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O Mundo é Plano

O Mundo é Plano

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

O Mundo é Plano

 Resistindo ao tempo

O Mundo é Plano

 “Minha animação tinha um motivo pessoal, pois esse achatamento quer dizer que estamos interligando todos os centros de conhecimento do planeta e costurando uma única rede global, o que (se a política e o terrorismo não atrapalharem) pode precipitar uma era notável de prosperidade e inovação.”

Thomas Friedman

Em se tratando de livros especializados, principalmente quando se tratam daqueles que focalizam a realidade em seus aspectos conjunturais, são poucos os que resistem à passagem do tempo, permanecendo oportunos e interessantes.

A esmagadora maioria entra rapidamente em processo de obsolescência e sua leitura, um ou dois anos depois de seu lançamento, transmite uma incrível sensação de jornal velho, pão amanhecido ou qualquer coisa desse gênero.

Uma notável exceção, décadas atrás, ocorreu com o best seller A terceira onda, de Alvin Toffler, cuja leitura permaneceu impactante por muitos anos.

A mesma coisa acontece com O Mundo é Plano, escrito pelo colunista de política externa do New York Times, Thomas Friedman.

Tive oportunidade de lê-lo por ocasião de seu lançamento em português, em 2005. Lembro-me que fiquei fortemente impressionado com a leitura, de tal forma que não foi surpresa o extraordinário sucesso do livro em muitos países, assim como o fato de o mesmo ter se transformado em assunto de bate papo em diversos círculos sociais. Em alguns desses círculos, não ter lido o livro – ou pelo menos conhecer suas ideias centrais, afinal não é necessário ter lido um livro para falar dele, segundo Pierre Bayard – podia condenar o indivíduo a uma espécie de isolamento.

O autor, com a competência que lhe é peculiar, focaliza ao longo do texto as transformações em curso no que ele chama de Globalização 3.0, que de certa forma se inicia com o terceiro milênio.

Segue-se a descrição dessas três eras (ou etapas da globalização) descritas por Thomas Friedman:

A primeira se estendeu de 1492 – quando Colombo embarcou, inaugurando o comércio entre o Velho e o Novo Mundo – até por volta de 1800. Eu chamaria essa fase de Globalização 1.0, que reduziu o tamanho do mundo de grande para médio e envolveu basicamente países e músculos. Isto é, o principal agente de mudança, a força dinâmica por trás do processo de integração global, era a potência muscular (a quantidade de força física, a quantidade de cavalos-vapor, a quantidade de vento ou, mais tarde, a quantidade de vapor) que o país possuía e a criatividade com que a empregava. Nesse período, os países e governos (em geral motivados pela religião, pelo imperialismo ou por uma combinação de ambos) abriram o caminho derrubando muros e interligando o mundo, promovendo a integração global. As questões básicas da Globalização 1.0 eram: como o meu país se insere na concorrência e nas oportunidades globais? Como posso me globalizar e colaborar com outras pessoas por intermédio do meu país?

A segunda grande era, a Globalização 2.0, durou mais ou menos de 1800 a 2000 (sendo interrompida apenas pela Grande Depressão e pela Primeira e Segunda Guerras Mundiais) e diminuiu o mundo do tamanho médio para o pequeno. O principal agente de mudança, a força dinâmica que moveu a integração global, foram as empresas multinacionais, que se expandiram em busca de mercados e mão-de-obra – movimento encabeçado pelas sociedades por ações inglesas e holandesas e a Revolução Industrial. Na primeira metade dessa era, a integração global foi alimentada pela queda dos custos de transporte (graças ao motor a vapor e às ferrovias) e, na segunda, pela queda dos custos de comunicação (em decorrência da difusão do telégrafo, da telefonia, dos PCs, dos satélites, dos cabos de fibra ótica e da World Wide Web em sua versão inicial). Foi nesse período que assistimos de fato ao nascimento e à maturação de uma economia global propriamente dita, no sentido de que havia uma movimentação de bens e informações entre os continentes em volume suficiente para a constituição de um mercado de fato global, com a venda e revenda de produtos e mão-de-obra em escala mundial. As forças dinâmicas por trás dessa etapa da globalização foram as inovações de hardware (dos barcos a vapor e ferrovias, no princípio, aos telefones e mainframes, mais para o final), e as grandes indagações eram: como a minha empresa se insere na economia global? Como tira proveito das oportunidades? Como posso me globalizar e colaborar com outras pessoas, por intermédio da minha empresa?

Caracterizadas as primeiras duas etapas da globalização, o autor defende a tese de que “por volta do ano 2000 adentramos uma nova era: a Globalização 3.0, que está não só encolhendo o tamanho do mundo de pequeno para minúsculo com também, ao mesmo tempo, aplainando o terreno”.

