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Gustavo Bertoche - É preciso lançar pontes. -
Nos dois últimos fins-de-semana, milhões de candidatos ao ensino superior realizaram as provas do ENEM.
O vestibular é o telos do ensino fundamental e médio no Brasil. As escolas privadas assumem explicitamente que todo o seu ensino visa primordialmente à preparação para as provas de acesso ao ensino superior. As escolas públicas fazem o mesmo, geralmente com menos sucesso. E até os PCN, que estabelecem o que deve ser ensinado em cada etapa escolar, seguem essencialmente o programa definido pelos vestibulares desde os anos 60, 70 e 80.
O que ninguém diz é que o modelo de ingresso no ensino superior por meio de provas que abrangem uma quantidade sobre-humana de conhecimentos não mede nada além da capacidade de concentração, memorização e repetição. Não é por acaso que os professores mais reputados nos cursinhos preparatórios são justamente os especialistas em mnemotécnica: são aqueles que criam os poemas mais picantes para se decorar a Tabela Periódica, que inventam as melhores musiquinhas para se guardar várias fórmulas de física e que adestram os alunos com esquemas pré-fabricados de redação para qualquer tema.
Neste nosso modelo, o bom candidato se torna profundo conhecedor… de métodos de realizar provas. E, por não ter compreendido realmente nada, no dia seguinte ao vestibular se esquece de tudo o que passou dez anos estudando.
* * *
Não é de hoje: a escolarização como sinônimo de preparação para provas é um dos maiores desastres pedagógicos modernos.
Isso é particularmente verdadeiro no Brasil: nossos escritores, desde o século XIX, ironizam a cultura do bacharelismo – na qual valoriza-se mais o documento de papel do que o conhecimento que o documento deveria atestar. Na educação, o bacharelismo apresenta-se como o fetiche da nota.
Uma breve história ilustra como a cultura do estudo para as provas é capaz de destruir a inteligência de um povo.
O físico norte-americano Richard Feynman, prêmio Nobel em 1965, visitou o Brasil inúmeras vezes entre 1949 e 1966. Em sua autobiografia, “Surely You’re Joking, Mr. Feynman”, conta um episódio revelador da nossa cultura escolar.
Em 1951 e 1952, Feynman lecionou, como professor convidado, na Universidade do Brasil (que viria a ser posteriormente chamada de UFRJ). Em 5 de maio de 1952, apresentou uma conferência sobre “O Ensino de Física no Brasil” no Salão Nobre da Faculdade de Filosofia.
Essa conferência causou impacto nos acadêmicos presentes. Nela, Feynman descreveu o seu desconcerto inicial com os alunos brasileiros: eles não sabiam responder a nenhuma pergunta cuja resposta não estivesse explícita nos manuais – contudo, eram considerados bons estudantes. Tiravam boas notas nas provas, mas não sabiam explicar as teorias que haviam aplicado. E os poucos alunos que eram capazes de realmente compreender o que faziam haviam realizado sua formação fora do ambiente universitário brasileiro.
Ao final da conferência, Feynman declarou, explicitamente, que não existia ciência no Brasil; que, a despeito de haver uma instituição chamada “universidade”, não havia nenhuma universidade de fato; e que não entendia a existência de um sistema educacional no qual as pessoas passavam em provas e ensinavam os outros a passar em provas, mas ninguém aprendia realmente nada. Feynman concluiu que já esperava que o sistema de ensino superior do Brasil fosse deficiente, mas não estava preparado para descobrir que era 100% ruim.
Isso não foi ontem. Aconteceu há 66 anos.
* * *
Amigos, o governo do Bolsonaro não tem a menor pista do que deve fazer em relação a isso.
Falou-se em militarizar as escolas públicas. Com isso, em vez de um péssimo ensino com alunos indisciplinados, teremos um péssimo ensino com alunos obedientes às ordens de quem fala grosso.
Falou-se também em adotar o sistema de “vouchers” – em que o governo paga a mensalidade de alunos em escolas privadas. Ora, o problema não é o ensino público; o ensino privado brasileiro também é uma piada. E não nos esqueçamos de que as escolas públicas em que os professores são melhor remunerados – como os institutos federais – são justamente aquelas em que a qualidade não é horrenda, mas somente ruim. Desmontar-se-á o ensino público, pagar-se-á muito bem aos conglomerados escolares, e tudo continuará a ser uma bela porcaria.
O fim do MEC, com a conseqüente eliminação de um currículo nacional, também não resolverá nada. Afinal, as nossas escolas continuarão perseguindo o fetiche do vestibular.
Em suma: é muitíssimo provável que o ensino recebido pelos jovens brasileiros continue em sua espiral de decadência nos próximos anos.
* * *
A liberalização do sistema escolar, com a desregulamentação e a privatização das instituições – e a conseqüente absorção de milhares de escolas em grandes conglomerados econômicos -, pode resolver o problema da instrução, mas nunca resolverá o problema da educação. Na verdade, a mercantilização do ensino somente tende a agravá-lo.
Isso porque o velho clichê que diz que a educação não é um negócio está correto. Nas mãos invisíveis do mercado, a educação tende a se transformar em mera instrução, em seu lado mais virtuoso, ou em venda de diplomas, em seu lado mais selvagem. Efetivamente, nenhum capitalista deseja formar senão bons funcionários para a indústria, o comércio e o setor de serviços – e que sejam também consumidores ávidos por novidades. Mas não interessa ao mercado que os seus empregados tenham idéias próprias, que não acatem a ordens imorais, que denunciem o patrão que comete ilegalidades e que lutem por direitos civis e políticos. Interessa ainda menos que as pessoas simplesmente se recusem a ser engrenagens substituíveis do sistema e que abandonem o consumismo em benefício de uma vida mais simples.
