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Sem enredo

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Chiquinho Rodrigues -

Ainda bem que o U2 pegou um avião e foi pra puta-que-pariu!

Eu já não aguentava mais, cara!

Te juro que se eu visse o Bono Vox mais uma vez no Jornal Nacional ou na droga de um palanque qualquer desafinando de novo com a Ivete Sangalo, eu vomitava!

País triste e cafona este aqui. Os avós dos Stones passaram aqui e provocaram um Katrina com aquele showzinho tosco deles. Todas as pessoas entrevistadas que foram ao show dos caras só conheciam “Satisfaction”.

No dia seguinte ao show do U2 só se comentava da “performance” do Bono e da menina da platéia que ele fez subir ao palco e beijou.

Porra! Nem o Julio Iglesias e o Luís Miguel cometem mais esse tipo de cafonice.

Na contra-mão de tudo isso, abdiquei este ano de ver pela TV bundas e peitos nas passarelas do samba e passei o feriado do carnaval cozinhando para  meus filhos e assistindo em DVD a antologia dos Beatles e o Song Book do Gênesis.

Percebi então algumas coisas.

Como é que Os Beatles há 40 anos atrás conseguiam?

Sem afinadores eletrônicos para as guitarras…

Sem retornos de vozes e instrumentos…

Sem microfonação total para a bateria…

E com mais de 30.000 macacas gritando desesperadas feito locomotivas no cio…

Como eles conseguiam cantar e tocar tão afinado assim?

Nesse documentário dos Beatles o Ringo diz que não conseguia fazer nada de especial na bateria, pois não era possível ouvir nada do que os outros três tocavam e cantavam lá na frente.

Hoje, pra quem não sabe, os retornos auriculares são moldados e feitos sob medida para o ouvido de cada pessoa. (Todos da banda U2 possuem um).

Nesse retorno o músico tem a opção de uma mixagem personalizada que além de se ouvir tocando e ouvir o que os outros músicos estão tocando ao vivo, ele pode também ouvir a guia das coisas pré-gravadas como:  Tac (metrônomo), guitarras, teclados e vocais que a gente ouve no show do U2 e não vê ninguém executando ao vivo no palco).

E mesmo com tudo isso o cantor Bono desafina pra carácoles! (tenho o show da Globo gravado em DVD se quiser conferir)

E se formos comparar a “performance” dele com a do Peter Gabriel do Gênesis ou as do Emerson do grupo Emersom, Lake & Palmer ou ainda do Alice Cooper, o coitado não vai conseguir passar nem na pré-seleção do “Se vira nos trinta” do Faustão.

Eu entendo sim aquele pessoal que passou mais de três dias acampando na porta do estádio do Morumbi esperando o abrir dos portões para assistir o U2. Eu teria também feito isso há 40 anos atrás pelo Paul, John, Ringo, Jorge e por mim. Pois cada geração tem o ídolo que merece. (meio amargo e saudosista hoje eu,  né?).

Bom… Como eu estava querendo neste carnaval colocar a leitura em dia, fui até o sebo de um amigo meu que eu não via há uns 10 anos.

O Nenéco é um dos melhores trombonistas que eu já ouvi tocar. Fã ardoroso do Raul de Souza, ele tocou em várias bandas aqui de São Paulo por muitos anos e acabou juntando uma graninha pra montar esse sebo onde a gente encontra um pouco de tudo: Revistas, livros, Cds, Dvds e muita gente estranha.

O lugar me parecia como da última vez em que estive ali. O mesmo cheiro, as mesmas prateleiras lotadas, a caixa registradora dos anos 50 e aquela bagunça organizada inerente a lugares como esse.

Numa prateleira que fica atrás do caixa eu pude ver que ainda continuava lá, como sempre, o velho trombone do Nenéco bem ao lado de uma latinha de Kaol.

O carnaval chegou a representar para o músico o que o Natal e o Dia das Mães representam para o comércio em geral. Tempo de se ganhar um pouco mais de dinheiro. Quase sete bailes numa maratona de apenas quatro dias.

E época do trombone do Nenéco (o Tenório) tomar seu tradicional banho de kaol. Ficar lustroso e bonito pra brilhar no carnaval.

Mas o estranho é que sendo carnaval, o Nenéco estava atrás do balcão e o Tenório na prateleira cheio de pó e zinabre.

– E aí? Não foi tocar este ano Nenéco?

– Há uns dez anos que não vou Chico – murmuraram aqueles lábios que durante tantos anos eu vi espremidos no velho bocal de metal fazendo soar o trombone de gafieira mais swingado que já ouvi em toda minha vida.

– Caramba! Tanto tempo assim? – perguntei eu separando uns Asterix.

– Em 1.995 me chamaram para participar de um ensaio de uma banda que ia tocar o carnaval em um clube do interior – começou explicando ele – eu achei estranho, Chico, pois nunca tinha precisado ensaiar “Mamãe eu Quero”, “Cabeleira do Zezé”, “Mascara Negra”, “Confete”, “Bandeira Branca”, essas coisas. Nunca ensaiei carnaval. Sei de cor todas as melodias e tons.

– E aí? –

– No ensaio passamos músicas que eu nunca havia tocado em bailes de carnaval – disse ele – Timbaladas, axés, pagodes, funks e até sertanejos em ritmo de carnaval. Então coloquei o velho Tenório na caixa e fui embora. E há anos não me chamam mais.

– Chato isso cara! Então é por isso que seu trombone está sem brilho algum? – perguntei eu apontado para a prateleira.

– Pois é, Chico. Depois que eu abri o sebo não tive mais tempo disponível para viajar e tocar em bandas de baile. O carnaval era o único meio que eu ainda tinha para ganhar algum por fora.

Sabe, aquela história me broxou e eu fiquei a fim de ir embora.

Paguei as revistas me despedi do Nenéco e me dirigi à porta.

Então ele me chamou.

– Chico, faça um favor para mim – disse ele pegando a latinha de kaol da prateleira — lá fora da loja tem uma lata de lixo com coleta seletiva. Jogue isto pra mim lá.

– Mas não é com isso que você dá banho no velho Tenório?

– Era sim. Mas deve estar estragado. Há anos que eu não uso mais essa merda.

Lembrei que já era terça-feira de carnaval.

Provavelmente as TVs estariam inundadas de noticiários de gente se trocando porradas e insultos em razão da apuração sobre o desfile das escolas de samba… Recordes de acidentes nas estradas… Quilômetros de engarrafamentos na “volta do paulistano”… Aumento do preço do litro do álcool… E terminando a última noite de carnaval, o velho e tradicional desfile de aberrações daquele horroroso baile gay.

Passei então na farmácia e reforcei meu estoque de Plasil e Dramin

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