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Quando os antissocialistas mimetizam a mentalidade e a ação política do inimigo, tornam-se o espelho da perfídia

“O Brasil está dividido” é o mantra dito e repetido desde a eleição presidencial de 2014, aquela que submergiu o país no dilema marxista: a farsa ou a tragédia. Será verdade? A minha resposta é longa e repleta de argumentos irrefutáveis: não.

Por terem despertado para a política num momento de turbilhão de salitre e breu petista (obrigado, William Blake), os antissocialistas foram treinados pela própria esquerda. Por isso, reagem reproduzindo vocabulário, comportamentos, maneirismos, insultos e a mentalidade daqueles que acusam de serem inimigos. E posicionam-se contrários a qualquer tema que a esquerda converta em pauta. Se o socialista é favorável, o antissocialista é contra. Um exemplo? Cuidar do meio ambiente é tolice porque coisa de esquerdista.O país não está dividido em termos ideológicos, pelo contrário. O país encontra-se ideologicamente fragmentado. Há os socialistas, há os antissocialistas e há um grupo cada vez mais numeroso que, mesmo que combata o socialismo, não se limita a essas duas categorias políticas (conservadores, liberais, libertários). O problema é a estridência com que ambos (socialistas e antissocialistas) trocam afagos e carícias. O ruído que provocam dão a impressão de que são maioria. Em termos numéricos, contudo, são campeões da estupidez e da degradação de que são frutos e operários.

Os antissocialistas insurgem-se contra os socialistas como opositores úteis, como contrários que se complementam. Há, de fato, aquilo que René Girard definiu como desejo mimético (desejo de imitação). Na ânsia de conquistar os espaços de poder hoje ocupados pelos inimigos, colaboram para instaurar a rivalidade e a violência que dizem combater. Não defendo que se combata com flores quem usa tanques de guerra, com carinho quem agride. Defendo que a reação seja vigorosa e virtuosa – sem um vício de origem que a macule. É, sim, possível, só que exige mais labor e inteligência.

O próprio mote do “nós contra eles”, bordão de dissociação extraído do texto A Nossa Moral e a Deles, de Leon Trotsky, foi estabelecido na discussão política pelo PT desde o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva e depois assimilado e transformado em hino de guerra pelos antissocialistas. Ambos os lados politizam a vida em sociedade, um por ideologia, outro por imitação, e pretendem purificar a sociedade dos adversários na busca por um mundo idealizado.

Um ponto em comum partilhado por socialistas e antissocialistas pode ser rastreado na mentalidade milenarista encontrada no século 13. O milenarismo fundamentava-se na crença segundo a qual era perfeitamente possível a um indivíduo ou a uma elite (terrena e/ou sobrenatural) instituir tão logo e repentinamente um futuro hipotético e perfeito sobre a terra.

A estrutura de pensamento e de entendimento da natureza humana dos milenaristas forjou alguns dos alicerces intelectuais dos revolucionários modernos sobre concepção de mundo e de natureza humana. A experiência intelectual e histórica do milenarismo e da escatologia revolucionária, de que foi protagonista Joaquim de Fiore, foi aproveitada por vários filósofos (Lessing, Schelling, Fichte, Hegel, Comte, Marx) e incorporada a certas ideologias políticas (marxismo, nazismo, fascismo).

O filósofo político Eric Voegelin, em seu livro As Religiões Políticas, observou que o significado simbólico do apocalipse perdurava “no simbolismo dos séculos 19 e 20, nos três estágios da filosofia da história de Marx e Engels, no Terceiro Reich do nacional-socialismo, na Terceira Roma fascista”. Portanto, milenaristas, jacobinos, nazistas e fascistas seriam membros de uma mesma família político-ideológica.

E não só.

Quando os antissocialistas mimetizam a mentalidade e a ação política do inimigo, tornam-se o espelho da perfídia. Quando advogam a purificação do Brasil do socialismo usando os mesmos instrumentos dos socialistas, reduzem a virtude do combate necessário à estatura moral e ideológica de seus oponentes. Convertem-se, assim, nos novos milenaristas, nos jacobinos da “nova direita”.

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