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Suely Pavan Zanella - Iscas Comportamentais -

Meio Que Por Acaso

acaso

Foi assim, meio que por acaso, que o técnico de celular se tornou estilista do funk e hoje exporta suas roupas para Nova Iorque. Foi assim, meio que por acaso, que eu há mais de dez anos resolvi escrever textos falando sobre o cotidiano e enviado-os por e-mail para um grupo seleto de amigos, e hoje escrevo textos e mais textos. Foi também assim, meio que por acaso, que ela começou a fazer unhas ou brigadeiros para ajudar a família, e hoje tem suas próprias empresas.

Há quem planeje carreiras e até horários para descanso de forma meticulosa criando planilhas e agendando minutos. Outros começam as coisas assim: meio que por acaso.

Muitas coisas são feitas no momento de descanso, onde a criatividade corre solta. É aí que o talento se expande e o reconhecemos, também meio que por acaso.

É o rapaz que desenha depois de voltar do trabalho enfadonho, é o outro que escreve e tem um blog, é a moça que é líder nos esportes… É uma brincadeira que pouco a pouco vai se tornando realidade. É aquilo que nos dá prazer, tesão, e nunca cansa. Seria o lugar real do trabalho em nossas vidas. É nossa alma clamando por fazermos algo que nem sequer percebemos fazer. Apenas o fazemos. Isso não é uma delicia?

Quantos frutos não nascem destas coisas feitas meio por acaso?

Quando as pessoas reclamam nas sessões de coaching ou psicoterapia dos trabalhos chatos ou estressanes que tem, sempre lhes faço a mesma pergunta: Porque você não faz o que gosta?

Normalmente a pergunta é entendida literalmente, a pessoa entende que eu esteja sugerindo que ela mude de emprego ou coisa do gênero. Há muitos anos escrevi sobre isso, e lembro dos comentários a meu texto – a maioria deles dizia que aquilo que eu propunha era romântico e inviável. Uma pena!

Mas do que eu falava? Dizia que no nosso tempo livre podemos fazer o trabalho que quisermos, já que ele não parece trabalho. Podemos pintar, escrever, estudar, interpretar, cantar, e sei lá mais o quê. Podemos também ter uma atividade voluntária através daquilo que nos faz bem. O que as pessoas não entendem é que nestas atividades que fluem como água estão escondidos os nossos verdadeiros talentos profissionais. Aqueles que ficam escondidos, muitas vezes atrás das portas dos grandes edifícios empresariais, que deixam nossos talentos nas ruas ao invés de aproveita-los.

O trabalho deve ser a expressão da alma, disse certa vez Moreno, o criador do Psicodrama. E quanto mais distantes estamos de nossa alma, maior também será o nosso adoecimento. Trabalhos nos tempos primitivos era subsistência, mas também expressão.

Já notei, por exemplo, que quando eu fico muito tempo sem dar aulas, cursos ou palestras vou ficando apagada, meio doente. Ao passo que já fui dar aulas, cursos e palestras muito doente, e sai do local curada. Sim, curada! É como se lá naquele local mágico e estando onde gosto de estar, junto às pessoas, eu esquecesse de tudo. E como se este prazer imenso, que só a troca cara a cara com os humanos proporciona, me fizesse tão bem que eu me curasse , contrariando até os médicos que diziam para eu ficar quieta e de cama.

É assim que funciona o meio por acaso. Ele não está atrelado a uma atividade extra para ganhar dinheiro. Ele ocorre aos poucos. No momento em que a maioria dorme, o outro sonha acordado e percebe o que nasceu ou está predestinado para realizar. Talvez até ele nunca ganhe um centavo com isso, mas com certeza transformará a sua vida e a dos outros. Pode até ser que se torne um milionário. A verdade é que quem funciona do jeito “meio por acaso” não está pensando nisso. Quer apenas fazer o que sente que precisa fazer, e mais nada.

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