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O oitavo círculo

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Fernando Lopes - Iscas Politicrônicas -

Faz uns bons anos, no departamento de trânsito de uma pequena e pacata cidade do interior paulista. Um cliente sofreu alguns danos em seu carro, devido aos quebra-molas exagerados, muito acima das dimensões previstas no código de trânsito. Em vez de acionar o judiciário, achei melhor explicar o caso ao chefe do departamento, para que ele, ao menos, adequasse os obstáculos à lei. Foi o que fiz, e ele, candidamente, disse que não dava. Argumentei que não era caso de “dar ou não dar”; era a lei, e tinha de ser seguida. A resposta do sujeito, demonstrando um misto de saco cheio misturado com aquele arzinho de superioridade de quem diz o óbvio ululante, foi: “Mas o senhor quer que a gente siga a lei sempre? Dá não, dotô.”

Pois é; o próprio Lula, ex-presidente da República, disse certa vez que “há leis que pegam e leis que não pegam”. Os cínicos o defenderam, alegando que isso é normal no Brasil. Não é, e o problema vem da má execução da lei e seus mecanismos de cumprimento, burocráticos e afastados da realidade; mas o pior de tudo é o chefe do Executivo (justo o poder encarregado de respeitar e executar as leis) dizer isso no exterior, como se fosse a coisa mais sábia do mundo.

Que há leis “preferidas” pelas maiorias travestidas de minorias ou pelos poderosos não há dúvida, como a lei antitabaco ou as “leis” que garantem auxílio-moradia (entre outros “auxílios” e benesses) a muitos juízes, promotores, deputados, senadores e demais cidadãos de primeira categoria, em detrimento dos milhões de plebeus abaixo deles – a ninguenzada que, em primeira ou última análise, é chefe desses perdulários do dinheiro público, pagando-lhes régios salários e mordomias inacreditáveis. Mas isso é papo pra outro barril.

Há receios de um terceiro tipo de lei no Brasil, fora esses que ‘pegam ou não pegam”, segundo a lulada: As que pegam, mas lulistas não gostam e não querem mais deixar pegar. Olha só que bacana. Trocando em miúdos, lei boa é a que eles gostam. E fim de papo.

A lei da ficha limpa foi um dos grandes avanços do País. Impede que gente condenada pela justiça em segunda instância use sua lábia e nosso dinheiro para enganar eleitores ingênuos ou desinformados para continuar cometendo os mesmos ilícitos pelos quais foram apenados. Uma lei lógica, sem mistérios, nascida da vontade popular, numa iniciativa que juntou mais de 1,6 milhão de assinaturas. O dispositivo legal passou pelo Congresso e acabou sancionado pelo próprio Lula em 2010, com festa e foguetes, contando com apoio entusiasmado de sua turma. Essa gente bradava que “bandido não pode ser candidato” e a nova lei impediria seus adversários de roubar e enganar o povo. Eles, puros, probos, honestíssimos e ilibados, seriam os melhores candidatos, os únicos dignos, evidentemente; todos os demais seriam candidatos à cadeia, somente.

Deu no que deu; a justiça finalmente pegou Lula com a lei sancionada e festejada por ele mesmo, e qual não foi a reação de seus seguidores? Sindrômica: Uns desejam a lei simplesmente revogada. Outros, olimpicamente ignorada; e outros defendem candidamente que para Lula a lei não vale, pois o demiurgo estaria bem colocado nas pesquisas de intenção de voto. Resumindo, a lei não poderia atingi-lo, vestido com colete à prova de justiça, costurado pelo soviete supremo do inferno, em sua matriz estabelecida no Oitavo Círculo, onde são abrigados “calorosamente” os fraudadores, segundo Dante Alighieri no clássico A Divina Comédia.

Motivos para essa insanidade toda: Não há. O messias cubânico é intocável para mortais comuns. Para ele, só valem leis que lhes agradem; as demais são apenas fumaça ao vento – a não ser em prejuízo de seus inimigos, mesmo que sejam apenas amigos úteis para as hora do aperto, né, Paulo Maluf? Né, Geddel Vieira Lima?

Seu arremedo de argumento é somente sua vontade imperial, e sua “justiça” são os (alegados) potenciais eleitores; não importa o que os tribunais decidam, desde que as pesquisas inflem Lula, mesmo artificialmente, cumpanhêra Datafolha. Não é à toa que se baseiam ideologicamente numa fantasia de extrema esquerda, que promete o paraíso mas só consegue entregar o inferno. De preferência, para seus futuros vizinhos no oitavo círculo. Stalin que o diga e Hugo Chávez não desminta.

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