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Essa é uma história que nunca contei para ninguém, portanto, aí vai.

Isso aconteceu em 1979. Eu tinha 19 anos e estava cursando o último período de formação de técnico em eletrotécnica na Escola Técnica Federal do Rio de Janeiro. Eu estava à procura do meu primeiro estágio.

Naquela época, não tinha internet, não tinha computador, não tinha celular, não tinha Google e nem redes sociais. Procurar emprego ou estágio significava olhar obsessivamente os classificados dos jornais, onde as oportunidades de emprego eram publicadas. Me deparei com um pequeno anúncio, no canto da página, que falava de uma empresa procurando por estagiário técnico. Ali dizia: “oportunidade única para desenvolver uma carreira de sucesso”. Anúncio pequeno, simples, sem falar o nome da empresa, apenas indicando um número de sala num prédio comercial em Copacabana. Tomei um ônibus e fui para Copacabana. Atravessei a cidade. Eu era um rapaz da zona norte. Raramente ia para a zona sul.

O prédio era velho, bem antigo, até um pouco sujo e mal cuidado. O local, estranho. O endereço indicava uma portinha que dava para a rua. Ao entrar na porta havia somente uma opção: subir uma escada com degraus surrados de madeira, indo para o segundo andar. Lembro da escada rangendo conforme eu pisava os degraus. Cheguei ao segundo andar e me deparei com um corredor mal iluminado, com várias portas de madeira, quase todas com olho mágico. Procurei a sala e toquei a campainha. Em segundos, a porta abriu e surgiu um senhor com roupa social, um pouco amarrotada, camisa para dentro da calça, cinto preto, com cabelos grisalhos despenteados, um pouco agitado. Ajeitou os óculos de grau, perguntou o meu nome e me mandou entrar.

Ao atravessar a porta, vi que era um escritório com duas salas muito pequenas, com mobiliário completamente velho, todo de madeira, cadeiras também velhas, pilhas de papel na mesa, duas máquinas de escrever encardidas, mapas do Brasil e do Rio de Janeiro nas paredes forradas com cortiça. Ele não demorou mais do que cinco minutos para conversar comigo. Claramente, não era brasileiro. Me pareceu um norte-americano falando um português enrolado, bem gringo mesmo, inicialmente, fazendo poucas perguntas e afirmações curtas.

Uma das suas primeiras perguntas foi: “Qual a lanchonete de sua preferência?”

Respondi sem pensar: “O Bob’s”. E completei: “Adoro o Bob’s”.

Ele retrucou: “E o que você mais gosta de comer lá?”

Eu respondi: “Hot-dog”. Era assim que falávamos na época.

Ele coçou o queixo.

Em seguida, começou a falar aceleradamente em seu português arrastado, comendo algumas palavras e errando algumas vezes o tempo dos verbos. Ele disse que representava a chegada de um novo conceito de restaurante no Rio. A primeira loja no Brasil iria ser lançada na cidade em algumas semanas, mas já com planos de lançamento de outras. Falou a palavra “fast food” algumas vezes, confesso que não entendi direito e nem sabia o que era.

Ele falava sem parar, entusiasmado. Eu observava mais do que ouvia, estava encantado com aquele personagem. Em algum momento, ele contornou a mesa e se aproximou de um mapa gigante do Brasil que estava grudado na parede. Era um mapa bem colorido, daqueles que as escolas usam. Haviam várias bolinhas marcadas, com muitos rabiscos e anotações, claramente aquele mapa havia sido dobrado e dobrado muitas vezes. Com um lápis na mão, apontando para a parede, ele disse que o plano era dominar o Brasil, daquela forma indicada no mapa. A palavra “dominar” ecoou na minha cabeça. Soou arrogante.

Eu olhava a situação toda com incredulidade. A minha juventude e ignorância não me permitiam entender aquilo tudo e nem entender muito bem o que eu estava fazendo ali, com aquele cara falando daquela forma. Eu seria em breve um técnico em eletrotécnica, estava buscando apenas um estágio, o meu propósito era ter a minha primeira experiência profissional da vida e ser um eletricista, instalando e consertando máquinas elétricas. Por um momento achei que o gringo não sabia quem estava na frente dele.

Teve um determinado momento que deixei de prestar atenção nele e passei a olhar o ambiente. Como pode ele falar em instalar um monte de lojas, de ser algo revolucionário, de dominar o Brasil, e eu estar ali numa sala velha, com móveis rangendo, com uma luz incandescente que mal iluminava o local? Como? Me caiu a ficha que aquele cara era um sonhador despreparado, um gringo que não conhecia o Brasil, que não conhecia o Bob’s, que aquilo tudo seria arriscado e que não seria para mim. Acho que a partir daquele instante eu desliguei o cérebro, eu deixei de entender aquilo como uma oportunidade.

Ele perguntou o meu interesse. Eu não lembro o que respondi. Ele disse que precisava urgente de um técnico estagiário para aquela primeira loja. Depois disse que outras lojas surgiriam no Rio e esse técnico poderia se tornar o supervisor da área técnica para outras lojas. Em seguida, disse que, com o crescimento dos negócios no país, essa pessoa ganharia novas responsabilidades e poderia ter uma brilhante carreira na empresa, até executiva. Segundo ele, o céu seria o limite. Em seguida, começou a falar sobre hambúrgueres, batatas fritas, o que era o conceito de fast food etc. No final, repetiu algumas vezes que a filosofia do negócio era ninguém ficar parado. Ele disse algo assim: “Se em algum momento você não tiver nada para fazer na sua atividade técnica, então você vai fritar hambúrgueres. Ninguém fica parado aqui”.

Eu ouvi aquilo e me senti desprestigiado. Como pode? Eu, um técnico especialista, fritando hambúrgueres? Pensei: Esse cara não entende o que está falando? Sou um técnico! Um dos melhores alunos da Escola Técnica Federal.

No final, estufando o peito e demonstrando orgulho, ele fez uma pergunta que senti que ele havia guardado para o final da conversa: “Você já ouviu falar no McDonald’s?”

Eu não entendi muito bem e pedi para ele repetir o nome. Ele repetiu. Acho que continuei sem entender. Ele me olhou ansioso, se deslocou para frente da cadeira para olhar nos meus olhos, esperando a minha resposta.

Eu respondi secamente: “Não”.

Sua expressão facial murchou e ele voltou a se refestelar na cadeira, certamente decepcionado. Ele contou quem era o McDonald’s nos Estados Unidos e disse que aquela seria a primeira loja da empresa no Rio e no Brasil.

Terminamos a conversa. Ele ficou com o meu currículo e disse que havia gostado muito de mim. Apesar da situação inusitada, eu senti que houve real empatia entre nós. Se eu tivesse mostrado encantamento e muito desejo pela vaga, tenho certeza de que conseguiria aquela posição. Eu sentia isso claramente. Ele afirmou que havia outros candidatos e que iria entrar em contato futuramente por telefone. Ele nunca mais me procurou.

No dia 13 de fevereiro de 1979 foi inaugurada a primeira unidade do McDonald’s na América do Sul, exatamente na Rua Hilário de Gouveia, em Copacabana, a dezenas de metros daquela salinha escura e velha. E, até hoje, esse primeiro restaurante continua em funcionamento. Hoje são 910 restaurantes no Brasil.

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