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Ciça Camargo -

Luciano         Muito bem, mais um LíderCast, vamos ali como é que a minha convidada veio parar aqui hoje, foi através do Linkedin, uma conexão do Linkedin, entra lá, inclusive eu fui procurar aqui, acabei não encontrando, para não atrasar a gravação eu terminei não citando o nome da pessoa, depois eu vou procurar, mas ele manda uma mensagem para mim dizendo Luciano, você tem que falar com ela, falei meu, quem é essa ela? Não, você tem que falar, falei vou me aprofundar, deixa eu ver. Mandei um e-mail e a gente começou vai, não vai, no fim deu e aqui está um convite, uma convidada que chega através da indicação de um ouvinte do LíderCast que achou que com ela daria um bom programa, vamos ver se vai dar. Três perguntas fundamentais, são as únicas que você não pode errar no programa, o resto pode chutar à vontade, essas três não dá. Quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Neide            Eu sou Neide Santos, eu tenho 57 anos e eu sou uma empreendedora social, maratonista, dona de casa e mãe de centenas e centenas de filhos.

Luciano         Já estou cansado aqui só de ouvir. Vamos lá, vamos começar do comecinho, você nasceu aonde, Neide?

Neide            Eu nasci no paraíso, eu nasci em Porto Seguro…

Luciano         Ah que maravilha.

Neide            … eu sou descendente dos Pataxós, porque minha avó já era filha de índio com branco e meu avô veio de Portugal e se encantou com ela e esse meu olhinho puxado e esse meu cabelo liso é descendência indígena.

Luciano         Quer dizer que seu avô aportou lá por lá e ficou lá.

Neide            E ficou por lá e casou com… aqueles casamentos de mil novecentos e antigamente.

Luciano         Estou falando com a pessoa mais brasileira que eu já conversei até hoje. Adoro Porto Seguro.

Neide            Eu sou uma nordestina, embora as pessoas achem que quem é de Porto Seguro não é nordestino, mas eu sou uma nordestina que acabou caindo aqui na cidade de São Paulo.

Luciano         Eu conheci Porto Seguro em 1977, aquilo ainda era a meca…. era meio hippie, hiponga, aquele negócio, para você ter uma ideia eu…

Neide            Eu lembro de lá dessa época.

Luciano         … eu cheguei a ficar lá acampado lá em cima, no morro onde tem a capela com aquele símbolo de granito que tem ali na frente e eu acampei, imagina…

Neide            Em Trancoso.

Luciano         … não foi em Trancoso, foi na cidade alta, que você tem em Porto Seguro, aquele morro lá no alto tem a capela, na frente da capela tem ali um símbolo lá do descobrimento e a gente botou uma barraca naquele gramado, isso é impensável hoje, alguém botar uma barraca num lugar público, hoje não se põe mais, nas naquela época eu botei e eu voltei lá recentemente e passei de carro por aquilo tudo, o olho encheu de lágrima de ver, está muito diferente, mas aquela região realmente é… Santa Cruz de Cabrália, aquele pedaço, aquilo é maravilhoso. Pô seja bem vinda viu, com atraso, mas seja bem vinda. Mas então, você nasce lá na cidade, você não nasceu em comunidade indígena nada, você nasceu na cidade.

Neide            É, nasci próximo a uma aldeia, onde era uma vila, mas não em aldeia, mas de uma certa… assim, muitas vezes eu convivia com eles na praia, porque a gente saía para pescar, a família levava e eu lembro que a primeira vez que eu vi uma bola na minha vida, foi turista brincando na praia e eu não sabia que aquilo era uma bola e aí me explicaram que aquilo era uma bola, que era de jogar e aquilo me encantou.

Luciano         O que seu pai e sua mãe faziam?

Neide            Meu pai, assim que eu nasci, meu pai foi para Serra Pelada, atrás de ouro, isso eu nasci em 1960, em 62 o meu pai foi para Serra Pelada e ia…

Luciano         Caramba, no começo daquilo, não é?

Neide            … é e ia e voltava e nessas idas e voltas, meu pai não voltou, falaram que meu pai tinha morrido de malária na Serra Pelada e eu cresci acreditando que meu pai havia morrido.

Luciano         Que idade você tinha?

Neide            Eu tinha, quando eu saí de lá eu tinha…

Luciano         Não, quando você recebeu a notícia que seu pai tinha morrido.

Neide            … eu tinha 4 anos.

Luciano         4 anos.

Neide            4 anos e eu cresci acreditando que realmente meu pai havia morrido e minha mãe ficou com três filhos para criar, com muitas dificuldades e logo em seguida ela foi para a casa do meu avô…

Luciano         Sua mãe não trabalhava, ela era do lar.

Neide            Minha mãe não trabalhava, ela era do lar. E aí foi todo mundo trabalhar na lavoura, minha mãe foi trabalhar de lavadeira e apareceu uma pessoa próxima à família que pediu para a minha mãe para cuidar de mim, porque é muito comum isso no nordeste, quem tem um poder aquisitivo pegar o filho do outro para criar como se fosse filho, porque você cria filho de duas formas, você cria uma criança comum, filho mesmo e você tem aquele que você cria como se fosse filho e eu fui uma menina que fui levada por uma família para ser criada como se fosse filha. Saí do meu paraíso e vim para São Paulo.

Luciano         Que idade você tinha quando isso aconteceu?

Neide            6 anos.

Luciano         Você tinha 6 anos.

Neide            6 anos.

Luciano         Você não conseguia entender o que era isso.

Neide            Nada.

Luciano         Nada. Um dia sua mãe chegou e falou minha filha…

Neide            Vai te levar e vai embora.

Luciano         Tipo assim?

Neide            É, tipo assim sem… eu não posso criar, essa pessoa vai te dar uma vida melhor.

Luciano         Você tinha irmãos?

Neide            Dois irmãos.

Luciano         Dois irmãos. Mais velhos ou mais novos?

Neide            Uma mais velha que eu e um mais novo. E nós três…

Luciano         Espera. Deixa eu explorar mais isso aí que essa coisa é importante, quer dizer, são 6 anos, há dois anos você não tem notícia do seu pai, com 4 você não entende direito essas coisas, está levando a vida, com 6 também, ah o pai sumiu e de repente um dia sua mãe chega e essa família que a procurou era uma família par você de estranhos, era gente estranha ou era gente com quem vocês conviviam?

Neide            Não, eu nunca tinha conhecido, era conhecido da minha mãe há muito tempo.

Luciano         Mas de você não.

Neide            Não.

Luciano         E de repente veio uma notícia de que… está aqui tua malinha, você vai embora com esse povo que você não conhece.

Neide            Para São Paulo, imagine para quem nunca tinha calçado um sapato.

Luciano         Como é que é? Você consegue lembrar de algum coisa? Era uma grande brincadeira ou o que era isso?

Neide            Não, não, era tudo meio assustador para mim, tanto que quando…. aí nós viemos para uma cidade, saímos de lá e viemos até Vitória da Conquista, que é uma grande cidade hoje, é na Bahia. De Vitória da Conquista nós entramos no ônibus e viemos para cá e eu lembro que a tia que me trouxe, ela não pagou minha passagem, fez um rolo lá que nem documento eu tinha, nem registro eu tinha.

Luciano         Não era uma família abastada, rica, que pegou você?

Neide            Não.

Luciano         Era uma família um pouco menos miserável…

Neide            Menos miserável do que a minha…

Luciano         … do que a sua.

Neide            … e aí foi uma viagem que durou 30 horas e uma noite interminável para mim, que essa noite marcou demais a minha vida, até então não lembro de noite nenhuma, mas aquela noite marcou minha vida porque aquela noite eu fui abusada dentro de um ônibus, minha tia, para não pagar a passagem, ela fez um conchavo lá com o motorista e tudo e eu não sabia, mas ela era uma prostituta e aí ela me deixou passar a noite no colo de um homem enquanto ela ficou com outro dentro do ônibus.

Luciano         Com 6 anos.

Neide            Com 6 anos. E aquele dia eu sofri meu primeiro abuso. Eu nem sabia o que era aquilo, não tinha noção do que estava acontecendo, simplesmente a pessoa colocava a mão na minha boca e falava para eu ficar quieta, quando nós descemos do ônibus eu conversei, eu falei para ela o que tinha acontecido, ela falou que era mentira, que eu tinha sonhado, que um adulto não faz aquilo com uma criança e eu vim para casa deles e aí era uma oficina de costura, tinham me prometido por na escola, tinham me prometido me dar coisas que qualquer criança tenha e eu não vivi uma vida de criança, eu vivi dentro de uma oficina de costura…

Luciano         Deixa eu te perguntar uma coisa, você está falando eles, apareceu uma personagem aqui agora que é a tia prostituta, ela estava com alguém? Tinha alguém com ela?

Neide            Não, ela me trouxe sozinha, mas eu sabia que ela tinha uma família aqui em São Paulo.

Luciano         Sua mãe fazia uma ideia do que ela era, que seria uma prostituta? Ou você não sabe?

Neide            Não, eu não sei te dizer isso. E aí quando eu cheguei tinha outros parentes, que eles costuravam, ela costurava, saía à noite mas durante o dia ela costurava, nos finais de semana…

Luciano         Aqui em São Paulo?

Neide            Aqui em São Paulo.

Luciano         Que lugar de São Paulo?

Neide            Eu não me lembro exatamente, parecia que era Cachoeirinha, porque eu não me lembro, porque eles mudavam de lugar, aí eu lembro que eu fui para Cotia e era sempre eles sempre com oficinas de costura e assim, eu lembro que quando eu saía da oficina, era porque eles bebiam e eles não compravam uma garrafa de bebida para beber, eles mandavam eu comprar bebida no copo e eu…. minha diversão era quando eu saía no boteco comprar um copo de cachaça e trazia para eles beber e passei minha infância dentro de uma oficina de costura, eu dormia em cima de tecidos e hoje uma das minhas profissões é costureira, que eu aprendi a costurar muito cedo, eu dormia em cima daqueles tecidos e eu varria, eu limpava, eu lavava louça, trazia comida, trazia água, aquelas coisas, eles ficavam sentados costurando.

Luciano         Tinha mais alguma criança com você lá?

Neide            Não, a única criança era eu.

Luciano         E você estava na escola?

Neide            Não, também não estudava.

Luciano         A tua vida, o teu universo era aquilo ali.

Neide            Era aquilo ali, aí aos 10 anos, em 1970, minha mãe me registrou e mandou meu registro, aí eu fui para a escola aos 10 anos e aí eu me apaixonei por livros, tanto que hoje eu tenho uma biblioteca particular, eu aprendi, logo eu aprendi a ler, que sempre eu fui muito esperta, eu me julgo uma pessoa curiosa, curiosa e eu me apaixonei por livros.

Luciano         Isso aí era ano, você lembra?

Neide            1970, porque eu lembro…

Luciano         70 redondinho.

Neide            … eu lembro as datas porque até no meu registro eu lembro, eu fui registrada no final de novembro de 1970, eu tenho xerox desse meu registro, por isso que eu lembro dessas datas exatas.

Luciano         Então vamos lá, ano 1970 você em São Paulo, 10 anos, é isso?

Neide            Isso.

Luciano         Vai para a escola pela primeira vez, você não tinha… teu universo social era dentro de um lugar fechado interagindo com adultos?

Neide            Com adultos.

Luciano         E de repente você vai para uma escola e começa a ver que tem um mundo de criançada lá que tem família com pai, mãe, com cachorro, com coisas que talvez você não tivesse. É o segundo grande impacto da sua vida talvez, o primeiro era você sair de lá, chegar em São Paulo. E agora, esse mundo novo, o que você lembra disso?

Neide            E aí uma das grandes dificuldades, quando eu cheguei na escola, porque dentro da oficina, os baianos me ensinavam o ABC de uma forma diferente, porque eles conversavam comigo e eu lembro que eu li o ABC assim, A, B, C, D, Fe, Ge, Le, Me, Ne, O, P, Q, Re, Si, T… quando eu cheguei na escola que eles me ensinaram o ABE e quando eu falava, eu falava cantando porque a gente tem aquele… principalmente uma criança que vem do nordeste, ela tem aquela fala diferente, como eu vivi com eles, eu não tinha nenhum sotaque paulista, hoje eles falam que é bulliyng, mas eu não sabia, eu só sei que eles tiravam, eles sempre ficavam rindo de tudo o que eu falava e eu lembro que até na escola uma vez eu fui comer, eu peguei a comida com a mão para comer, o costume e aí eu lembro que uma criança veio falar para mim, ah então baiano come com a mão? Só que de uma certa forma eu era esperta, eu falei assim por acaso paulista come com o pé?

Luciano         Saiu bem.

