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                                   Em show realizado dia 8 em Cuiabá, o grupo Titãs teve uma atitude no mínimo curiosa: Lá pelas tantas, uma parte dos fãs presentes puxou um coro de “fora Dilma”. Os músicos não gostaram, e depois do discurso moralizador do vocalista Paulo Miklos, pedindo respeito à presidonta, à democracia (?!) incluíram no repertório a música Desordem, não prevista naquela noite. A letra dela recrimina quem deseja “criar desordem”. Alguns (os de sempre) elogiaram a “educação” e a “elegância” do grupo. Ora vejam só.

                                   Bons tempos em que os Titãs tinham uma postura muito diferente; não sempre correta, nem sempre perfeita, mas verdadeira. Não essa, comprada em prateleira de supermercado fuleiro com o rótulo de Banda Chapa Branca. Na verdade, houve tempo, não distante, em que esses senhores, atuais defensores empedernidos da moral e dos bons costumes, pensavam de maneira muito diferente, como expressaram na música Vossa Excelência, de 2005:

Estão nas mangas dos Senhores Ministros
Nas capas dos Senhores Magistrados
Nas golas dos Senhores Deputados
Nos fundilhos dos Senhores Vereadores
Nas perucas dos Senhores Senadores
Senhores!
Senhores!
Senhores!
Minha Senhora!
Senhores!
Senhores!
Filha da Puta!
Bandido!
Corrupto!
Ladrão!

Sorrindo para a câmera
Sem saber que estamos vendo
Chorando que dá pena
Quando sabem que estão em cena
Sorrindo para as câmeras
Sem saber que são filmados
Um dia o sol ainda vai nascer
Quadrado

Isso não prova nada!
Sob pressão da opinião pública
É que não haveremos de tomar nenhuma decisão!
Vamos esperar que tudo caia no esquecimento
Aí então…
Faça-se a justiça!
Estamos preparando vossas acomodações, Excelência.
Filha da Puta! Bandido!
Corrupto! Ladrão!

                                   Como se vê, a letra é de um respeito a toda prova, próprio de quem o exige de terceiros. Muito justo, claro. Muito coerente com a aula de educação ministrada aos cuiabanos, não?

                                   Mas não só eles mudaram radicalmente em relação ao poder. Muita gente ficou amiguinha de Dilma & Lula nos últimos anos. Luis Fernando Veríssimo, por exemplo, abandonou o tom crítico e irônico em relação a governos passados e, por pura e absoluta coincidência, é hoje o escritor vivo que mais vende livros ao Ministério da Educação e Cultura. Chegou a “matar” sua personagem A Velhinha de Taubaté, sempre a ironizar ex-presidentes – até 2003. Depois tornou-se franco adesista, alcançando as glórias e benesses afeitas a todos os que enveredam por tais caminhos.

                                   Duas frases, emblemáticas, decodificam muito bem tais intenções. Uma é do grande Millôr, que dispensa apresentações: “Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal”. A outra é do brasilianista americano Richard Moneygrand: “O Brasil só vai sair do atoleiro quando aceitar que existe realidade”. Com alto poder de síntese, os dois aforismos se bastam, sendo o restante apenas a velha gravitação geral dos insetos ao redor da lâmpada, de uma interminável e estéril variação sobre o tema.

                                   Engraçado: Fora Collor era muito democrático e a lulada pedia (e conseguiu!), como exigiu fora FHC, fora Sarney, fora tudo. Mas fora Dilma, com todas as provas de corrupção e incompetência escancaradas… aí é golpe. Julgam-se professores de Deus. Devem descansar no sétimo dia.

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