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Luciano Pires -

Luciano       Bom dia, boa tarde e boa noite, o projeto do líder cast é um desdobramento do pod cast Café Brasil, que talvez você já conheça. Algumas das entrevistas desta primeira temporada, como é o caso desta aqui, foram originalmente feitas para o Café Brasil, portanto se você me ouvir falando do Café Brasil ao longo dela, ou se entender que de alguma forma fugimos um pouco do tema, já sabe a razão. Seja bem vinda, seja bem vindo e boa entrevista.

Muito bem, eu tenho na minha mão aqui um livro, um livro chamado “A Filosofia do Jeito, um modo brasileiro de pensar com o corpo”, chegou para mim por acaso, chegou primeiro através de um release, falando de um livro que falava do jeito, do jeitinho brasileiro, eu fiquei encantado com o assunto, entrei em contato com a editora imediatamente e pedi para falar com a autora do livro para ver do que que se tratava, mandaram o livro para mim, eu li uma boa parte do livro, não consegui ler inteirinho, não deu tempo, isso aqui é muito recente e eu fiz questão de chamar aqui a Fernanda. Fernanda Carlos Borges que escreveu esse livro e que trata de um tema que se você ouve o Café Brasil há algum tempo você vai saber que ele é recorrente aqui no programa né. A gente vive falando de jeitinho brasileiro e de repente cai nas minhas mãos um livro que fala do jeitinho brasileiro, falei cara, eu tenho que trazer a Fernanda e a Fernanda está aqui conosco. Bom dia, boa tarde e boa noite.

Fernanda     Bom dia, boa tarde e boa noite…

Luciano       Tudo bem?

Fernanda     … e obrigada pelo convite.

Luciano       Que é isso Fernanda, seja bem vinda, vamos começar como eu sempre começo aqui, quem é a Fernanda, o que é que você faz e o que que levou você a cometer esse livro? Vamos lá.

Fernanda     A cometer. Cometer o livro. Bom eu sou filósofa, sou professora universitária, pesquisadora e me meti um pouco com arte também, fiz formação em teatro, mas enfim, sou uma intelectual.

Luciano       Você é filósofa?

Fernanda     Filósofa.

Luciano       Mas deixa eu pegar na sua mão? Aha que peguei na mão de uma filósofa, que coisa fantástica né?

Fernanda     É diferente?

Luciano       Não, é igual, mas é aquela história que a gente estava comentando aqui, fala aha você, sou filósofo, sim mas você faz o que? Mas eu sou filósofa. Mas faz o que né? Que legal né e você, eu vi que você tem um currículo bastante extenso, você já fez uma série de trabalhos relacionados, não necessariamente a esse tema aqui, mas já trabalhou bastante com questões filosóficas, como é que é trabalhar com filosofia no Brasil hein? Tem espaço para isso? Ou só dá para filosofar em alemão?

Fernanda     Não, não. Mas essa é uma ótima pergunta porque a filosofia no Brasil ela tem, em função da história do Brasil né, de ter se dividido entre uma cultura que se auto legitimou, que é a do sinhozinhos, dos europeus e de outras que eram desprezadas por esses que se auto legitimavam né, o Brasil, durante muito tempo, no âmbito assim intelectual e filosófico e tal, tinha muita dificuldade de  entender quais eram realmente as questões que nos interessavam, como se a gente importasse um pensamento exterior e esse pensamento exterior, que tinha uma determinada história tinha que ser implantado aqui né, colocado aqui a qualquer custo, então só que isso ignora, por exemplo a história da África, isso ignora, por exemplo a história dos índios nativos né, dos nativos antes da descoberta, então que que aconteceu? Durante muito tempo a filosofia, ela ficou muito restrita à importação dos verdadeiros filósofos então, por exemplo, ficara mais importante discutir o imperativo categórico do cante, do que discutir um assunto que eu acho ótimo que é a ética do santo, do bater o santo, não bater o santo, por exemplo, você já viu algum filósofo se debruçar sobre isso? Qual é a ética que está embutida nessa expressão, nessa ideia de bate o santo ou não bate o santo? Que é uma ética que organiza né, que orienta muitas relações que estão na rua, então assim, não sou só eu que digo isso né, mas muitos, Oswald de Andrade disse isso, tem um cara que eu gosto muito do Paraná, que é o Roberto, chama Roberto, escreveu um livro chamado “Crítica da Razão tupiniquim” que ele coloca também desse filosofar, a importar, do abstrair de distante, da nossa rua, do nosso cotidiano e eu que fiz filosofia, eu vi isso acontecendo né, eu entrei na faculdade muito nova, com sei lá, 17 para 18 anos e realmente era um tipo de abstração de questões que indiretamente tinham a ver comigo, sou descendente de alemães, de portugueses e tal e herdei deles uma civilização que veio para cá, mas também cercada de mestiçagens, de outras culturas, de outras referências simbólicas e éticas, que a gente quase não vê na faculdade né, então isso alguns sociólogos que acabaram se envolvendo mais sobre essas questões que são realmente brasileiras que interessam à rua, na rua. Na filosofia alguns poucos, poucos mesmo e quando eu resolvi fazer uma tese sobre o jeitinho brasileiro foi estimulada por isso né, pelo pensamento do Oswald de Andrade, deste livro, “A Crítica da Razão Tupiniquim” e de outros pensadores intelectuais que disseram a gente precisa pensar os nossos problemas que atingem a nossa rua, não só nos submetendo ao modelo importando, então agora a gente vai imitar a Europa, o Brasil quis imitar a Inglaterra, como é que o Brasil quis imitar a Inglaterra? Porque no começo do século XX o Brasil queria imitar a Inglaterra, não tem como imitar a Inglaterra, é outro processo civilizacional né, mas de repente então tem uma, aha não, a revolução industrial, aquilo deu super certo, eles ficaram ricos, olha só, vamos trazer isso para cá, vamos colocar aquele modo de vida, que é a ética, aquele hectus(?), trazer para cá e vamos encaixar dentro daquilo, então isso aconteceu muito no Brasil, essas forçações né.

Luciano       Que é bem característico no Brasil, aqui é 8 ou 80 né, ou você traz aquele importado e tenta enfiar aqui, ou você é um xenófobo que diz que o que vem de fora não interessa, vou encontrar meu próprio caminho e vou criar uma solução…

Fernanda     Que é a briga clássica entre os…

Luciano       … brasileira né…

Fernanda     Exato.

Luciano       … né não tem né…

Fernanda     Que é a briga clássica entre os verdeamarelistas e os antropófagos né, quando pensaram em identidade lá no começo do século. Agora, essa questão do jeitinho ela entra exatamente dentro dessa questão de uma importação de um modo de viver institucionalmente, que é o modelo inglês…

Luciano       Que é o modelo inglês.

Fernanda     … é o modelo inglês…

Luciano       Interessante

Fernanda     … é que criou o indivíduo que trabalha dentro das fábricas, que nem um número, que tem hora para entrar, que tem hora para sair, cuja identidade é marcada né por um, por um código mesmo, por um número que se distanciou da família, foi para os grandes centros urbanos, virou mais um e que tem uma série de regras para que aquela máquina, que é a máquina da fábrica, máquina da indústria funcione, então a peça tem que estar no lugar certo, na hora certa…

Luciano       E que é um desenho do mundo ocidental, certo? Se você for olhar o mundo ocidental, o que que é? Ele é o império inglês jpa tomou conta e definiu, se você for na China não é assim, se você for no Japão não é assim né, se você for lá no meio da Ásia você não vai encontrar uma coisa assim, mas no resto do mundo, par ao lado de cá, ele é todo assim, ele foi desenhado assim e a gente começa a ver esse desenho aparecer, a gente vai falar mais a respeito disso né.

Fernanda     … e o que que é o jeitinho? O jeitinho é uma resistência a esse modelo, essa é a minha tese.

Luciano       Então, antes de eu entrar na sua tese,  já estou pulando aqui, estou pulando na cadeira aqui né, vamos falar um pouquinho mais dessa questão ai, eu te fiz a pergunta, como é que é essa coisa de fazer filosofia no Brasil, você já deu uma introdução de…

Fernanda     É…

Luciano       … de como é que é essa história da filosofia no Brasil né, mas eu quero provocar você um pouquinho mais, você diria que já existe uma filosofia tupiniquim no Brasil? Tem já ou, eu não consigo encontrar ainda, que eu possa falar para você 3 ou 4, não, quando a gente começa a mexer, vai cair lá atrás, aha vamos falar do Oswald de Andrade…

Fernanda     É o grande…

Luciano       … etc e tal e ai?

Fernanda     … Desculpa ai, é ele.

Luciano       Quem?

Fernanda     Oswald de Andrade é o grande filósofo realmente, é, infelizmente assim, que bom que é ele porque ele é ótimo, mas assim, ele é o grande filósofo brasileiro, o Oswald de Andrade, claro que tem milhares de professores, de pesquisadores, filósofos que estão dando aula, que estão pesquisando, que estão fazendo as suas coisas né, mas em termos de fazer uma síntese assim, que pudesse nos orientar com relação a quem somos, de onde estamos e pensar num de vir né, ele foi o mais importante mesmo, você pode não gostar, gostar, isso não é a questão, mas foi um grande, um marco, um marco mesmo…

Luciano       É, eu estava…

Fernanda     … hoje em dia filosofia está super pop né, porque tem vários filósofos que estão ganhando assim uma repercussão pop, mas isso não significa que sejam filósofos pensando o Brasil, estão pensando várias coisas que tem a ver com vida urbana, num contexto globalizado e que é legal, ok, mas não chegam a…

Luciano       É que de repente trazem para no universo pop, algumas coisas que são fundamentais que é aquela ideia do que você está discutindo nesse momento, o que está mexendo a sua cabeça, teve um sujeito no Grécia, há 3 mil anos atrás que já pensou isso, já falou a respeito, já teorizou e você está repensando coisas que já foram pensadas lá atrás…

Fernanda     E que é bacana…

Luciano       … e quando isso surge é uma surpresa né, as pessoas estão aqui envolvidas no dia a dia e esquece que alguém já teorizou sobre aquilo então, a cada hora que eu pego um desses artigos né, no jornal que é escrito numa linguagem, você usou muito bem, é pop né, os filósofos pop, eles estão fazendo isso, eles estão trazendo aquela referência lá de trás, eu falo, gente, alguém já conversou a respeito disso…

Fernanda     Vamos lembrar né…

Luciano       … isso ai, quando eles mostram aquilo todo mundo fica surpreso, meu Deus, eu pensei que era assunto novo e realmente não é né.