Neide            Me sai bem, eu sempre tinha umas respostas assim sabe, mas logo eu comecei interagir e aí veio a atividade física na minha vida, eu nunca tinha feito atividade física e eu fiquei muito feliz porque atividade física eu podia passar mais tempo na escola, era minha diversão…

Luciano         Era ficar na escola.

Neide            … era ficar na escola, na educação física, era a única diversão que eu tinha, porque quando eu voltava eu ia para cima dos tecidos e a vida ia acontecendo.

Luciano         O que se passava, você tinha um apelido naquela época?

Neide            Eles me chamavam de Neidinha e manteiga derretida, porque diz que eu era como manteiga, qualquer coisa eu estava chorando eu era uma criança chorona, eu era uma criança tímida, mas era chorona porque eu não podia… como eu não podia falar, quando eu falava, falavam que era mentira, eu chorava, quando alguém me fazia algum mal ou fazia eu fazer alguma coisa que eu achava que era errado, mas aquele adulto achava que era certo, eles falavam que eu era chorona, ela está chorando porque ela é chorona, que ela é manhosa e eu cresci uma criança tímida, chorona e quando eu tinha 10 anos eu estava com 21 quilos, eu era extremamente magra porque eu tinha anorexia, mas não anorexia que eu provoquei, é muito difícil para eu falar isso, mas eu vomitava muito, porque eles pediam para eu fazer coisas e eu achava muito nojento e aí quando eu terminava de fazer aquilo, fazer sexo oral, eu vomitava…

Luciano         Você continuava sendo abusada enquanto estava ali dentro.

Neide            … era molestada, molestada sexualmente…

Luciano         Desde que você chegou em São Paulo.

Neide            … desde que eu cheguei em São Paulo…

Luciano         Naquele ambiente que você estava ali.

Neide            … é e aí o tempo passou e aí eu comecei ter dores estomacais e eu comia só um pouquinho, porque tudo me soava nojento e eu vomitava e aos 10 anos eu pesava 21 quilos, mas eu sonhava em ser feliz, sempre tive um sonho muito grande de ser feliz e aí quando eu fui para a escola fiquei feliz, quando eu tive educação física fiquei feliz e aí nós mudamos para um bairro, para um bairro onde eu tive a oportunidade de, num campeonato colegial…

Luciano         Então espera aí, você vai fazer uma nova mudança na tua vida, antes eu quero explorar mais alguma coisa de você. Você está dizendo para mim que dos seus 6 anos aos 10 anos, uma coisa chamada amor não existia na sua vida.

Neide            Não, não.

Luciano         Você não sabia o que era isso, não tinha ninguém que te amasse e ninguém que você amasse, era sua mãe que estava distante e ali onde você estava nesse ambiente eram 24 horas sem experimentar, uma criança…

Neide            É, eu não tive essa fase de criança a não ser até os 6 anos que eu vivi…

Luciano         Claro, quando tiraram você da sua casa.

Neide            … quando tiraram e nesse tempo… e depois com o passar do tempo aquilo começou a ficar normal para mim, era uma obrigação para mim fazer aquilo, tipo assim, se você não fizer isso você vai morar na rua, porque você não tem pai e não tem mãe, seu pai morreu e sua mãe você não tem nem noção de onde que ela está, se você não fizer isso você vai para a rua e eu fazia para não ir para a rua, o que eu ia fazer na rua?

Luciano         O que aconteceu com esses criminosos?

Neide            Essas pessoas, hoje todas elas já morreram, porque essas pessoas hoje, elas estariam com 80, de 80 anos acima, porque minha mãe tem 80 anos, todas essas pessoas que passaram pela minha vida nessa época, todas elas já morreram. Mas assim, eu tinha um grande sonho em ser feliz e aí quando foi…

Luciano         Isso que eu queria te perguntar, você não estava assim… tinha televisão para você assistir?

Neide            Não.

Luciano         Tinha rádio para você ouvir?

Neide            O rádio sim.

Luciano         O que você queria, o que a Neidinha sonhava em ser quando crescesse? Ou achava que aquele inferno ia ser a sua vida?

Neide            Não, quando eu ouvia rádio, por incrível que pareça, eu achava que tinha gente lá dentro, que era aquele rádio que tinha um monte de botões, eu ficava… para mim e eles ouviam muito sertanejo, ouviam Zé Betio, aquelas coisas assim e aí eu lembro que antes de vir para eles, eu tinha uma tia que era católica e me levava para a igreja…

Luciano         Lá na Bahia.

Neide            … lá na Bahia e eu lembro de ter coroado a santa e eu lembro que quando eu fiz isso, eu pedi a ela que eu queria ser feliz eu sonhava em ser feliz.

Luciano         Mas você sabia o que é feliz? O que é feliz?

Neide            Para mim ser feliz era ter minha família, minha mãe, meus irmãos, para mim isso era felicidade, porque até então nem brinquedo eu conhecia, eu não conhecia esses brinquedos que tem hoje, brincar para mim era tomar banho no rio, correr, subir na árvore, tirar fruta, comer, coisas assim, isso para mim era brincar, eu não sabia o que era outra brincadeira, a única coisa de brincadeira que eu tinha na oficina de costura, foi que eu aprendi a fazer bonecas de pano e eu mesmo fazendo os vestidos para as minhas bonecas e eu aprendi fazer meus vestidos fazendo vestidos para as minhas bonecas e vendo eles costurar e depois aos poucos eles também foram me ensinando a fazer isso e aí não adiantava nada, quando eu falava que na hora que o tio foi no banheiro, na hora que eu estava sozinha em tal lugar o tio fez isso comigo, eles diziam que era mentira e chegou uma hora que eu não questionei mais.

Luciano         Aquela tia sua que estava lá.

Neide            Ela sempre dizia que eu estava mentindo.

Luciano         Tinha mais alguma mulher junto com esse grupo?

Neide            Eram duas mulheres e três homens. E eles diziam para mim que era….

Luciano         Vamos vencer essa etapa, eu não vou explorar isso porque acho que isso é demais, vamos vencer essa etapa, mas eu quero vencer com uma pergunta, o que você pensa dessas pessoas hoje? Desses cinco hoje, quando você olha para trás, agora distante, o que você pensa, você olha assim com vingança, com ódio, com tristeza, o que você pensa disso? Que gente é essa?

Neide            Primeiro essas pessoas são pessoas que não tem amor, não sabem o que é amor, não respeitam o próximo, até hoje eu tenho nojo dessas pessoas cada vez que eu me lembro, é difícil eu contar, eu falar disso e não vir esse sentimento de mágoa, esse sentimento de ter tirado a minha inocência, de ter tirado o meu direito de ser criança, eu queria ser uma criança, eu queria me ver como qualquer outra criança e por incrível que pareça, hoje quando eu faço minhas orações, eu oro por essas pessoas, eu oro por elas assim, hoje com a minha maturidade, eu odiava, passei aquela coisa que eu odiava, eu pensava se eu pudesse eu matava, hoje não, hoje não mais, eu oro e uma das coisas que se eu tivesse o poder, não existiria mais pessoas assim. Mas, infelizmente hoje existe pessoas assim, para você ter uma ideia, eu não assisto noticiários, esses noticiários que falam de mortes, esse jornalismo sensacionalista barato que faz audiência em cima da desgraça alheia e conta aqueles detalhes, eu não assisto, porque cara vez que eu vejo isso me remete a um passado que mexe comigo, são mais de 50 anos que aconteceu isso, mas cada vez que eu vejo que uma criança é abusada eu lembro exatamente do meu primeiro abuso. É incrível, era uma coisa que se eu tivesse o poder eu apagava tudo isso da minha vida, mas cada vez que eu ouço que uma criança sofreu qualquer tipo de abuso, eu me lembro desse passado, não tem como não lembrar. Mas só que hoje eu vejo essas pessoas de uma forma diferente e não queria mais que isso existisse, mas infelizmente isso existe, está dentro da casa da gente, até hoje está, está do nosso lado. Está até no pai, que tem o dever de cuidar e faz isso, mas também mulheres fazem isso com criança…

Luciano         Bom, você acabou de dar o exemplo, se não fez ativamente, deixou que acontecesse e deixou você como moeda de troca.

Neide            Exatamente. Mas isso passou.

Luciano         Você me fala que você vai para escola e de repente na escola… você tinha alguma ideia de vou estudar para ser alguma coisa? Eu perguntei, a gente acabou não…  Vamos voltar a esse assunto aí. Vou estudar para quando eu crescer ser algo ou não sei, como é que era?

Neide            Não, eu não tinha noção do… se ia estudar o que eu ia ser, eu não tinha noção, porque as pessoas não conversavam isso comigo, eu vivi num mundo isolado.

Luciano         A perspectiva de voltar para a sua mãe…

Neide            Isso sim.

Luciano         Todo dia.

Neide            Isso sim, desde os 6 anos eu sonhava em um dia reencontrar a minha mãe, minha mãe biológica…

Luciano         Você não teve contato com ela?

Neide            … não, eu fiquei 10 anos sem nenhum contato com a minha mãe, dos 6 aos 16…

Luciano         Nem para contar o que estava acontecendo e me tira daqui?

Neide            … não, não. Eu cheguei escrever…

Luciano         Isso é roteiro de novela, não é possível.

Neide            … é… eu cheguei a escrever cartas para a minha mãe e ela recebeu, mas ela não me respondeu e até hoje ela não me responde o porque que ela não me respondeu. Aos 14 anos eu tive o privilégio de ir para um campeonato escolar através da escola, que nós íamos competir com outras escolas, com crianças como a gente e eu fui jogar handball e aí tinha um revezamento 4×100 e faltou uma menina no revezamento 4×100, o professor me pediu para que eu substituísse a menina, eu falei mas eu nem sei o que é atletismo, eu nem sei o que é isso, o que eu tenho que fazer? Ele me explicou rapidinho, você vai pegar esse bastão aqui, você vai ser a última, você vai pegar e vai correr o mais rápido possível, não se preocupe em passar porque você não vai ter que passar para ninguém, você não vai correr o risco de deixa-lo cair e aí eu fiz, quando terminou o revezamento 4×100 aí nós ganhamos o revezamento e aí o professor veio e me parabenizou e falou que os 100 metros melhor tempo foi o meu e aquele dia, pela primeira vez na minha vida eu ganhei algo que eu conquistei, eu ganhei algo novo, eu ganhei uma medalha, para mim. Até os 14 anos eu não me lembro de ter ganhado nada novo, de ter…

Luciano         Nem parabéns.

Neide            … nem parabéns, uma roupa, nada, tudo o que eu usava era de alguém, era que quando não servia mais para alguém, eu recebia, era sempre assim e até meu alimento, eu comia o que os outros deixavam e aquele dia eu ganhei uma medalha e aquela medalha, de uma certa forma, eu só vim a saber o que é a palavra “empoderada” de uns tempos para cá, mas aquela medalha me empoderou, aquela medalha me fortaleceu, falei assim, eu conquistei algo, algo meu e quando eu saí dali, eu saí mostrando para todo mundo, na rua eu nem sabia quem eram as pessoas, olha, eu ganhei, é minha! E pouco tempo depois o professor da escola me tirou do handball e me deixou para treinar só atletismo e ele falou que eu tinha grande chance de ser uma medalhista olímpica, eu era ágil, eu era rápida, eu era magra e eu sonhava com aquilo, eu sonhava em ser…

Luciano         Você não teve na escola ninguém que se aproximasse de você o suficiente para você poder contar o que estava acontecendo e ser tirada daquele ambiente?

Neide            Não.

Luciano         Você não chegou a ter?

Neide            Não. Não. Porque eles falavam que se eu contasse alguma coisa, eles iam me jogar na rua, São Paulo, uma selva de pedra, como que uma criança ia viver na rua sozinha? Era melhor viver com eles do que viver na rua. E aí…

Luciano         Sabe, eu estou te perguntando porque a gente fica imaginando o seguinte: pô essa pessoa está sofrendo assim por que ela não sai daí? Por que ela não se liberta? Por que ela não reclama? Por que ela não vai embora? Tem uma armadilha psicológica montada em cima de alguém, uma criança, por exemplo, que não tem condições de pensar muito a respeito, você é uma prisioneira psicológica, basta o cara dizer vou te deixar na rua e acabou; vou matar seu pai, acabou. Eu vou pegar tua família e a criança vai se fechar e ela psicologicamente ela está presa. Não consegue escapar disso, então a força disso é brutal, talvez seja até pior do que espancar a criança, se você bater numa criança, ela vai se curar com o tempo, esse abalo psicológico eu não sei se cura mais, você está me falando que você tem um com 50 anos e que não vai curar nunca, não é?

