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Rebaixamentos

Rebaixamentos

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

Rebaixamentos 

Paralelo entre a economia e o futebol

“Mesmo que a S&P estivesse dormindo e não tivesse rebaixado a nota, isso não teria resolvido os problemas do Brasil. Não podemos exagerar o impacto da medida em si. A economia brasileira está em crise porque a política econômica foi muito mal feita de 2010 a 2014, porque nós temos problemas de longo prazo e porque o sistema político não consegue nem desmontar a má política econômica nem resolver os problemas de longo prazo.”

José Alexandre Scheinkman

Depois de muito diz que me diz, a Standard & Poor’s (S&P), tida como uma das três maiores agências de classificação de risco do mundo – as outras duas são a Fitch e a Moody’s – anunciou, dia 9 de setembro, que o Brasil perdeu a condição de grau de investimento, fazendo com que retorne ao grupo de países considerados de grau de especulação.

Vale recordar que a S&P havia concedido o grau de investimento (investment grade) ao Brasil em abril de 2008, quando o País foi alçado da condição de grau de especulação com a nota BB+ para a de grau de investimento com a nota BBB-. Em 2011, ocorreu nova promoção e a nota subiu para BBB. Em março de 2014, o Brasil já havia tido sua nota reduzida, voltando a ser BBB-, sem, contudo, perder a condição de grau de investimento[1].

Essa redução havia sido uma espécie de aviso de alerta. Ou seja, seria preciso que o País fizesse algumas correções de rota na condução de sua política econômica e melhorasse alguns indicadores fundamentais, caso contrário outra redução poderia ocorrer, levando, aí sim, à perda do grau de investimento[2].

Como de lá para cá, em vez de melhorarem, os principais indicadores foram se tornando cada vez piores, a redução acabou ocorrendo, levando ao indesejável rebaixamento. A gota d’água pode ter sido a absurda proposta de Orçamento da União de 2016, entregue pelos ministros da Fazenda e do Planejamento ao presidente do Senado no dia 31 de agosto, com previsão de déficit primário de R$ 30,5 bilhões, o que representa 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Num país em que a grande maioria das pessoas gosta de futebol (embora muitos gostem agora um pouco menos, ainda traumatizados pela derrota de 7 a 1 para a Alemanha), ouso fazer uma analogia.

Obter a condição de grau de investimento equivale a estar na Série A do Campeonato Brasileiro. É lá que estão os clubes considerados de elite, razão pela qual são os que têm maior visibilidade, valorização de sua imagem, exposição de seus jogadores à mídia e, com isso, mais chance de obter bons patrocinadores e de realizar bons negócios. Porém, como sabem os que conhecem o futebol com alguma profundidade, nem todos os clubes que participam da Série A encontram-se no mesmo nível. Existem os clubes que entram habitualmente nos campeonatos como favoritos para disputar o título; outros que sonham com uma vaga na Copa Libertadores, obtida pelos primeiros quatro colocados; há um grupo de clubes de nível intermediário, que se contenta com uma classificação para a Copa Sul-Americana; e, por fim, há os que entram “para não cair”, concentrando seu esforço em somar apenas os pontos necessários para não serem rebaixados para a Série B, o que acontece com os quatro últimos colocados.

Embora aconteçam surpresas, com o rebaixamento eventual de clubes tradicionais do futebol brasileiro, que historicamente estão entre os que disputam o título ou as vagas na Libertadores, as estatísticas revelam que são esporádicas. Foi o que aconteceu nos últimos 10 anos com clubes como Corinthians, Palmeiras, Vasco e Botafogo. Foram rebaixados para a Série B, mas retornaram no ano seguinte para a Série A. O Corinthians, inclusive, retornou para conquistar em sequência o título do Brasileiro, da Libertadores e, para coroar, do Mundial de Clubes. Os outros três aqui mencionados parecem não ter aprendido bem a lição, pois voltaram a ser rebaixados ou flertaram perigosamente com o rebaixamento.