Fernanda     … mas você sabe que essa é uma das funções da filosofia, eu tenho pensado nisso, uma das funções dos filósofos, ou dos intelectuais em geral, é realmente relembrar né,  é relembrando e trazendo reflexões…

Luciano       Reflexões…

Fernanda     … assim, visões de mundo que já foram bem trabalhados, coloca-las em questão, esse é um dos grandes trabalhos, mas em termos de filosofia brasileira, tem na antropologia também tem gente interessante, tem o Viveiros de Castro que tem uma tese bem original, bem interessante assim que faz uma síntese de um pensamento índio brasileiro…

Luciano       E tenta explicar o Brasil, tanta explicar o Brasil.

Fernanda     … não, tenta explicar o Brasil dentro dessa perspectiva né, da perspectiva do índio, claro acaba levando questões para o Brasil como um todo, mas fora desta referência de visão de mundo, inglesa, europeia que nós herdamos, que nós herdamos enquanto somos descendentes desses mesmos europeus, ele  traz uma outra referência que é essa do índio também com tradição, então assim, as áreas que estão mais pensando o Brasil são mais ciências sociais e alguns da filosofia mas as ciências sociais é mais viva nesse aspecto antropologia, sociologia.

Luciano       Legal. Eu fiz uma série de programas agora sobre produtividade, peguei nesse ponto porque conforme eu mexia e ia fazendo os programas e até no meu dia a dia, faço palestras em várias empresas, então do lado que eu olhava eu falava cara, isso tudo vai culminando, eu acho, em duas pontas né, uma tromba num assunto chamado liderança e para mim essa é a base né, onde você vai mexer se tem sucesso você mexe, a culpa é da liderança, se forem mal você mexe, a culpa é da liderança e o outro lado foi a questão da produtividade né, que fala, cara, então liderança de um lado, produtividade do outro, como é que funciona essas coisas? Comecei mexer na questão da liderança, depois virei para produtividade, em algum momento eu vou juntar essas coisas lá na frente né, mas eu fiz agora, recentemente, 5 ou 6 programas que eu tratava de produtividade e falava dessa dificuldade do brasileiro de conseguir ser produtivo, produtivo que eu quero dizer aqui é o seguinte: produzir a ponto de poder competir pau a pau com os caras que estão lá fora, eu tenho fábricas produzindo produtos, eu tenho gente criando coisas, mas a velocidade é diferente, o compromisso é diferente, a capacidade de cumprir aquilo que prometeu é diferente né, e como eu comentei com você antes de começar o programa aqui, eu trabalhei durante 26 anos numa baita multinacional morte americana e convivi com meus pares no mundo inteiro né e eu sei muito bem como os brasileiros pintam e bordam lá fora, a gente chegava lá fora e tirava de letra qualquer problema que aparecesse, bota na mão do brasileiro que a gente ia e fazia acontecer e os executivos brasileiros passaram a ser muito bem valorizados lá fora né, por essa capacidade de “não tem tempo quente, deixa comigo que eu resolvo” eu não estou nem entrando no jeitinho ainda né. Por outro lado então, de um lado isso ai nos dava essa sensação de , cara nós somos jogo duro cara, brasileiro sabe fazer, é o cara e ai quando eu me colocava no lugar dos americanos, eu via que tinha um olhar diferente, os caras não olhavam com admiração, eles falavam cara, os caras conseguem fazer mas eles não tem o menos compromisso e se der errado? Né, eu sempre vinha do gringo, cara e se tivesse dado errado né? E o brasileiro fala, eu nem penso em dar errado cara, se der errado a gente dá um jeito né, então produtividade nesse contexto, comecei a trabalhar nisso, começou a ficar interessante porque mostrava o jeito brasileiro de fazer as coisas que é diferente do jeito japonês, do jeito alemão, do jeito, aliás, estamos aqui saindo de uma copa do mundo onde o jeito alemão destruiu o jeito brasileiro né e como é que você vê isso, antes de entrar no jeitinho tá? Essa questão da produtividade.

Fernanda     Essa questão do ter certeza que vai dar certo, do ter certeza que vai dar errado, ela é muito interessante porque quando a gente começa, por exemplo a dizer assim, não mas o jeitinho pode ser interessante porque a maneira de flexibilizar as regras, é mais ou menos isso ai, sempre tem alguém que diz isso que você está falando, fala assim, não mas e se der errado? E se você cometer uma injustiça? Né porque a regra ela pressupõe uma justiça, você vai tratar todo mundo da mesma maneira, fazendo com que todos respeitem as regras né, então isso é uma forma de exercer a justiça, ai quando você fala assim, não mas as vezes tem exceções cuja a regra não responde justamente né e ai nessas situações o jeitinho é bem vindo, mas e se você estiver enganado, se a pessoa te enganar? Se não é verdade que de fato aconteceu um negócio assim assado…

Luciano       Quem é o juiz? Quem é o juiz? Quem é o juiz?

Fernanda     … mas a questão é assim, o risco de errar ele existe, você querendo ou não querendo, essa é a questão entende? Não tem jeito, o risco de errar, de cometer uma injustiça é possível quando você respeita certinho todas as regras, todos os procedimentos e quando você resolve abrir uma exceção, o risco está nos dois casos, eu conto ali no livro uma história, o filósofo moderno né, é europeu, Montaigne, ele conta a seguinte história, que teve um crime, que essa coisa do não errar diante desse nível de abstração da norma, da lei e tal, e Montaigne ele está super influenciado pelas culturas que os europeus estão descobrindo com as navegações né, mundos diferentes e ele escreve muito a partir disso, ele pensa a própria Europa a partir dessas outras culturas, dessas novas práticas, novas instituições diferentes, hábitos diferentes e tal e dai ele conta a seguinte história, que lá né, na Europa os caras, houve um assassinato e pegaram um suspeito e fizeram todo procedimento certinho, legal, de acusação e de julgamento desse suspeito, no final das contas ele foi considerado culpado e foi condenado à forca, o cara, e ai no meio do caminho entre a condenação e ir para a forca, apareceram os verdadeiros culpados que eram 3 caras, que disseram, não, fomos nós, nós matamos o cara e ai a corte teve que se reunir de novo e decidir o que ia fazer e sabe qual foi a decisão deles? Que Montaigne que conta, não sou eu, eles decidiram que como o procedimento formal, legal, normativo foi extremamente correto na condenação do inocente…

Luciano       Mate-se o cara.

Fernanda     … a condenação ia ser mantida e o cara foi morto por enforcamento, quer dizer, então esse é o contrário do jeitinho é isso eu estou querendo te dizer, é o respeito tão grande à formalidade e às normas e aos processos abstratos, que você não consegue lidar com aquilo que está acontecendo, cara…

Luciano       Que a gente está vendo isso acontecer…

Fernanda     … com as exceções, com as…

Luciano       … você vê isso acontecer, pega as lições do STF que nós tivemos recentemente ai, você olha para aqueles processos gigantescos, cara o processo é maior que o assunto em si né, é tanta coisa para seguir você fala, mas como é que não botaram o cara na cadeia? Não botamos porque o processo pla pla pla pla quando você vai ver o rito é tão importante que ele abre brechas para se ir contra aquilo que a gente acha que é o correto ou não né, mas isso não é o ponto, o ponto é o seguinte aqui…

Fernanda     É sobre isso eu acho que a gente teria outras coisas para discutir…

Luciano       … tem que ser outro programa gigantesco aqui né…

Fernanda     … porque há problemas nisso inclusive né, mas ai ia ser outro assunto.

Luciano       … claro vai ser um outro programa inteirinho aqui. Mas vamos voltar para aquela questão que você colocou, um negócio bem interessante…

Fernanda     Mas entende o que eu estou dizendo assim, esses caras eles não querem errar, eles erram não querendo errar, para não errar no processo abstrato, teórico, normativo, para não errar neste plano a gente vai errar nos fatos, então o cara vai ser morto, entende? Então quando, essa é a questão, quando que o excessivo respeito às normas, quando excessivo respeito à essas referências…

Luciano       O antijeito…. é o antijeito.

Fernanda     … é o antijeito, então nesse caso era muito melhor dar o jeitinho, então a questão que nós temos aqui no Brasil é como é que concilia essas duas coisas né…

Luciano       Uma coisa que você levantou ai que para mim é fundamental, quer dizer, você falou o seguinte aqui, o risco de errar existe…

Fernanda     Sempre.

Luciano       … sempre, basta estar vivo…

Fernanda     Até quando você respeita a lei.

Luciano       … basta estar vivo para correr risco. Ponto. Cabe a você definir se você vai relevar ou não o risco e ai eu acho que está a grande diferença, o brasileiro releva risco com o pé nas costas, o gringo não, o americano está horrorizado, eu tenho que passar no jurídico, o jurídico vai olhar, você não vai publicar esse release, eu estou falando o que aconteceu comigo, você não vai publicar esse release antes do jurídico ler 15 vezes, cara mas por que? Porque o jurídico tem que ler de cabo a rabo e mudar as palavras. Cara, mas espera um pouquinho, eu sou responsável. Não senhor, o responsável é o cara do jurídico e o processo acabava não saindo porque ficava preso no meio do ambiente lá onde não se admitia correr o risco.

Fernanda     É, mas você percebe como isso vai (confuso) construção de um cercado…

Luciano       E do outro lado estava eu aqui, o brasileiro dizendo, cara eu quero assumir o risco e o outro  lá, não vou assumir o risco e havia um choque tremendo lá e que para mim era, no final era isso né, você me contratou para fazer um trabalho e eu assumi a responsabilidade e eu vou fazer, se der errado me manda embora, esse é o meu pensamento né, no pensamento do gringo é o seguinte, não há possibilidade de dar errado, porque se der errado vai manchar o nome da empresa nós não podemos admitir então não faça.

Fernanda     Só que dar errado… A questão não é, quem disse olha, se essa expectativa não pode dar errado de fato, se efetivasse, tudo bem, mas dar errado, as coisas dão errado. Ponto. Então não é porque você seguiu todos os procedimentos que não houve lá um desvio de, não teve, bom, escândalos tem e não são só do Brasil, escândalos de corrupção né…

Luciano       Cai avião e….

Fernanda     … cai avião…

Luciano       … cai a ponte…

Fernanda     … e erra com relação à espionagem internacional…

Luciano       … vamos pegar um exemplo que está acabado aqui, nós estamos aqui a um dia do final da copa do mundo, acabou ontem, os alemães ganharam a copa do mundo e aplicaram aquela sonora goleada de 7×1 no Brasil e após a goleada nós vimos duas ou três entrevistas coletivas em que a comissão técnica do Brasil afirma com todas as letras que fez tudo certo e que faria outra vez, se tivesse…

Fernanda     Mas isso não é jeitinho.

