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Tá tudo invertido

Tá tudo invertido

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

Tá tudo invertido

Quem diria?

“A nova ordem mundial não é explicada pelo declínio dos Estados Unidos da América, mas sim pela ascensão de todos os outros países”.

Fareed Zakaria

Desde 2009, quando coordenei um grupo de estudantes da FAAP numa missão estudantil à China, passei a acompanhar com redobrado interesse os assuntos relativos àquele país. A rigor, voltei fortemente impressionado com o que presenciei naquelas duas semanas em Pequim e Xangai. Embora não desejasse – e não deseje – algo semelhante no meu próprio país, saí de lá entendendo perfeitamente a resposta de Napoleão a um de seus soldados quando perguntado sobre o que aconteceria quando a China despertasse de sua prolongada estagnação. Sua resposta foi: “Quando a China acordar, ela vai balançar o mundo”.

Naquele ano de 2009, a China, a exemplo do que acontecia em todo o mundo, sofria os efeitos da grave crise econômico-financeira que tinha tido origem em 2007/08 no setor hipotecário norte-americano, considerada por muitos analistas a mais série crise desde a Grande Depressão dos anos 1930. Sendo assim, no ano de 2009, o crescimento do produto interno bruto (PIB) chinês ficou pelo segundo ano consecutivo na casa dos 9%, depois de cinco anos consecutivos com crescimento anual superior a 10%[1]. Em verdade, o crescimento chinês permaneceu em torno de 10% ao ano por três décadas, como pode ser visto no gráfico1, com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Gráfico 1

Crescimento Anual do PIB da China (%)

Crescimento anual do PIB da China (%)

Depois de se recuperar em 2010, quando registrou novamente um crescimento de 10,4%, a China apresentou uma diminuição no seu ritmo de crescimento, passando a ostentar níveis de crescimento da ordem de 6 a 7% ao ano, naquilo que vem sendo chamado de “novo normal”.

Além de um sistema político fechado, controlado com mão de ferro pelo Partido Comunista, a China continuava dando sinais de uma abertura cada vez maior de sua economia, num processo iniciado em 1979 com Deng Xiaoping. Essa abertura, no entanto, também era rigidamente controlada pelo Partido Comunista, com estratégias, objetivos e metas definidos – e revistos – sistematicamente nos Planos Quinquenais. Ao longo dessa trajetória, não foram raras as ocasiões em que a China se viu às voltas com problemas com outros países ou com organismos internacionais, em especial a Organização Mundial do Comércio (OMC), por conta de intervenções oficiais consideradas ilegais por conferirem vantagens comercias aos produtos chineses no comércio internacional.

Em contrapartida, os Estados Unidos se apresentavam como verdadeiro paladino do livre comércio desde que o processo de globalização da economia mundial se intensificara nas décadas de 1980 e 1990. A posição norte-americana não foi acompanhada pela União Europeia, que muitas vezes defendeu posições protecionistas, sobretudo no que se refere aos produtos agrícolas.

Essa dicotomia entre China e Estados Unidos não era observada apenas nos planos econômico e comercial, estendendo-se a outros setores sensíveis das relações internacionais como, por exemplo, os referentes às questões ambientais, em especial no que tange ao aquecimento global e ao controle das emissões de gases de efeito estufa.

Esse quadro, porém, vem mudando acentuadamente nos últimos anos, mudança que vem se tornando ainda mais clara com a chegada ao poder de Donald Trump.

No momento, há enorme expectativa no ar, principalmente após a divulgação da estratégia de política industrial aprovada em março último pelo governo chinês para tornar seu país autossuficiente numa série de importantes setores, até 2025.

Em artigo publicado no Estado de S. Paulo, o embaixador Rubens Barbosa afirma que “Embora o objetivo seja modernizar a indústria em geral, o plano indica dez setores prioritários: nova tecnologia avançada de informação; robótica e máquinas automatizadas; aeroespaço e equipamento aeronáutico; equipamento naval e navios de alta tecnologia; equipamento de transporte ferroviário moderno; veículos e equipamentos elétricos; equipamento de geração de energia; implementos agrícolas; novos materiais, biofármacos e produtos médicos avançados”.

