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Chiquinho Rodrigues -

Tem alguns jingles que são uma merda! Ou não! (Fiz vários assim).

Basta você ouvir uma só vez e aquele troço fica azucrinando dentro da sua cabeça o dia todo. (bom para o cliente!)

Em compensação existem outros que são muito bonitos, verdadeiras obras de arte. Quase uma trilha sonora de certas fases da nossa vida.

Coisas como: Café Seleto, Varig, Cobertores Parahíba, Biscoitos São Luís, Duchas Corona, Groselha Vitaminada Milani, Nescau, McDonalds, Cornetto, Fim de ano da Rede Globo, Pizza com Guaraná e muitos outros… (a lista é imensa e provavelmente você tem a sua)

Em 1985 eu já trabalhava no Estúdio Bandeirantes como criador de jingles e morava em um apartamento em Pinheiros.

No andar de cima desse prédio morava uma vizinha que tinha uma gracinha de bebê. Uma menininha de um aninho que chorava pra caralho a noite toda!

Meu filho Thiago nessa época também era recém nascido. E era só o pentelhinho ouvir o choro da outra criança pra também danar a chorar.

Pra variar de vez em quando as coisas aconteciam ao contrário. A menininha estava quietinha na dela e aí era o meu filho quem cismava de abrir o bocão. Então ela sugestionada vinha em dupla fazer a segunda voz daquele martírio noturno que aborrecia quase o prédio todo que já não sabia mais o que era dormir em paz.

Numa certa noite de desespero a campainha tocou e era a tal vizinha.

– Chico, eu arranjei um jeito de minha filha ficar quietinha! Mas preciso da sua ajuda…

– Faço um empréstimo se necessário! – taxativo eu aqui.

– Descobri que tem uma propaganda que passa na televisão que é só ela escutar a música para ficar quietinha e até adormecer! – disse a fada madrinha.

– Compro sua TV!

– Não Chico, é um comercial da Faber-Castell onde uma menina de uns oito anos de idade canta aquela música do Toquinho: “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo… e com cinco ou seis retas é fácil fazer…”

– Conheço! – interrompi eu que não estava nem um pouco a fim de ouvir a porra da minha vizinha cantando naquela hora.

– Pois então! Você poderia muito bem gravar esse comercial em seu vídeocassete e levar para sua produtora para capturar só o áudio. Aí era só editar uma fita cassete com pelo menos uma meia hora só dessa música! – revelou a santa.

Minha esposa pediu para ela entrar e foi fazer um bolo de chocolate. Eu abri uma garrafa de champanhe, providenciei uns salgadinhos, acendi um incenso e pedi para ela chamar o marido. (detalhe: o relógio marcava três da madrugada)

Pois sabe de uma coisa? O troço deu certo sim. Era só a mãe colocar a fita com a menina cantando a musiquinha da Faber-Castell que a nenê se acalmava e devagarzinho pegava no sono.

Pro meu filho Thiago tive que gravar umas 17 fitas de vídeo do Chaves. Era a única coisa que fazia aquele porra ficar quieto por uns 14 segundos sem destruir o apartamento todo.

E a paz voltou a reinar nas noites da Amália de Noronha, 283!

Passamos bons tempos naquele apartamento. O Thiago e a menina Kelly (esse era o nome da ex chorona) foram crescendo e era constante a gente ouvir a mãe dela lhe ensinado a canção do Toquinho.(quando mudamos desse apartamento, ela já sabia a canção inteirinha)

O tempo passou e muita coisa aconteceu na vida de todos nós.

Tem uma música da Sueli Costa e do Abel Silva chamada “Voz de Mulher” que eu queria que você ouvisse. Quem canta é a Leila Pinheiro e diz coisas assim:

Desde que nasci, a voz da mulher me embala, me alegra, me faz chorar…
Me arrepia os cabelos, me faz dançar.
Me cala ressentimentos, me ensina a amar.

Uma mulher cantando nas Antilhas. Uma voz de mulher nos rádios do Brasil.

