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O Brasil e a Indústria 4.0

O Brasil e a Indústria 4.0

Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

O Brasil e a Indústria 4.0

O País está preparado para o futuro?

 

“O analfabeto do século XXI não será aquele não sabe ler nem escrever, mas aquele que não for capaz de aprender, desaprender e reaprender.”

Alvin Toffler

Diversas foram as instituições de ensino que dedicaram suas semanas acadêmicas e/ou revistas institucionais ao tema da Indústria 4.0, também chamada por algumas pessoas de 4ª Revolução Industrial ou ainda de Manufatura Avançada, tendo como enfoques complementares questões como empreendedorismo e inovação.

De acordo com Luiz Carlos Maciel,

a revolução foi delineada há pouco mais de cinco anos, na Feira de Hanover de 2011, na Alemanha. Naquele ano, a maior exposição tecnológica do mundo se destacou menos por mostrar equipamentos inovadores voltados para tarefas específicas – e mais por difundir a promissora ideia de que os avanços obtidos em várias frentes de pesquisa até então, devidamente organizados e coordenados, poderiam representar um salto de produtividade tão espetacular no médio prazo, nos mais diversos setores, a ponto de marcar o início de uma nova era industrial.

Mudança de tal magnitude, que se constitui numa verdadeira mudança de paradigma, na concepção consagrada por Thomas Khun no clássico A estrutura das revoluções científicas[1], gerou desde logo enorme polêmica, contrapondo os que concordavam com a hipótese àqueles que a consideravam evidente exagero.

O tempo foi passando, as mudanças que eram então incipientes foram ganhando corpo, e o debate acerca do tema também evoluiu, com personagens respeitadas de lado a lado.

Um dos nomes que defendem a ideia de uma nova revolução tecnológica com mais ênfase é o do fundador e CEO do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab. Num livro que rapidamente se transformou em referência sobre o assunto, em que afirma que “a Quarta Revolução Industrial promove uma fusão de tecnologias, borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”, ele justifica seu ponto de vista da seguinte forma:

Estou bastante ciente de que alguns acadêmicos e profissionais consideram que essas inovações são somente mais um aspecto da terceira revolução industrial[2]. Três razões, no entanto, sustentam minha convicção da ocorrência de uma quarta – e distinta – revolução:

Velocidade: ao contrário das revoluções industriais anteriores, esta evolui em um ritmo exponencial e não linear. Esse é o resultado do mundo multifacetado e profundamente interconectado em que vivemos; além disso, as novas tecnologias geram outras mais novas e cada vez mais qualificadas.

Amplitude e profundidade: ela tem a revolução digital como base e combina várias tecnologias, levando a mudanças de paradigma sem precedentes da economia, dos negócios, da sociedade e dos indivíduos. A revolução não está modificando apenas o “o que” e o “como” fazemos as coisas, mas também “quem” somos.

Impacto sistêmico: ela envolve a transformação de sistemas inteiros entre países e dentro deles, em empresas, indústrias e em toda sociedade.

Entre os que discordam dessa posição está o Prof. David Kupfer, especialista em Economia Industrial e diretor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para quem no ainda tímido debate sobre a Indústria 4.0 no Brasil, “predomina um enfoque no qual a manufatura avançada [ou Indústria 4.0] é vista como uma tecnologia disruptiva, algo como o vetor de uma nova Revolução Industrial como foram, a seus respectivos tempos, a máquina a vapor na 1ª, a energia elétrica e a química na 2ª ou os semicondutores e a informática na 3ª”.

Para Kupfer, no entanto,

não há razão para se acreditar que esse seja o entendimento mais correto. A Indústria 4.0 é muito mais um elenco de inovações incrementais que decorrem da incorporação e, principalmente, da integração de tecnologias já disponíveis ou emergentes e que, portanto, já fazem parte do estado da arte. Assim, seus desafios estão muito mais no plano da escalagem e massificação do uso do que no desenvolvimento inovativo propriamente dito.

Nesse sentido, complementa:

Por isso, a melhor analogia para abordar a Indústria 4.0 é com o que nos anos 1980 se chamou de pós-fordismo, toyotismo, produção enxuta ou qualidade total. São tecnologias organizacionais que não dizem respeito ao que se produz e, sim, a forma como se produz. Como tal, embora os fóruns de debate sejam frequentemente dominados pela ênfase no lado da produção dessas inovações, a Indústria 4.0 é, fundamentalmente, uma questão ligada à difusão dessas novas técnicas, que dizer, algo que está do lado do uso da tecnologia.

