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Ponto fora da curva

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Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

Ponto fora da curva

 Desempenho da Região Centro-Oeste

 “É possível replicar o modelo meritocrático e técnico da Embrapa,

desde que haja consciência do que a levou a ser bem sucedida e

de como o País se beneficiou com a sua existência.”

Cristiane Alkmin J. Schmidt

 As festas natalinas passaram, o ano novo começou, a presidente Dilma Rousseff tomou posse e iniciou o segundo mandato, mas a sensação de quem lê o noticiário – principalmente o econômico – é que continua tudo na mesma. Os resultados que vêm sendo divulgados confirmam que o desempenho dos vários setores da economia foi pífio em 2014 (como, aliás, já havia sido em 2013), as denúncias de desmandos e corrupção não cessam e as perspectivas para 2015 não são nada animadoras, chegando mesmo a serem assustadoras em alguns casos, em especial nos setores em que a escolha dos ministros foi – no mínimo – questionável. A propósito, as trocas de farpas entre ministros recém-empossados foram parte integrante do lamentável noticiário deste início de ano.

Com tanta coisa ruim sendo divulgada, quero abordar em meu primeiro artigo de 2015 algo positivo, algo que possa ser visto como um ponto fora da curva, ou fora de série, para usar uma expressão que se tornou ainda mais conhecida graças ao excelente livro de Malcolm Gladwell, Fora de série – Outliers.

Fora de série - Outliers

Refiro-me ao excelente desempenho da Região Centro-Oeste do Brasil, que há quatro décadas tem se destacado por apresentar o melhor desempenho econômico entre as macrorregiões brasileiras, com uma participação no PIB que se elevou de 3,8% em 1970 para mais de 10% desde 2010.

Tendo a oportunidade de visitar seguidas vezes alguns estados da região ao longo de 2014, e em algumas delas de viajar para fora das capitais, tive a chance de confirmar o que já havia constatado em outras ocasiões: o elevado nível de produtividade do agronegócio, o que propicia por quilômetros e quilômetros a sensação gratificante de ver a terra integralmente cultivada, repleta de fazendas bem cuidadas, com modernas instalações que conferem ao agronegócio um elevado nível de produtividade.

O quadro 1, apresentado pelo colega Júlio Miragaya no X ENEOSTE, realizado em novembro de 2014 em Campo Grande dá uma boa ideia dessa evolução, focalizando o aumento da participação relativa do Centro-Oeste não apenas em termos de PIB, mas também de PIB per capita.

Quadro 1

Fonte: Apresentação de Júlio Miragaya no X Encontro de Economistas do Centro-Oeste

(X ENEOESTE). Campo Grande, novembro de 2014.

 

Já o quadro 2, extraído de um artigo escrito também por Júlio Miragaya para um livro publicado pelo BNDES em 2014, revela a expectativa de continuidade desse crescimento relativo até 2030.

PIB per capita População PIB
(US$) (mil) (US$ bilhões)
BRA CO/BRA CO CO CO BRA CO/BRA
        2010 10.820 115,0 12.443 17.047,0 212,1 2.089,0 10,15
        2015 13.020 117,5 15.299 18.708,6 286,2 2.615,7 10,94
        2020 15.930 120,0 19.116 19.952,9 381,4 3.299,7 11,56
        2025 19.600 122,5 24.010 21.137,0 507,5 4.164,3 12,19
        2030 24.290 125,0 30.363 22.182,0 673,5 5.257,3 12,81

Fonte: Banco Mundial e Cálculos Ibrase

Trata-se, como se pode observar, de uma performance admirável e, em grande parte, contínua, em flagrante contraste com o que ocorreu com a economia brasileira que, neste mesmo período de quatro décadas, alternou bons e maus momentos, os segundos por um período de tempo bem superior aos primeiros.

Tendo por pano de fundo essa excelente performance, gostaria de concluir com três reflexões.

Primeira reflexão – Embora, o desempenho da Região Centro-Oeste como um todo seja digno de admiração, não há dúvida de que ele foi beneficiado por alguns fatores que merecem destaque especial, entre os quais vale citar a importância estratégica de Brasília, que, sendo criada para ser a capital do País, permitiu intensa aceleração do processo de interiorização do crescimento. Mais tarde, valendo-se desse fator estratégico, deve-se ressaltar o adensamento populacional do Eixo Brasília-Anápolis-Goiânia que tem atualmente uma população superior a 6,6 milhões de habitantes, com renda disponível para consumo de quase R$ 140 bilhões, constituindo-se no terceiro maior mercado do Brasil, superado apenas pelas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro. Na última década, mesmo reconhecendo o peso relativo de Brasília, por ser a capital e concentrar boa parte das instituições administrativas federais, não se pode deixar de reconhecer a relevância do crescimento da parte representada pelo estado de Goiás nessa primeira reflexão.

