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Existo, logo penso.

Existo, logo penso.

Filipe Aprigliano - Iscas do Apriga -

Você já se questionou sobre quanto do que é considerado verdade na sua cabeça você realmente sabe ou apenas acredita? Fazer esse esforço de forma sincera pode ser bastante assustador.

Para desenvolvermos essa investigação, considere todo o conhecimento humano. Coloque nesse mesmo balaio as ciências, as religiões e tantos outros modelos que você adotou para entender a sua existência e o mundo à sua volta. Os outros modelos a que me refiro são, às vezes, confundidos com ciência. Eu me refiro, em especial, às ciências humanas – psicologia, filosofia, história, entre outras -, que são, constantemente, contaminadas por ideologia e religião. Sendo assim, esses modelos lutam pelo status de ciência, como se isso fosse fundamental. Outros campos de conhecimento, como astrologia e todos os tipos de misticismo, seguem a mesma lógica.

Vamos supor que todos esses campos sejam fontes de conhecimento. Seja religião, ciência ou misticismo, o que existem são discursos que são vendidos através de modelos de compreensão da realidade. Temos que considerar ainda os conflitos que existem entre as diversas áreas de conhecimento. Não há unanimidade nem mesmo dentro de cada uma dessas áreas.

Então, o que você realmente sabe e o que é apenas crença? Resumidamente, você sabe as coisas que consegue experimentar. Provavelmente, você sabe as leis básicas da física e experimenta elas o tempo todo. Sabe também as leis básicas da biologia, porque também pode experimentá-las. E o que mais? Quando saímos do mundo físico, a coisa começa a ficar bem mais complicada.

No caso da História, por exemplo, os fatos históricos documentados, toda a parte interpretativa é profundamente contaminada pela ideologia e pela perspectiva do historiador, que ignora as fontes e até os fatos documentados que não lhe interessam. O historiador não é muito diferente de um jornalista, que quer apenas vender uma visão de mundo. A única diferença é que as “notícias” do historiador são muito velhas. Não estou aqui para desgraçar nenhuma profissão ou área de conhecimento – aliás, eu também passei pela faculdade de História -, mas a verdade é que não sabemos história alguma. Apenas acreditamos nas histórias que alguém nos contou.

Para apaziguar os ânimos, imagine que você tivesse todo o tempo do mundo para recordar a sua infância e escrever com detalhes sobre ela. Quem ler, atenciosamente, todo esse conteúdo, vai saber realmente como foi a sua infância ou apenas comprar o seu discurso? Vamos mais longe. Digamos que você faça esse exercício aos 20 anos e depois aos 40 anos. Os relatos seriam bem diferentes, concorda? A sua infância continuaria sendo a mesma, ela já aconteceu, está lá imutável no passado. Porém, à medida que for envelhecendo, você vai mudar a forma como se lembra dela, porque a sua perspectiva vai mudar.

Então, essa é uma realidade para a maior parte do conhecimento humano. São perspectivas, visões de mundo. Quando tratamos de questões que fazem parte da experiência cotidiana de todos, coisas que podemos vivenciar no nosso momento presente, não há muita polêmica e, na prática, são coisas que realmente sabemos. Todo o resto escolhemos acreditar. Cada um escolhe o que parece mais útil, razoável. Algumas vezes, também acreditamos porque foi a única teoria que ouvimos a respeito de um assunto.

Agora vem o “plot twist” deste texto. Você sabe quem você é? NÃO. O que você provavelmente acredita que é trata-se apenas de uma construção da sua mente. Você se chama João, Maria, Ermenegilda. Você se define alto, baixo, feio, bonito, inteligente, extrovertido, ingênuo. Teve uma infância difícil, sorte, algum trauma. Não importa. Você acredita que é um corpo e um somatório de experiências, e essa fusão define as suas características.

A verdade é que, se você perder vários membros do seu corpo, sofrer transplante de alguns órgãos importantes, mudar de nome e fizer cirurgia plástica, continua sendo você, certo? Se você se esforçar ou fizer alguma terapia comportamental, também pode mudar as características da sua personalidade tímida ou extrovertida, agressiva ou compassiva (talvez um remédio também ajude). Continua sendo você, certo? Então, você seria apenas a sua memória? Se tiver amnésia, danou-se?

Você não é nada disso. A sua mente e memória não são você também. Elas são apenas uma ferramenta. Entretanto, como ninguém costuma se fazer essa pergunta, todos acabam acreditando ser a mente.

A mente não é apenas uma ferramenta que quer tomar o seu lugar. Ela é traiçoeira e selvagem. Quando você se identifica com ela, raramente a questiona e, a partir daí, começa toda a ilusão.

Vou dar um exemplo de como a mente não é sua amiga, a menos que você aprenda a domá-la. Você vê o bolo de aniversário antes da hora dos parabéns na bancada da cozinha e a mente diz: “Hummm!!! Que bolo bonito! Parece ótimo. Vou pegar só um pedacinho bem fino e esconder com a calda”. Digamos que você pegue. Imediatamente, a mente vai dizer:  “Ahhh!!! Você não devia ter feito isso, que desnecessário”.

A tradição budista retrata a mente como um macaco bêbado picado por um escorpião. Ela está sempre ativa, fora de controle, atrás de um desafio, algum tipo de realização, que, se for imediata, melhor. A coerência também não é o forte da mente. Ela quer te convencer a realizar logo as coisas, a chegar a uma conclusão de forma rápida e partir para o próximo desafio. Se a lógica rasa servir a esse propósito, ela vai oferecer só isso mesmo.

A verdade mais dura e assustadora é essa. Se você acredita que sua mente é você, tudo que você entende como sendo você é uma ilusão: não existe e nunca existiu. Vamos torcer para você não morrer sem nunca ter existido. Até o seu corpo, que sem dúvida faz parte de você, também é desconhecido. É apenas a visão que um macaco bêbado tem desse corpo.

E agora? Que depressão, não é mesmo? Não desanime. Posso garantir que isso é passageiro. Tudo só melhora depois que tomamos consciência desse fato.

Você já deve ter ouvido falar das distorções geradas pela autoimagem, mas não falo só disso. Mesmo com muita análise, você nunca vai se conhecer enquanto se identificar com a mente. Então, qual é o próximo passo?

Vamos analisar a seguinte frase: “Penso, logo existo”.

Essa frase não foi criada por uma pessoa, mas pela mente (de Descartes, no caso). A verdade é que você existe antes de pensar. Você existe sem pensar. Caso isso não seja claro para você, recomendo a experiência da meditação. Quando você medita, o objetivo não é ficar parado. É calar a mente e apenas contemplar todos os sentidos. Até mesmo os pensamentos que surgirem espontaneamente devem ser experimentados, mas sem interagir com eles ou alimentá-los com julgamentos. A mente adora jogar conversa fora, é a única ocupação dela. Quando você exercita isso, fica clara a dissociação entre você e a mente. A mente é sua, mas não é você. Você é apenas o observador.

Os desdobramentos que ocorrem na sua vida quando você muda essa perspectiva, deixando de ser a mente e passando a ser o observador, e também passando a usá-la apenas como ferramenta, são extraordinários.

Pretendo escrever bem mais sobre os desdobramentos de não ser a mente, mas por hora acho que é suficiente.

Vou finalizar com uma frase intrigante do Einstein:

“Eu penso 99 vezes e não descubro a verdade. Paro de pensar, mergulho em um profundo silêncio, e eis que a verdade me é revelada.”

Obrigado pelo seu tempo. Quem sabe nos falamos novamente?

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