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 O tempo é o senhor da razão

“Roger, você e sua família farão muita falta em nossas vidas. E você, Roger, fará ainda mais falta ao nosso país, pelas suas qualidades de líder e executivo.”

Amigos do Roger Agnelli

Este artigo, que se constitui num reconhecimento (tardio) a um grande brasileiro, deveria ter sido escrito há alguns anos, quando Roger Agnelli deixou a presidência da Vale, após longo período de forte pressão do governo federal. O próprio título que ora aproveito, havia sido elaborado naquela época. Vejo no registro do laptop que a referida data é 24 de setembro de 2011.

Por diversas razões, e pelo atropelo de outros fatos, acabei perdendo o timing, embora não tenha excluído de meus arquivos o título de um possível artigo. Recordo-me que uma das ideias que me passou pela cabeça foi colocar a primeira palavra do título no plural, a fim de poder me referir também ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cuja popularidade registrava na época percentuais extremamente baixos, a ponto de seu próprio partido, o PSDB, ter optado por deixá-lo fora dos holofotes em diversas eleições gerais e municipais.

Também deixei passar a oportunidade adequada e, novamente, perdi o timing para a publicação do artigo.

Feliz – ou infelizmente – as oportunidades não se apresentam uma única vez e, diante das marchas e contramarchas da história, a evolução dos acontecimentos leva mais uma vez a um timing propício à publicação do tema já adiado por duas vezes.

Decidi não permitir que haja um terceiro adiamento.

A razão essencial para isso foi o lamentável acidente, ocorrido no dia 19 de março, que vitimou Roger Agnelli, sua esposa, seus filhos, seu genro e a namorada de seu filho, além do piloto da aeronave.

Com o acidente, a brilhante carreira de Agnelli é prematuramente interrompida, num momento em que, mais do que em qualquer outro, o Brasil necessita de grandes líderes.

Agnelli formou-se em Economia pela Fundação Armando Alvares Penteado – FAAP, onde frequentava a turma do vespertino, cujas aulas estendiam-se das 17h00 às 21h00. Na época, já trabalhava no Bradesco, onde teve destacada trajetória. Lembro-me que um dos colegas de Agnelli apelidou aquele horário de “boca da noite”, talvez numa analogia à letra de uma música do poeta Paulo Vanzolini, gravada, entre outros, por Toquinho, um dos grandes intérpretes da música popular brasileira. O comentário completo era: “Esse horário é uma beleza. Dá pra trabalhar durante o dia e ainda aproveitar a noitada. A gente só perde a novela”.

Concluída a graduação na FAAP, permaneceu no Bradesco, galgando, degrau a degrau, postos mais elevados na hierarquia da instituição, que tem se notabilizado por uma política de recursos humanos que valoriza as pessoas que ingressam na empresa nos níveis iniciais e, por seus méritos, atingem postos de gerência e direção.

Sua trajetória profissional foi favorecida pela participação do Bradesco no pool de empresas que participou do processo de privatização da então Companhia Vale do Rio Doce, posteriormente rebatizada simplesmente de Vale. Vitorioso o pool, Agnelli foi indicado pelo Bradesco em 2001 para assumir a presidência da companhia, agora em nova fase, como empresa privada.

Agnelli presidiu a Vale por uma década, implementando uma cultura de meritocracia e transformando a empresa em verdadeira referência mundial entre as mineradoras. Adotando estratégias agressivas com vistas à conquista de mercados no Brasil e no exterior, foi beneficiado pelo elevado crescimento da economia chinesa e da grande demanda por commodities, sabendo explorar bem as oportunidades por meio de uma política agressiva de preços. No período em que esteve à frente da Vale, Agnelli foi responsável pela aquisição de concorrentes no Brasil e no exterior, entre as quais a Fosfértil e a canadense Inco, além de ter determinado a entrada da companhia em novos mercados como os de ferrovias, níquel e petroquímica.

De 2001 a 2011, segundo a Folha de S. Paulo, “o lucro líquido da Vale saltou de US$ 1,3 bilhão para US$ 22,9 bilhões e as ações da empresa subiram cerca de 1.500%. A empresa galgou degraus na lista de grandes companhias globais e se tornou a maior produtora global de minério de ferro e a segunda maior mineradora do mundo”.

Com enorme faro empresarial e capacidade de assumir riscos, Agnelli tomou uma série de decisões levando em conta prioritariamente os interesses da empresa e de seus acionistas.

Nem sempre tais decisões agradavam a todos, independentemente de nomes ou cargos. Foi o que aconteceu quando decidiu demitir 1.200 funcionários por causa da crise financeira global, desagradando o Palácio do Planalto e azedando a relação com o presidente Lula que defendia, então, uma política econômica favorável ao aumento de gastos para frear os efeitos da crise.

Irredutível em sua posição, passou a enfrentar uma pressão sistemática do governo federal, que não se alterou com a eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República. A situação foi se agravando até tornar-se insustentável, levando, em maio de 2011, à indicação de Murilo Ferreira, também pelo Bradesco, para substituir Agnelli na presidência da Vale.

Em 2012, mais de um ano, portanto, fora da Vale, Agnelli foi eleito pela Harvard Business Review como o quarto CEO com melhor desempenho no mundo. Neste mesmo ano, Agnelli fundou a AGN, empresa com negócios nas áreas de mineração, bioenergia e logística.

Há um provérbio português que diz que “o tempo é o senhor da razão”. Ainda impactado pela notícia da morte de Roger Agnelli, não posso deixar de registrar o enorme contraste nas imagens de Roger Agnelli, executivo admirado tanto no Brasil como no exterior, e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, também respeitado e requisitado para eventos em todo o mundo por seus reconhecidos méritos quer como acadêmico, quer como estadista,  com a do ex-presidente Lula, que tanto fez para desmerecer as virtudes de ambos, e que hoje luta para conseguir um cargo que lhe garanta foro privilegiado para evitar que acabe na prisão.

Mais uma evidência da validade do provérbio português. Realmente, “o tempo é o senhor da razão”. 

Iscas para quem quiser se aprofundar

Referências e indicações bibliográficas

AMIGOS do Roger Agnelli. Homenagem a um grande brasileiro. Valor Econômico, 23 de março de 2016, p. A 10.

BACOCCINA, Denize. O que está por trás da fritura de Roger Agnelli. Isto É Dinheiro, ano 14, nº 702, 23 de março de 2011, pp. 64 – 65.

GASPAR, Malu. A Vale na mira. Veja, edição 2.210, ano 44, nº 13, 30 de março de 2011, pp. 76 – 77.

JORDAN, Michael. Nunca deixe de sonhar. Apresentação e comentários de Bernardinho. Tradução de Claudio Figueiredo. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.

Referências e indicações webgráficas

AGNELLI conduziu a Vale ao topo durante o boom de commodities. Folha de S. Paulo. Disponível em http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/03/1751999-agnelli-conduziu-a-vale-ao-topo-durante-o-boom-de-commodities.shtml.

DINIZ, Arthur Chagas. A presidência da Vale. Disponível em http://www.institutoliberal.org.br/comentario.asp?cdc=3550.

PERINGER, Alfredo Marcolin. A intervenção na VALE, um atentado econômico e social. Disponível em http://www.imil.org.br/artigos/pta-interveno-na-vale-um-atentado-econmico-social/.

Referência musical

Na boca da noite. Composição Paulo Vanzolini e Toquinho. Disponível em http://www.vagalume.com.br/toquinho/na-boca-da-noite.html.

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