Luciano       … que repetir. Não e estou…

Fernanda     Isso é conversa.

Luciano       … não, eu estou colocando isso como aquela questão de você seguimos todos os parâmetros e se você for olhar, fez certinho, po, montamos, está aqui o dado, está tudo escrito….. está lindo, maravilhoso. Quem disse que aquilo está certo?

Fernanda     Isso não é jeitinho…

Luciano       Não. Eu não estou nem colocando o jeitinho, está lá, o processo está lá, tem começo, tem meio e fim, está tudo arrumadinho, botamos, definimos onde os caras vão treinar, está aqui o número de treinamento, como é que o cara come. Está tudo certinho a ponto de o cara chegar e falar, eu faria de novo a mesma coisa e a gente vai lá e toma de 7×1 né. O que significa quem nem sempre esse processo lindo, maravilhoso, escrito, vai ser o que tem que ser resolvido lá na frente, ele não é a solução né…

Fernanda     Eu sou descendente de alemães sabe, então eu tenho um respeito enorme, mas os alemães já pisaram muito na bola no jeitinho, então também eu acho que…

Luciano       … que se você for olhar agora, o que que é essa seleção nova? Que que é essa seleção nova alemã? É uma seleção que aprendeu, eles pegaram aquele sistema, aquela coisa do alemão duro, seco e forte e desmontaram aquilo, falaram espera um pouquinho, o alemão é legal ser duro, seco e forte, mas tem um outro lado aqui que é o seguinte, ele tem que rir também, ele tem que brincar, ele tem que…

Fernanda     … o neo nazismo lá está crescente né…

Luciano       … ele tem que, ele tem que abrir o espaço para se expor e para falar etc e tal, então é uma coisa que a gente nota muito, você vendo na televisão ontem cara, a Alemanha faz um gol e o técnico alemão é uma múmia…

Fernanda     Pois é…

Luciano       … ele não mexe um músculo…

Fernanda     … né, o cara é sério…

Luciano       … minha filha falou pai, esse cara é um animal, como é que pode o sujeito não sair gritando né…

Fernanda     … sempre seríssimo…

Luciano       … e terminou, quando termina tudo é que a gente vê aquela festa imensa dos alemães, não vou embora não, não saio de campo né, que me remete àquela copa do mundo na Alemanha onde o mundo se surpreendeu com aquele país de gente risonha, havia uma, parece que uma tentativa de fazer uma mudança e quebrar essa coisa fria, essa coisa gelada, essa coisa, digamos assim, nórdica né, que parece que o que vem de lá é sempre sem graça e de certa forma é assim e é assim porque eles vivem noutro lugar, porque eles têm uma outra cultura, porque eles nasceram de outro jeito, porque eles tem frio, porque o sangue deles é diferente de origem do nosso etc e tal e ai vamos longe, mas isso me empurra para um outro negócio legal que ai eu quero entrar no âmago do teu livro né. Você começa no teu livro desenvolvendo essa questão do jeitinho e para minha surpresa você coloca o jeito como uma coisa do corpo, eu falei cara, mas eu sempre pensei no jeito como uma coisa da mente né, para mim o jeito é um negócio da cabeça, o jeito é uma coisa moral né…

Fernanda     Na tua cabeça fora do corpo.

Luciano       … pois é mas entendeu? É uma coisa, de um lado o intelecto do outro lado meu corpo, eu nunca imaginei jeitinho como coisa de corpo, que eu posso pegar, que eu posso sentir, eu sempre imaginei jeitinho como coisa do intelecto né e você vem com uma tese que fala jeitinho é coisa do corpo, vamos lá, fala um pouco disso.

Fernanda     Não, o jeito é o corpo, quando você fala assim, ó o jeito do fulano, isso é o jeito, o jeito é o modo como a pessoa se põe, a palavra jeito vem de lançar, então o jeito é como a pessoa se lança no mundo, como que ela se põe com uma intenção né, como orientada para alguma coisa, isso quer dizer jeito e a gente observa as pessoas pelo jeito, não é isso?

Luciano       Do jeito que ela tem.

Fernanda     … nós fazemos isso, o brasileiro, aliás nós, seres humanos fazemos isso, os animais fazem isso, a gente entra num ambiente, eu estou aqui conversando contigo mas você está vendo o meu jeito e eu estou vendo o teu jeito e isso está me dando informações e está te dando informações, querendo ou não querendo, mesmo que eu não esteja interessada nisso, o meu corpo está fazendo isso porque ele está me dando informações sobre o teu jeito e o que é interessante é assim, a cultura, as culturas elas são formas de jeito, são formas de organizar o corpo, de como o corpo se colocar no mundo, como se mover, como controlar as emoções, como circular, caminhar né, se orientar no espaço, então a cultura, as culturas elas estão no corpo, o corpo é o primeiro suporte da cultura…

Luciano       Deixa eu te botar um exemplo aqui que eu acho que é fantástico…

Fernanda     … tanto que a gente consegue ver outra, você acabou de falar, o jeito do alemão…

Luciano       … mas isso que eu quero falar, você já deu um abraço num  alemão?

Fernanda     Já, eu sou descendente…

Luciano       Como é que é dar um abraço  num alemão e um abraço num brasileiro?

Fernanda     É diferente.

Luciano       E dar um abraço num norte-americano?

Fernanda     O norte americano é desajeitado, ele não sabe…

Luciano       Dar um abraço num japonês e dá um abraço no brasileiro, qualquer um de nós que já tentou dar um abraço em alguém dessas culturas vai sentir imediatamente, tem alguma coisa diferente, eles não se abraçam igual né e acho que isso é importante quando você começa a definir essa coisa de jeito como coisa de corpo.

Fernanda     … então o jeito antes de tudo é corpo, é o corpo como suporte, quer dizer, o corpo como resultado da cultura e como suporte da cultura. Então tudo que a gente fala, o jeito do japonês, o jeito do japonês brasileiro, a terceira geração é tão diferente do jeito do japonês que mora no Japão né, o jeito dos descendentes alemães aqui, lá do sul é tão diferente do jeito dos descendentes dos coreanos aqui em São Paulo, então esse jeito é o que? É corpo né, como que o corpo se organiza no mundo e essa organização também é uma forma de observar a realidade, de avaliar, de julgar, de colocar valores sobre ela, então é antes de tudo é corpo né, quando pensa em intelecto, o intelecto está acontecendo aonde? Está na mente, mas a mente está aonde né? A mente, ela circula no nosso corpo, a mente, ela determina inclusive o nosso enjoo, se a gente for comer cachorro a gente vomita. o vômito não está corpo, assim no corpo que não é mente, a gente tem nojo de comer cachorro, mas os indianos tem nojo de comer vaca, da onde que vem esse nojo? Esse nojo ele é no corpo que acontece, ele é bioquímico mas ele é mental, ele é bioquímico mental…

Luciano       Que deflagra o processo todo é a mente, sim…

Fernanda     Que deflagra, não mas é uma mente que é corpo ao ponto de ter uma reação bioquímica, essa é a questão né. Então a questão do jeito brasileiro é assim, então uma coisa é o jeito como um lugar no corpo onde você identifica a cultura, você identifica a predisposição, você identifica como que aquele corpo, aquela pessoa representando determinado grupo se coloca frente ao mundo, frente à realidade, frente ao outro e outra coisa é o jeitinho, o jeitinho é um dos jeitos, então a tese que eu defendo aqui, que eu acho bacana é que é assim, nós brasileiros, uma (confuso) a esse mix cultural nós não, muitos de nós não fizemos aquilo que eu te falei da história do Montaigne lá que eu te contei né, de fazer essa separação, olha tem uma coisa que é corpo, tem uma outra coisa que é o intelecto e que não tem nada a ver, é de outro plano, de existência, que não tem nada a ver com o corpo ao ponto de eu dizer, bom, do plano intelectual está tudo certo então enforco o inocente que é corpo né. Nós aqui, eu acho né, que muitos de nós brasileiros a gente criou uma resistência a esse modo de dividido de perceber a realidade, pelo menos neste, pelo menos não tão intensamente como esse caso que eu contei aqui, do Montaigne, do enforcamento do inocente então é como se nós tivéssemos cultivado na nossa cultura, no nosso jeito, uma competência para perceber a circunstância, o que faltou no julgamento daquele inocente que foi enforcado, foi a percepção da circunstância…

Luciano       O contexto.

Fernanda     … o contexto…

Luciano       … contexto.

Fernanda     … o contexto, eles não perceberam o contexto, desculpa, azar, eu ia dizer um palavrão aqui, não perceberam a circunstância né, não queriam saber, não importava, importava o nível mais alto, mais abstrato, mais universal de abstração, circunstância azar, ela tem que se submeter àquilo, nós como temos outras tradições que trouxeram outras coisas, uma diversidade cultural, nós temos uma competência para percepção da circunstância, é isso que eu acho, que as vezes dá super certo e que as vezes é ótimo que é esse caso que você estava dizendo como um cara que trabalhou em multinacional, parara parara e que você tinha essa percepção e encontrava soluções que os caras não conseguiam encontrar e é nessa percepção da circunstância que acontece o jeitinho brasileiro, então por que que isso é importante? Por que que eu acho que isso é importante? Porque para os próprios europeus, você vai pegar os filósofos em todas as áreas, os intelectuais vai, não só filósofos, mesmo na área de administração, esses caras estão dizendo assim o quanto que é importante trazer a consciência humana para percepção das circunstâncias, para saber lidar com o acaso, para saber lidar com a novidade, para conseguir a ideia que você tem né de contexto mesmo que você falou, então tem todo um pensamento contemporâneo tentando cultivar nessa tradição europeia tal…

Luciano       Que é o discurso do momento agora né?…

Fernanda     É percebe a circunstância

Luciano       … quer dizer, e até indo um pouco além quer dizer, se queixar, o capitalismo é uma coisa nojenta etc e tal porque ele só considera o processo como um todo e não considera o ser humano ali dentro né, então quem sofre? O ser humano sofre que esse capitalismo é… então até é interessante a gente ver como que essa discussão se faz e a discussão do momento é exatamente essa, como é que eu trago o ser humano para dentro do contexto e falo, vou tomar as….

Fernanda     Como é que eu vejo o contexto?