Neide            Nunca, nunca nunca. É assim, não tem como esquecer essas coisas e aí quando nessa fase, ela me levou de volta para a Bahia, eu achei que ia encontrar minha mãe lá…

Luciano         Espera aí…

Neide            … aí a família não quis mais…

Luciano         O professor chegou e falou para você que você tem todo o jeitão para…

Neide            … para ser uma medalhista olímpica e aí ele me sugeriu que eu fosse para o São Paulo para treinar…

Luciano         Corrida?

Neide            … corrida, na época treinava João do Pulo, treinava o Ademar Ferreira da Silva, no São Paulo e aí eu fui para a Bahia e não encontrei minha mãe, me levaram, a família desistiu de mim e me levaram, porque eu já estava ficando muito esperta, eu já começava a questionar dentro de casa, eles já viram que eu já estava na adolescência e eu já estava aprendendo muita coisa na escola, conversando com outras pessoas e eles viram que não dava mais para me prender dentro de uma oficina de costura.

Luciano         Eles chegaram a te agredir fisicamente?

Neide            Sim, isso é o de menos, apanhava, mas isso é o de menos. Em vista de tudo o que eu sofri, tapas, surras, era o de menos. Não doía.

Luciano         E aí de repente você pode trazer problema para eles, vamos devolver.

Neide            É. A dor da alma, o espancamento não dói tanto quanto a dor da alma e eles me levaram para a Bahia, só que chegou lá não encontrou minha mãe, encontrou meus parentes, uma tia e me deixou lá e aí nesse meio tempo, não sei exatamente onde minha mãe estava e minha mãe veio para São Paulo, eu fui embora e minha mãe chegou em São Paulo, teve um desencontro nisso e aí minha mãe, em contato com a família, pediu para que minha avó me trouxesse para São Paulo e aí eu fiquei uma média de um ano, um ano e pouquinho na Bahia e voltei para São Paulo, aí eu fiquei muito feliz, porque eu fui viver com a minha mãe, só que aí eu já tinha 6 irmãos, nós éramos 5 irmãos, comigo 6, era….

Luciano         E tinha um padrasto.

Neide            … não, não tinha, minha mãe acabou tendo relacionamentos, outros relacionamentos, minha mãe acabou se prostituindo também e dessa prostituição minha mãe teve três filhos a mais, nós éramos três e aí ela juntou todos os filhos porque nós já éramos, já com… eu com 15, com 16, minha irmã mais velha já com 18 e meu irmão com 14 e aí com 14 anos já podia trabalhar, vou pegar meus filhos mais velhos, eles vão trabalhar e vai ajudar eu criar os filhos que eu adquiri….

Luciano         Lá em São Paulo?

Neide            … aqui em São Paulo e isso já no Capão Redondo, quando eu encontrei a minha família, já foi tudo no Capão Redondo, nós fomos morar no Capão Redondo e aí quando eu cheguei no Capão Redondo eu imaginava assim, pô, encontrei minha família, minha mãe tem uma casa, nós vamos viver todo mundo junto, vai ser tudo feliz, porque assim, eu tinha um conceito de felicidade sabe, que a gente teria um quarto, que a gente teria uma cama, que a gente teria uma cozinha, alguma coisa assim e aí quando nós encontramos todo mundo, nós fomos morar num cortiço, um único cômodo, para sete pessoas morar. Seis irmãos e minha mãe, aí quando minha mãe não teve mais como ganhar dinheiro com a beleza, minha mãe teve que trabalhar, minha mãe foi trabalhar numa casa de família e aí eu tinha que ficar em casa cuidando dos meus irmãos, porque era aquela época que as mulheres tinham que dormir no trabalho…

Luciano         Sua mãe quando chegou em São Paulo, ainda continuou se prostituindo aqui?

Neide            Eu acho que sim, porque eu tenho dois irmãos que nasceram aqui em São Paulo…

Luciano         Mais dois além daquele monte lá? Tem mais dois?

Neide            Dois irmãos que nasceram aqui em São Paulo.

Luciano         Você sabia o que estava acontecendo ou não? Vocês tinham ideia do que…

Neide            Não, não, não tinha porque ela era muito…

Luciano         Reservada.

Neide            … reservada, porque ela diz que dormia no trabalho e não voltava para casa e ela nunca contou isso para a gente, de que forma fazia isso e aí eu passava a semana cuidando dos meus irmãos e foi aí que eu consegui uma máquina e cuidava dos meus irmãos e costurava em casa e estudava a noite.

Luciano         Isso que eu ia te perguntar, cadê a escola?

Neide            Chegava aí da quinta série eu já fui estudar a noite, aí chegava a noite, na hora de ir para a escola, trancava meus irmãos e ia para a escola, só que eu só fiquei mais dois anos na escola, na sétima série eu parei de estudar porque não tinha condições de continuar e vivíamos num local que tinha oito famílias, oito comodozinhos, um banheiro para todo mudo, um tanque para todo mundo e pouco tempo depois eu casei, casei porque eu falei assim gente, eu sonhava em ser feliz, sonhava encontrar minha mãe, olha que vida miserável eu estou vivendo. Casei achando que eu teria uma vida feliz, que eu ia ser feliz…

Luciano         Para. Espera aí. Vai ter outra virada, então antes da virada eu vou explorar você um pouquinho mais. Você tinha uma irmã mais velha…

Neide            Tinha uma irmã mais velha que é excepcional, especial e tinha que cuidar da irmã mais velha.

Luciano         Eu vou parar de perguntar coisas para você porque cada vez que eu pergunto a história fica mais dramática, eu ia te perguntar o seguinte, se você tinha um irmão, uma irmã com quem conversar a respeito, com quem falar gente, vamos arrumar uma saída, você estava sozinha de novo…

Neide            Sozinha de novo…

Luciano         Sozinha de novo.

Neide            … porque meu irmão era mais novo que eu, tem a minha irmã mais velha, que é a Graça, que ela é especial, tinha eu e tinha meu irmão que era mais novo que eu, eu com 16 e meu irmão com 14 e os outros menores, tinha a Ivone, o Kiko e o Willian.

Luciano         Quando você se juntou com essa turma toda, o amor voltou para a sua vida?

Neide            Eu fiquei feliz porque eu tinha meus irmãos.

Luciano         Não foi isso que eu perguntei. Eu perguntei se o amor voltou para a sua vida, você estava num ambiente em que finalmente existia, porque tudo bem, olha, é um horror, está tudo ruim, mas anteriormente você estava num lugar que as pessoas não gostavam de você, te exploravam, te violentavam, ninguém te amava, nada, te tratavam como qualquer coisa e agora você estava num ambiente familiar, mas esse componente amor surgiu ali de novo ou não, era só aquela, pô legal, gosto da turma, estou convivendo com eles, está mais agradável que lá, mas o elemento amor, nem que seja por  um irmão.

Neide            Não, existia sim, porque eu cuidava dos meus irmãos como meus filhos, tanto que até hoje meus irmãos me respeitam e tem muito, muito carinho por mim, meus irmãos são muito apegados a mim, eles falam que a mãe que eles tiveram fui eu, porque fui eu que criei eles e eu cuidava dos meus irmãos como se fossem meus filhos, eu cuidava dos meus irmãos como meus filhos.

Luciano         Eu te perguntei isso porque se o componente amor aparece, vem a esperança junto com ele, vem a vontade de melhorar, eu vou sair dessa, tudo isso está em volta do amor, quando ele não existe, acontece aquilo que aconteceu com você, passa um momento você fala isso não vou nem pensar a respeito porque já virou normal, pode bater que não dói, eu não me importo mais, quando o amor surge, eu passo a me importar e passo a querer, preciso sair dessa e vou fazer alguma coisa a respeito para carregar até esses menininhos que estão comigo aqui, por isso que eu te perguntei se tinha.

Neide            Eu ajudei minha mãe a criar meus irmãos, saí da escola e continuo a ajudar meus irmão, mas não desisti de correr, não fui para um centro de auto rendimento, não me tornei uma atleta olímpica, mas todos os dias eu levantava de madrugada e ia treinar, ia correr sozinha, porque eu já sabia, porque até os 17 anos o meu professor me passava os treinos e eu tinha uma boa memória e aí apareceu corridas de rua, eu dava um jeito, eu via as mulheres correr a São Silvestre pela primeira vez aqui em São Paulo em 1975, foi incrível isso.

Luciano         E você corria porque te fazia bem, não é porque você achava que no futuro alguma coisa aconteceria, não.

Neide            Não, não, não…

Luciano         Aquilo me fazia bem.

Neide            … aquilo me fazia bem. Mas sabe aquele sonho de ser uma atleta olímpica, falei gente eu nunca vou ser uma atleta olímpica, mas aquele sonho ficou armazenado em algum lugar, como um computador, ele ficou lá escondidinho em algum canto e quando eu casei, meu marido, meu marido jogava futebol…

Luciano         De onde vem esse marido?

Neide            … da escola…

Luciano         Apareceu na escola de repente.

Neide            … é, na escola, 17 anos eu comecei namorar na escola um amigo de escola e nós namoramos e casamos, aos 18 anos eu estava casada…

Luciano         Com 18 anos.

Neide            … com 18 anos, aos 19 eu fui mãe…

Luciano         Então deixa eu explorar você um pouquinho aqui agora. Agora eu vou fundo, posso?

Neide            Pode.

Luciano         Você casa aos 18 anos, menina, seu marido tinha que idade?

Neide            Ele tinha 19 anos.

Luciano         Então tá, legal, os dois novinhos, os hormônios à flor da pele, aquela coisa toda, mas até esse momento sexo para você era uma coisa horrível, nojenta e que te dava o asco que você comentou, e agora você encontra alguém e surge de novo, vai pintar o sexo na sua vida outra vez. Qual é a chavinha que você virou?

Neide            Tive problemas, até hoje, eu sempre tive problemas em relação a sexo, qualquer coisa mais brutal, sexo para mim tinha que ser muito carinhoso, tinha que ser muito amável, sabe se pegar no cabelo, se pega no braço de alguma…. sabe é assim, gela, gelava para mim e como a gente conversava, eu contei tudo para ele o que aconteceu, tudo, tudo o que aconteceu, ele sempre foi muito carinhoso comigo, mas assim, até hoje… e eu lembro que antes de conhecê-lo eu nunca gostei de mulher, nunca fiz sexo com mulher, não, sempre fui bem resolvida em relação a isso, mas assim, na minha adolescência eu vestia as roupas largas, eu vestia tudo largo, porque eu achava que a minha beleza atraía para mim as pessoas abusavam de mim porque eu era bonita, eu cresci uma adolescente que eu não queria ser a menina bonita, porque a menina bonita eles faziam carinho, a menina bonita eles faziam carinho no cabelo, tanto que quando eu saí da casa deles, eu lembro que vi a Elis Regina na televisão, a primeira coisa que eu fiz foi cortar o meu cabelo, cortei meu cabelo curtinho, porque para mim tudo o que soava beleza, tudo o que soava corpo, roupa justa, para mim era…  eu estava chamando a atenção das pessoas e as pessoas iam querer fazer sexo comigo porque achava meu corpo bonito e eu me escondia, minha adolescência, quando as meninas estão querendo vestir roupas bonitas, na minha adolescência eu vestia roupas largas que era para me esconder.

Luciano         Eu não consigo imaginar uma menina adolescente que não quer ser bonita, sabe, eu quero me esconder, eu quero esconder qualquer coisa de beleza numa sociedade que hoje, tudo o que elas querem é ser bonitas, ainda bem e você de repente inverte o jogo para se proteger.

Neide            É, para me proteger porque era me escondendo atrás de roupas largas que as pessoas não viam a minha beleza, não visualizavam os contornos do meu corpo, era uma forma que eu tinha de me esconder e aí o meu marido, era uma pessoa incrível e me ajudou muito nesse processo de me livrar de todos esses fantasmas, de mostrar a pessoa bonita que eu era, o quão eu era importante…

Luciano         Você casa com seu marido porque achou uma pessoa que você amava ou porque arrumou um jeito de escapar daquela realidade maluca?

Neide            Foi um jeito de escapar daquela realidade maluca, mas eu aprendi a gostar dele, eu aprendi a gostar dele.

Luciano         Ele sabe disso? Ou sabia disso?

Neide            Sabia disso. Ele sabia. E aí…

Luciano         Esse cara é generoso, eu já gostei dele, eu nem sei o nome dele, agora já estou gostando dele.

Neide            … aí um belo dia ele fazia bicos de pedreiro, trabalhava trabalho informal, um dia ele…. ele era negro, quando a gente teve nosso bebê foi uma época que era muito difícil, porque eu sou da época que existia só dois partidos, a Arena e o MDB, aí depois começou a aparecer outros partidos, ditadura, aquela dificuldade toda, desemprego e ele trabalhava, um dia ele chegando tarde de um trabalho de pedreiro, que ele foi fazer, segundo a polícia, ele era suspeito, mandou ele parar e ele não parou, e um tiro acidental acertou meu marido e meu marido veio a falecer, aí eu fiquei…

Luciano         Que ano nós estamos?

