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“Nunca fui como todos/ Nunca tive muitos amigos

Nunca fui favorita/ Nunca fui o que meus pais queriam

Nunca tive alguém que amasse/ Mas tive somente a mim

A minha absoluta verdade/ Meu verdadeiro pensamento

O meu conforto nas horas de sofrimento/ Não vivo sozinha porque gosto

E sim porque aprendi a ser só” (Florbela-Espanca- Solidão)

Nestes 20 anos atuando como analista e psicólogo clinico, tenho notado uma crescente queixa em consultório sobre solidão. Tem sido rotineiro, comum ver que as pessoas reclamam cada dia mais da solidão, da dificuldade de ter vínculos, de estabelecer novas amizades, de criar laços afetivos. O dito por Vinicius de Moraes “mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”, foi esquecido.

O primeiro grande fator que colabora com essa solidão é a timidez, que oculta por trás da personalidade o orgulho e a vaidade, o extremo da auto-importância, a cobrança exacerbada no que os outros vão pensar. Todo tímido sofre por antecipar a cobrança alheia, por ser perfeccionista. O pensamento: “A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”, proposto por  Arthur Schopenhauer exprime bem a temática.

O segundo fator de solidão hoje está nas pessoas que têm bom senso e/ou uma capacidade intelectual avançada. Ser racional em uma sociedade hedônica é extremamente complicado, principalmente se a inteligência é usada contra o próprio indivíduo que se isola em uma autocobrança. Pensar no meio do senso comum dói, especialmente no ápice de nossa educação bancária e de todo analfabetismo funcional. Ironicamente poderíamos citar Aristóteles: “O homem solitário é uma besta ou um deus!”

O terceiro fator liga-se diretamente a algumas doenças mentais, como a depressão, a distimia, o transtorno bipolar, a esquizofrenia, o pânico, patologias que tornam o isolamento inevitável, sobretudo quando não tratadas. A ruptura da consciência e da identidade é o descrito pela escritora Clarice Lispector: “E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão”.

Por último a solidão aparece especialmente quando existem problemas na estrutura da personalidade mais severos, como o egoísmo, a apatia, a falta de percepção do outro e de suas necessidades, a ruptura com vínculos sociais em um ciclo hedônico de vida, no qual muitos partem para um estado agressivo e de falta de educação, que demarca as grandes rupturas.

Todavia nada desses fatores é mais forte que a ilusão de se estar sozinho. O sentimento de autocomiseração, de autopiedade, o sentir-se o coitado dos coitados, como o descrito por Cecília Meireles em “Da solidão”. O abandono interior do amor próprio na busca de colo e conforto. Solidão é viver de mal com o mundo.

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