Luciano       … tomar as decisões considerando o ser humano que está ali sendo…

Fernanda     Considerando o contexto não só uma referência abstrata, teórica num altíssimo distanciamento né assim, como, enfim, como uma imposição intelectual exterior e tal. Então assim, isso o mundo está fazendo isso, todas as áreas, as pessoas estão voltando para isso, mesmo na biologia né, como é que os organismos se adaptam, se transformam, como que o ambiente se transforma, enfim, então tudo isso é um pensamento contemporâneo geral em todos os níveis da pesquisa.

Luciano       Isso é Gaia.

Fernanda     Isso ai também, é.

Luciano       Isso é Gaia.

Fernanda     Mas o que eu digo assim, ai o que me impressionou quando eu fui estudar esse assunto é assim, bom se o Deleuse (confuso) um filósofo mega importante do momento, se não sei mais quem está dizendo, está trazendo, o Edgar Morin trazendo para a circunstância, o Domênico de Masi falando da criatividade, falando dos processos criativos dentro da lida com o acaso, com a circunstância, com o contexto e nós aqui aplaudimos, ai que lindo, como eles estão falando coisas legais, por que que a gente achando isso tudo legal a gente não percebe que o jeitinho faz parte disso? Que o jeitinho brasileiro é um treino cultural tradicional já que nós criamos, a partir do começo do séc. XX de trazer o olhar para a circunstância, é isso que nós fazemos com o jeitinho, exemplo: eu vou dar um exemplo, uma história que eu conto sempre, é quando eu dou aula. Eu estava fazendo a tese e eu fui para um congresso em Porto Alegre e ai na volta, eu estava indo para Torres que é uma cidade do litoral e estava na rodoviária esperando para comprar a passagem, ai chegou uma moça muita esbaforida, muito esbaforida carregando um monte de mala, muito aflita e qual é a regra né? Qual é a norma? A norma é o lugar da fila é por ordem de chegada, isso é norma universal para ser justo, para você poder ser justo com todo mundo, você respeita essa norma. Pronto. Você não leva atenção à circunstância, respeita a norma e acabou, você está sendo justo, essa é a ideia da justiça normativa, a moça chegou toda esbaforida realmente correndo e foi falando, falou comigo e depois falou com outras pessoas na frente a história dela era o seguinte, eu estou vindo de Cuiabá, a viagem foi imensa, o ônibus quebrou, não sei o que que aconteceu, eu atrasei agora estou indo para a serra gaúcha, o próximo ônibus sei lá, é 11 horas da noite, se eu não for agora eu vou ter que ficar aqui nessa rodoviária, eu estou cansadíssima, eu estou super mal, eu preciso ir, por favor me deixa passar…

Luciano       Na sua frente.

Fernanda     … adiante para comprar a passagem que o ônibus vai sair já. O que que eu fiz? Eu olhei e virei, claro eu posso esperar mais um pouco, ela olha a situação, olha a circunstância dela, olha o acaso, por que que eu não vou abrir uma exceção à regra? E eu abri a exceção, a pessoa que estava na minha frente, eram 3 pessoas, abriram ela comprou a passagem e saiu correndo esbaforida. Então assim, isso é uma competência para olhar para a circunstância que está impregnada na nossa cultura, que é boa, é cultivada na nossa cultura, talvez num outro país, esses que a gente está dando como exemplo, Japão, Alemanha, Inglaterra, a pessoa se sinta constrangida de pedir isso, porque ela se sente demasiado, ela vai achar que ela vai estar sendo injusta ou que ela vai estar querendo alguma vantagem ou que ela está sendo incorreta, não vai ser ética porque ela vai estar desrespeitando, então ela sequer vai pedir, ela vai ficar lá sofrendo podendo resolver a situação e ninguém ali, os 3 da frente iam achar ruim na verdade né. Agora nós brasileiros a gente tem essa questão que eu acho que é interessante assim é um cultivo cultural de um olhar para a circunstância, se a circunstância nos parece digna de reconhecimento, nos parece verdadeira, se é verdade, não está me enganado, aconteceu isso mesmo, qual é o problema…

Luciano       Se fosse comigo…

Fernanda     … e se fosse comigo, olha só a situação da moça e ai eu deixei ela passar na minha frente, então não foi uma justiça com base na igualdade perante as normas, foi uma justiça que levou em consideração as diferenças da circunstâncias, entendeu?…

Luciano       Entendi.

Fernanda     … então isso é muito legal, porque é um olhar para a diferença, cultivar isso, claro que nós aqui, como nós herdamos de fato a modernidade, as fábricas, a indústria, esse modelo de civilização né, pós revolução industrial, a gente precisa também e fizemos isso né, nos adaptamos a respeito a normas, horário, burocracia, toda a máquina burocrática, nós fizemos isso, mas nós não fizemos só isso, nós colocamos dentro disso e isso que é bacana, eu acho, no povo brasileiro, como que ele conseguiu manter um olhar para a circunstância, não colocar o cara na forca sendo inocente né, porque começou uma campanha durante, o que a gente vê ai é uma campanha sistemática dizendo assim, a pior coisa, que destrói o Brasil é o jeitinho brasileiro, mas então é a mesma coisa que dizer assim, o que destrói o Brasil é todos os esforços culturais que o Brasil fez ao longo do tempo…

Luciano       É porque essa é uma discussão moral, essa é uma discussão moral, a gente, é a discussão do jeitinho moral.

Fernanda     … é, moralista…

Luciano       Mas você colocou uma coisa interessante ai, Thomas Filho falou uma vez que existe um ponto além do qual tolerância deixa de ser virtude né, então ser tolerante é uma virtude, a partir dum ponto deixa de ser, passa a ser bobo, passa a ser condescendente, passa a ser até irresponsabilidade né, quando é que acontece isso? O estudo que você faz ai, então, po eu deixei o cara passar na minha frente né e amanhã eu deixo de novo e depois eu também…

Fernanda     … depois eu peço.

Luciano       … não e depois eu vou relevar porque o cara chegou atrasado, porque a vó dele ficou doente e ai eu vou relevar porque o pneu do carro quebrou…

Fernanda     Isso acontece.

Luciano       … e eu vou relevar e vai releva, relevar, relevar…

Fernanda     Mas isso acontece querido.

Luciano       … e eu estou, claro.

Fernanda     Mas a questão é essa assim, a questão é isso, aquele modelo que eu falei para você e colocou o cara inocente na forca, lá a história do Montaigne, não leva em consideração o acaso, me diz uma, você que também é todo ai escritor e pensa e…. acaso não é uma das palavras mais importantes do pensamento contemporâneo?

Luciano       Eu acho que é e é uma ferramenta, para mim é ferramenta de trabalho.

Fernanda     Então, as pessoas falam o tempo todo do acaso hoje em dia, mas é muito bonito quando a gente fala do acaso lá na teoria dos sistemas dinâmicos não sei o que, não sei da quanta, quando a gente fala do acaso no dia a dia, ai aha não, é malandragem, aha não isso não pode, aha não, não sei o que, de fato pneu fura na estrada, de fato você erra o caminho né, de fato adoece um filho em casa, de fato há um acidente, ai você fica preso no congestionamento, então o acaso acontece de verdade…

Luciano       E há que se ter uma tolerância para esse cara…

Fernanda     E há de se ter uma flexibilidade para isso…

Luciano       … o meu ponto aqui é o seguinte: quando morreu a minha quarta avó, como é que você faz?

Fernanda     Não, mas dai já é abuso, ai, então, posso contar outra história então, que eu acho que é legal?

Luciano       Vamos lá.

Fernanda     Nesse mesmo dia, são as coisas do destino, o Jung diria que isso é sincronicidade, mas nesse mesmo dia dessa moça esbaforida que chegou ali na fila quando eu estava na rodoviária de Porto Alegre, logo depois aconteceu um outro, eu achei, eu adorei essa história, sincronicidade pura, passou um certo tempo mesmo assim, alguns minutos, veio uma mulher, uma outra mulher, já não esbaforida, mas assim muito bem posta, me olhando assim de cima para baixo, com jeito realmente, o jeito arrogante, ai todo mundo, o ouvinte entende o que é um jeito arrogante né? Queixo virado para cima, me olhando de cima para baixo, super antigravitacional, passa e tal, e ela chegou e eu acho que ela viu que eu tinha cedido lugar para a outra, ele chegou realmente de um jeito muito arrogante…

Luciano       Dando ordem.

Fernanda     … e disse assim, olha, o meu ônibus está atrasado, eu estou atrasada, meu ônibus vai sair daqui a pouco, mocinha, por favor, eu vou passar na sua frente comprar a passagem para eu poder pegar o meu ônibus, tudo bem? Mas assim, o jeito, ela quando falou comigo o que eu li nela é uma outra coisa que acontece aqui no Brasil que é, “sabe com quem você está falando?” Ela se colocou como quem dizia, você sabe com quem você está falando? Então me deixa passar na frente…

Luciano       Eu sou mais importante que você, logo posso…

Fernanda     … eu sou mais importante que você, na hora eu achei incrível ter acontecido isso, ai eu olhei para ela e falei, não senhora, não deixo. O lugar na fia é por ordem de chegada, ai ela não passou e não passou para outra também, isso foi tão interessante porque depois eu descobri, tem uma outra antropóloga que estuda o jeitinho brasileiro que ela identificou isso na pesquisa dela, nós, quando reconhecemos, identificamos que alguém está tentando levar vantagem numa situação de jeitinho, o jeitinho é negado, então nem sempre aquele que oferece o jeitinho concede, aquele que pode conceder concede, ele tem toda uma análise de circunstância, observa a pessoa, faz perguntas, vê se a pessoa realmente está falando a verdade, testa a humildade, a simpatia para então dizer, então tá, vou ver o que eu faço por você. Então te todo um processo de análise para ver se aquela situação realmente autoriza esta prática, essa ética, então tem uma ética no jeitinho e eu entendi isso muito profundamente neste dia que eu falei para a mulher, falei que desaforada, olha o jeito dela. Por que? Porque ela veio para mim como um outro tipo, outro jeito que tem no Brasil que é esse, eu sou superior, eu sou a sinhazinha, eu sou a bacana, eu sou a católica, eu sou a branca e você é o pobre, você é o negro, você é o macumbeiro…

Luciano       Isso me traz um outro tema ai que é muito interessante que tem a ver com…

Fernanda     … ai a gente não dá o jeitinho.

Luciano       … você já ouviu falar no coitadismo né, coitadismo…

Fernanda     Eu ouvi você falar.