Neide            Na década de 80. Foi em 80, eu com bebê…

Luciano         Falta 40 anos para chegar até hoje e eu não sei se eu vou aguentar mais. Eu sei o que você vai dizer, você está sozinha com um bebê e etc. e tal.

Neide            É exatamente isso.

Luciano         Antes de a gente continuar nessa coisa aqui, vem cá, o que é isso? Isso é um carma, você fez alguma coisa na outra encarnação que você veio pagar aqui? Porque a cada momento que passa a situação vai ficando… quando parece que… cai, como é que você vê isso, como é que você olha para trás hoje?

Neide            Eu brigava com Deus, eu brigava com Deus.

Luciano         Mas tinha Deus na tua vida?

Neide            Tinha, sempre teve Deus na minha vida e eu brigava com Ele, eu me perguntava por quê, até quando? Será que eu não tenho direito? Sabe aquela menina de 6 anos que queria ser feliz? Até quando eu vou chorar? E aí…

Luciano         Você estava morando com seu marido na sua própria casa?

Neide            A gente morava de aluguel, numa casinha, não tinha casa própria, a gente sempre morou de aluguel, a vida inteira moramos de aluguel e aí…

Luciano         E você fica sozinha com um bebê.

Neide            … com um bebê…

Luciano         E lá na outra casa sua mãe com seis filhos.

Neide            Aí eu voltei para a casa da minha mãe…

Luciano         Com mais um bebê.

Neide            … com mais um bebê, aí nós já éramos mais sete, mais um para sustentar e minha mãe trabalhava fora e eu costurava em casa, criava meu filho e meus irmãos.

Luciano         Era aquele cortiço ainda?

Neide            Naquele cortiço ainda. Aí com o passar do tempo eu namorei uma outra pessoa que também era da época do colégio, um rapaz que eu conheci no colégio e aí eu casei novamente, tive dois filhos, do meu segundo casamento…

Luciano         Esse também foi bonzinho? Esse também…

Neide            Foi, foi excelente.

Luciano         Bom, você já está vendo que tem um lado que você se dá bem, com as pessoas que você… tem alguma coisa funcionando.

Neide            E aí o tempo foi passando e eu continuei fazendo corridas de rua, ele foi muito generoso, ajudou a criar meu filho, meu filho Mark do meu primeiro casamento, ele ajudou a criar meu filho e tudo, sempre deu tudo para o meu filho e os anos foram se passando, sempre envolvida com esporte, sempre correndo em corridas de rua e tudo…

Luciano         Sua mãe e seus irmãos melhorando…

Neide            … melhorando, todo mundo melhorando sua vida, com o passar dos anos minha mãe conseguiu um apartamentozinho da COHAB, já foi melhorando, foi melhorando a vida, eu tive condições de ir para uma casa melhor, pagar aluguel, viver uma vida mais decente, já não passar mais necessidade…

Luciano         Você estava costurando. Trabalhando como costureira.

Neide            … costurando e fazendo minhas corridas de rua de vez em quando e aí eu comecei a ajudar muitas pessoas da comunidade do Capão Redondo, sabe essa história hoje que as pessoas, que tem aquela pessoa no final de ano faz carta para o pessoal, escreve, eu já fazia isso desde quando eu aprendi a ler e escrever, porque na comunidade a maioria das pessoas são nordestinas e tinha aquela coisa de escrever carta e quando chegava a carta ele não sabia ler, aí ia para a minha casa para eu ler a carta, eu lia a carta e depois escrevia a carta e respondia e ali eu tornei uma líder comunitária porque quando tinha festa junina eu montava uma quadrilha na rua, quando assim… toda a vez quando era férias das crianças eu fazia brincadeira para a gente ficar na rua brincando, porque até então eu praticamente era uma criança, eu sempre tive uma criança dentro de mim e tinha meus irmãos pequenos e tinha meus filhos também e a gente não tinha lazer, eu vim para o parque do Ibirapuera, acho que eu já tinha mais de 20 anos a primeira vez que eu vim no parque do Ibirapuera, a gente não tinha nada disso, a gente não tinha lazer nenhum, a gente inventava nosso próprio lazer na comunidade ou não tinha e não tinha. Não ia num cinema, não ia num teatro, eu vim ter isso tudo muitos anos depois e aí eu me tornei uma líder comunitária, com o passar do tempo eu me tornei presidente da Associação da minha comunidade e aí um belo dia uma das mulheres assistindo a São Silvestre que era a única corrida que passava na TV era a São Silvestre, elas me viram na São Silvestre e aí veio uma senhora de 60 anos me pedir para que eu ajudasse ela a correr, porque ela tinha vindo do nordeste e lá ela caminhava seis quilômetros para ir para a lavoura, trabalhava o dia inteiro, era o crossfit que as pessoas fazem hoje sabe.

Luciano         É ao natural, é o crossfit natural.

Neide            E caminhava mais seis quilômetros para voltar para a vila e aí ela veio para São Paulo e ela disse que ela não estava fazendo mais nada, se ela podia correr comigo e aí veio uma pessoa da própria família dizer para ela que ela não podia correr, que ela já tinha 60 anos e eu disse para ela você pode sim, levanta cedo e vem treinar comigo, porque depois eu tenho que trabalhar, porque eu trabalhava com duas arquitetas duas decoradoras e eu sempre trabalhei na área da costura, customização, cortina, colchas, almofadas, essas coisas e aí ela começou a treinar comigo…

Luciano         Então para que vai ter outra virada na sua vida aí, vou explorar um pouquinho antes da virada aqui. Aquela menininha presa, judiada, no momento vai começar a se transformar numa líder comunitária, o que foi que te fez essa transição, foi o fato de você, de repente, ter a responsabilidade de cuidar dos seus irmãos, ter que cuidar de casa e tudo mais, ali você foi pegando essa embocadura de ser a menininha recolhia, anoréxica etc. e tal para ser alguém que deixa que eu vou na frente, eu falo, eu faço acontecer, onde é que esse, de novo a chavinha, onde é que a chavinha vira e você fala opa, eu vou resolver?

Neide            Essa líder comunitária nasceu da necessidade da comunidade, porque eles me tornaram essa líder, eles falaram assim, Neide me ajuda a fazer isso, sempre era a Neide, por exemplo, falecia alguém tinha que pedir um ônibus para levar as pessoas até o cemitério, eu que tinha que fazer um ofício, levar na empresa de ônibus e pedir um para todo mundo…

Luciano         Porque você era a pessoa que sabia escrever.

Neide            Porque eu era a pessoa que sabia escrever.

Luciano         Era isso. Então a função foi o seguinte: eu vou na Neide, porque a Neide tem uma habilidade que eu não tenho, ela sabe escrever, ela sabe se expressar…

Neide            Ela sabe se expressar.

Luciano         … e eu não sei, logo eu vou na Neide.

Neide            Ela sabe pedir para os outros. Ela só não sabe pedir para ela mesma, mas pedir ara os outros ela sabe, ela sabe como ajudar os outros e foi assim que eu me tornei uma líder comunitária, foi assim que eu comecei a ajudar as pessoas. Quando uma mulher dava a hora do parto, elas falavam assim… elas traziam uma ficha e falavam assim para eu ligar no orelhão, para eu chamar…. geralmente era sempre o carro da polícia que vinha para levar, porque as ambulâncias não vinham, quando a mulher ia dar entrada no hospital, alguma coisa, o marido meio que analfabeto me pedia para ajudar, era muita coisa assim que eu acabava resolvendo dentro do meu entorno, da minha comunidade e aí nasceu a necessidade… que as mulheres começaram a falar assim para mim, Neide, por que que aqui na comunidade só os homens praticam esporte? Só os homens jogam futebol? O campinho ali só está para os homens jogarem futebol, por que a gente não pode? A gente tem que lavar, passar, isso nas nossas reuniões que a gente fazia, porque toda a liderança comunitária geralmente sempre tem muita mulher envolvida, os homens só querem se divertir, aí os homens tinham acesso a esporte, homens podiam jogar futebol, homens podiam sair dali, iam jogar no campo de futebol em outro lugar e as mulheres, final de semana a gente tinha que ficar em casa lavando, passando e cozinhando e cuidando dos filhos, o menino ia, mas a menina tinha que ficar em casa ajudando a mãe a cuidar do irmãozinho mais novo, aí eu falei assim pô, vocês querem treinar? Vamos treinar comigo? Vocês querem correr? Vamos. E aí começou a aparecer uma, duas, três, quatro, quando foi em 98 nós já tínhamos trinta mulheres treinando comigo, correndo comigo logo cedinho, seis horas da manhã porque nós temos o privilégio de ter um parque que ele é remanescente da Mata Atlântica na nossa comunidade, que é o Parque Municipal Santo Dias,  e aí ele abre às seis horas, seis horas na hora que abria o portão a gente estava lá treinando e essas mulheres começaram a participar de corrida de rua comigo…

Luciano         A tua técnica para isso era aquela que aquele professor do passado…

Neide            … que aquele professor me ensinou…

Luciano         … foi o que você… você não foi fazer numa escola, nada você foi…

Neide            … nada, não fiz, a aula de educação física… eu não fiz, não tenho nenhum doutorado, não frequentei nenhuma faculdade, é a curiosidade, lembra que eu te falei a curiosidade que eu sempre tive de aprender, de ler, de estudar eu sou do tempo da biblioteca, ia para a biblioteca lia todos aqueles livros e depois fazia o resumo, por iniciativa própria…

Luciano         O tênis que você usava era o que tinha.

Neide            Não, era o que me davam.

Luciano         Era o que te davam.

Neide            É. Eu fui comprar um tênis mesmo, eu já estava com 40 anos, quando eu comprei meu primeiro tênis, eu comprei meu tênis para mim, porque até então…

Luciano         Você já corria há quanto tempo quando você comprou seu primeiro tênis? Você já corria há 20 anos?

Neide            … já há 20 anos, sempre tinha alguém para dar alguma coisa, porque o esportista tem isso, essa amizade, essa facilidade de falar com os outros, de fazer amizade, o corredor é o seguinte, basta ele correr uma vez com uma pessoa, aquela pessoa já se torna seu melhor amigo, o esporte tem isso.

Luciano         Você está mudando muito, você já mudou, já é outra pessoa. Você já acabou de se transformar porque eu vi que você tocou num assunto que é o teu… mas deixa eu voltar um pouquinho atrás a gente parte para essa coisa da corrida aqui. Você se tornou uma líder comunitária então num ambiente que é uma comunidade ali, com muitas carências, tem muita carência lá, você deve ter um problema sério de educação ali em volta, de miséria etc. e tal e o fantasma daquela violência que você sofreu lá atrás, do crime etc. e tal está presente ali, não que esteja menos presente do que nos Jardins aqui, é que lá o estado não está lá, a polícia não está lá, você não tem… ou eu recorro ao meu vizinho ou eu não tenho a quem recorrer, quer dizer, é um ambiente muito propício para que surjam essas situações e que você não tem a quem recorrer, eu não tenho um telefone para ligar: vem me ajudar, não tem. Essas coisas chegam até você, de repente chega até você o pedido de socorro de crianças que podem estar sendo abusadas quando você assume esse poder como… poder… essa função como líder comunitária, você começa a receber esse tipo de input ou perceber que coisas acontecem, que você pode de alguma forma interferir nisso?

Neide            Sim, mas eu nunca compartilhava a minha história com ninguém, porque eu tinha vergonha de contar a minha história para as pessoas com medo de ser julgada, porque até hoje as pessoas ainda julgam, quando você… o que você fez para alguém abusar de você? Lembra que eu me escondia atrás das roupas, porque eu achava que a roupa que eu usava chamava a atenção e aí eu comecei a me esconder atrás de roupas largas para que não vissem meu corpo e hoje, infelizmente, até hoje quando uma mulher é abusada ou estuprada, algumas pessoas ainda perguntam, onde você estava? O que você estava usando? O que você estava fazendo ali, exatamente aquele horário? Mas eu nunca tinha compartilhado essa história, essa minha história de violência só meu marido, as pessoas próximas sabiam, e meus filhos, quando meus filhos começaram a entender as coisas meus filhos sempre souberam da minha história.

Luciano         Até para protegê-los.

