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Alessandro Loiola -

Durante milênios, as sociedades caracterizaram-se majoritariamente por uma cultura agrícola de subsistência, com poucas cidades, poucas estradas, poucos sistemas de comunicação, pouco uso de dinheiro, pouca alfabetização e pouco comércio.

Apesar das idas e vindas dos Impérios Persa e Romano, do longo período do Califado e da aparência eterna das dinastias Chinesas, as sementes do que conhecemos como capitalismo foram plantadas pelo incremento dos mercados na Europa durante os séculos XIV e XVI.

Uma série de eventos cumulativos aqueceu o forno para o longo cozimento de 400 anos do capitalismo, tais como o crescimento da agricultura e da indústria a partir do século IX; a reconquista das rotas do Mediterrâneo (até então sob posse dos Califas); a queda abrupta e substancial na população agrícola no período que se seguiu à Peste Negra (que resultou em pressões sobre o sistema de produção feudal e alterou a balança de poder); as transformações ideológicas da Renascença e da Reforma; as grandes navegações; as guerras religiosas na Alemanha e na França; e as Revoluções na Holanda, Inglaterra e França.

Durante este tempo, o Estado da China mantinha o monopólio da economia e a Rússia convulsionava sob a fusão de duas tradições tirânicas – o absolutismo ortodoxo religioso e o despotismo tártaro -, o que inibiu o florescimento da economia de livre mercado nestas regiões. Na Europa Ocidental, por outro lado, o colapso completo da autoridade romana e as invasões bárbaras fraturaram a ordem vigente, permitindo a aparição do capitalismo.

À primeira vista, como o capitalismo baseia-se no livre comércio e este tende a treinar as pessoas para se preocuparem principalmente – ou apenas – com o progresso material, ele não parece necessariamente levar à evolução Moral. No capitalismo, as pessoas não buscam pela Verdade, ou pela beleza, pela honra, pela coragem ou pela sabedoria. Elas buscam conforto. Neste sentido, uma sociedade capitalista não difere muito de uma sociedade comunista: em ambas, a motivação dos indivíduos é atingir um determinado padrão material de vida – e só.

Segundo Max Weber, o ser humano não quer “por natureza” ganhar dinheiro e sempre mais dinheiro, mas simplesmente viver, viver do modo como está habituado a viver e auferir o necessário para tanto. Onde quer que o capitalismo moderno tenha dado início à sua obra de incrementar a “produtividade” do trabalho humano pelo aumento de sua intensidade, ele se chocou com a resistência infinitamente tenaz desta filosofia pré-capitalista, e choca-se ainda hoje por toda parte, tanto mais quanto mais atrasada é a mão-de-obra da qual se vê depender.

Maximilian Carl Emil “Max” Weber (1864–1920) – ou simplesmente Max Weber – é certamente um dos sociólogos mais influentes do século XX, junto com Karl Marx e Emil Durkheim, e suas teses o levaram a ser considerado um dos fundadores da Modernidade.Weber nasceu e foi criado em uma família próspera, cosmopolita e culta, e casou-se com uma intelectual pioneira dos movimentos ativistas pelos direitos femininos.

Em 1897, a morte de seu pai causou-lhe um colapso nervoso, levando-o a retirar-se da vida acadêmica em 1903. Com o início da Primeira Guerra Mundial, o envolvimento de Weber com a vida pública passou por uma reviravolta: inicialmente um fervoroso nacionalista e apoiador do conflito, o anteriormente pitiático Weber aos poucos se desiludiu com a política de guerra alemã, tornando-se um dos mais ferozes críticos do Kaiser.

Com a derrota da Alemanha em 1919, Weber foi alçado à fama como um líder intelectual, com excelentes credenciais democráticas e liberais. Contudo, sua oposição à Revolução Germânica e ao Tratado de Versalhes tornaram a ideia de uma carreira política insustentável e Weber retomou suas atividades acadêmicas, escrevendo vigorosamente. Infelizmente, este novo ciclo criativo foi interrompido em 1920, quando o surto de Gripe Espanhola levou-o à morte aos 56 anos de idade, por pneumonia, em Munique.