Luciano       … eu falei, o coitadismo né, que é, você ouviu aquela história que eu falei do garçom? Eu peço o sorvete, o sorvete de sabor tal e tal e o garçom vem e traz o sorvete errado e ai ele bota o sorvete na minha frente errado, eu olho para aquilo e falo, cara que que eu devia fazer? Meu, não foi isso que eu pedi cara, leva de volta e me traz um sorvete novo e ai imediatamente o “análise do contexto” me diz o seguinte, po é só um garçom coitado, vai ferrar o garçom,

Fernanda     Não, isso não é jeitinho…

Luciano       … coitadinho, coitadinho, coitadinho, ai eu pego e relevo e deixa assim e comi o sorvete errado mesmo porque afinal de contas eu não vou sacanear o pobre garçom, porque ele é um coitadinho. Se fosse um maitre de um garçom, um maitre de um grande restaurante milionário tudo eu faria, não, eu quero o sorvete certo po, você não pode errar porque você não é um coitadinho, o coitadinho e o não coitadinho. A moça que chegou de viagem esbaforida, coitadinha, ela está tão ferrada, pode passar. A outra que chegou metida, não é uma coitadinha, logo eu não a deixo passar e…

Fernanda     Não, mas não é, eu não vejo dessa maneira sabe porque…

Luciano       … eu estou te colocando uma discussão do momento, essa discussão do Brasil…

Fernanda     … não, interessante, mas sabe por que que não é o coitadismo nesse caso? Porque aqui no Brasil a gente tem realmente grupos sociais que tem muitos privilégios, historicamente e outros que não tem privilégios, isso é fato, isso é história né gente, você sabe disso, então assim, o que a gente percebe é que não se trata dessa questão de ser coitadinho ou não ser coitadinho, de igual para igual, porque você está pressuposto que se eu mandasse a mulher (confuso) o que que eu devia ter feito? Eu devia ter respeitado a norma antes de tudo, lugar da chegada, o lugar na fila é por ordem de chegada. Quando essa mulher me pede para que eu abra esta exceção para ela mas ela e eu não cedo, porque ela se mostrou arrogante e tal, o que eu estou dizendo para ela é que eu não aceito esse tipo de relação de dominação, quando eu estou falando não sou eu, eu estou dizendo assim, na cultura popular em geral, o que parece que acontece no jeitinho é o contrário, quando a gente se sente em condições de igualdade a gente dá um jeitinho, não com relação ao coitadinho, porque o coitadinho pode estar me enganando, o coitadinho pode estar inventando uma história, eu sou professora, quantos alunos coitadinho você acha que chega pedindo para mudar o dia…

Luciano       Pedindo um meio ponto, um não sei o que…

Fernanda     … pede para mudar o dia da prova, pede para entregar o trabalho depois, pede (confuso)…

Luciano       … não estudei, não prestei atenção na aula, no fim do ano eu quero meio ponto para eu poder passar.

Fernanda     … aconteceu comigo outro dia, eu menino não apareceu em nenhuma aula, nenhuma, não fez nenhum dos trabalhos que eu pedi, no último dia de aula ele estava ali conversando com os amigos, eu pensei que ele era um amigo ali na aula, que era último dia, era entrega de trabalho enfim, uma coisa mais informal ai ele veio falar comigo que ele era meu aluno eu falei, você é meu aluno? Aha é, porque eu não vim por causa disso, começou a se fazer de coitadinho, ai eu olhei para ele e falei você quer que eu chore, eu vou começar a chorar, m s eu não vou te dar nota, dar nota. Então o coitadinho não tem nada a ver entende? Não é a mesma coisa, muito pelo contrário, nós, pelo que a gente, pelos estudos ai que eu li todos sobre o jeitinho, o coitadinho é uma forma de te manipular, de te enganar, de levar vantagem e quando a gente percebe, numa situação de jeitinho que o outro esta querendo levar vantagem sobre você, você não dá o jeitinho, isso quem deixou isso muito claro, que me ajudou muito nessa pesquisa foi uma antropóloga que chama Lívia Barbosa, então ela mostra no livro dela a diferença entre o jeitinho em levar vantagem, o jeitinho e o sabe com quem está falando, o jeitinho e a lei de Gerson, né que é a levar vantagem, ela vai mostrando como que é diferente justamente por isso, porque se você começar a imaginar na sua vida situações em que você deu um jeitinho, quando o cara se fez de coitadinho você não deu um jeitinho porque você se sentiu sendo enganado pelo cara, quando o cara chegou para cima de você arrogante, sabe com quem você está falando, você também não deu, falou assim, vai se igualar pela norma né, então a gente invoca a norma nesses casos do sabe com quem está falando, como um pretexto para igualar as relações de poder, ou as relações de dominação ou de privilégios, de tentar excluir o privilégio, então o que eu acho interessante assim, primeiro no jeitinho, essa questão de um treino cultural que nós temos de olhar para a circunstância, se isso já está totalmente resolvido, só isso basta, é claro que não, a gente tem que aprender outras coisas mas este valor ou esta competência deve ser mantida, preservada e cultivada porque o mundo está atrás disso hoje…

Luciano       Discutindo isso…

Fernanda     … o mundo.

Luciano       … então você coloca claramente que o jeitinho brasileiro é uma qualidade?

Fernanda     Sim, eu não estou trabalhando com o bem e o mal, não.

Luciano       … e ai eu queria chegar ai né e no teu livro você cita aquele trabalho do pastor batista…

Fernanda     É, aquele jeitinho  lá (confuso)

Luciano       … em que ele define a coisa como o bom e o mal, ó a coisa aqui, eu também falei muito no programa aqui né, que o lado de você ter a maior qualidade brasileira é ter o jeitinho e também é o maior defeito, porque ele nos coloca em frias tremendas e também nos tira de frias tremendas. Quando e quando? Fala um pouquinho desse trabalho do pastor batista e da coisa que ele colocou como o bem e o mal.

Fernanda     Não, mas não bem ele, isso ai é uma coisa popular né, as pessoas, falam isso, tem o lado bom do jeitinho e tem o lado mau do jeitinho, não tem o lado bom e nem o mal do jeitinho, o jeitinho é isso. O jeitinho o que que é? É quando diante de uma regra ou de uma norma, você abre uma exceção, quando considera que aquela circunstância merece a exceção, é isso que é jeitinho. O jeitinho não é molhar a mão do guarda, isso chama corrupção. O jeitinho não é desviar verba pública, isso chama desvio de verba pública. A questão…

Luciano       Não é botar um primo, dar o emprego para primo porque o primo…

Fernanda     Isso tem um nome, como é o nome disso?

Luciano       É, isso é nepotismo.

Fernanda     Nepotismo, isso é nepotismo, tem nome, então assim, são coisas diferente, mas o que que aconteceu durante o século XX, quando o Brasil desejava ser a Inglaterra ou quando quem liderava né o Brasil, sonhava de fazer do Brasil Inglaterra e depois Estados Unidos, tudo de ruim que acontecia no Brasil, os caras falavam, aha isso é culpa do jeitinho, aha isso é o jeitinho brasileiro, então o jeitinho do brasileiro virou um slogan, virou assim um saco onde você começou a colocar…

Luciano       Da falta de ética ou da, sim e…

Fernanda     … tudo ali dentro…

Luciano       … e como representação da falta de ética né?

Fernanda     … então não é, então é isso que eu queria pontuar, as pessoas falam isso porque os meios de comunicação começaram a fazer isso, a chamar tudo, corrupção de jeitinho, levar vantagem de jeitinho, nepotismo de jeitinho, tudo virou jeitinho.

Luciano       É e você simplifica, cria um rótulo e fica tudo muito mais fácil.

Fernanda     é, mas o jeitinho não é, o jeitinho capacidade de abrir exceção à regra quando a circunstância merece…

Luciano       Deixa eu te colocar um exemplo, vamos voltar para a copa do mundo. A copa do mundo que está ai, a nossa, acabou a copa do mundo agora, um dos momentos mais vergonhosos, vergonhosos para mim é o primeiro jogo do Brasil em que o Brasil tem um pênalti a seu favor, um pênalti que não existiu que o Fred inventou, malandrão e os outros jogadores fizeram isso a copa inteirinha, se jogavam no chão…

Fernanda     E outros times também, Argentina…

Luciano       … espera só um pouquinho, isso é muito comum, especialmente no Brasil, a ponto de s caras, os alemães ficaram indignados com isso né, e ai se colocou rótulo, é o jeitinho brasileiro, o Fred foi dar um jeitinho…

Fernanda     Isso é malandragem…

Luciano       … ai que eu queria chegar então…

Fernanda     … isso é malandragem…

Luciano       … jeitinho não é malandragem…

Fernanda     … não, malandragem é outra coisa…

Luciano       … mas então, olha o que você está colocando para mim aqui, você começou, você abriu uma sacola chamada jeitinho agora e começou a tirar de dentro dela uma porrada de coisa…

Fernanda     Isso.

Luciano       … né então o que acontece? Quando eu falo jeitinho, no teu trabalho, na tua intenção, eu não estou rotulando genericamente atividades de contravenção ás ideias comuns, à lei etc e tal, então quando o cara se joga dentro da área para tentar criar um pênalti, é uma malandragem, malandragem não é jeitinho. Quando o sujeito diz que a terceira avó dele morreu, para não vim trabalhar ou chegar mais tarde é outra malandragem, não é jeitinho. Quando  cara aponta, vai fazer uma compra e arruma um esquema com um amigo lá etc e tal, isso é corrupção não é jeitinho, então eu diria que essa dificuldade da gente conseguir estabelecer direitinho o que é o jeitinho e o que são esses outros rótulos é onde mora …

Fernanda     Grande questão…

Luciano       … a grande questão, que é o que você coloca no seu livro, quer dizer, você define, digamos assim, a essência do jeitinho está definida aqui e o que sai fora dessa essência já não é mais jeitinho, são outras coisas…

Fernanda     Isso.

Luciano       … que tem a ver mais com quebrar a ética, quebrar a lei, ir contra, atrapalhar o próximo, é tirar vantagem etc e tal, que não é o jeitinho em si, é isso?

