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“Fronteiras? Nunca vi uma. Mas ouvi dizer que existem na mente de algumas pessoas.”

Thor Heyerdahl

Não é sempre que alguns dos focos mais controvertidos das relações internacionais – casos da relação entre Israel e Palestina, das migrações em massa e dos refugiados – chegam ao público por meio de filmes ou livros de razoável repercussão.

Refiro-me, objetivamente, ao filme 7 dias em Entebbe, dirigido por José Padilha, e ao livro O Caminho de Abraão, escrito por Jamil Chade.

Embora focalizem episódios e questões muito diferentes, ajudam a entender algumas das razões pelas quais é tão difícil encontrar soluções satisfatórias para os graves problemas envolvidos nessa região do Oriente Médio.

7 dias em Entebbe aborda o episódio do resgate dos passageiros de um avião da Air France, num voo que ia de Tel Aviv para Paris, em 1976, sequestrado por um grupo de terroristas – dois palestinos e dois militantes de extrema-esquerda alemães – que obrigaram o piloto a levar a aeronave para Uganda, após breve parada para reabastecimento no aeroporto de Benghazi,  na Líbia.

7 dias em Entebbe

O filme de agora retoma o episódio que foi objeto de outro filme de sucesso de 1976, cujo título era Vitória em Entebbe.

A diferença fundamental entre os dois filmes é que o de 1976 destacava o resgate em si, realçando o caráter heroico da operação. Já o filme de 2018 destaca as discussões que se travaram nos bastidores do governo israelense, onde grupos favoráveis e desfavoráveis à operação protagonizaram acirrada disputa.

Há muitos aspectos a serem considerados no filme dirigido por Padilha. Como bem observa Isabela Boscov em excelente comentário para a revista Veja, “o diretor José Padilha faz de 7 dias em Entebbe não um filme de ação, mas de investigação sobre os fatores que levam Israel e Palestina a um impasse permanente”. Na sequência, complementando sua afirmação, assinala: “7 dias em Entebbe é a história de como israelenses e palestinos foram se entrincheirando em posições que tornam impossível qualquer acordo… É a história, também, de como o conflito no Oriente Médio virou o objeto de uma Guerra Fria ideológica, na qual todo mundo, no mundo todo, tem algum partido ou opinião que na verdade resume uma infinidade de outras atitudes”.

Um aspecto que me chamou atenção também e que faço questão de mencionar por ser algo que se observa também no Brasil, sendo frequentemente objeto de forte crítica por parte dos analistas políticos, é a falta de renovação das lideranças. Num episódio ocorrido em 1976, os principais envolvidos no debate que se trava nos bastidores são o primeiro-ministro Yitzak Rabin, favorável a alguma negociação, e seu então ministro da Defesa, Shimon Peres, na época proponente da tolerância zero, que mais tarde se converteria à via diplomática. Rabin e Peres continuaram por muitos anos como protagonistas no cenário político israelense. Para completar, o único integrante da força tarefa que perdeu a vida na operação foi o líder da unidade, Yonatan Netanyahu, que virou herói nacional e, em certo aspecto, plataforma para que seu irmão, o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, também adepto da linha dura, se lançasse na política.

Já o livro O Caminho de Abraão, que tem por subtítulo Fé, amor e guerra em travessias separadas pelo tempo, se constitui numa brilhante sacada do jornalista e correspondente Jamil Chade, que faz um paralelo entre dois trajetos separados por cerca de 4.000 anos: a trajetória do profeta Abraão, iniciada em Ur, na então Mesopotâmia, que fez dele uma figura idolatrada pelas três grandes religiões monoteístas, cristãos, judeus e muçulmanos, e a trajetória de Hagar, uma francesa filha de imigrantes argelinos que supera todas as limitações de uma vida pacata e previsível na periferia de Marselha para estudar nas melhores universidades da França, dando início, assim, a uma reviravolta completa em sua existência.