Confuso, prolixo e impreciso como parece ser de praxe em todo filósofo alemão, Weber foi inacreditavelmente explícito ao apontar que a ideia singular da profissão como um dever, uma obrigação que o indivíduo deve sentir, é característica da ética social da cultura capitalista. “O ganho desbragado sem vínculo interno com norma alguma” – afirmou ele no cansativo A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo –“sempre existiu em todos os períodos da história, onde quer e como quer que de fato fosse possível”.

“Quando o salário é insuficiente, a produtividade do trabalho cai e, no longo prazo, promove uma verdadeira seleção dos mais incompetentes” – escreveu Weber.Por isso, você deveria desistir de tentar debitar este pecado na conta do capitalismo: a ganância é parte de nossa natureza. Aceite este fardo com gratidão.

Por trás das forças condutoras da história, portanto, espreita uma ambição pueril que nos faz engendrar maneiras cada vez mais industriosas para resolver a penúria à nossa volta em busca de comodidade, influência, fama ou lucro.Escondido à sombra desta avareza, o mercado nos seduz com uma aptidão inevitável para o metacapitalismo proporcional ao amor que os Estados, democráticos ou não, nutrem em se deteriorar em Plutocracias.

Não surpreende, portanto, a facilidade com que a retórica das soluções pragmáticas do Realismo Moral de cunho socialista-comunista causa encantamento: seus “imperativos categóricos” e suas “verdades substantivas” são fundamentados em operações aritméticas simples, básicas, de resultados inteiros e sem casas decimais. Não existem variáveis, não existe heterogeneidade no comunismo – tudo é monoteísmo ideológico absolutista. Mas não é mais ou menos assim também que o opera o capitalismo democrático liberal?

Elimine-se do enunciado do problema comunista o termo “coletividade”, substituindo-o por “lucro”, e o resultado será tão idêntico quanto um gêmeo univitelino: todas as ações devem ter como objetivo o fomento do desenvolvimento e a proteção do bem-maior para a coletividade / o lucro. É em nome da coletividade / do lucro que as leis devem ser elaboradas; a política, construída; o cidadão, instruído; as instituições, preservadas; o futuro, planejado.

Vistos por esta ótica, comunismo e capitalismo são como Caim e Abel, Harry Houdini e Hardeen, Fredo e Michael Corleone, Mufasa e Scar, Cláudio e Hamlet – competem entre si, odeiam-se, vilipendiam-se, mas pertencem à mesma exata linhagem. Aqueles que advogam o capitalismo democrático e liberal citam os EUA – a nação mais rica do mundo atual e uma potência militar inquestionável – como exemplo de liberdade, dividendos e bonança. Aqueles que defendem o comunismo coletivista e ditador podem citar a China – segunda maior economia do planeta e com uma população equivalente a quatro EUA – como exemplo de objetividade, planejamento e disciplina.

Ao final do embate, com direito a graves acusações Morais e meia dúzia de xingamentos bilaterais, sobram silogismos de ambos os lados na mesma medida em que faltam entendimentos racionais entre as partes. A tirania opressiva do Grande Irmão está para o socialismo comunista assim como a ansiedade pelo Sucesso está para o capitalismo democrático- mas nenhum deles ousar apontar o dedo para os podres da família.

As defesas Morais do Capitalismo foram semeadas por John Locke, Adam Smith, Ludwig von Mises e Ayn Rand, entre outros medalhões da filosofia, e podem ser reunidas em seis argumentos principais:

1 – LIBERDADE

2 – DIGNIDADE

3 – DISPERSÃO DO PODER

4 – HUMANITARISMO

5 – RESPONSABILIDADE

6 – PRAGMATISMO

(continua num próximo post)

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