Fernanda     Exato, então é assim, a minha tese basicamente é essa, a filosofia do jeito né, qual é a filosofia que está por trás, e o subtítulo é “sobre o modo brasileiro de pensar com o corpo”, então o que que é? Essa capacidade de observar as circunstâncias, é a mesma ética que você fala, bater o santo, não bater o santo é isso né, é um olhar que você olha o jeito daquela pessoa como que ela tende a se comportar e ai aha não, mas isso é dela, é circunstancial, é o santo, ela não tem que ser diferente, ela não tem que ser outra coisa, é como é. Então é um olhar voltado para a circunstância que eu acho isso bem interessante no Brasil, isso que eu estou querendo, isso é tese e no Brasil também, e no jeitinho brasileiro acontece isso também, que é isso que eu estou te falando, quer dizer, quando observando a circunstância você acha que é correto ou que seria ético abrir uma exceção á regra, isso é possível se você tiver um olhar muito perspicaz sobre o jeito do outro…

Luciano       Que era a minha próxima….

Fernanda     … sobre a própria circunstância que está acontecendo…

Luciano       … que era o próximo ponto que eu queria colocar, quando você fala…

Fernanda     … mas eu queria concluir o negócio…

Luciano       … quando você fala, só uma coisinha, quando você fala de olhar perspicaz, você está falando da capacidade de julgamento que eu tenho que ter…

Fernanda     … não, de avaliar a circunstância…

Luciano       … avaliar e julgamento…

Fernanda     … isso…

Luciano       … eu vou avaliar o que está acontecendo e vou fazer o julgamento se é bom ou é ruim né, serve ou não serve, quer dizer, se eu não tenho isso bem resolvido eu vou misturar tudo como se fosse uma coisa só…

Fernanda     … sim, quando você vai colocar o cara na forca…

Luciano       … e vou tratar tudo como se fosse uma coisa única né. Eu interrompi você aqui agora porque para mim estava premente, era a próxima pergunta, ai você fala, então como é que é essa minha capacidade de criar esse olhar perspicaz né, como é que eu faço para não ser enganado, como é que eu faço, eu sou o líder de uma equipe, tenho 20 caras embaixo de mim, todos eles com a vó morta no final de semana, todos eles chegando atrasado…

Fernanda     Aha todos eles…. cara você não precisa ser muito perspicaz.

Luciano       … você me entendeu, eu estou fazendo uma grande exemplo, eu tenho que lidar com isso todo dia, todo dia tenho 20 pessoas trabalhando na minha equipe e as 20 tem circunstâncias que estão trazendo para mim e eu sou o cara, eu sou o líder e estou fazendo o julgamento…

Fernanda     Você tem que aprender…

Luciano       … eu tenho eu entregar alguma coisa no final do dia, eu tenho uma data para entregar, eu tenho um compromisso assumido, eu tenho uma equipe que tem que produzir e eu tenho que lidar o dia todo com esse julgamento…

Fernanda     Se for uns 10 esta na cara que…

Luciano       … e separar o jeitinho da coisa da circunstância e eu sou o juiz…

Fernanda     … isso.

Luciano       … porque eu sou o gerente da bagaça né.

Fernanda     Você pode errar entende, mas assim como você pode errar sendo super rígido, e não respeitando a exceção quando ela é necessária, você pode errar de qualquer maneira, eu acho que isso é que é importante, não é assim então se eu não der o jeitinho, se eu for supre rigoroso nas regras, nos procedimentos, nos horários, então vai dar tudo certo, não vai, você vai ser injusto em algum momento de um outro jeito, então vai errar, não é que vai errar, pode errar…

Luciano       A questão é você…

Fernanda     … lamento, a vida é assim né.

Luciano       … a questão é a tua capacidade de assumir ou não o risco de errar, certo?

Fernanda     É o risco, porque o risco vai acontecer dando ou não dando o jeitinho, abrindo ou não abrindo exceção você está correndo o risco de ser injusto, de causar um super problema na tentativa de tentar entender exatamente o que é o jeitinho e como ele surgiu no nosso processo né social e cultural, essa antropóloga que eu te falei, Lívia Barbosa, a tese dela, ela não fica nessa coisa só da circunstância, desse pensar com o corpo que eu estou trazendo né, porque a minha abordagem é toda com base realmente em neurociência, biomecânica, é esse olhar que você viu, de um corpo que pensa, mas ela traz uma coisa que é muito importante, que é a tese dela sobre isso que ela diz assim, no Brasil nós, durante muito tempo, fomos pessoas, pessoas então assim, você sabe quem é o meu nome, o sobrenome, quem é o meu pai, quem é minha mãe, quem e minha família, se é uma família de gente trabalhadora, se é uma família de gente desocupada, se é uma família bacana, se é uma família não sei que e os casamentos todos durante muito tempo foram arranjados dessa maneira, mesmo com os escravos né, alguns iam morar dentro da casa grande, ficavam amigo, ai o sinhozinho ou a sinhozinha dava a carta de liberdade…

Luciano       Sim, alforria.

Fernanda     … em função, alforria, justamente em função das relações pessoais então, mas assim, durante muito tempo nós fomos pessoas e as pessoas o que caracteriza relações entre pessoas? É a afetividade, aha o teu pai me fez um grande favor no passado, então agora eu vou te ajudar porque eu tenho essa dívida com a sua família, vem cá, eu vou te apresentar para não sei quem, são pessoas tá? O modelo industrial que vem depois da revolução industrial, o modelo inglês, construiu um outro tipo de gente que são os indivíduos…

Luciano       Sim.

Fernanda     … o indivíduo, do indivíduo não me interessa a pessoa, do indivíduo me interessa qual é a sua competência, quantos anos você tem, você vai trabalhar das 8 as 9, você tem que fazer isso, terminou, bateu o cartão tchau, não me interessa a afetividade, interessa que ele funcione dentro da máquina, que ele desemprenhe a sua função e ele é um número…

Luciano       Uma engrenagem.

Fernanda     … faz parte da engrenagem.

Luciano       Sim.

Fernanda     Quando esta ideia de indivíduo veio no começo do século XX com a revolução industrial do Brasil né, trouxeram as fábricas, trouxeram as indústrias, se criaram essas regiões dos operários e esse modo de vínculo de trabalho, veio para o Brasil esse modelo do indivíduo né, você tem que chegar 8 horas, depois tem um intervalo para o almoço que é uma hora, não me interessa se tua família, se teu filho está doente, se não está, não me interessa se você… não interessa, teu horário é esse e acabou e tal e se faltar com atestado médico e ai você vem e justifica e pa ou então é descontado e ponto. Esse é o indivíduo.

Luciano       Sim.

Fernanda     O que ela defende, a ideia é muito interessante porque aqui no Brasil a gente criou um mix entre indivíduos e pessoas, então nós nos adaptamos a essa visão de homem enquanto indivíduo sem deixarmos de ser…

Luciano       Considerados pessoas, sim.

Fernanda     … pessoas, então considerados pessoas, então por exemplo, essa moça da fila lá do ônibus que eu estou te dizendo né, eu nunca vi aquela moça na minha vida, eu nunca vi ela e não vou vê-la novamente, eu não sei quem ela é, então ela é uma coisa estranha para mim né, um ser que eu não conheço mas o modo como ela me atinge, como ela me afeta emocionalmente é importante, ela tem que a simpatia, a compaixão, a compreensão da situação, quer dizer eu crio com ela nesse momento em que eu concedo o lugar na fila, uma relação entre pessoa né, ela vira pessoa só que eu não sei quem ela é, (confuso) não é pessoa porque do indivíduo vem impessoalidade né e da pessoa vem a afetividade, esse vínculo né…

Luciano       Sim, sim, você diria que é…

Fernanda     … então ela fala, essa Lívia Barbosa, que a gente aqui no Brasil nos grandes centros urbanos, nó criamos, nós produzimos culturalmente um mix, nós somos indivíduos e pessoas ao mesmo tempo, então no jeitinho brasileiro, o que que a gente herdou do indivíduo? A generalidade, a gente pode dar um jeitinho para qualquer um, se eu nunca te vi na minha vida e um dia eu estou dentro de um lugar e você fala assim, aha eu tinha que chegar tal hora mas eu atrasei, cheguei 10 minutos atrasado porque teve uma chuvarada em São Paulo, alagou tudo, eu preciso muito me inscrever nisso, por favor, abre exceção para me inscrever agora, com 10 minutos de atraso…

Luciano       Eu tenho uma conhecida…

Fernanda     … isso, só um pouquinho…

Luciano       … eu tenho uma conhecida, ela é argentina…

Fernanda     … deixa só concluir isso ai…

Luciano       … que chegou aqui e viveu isso…

Fernanda     … é isso…

Luciano       … deixa eu contar essa história…

Fernanda     … mas deixa eu concluir, então isso eu nunca te vi na minha vida, então como eu nunca te vi isso se generalizou, mas se generalizou com uma característica da pessoa que é, poxa, olha o que aconteceu com o cara, é uma pessoa, isso me atingiu emocionalmente né, eu entendo essa circunstância de vida, eu posso ajudar, favorecer isso, você é bem interessante.

Luciano       E você diria que na Alemanha não é assim?

Fernanda     Não é tanto, a gente não tem…

Luciano       Ou deixa eu te colocar uma coisa aqui, eu…

Fernanda     … (confuso) não tem tanta coragem para pedir né,

Luciano       … uma conhecida

Fernanda     … lá eles ficam mais constrangidos para pedir o jeitinho

Luciano       … uma conhecida é argentina, mudou para cá para o Brasil e começou a escrever um blog sobre as impressões dela no Brasil, que ela não vive, nunca viveu no Brasil, conhecia mas nunca tinha vivido e começou a viver o dia a dia do Brasil e o blog dela é uma delícia porque ela começa, enquanto ela não foi estragada né, que eu falei para ela, você vai viver 6 meses aqui você está estragada porque você virou brasileira e ai vai entrar…

Fernanda     Para de falar mal do Brasil cara…

Luciano       … e ela vive falava…

Fernanda     … o Brasil vai estragar…

Luciano       … não mas…

Fernanda     … olha o cara, de onde é que você…

Luciano       … mas ela dizia o seguinte, cara eu não entendo, vocês entram numa fila, vocês não põem ver uma fila que vocês entram na fila e se conformam de ficar na fila e não importa, tem fila para tudo e vocês acham que está tudo bem na fila e eu fico indignada…

Fernanda     … faz amizade na fila, bate papo.

Luciano       … eu fico indignada, outra, eu estou aqui, estou tentando usar o celular e o sinal caiu e a hora que eu estou enlouquecida gritando alguém fala, não, daqui a pouco volta ela fala, e o brasileiro tudo bem…

Fernanda     A gente sabe lidar…

Luciano       … daqui a pouco volta né, outra coisa, cheguei no, eu fui para o aeroporto num final de tarde sem saber como é que funciona no Brasil e fui para o aeroporto de metro e fui pegar o metro 6 horas da tarde…

Fernanda     Horrível.