Neide            Até para protegê-los. Tanto que uma das coisas que hoje, quando eu vejo um homem pondo uma criança no colo, isso é uma coisa que me lembra exatamente 1966, é uma coisa que é instantânea, quando eu vejo um homem pondo uma criança no colo me lembro de um ônibus, eu no colo de um homem, sabe é muito louco isso, é difícil de explicar isso e aí, voltando à comunidade, como eu me tornei uma líder comunitária, nesse meio tempo de líder comunitária já levando essas mulheres em corridas, já como organizada, já a consciência que eu estava fazendo políticas públicas, embora o poder público me ignorasse totalmente, sabia que eu estava fazendo políticas públicas. Meu filho mais velho falava assim para mim, mãe, já que você atende essas mulheres, por que você não começa a atender as crianças da comunidade? Nós não temos creche, as poucas creches que tem, quando a criança faz 6 anos ela não fica mais na creche e o que acontece? A maioria das mães está trabalhando e as crianças quando saem da escola não tem nada o que fazer, essas crianças, minha mãe, estão se perdendo, essas crianças estão fazendo pequenos favores, daqui a pouco elas começam a usar, daqui a pouco elas começam a praticar pequenos delitos, ocupa o tempo ocioso dessas crianças? A senhora é uma excelente líder comunitária. Eu falava filho, eu não tenho tempo, eu tenho que trabalhar, eu tenho que comprar meu arroz e meu feijão e eu não fiz a vontade do meu filho. Passou-se um ano, dois anos, quando foi em setembro de 2000, meu filho, já casado, pai de dois filhos, meu filho mais velho saiu de casa e meu filho não voltou. Meu filho não voltou para casa e eu enterrei o meu filho. Aí foi uma guerra com Deus.

Luciano         O que aconteceu?

Neide            Meu filho foi assassinado por uma criança de 14 anos, quem tem 14 anos é uma criança, meu mundo desmoronou, dessa vez aí e aí não foi nem mais minha briga com Deus, foi minha guerra com Deus, eu perguntava pra Ele até quando eu vou sofrer? Até quando eu vou sofrer? Quando vai chegar minha felicidade? Eu não tenho o direito dessa palavra que as pessoas falam que é felicidade. O círculo natural da vida não aconteceu, meu filho tinha que me enterrar, não eu enterrar meu filho e a pergunta: por que comigo? Eu que ajudo tantas pessoas, eu que só faço o bem, por que comigo de novo? Existia um jornal, se chamava Notícias Populares e no dia que eu enterrei meu filho, a minha família, pela segunda vez, o nome da minha família estava naquele jornal que a gente falava que se espremesse saía sangue e aquele dia mudou minha vida completamente, eu falei eu tenho que reescrever a minha história, tenho que reescrever a minha história, não posso mais deixar isso acontecer na minha vida e sem meu filho, vivi um processo de luto interminável, levei pessoas que me amavam, pessoas que me amam e me chacoalhou, acorda, mãe, seu filho está aqui, eu preciso de você, você não morreu, você está viva. E eu havia contado para a Rosália Campana uns tempos atrás a vontade do meu filho, que era que eu fizesse um trabalho com as crianças da comunidade…

Luciano         Quem é a Rosália?

Neide            … uma aluna que até hoje é aluna do projeto, Rosália Campana, uma das mulheres que começou o treinamento de atividade física comigo e aí numa tarde elas foram conversar comigo e elas falaram assim, Neide, por que você não faz a vontade do seu filho? Por que você não começa a atender as crianças da comunidade? Quem sabe isso vá te motivar a sair de casa, porque eu me tranquei, eu não achava motivação para nada, eu não achava nem motivação para sair para correr que era o que eu mais gostava de fazer, eu olhava para os meus filhos, eu só chorava, perdi… se aquele dia eu pudesse ter sido enterrada com meu filho naquele meu processo de luto, eu queria ter sido enterrada com ele…

Luciano         Seu marido?

Neide            Já chego lá, na história do meu marido.

Luciano         Ele estava presente?

Neide            Não.

Luciano         Não.

Neide            Não, nessa época ele já não estava mais presente.  E aí eu aceitei o desafio, vou começar a atender essas crianças, isso aos sábados, porque eu não tinha tempo durante a semana, porque de manhã…

Luciano         Então me dá uma dica aqui, Neide, vamos lá. Para muita gente essas porradas que você tomou e essa última que você tomou era o suficiente para desistir da vida e nunca mais se reerguer, muita gente teria reagido assim, nunca mais eu levanto porque foi demais e você se prepara para reerguer e fazer muita coisa acontecer como a gente vai ver na sequência aqui, mas o que foi, qual é aquele momento em que você de repente acorda um dia e fala eu tenho que sair dessa? Que momento é esse? Eu acho que você estava caindo num processo de se anular e de repente um dia é alguma palavra que alguém diz, você estava dormindo e enxergou seu filho falar com você? Deus deu uma luz, o que aconteceu para você falar não, espera um pouquinho, deixa eu chacoalhar a poeira e começar a me mexer, o que é esse momento? O que te leva para esse momento?

Neide            O momento foi quando eu enterrei meu filho, quando enterrei meu filho eu coloquei na minha cabeça que eu ia reescrever minha história, não sabia de que forma, não tinha planos, eu tinha que mudar aquela realidade, mas o meu luto era maior que aquilo, maior que minha vontade e aí…

Luciano         O que você fez com Deus?

Neide            … entrei em guerra com Ele, entrei em guerra com Ele e perguntava, me questionava o por que comigo, por que comigo?

Luciano         Você tirou Ele da sua vida?

Neide            Não, não.

Luciano         Você deu um gelo n’Ele?

Neide            Não, não dei um gelo n’Ele, mas todos os dias… eu nunca desisti de orar, eu nunca desisti de acreditar, o que me moveu a vida inteira foi acreditar que algum momento essa felicidade iria aparecer.

Luciano         Deixa eu só te dizer porque eu estou perguntando isso para você, eu acho que essa reflexão é importante aqui agora, você sabe que a sociedade do jeito que ela anda hoje em dia tem muitos questionamentos e uma coisa muito questionada é a questão de religiosidade, porque o pessoal mistura espiritualidade com religião, aí eu vejo lá o pastor se aproveitando, para mim aquilo, vejo o papa, porque o papa protege… é um horror o que está acontecendo hoje em dia e muita gente coloca essa coisa numa sacola, se falar em religião não presta, é ruim, o mundo está esse horror por causa da religião, quando você conta essa história para mim e eu te faço essa provocação sobre Deus, etc. e tal, aí você fala não, eu orei, mesmo para quem não acredita nessas coisas, fala olha eu não acredito em Deus, isso não existe, isso é uma baita de uma conversa mole, mas olha o que acreditar n’Ele fez com você, entendeu? Pode não existir coisa nenhuma, mas o fato…

Neide            Não, que eu acredito…

Luciano         … o fato de você acreditar naquilo faz com que você se transforme, entendeu? Então eu tenho que respeitar isso, eu posso não acreditar em nada, mas eu não posso negar o que crer naquilo tudo fez com você, então isso é válido, como é que eu posso criticar e dizer que bobagem, não penso em nada disso, se eu sei que foi acreditar nisso que te salva, que de certa forma te dá motivação para você continuar e seguir adiante. Só uma pausa de reflexão aqui, porque esse assunto é recorrente. Ele sempre vem eu ouço um monte de bobagem, gente questionando, pô para de falar essa bobagem, eu não sou religioso, minha criação foi toda católica apostólica, aos 18 anos eu parei de frequentar igreja e até hoje não frequento mais nada, mas eu respeito profundamente…

Neide            A palavra respeito, você falou uma coisa…

Luciano         … se você for muçulmano, umbandista, não me importa o que você é, eu respeito profundamente quem tem um credo…

Neide            Respeito à crença de cada um.

Luciano         … quem tem um credo, não vou dizer que você é nada, até porque eu conheço caras que inteligentes, geniais e que acreditam piamente naquilo tudo que eu posso não acreditar, então eu respeito profundamente isso especialmente porque o fato de você acreditar nisso acaba impactando em mim, entendeu? Você acredita, isso causa alguma coisa em mim, porque você vai agir de uma certa forma, você vai tomar decisões na tua vida e vai impactar como a gente vai ver aqui, a comunidade que está em volta de você. Ufa! Vamos lá. Volta para a tua subida, aí você resolve que eu vou seguir aquilo que meu filho pediu.

Neide            É, e o Marcelo, 40 dias depois que eu tinha enterrado meu filho, meu segundo filho Marcelo, ele foi para uma festa, aí eu falei assim como que você vai para uma festa? A gente acabou de enterrar seu filho, ele falou assim…

Luciano         Seu irmão.

Neide            … meu filho… meu segundo filho, do meu segundo casamento…

Luciano         Então, acabamos de enterrar seu irmão. Acabou de enterrar o irmão dele.

Neide            … é, o irmão dele, aí ele falou assim mãe, eu estou vivo, minha vida continua e você tem que viver por nós, eu também sou seu filho, foi aí que ele me mostrou que ele também era meu filho e ele era tão importante para mim quanto o meu filho que faleceu. Eu não poderia viver um luto para o resto da minha vida e aí nesse meio tempo que apareceu a Rosália e que me impediu, me lembrou a uma conversa anterior que era um sonho do meu filho, para que eu fizesse alguma coisa pelas crianças da comunidade. E foi aí que nasceu Vida Corrida, que é o projeto Vida Corrida, hoje as pessoas falam eu tenho uma vida corrida, mas o significado do projeto Vida Corrida é vida, a vida do meu filho e corrida, a corrida que eu sempre fiz na minha vida, aquela medalha que me ponderou em 1974. E aí comecei a atender essas crianças na comunidade…

Luciano         Espera que você já atropelou tudo aí. Como é que nasce isso, você senta na frente de um papel em branco e fala preciso criar alguma coisa, eu gosto de correr, eu gosto disso, eu vou juntar um negócio com outro e crio uma coisa assim, teve alguma… como nasce? É uma demanda de alguém? Tia deixa eu correr com você, como foi com as mulheres? Como nasce?

Neide            Foi a ideia da Rosália, ela só me acendeu algo que meu filho tinha me pedido, me lembrou, lembra que você havia me falado que seu filho queria que você atendesse as crianças da comunidade? Por que você não começa a atender nossas crianças? E aí as mulheres da comunidade, as próprias mulheres que já corriam comigo e a maioria delas eram mães, começaram a trazer suas crianças para os treinos e aí enquanto elas treinavam comigo durante a semana e as crianças eu comecei a atender as crianças aos sábados…

Luciano         Começou a fazer corrida, a garotada…

Neide            … atividades físicas com as crianças aos sábados, só aos sábados, porque durante a semana eu não tinha como, porque eu tinha que trabalhar e nisso nós ficamos com esse trabalho por longos anos, fazendo esse atendimento das crianças e foi como as mulheres, aí foram aparecendo mais criança, mais criança e a gente fazia bingo, a gente fazia rifa, e fomos comprando material esportivo para poder dar aula, fomos convidando amigos…

Luciano         Esse “a gente” não é uma ONG, não é organização?

Neide            … não era uma organização…

Luciano         Não tem CNPJ…

Neide            … não tinha nada no papel, CNPJ, nada…

Luciano         Era um grupo de pessoas…

Neide            … era um grupo e pessoas que veio fazer e depois veio o CNPJ da associação de moradores, porque quando você tem uma associação de moradores, você pode trabalhar esporte e lazer e aí dentro desse estatuto nós começamos a desenvolver essas atividades dentro, mas o projeto Vida Corrida já estava aqui na minha cabeça, já estava, só não estava no papel porque eu sou muito…. eu estou dormindo eu tenho ideias e faço assim gente, eu vou fazer isso…

Luciano         Neide, esse momento que vocês estão se reunindo para fazer alguma coisa lá é aquele momento que você fala dane-se o estado, eu não vou esperar nada do vereador, eu não vou esperar o prefeito, eu vou me juntar com as pessoas daqui e nós vamos fazer alguma coisa acontecer aqui?

Neide            Exatamente.

Luciano         Ah não tem dinheiro. A gente vai se virar…

Neide            Se virar…

Luciano         É isso aí?

Neide            … sem nenhum dinheiro público, nada, nada, nada, nunca até hoje, eu não utilizei verba da prefeitura para poder trabalhar dentro da minha organização e aí nesse meio tempo nós ficamos 10 anos no anonimato, lembra, comecei em 1999, o Vida Corrida, em 2000, final de 2000 eu comecei a atender as crianças e aí quando foi em 2009, 10 anos no anonimato fazendo um trabalho na comunidade, a sub prefeitura sabia, o poder público sabia, mas era cômodo, deixa ela fazer o trabalho dela aí, que é obrigação nossa fazer e ela está fazendo muito bem.

Luciano         Não vinha “uns vereador” me dá “uns voto aí”

Neide            Em época de eleição é sempre aquela coisa e pior que alguns tempos atrás a gente caiu nessa achando que vamos apoiar e que vai vir benefício e vai vir benefício, mas isso é só promessa de campanha, porque depois que se elege, você tenta pelo menos falar no telefone e é muito difícil, raramente você consegue isso e ai quando foi em 2009 havia uma corrida somente para mulheres no Jockey Clube, lá no Morumbi e aí uma grande marca esportiva era o patrocinador dessa corrida e aí através da Secretaria de Esportes que é uma pessoa que trabalha lá, Solange Menzel, que ela trabalha com corrida de rua, a Nike pediu que apresentasse mulheres de comunidade carente para ganhar cortesias para ir nessa corrida, porque existia um prêmio, um programa que iria… que eles iriam lançar que era para premiar o melhor projeto social brasileiro de inclusão de meninas e mulheres…

Luciano         Da Nike?