Segunda reflexão – Em que pese o excelente desempenho econômico da região nessas quatro últimas décadas, há que se reconhecer que ela tem pela frente dois enormes desafios para que as previsões do quadro 2 possam ser confirmadas e, quem sabe, até superadas: um deles consiste em intensificar significativamente seu processo de industrialização, a fim de que o crescimento da região não dependa tanto do setor primário, em especial da agropecuária; o outro diz respeito à logística, englobando não apenas a melhoria das condições de transporte, essencial para um escoamento mais eficiente da produção, mas também a ampliação da capacidade de armazenagem, que hoje é suficiente apenas para 14% da produção, o que faz com que parte significativa do produto seja desperdiçada, apodrecendo no pé.

Terceira reflexão – Deixei para último, o destaque que considero mais importante, qual seja, a excepcional contribuição para o desempenho da região representado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Criada em 1973, a Embrapa vem sendo importante para todo o Brasil, porém o impacto maior de sua ação ocorreu na Região Centro-Oeste e, particularmente, no extraordinário aumento da produtividade do Cerrado. De acordo com a Profª Cristiane Schmidt, da FGV, desde que foi criada, “a Embrapa adaptou, criou e transferiu mais de 9 mil tecnologias e 350 cultivares; possui mais de 200 patentes internacionais; e é considerada o principal polo de pesquisa tropical do mundo”. Com isso, prossegue a professora, “pesquisadores da entidade foram protagonistas na transformação do Brasil, de potencial produtor para o 4º maior exportador de alimentos do mundo, por meio do aumento espetacular da produtividade do campo”. Antes de encerrar, vale a pena elencar os fatores endógenos e exógenos responsáveis pela triunfal trajetória da Embrapa, segundo estudo conjunto de Paulo Correa e da Profª Cristiane Schmidt, publicado pelo Banco Mundial.

Fatores endógenos: 1) a missão da instituição em produzir academicamente trabalhos direcionados exclusivamente em solucionar problemas da agricultura brasileira, transferindo conhecimento e tecnologia aos agricultores, constantemente: 2) a estratégia de ter a Embrapa fisicamente perto do agricultor, descentralizando-a em agências regionais; 3) a definição de metas nas pesquisas e o monitoramento no processo, para que os estudos não perdessem foco e timing; 4) a premiação e reconhecimento vinculados aos resultados, e não apenas às publicações acadêmicas; 5) o maciço investimento em capital humano e importação e desenvolvimento de tecnologia de ponta. Até meados da década de 1980 não havia um corpo de pesquisadores qualificado nem tecnologia disponível. Atualmente, dos mais de 2.200 pesquisadores, 1.800 têm doutorado e 400, mestrado; e 6) a independência política nos seus quadros e cultura meritocrática.

Fatores exógenos: 1) a adoção de políticas públicas efetivas, como a de abertura comercial e a de crédito aos agricultores, que contribuíram para a diminuição dos custos dos insumos e aumento da oferta; 2) a abundância de terra; e 3) a existência de uma demonstrada vantagem comparativa potencial (VCP).

Não é por outra razão que costumo afirmar em minhas palestras que se todas as empresas públicas brasileiras tivessem um desempenho pelo menos parecido com o da Embrapa, o País estaria num outro estágio de desenvolvimento.

Com a esperança de que exemplos como o da Região Centro-Oeste e da Embrapa se multipliquem, encerro o presente artigo plenamente ciente das dificuldades que o País deverá enfrentar no transcorrer de 2015. Resta torcer para que medidas corretas sejam tomadas para que, no início de 2016, as expectativas sejam mais favoráveis.

 

Iscas para quem quiser se aprofundar

Referências e indicações bibliográficas 

GLADWELL, Malcolm. Fora de série – Outliers. Tradução de Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

MIRAGAYA, Júlio Flávio Gameiro. O desempenho da economia na Região Centro-Oeste. Em Isabel Machado Cavalcanti, Victor Alexander Contarato Burns, Luiz Antonio Rodrigues Elias, Walsey de Assis Magalhães, Helena Maria Martins Lastres (Organizadores). Um olhar territorial para o desenvolvimento: Centro-Oeste. Rio de Janeiro: BNDES, 2014, pp. 425-451.

SCHMIDT, Cristiane Alkmin J. Aprendendo com a Embrapa. O Estado de S. Paulo, 31 de julho de 2014, p. B 2. 

Referências e indicações webgráficas 

CORREA, Paulo e SCHMIDT, Cristiane. Public Research Organizations and Agricultural Development in Brazil: How did Embrapa get it right? Disponível em http://siteresources.worldbank.org/EXTPREMNET/Resources/EP145.pdf.

MACHADO, Luiz Alberto. Lições de viagem 6 – Conhecendo o Mato Grosso do Sul. Disponível em http://www.souzaaranhamachado.com.br/2014/08/licoes-de-viagem-6-conhecendo-o-mato-grosso-do-sul/. 

X ENEOESTE. Disponível em http://eneoeste.evento2014.com.br/portal/Modulos/processo/HOME.html.

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