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Tempos atrás, o meu filho chegou perto e disse: “Pai, você está postando muito no Facebook. Tá exagerando”. Entendi aquilo como um alerta e puxei o freio. Desde então eu tenho sido mais comedido no uso do Facebook.

Tenho preocupação com a exposição da minha família e meus amigos nas redes sociais. Nos últimos anos eu tenho assumido uma posição mais conservadora e evitado postar coisas na base do entusiasmo. Por outro lado, eu tenho amigos mais jovens que publicam com assiduidade, muitas vezes compartilhando fotos mais íntimas da família, especialmente os seus filhos.

Não me surpreende que os pais e as mães da geração Y usem as redes sociais como meio de discussão e compartilhamento de temas relacionados à educação, desenvolvimento e formação dos filhos. Esse é um meio natural para eles conversarem a respeito. A Universidade de Michigan publicou um estudo chamado “Parents on social media: Likes and dislikes of sharenting“, oriundo de uma pesquisa realizada com pais de idade superior a 18 anos e com filhos de até quatro anos.

O estudo evidenciou que os pais estão usando as redes sociais como um canal de ajuda em suas dúvidas e inseguranças em relação à educação de suas crianças, além de prover algum conforto psicológico por mostrar que suas inseguranças e desconhecimento também rondam a mente de outros pais e mães. O maior risco deste comportamento é a exposição exagerada da família.

Eis os principais resultados da pesquisa:

A maioria dos pais (84% das mães, 70% dos pais) respondeu que usam regularmente as mídias sociais, como o Facebook, fóruns online e blogs. Mais da metade das mães (56%), em comparação com apenas 34% dos pais, discutem temas de saúde das crianças e da família nas mídias sociais.

Ao compartilhar conselhos aos pais nas mídias sociais, os temas mais comuns são: colocar as crianças para dormir (28%), dicas de nutrição/alimentação (26%), disciplina (19%), creche/pré-escola (17%) e problemas de comportamento (13%).

Pais classificam as mídias sociais como úteis para fazê-los sentir que eles não estão sozinhos (72%), aprendendo o que não fazer (70%), recebendo conselhos de pais mais experientes (67%), e ajudando-os a se preocuparem menos (62%). Em contrapartida, cerca de dois terços dos pais se preocupam com a possibilidade de alguém descobrir informações particulares sobre seus filhos (68%) ou compartilhar fotos de seus filhos (67%), enquanto 52% estão preocupados que quando mais velho, seu filho possa se envergonhar do que tenha sido compartilhado nas mídias sociais sobre ele.

A maioria dos pais pesquisados que usam mídias sociais (74%) afirma que conhecem outros pais que compartilham informação sobre uma criança nas redes de forma exagerada. Aí estão pais que deram informações embaraçosas sobre uma criança (56%), provendo informações pessoais que permitem identificar a localização de uma criança (51%), ou fotos inadequadas compartilhados de uma criança (27%).

Acredito que os resultados podem ser ainda mais perturbadores se a pesquisa for feita no Brasil, tendo em vista a nossa tradicional paixão pelas mídias sociais e pelo uso intensivo de smartphones por todos os membros das famílias brasileiras. Minha percepção é de que pode existir uma espécie de falta de autoavaliação dos pais em relação a tudo isto. Apontar que outros pais se expõem em demasia é mais simples e menos doloroso do que se autoavaliar e reconhecer um comportamento próprio exagerado nas redes.

Particularmente, na minha análise, a maior preocupação é com as crianças. Os pais, em geral, gostam de publicar fotos engraçadinhas de seus filhos pequeninos, fazendo caras e bocas, às vezes em situações inusitadas. Isso pode até ser divertido, mas quando as crianças se tornarem adolescentes tais fotos e comentários poderão gerar constrangimento. Ou seja, podemos estar falando de uma típica situação de bullying.

Aqui no Brasil, a questão de segurança me parece ser algo mais importante e grave do que em outros países. Quanto mais você publica dados sobre comportamento e rotina dos filhos, mais facilidade e informações você está dando para um possível crime.

Enfim, a superexposição dos pais e mães nas redes sociais já é uma realidade. As novas gerações certamente levarão esta exposição a um novo patamar. A atenção a ser dada é em relação aos filhos. Os filhos pequeninos da era atual já têm uma identidade digital criada na web, mesmo sem terem consciência disso. São os pais que criam essa identidade logo que o filho nasce, dá o primeiro sorriso, quando tira a fralda, larga a chupeta, fala papai e mamãe ou dá o primeiro passo.

Nos dias atuais, de uma forma ou de outra, tudo é registrado e publicado nas mídias sociais. O que for publicado sobre a criança em seus primeiros anos de vida é responsabilidade integral dos pais, que precisam estar conscientes e seguros sobre a imagem, personalidade e legado digital que desejam deixar para os seus filhos quando eles tiverem maturidade e responsabilidade. Podemos interpretar isso como um presente que os pais deixam para os filhos. Será que os pais estão pensando nisso?

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