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Luiz Alberto Machado - Iscas Econômicas -

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 Quadro alarmante

 

                                                                                                      ARMA

a gente nunca erra

quando faz da paz

nossa arma de guerra

Alvaro Posselt

 Aylan Kurdi

Uma das cenas mais chocantes do ano, que certamente ainda será reproduzida inúmeras vezes, em especial por ocasião das tradicionais retrospectivas que as redes de TV costumam apresentar no final do ano, foi a do menino sírio Aylan Kurdi morto numa praia da Turquia, durante uma tentativa desesperada de fuga de sua família diante do quadro de horror em que a Síria se transformou nos últimos anos, onde tropas do presidente Assad, apoiado pela Rússia de Putin e pelos ricos Emirados Árabes, lutam contra soldados do cruel Estado Islâmico, esse que degola a quem não se converte à sua religião e outros grupos descontentes com o autoritarismo de Assad.

A tragédia envolvendo o pequeno Aylan, em que perderam a vida também sua mãe e seu irmão, deu visibilidade a um problema humanitário que vem se verificando em diversas partes do mundo e que passa praticamente despercebido em regiões não diretamente afetadas que é o dos refugiados. Apesar da crueza da cena e de eventuais usos indevidos da imagem, não há dúvida que a particularização do problema, confirma de certa forma uma afirmação do tirano russo Joseph Stalin: “Uma única morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística”.

O problema dos refugiados insere-se numa questão mais ampla que é a da demografia e possui consequências em diversos planos: econômico, político, social, cultural, habitacional, previdenciário etc.

No plano econômico, além dos aspectos relacionados diretamente à questão demográfica, como as oscilações vegetativas (nascimentos e mortes) e migratórias (emigrações e imigrações), a tragédia do pequeno Aylan encontra explicação também numa linha de pesquisa cuja importância tem merecido cada vez mais atenção na teoria econômica: o da economia comportamental. Tendo como ramificações as finanças comportamentais (ou pessoais), a economia experimental e a psicologia econômica, a economia comportamental, que serviu de base para o Relatório Anual do Banco Mundial de 2015, voltou a ser bastante mencionada recentemente, graças à concessão do Prêmio Nobel de Economia ao escocês Angus Deaton. Professor da Universidade de Princeton e interessado no tema finanças pessoais, ele escreveu em 2013 um artigo com o psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do mesmo Nobel em 2002.  Roberto Macedo, em seu artigo no Estado de S. Paulo (15 de outubro de 2015) destacou o fato de Kahneman, um psicólogo, ter recebido o Nobel de Economia. Traduzido para o português, o referido artigo tem o título Renda alta melhora a avaliação da vida, mas não o bem estar emocional. Macedo observa que Kahneman é hoje um ícone da economia comportamental, “que se desenvolveu fortemente nas duas últimas décadas em contraposição ao enfoque tradicional, que adota como premissa a racionalidade do ser humano [principalmente ao tomar decisões econômicas]. Ele demonstrou que o ser humano tem racionalidade limitada por desvios comportamentais que podem comprometer a qualidade de suas decisões econômicas e financeiras”.

Dentro da economia comportamental, a importância de identificar um caso específico, como o do menino Aylan, é explicada através do “Efeito da Vítima Identificável”, fenômeno descrito na última década por cientistas e economistas comportamentais, como, por exemplo, os americanos Paul Slovic, George Lowenstein, Deborah Small e pela professora israelense Tehila Kogut.

Carlos Eduardo Mauro, economista formado pela FAAP e atualmente professor da Universidade Católica na cidade do Porto, em Portugal, refere-se a isso da seguinte forma: “Os estudos sobre este efeito têm revelado uma grande assimetria na nossa tendência para ajudar em casos de vítimas coletivas e em casos de vítimas identificadas. A tragédia recente é exemplar neste sentido. Lemos e fomos confrontados com imagens de dezenas e centenas de refugiados mortos, mas parece que acordamos para o assunto apenas depois do caso Aylan. Inequivocamente, a probabilidade de agirmos e de ajudarmos de alguma forma aumentou depois de termos tido acesso à história de Aylan, cujas imagens correram o mundo, de modo viral”.

Depois de outras considerações sobre o tema, Carlos Eduardo Mauro, ele mesmo um pesquisador especializado em economia comportamental – a que considera mais um ramo da economia aplicada do que da teoria econômica – assinala: “Temos que ter consciência que o Efeito da Vítima Identificável pode ser utilizado para mobilizar pessoas para boas ou más causas. Contudo, assumindo que os cientistas e economistas comportamentais seguem imperativos éticos, podemos afirmar que este efeito abre um conjunto enorme de possibilidades para fazer o Bem. Algumas ONGs, por exemplo, já estão conscientes disso e identificam o beneficiário da doação, aumentando, assim, as suas receitas e a dimensão dos recursos afeitos às causas que representam”.