Neide            … da Nike, que era o Nike Game Chagers e eu fui nesse evento e aí no sábado, para retirar o kit, tinha feito inscrição e tudo, até então não tinha contato com ninguém, só tinha contato com a Secretaria de Esportes que foi a Solange que me indicou para a Nike e aí eu fui e tinha uma palestra de uma grande organização mundial que é a Ashoka, é uma grande ONG, é uma das ONG’s mais bem conceituadas no mundo, a Julia Furlani estava palestrando e aí ela mostrou um vídeo lindo, maravilhoso de mulheres virando o jogo através do esporte, mostrou imagens da África, mulheres jogando futebol, umas descalças e tudo, com uma precariedade, mas estava praticando esporte e aquilo foi me empolgando, falei gente eu também faço isso e aí começou a falar de mulheres empreendedoras, mulheres feministas e palavras que eu nunca tinha ouvido na minha vida, porque eu vivia reclusa lá na periferia, eu não tinha um contato com outas ONG’s, eu nem sabia o que realmente era a palavra ONG, o que significa, sabia o que era ONG mas não sabia muita coisa e aquele dia eu já vim pra casa mais curiosa. Eu vou aprender, vou ver o que era aquilo e no final da palestra a Julia Furlani falou assim, alguém conhece algum projeto social que trabalhe com meninas e mulheres, que faça alguma coisa, e assim, eu nunca tinha falado em público em classes sociais, eu só falava em público na minha comunidade, para pobre igual eu, gente simples igual eu, que falavam o meu vocabulário e aí aquele dia eu te falo, meu filho Mark, ele levantou minha mão e com a maior destreza do mundo, como se eu já tivesse, falei eu faço tudo isso a muito mais e falei tudo o que eu fazia na comunidade, aquele dia eu fui… ela falou você se inscreveu no prêmio? Falei não. Então você vai se inscrever nesse prêmio. Nunca tinha inscrito em nada, nunca tinha concorrido a nada, nada e aí cheguei em casa, fomos inscrever nesse prêmio, fui pedir ajuda para os universitários.

Luciano         Você não tinha nenhuma entidade para dizer isso aqui é uma organização, era a associação de moradores.

Neide            Era só a associação de moradores, que praticava esporte, era só isso. Nós éramos organizadas, mas organizada a nosso modo, dentro da comunidade, não tinha nem uma… ninguém nunca tinha noticiado o que a gente fazia, porque só saia notícia ruim, era o jornal Notícias Populares e aí cheguei, quando eu abri aquele negócio, era tudo em inglês, fui pedir ajuda para os universitários, pedi ajuda para todo mundo, fomos, inscrevemos o projeto, entramos, como deu bem sucedido, e aí aparece quem era que estava concorrendo, estava Patrícia Medrado do tênis, que assim sou fã; estava a Magic Paula, que eu sou fã; Ana Moser estava concorrendo ao prêmio e aí foi um balde de água gelada, não foi nem um balde de água fria, falei quem é que vai votar no projeto da Neide do Capão Redondo, que ninguém nem conhece. Brasileiro quando entra para votar em alguém, pô é celebridade, faz isso para votar em alguém e aí eu deixei para lá, esqueci o assunto, no mês seguinte a Alice Gismonti que trabalha em negócios sustentáveis da Nike, que é acesso a esporte, me liga, você abriu e-mail? Eu falei não, até porque eu estou trabalhando, eu tenho que ir na lan house depois, quando chegou em casa, eu fui na casa do vizinho e abri o e-mail, nós fomos eleitos o melhor projeto social de inclusão de meninas e mulheres, da maior marca esportiva, imagina, foi uma festa incrível, incrível, nós ganhamos o prêmio e nós ganhamos um pouquinho de dinheiro e a…

Luciano         Um pouquinho quanto?

Neide            … um pouquinho…. 5 mil reais, foi a maior festa, foi como se nós tivéssemos ganhado na loteria, porque nós nunca tínhamos ganhado um centavo…

Luciano         Era a tua medalha de novo.

Neide            … era minha medalha de novo, ganhamos 5 mil reais da maior marca esportiva do mundo e aí aqueles 5 mil reais nós arrumamos tudo, abrimos conta em banco, arrumamos a documentação, compramos material, fizemos um monte de coisa com aqueles 5 mil reais, em menos de três meses, as maiores mídias escritas e faladas já estavam lá na nossa comunidade querendo saber que projeto era aquele, do Capão Redondo, da Neide, que ninguém nunca ouviu falar, tinham ganhado um prêmio. E aí a partir de 2009 já veio prêmios nacionais, prêmios internacionais, reconhecimento e aí a Secretaria de Esporte, já estávamos dentro da Secretaria de Esportes e aí já veio convites para nós irmos para o exterior, nós viajamos, nós fomos falar da ONG do Vida Corrida em outros países, imagine para quem nunca tinha saído da comunidade, entrar num boing, cruzar um continente, ainda levar gente da comunidade além de ir lá participar de eventos, correr corridas lá fora, levar pessoas que nunca tinham saído do seu estado para outros países, tudo isso Vida Corrida proporcionou a essas pessoas, ainda vou chegar lá…

Luciano         Me dá um insight, break para eu jogar uma coisa aqui…

Neide            Coisas melhores vieram.

Luciano         … há um tempo um ouvinte meu, eu escrevi um texto, alguma coisa assim, falando sobre essa questão dessa consciência social dos empresários, cara que está na empresa e que poderia estar fazendo alguma coisa pelas comunidades, mas acaba não fazendo porque entra aquela jogada de marketing, então se eu for gastar dinheiro eu vou patrocinar o programa da Eliana, eu vou botar dinheiro patrocinando o Faustão, eu vou botar anúncio no jornal, etc. e tal, e lá eu gasto milhões e não gasto, dou um dinheirinho para uma creche e não faço muito ali. E eu questionava os caras dizendo o seguinte, pega um pouquinho desse dinheiro que você está botando aí, tira um pouquinho que não vai fazer falta e usa esse pouquinho em torno da tua região, porque se 500 reais não faz falta nenhuma para a Eliana, para aquela creche ou para aquela entidade, talvez seja a mudança na história. Eu escrevi um texto assim.

Neide            Pô, excelente.

Luciano         Aí um cara me escreve lá do nordeste, eu não vou mais me lembrar, Luciano, eu sou um desses empresários, eu tenho uma rede de supermercados aqui e eu ponho meu dinheiro no rádio porque é isso que me traz clientes para cá e você falou um negócio a[i que me levantou uma lebre, mas eu não tenho muito dinheiro para fazer não sei o quê. Eu escrevi para ele, falei 500 reais é muito para você? Não, 500 não faz diferença. Então pega esses 500 e faça 500 por mês para alguma coisa aí, no final do ano terão sido 6 mil reais, que talvez faça a diferença na vida de algumas pessoas. Ah pô, você me abriu uma ideia aqui, porque ele estava imaginando que era muito dinheiro para fazer. Bom, passa um tempo ele me escreve de novo, Luciano, me aproximei de um pessoal que faz um trabalho de xadrez nas escolas, a turma está fazendo um negócio de ajudar a molecada a desenvolver senso de pensamento, de raciocínio jogando xadrez, estou dando 500 reais e o negócio começou a virar um treco maluco aqui e ele pega e me manda as fotos de evento acontecendo na praça, “os nego” fazendo um tabuleiro em tamanho gigante, com a criançada jogando em cima, um monte de mesa, todo mundo jogando e ele falando, isso aqui está acontecendo por causa de 500 reais por mês, não mudou nada no meu negócio, não perdi nada porque 500 reais para mim é uma bobagem e esses “quinhentinhos” provocaram uma mudança na minha cidade, na minha região, esses “quinhentinhos” é os 5 mil da Nike, 5 mil para a Nike, pelo amor de Deus, a Nike perde 5 mil com goteira, na empresa.

Neide            Isso em 99, depois eu vou chegar até lá…

Luciano         Não importa, traga esse dinheiro para hoje aqui, vamos falar em 50 mil, vamos falar em 100 mil, quer falar de 500 mil, isso para a Nike é nada. Não é dinheiro nenhum. Mas é o suficiente para causar uma revolução dessa que você está falando aí.

Neide            Impactou profundamente…

Luciano         O recado que eu preciso passar aqui agora, aproveitando esse embalo aqui, você que está me ouvindo aqui, que está ouvindo esse programa aqui, você não tem que ser a Nike, você pode ser a padaria do seu Joaquim na esquina e se a padaria do seu Joaquim tiver a consciência de encontrar uma Neide maluca, fazendo acontecer na região e tirar “cenzinho”, “duzentinho”, “quinhentinho”, que é uma porcaria, que não é nada, talvez você consiga salvar a vida de pessoas por aí, com uma ação tua, com a tua padariazinha, os 5 “milzinho” da Nike, o “cenzinho” da padaria, você já imaginou se todas as padarias do Brasil decidissem…. o que aconteceria com esse país aqui? Qual é o tamanho da revolução que a gente ia fazer nesse país aqui? De novo, sem esperar que o estado me ajude, eu quero que se dane o estado…

Neide            Faça políticas públicas gente.

Luciano         … por minha conta, entendeu? Eu vou tirar um pouquinho para ajudar e esse meu pouquinho pode ser muito para a outra pessoa lá, esse é o insight que você me dá aqui contanto a história da Nike…

Neide            Dos 5 mil reais. Mas assim, foi ter ganho na loteria, porque até hoje, e esse dinheiro rende, até hoje eu ainda tenho material desses 5 mil reais de 2009 e aí quando se passou isso, e aí começou a aparecer pessoas querendo contribuir, querendo ajudar e quando você falou nessa de ajudar, as minhas patroas que eu trabalhei com elas até 2015, elas foram minhas primeiras patrocinadoras e até hoje elas continuam mensalmente, elas dão o pouco delas…

Luciano         Aquelas arquitetas que você costurava para elas.

Neide            … aquelas duas arquitetas, mensalmente, assim eu posso contar o ano inteiro, mensalmente elas fazem a doação dela, elas patrocinam um professor, hoje eu tenho alguns empresários, cada professor meu é patrocinado por um empresário, ao invés de patrocinar uma criança, patrocinam um transformador, porque quando você patrocina um professor, você está impactando todas essas crianças que o professor atende e quando eu te falei do meu sonho olímpico, quando eu falei para você de todas essas crianças que foram impactadas, hoje nós temos alunos do projeto que passou na USP, fez FUVEST e que está na USP fazendo faculdade, nós temos meninos que hoje estão competindo internacionalmente e no ano de 2016 eu tive o privilégio de ter as Olimpíadas no meu país, eu tive o privilégio de conduzir a tocha olímpica no meu estado, na minha cidade, eu tive o privilégio de estar dentro do estádio do Engenhão, de ter assistido Olimpíadas e Paraolimpíadas e dentro do estádio do Engenhão, aquele sonho de 1974, daquela menina que sonhava em ser uma medalhista olímpica, sonhava em ser uma atleta, um dos meus filhos, Julio Cesar Agripino estava numa pista de atletismo e milhões de pessoas gritavam o nome meu filho, Julio Cesar Agripino, meu sonho olímpico se realizou aquele dia. Eu me vi correndo ao lado do Julio, foi incrível, foi um dia inesquecível e também uma das coisas inesquecíveis lá no passado, foi ter recebido o prêmio Cláudia, Mulheres Extraordinárias, o prêmio Cláudia é o maior prêmio da América Latina destinado a mulheres e no ano passado eu recebi o prêmio Cláudia, Mulheres Extraordinárias que foi incrível, foi impactante em nossas vidas. Assim, são muitas histórias aqui a gente teria que ficar, se eu contar tantas histórias, quantas vidas impactadas através desse projeto de responsabilidade social, porque eu sempre tive essa preocupação, eu quero mudar a vida de uma criança quando eu descobri que foi uma criança que tinha assassinado meu filho, eu falo eu tenho que mudar a vida de uma criança, no dia que eu conseguir isso, eu vou estar bem comigo mesma, porque se eu partir amanhã, Luciano, saiba que parte uma mulher consciente do seu papel como cidadã e como cristã. Porque eu fiz, eu dei o meu melhor, eu amei e amo intensamente todas as pessoas que passam pela minha vida e eu tive o privilégio, eu sou uma privilegiada de uma fatalidade que aconteceu na minha vida, mudou o curso da minha vida e eu fui para políticas públicas através de um sonho do meu filho, eu não consegui transformar a vida de uma criança, eu consegui transformar a vida de muitas e muitas crianças, sabe aquela felicidade que eu procurava? As mesmas pessoas, a mesma comunidade que me tirou a minha felicidade, que tirou meu filho, me deu centenas e centenas e centenas de filhos e essa é a minha felicidade, é acordar todos os dias de madrugada, fazer minha corridinha e seis e meia estar trabalhando, preparando o café daquelas crianças, preparando uma boa aula, um bom treino, dar o melhor para eles, dar o melhor calçado, dar a melhor roupa, dar a melhor fruta, dar a melhor água, dar o melhor isotônico para aquelas crianças, eles se sentirem importantes, eles se sentirem apropriados do que é de direito para eles, hoje quando eu vejo meus meninos ter o melhor relógio de marca para auxiliar nos treinos deles, isso é uma grande conquista, tudo o que eu não tive, sabe aquele carinho de mãe, de ser abraçada, de ser acarinhada, de viver amor, aquele amor que você perguntou que eu não tive, hoje eu dou, hoje eu ofereço isso para as pessoas e eu tenho em troca, porque cada criança que me abraça, que me dá um beijo, meu filho está dentro de cada criança, eu sinto a presença viva do meu filho, diariamente dentro de cada criança, eu não sou espírita como você perguntou alguma coisa assim, eu sou católica, mas eu já tive um sonho real com meu filho, eu já estive com meu filho, não sei explicar como, mas eu tive um sonho real com meu filho e eu sei que meu filho está bem e eu sei que um dia eu vou estar com meu filho e se me perguntarem se eu tenho medo da morte, se eu tenho medo de partir, eu não tenho, porque tudo o que eu quis fazer de bom para alguém, eu fiz, porque quando eu faço o bem para alguém eu estou fazendo o bem para mim mesma, todos os meus fantasmas, todas as minhas dores, todas as mágoas se foram, por conta do que eu faço hoje, não tem como esquecer o passado, não tem como relembrar 1966, não tem como eu apagar da minha história como um filme sabe, que passa em minha vida, e como minha família é centenária eu acredito que eu viverei muitos e muitos anos e terei muitas e muitas histórias ainda para contar sobre a minha vida corrida.

