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Trajetórias invertidas

Trajetórias invertidas

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

Trajetórias invertidas

 Índia e Brasil

 “A economia da Índia é um ponto brilhante num horizonte mundial nublado.”

Christine Lagarde

 Em meu último artigo, baseado no livro Glória Incerta, recém-lançado pela Companhia das Letras, focalizei o desempenho da economia indiana cobrindo o período que se estende da independência, em 1947, até 2013, ano em que a redação do livro foi concluída.

Na essência, o que os autores – Jean Drèze e Amartya Sen – procuram mostrar é que o crescimento econômico desse período, embora com oscilações, foi robusto, principalmente depois de 1990, quando ficou abaixo apenas do da China. O grande problema é que esse crescimento acelerado não foi acompanhado pela melhora dos indicadores sociais, já que a Índia permanece apresentando enormes desigualdades e níveis baixíssimos de saúde e de educação. Como bem observam Drèze e Sen:

Todos os países do mundo apresentam desigualdades de diversos tipos. Na Índia, entretanto, há uma mistura peculiar de divisões e disparidades. Poucas nações enfrentam desigualdades tão extremas em tantos aspectos, que se estendem desde os desequilíbrios econômicos até enormes disparidades de casta, classe e gênero. As castas desempenham um papel especial na distinção da Índia em relação ao resto do mundo.

Uma das preocupações reveladas pelos autores era a desaceleração do crescimento verificada em 2013, quando registrou um crescimento de pouco mais de 6%, depois de ter atingido um pico de 9% não muito tempo atrás.

Neste artigo, o foco recai sobre a retomada do ritmo acelerado do crescimento em curso na Índia e o contraste deste cenário com o que se verifica atualmente no Brasil.

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, que visitou a Índia em meados do mês de março, manifestou sua admiração pelo desempenho econômico do país que deverá dobrar de tamanho até 2019, superando a soma das economias de Brasil, Rússia e Indonésia.

O Produto Interno Bruto (PIB) indiano, segundo Lagarde, também deve ultrapassar os da Alemanha e do Japão combinados. A diretora-gerente declarou que o FMI espera que a Índia cresça 7,2% no ano fiscal de 2014, que acaba neste mês, e acelere a alta para 7,5% no ano fiscal de 2015, que começa em abril, levando o país ao crescimento mais acentuado do mundo, uma vez que a China, que vem liderando esse processo há anos, tem um crescimento previsto para 7,1%, naquilo que vem sendo taxado de desaceleração suave. Enquanto isso, o PIB global deve avançar 3,5% em 2015 e 3,7% em 2016. A possibilidade de um crescimento da Índia maior do que o da China em 2015 foi assunto de capa de uma das mais respeitadas publicações internacionais, a revista The Economist, em sua edição veiculada na Índia no início de fevereiro. O artigo, intitulado Catching the dragon, contém dados de estudos do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Goldman Sachs. O gráfico 1 foi de lá extraído.

 China x Índia

Gráfico 1 – Crescimento comparado da China e da Índia

Lagarde também elogiou a política monetária do país, que, neste mês, adotou uma meta de inflação ao consumidor, cujo centro é de 4,0% ao ano, com faixa de tolerância de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. “Essa é uma medida bem-vinda, que dá base institucional para garantir estabilidade de preços enquanto a economia cresce”, arrematou.

O bom desempenho recente da economia da Índia e a reaceleração do ritmo de crescimento são em grande parte atribuídos à boa gestão do primeiro-ministro Narendra Modi, que assumiu o poder em maio de 2014, infringindo uma fragorosa derrota ao Partido do Congresso, que por muitos anos se manteve no poder, e à ação firme do Banco Central, chefiado pelo ex-economista-chefe do FMI, Raghuram Rajan, com o objetivo de manter contida a inflação, o que tem sido fundamental para atrair considerável volume de investimentos estrangeiros.

Contrastando com o bom momento vivido pela Índia, continuamos testemunhando, no Brasil, uma situação diametralmente oposta, em que se combinam estagnação econômica, pressão inflacionária, insatisfação de parcela significativa da sociedade expressa em grandes manifestações populares e instabilidade política, com fortes pressões sobre a presidente da República de fora e de dentro da base do governo, tudo isso agravado pelo efeito deterioração representado pelas notícias de corrupção na Petrobras, deflagradas pela Operação Lava-Jato levada a cabo pela Polícia Federal.

Esse contraste também não passou despercebido pela revista The Economist. Em suas edições regionais a revista estampou em suas capas um elegante turbinado e uma passista atolada.

The Economist - India's chance to fly          The Economist - Passista atolada

 Na conjuntura desfavorável do Brasil, destaca-se o impasse representado, por um lado, pela necessidade de ajustar as contas públicas e, de outro, pela imperiosa necessidade de voltar a crescer num ritmo aceitável. O problema é que as duas necessidades não permitem adiamento. As contas públicas foram fortemente deterioradas nos últimos anos da primeira gestão de Dilma Rousseff e seu ajuste é considerado indispensável para recuperar a credibilidade da economia. Entretanto, algumas das medidas de ajuste fiscal propostas pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy podem ter efeito negativo sobre o ritmo de atividade e, consequentemente, para a geração de emprego e renda. Esse impasse fica evidente na oportuna nota divulgada no dia 27 de março pelo Conselho Federal de Economia (www.cofecon.org.br).

Iscas para ir mais fundo no assunto 

Referências e indicações bibliográficas

DRÈZE, Jean e SEN, Amartya. Glória incerta: a Índia e suas contradições. Tradução de Ricardo Doninelli Mendes e Laila Coutinho. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

FRAGA, Armínio. Ajuste está aquém do necessário. Entrevista a Claudia Safatle e Alex Ribeiro. Valor Econômico, 19 de março de 2015, p. A 14.

QING, Koh Gul e YAO, Kevin. China desacelera e espera-se reação fiscal e monetária. Valor Econômico, 12 de março de 2015, p. A 11.

LAMUCCI, Sergio. Índia crescerá mais que China, diz FMI. Valor Econômico, 12 de março de 2015, p. A 11.

Referências e indicações webgráficas

A CHANCE to fly. The Economist. Disponível em http://www.economist.com/news/leaders/21644145-india-has-rare-opportunity-become-worlds-most-dynamic-big-economy-chance-fly.

CATCHING the dragon. The Economist. Disponível em http://www.economist.com/news/business-and-finance/21642656-indias-economy-grew-faster-chinas-end-2014-catching-dragon.

COFECON. Crescimento econômico do Brasil deve ser imediatamente retomado. Disponível em http://www.cofecon.org.br/destaques/204-slideshow-principal/3069-nota-do-cofecon-sobre-o-resultado-do-pib-e-o-ajuste-fiscal.html.

DE BOLLE, Monica. Elefantes turbinados, passistas atolados. Disponível em http://iepecdg.com.br/?acao=reportagens&reportagem=769.

ÍNDIA é ponto brilhante na economia mundial, diz Lagarde. O Estado de S. Paulo, 17 de março de 2015. Disponível também em http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,india-vai-superar-soma-do-crescimento-de-brasil-indonesia-e-russia-diz-fmi,1651666.

KENNEDY, Simon e RASTELLO, Sandrine. Índia pode ter melhor desempenho do BRIC desde 1999. Disponível em http://exame.abril.com.br/economia/noticias/india-pode-ter-melhor-desempenho-do-bric-desde-1999.

MACHADO, Luiz Alberto. A Índia e suas contradições – Glória incerta. Disponível em http://www.souzaaranhamachado.com.br/2015/03/a-india-e-suas-contradicoes/.

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