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Mauro Segura - Transformação -

O vôo atrasou. Cheguei de viagem muito tarde e entrei em casa após às 23 h. Estava muito cansado e deixei a mala no canto do quarto. Passaram-se três dias e a mala continuou naquele mesmo canto. Passei por ela algumas vezes, em todos os momentos eu tinha algo mais urgente e importante para fazer do que abrir a mala, separar as roupas para lavar e recolocar no armário o restante de roupa limpa que trouxe na volta da viagem. O que me impediu de dedicar uns poucos minutos para realizar uma tarefa banal como abrir uma mala? Esse é apenas um exemplo, na verdade, existem dezenas de atividades necessárias e básicas que vou deixando para fazer depois, privilegiando outras coisas que o meu cérebro insiste em dizer que são mais importantes. Por que isso acontece?

Uma luz para a resposta de minha pergunta surgiu quando li o artigo “Why are young adults the loneliest generation in America?”, de Rachel Simmons, publicado no The Washington Post. No artigo, ela cita uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia (UCLA) em 2015. A Freshman Survey da UCLA, que inclui respostas de 150 mil estudantes de mais de 200 faculdades e universidades, descobriu que o número de alunos do primeiro ano que passaram 16 ou mais horas por semana saindo com amigos caiu quase pela metade em 10 anos, para apenas 18%. A mesma pesquisa apontou que 41% dos estudantes disseram que se sentiam “sobrecarregados com tudo o que têm que fazer” e registraram os níveis mais altos de infelicidade já registrados entre as mulheres, que são a maioria dos estudantes universitários nos Estados Unidos.

Segue o artigo: Como é possível que, numa era em que o acesso à amizade está em seu auge, mais da metade dos adultos jovens se sintam deixados de lado e isolados? O estudo descobriu que as pessoas que têm interações pessoais frequentes e significativas relatam melhor saúde e menos solidão do que aquelas que têm pouco tempo com outras pessoas.

A resposta simplista que vem à mente é que o smartphone, o mundo online e as relações efêmeras das mídias sociais digitais são os culpados desse fenômeno, mas talvez não seja exatamente isso. O detalhado estudo “Cigna U.S. Loneliness Index“, recentemente publicado nos Estados Unidos, afirma que a geração Z (adultos de 18 a 22 anos) e a geração millennial (adultos de 23 a 37 anos) são as gerações mais solitárias dos norte-americanos. Os estudantes têm maior índice de solidão do que os aposentados. Num determinado ponto do documento é dito que a solidão tem o mesmo impacto na mortalidade como fumar 15 cigarros por dia, tornando-se ainda mais perigoso que a obesidade.

O estudo da Cigna não encontrou correlação clara entre o uso das mídias sociais e a solidão crônica das pessoas. Obviamente, não existem dúvidas de que as mídias sociais e o mundo digital amplificam os sentimentos de insegurança social e exclusão, mas tratá-las como as únicas causadoras desse fenômeno seria uma forma leviana de analisar um problema complexo. Os estudos mostram que existem outras forças culturais que definham o bem-estar de todos, não somente dos adultos jovens, mas de toda sociedade.

O artigo de Rachel Simmons está centralizado na análise do comportamento dos jovens adultos, mas eu avalio que sua análise se expande facilmente para toda a sociedade ativa, independentemente da geração e do contexto sócio-econômico-cultural. O fato é que, como trabalhadores e cidadãos, nós estamos vivendo uma nova realidade em nossas vidas, que vão muito além do mundo digital. Talvez o mundo digital tenha papel central nisso tudo, mas não sei se ele é culpado ou consequência, o que não faz muita diferença porque a realidade está aí, independentemente dos sinais da equação.

Um dos grandes problemas da sociedade atual é que nos tornamos uma sociedade que vive constantemente atrás de objetivos. Como trabalhadores, estamos sempre correndo, pressionados para produzirmos mais, para sermos mais eficientes, para termos maior performance, para evoluirmos como profissionais, num ciclo de insatisfação contínua pela busca da realização. Como pais, vivemos o drama de sermos melhores pais, porque nunca somos o suficiente e a sociedade nos cobra isso. Como cidadãos, sentimos a pressão do mundo caótico que vivemos, com insegurança, incertezas e uma necessidade urgente de fazermos algo para salvar o planeta, o país e a nossa própria pele. Essa conjuntura nos transforma em fazedores. Vivemos a “cultura do estresse”, a cultura de não perder tempo e a cultura de usar cada minuto da vida para sermos mais produtivos.

É essa a sociedade que vivemos: estamos mais angustiados por fazer sempre mais e melhor, e essa busca insana nos torna mais solitários.

Rachel Simmons escreveu um parágrafo brilhante, que insiro aqui: Os estudantes que entrevistei em todo o país temem que, se não estiverem constantemente ocupados estudando ou participando de reuniões, algo deve estar errado com eles, com suas agendas ou com sua ética de trabalho. Essas novas normas da “cultura do estresse” se traduzem em menos oportunidades de deixarem suas conversas e mentes divagarem. No mínimo, muitos jovens adultos se voltam para as telas porque sentem que esta é a única recreação autorizada em uma cultura de trabalho constante. Mas por que não ir para a academia ou ligar para um amigo? Os estudantes me dizem que ‘todo mundo está trabalhando mais do que eu’ e ‘não posso parar’, crenças errôneas alimentadas por um sentimento de inadequação pessoal, que alimenta o seu isolamento. ‘Eu não posso ter tempo de inatividade’, um estudante de segundo ano da faculdade me disse. ‘Eu sinto que estou fazendo algo errado, se não estou fazendo nada’. As horas das refeições parecem ser os últimos bastiões das conversas casuais (e essas também se voltam para o assunto do trabalho). ‘Quando estou comendo, sinto que há uma justificativa por não estar trabalhando’, disse-me um universitário. ‘Em qualquer outra situação em que estou me divertindo muito, não estou totalmente presente. Sinto-me distraído e, por vezes, não estou totalmente envolvido porque me sinto culpado por não estar trabalhando’. Estar sobrecarregado e constantemente ocupado são as novas linhas de base”.

Foi exatamente ao ler esse trecho do artigo que pensei na minha mala, no canto do quarto. A resposta estava aí. Eu não toquei na mala porque não podia parar, não podia perder produtividade, não podia relaxar diante de tantas coisas a fazer.

Estar ocupado constantemente tem seu preço, não somente pelas consequências nos aspectos físico e mental, mas também nas habilidades sociais, na construção das relações e nas percepções de felicidade e propósito de vida. Conversar com pessoas espontaneamente, desenvolver relações genuínas com base em ideias ou ideais, divagar, deixar-se levar pelos momentos efêmeros da vida, tudo isso faz parte de um contexto cada vez mais distante da vida de cada um de nós. É isso que nos torna mais solitários e mais frustrados, provocando um círculo danoso que se auto alimenta.

Habilidades sociais são como músculos, elas têm que ser flexionadas repetidamente. A capacidade de fazer amigos se atrofia se não for usada.

E aí? Vamos exercitar?

Outros materiais relacionados ao tema para quem deseja ir mais fundo:

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The Downside of Downtime: The Prevalence and Work Pacing Consequences of Idle Time at Work

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