Luciano         Que idade você tinha quando seu filho morreu?

Neide            Eu estava com 39 anos.

Luciano         39 anos.

Neide            39 anos.

Luciano         E ali começa a virada.

Neide            Ali começa a virada.

Luciano         Quer dizer, você encontra o propósito aos 40 anos depois de uma… mais uma porrada que a vida te deu, parece que você até os 40 anos represou tudo e começa tudo a acontecer, tudo o que… seus 40 anos anteriores começa a acontecer agora, aquele amor represado, tudo aquilo começa a vir de uma vez só é uma loucura. Que história, meu Deus do céu, que história. Você conhece outras Neides por aí? Tem muitas Neides por ai?

Neide            Tem. Tem algumas, mas poderia ter muitas, meu sonho é que tenha muitas e muitas Neides, muita vontade de mudar… eu sei que eu não vou mudar o mundo, mas eu posso mudar meu entorno, porque eu acredito que todo mundo pode mudar o mundo de alguém, porque meu presente é hoje, meu melhor presente é o meu presente, meu futuro é agora, porque eu tenho que fazer hoje, eu tenho que fazer agora, porque talvez a pessoa que eu tenha que mudar a vida, que eu tenha que fazer alguma coisa não esteja aqui, aquela pessoa que eu vou dizer eu te amo hoje, talvez amanhã ela não esteja aqui para ouvir eu te amo, aquela pessoa que eu quero abraçar hoje, que eu posso abraçar hoje, talvez essa pessoa não esteja amanhã aqui para eu abraçar, portanto o meu presente é hoje, eu vivo intensamente cada dia da minha vida, porque amanhã eu não sei se eu vou estar aqui, como o meu filho, saiu de casa e não voltou, portanto mude a vida de alguém hoje, não espere para amanhã, porque amanhã a Deus, ao Universo pertence e você tem que viver o presente diariamente e eu vivo isso, eu tenho assim sabe, eu acordo rindo e quando eu deito, Luciano, sabe, é o que eu gostaria que os políticos, todo mundo fizesse, sabe quando você deita, você põe a sua cabeça no travesseiro e dá aquela paz, aquela sensação tão gostosa dentro do teu coração, de falar assim eu fiz algo de bom hoje, hoje eu mudei a vida de alguém. Outro dia uma mãe, uma das mulheres do projeto, um dia falou assim, eu aprendi a amar com a Neide, eu sempre amei meus filhos, mas eu não dizia para eles eu te amo e ela me ensinou isso, ela me ensinou a falar eu te amo, ela me ensinou que meu melhor presente é o meu presente, é hoje, porque talvez amanhã eu não esteja aqui para fazer o que eu mais quero, para não me arrepender, pra não falar caramba, porque eu não fiz isso e eu sou isso.

Luciano         Neide, tem um monte de gente ouvindo a gente aqui, de tudo quanto é jeito, então esse programa é ouvido do juizão de direito ao moleque de 14 anos que está indo para a escola, todo mundo ouve de alguma forma, de algum jeito aqui e no meio desse povo tem muitas Neides em potencial, tem muita gente que gostaria, eu quero fazer alguma coisa, mas eu não sei nem por onde começar, não sei nem o que eu posso fazer, como é que eu começo, onde é que eu vou… o que você aprendeu nesse teu processo todo aí que você foi fazendo e aconteceu, hoje você olha para trás, você está organizada, já existe uma entidade, você tem a Nike, ela está sentada na minha frente aqui com um Nikezão na camiseta dela, imagino que a Nike deve dar um suporte para vocês hoje, você tem que prestar contas, você hoje tem um planejamento que você não tinha lá atrás.

Neide            Sabe aqueles 5 mil que você falou que qualquer uma pessoa pode dar 5, pode dar 50, pode dar o que for que vai ajudar uma ONG, hoje aqueles 5 mil reais se transformou num contrato vitalício Nike, hoje nós e Ronaldo fenômeno temos um contrato vitalício Nike, a nossa organização, por conta da nossa gestão compartilhada, por conta da nossa prestação de conta e quando você falou no doar, o que eu vou fazer ali? Tem um grande empresário aqui em São Paulo, tem muita gente boa nesse mundo, ele chegou, falou para mim, quanto você recebe por mês? Eu sei que você presta conta, eu posso te pagar o salário que você recebe para você dedicar seu tempo ao Vida Corrida e já está no terceiro ano que esse empresário falou que enquanto um de nós vivermos, todo mês ele depositará o meu salário na minha conta para…

Luciano         Se você quiser dizer quem é…

Neide            … eu falo, hoje eu tenho, eu falo que é meu anjo bom, é um grande empresário o nome dele é André Gustavo, da Agência de Publicidade Wieden +Kennedy que me deu o meu tempo, eu costumo… assim, eu falo isso todos os dia eu agradeço a ele, obrigado por ter me dado o meu tempo, se hoje eu estou falando com vocês é porque o André me deu esse tempo, porque se o André não tivesse me dado esse tempo….

Luciano         Você estava tendo que costurar…

Neide            … eu estava costurando agora e não poderia estar compartilhando com esses milhões de pessoas que está ouvindo, porque existe muita ente boa que quer mudar o mundo de alguém e como o André não pode fazer o meu trabalho, ele me dá a oportunidade para eu me dedicar a esse meu trabalho.

Luciano         Porque ele encontrou você, porque você tem uma postura, porque você é confiável, porque ele está vendo aquilo resolver, é diferente de eu dar o dinheiro para uma organização que eu não sei quem é, etc. e tal, a Neide está aqui na minha frente, você pega na mão dela, a gente se falou aqui. Eu fiz uma entrevista aqui com o Edu Lira outro dia, a história do Edu Lira, você deve conhecer, já deve ter cruzado com ele de alguma forma aí…

Neide            Conheço, já li o livro.

Luciano         … o Edu a história dele não é tão dramática como a sua, mas é uma história cheia de encrenca, quer dizer, ele tinha tudo para ter virado, sei lá, um criminoso, que ele tinha o exemplo dentro de casa, o pai dele era ladrão e ele dá uma volta por cima e ele conta uma história muito parecida com essa sua, que a coisa vira no momento em que ele encontra alguém que fala meu, o que você está fazendo, deixa eu ver o seu negócio, espera um pouquinho, vem cá, e ele nem sabia o que estava ouvindo, de repente algum empresário enxerga e vê nele a capacidade de fazer acontecer e ele cria um negócio que é maravilhoso, o Criando Falcões que é uma coisa fantástica. Mas de novo, é a partir do suporte que alguém que tem o dinheiro e não pode fazer por uma série de razões, entrega na mão da pessoa certa, quer dizer, não é um dinheiro que vai desaparecer ou que vai para uma organização que vai pagar salário, não, ele vai para você e a coisa está acontecendo e ele está vendo acontecer no dia a dia, então tem muita gente parecida…

Neide            E essas pessoas tem sim.

Luciano         … o que é que você recomenda então, se eu quisesse começar a fazer alguma coisa parecida aqui na minha região, eu não quero que você me diga como fazer, eu quero saber quais são os atributos que você acha que são importantes para um empresário olhar para mim e falar o seguinte: esse cara merece minha confiança, eu vou ajuda-lo a executar, como pessoa.

Neide            É, para uma pessoa ajudar uma organização, o ideal é que conheça essa organização pessoalmente, busque referências, converse com as pessoas, porque infelizmente como há políticos corruptos, há algumas pessoas que não são tão transparentes dentro das suas organizações, mas tem muita gente boa, muita gente fazendo trabalho incríveis e conheça essas pessoas e ajude, porque você não tem noção o quanto uma pequena ajuda sua impacta na vida de uma criança do outro lado do seu bairro, bem distante de você, inclusive hoje dentro do Vida Corrida nós temos quatro empresários que patrocinam 4 professores, que são pessoas simples, pessoas que tem vontade de ajudar outras pessoas e não podem fazer isso e ajuda e nos ajuda…

Luciano         Se você puder me dizer, quanto custa patrocinar um professor por mês?

Neide            Um salário mínimo.

Luciano         É um salário mínimo?

Neide            Um salário mínimo.

Luciano         É suficiente…. 950 reais.

Neide            957…

Luciano         É menos de mil reais.

Neide            É, é menos de mil reais.

Luciano         Menos de mil reais por mês…

Neide            Patrocinam o professor.

Luciano         Patrocinam o professor.

Neide            E dentro do site do Vida Corrida tem como você ser voluntário também, tem uma barra lá que você se candidata como voluntário, preenche o formulário e também tem o doar, de como você pode doar e você ajudar a manter nossos trabalhos, porque a demanda é grande, a gente tem uma fila de espera muito grande, a gente está com 300 crianças atendidas, são 320 adultos e 300 crianças atendidas, somando são mais de 600 atendidos.

Luciano         O que acontece com essas 300 crianças, são 300 crianças num ano, é isso? É um programa de um ano, dois anos?

Neide            Não, nós atendemos as crianças três vezes por semana, segunda, quarta e sexta em dois períodos, manhã e tarde, damos treinamentos três dias na semana para as crianças.

Luciano         O que eu quero perguntar para você, uma criança dessa vai se inscreve…

Neide            Ela se inscreve…

Luciano         … você a recebe, legal, Joãozinho, a partir de hoje você começa com a gente aqui. Quanto tempo o Joãozinho vai ficar com você lá?

Neide            Por tempo indeterminado, a criança entra lá com 6 anos, ela chega à vida adulta e continua no projeto, ele não tem tempo nem limite para estar lá, ele fica lá até quando ele quiser, não tem e…

Luciano         E como é que esse projeto pode crescer, como é que ele cresce? Você tem 300 agora, como é que ele vira 500 no ano que vem?

Neide            … de acordo com a verba que nós temos para trabalhar no ano seguinte.

Luciano         Quer dizer, mais um professor…

Neide            Mais um professor, mais crianças atendidas, mais verba que entra porque é o seguinte, a gente não tem que pegar as crianças para depois ter o dinheiro, eu tenho X hoje, X em 2018 para atender todas as crianças em 2018, para eu atender 2019, até dezembro eu já tenho que ter esse dinheiro em caixa par atender a demanda e assim, nós começamos com seis mulheres e com quinze crianças, olha, o total de atendidos e esses atendimentos são diários, porque os adultos são atendidos terças, quintas e sábados e as crianças são atendidas segunda, quarta e sexta, dois períodos.

Luciano         E o negócio de vocês é corrida.