Luciano       … ela falou, eu cheguei lá, eu não conseguia nem chegar perto, eu ia perder meu avião…

Fernanda     Mas isso ai é…

Luciano       … até o momento em que eu virei e falei para as pessoas que estavam em voltam que eu nunca vi na minha vida, mira estoy com um problema quieren me ayudar? Quando viram que eu era argentina, abriu-se uma roda em volta de mim e os caras me conduziram para dentro do trem, me colocaram lá dentro, carregando a minha mala na mão, ela fala, eu nunca vi isso…

Fernanda     … olha que gente bacana…

Luciano       … todo mundo fez questão de me ajudar…

Fernanda     … gente bacana…

Luciano       … e de me tratar porque no momento em que viram que eu era uma pessoa em dificuldade né, isso traz muito disso que você falou, essa questão da gente tratar as coisas como pessoa e me parece que agora voltando à copa do mundo né, muito do que eu tenho lido dos gringos que vieram para cá, é que eles foram, cara, a gente vai na rua e vocês querem ajudar, todo mundo tem um sorriso, vocês dão abraço na gente, vocês param para conversar, querem me levar até  lugar para me mostrar esse lugar, eu não estou acostumado com isso, eu não sou tratado assim no meu país de origem né, então tem tudo a ver com essa questão da pessoalidade né, que eu acho que tem tudo a ver com essa questão do jeitinho etc e tal, então você está colocando para a gente um ponto interessante ai, a minha pergunta é a seguinte: se eu sair do Brasil e for para os países anglo-saxões, não é assim? Ou é assim porque a questão do corpo me coloca geograficamente num país e há toda uma questão, uma discussão que vou voltar ao começo do programa agora, perguntei a você, por que que não dá para filosofar em brasileiro? Só dá para filosofar, por que que se brinca com isso, porque há uma tese que diz o seguinte, povos que vivem em regiões do planeta que tem frio, que tem aquela, que é muito difícil, não tem a indolência dos trópicos ou desse calorzinho gostoso, esse mar gostoso, me faz ser mais folgazeiro etc e tal e pa pa, portanto eu sou um tipo de gente diferente né, lá tem guerra, tem briga, tem pau, tem quebra pau, aqui não tem, aqui é tudo mais indolente, existem trabalhos até lá fora que nunca via dar certo aqui porque nós somos muito indolentes né, como é que você vê essa questão de localizar geograficamente uma mudança de gente, se eu nasci aqui eu sou diferente de um cara que nasceu lá pelo simples fato de ter nascido aqui ou lá?

Fernanda     Não, cultura, cultura incorporada como a gente estava falando, que é o jeito, claro que na Inglaterra essa questão de você olhar para a circunstância e olhar para um nível mais abstrato, normativo, teórico, é a nossa condição humana, nós fazemos isso o tempo inteiro, a gente tem, o que é amigo, como conceito abstrato mas eu tenho cada amigo com o qual eu vou resolvendo essa questão da amizade e percebendo diferenças com relação a essa ideia mais abstrata de amigo em geral.

Luciano       O alemão também é assim?

Fernanda     Todos, as pessoas do planeta, então isso é condição humana, então assim, claro que na Inglaterra é possível acontecer, deve estar acontecendo nesse momento uma situação de jeitinho lá, que lá não é chamado de jeitinho porque é outra cultura. Outro dia eu estava dando uma palestra, a pessoa falou assim, não mas isso que você está falando é bom senso, eu falei é, mas aqui para a gente esse bom senso, enquanto cultura, algo cultivado culturalmente se chama jeitinho, aha não, mas isso não é jeitinho, isso é bom senso. Não, isso é o bom senso do jeitinho, entende? Então assim, bom senso, capacidade de articular entre o nível mais abstrato, teórico e mais circunstancial dentro do tempo, dentro da… isso…

Luciano       Dá para você falar mais voltada para o microfone.

Fernanda     … isso faz parte da condição humana, entendeu? Então em qualquer lugar vai acontecer entre os esquimós, em qualquer lugar né, lidar com isso, agora o que diferencia o Brasil com relação a isso? Não é que só nós fazemos isso, é que, isso é culturalmente muito bem…

Luciano       Resolvido aqui no Brasil.

Fernanda     … é, foi sendo ao longo desse século né, nos últimos, as últimas décadas elaborado mesmo e considerado um valor e sendo mote de identificação, então um inglês pode dar o jeitinho lá nesse sentido de usar o bom senso na circunstância apesar da norma e não colocar o inocente na fogueira, porque o processo judicial foi correto, como eu contei no início, capaz, pode estar acontecendo isso lá agora mas ele não vai dizer, isso é típico dos ingleses.

Luciano       Sim

Fernanda     Ele vai dizer, o típico do inglês é formalidade, ele vai dizer o típico do inglês é outra coisa, essa formalidade vai, qual é a outra palavra que se usa para falar deles é….

Luciano       É fleuma, são fleumáticos.

Fernanda     É, enfim, alguma coisa assim. Mas nós não, nós dizemos isso é nosso, isso é cultural, então significa que essa competência humana nós assimilamos claramente, explicitamente como um valor cultural e não é o jeitinho que destrói o Brasil, o Brasil tem muitas histórias, muitas coisas piores assim que atravancam o nosso desenvolvimento social.

Luciano       Sem dúvida, mas…

Fernanda     E econômico…

Luciano       … tem um filme chamado “Precisamos falar sobre Kevin”, é um livro que virou um filme né, é um filme interessantíssimo e a parte inicial do filme chama extremamente a atenção porque é um pai e uma mãe discutindo com o filho problemático de 16, 17 anos porque o moleque não vai embora de casa, está na hora cara, tem que ir embora, você precisa cuidar da sua vida, vai morar, os dois pressionando para que ele saia de casa e vá viver a vida dele, você não consegue imaginar uma coisa dessa no Brasil, o pai e a mãe falando, está na hora de ir embora, se manda, aqui a gente quer que fique conosco né, fique aqui meu filho, não vá minha filha, não vá, se quiser voltar para a casa estamos de braços abertos que é completamente diferente, se for no Canadá, no Canadá 16, 17 anos tem que ir embora, Estados Unidos, que faz parte da cultura deles né. Eu acho que isso também tem tudo a ver com essa questão de formação cultural, mas eu não consigo imaginar qual é a origem de uma coisa, por que que o brasileiro é, eu quero te abraçar, eu quero ficar com você, eu quero ficar pertinho e o outro eu quero distância, cuida da tua vida, eu cuido da minha, se você for lá fora é assim e aqui é diferente né, o que que é, de onde vem isso, porque nós éramos índios, é porque nós éramos negros, é porque essa mistura de sangue…

Fernanda     Olha, tem muita história…

Luciano       … o que que é?

Fernanda     … por trás…

Luciano       … ou é um caldeirão?

Fernanda     … vamos lá, vamos lá, tem muita história por trás disso, primeiro, para começar, então não vou aqui, no tempo que a gente tem, resolver tudo isso, mas um dos motivos que eu acho que isso acontece no Brasil, é porque nós temos culturas aqui dentro que não foram culturas que demonizaram o corpo, a sexualidade, a sensualidade e a afetividade, os europeus, os portugueses quando eles chegaram aqui, eles chegaram numa época em que na Europa se queimava mulher, as bruxas, porque elas eram sexualizadas demais, porque pelo sexo o demônio tinha possuído o corpo delas e que pelo sexo elas iam pirar os caras, então esses europeus que vieram, eles eram anticorpo, eles tinham muito medo das sensações, muito medo do desejo, muito medo do toque, muito medo da sexualidade porque na teologia deles, o mal, o demônio, isso está escrito nos livros lá dos inquisidores, entrava via sexualidade, via fragilidade do corpo mesmo, então era uma cultura que criou essa divisão que você falou, de  um lado o intelecto, de um lado o corpo…

Luciano       E chegaram aqui, pegaram a indiarada toda pelada.

Fernanda     … é, o corpo que vai me trazer o mal, vai me trazer o sofrimento, vai trazer o demônio, vai me jogar no inferno e bom, então eles vieram, então nós somos descendentes deles também né, mas tem outros que não são assim, os índios, as indiazinhas estavam peladas aqui, elas não tinham medo de ficar com o filhinho no colo entendeu, com o corpinho nu do filho no colo, preso dentro duma, como é que chama aquela bolsinha que elas põe aqui de palha, aquela cesta e andando por ai, entendeu, a cultura que dançava, eles não dançavam, dança é coisa do demônio, por isso eles não dançavam, mas aqui a gente pega, por exemplo a cultura africana, afro-brasileira é uma religião, uma religiosidade de dança, as pessoas dançam, elas cantam, elas rodopiam, o índio dança muito, tem corpo né, então acho que a gente, nós brasileiros acabamos herdando desses que não tinham medo do corpo um, essa capacidade de tocar o outro sem achar que isso vai ter que despertar uma libido louca, sem achar que isso vai causar um mal tremendo, ai que medo, a gente, o corpo a gente exorcizou um pouco essa ideia de que corpo é coisa do diabo, do demônio né.

Luciano       Que é assim fortemente até hoje, o mundo nos conhece assim né…

Fernanda     Mas isso é uma coisa boa…

Luciano       … o mundo nos reconhece assim né?

Fernanda     … mas isso é uma coisa boa né eu não estou falando de sexo, liberdade sexual nada disso assim, como é que você pode chegar junto num corpo, se você pega todas aquelas, os católicos né, que vieram e também os protestantes quando foram colonizar o mundo, eles se puniam fisicamente, eles se chicoteavam, eles se maltratavam, quer dizer, a superação do corpo era o caminho da salvação da alma e aqui o Brasil a gente tem um mix cultural que não tem essa única possibilidade espiritual né, quer dizer, é possível que você mantenha uma afetividade, mantenha um corpo vivo no mundo sem que, e ainda assim se espiritualizar e ainda assim abraçar as pessoas e ainda assim ater uma vida sexual boa…

Luciano       Que é o que encanta…

Fernanda     É…

Luciano       … quem vem de fora aqui fica encantado com essa reação né.

Fernanda     Isso é muito importante, eu falo sobre isso no livro, essa questão do corpo, da sexualidade porque isso é uma coisa bem interessante aqui no Brasil.

Luciano       Então, vamos pegar seu livro aqui para a gente chegar nos nossos finalmentes aqui, seu livro é uma tese?

Fernanda     É uma tese.