Por essa razão, não podemos dizer que a formação profissionalizante fornecida em todo o sistema educacional brasileiro seja efetivamente educação senão por metonímia. A formação para o mercado se parece com a educação, tem alguns elementos da metodologia da educação, mas é coisa bem diversa. Não emancipa o homem, mas aprisiona-o numa caverna da qual é difícil escapar – pois essa caverna, cheia de prateleiras nas quais os prazeres são vendidos a preços sempre acessíveis, assemelha-se à liberdade. O homem instruído para o mercado de trabalho, e por isso necessariamente não educado, não cultivado, é precisamente o que Ortega, à direita, chamava de “homem-massa” e Marcuse, à esquerda, chamava de “homem unidimensional”.
Concordo com Dermeval Saviani: a verdadeira educação é a reconstrução de toda a civilização em cada ser humano. A educação visa à ascensão de cada criança, de cada jovem, a partir de sua circunstância social, econômica e histórica, ao diálogo e à participação com toda a civilização humana – ou seja: à absorção da ciência, da literatura, da arte, da história, de toda a cultura da humanidade em cada indivíduo. A educação é a expansão do singular ao universal.
* * *
Nesse sentido, a orientação curricular do ENEM evidentemente não corresponde a nenhum projeto verdadeiramente educacional. Na verdade, ela indica as “competências e habilidades” necessárias para a formação do funcionário-padrão do século XXI: é preciso saber manejar minimamente – mas só minimamente – a língua portuguesa, uma língua estrangeira, ter alguns conhecimentos de almanaque das humanidades e utilizar a matemática e as ciências naturais para resolver problemas técnicos. Exatamente de acordo com a proposta de Gary Becker e da Escola de Chicago de que ensino escolar seja tomado como um recurso econômico com o propósito de criar o “capital humano” capaz de incrementar o PIB.
Em outras palavras: o currículo escolar brasileiro, todo direcionado aos vestibulares e ao ENEM, favorece precisamente o que o mercado procura – isto é, a mera instrução, e instrução por repetição, o que é precisamente a anti-educação.
* * *
Como é possível vencer a lógica da anti-educação na escola brasileira? Como é possível romper com décadas de um ensino que, como denunciou Richard Feynman já em 1952, se especializou em formar fazedores de provas?
Eliminando o vestibular. ELIMINANDO o vestibular.
Ora, por que a São Paulo sozinha tem o dobro de automóveis da Argentina inteira, mas Buenos Aires sozinha (com 2,8 milhões de habitantes) tem o dobro de livrarias de de São Paulo (que tem 11,2 milhões de habitantes)? Por que o nível cultural da Argentina não decai, ainda que política e economicamente estejam, há pelo menos vinte anos, em uma situação ainda mais difícil do que a nossa?
Entre as razões da permanência da educação na Argentina, ainda que tudo em volta esteja difícil, sobressai uma: eles não têm vestibular. E, por conseguinte, as escolas não são obrigadas a ensinar quase que exclusivamente a fazer provas – elas têm a liberdade de educar. Na Argentina, ensina-se nas escolas algo que é impensável no Brasil: ensina-se cultura, ensina-se civilização.
“Como assim? Não há vestibular? Como se seleciona quem cursará a universidade?”
Simplesmente não se seleciona. O jovem argentino termina o ensino médio e imediatamente efetua a matricula no curso de sua preferência – seja Filosofia, Engenharia ou Medicina.
Em vez de uma única prova que determinará todo o seu futuro, ele fará as avaliações semestrais do seu curso – e nelas não poderá falhar.
“Ah, mas na Argentina é mais fácil: eles têm muito menos estudantes do que o Brasil…”
E o Brasil tem muito mais universidades – e professores, e dinheiro – do que a Argentina. Ademais, hoje em dia, com todos os avanços da tecnologia de comunicação, seria perfeitamente possível a um único professor titular, em tempo real, lecionar para cinco, dez ou vinte mil alunos em centenas de salas de aula em todo o país; o problema das aulas práticas, nos cursos em que elas existem, poderia ser perfeitamente resolvido por professores assistentes em campi diversos.
* * *
“Mas é preciso selecionar de algum modo… como assim, quem quiser cursar medicina na USP só precisa se matricular?”
Ora… essa pergunta, no fundo, equivale a uma outra: “então eu investi centenas de milhares de reais com escolas e cursos para que o meu filho estude junto ao filho da empregada?”
Se fosse só por isso, já valeria a pena adotar um modelo de acesso ao nível superior como o argentino. Afinal, o nosso modelo é o epítome da injustiça social, é a distribuição de renda ao contrário: é quase sempre o pobre pagando a faculdade do rico.
Mas é por muito mais: é pela possibilidade de, pela primeira vez, o país poder se preocupar menos com provas e títulos e mais com a invenção da nossa própria civilização.
Afinal, a única civilização que uma república de bacharéis incultos pode gerar é uma civilização macunaímica, que, antropofagicamente, macaqueia – sem jamais compreender – os sinais externos da vida intelectual dos outros povos.
* * *
Reconheço a improbabilidade da extinção do ENEM. Gente muito poderosa investiu muito dinheiro em conglomerados educacionais – escolas, universidades, cursinhos. Eles dependem da existência dos vestibulares – seja para encher escolas preparatórias com os filhos dos ricos que obterão as vagas mais disputadas, seja para lotar universidades particulares com os pobres que ficarão para trás. De fato, todo o investimento desses grupos bilionários na mercantilização do ensino iria, num instante, por água abaixo se, no nosso país, todos tivessem acesso livre à universidade gratuita – e, conseqüentemente, se as escolas pudessem, pela primeira vez em nossa história, começar a educar.

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