Luiz Maciel, por sua vez, na matéria para o caderno especial do Valor Econômico, já mencionada neste artigo, opõe-se a todos que consideram exagerada a ideia de uma quarta revolução tecnológica.

Não era exagero. As empresas que investiram na futurista possibilidade de integrar pessoas e máquinas num sistema de produção apoiado pelas últimas conquistas da robótica, da internet das coisas, da impressão em 3D e da tecnologia da informação –que deu forma ao big data, o fantástico banco de dados na nuvem, acessível a qualquer interessado – estão colhendo resultados altamente positivos. Diminuíram o número de horas paradas, aprimoraram o controle sobre o desempenho e o desgaste das máquinas, cortaram etapas que não dependem mais da intervenção humana, otimizaram as operações de entrega de insumos por fornecedores e reduziram drasticamente o desperdício e a geração de resíduos.

Como fica claro apenas por essas colocações, o debate está aberto e, independentemente de saber quem está certo e quem está errado, se estamos diante de mudanças incrementais ou disruptivas – na tipologia de Clayton Christensen –, uma coisa é certa: as mudanças em curso terão impacto profundo no mundo do trabalho, com o surgimento de novas profissões e o encolhimento ou até mesmo a extinção de algumas atividades, exigindo aperfeiçoamento e reciclagem constantes, o que implica em necessidade de adaptação não apenas de trabalhadores, empreendedores e empresários, mas também das instituições responsáveis por sua formação – escolas, faculdades e universidades.

Estará o Brasil preparado para essa realidade que vai se impondo num ritmo avassalador?

Também sobre isso, está longe de haver consenso. Nas leituras e nos eventos de que tive oportunidade de participar, me deparei com opiniões divergentes a respeito, algumas otimistas, outras – provavelmente em maior número – pessimistas.

O Prof. David Kupfer, por exemplo, reconhece que, se por um lado, “o caráter transversal dessa onda de mudanças que está em curso acena com múltiplas oportunidades”, por outro, “o desafio brasileiro para surfá-la precisa ser enfrentado a partir do diagnóstico de que boa parte da indústria nacional ainda está no estágio 2,0, tendo conseguido incorporar as técnicas relacionadas à produção enxuta de 30 anos atrás mas apresentando importantes defasagens em tecnologias da informação e comunicação, que caracterizam o estágio 3.0”. O professor complementa: “Isso significa que será necessário, mais uma vez, queimar etapas, resultado que dificilmente será alcançado sem uma extensa construção institucional, pública e privada, voltada para fomentar esse processo”.

Por fim, mas não menos importante, será necessário também um planejamento estratégico digno desse nome (algo raro no Brasil), indispensável coordenar todas essas ações e para superar os gargalos regulatórios e de infraestrutura tecnológica, assim como os entraves burocráticos e o complexo sistema tributário que têm comprometido fortemente a competitividade das empresas brasileiras.

Em suma, num país que atravessa um difícil momento de transição, este é mais um desafio que não pode ser deixado de lado.

Iscas para ir mais fundo no assunto

Referências e indicações bibliográficas

ARAUJO, Anna Gabriela. Atenção: apertem os cintos porque o mercado sumiu! Revista da ESPM, ano 22, edição 105, nº 5, setembro/outubro 201632-35.

CHRISTENSEN, Clayton M. O Dilema da Inovação. Tradução de Edna Emi Onoe Veiga. São Paulo: Makron Books, 2001.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 1982.

MACIEL, Luiz. A quarta fase do avanço. Valor Econômico. Caderno especial sobre Inovação. Novembro de 2016, pp. 6-12.

SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Tradução de Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro, 2016.

Referência webgráfica

KUPFER, David. Indústria 4.0. Disponível em https://fernandonogueira.wordpress.com/2016/09/23/industria-4-0-por-david-kupfer/.

[1] “Paradigmas”, para Thomas Khun, “são as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”.

[2] “A terceira revolução industrial”, segundo Klaus Schwab, “começou na década de 1960 e costuma ser chamada de revolução digital ou do computador, pois foi impulsionada pelo desenvolvimento dos semicondutores, da computação em mainframe (década de 1960), da computação pessoal (décadas de 1970 e 1980) e da internet (década de 1990)”.

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