Luciano       E ele é escrito quase como uma tese né, porque…

Fernanda     Então, esse livro é…

Luciano       … ele não tem um papo fluído do ponto de vista que estou contando uma história, não, ele são fragmentos…

Fernanda     … é uma tese…

Luciano       …de uma tese…

Fernanda     … então esse livro é uma tese, tese de doutorado mas quando eu fui publicar eu resolvi, ao invés de publicar o texto corrido, que é o texto original da tese, eu resolvi fazer pequenos blocos temáticos né, mas na verdade é o texto corrido que eu fui fragmentando e subdividindo e vários pequenos subtítulos, o resultado eu não sei se eu tive a melhor escolha ao fazer isso, hoje as vezes eu olho e falo, devia ter publicado a tese como ela foi defendida mesmo, mas quando eu fiz essa subdivisões foi para facilitar a leitura do leitor né.

Luciano       E para minha surpresa, eu recebo o release do livro semana passada, quando entrei em contato com você e agora você está me dizendo que o livro é de 2 mil e…

Fernanda     Seis.

Luciano       … 2006, quer dizer, então foi um acaso que nos… sincronicidade que nos fez…

Fernanda     … não a copa

Luciano       … fez a gente se encontrar logo agora, porque eu estou fazendo aquela série sobre produtividade e queria bater nesse ponto né.

Fernanda     Mas a questão da copa, eu acabei atualmente nesse ano dando muita entrevista porque a copa chamou a atenção para o jeito, o jeitinho brasileiro e eu acabei sendo chamada para um monte de coisas.

Luciano       Legal, eu vou, se a gente quiser entrar em contato com você, quiser saber como é que funciona, você tem…

Fernanda     Aha posso falar do meu blog? Eu tenho um blog.

Luciano       Por favor.

Fernanda     Eu tenho um blog, que chama, nem sempre eu atualizo porque eu trabalho muito, mas chama filosofiadojeito.blogspot.com

Luciano       filosofiadojeito.blogspot.com, tá.

Fernanda     Isso é meu blog e tem um site também, que ai é mais fixo, mais parado né, aha e lá no blog tem o primeiro capítulo do livro disponível no Google books e tem outros livros meus lá também, tem “A Mulher do Pai”, que é quando você casa com alguém que já tem filhos e o rolo que dá nessa situação…

Luciano       Legal.

Fernanda     … tem um romance, tem outras coisas lá.

Luciano       Legal, então vamos tentar ver se a turma vai para lá para trocar uma ideia com você. Eu quero deixar a provocação, para o final ficou a provocação né, quero…

Fernanda     Eu vou poder responder ou não?

Luciano       … mas claro que vai, claro que vai, vai com o pé nas costas, agora eu estou falando para a filósofa, para essa estudiosa do corpo brasileiro, dojeitinho etc e tal. Por que que nós tomamos de 7×1 da Alemanha na copa do mundo?

Fernanda     Nossa, sabe que meu filho gosta de futebol e estava super contra essa copa porque ele tem uma série de críticas à CBF, parece que a organização do futebol brasileiro está muito problemática né, então eu acho que é  uma rede ai de organização do futebol e que envolve a contratação do técnico, que envolve os jogos que são feitos antes, que envolve a não, parece que a CBF não estimula muito novos talentos enfim, eu tenho uma noção da rede complexa envolvida nisso né e também talvez essa questão de que dizem né, que não treinaram de uma maneira, não treinaram suficientemente e que como a Alemanha treinou, pode ser, mas eu acho que tem uma rede ai envolvendo a organização geral do futebol brasileiro.

Luciano       Então vou continuar na provocação, com essa rede que é assim há 40 anos…

Fernanda     Há 40 já, tudo isso?

Luciano       É, há muito tempo que ela é assim…

Fernanda     É muito escândalo envolvendo a CBF…

Luciano       …  ela é ruim, ela é enrolada há muito tempo, nós ganhamos 5 taças, nós ganhamos 5 campeonatos assim…

Fernanda     Talentos, porque dai o Brasil depende do talento, cai fora o talento já era, o Brasil não, o futebol né…

Luciano       … é, o futebol, por que que nós perdemos de 7×1? Eu não estou te perguntando porque que nós perdemos de 2×1, de 1×0…

Fernanda     Eu não sei amore…

Luciano       … por que que nós perdemos de 7×1 dos alemães.

Fernanda     … não sei, querido, eu comecei a gostar de futebol agora nesta copa e estou acompanhando essas questões, essas corrupções envolvendo CBF, FIFA, a história da seleção do último, quando foi campeã também o que aconteceu como que o Felipão entrou, eu estou agora entendendo tudo isso, entendendo que é uma rede da cultura futebolística envolvendo a confederação que é bem complicada, que eu nem posso dar uma resposta simples, mas não foi por causa do jeitinho… Não foi culpa do jeitinho.

Luciano       Não, eu acho que o jeitinho nos faz ganhar jogo, é o jeitinho que é, tem o jeito brasileiro de jogar bola que sempre foi…

Fernanda     Não talento, o brasil é muito talentoso.

Luciano       … que sempre foi reconhecido no mundo inteiro e que agora vai sofrer um baque porque ele não funcionou muito bem ai né. Muito bem, muito interessante, nós temos papo aqui para mais de metro aqui…

Fernanda     Pois é, está uma delícia.

Luciano       … dá para ficar aqui uns 10 dias falando aqui né e você vê como a coisa, ela vai quebrando em pedacinho, de repente você mergulha na ética, vamos falar de moral, ética, vamos falar de, é um monte de coisa aqui, mas muito bem, eu quero só tentar fazer o fechamento do que a gente conversou aqui, quer dizer, do teu ponto de vista o jeitinho brasileiro é uma coisa boa, que deve ser cultivada e entendida como um atributo bom, tanto que o mundo inteiro está falando como agregar essa coisa, essa visão de contextualização que você chamou, não de contexto, você chama de, eu chamo de contexto…

Fernanda     Circunstância.

Luciano       …você chama de circunstância né, que é você trazer a circunstância para esse momento do julgamento e da tomada de decisão, você coloca o jeitinho brasileiro como, tendo como origem aquele momento em que o individualismo chega no Brasil, choca com aquele…

Fernanda     Pessoalidade?

Luciano       … com a pessoalidade e os dois aprendem a conviver e a gente toma as decisões aqui pensando na pessoa e no indivíduo ao mesmo tempo né, quando lá fora a coisa é um pouco diferente né? E eu quero te agradecer por uma coisa importante aqui que para mim é o seguinte, é definir claramente que nem tudo é jeitinho né, que aquilo que a gente bota o rótulo de jeitinho tem outros nomes e que quando a gente tenta rotular as coisas e isso tem acontecido no Brasil de forma brutal em todas as áreas né, para poder compreender ou deixar mais fácil a discussão, eu meto um rótulo, e ao botar o rótulo lá eu acabei botando tudo num saco só e a coisa fica tudo igual, então o programa que eu vou gravar agora, que eu vou colocar no ar aqui na semana que vem, é o programa que eu falo sobre eleições que vem no Brasil aqui agora e eu discuto se todo partido é igual, se todo político é igual e discuto exatamente essa coisa da rotulagem, bota-se o rótulo, é tudo a mesma porcaria…

Fernanda     Claro que não.

Luciano       … portanto nada interessa e nada importa e quando você fixa um rótulo desse tipo você demoli a discussão, ninguém mais discute, ninguém mais avalia e ninguém quer saber porque é tudo uma porcaria né.

Fernanda     Perfeito.

Luciano       Para o jeitinho é a mesma coisa, se eu botar um rótulo nele eu vou concluir que jeitinho, corrupção, sacanagem e malandragem é a mesma coisa, quando na verdade não é e cabe à gente então tratar daquilo que você falou de olhar perspicaz e eu chamo de capacidade de julgamento e tomada de decisão que para mim é muito parecido né, ou seja, como é que eu faço para refinar essa capacidade de meu olhar ser o olhar correto, de eu olhar e perceber quando uma coisa é a favor e vai bem e tem que ser incentivada ou quando eu devo cortar para não deixar que a coisa ultrapasse o limite da tolerância e vire sacanagem, malandragem etc e tal né? E o papo com você foi muito legal porque deu para a gente exercitar bastante essa coisa, então muito obrigado por ter vindo aqui, espero ter a chance de a gente sentar aqui lá no futuro e tratar de outros temas ai que você…

Fernanda     A mulher do pai que é um assunto ótimo.

Luciano       Isso, ai vai pegar fogo, legal. Obrigado Fernanda.

Fernanda     Eu agradeço muito, eu queria deixar a última colocação que é assim, se o jeitinho é uma resistência ao modelo moderno da revolução industrial inglesa, depois migrou para os Estados Unidos, se é uma resistência a esse modelo, porque a gente tem outras coisas que a gente valoriza na cultura, a pergunta que eu acho que você gostaria, inclusive de desenvolver aqui nas tuas reflexões pelo que eu já ouvi dos teus programas, é assim, em que sociedade a gente quer viver? Né, porque não vai ser imitando…

Luciano       Perfeito.

Fernanda     … porque a cultura popular ela rejeita essas imitações, e o jeitinho é uma forma de dizer eu não quero daquele jeito, eu quero de outro, então a questão, para a gente, ao invés de ter só um preconceito contra o jeitinho, pensar assim: esta prática nos diz de quais valores, e esses valores nos remetem à qual sociedade né, qual modo de vida que vai envolver, produção, política, cultura, religião, sei lá, todas essas possibilidades.

Luciano       É, eu costumo dizer no programa há bastante tempo eu falo isso, que quando eu vou lá par fora, o que que eu tenho que trazer de fora, tenho que trazer uma bússola, a bússola me indica o norte, eu não posso trazer o mapa do Japão e botar no Brasil porque não vou chegar lugar nenhum com o mapa japonês aqui, eu trago a bússola e posso trazer as técnicas que eles desenvolveram para caminhar nesses terrenos, como é que sobe montanha, como é que passa o rio etc e tal, mas não adianta eu trazer o mapa e botar aqui porque não vai funcionar nunca né.

Fernanda     E essa que você falou, eu posso querer as técnicas é uma ideia do Oswald de Andrade, esse é o coração da antropofagia cultural, o que eu quero é devorar, o que eu quero devorar é a tecnologia mas a serviço de uma sociedade, de um modo de vida, de uma cultura nossa, própria que a gente está construindo e vai continuar construindo.

Luciano       Muito bom, beijo.

Fernanda     Beijo querido, obrigada adorei.

 Transcrição: Mari Camargo