Minha mãe que cantava, lembrança tão bonita.
E as negras americanas… Dos hinos e dos blues

Amor, amor, me leva. Essa voz nas asas das canções.
Eu quero ouvir por toda minha vida
Uma mulher cantando para mim

Pois é. Ouvindo essa canção é que eu percebi o quanto a voz da mulher tem participado da minha vida. E quanto eu quero por toda minha vida uma mulher cantando para mim.

Desde garoto eu me lembro da minha mãe ouvindo rádio e emulando Ângela Maria. O tempo passando e minha irmã cantando coisas da Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethania e ouvindo como eu, Sarah Vaughan, Billy Holiday, Ella Fitzgerald ou Aretha Franklin.

E até hoje eu não passo um dia sequer sem ouvir alguma canção de uma Diana Krall ou Lalah Hathaway, Renné Olstead, Gabriela Anders, Nana Caymmi, Gladys Knight, Chaka Khan, Luciana Souza, Patti Labelle, Mary J. Blige, Leila Pinheiro, Patti Austin, Fernanda Porto, Diane Schuur ou outras tantas.

Gosto tanto que o destino quis que eu tivesse uma cantora em minha vida.

Isso foi há uns 10 anos e embora não estejamos mais juntos, temos um filho.

O Bruno Henrique.

O nome dela é Meiriane e eu a conheci ainda na barriga da mãe.

Isso mesmo! As tias dela cantavam na minha banda e um dia a mãe dela, enquanto estava grávida da Meiriane, apareceu em um baile nosso. Então eu fui apresentado para a futura avó do meu filho! (maluco né?)

Só fui reencontrar a Meiri muito tempo depois quando ela já tinha uns 19 anos.

Moramos algum tempo juntos e fizemos um CD. Onde compus, arranjei, produzi e ela cantou. E quando precisamos de material para preparar seu release, a Meiri apareceu com um CD onde havia algumas peças que ela havia gravado para o mercado publicitário durante seus anos de infância e adolescência em que cantou em estúdios.

Estava eu ouvindo e selecionando esse material quando ouvi uma coisa que gelou meu coração logo ao soar a introdução.

E nessa hora descobri então de quem era a voz da menininha de 8 anos de idade que cantava o Jingle da Faber-Castell. Era da Meiriane mãe do meu Bruno.

Sabe, é numa hora dessas que eu gostaria realmente de saber escrever bonito. Para poder então falar com competência de uma coisa tão divina como a voz de uma mulher.

Te confesso que misturei tantas emoções nesta matéria que até ontem eu não sabia muito bem como terminar isso aqui.

Então à noite eu fui dormir e pra variar sonhei uma coisa estranha…

Eu chegando na porta do céu e lá encontro São Pedro com minha ficha na mão.

– Francisco,  né? – Diz ele

– Sim Senhor.

– O senhor tem umas duplicatas vencidas com a gente aqui há muito tempo seu Francisco! — diz ele quase me repreendendo.

– Tenha a certeza que vou tentar resolver tudo isso – prometo eu.

– Estamos contando com isso senhor Rodrigues. Eu particularmente não acho que aqui seja o seu lugar. Mas enfim… Pode entrar – diz ele com condescendência e apontando uma enorme porta para mim.

Dirijo-me para a porta enquanto ele continua olhando para minha ficha. E então, quando estou quase entrando no céu… ouço ele atrás de mim:

– Espere um instante…  Você é o Chico Rodrigues, né? – diz ele com aquele tom de “me lembrei de um negócio”

– Sou eu sim Santidade… (não sei direito qual o tratamento nesses casos)

– Você não é aquele sujeito que comeu a menininha da Faber-Castell? – pergunta ele arregaçando as mangas da bata.

– Bem… ela não era mais uma “menininha” nessa época – comecei explicar eu – ela já tinha uns dezeno…

– JÁ PRA BAIXO!—disse a voz de trovão.

-Mas… mas….

— EU DISSE JÁ!

Acordei assustado.

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