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Jota Fagner - Origens do Brasil -

Na última terça feira, dia 14, após voltar da PUC – onde tinha assistido ao V Seminário de Pesquisa e Integração do EHPS – recebi uma mensagem do meu amigo e colega jornalista, Jonatas Oliveira. Ele havia me enviado um texto, com link para a fonte, que comentava o ato falho do ex-presidente Lula em depoimento à Justiça Federal.

Eu confio muito no Jonatas, mas a notícia era tão absurda que fui conferir o link. Para meu espanto, era tudo verdade. Segundo noticiou o site da revista Época, ao ser questionado sobre o uso indevido do seu nome pelo pecuarista José Carlos Bumlai, Lula teria dito que as pessoas deveriam ler mais a Bíblia para aprender a não usar o seu nome (de Lula) em vão.

Recomendo que você verifique a matéria para ter certeza de que não estou brincando. Claro que os gracejos sobre o ocorrido viralizaram. Não acredito, no entanto, que Lula tenha se comparado a Deus. Ao menos não conscientemente. Mas foi impossível não lembrar dos primeiros parágrafos do livro Missa Negra – Religião apocalíptica e o fim das utopias, escrito pelo erudito britânico John Gray.

No primeiro capítulo, intitulado A morte das utopias, Gray escreve:

A política moderna é um capítulo na história da religião. Os grandes movimentos revolucionários que tanto influenciaram a história dos dois últimos séculos foram episódios da história da fé: momentos de longo processo de dissolução do cristianismo e ascensão da moderna religião política. O mundo em que vivemos no início do novo milênio está coberto de escombros de projetos utópicos, os quais, embora estruturados em termos seculares que negavam a verdade da religião, constituíam de fato veículos para os mitos religiosos.

Mas não vá pensando que a crítica de Gray é centrada apenas no socialismo. Ele bate com a mesma força em crentes das seitas liberais, sociais democratas, teorias neoconservadoras ou qualquer outra ideologia que diga ter a solução para os problemas da humanidade. Como ele mesmo explica, apesar “de ser apresentada nas roupagens da ciência social, esta crença de que a humanidade estaria no limiar de uma nova era não passa da mais recente versão de crenças apocalípticas que remontam às épocas antigas”.

Em resumo, as ideologias são matérias de fé. Aquele papo do Cazuza dizendo que precisava de uma ideologia para viver não parece combinar com a filosofia de Gray. Na página 13 do já citado livro, ele escreve:

A alteração contemplada pelos pensadores utópicos não se produziu, e na maioria dos casos seus projetos levaram a resultados opostos aos pretendidos. O que não impediu que projetos semelhantes fossem repetidas vezes empreendidos, até o início do século XXI, quando a nação mais poderosa do planeta iniciou uma campanha para exportar democracia para o Oriente Médio e o resto do mundo.

Essas ideias podem parecer surpreendentes e até um tanto exageradas, mas o assunto merece discussão. John Gray não é o primeiro a explorar esse tema. Um livro de Norman Cohn, The Pursuit of the Millennium: Revolutionary Millenarians and Mystical Anarchist of the Middle Ages, publicado originalmente em 1957, foi o primeiro a analisar as origens religiosas dos movimentos revolucionários modernos.

Esses movimentos revolucionários milenaristas carecem de circunstâncias específicas para se desenvolver. Por exemplo: desequilíbrio social em larga escala, como aconteceu na Alemanha de Weimar e na Rússia Czarista. Pode também ser fruto de um único evento traumático como Pearl Harbor ou o 11 de Setembro.

Quem acompanha o “debate político” nas redes sócias já deve ter percebido que a coisa perdeu o controle. Em muitos casos, os posicionamentos beiram o fanatismo. Digo isso de ambos os lados. A crítica precisa ser feita, a política precisa ser debatida, o povo precisa conhecer o jogo institucional, mas é preciso equilíbrio. Precisamos de um antídoto para essa adoração de quem quer que seja. Talvez assim possamos amadurecer como nação e entender o papel que cabe a cada um.

Voltarei ao assunto.

 

José Fagner Alves Santos

Com fotografia de Daniel Albarran/sxc.hu

 

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