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Chiquinho Rodrigues -

Não sei se eu já contei, mas tenho um irmão que é do “Disco” (é assim que as pessoas do mercado fonográfico se definem, mesmo até hoje, fabricando CDs)

Esse meio é muito maluco e nele cabe toda a espécie de membros; vendedores, lojistas, produtores, divulgadores, chefes de vendas, diretores, bicos, e todo o pessoal da fábrica, prensagem e distribuição.

O nome do meu irmão é Wilson Rodrigues Poso e ele já foi diretor da Continental Discos, da RGE Discos, da K-Tel, da Band Music, Foi ele o cara que trouxe a Elis Regina (com seus 17 anos) pra gravar seu primeiro álbum em São Paulo, lançou os Secos e Molhados, Agepê, Amado Batista (só pra citar alguns nomes) e tem um puta monte de histórias sobre o mundo do “Disco”, sucessos e decepções que devagarzinho vou aqui contar pra todo mundo.

Bom… Não preciso nem dizer no que se transformou esse mercado depois do advento da pirataria,  né?

Eu me lembro do fascínio que eu sentia quando passava de ônibus pela Avenida do Estado bem defronte à Continental Discos.

No térreo do prédio é onde ficava a fábrica. Ele era todo feito de vidro transparente e de lá de fora a gente podia ver os operários trabalhando e os discos de vinil sendo prensados.

Nessa época a Continental tinha um acordo de representação do selo Warner Music. E eu tentava então adivinhar qual disco estava sendo prensado naquele momento.

Seria um álbum do Yes? Do Sinatra? Da Aretha Franklin? Do América? Bread? Alice Cooper? Led Zeppelin? James Taylor? Rod Stewsart? Emersom, Lake & Palmer?

Eu sonhava fazer parte desse processo maluco que é compor uma música, fazer um arranjo, ensaiar com uma moçada, entrar em um estúdio, gravar essa canção, mixar todos os canais, masterizar, mandar pro corte e depois de um tempo ver tudo isso transformado em um disco… Impresso numa “Bolacha”.

E depois de muito tempo cheguei a realizar esse meu sonho sim! (embora tenha sido em CD).

Em 1991 comecei a compor alguns temas instrumentais e com o tempo eu já tinha o suficiente pra fazer parte de um CD. Mostrei ao meu irmão (que nessa época era diretor da RGE discos) e ele lançou então meu álbum solo com o título de “Ilusão Acústica” (que era também o nome de uma produtora minha de áudio e vídeo) e meu nome artístico como (pasmem!) F. Rodrigues.

Não vendeu bosta nenhuma. Foram impressas umas mil cópias que acabei dando a maior parte de presente para os amigos.

Sei que o Rodrigues (é assim que meu irmão é conhecido no meio) no fundo lançou o meu CD mais pra me agradar do que qualquer outra coisa.

Valeu.

Tô te contando tudo isso porque neste fim de semana eu passei naquela feirinha de antiguidades que existe ali na Praça Benedito Galixto em Pinheiros.

Tava eu lá fuçando nas barraquinhas as ofertas de CDs quando de repente encontro uma cópia do Ilusão Acústica! Estava novinho, autografado e dedicado a um tal de Roberto (o filho da puta desse Roberto acho que nunca se deu ao trabalho de ouvir uma vez sequer aquele troço).

Perguntei o preço e o vendedor disse que qualquer um dos CDs que estavam naquele casulo custava cinco reais. Fiquei ali olhando capa e contra-capa… Lendo os créditos e lembrando da porrada de amigos que me ajudaram, incentivaram e tornaram meu projeto real. Lendo e lembrando das horas incansáveis de estúdio, dos favores pedidos e de todas as sensações que senti ao compor as canções e ao tocar quase todos os instrumentos contidos ali.

Mas essa minha reflexão toda foi interpretada pelo dono da banca de CDs como uma indecisão minha em comprar a mercadoria e então mandou essa:

– Leva aí cara… Te faço três reais.

Não me ofendi. A oferta era boa.

E além do mais, no mesmo casulo de cinco reais onde encontrei “Ilusão Acústica” de F. Rodrigues, estavam em oferta também “Jóia” de Caetano Veloso, “Mina D’àgua”  da Gal Costa, The Best  of Tony Bennet, Carly Simom, Gênesis, Cláudio Zoli, Sidney Magal, Os Carbonos, Ray Conniff, Clara Nunes, Leila Pinheiro e uma infinidade de outros talentos.

Sabe… Eu já trabalhei na seção de discos da Mesbla, fui balconista do Museu do Disco e até gerente de uma loja de discos colada ao extinto Mappin.

Mas só quando vi meu CD ao lado dessa gente toda é que pela primeira vez me senti realmente “do disco”. Como meu irmão.

Saindo dali eu fui até aquela padaria que existe na esquina da Cardoso de Almeida com a Dr.Cândido Espinheira lá em Perdizes e onde a gente costumava tomar café toda manhã.

Entrei e pedi um expresso curtinho como faço sempre.

Sabe… Talvez tenha sido a falta de adoçante… Talvez tenha sido a porra das minhas lembranças sobre esse universo mágico e decadente do disco naquela tarde ou sei lá o que foi.

Só sei te dizer que dessa vez o café me desceu mais amargo do que nunca.

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