Depois de ser retardatária nas três primeiras revoluções tecnológicas, essa ação tem, entre outros objetivos, o de situar a China na vanguarda da quarta revolução industrial. Essa intenção ficou evidente no comunicado do primeiro-ministro Li Keqiang, na 6.ª sessão plenária do Comitê Central do Partido Comunista. Na ocasião, Keqiang referiu-se a “alguns desdobramentos do 13.º plano quinquenal para a economia chinesa”. Uma das metas é estimular a ampliação das áreas de serviços e de alta tecnologia, que estão crescendo, mas não têm ainda peso suficiente para substituir os atuais (cada vez menos eficientes) motores do crescimento da economia chinesa: infraestrutura e construção civil. “Vamos acelerar a pesquisa e o desenvolvimento e a comercialização de novos materiais, inteligência artificial, biofarmacêutica, comunicação móvel e outras tecnologias, além de apoiar a criação de clusters industriais nessas áreas”, anunciou.

O que se constata, de fato, é que uma série de alterações vem se verificando no tabuleiro das relações internacionais desde o início deste novo século, como bem observado por He Yafei, ex-vice-ministro de Relações Exteriores da China em recente artigo publicado no jornal China Daily Latin America Weekly.

Entre as alterações apontadas por ele, destacam-se (i) o aumento da participação relativa dos países emergentes – liderados pela China – na produção e nas tomadas de decisão de interesse mundial (fato magistralmente analisado pelo jornalista Fareed Zakaria em O Mundo Pós-Americano); (ii) a consolidação da globalização e da ordem mundial multipolar; e (iii) a transição, em termos de governança global, de uma clara liderança ocidental para uma co-governança compartilhada pelo ocidente e pelo oriente.

Como sempre ocorre em mudanças desta envergadura, surgem diversas formas de resistência, principalmente por parte de quem está experimentando a redução de seu poder ou de sua influência.

É o que se tem observado por parte dos Estados Unidos, onde ainda é muito presente a ideia do excepcionalismo americano. E, de certa forma, se bem que em menor escala, também na Rússia (saudosa dos tempos da União Soviética como segunda maior potência mundial) e na própria União Europeia, cuja constituição está diretamente ligada à tentativa de manter – e quem sabe ampliar – a esfera de influência da região.

Assim, o que temos observado nos anos mais recentes, principalmente após a crise de 2008/09, é a China dando firme suporte à globalização e à redução das barreiras protecionistas, enquanto muitos países ocidentais, entre os quais os Estados Unidos, se opondo francamente a isso.

A posição norte-americana tornou-se ainda mais nítida com a substituição, na presidência dos Estados Unidos, de Barack Obama por Donald Trump. Enquanto Obama era favorável ao Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP, na sigla em inglês) e ao Acordo de Paris, assinado em 12 de dezembro de 2015, na 21ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP21), Trump reviu a posição dos Estados Unidos assim que assumiu o cargo de presidente. Sua posição, aliás, fica bem nítida no bordão “America First”.

A manutenção da diretriz isolacionista defendida por Trump para os Estados Unidos – de certa forma coerente com seu discurso de campanha – pode até significar, pelo menos no curto prazo, alguns ganhos para a população norte-americana. Mas, como adverte He Yafei, pensando no bem-estar da humanidade no longo prazo, “apenas quando as nações cooperam umas com as outras é possível obter como saldo um resultado ganha-ganha”.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas

MAGNOTTA, Fernanda Petená. As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência. Curitiba: Appris, 2016.

SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Tradução de Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro, 2016.

TREVISAN, Cláudia. China: o renascimento do império. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006.

YAFEI, He. New world order is the inevitable trend. China Daily Latin America Weekly, August 21-27, 2017, p. 12.

ZAKARIA, Fareed. O Mundo Pós-Americano. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Referência webgráfica

BARBOSA, Rubens. ‘Made in China em 2015’. O Estado de S. Paulo, 28 de março de 2017. Disponível em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,made-in-china-em-2025,70001716537

[1] De 1979 a 2008, o crescimento médio do país foi de 9,8% ao ano; de 2001 a 2007, foi de 10,5%.

 

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