é reto. É importante.

Luciano                 A gente sabe como é isso. Escolhe uma musica ai para a gente encerrar o programa cara.

Maurício                Escolher uma música…

Luciano                 Tua, ou não. Tua ou não? Escolhe.

Maurício                … minha ou não né… me pegou completamente de surpresa, deixa eu pensar se eu sou um grande ouvinte meu, tem uma música chamada “Trovoa” no “Pra Marte”, é uma canção de amor nervosa, paulistana e que ela… eu acho  que essa tem a ver com ter 50 anos, você saber que tá, eu não fiz só coisa certa, as vezes eu sou um idiota mas eu também tenho  direito ao amor, à felicidade, a coisas boas e eu sei que as vezes não vai ser nada bom e que o ruim, o bom, o certo, o errado vem tudo misturado, nem por isso a gente tem… a gente tem que estar esperto ali porque vez em quando abola pinta na área e pimba, a gente tem que fazer esse gol e correr para o abraço…

Luciano                 E não pergunta não, porque se perguntar se pode chutar todo mundo vai dizer não chute.

Maurício                Vai saber meu.

Luciano                 Com vocês Maurício Pereira com “Trovoa”, muito obrigado cara.

Maurício                Eu te agradeço.

Luciano                 Você ouviu o LíderCast mas ele continua no portalcafebrasil.com.br onde você encontrará a transcrição desta entrevista com links e mais informações. portalcafebrasil.com.br . Vá lá, ajuda a enriquecer o programa com seus comentários, leia os comentários de outros ouvintes e mande sugestões de pessoas que você gostaria que fossem entrevistadas no programa e se quiser nos contatar pelo WhatsApp é o 11967898114. O LíderCast chegou até você com apoio do Linkedin, a solução que vem transformando a atração de talentos através das redes sociais profissionais. Quer uma demonstração gratuita dos produtos corporativos para atender suas necessidades de recrutamento? Acesse br.talent.linkedin.com, eu repito br.talent.linkedin.com

Até o próximo LiderCast. Liderança e empreendedorismo na veia.

 

Transcrição: Mari Camargo.