No caso das agências de classificação de risco (e da S&P em particular), a situação é muito parecida. É possível estar na Série A em duas situações: os países com as notas AAA, AA+, AA, AA-, A+, A, e A- são considerados “grau de investimento com qualidade alta e baixo risco”; já os países com notas BBB+, BBB e BBB- são considerados “grau de investimento com qualidade média”. Abaixo disso, os países deixam de ser considerados detentores de grau de investimento. Podem, então, estar na “categoria de especulação, com baixa classificação, com as notas BB+, BB, BB-, B+, B e B-, o que de certa forma equivaleria a estar na Série B, ou ainda serem considerados “risco alto de inadimplência e baixo interesse”, com as notas CCC, CC, C e D, o que equivaleria à Série C.

Portanto, a redução da nota do Brasil equivale a um rebaixamento para a Série B. Na analogia com o futebol, eu diria que em março de 2014 saímos da situação de clubes que disputam uma vaga na Copa Sul-Americana para pertencer ao grupo dos que lutam para não cair. Agora, deixamos de pertencer a esse grupo, que ainda nos mantinha na Série A, e fomos rebaixados para a Série B.

Como se pode observar por essa breve retrospectiva, mesmo tendo permanecido por mais de sete anos (abril de 2008 a setembro de 2015) na Série A, o Brasil jamais teve chances reais de conquistar o título, nem esteve entre os fortes candidatos à conquista de uma vaga na Libertadores. Chegou, no máximo, ao grupo intermediário.

A principal consequência negativa do rebaixamento reside na possível redução dos investimentos estrangeiros no Brasil, pois alguns fundos internacionais, assim como outras empresas de gestão de recursos, possuem restrições estatutárias a investimentos em países que não são considerados grau de investimento. Tal possibilidade aumenta ainda mais se a perda do grau de investimento ocorrer também na Moody’s e/ou na Fitch.

Como costuma ocorrer diante de notícias dessa natureza, o rebaixamento do Brasil não foi bem recebido por integrantes do governo e por diversos de seus simpatizantes, que preferiram desmerecer a S&P, assim como as outras agências de classificação de risco, pelo fato de terem falhado em análises e decisões em muitas ocasiões.

Particularmente, discordo dessa posição, entre outras razões por questão de coerência. Afinal, acredito que quem põe em dúvida a credibilidade de uma instituição ao receber uma avaliação desfavorável deveria tê-lo feito também quando recebeu uma avaliação positiva, e não me lembro de qualquer questionamento à S&P ou às outras agências quando alçaram o Brasil à categoria de grau de investimento.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Recomendações e indicações bibliográficas

APPY, Bernard, LISBOA, Marcos, MENDES, Marcos e LAZZARINI, Sérgio. Os desafios para sair da crise. O Estado de S. Paulo, 13 de setembro de 2015, pp. B 4 e B 5.

SCHEINKMAN, José Alexandre. “É preciso rediscutir as despesas obrigatórias”. Entrevista a Cláudia Trevisan. O Estado de S. Paulo, 13 de setembro de 2015, p. B 6.

Recomendações e indicações webgráficas

GUANAES. Nizan. Eu sou investment grade. Disponível em http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=207738.

MACHADO, Luiz Alberto. Primeira divisão – Notícia auspiciosa. Disponível em http://www.cofecon.org.br/noticias/colunistas/luiz-machado/1361-primeira-divisao.

_______________ Março chega ao fim de forma preocupante – Notícias negativas superam com folga as positivas. Disponível em http://www.souzaaranhamachado.com.br/2014/05/marco-chega-ao-fim-de-forma-preocupante/.

[1] Nas três principais agências, Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch, as metodologias podem ser distintas e as escalas variam, mas de modo geral vão da nota D (para países que estão em moratória) até o triplo A (a nota mais alta é o AAA), atribuída a países superseguros. O chamado grau de investimento, o selo do bom pagador, mistura notas entre A e B.

[2] Um dia depois de retirar o selo de bom pagador do Brasil, a mesma agência rebaixou a nota de 31 empresas brasileiras. Dessas, 24 também perderam o grau de investimento. Entre as empresas atingidas pelo rebaixamento estão Petrobras, Eletrobras, Comgás, Coelce, Elektro, Taesa, Neoenergia, Atlantia Bertin, Arteris, CCR, Ecorodovias, Ambev, Globo Comunicação e Participações, Multiplan, Ultrapar, Votorantim Participações, Votorantim Industrial e Votorantim Cimentos.

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