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Bruno Garschagen - Ciência Política -

As acusações apresentadas por Nikita Kruschev contra Josef Stálin no dia 25 de fevereiro de 1956 durante o 20º Congresso do Partido Comunista (PC) da União Soviética foram um ponto de inflexão da história do socialismo. O que deveria ser um relatório secreto, em três meses ficou conhecido internacionalmente.

Kruschev, outrora íntimo e depois sucessor, não apenas desancou o culto à personalidade e a brutalidade de Stálin, mas forneceu informações chocantes de milhões de pessoas presas e assassinadas a mando do ditador entre 1937 e 1938 porque acusadas falsamente de crimes antirrevolucionários. Ele também ordenou a prisão e a morte de 98 dos 139 membros do Comitê Central eleitos. A besta russa mandou matar quase todos os seus camaradas de revolução. Sem adversários ou inimigos vivos, pode desenvolver seu projeto infame de poder.

Mesmo com todas as informações fornecidas por Kruschev, a maior autoridade política do PC, muitos comunistas dentro e fora da Rússia não acreditaram. Sentiram um misto de estupefação e negação. No Brasil, uma parcela dos camaradas continuou a vê-lo como “guia sábio, infalível e companheiro” enquanto outra parcela, desiludida, ou rompeu com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) ou com a própria ideologia. A direção do PCB, por sua vez, calou-se diante do conteúdo do relatório e muitos limitaram-se a atacar a “imprensa burguesa” que publicou o documento.

Passados mais de 60 anos desse episódio, os socialistas brasileiros que apoiam o PT comportam-se de forma similar quando se trata do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Diante da condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, intelectuais, professores, artistas, estudantes e os demais suspeitos de sempre negam que Lula tenha cometido os crimes pelos quais foi condenado e acusam o juiz Sergio Moro de perseguição política. Muito antes da condenação, já recusavam-se a aceitar que o ex-presidente sabia sobre os – e participou dos – esquemas de corrupção envolvendo o seu governo e pessoas de sua confiança.

O jornal O Globo ouviu algumas dessas pessoas e o que elas disseram parece vir de personagens de O Alienista.

O diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa qualificou a sentença de “primeira ação política anti-Lula de Moro”. Zé Celso, célebre pela maneira estupefaciente com que fala e encena, ainda definiu a condenação como “um ato político muito acima da lei” e que serve a um propósito muito bem definido: “barrar a candidatura de Lula à Presidência do Brasil”. Mas a melhor parte ainda estava por vir: “o mesmo golpe chamado Impeachment agora está em plena agonia, pela devastação que vem causando aos direitos humanos, torturando os corpos humanos dos que vivem no Brasil do andar debaixo”. Repetindo: para José Celso, o impeachment de Dilma Rousseff provocou uma devastação nos direitos humanos e torturou os corpos dos pobres.

O cineasta Luiz Carlos Barreto acompanhou o torpor ideológico. Afirmou que a reforma trabalhista faria o “Brasil regressar à era pré-Revolução Industrial da Inglaterra” para em seguida negar a realidade: “condenar sem provas o maior líder popular do país é um complô de agitação para jogar o Brasil numa convulsão social. Voltamos à escravatura. Considero o Moro um terrorista”. A condenação de Lula, para Barreto, equivale à escravidão dos negros; a sentença de Moro, a um atentado do Estado Islâmico.

Barreto foi produtor da hagiografia chamada “Lula, o filho do Brasil”, dirigida por seu filho Fábio Barreto. Um dos mais caros filmes do cinema brasileiro, foi financiado, sem uso de lei de incentivo, pelas empreiteiras Odebrecht, Camargo Corrêa e OAS, todas envolvidas no esquema de corrupção revelado pela Lava Jato, e pela EBX, do empresário Eike Batista, que esteve preso em Bangu e hoje cumpre prisão domiciliar sob acusações de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB).

Cantora e autora do já esquecível clássico “samba contra o golpe”, Beth Carvalho quebrou a cuíca ao declarar: “um absurdo que isso aconteça nesse mesmo momento em que perdemos as conquistas de Getúlio Vargas para os trabalhadores. Lula foi condenado sem provas, não querem que ele seja candidato a presidente, sabem que ele vai ganhar a eleição. O processo foi todo conduzido de forma falsa, todo baseado em mentiras”. Além de petista, lulista, dilmista, Beth Carvalho também é varguista, o que faz todo o sentido.

O cineasta Kleber Mendonça Filho, que provocou frêmito em Cannes no ano passado não pelo seu filme Aquarius, mas por defender a ex-presidente Dilma Rousseff, ratificou o estado de negação de seus colegas artistas: “sem provas, uma vergonha, mais uma num país que desrespeita cada vez mais a cidadania”. Melhor não sabermos o que Mendonça Filho entende por cidadania.

A atriz Silvia Buarque declarou-se estarrecida. “É uma condenação política. São provas frágeis. Mas é uma condenação que já estava prevista por conta do golpe que afastou Dilma Rousseff da presidência”. Estarrecido fiquei eu com a declaração da atriz, que é filha do petista, cantor e compositor Chico Buarque e neta de um dos membros-fundadores do PT, Sergio Buarque de Hollanda, autor de Raízes do Brasil.

O diretor de teatro Aderbal Freire-Filho manteve a narrativa que, à maneira dos comunistas diante dos horrores perpetrados a mando de Stálin, nega o fato (os crimes de Lula) e ataca o magistrado (Sergio Moro): “É infame que esse juiz cuja parcialidade vem de longe seja considerado um herói por cumprir seu papel coadjuvante e nojento numa grande conspiração para destruir um líder político admirado no mundo (Brics, G-20 são exemplos) por ter feito o Brasil crescer sem penalizar seu povo. (…) É normal que o mesmo juiz que agora condena Lula sem provas absolva a cúmplice de um deputado preso, com todas as provas”. Eleitor do PT, Aderbal escreveu um texto em 2014 para dizer que a mudança era o que mais o inspirava a votar em Dilma Rousseff. Ele não perdeu o voto. A partir de Dilma, as coisas mudaram para muito pior.

Para coroar esse extraordinário mundo paralelo dos petistas, o não menos extraordinário deputado federal Jean Wyllys deixou sua marca ao falar num vídeo como se verdade fosse uma piada viralizada nas redes sociais: a de que Moro teria imposto a pena de 9 anos e meio de prisão pela quantidade de dedos das mãos do ex-presidente.

Como se vê, a condenação de Lula anabolizou o Festival de Besteira que Assola a Esquerda Brasileira (foi mal, Stanislaw Ponte Preta). E é com o humor stanislawisko que termino este artigo parodiando Hegel citado por Marx em O 18 de Brumário de Napoleão Bonaparte: todos os pequenos fatos e todos os minúsculos personagens da história do Brasil são encenados, por assim dizer, duas vezes, a primeira como mentira, a segunda como farsa.

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