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Algum tempo depois de formada em química, após passar por algumas decepções por não encontrar emprego que correspondesse às suas expectativas, Hagar é contratada por uma multinacional e enviada para coordenar investimentos milionários de uma fábrica de cimento na Síria, antes do início da guerra que explodiu naquele país em 2011.

Como principal executiva da empresa, Hagar é obrigada a se envolver com os radicais do Estado Islâmico cumprindo ordens criminosas da direção da empresa em Paris, o que a coloca no centro de um dos conflitos mais cruéis e sangrentos da atualidade.

À medida que a situação de agrava envolvendo diretamente a empresa em que ela trabalhava, não resta outra opção a Hagar se não a tentativa de fugir e tentar retornar à casa de seus pais em Marselha.

Tem início, então, uma verdadeira epopeia, levando Hagar a passar por inúmeras situações extremamente graves, durante as quais ela entra em contato com a deprimente realidade de diversos outros refugiados também sujeitos aos horrores de uma maciça migração forçada.

Como indicado na quarta capa do livro: “A história de Hagar se entrelaça, então, à de milhares de sírios que tentam driblar diariamente a morte, na tentativa desesperada de escapar dos horrores da guerra. Nessa fuga seus caminhos pelo Oriente Médio acabam refletindo os míticos passos que Abraão, o patriarca das três grandes religiões monoteístas do mundo, traçou a milênios”.

Jamil Chade escolheu para título de seu livro o mesmo nome de uma inciativa de William Ury, professor da Universidade de Harvard e um dos mais bem-sucedidos negociadores da atualidade. Inspirado na exitosa experiência do Caminho de Compostela, idealizou uma caminhada pelo trajeto trilhado por Abraão, ao longo da qual pessoas do mundo todo possam conviver com as populações locais, hospedando-se em suas casas, comendo e conversando com suas famílias e contribuindo, assim, para a busca da paz nesta região há tanto tempo marcada por conflitos e conflagrações. Nas sábias palavras de Mark Twain: “O verdadeiro encanto do pedestrianismo  não está na caminhada ou na paisagem, mas na conversa”.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências bibliográficas e webgráficas

BOSCOV, Isabela. “7 Dias em Entebbe”: em uma semana, sete décadas de história. Publicado originalmente na revista Veja em 18/04/2018. Republicado sob autorização da Abril Comunicações S.A. © Abril Comunicações S.A., 2018. Disponível em https://veja.abril.com.br/blog/isabela-boscov/7-dias-em-entebbe/.

CHADE, Jamil. O caminho de Abraão: fé, amor e guerra em travessias separadas pelo tempo. São Paulo: Planeta do Brasil, 2018.

URY, William e SZEPESI, Stefan (organizadores). O Caminho de Abraão: história, caminhada, hospitalidade. Tradução de Marcia Leme. São Paulo: Nobel, 2016.

Referências cinematográficas

7 DIAS EM ENTEBBE (Entebbe)

Produção: Inglaterra/Estados Unidos, 2018.

Direção: José Padilha.

Roteiro: Gregory Burke.

Elenco: Daniel Brühl, Rosamunde Pike, Denis Ménochet, Eddie Marsan, Lior Ashkenazi, Mark Ivanir, Ben Schnetzer, Peter Sullivan, Juan Pablo Raba, Nonso Anozie. Andrea Deck.

Música: Rodrigo Amarante.

Duração: 106 minutos.

VITÓRIA EM ENTEBBE (Victory at Entebbe)

Produção: Estados Unidos, 1976.

Direção: Marvin Chomski.

Roteiro: Ernest Kinoy.

Elenco: Kirk Douglas, Burt Lancaster, Helen Hayes, Anthony Hopkins, Helmut Berger, Linda Blair, Bibi Besch, Richard Dreyfuss, Allan Miller, Julius Harris, Christian Marquand, Elizabeth Taylor.

Música: Charles Fox.

Duração: 119 minutos.

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