Só nos últimos dois anos, meio milhão de pessoas se aventuraram em perigosas viagens para fugir da guerra, da fome, do horror que assola o Oriente Médio e o Norte da África. Mais de cinco mil deles tiveram o mesmo destino que Aylan Kurdi, o jovem sírio que se transformou no símbolo desta que é a maior crise migratória na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Questões de natureza migratória, envolvendo refugiados ou não, estão há muito presentes na história da humanidade. A própria Bíblia destaca o tema no Êxodo, que é o segundo livro do Antigo Testamento. Dando continuidade ao livro do Gênesis, descreve a fuga dos israelitas do Egito, conduzidos por Moisés até a Terra Prometida. Ao chegar ao Monte Sinai, Yavé lhes entregou as Tábuas da Lei com os Dez Mandamentos. Moisés faleceu no Monte Nebo. De lá se avistava a Terra Prometida. Josué foi o sucessor de Moisés que introduziu o povo de Israel na Terra Prometida. Em 2014, Ridley Scott dirigiu um filme épico sobre o tema.

Também na história do Brasil, há exemplos de fluxos imigratórios que tiveram impacto relevante em diversos momentos da nossa formação econômica. Sem contar o grande fluxo de negros africanos que vieram para o Brasil como escravos, merecem destaque os fluxos de japoneses, italianos, alemães, poloneses, sírios, libaneses e armênios, que vieram a constituir numerosas comunidades em diferentes partes do Brasil. Também em muitos desses casos, os que para cá vieram estavam fugindo de guerras, genocídios ou ameaças perpetradas por regimes autoritários em seus países de origem, como o comunismo, o nazismo e o fascismo.

Mais recentemente, tiveram realce na mídia os casos dos haitianos (que não se enquadram na condição de refugiados) e dos sírios.

Considerando a relevância do tema na agenda das relações internacionais e a gravidade da situação atual, marcada, de um lado, por graves tensões na Síria, em algumas regiões fronteiriças da Rússia e em partes conturbadas da Ásia e da África, e, por outro, pela indefinição observada na Europa, onde proliferam barreiras à entrada de refugiados por parte dos países mais procurados, é provável que o Brasil venha a desempenhar um papel de extrema importância daqui em diante.

A conferir!

Iscas para quem quiser se aprofundar

Referências e indicações bibliográficas

MACEDO, Roberto. O Nobel Deaton, o dinheiro e a felicidade. O Estado de S. Paulo, 15 de outubro de 2015, p. A 2.

POSSELT, Alvaro. Arma. Em MACHADO, Gilvânia (organizadora). Fagulhas Poéticas II. Praia Grande: Editora Literata, 2013.

Referências e indicações webgráficas

BOFF, Leonardo. O pequenino Ayslan Kurdi nos faz chorar e pensar. Disponível em  http://www.jb.com.br/leonardo-boff/noticias/2015/09/07/o-pequenino-afogado-ayslan-kurdi-nos-faz-chorar-e-pensar/.

MAURO, Carlos Eduardo. O que a economia comportamental tem a dizer sobre a morte do pequeno Aylan. Disponível em http://www.brasil-economia-governo.org.br/2015/10/13/o-que-a-economia-comportamental-tem-a-dizer-sobre-a-morte-do-pequeno-aylan/.

O BRASIL na Rota da Imigração: Desafios e Reflexões. Disponível em http://espacodemocratico.org.br/o-brasil-na-rota-da-imigracao-desafios-e-reflexoes/.

WORLD BANK. Mente, sociedade e comportamento. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2015. Disponível em http://www.worldbank.org/content/dam/Worldbank/Publications/WDR/WDR%202015/Main-Messages-Portuguese.pdf.

Referência cinematográfica

Exodus

Exodus: Gods and Kings

Direção: Ridley Scott

Produção: Peter Chernin, Ridley Scott, Jenno Topping, Michael Schaefer e Mark Huffam

Roteiro: Adam Cooper, Bill Collage e Sreven Zaillian

Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Aaron Paul, Ben Mendelsohn, Sigourney Weaver e Ben Kingsley

Música: Alberto Iglesias

Distribuição: 20th Century Fox

Lançamento: 2014

Duração: 150 minutos

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