Nesse sentido, conclui:

Enquanto a força dinâmica na Globalização 1.0 foi a globalização dos países e, na Globalização 2.0, a das empresas, na 3.0 a força dinâmica vigente (aquilo que lhe confere seu caráter único) é a recém-descoberta capacidade dos indivíduos de colaborarem e concorrerem no âmbito mundial – e a alavanca que vem permitindo que indivíduos e grupos se globalizem com tamanha facilidade e de maneira tão uniforme é não o cavalo-vapor nem o hardware, mas o software (novos aplicativos de todos os gêneros), conjugado à criação de uma rede de fibra óptica em escala planetária que nos converteu, a todos, em vizinhos de porta. Agora, o que os indivíduos podem e devem indagar é: como é que eu me insiro na concorrência global e nas oportunidades que surgem a cada dia e como é que eu posso, por minha própria conta, colaborar com outras pessoas, em âmbito global?

Encerrando essa parte em que faz a identificação das três etapas da globalização, arremata Friedman:

Entretanto, a Globalização 3.0 não difere das eras anteriores apenas em termos de quanto vem encolhendo e achatando o mundo e do poder com que está munindo o indivíduo. A diferença reside também no fato de que as duas primeiras etapas foram encabeçadas basicamente por europeus e americanos, pessoas e empresas. Muito embora a China fosse a maior economia do mundo no século XVIII, foram os países, empresas e exploradores ocidentais que conduziram a maior parte do processo de globalização e configuração do sistema. A tendência, todavia, é que esse fenômeno se inverta: em virtude do achatamento e encolhimento do mundo, esta fase 3.0 será cada vez mais movida não só por indivíduos, mas também por um grupo muito mais diversificado de não-ocidentais e não-brancos. Pessoas de todos os cantos do mundo estão adquirindo poder; a Globalização 3.0 possibilita a um número cada vez maior de pessoas se conectarem num piscar de olhos, e veremos todas as facetas da diversidade humana entrando na roda.

Na sequência, o autor analisa, detalhadamente, as dez forças que achataram o mundo:

  • Força nº 1 – 9 de Novembro de 1989 – Quando os muros ruíram e as “janelas” se abriram;
  • Força nº 2 – 9 de Agosto de 1995 – O dia em que a Netscape foi para a Bolsa;
  • Força nº 3 – Softwares de fluxo de trabalho – Vamos trocar figurinhas: coloque o seu aplicativo para conversar com o meu;
  • Força nº 4 – Código aberto – Comunidades de colaboração que se auto-organizam;
  • Força nº 5 – Terceirização – O ano 2000;
  • Força nº 6 – Offshoring – Correndo com os antílopes e comendo como os leões;
  • Força nº 7 – Cadeia de fornecimento – Comendo sushi no Arkansas;
  • Força nº 8 – Internalização – O que é que aqueles caras de bermudão marrom andam fazendo;
  • Força nº 9 – In-formação – Google, Yahoo!, MSN Web Search;
  • Força nº 10 – Esteroides – Digital, móvel, pessoal e virtual.

Nos outros capítulos, Friedman examina as relações entre o Mundo Plano e os Estados Unidos, os países em desenvolvimento, as empresas e a geopolítica.

À medida que avançava na releitura, eram inevitáveis os paralelos com alguns livros que focalizaram aspectos tratados por Friedman, como O fim das distâncias, de Frances Cairncross, e O lado oculto das mudanças, de Luc de Brabandere. Nesses livros, os autores abordam um binômio enfatizado por Eduardo Giannetti num artigo escrito para um seminário realizado em 1996 pelo Instituto de Engenharia em São Paulo, que também tem o mérito de se manter bastante oportuno: a aceleração do tempo e a integração do espaço.

Relendo O Mundo é Plano agora, 10 anos depois, minha percepção é de que o livro continua oportuno, embora, evidentemente, o acelerado ritmo dos acontecimentos e das mudanças tenha transformado alguns dos exemplos nele mencionados, extraordinários uma década atrás, em situações corriqueiras e até, em alguns casos, ultrapassadas.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas

BAYARD, Pierre. Como falar dos livros que não lemos? Tradução de Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

BRABANDERE, Luc de. O lado oculto das mudanças: a verdadeira inovação requer mudança de percepções. Rio de Janeiro: Elsevier; Boston, MA: The Boston Consulting Group, 2006.

Cairncross, Frances. O fim das distâncias: como a revolução nas comunicações transformará nossas vidas. São Paulo: Nobel, 2000.

FRIEDMAN, Thomas. O mundo é plano: Uma breve história do século XXI. Tradução de Cristiana Serra e S. Duarte. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

GIANNETTI DA FONSECA, Eduardo. Globalização, transição econômica e infraestrutura no Brasil. Texto preparado para o Seminário “Competitividade na infraestrutura para o Século XXI”, promovido pelo Instituto de Engenharia, São Paulo, realizado em 24/09/96, reproduzido em Ideias Liberais, Ano IV, N° 62, 1996.

______________ A globalização e a aceleração do tempo. Publicado em Folha de S. Paulo, 10/4/94. Reproduzido em As partes & o todo. São Paulo: Siciliano, 1995, pp. 95 – 98.

TOFFLER, Alvin. A terceira onda. Tradução de João Távora. 26ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.

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