Neide            É corrida, trabalhamos com corrida e agora vamos trabalhar basquete e tênis, porque dentro do parque tem estrutura para a gente trabalhar outras modalidades, uma parceria hoje com a Secretaria do Verde…

Luciano         Isso que eu ia te perguntar, como é que…

Neide            … nós nos apropriamos do espaço, sabe aquela coisa de chegarmos, fomos chegando, fomos ocupando espaço e mais espaço e mais espaço e o poder público viu como é importante o nosso trabalho, quanto impacta a comunidade e aí essa é a grande parceria que a gente tem hoje com o poder público, de nos deixar trabalhar, quer dizer, deixar não, que é um direito nosso ocupar o espaço público para práticas esportivas, só que só utilizamos isso de segunda a sábado, lógico, só que nos somos uma ONG, nós somos cadastrados, nós temos crédito, nós temos todo um aparato legalmente para poder exercer nosso trabalho dentro da comunidade, dentro do parque, com apoio da iniciativa privada, que é o que nós fazemos hoje.

Luciano         Você voltou para Porto Seguro?

Neide            Eu voltei em Porto Seguro quando eu tinha 30 anos, eu descobri, lembra que eu falei que meu pai havia morrido? Aos 30 anos eu descobri que meu pai voltou para Porto Seguro e eu fui, mas assim, eu desde quando eu, com 16 anos, eu soube uma vaga notícia que talvez meu pai não teria morrido, aí eu fiquei dos 16 até 30 anos e achei o meu pai e fui conhecer o meu pai, só que meu pai faleceu já tem algum tempo…

Luciano         Mas você o conheceu?

Neide            … conheci o meu pai, só que assim, meu pai não tinha morrido, é que ele tinha encontrado outra mulher lá e formou outra família, tanto que meu próximo passo agora é ir em Paragominas, Belém do Pará, conhecer seis irmãos que eu não os conheço ainda, que são fruto desse relacionamento que o meu pai teve quando ele foi atrás do ouro. Tem muita história, Luciano, par contar.

Luciano         Meu Deus do céu, nem sei, como terminar isso aqui, que é muito louco. Olha, faltou alguma coisa que você queira incluir, você lembra de alguma coisa que você quer, algum pedido, tipo assim venham… Eu vou te perguntar do site, como faz para conhecer tua página. Teu livro está pronto?

Neide            Não.

Luciano         Alguém tem que contar a história da sua vida.

Neide            Eu estou esperando a gente ainda conseguir a nossa tão sonhada casa Vida Corrida, porque com tudo isso que a gente tem, nós já estamos num processo junto com a prefeitura, já há alguns anos, outros governantes se passaram, pedindo a concessão de um terreno para construir a sede Vida Corrida, imagine se sem teto nós fazemos o que nós fazemos, imagine quando o Vida Corrida tiver um teto.

Luciano         Quando você falou sem teto, vocês não tem um barracão de escola de samba onde se reúnem lá, não tem nada disso?

Neide            Não, não. Tem a minha casa, minha casa virou a casa Vida Corrida, a minha casa é o escritório, minha casa é depósito, eu só tenho um cantinho lá que tem uma cama que eu durmo, o resto da minha casa é toda Vida Corrida, tem secretária lá dentro, tem um escritório montado, tudo dentro da minha casa, a minha casa é o Vida Corrida e a gente precisa de um teto, nós precisamos de uma assinatura do prefeito e de umas outras organizações, de um outro órgão aí da prefeitura que nos dê a seção por 90 anos de uso de um terreno como é o estádio do Morumbi, o estádio do Morumbi é da prefeitura e eles tem uma concessão de 90 anos para continuar lá, tanto que já passou os 90 anos do Morumbi e ele está lá, o que a gente quer é isso e depois que eu construir a casa Vida Corrida e a presidência do Vida Corrida, um dia uma criança que foi do Vida Corrida será o presidente do Vida Corrida e esse presidente já tem um nome, é o Johnatan Santos, é a nossa primeira criança que saiu do projeto e se tornou um atleta, um dia o Johnatan será o presidente da ONG Vida Corrida e aí quando eu conseguir tudo isso, eu vou escrever o meu livro.

Luciano         Suas memórias. Já te falaram de crowdfunding?

Neide            Já.

Luciano         Eu acho que você faz a tua sede com o pé nas costas, se você montar um projetinho legal, olha eu te boto em contato com a turma que faz isso aí e acho que você consegue fazer.

Neide            Mas isso é um projeto futuro que vai demorar um pouco, porque eu ainda tenho algumas coisas para conquistar dentro da comunidade, é termos a casa Vida Corrida para podermos fazer… mobilizar, porque eu quero ainda trabalhar não só com esporte, mas eu quero trabalhar com arte e com cultura dentro da comunidade e para eu ter isso, eu quero ter a Vida Corrida, eu não quero ter um espaço público ao qual eles vão me por lá dentro e depois vem outro governo e me tira de lá. Eu quero algo concreto, algo que nós construímos com nosso próprio dinheiro, que eu tenho certeza que quando nós tivermos o terreno, muitos empresários vão nos ajudar a levantar a casa Vida Corrida, porque vai estar ajudando a construir uma casa que vai abrigar muitas e muitas pessoas e que vai ajudar centenas de pessoas na comunidade, porque a gente tem que formar cidadão consciente do seu papel na sociedade, eu costumo dizer que assim, eu ensino as minhas crianças a ser rebeldes, mas rebeldes com causa, rebeldes que lutam por uma excelente causa, não rebeldes que vão para a Paulista depredar o seu patrimônio, depredar o patrimônio que as pessoas lutaram anos e anos para construir, mas rebeldes que lutam como eu luto até hoje para ter políticas públicas decentes para as minhas crianças, eu hoje quando eu vejo as minhas crianças abrir uma caixa e por um tênis novo no pé, eu lembro do meu passado, que eu fiquei 20 anos correndo usando tênis usado de alguém e hoje eu tenho este privilégio, sei lá, como dizer, poder, de conquistar, de trazer essas melhorias para dentro da comunidade. E aí quando eu vejo hoje nossas crianças com tudo isso, cada dia que passa eu sonho com algo melhor para eles, eu quero ver esses meninos formados, eu quero ver esses meninos conquistando todos os sonhos deles, porque tem um menino que ele viu o Marílson Gomes ganhar uma São Silvestre, e o Marílson Gomes foi o herói dele, sabe esse herói sem capa, herói brasileiro, herói de verdade e ele falou, amanhã eu vou correr e um dia eu serei como esse menino e esse menino veio brincar de correr no Vida Corrida, no Vida Corrida ele conheceu o Marílson Gomes. No Vida Corrida ele saiu e foi para um centro de auto rendimento e esse menino foi treinar com o Marílson Gomes e Marílson Gomes disse que esse menino será o sucessor dele, hoje ele tem 19 anos, ele já tem medalha internacional por quê? Porque eu acreditei no sonho desse menino, aquela frase que diz que sonho que se sonha só ele é só um sonho só, sonho que se sonha junto, torna-se realidade, portanto, acredite no sonho de qualquer criança, porque ele é capaz de realizar sim, é o crer, é o acreditar, acreditar em Deus, acreditar no Universo, acreditar na Neide, que a Neide vai sonhar com você, acreditar no Luciano que me ligou e me chamou para fazer essa reportagem aqui, que muitas pessoas estão ouvindo e que com essa entrevista, essas pessoas possam pensar um pouco o que eu estou fazendo para mudar o mundo de alguém? De que forma eu posso ajudar uma organização? De que forma eu posso incentivar outra pessoa, até mesmo à prática esportiva, a sair do sedentarismo, porque o corpo nasceu para o movimento, nós não nascemos para ser estáticos e se nós quisermos viver muitos anos, ter uma longevidade, nós temos que nos movimentar, ou vai dançar, ou vai pedalar, ou vai pescar, ou vai relaxar, ou vai lutar, qualquer coisa, mas movimente.

Luciano         Movimento. Neide, quem quiser conhecer o trabalho de vocês, entrar em contato, etc e tal, tem Facebook, tem site? O que eu vou digitar para poder encontrar?

Neide            Quem quiser conhecer nosso trabalho é vidacorrida.org.br, é o site, tem o projeto Vida Corrida no Facebook, tem o projeto Vida Corrida no Instagram, é só você ir lá, abrir, principalmente o site, você vai ver o nosso trabalho e de que forma você pode contribuir, ou financeiramente ou com trabalhos voluntários. Será uma honra e uma coisa que eu sempre peço para as pessoas, antes de fazer qualquer doação, antes mesmo de vir fazer trabalho voluntário, venha nos conhecer pessoalmente, venha se apaixonar pelo Vida Corrida, porque todas as pessoas que foram lá visitar o Vida Corrida, quando sai de lá, sai apaixonado, não tem como não se apaixonar pelo Vida Corrida.

Luciano         E é grátis?

Neide            E é grátis. É de graça. E assim, eu adoro abraçar as pessoas porque o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço e o único aperto que a gente quer passar na vida é o aperto do abraço.

Luciano         Eu quero o meu. Que legal. Grande história.

Neide            Porque quando você abraça, o coração se encosta junto do outro…

Luciano         E os dois vibram em conjunto que é a base do que é um podcast, o podcast é a minha voz entrando e alguém vibrando comigo, um ser humano vibrando junto com outro.

Neide            Ainda tem mais outra coisa que eu gosto, uma mão lava a outra e as duas batem palmas e fazem carinho.

Luciano         Que legal. Neide, eu não tenho muito mais o que dizer, sei lá, olha, esse programa aqui, ele para mim ele representa… bom, será, este aqui está sendo o LíderCast número 100, eu estava procurando alguém para botar no número 100, eu queria fazer um programa que fosse especial e tudo mais e eu não tenho dúvida nenhuma que vai ser esse aqui, esse aqui vai ser o número 100. Marca uma porrada de coisa, marca um aniversário do programa, um monte de coisa que está rolando aqui.

Neide            Aniversário de São Paulo amanhã.

Luciano         Pois é, nós estamos aqui, véspera de feriado. E eu consegui fazer com você um programa que ele é a essência do que é o LíderCast, o que esse programa nasceu para ser o quê? Para contar a história de gente que faz acontecer, trazer aqui o indivíduo, falar do indivíduo e não do trabalho do indivíduo, eu não quero, eu estou menos interessado na empresa que você está, quanto dinheiro que você ganha, mas naquilo que te tira da cama para fazer acontecer e você deu para a gente aqui uma aula gigantesca que é essa capacidade que o indivíduo tem de ser dono do seu futuro, você teve todas as oportunidades de cair e não levantar nunca mais, mais de uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis vezes e quando você decidiu que você ia levantar, não foi levantar para se cuidar, foi levantar para fazer alguma coisa acontecer com um monte de gente, eu imagino, consigo imaginar a tua felicidade no sábado de manhã com aquela molecada gritando tia, tia. Vindo em volta, olha o meu tênis novo e não sei o quê, imagino o que passa pela tua vida e esse deve ser o presente que você ganha todo final de semana…

Neide            Todos os dias.

Luciano         … não vou dizer que compensa tudo o que você passou, acho que nada vai compensar aquilo tudo que você passou, mas de certa forma vai falar o seguinte, olha onde toda essa confusão da minha vida me trouxe. Se tivesse sido de outro jeito, se eu tivesse continuado lá, se eu tivesse sido trazida para cá, por uma família de posse, se tivesse estudado e tudo mais, talvez hoje eu fosse uma executiva trabalhando em algum lugar e não teria esse alcance que eu tenho na comunidade.

Neide            Eu sou uma privilegiada.

Luciano         nada é de graça, essas coisas não acontecem de graça, mas tudo isso vem de uma intenção tua, interna, está dentro da Neide, ninguém pegou na tua não e falou vem por aqui, vou fazer. Ninguém fez isso, você bateu e falou o seguinte, eu vou tomar as rédeas e eu vou fazer acontecer, essa é a base desse programa, que ele nasceu para falar de gente assim, então a única coisa que eu posso fazer aqui é agradecer você assim, dizer muito, muito, muito obrigado por me dar a chance de fazer um programa como esse aqui que eu acho que nós vamos quebrar perna de um monte de gente que deve estar ouvindo agora e não acreditando em tudo o que ouviu.

Neide            Eu só tenho a agradecer a todos e quando você falou do insight, agora eu lembrei de uma coisa, outro dia eu entrei numa perua, essas peruas de comunidade que você paga e passa o cartãozinho e tudo, entrou um menino e falou assim, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas estou aqui vendendo essas balinhas e meio que intimidando a comprar, passou um filme na minha cabeça, eu falei assim eu também, eu poderia roubar, eu poderia me armar, eu poderia matar, eu teria várias desculpas para fazer tudo isso, mas eu tenho uma arma muito mais poderosa que é o esporte. Uma ferramenta super poderosa que pode mudar a vida de muitas e muitas pessoas.

Luciano         Obrigado, grande beijo.

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo.