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Entra burro e sai bandido!

Entra burro e sai bandido!

Suely Pavan Zanella - Iscas Comportamentais -

bandido

OK! Sei que tem muita gente que é favorável à redução da maioridade penal, e sei também que essas pessoas têm lá os seus motivos, sendo a maioria de ordem pessoal. Eu mesma já fui assaltada por dois menores, que em nada se assemelhavam ao estereótipo do bandido “di menor”. Eram dois rapazes que devem ter sido criados a pão de ló, mas como muitos entraram na criminalidade pelo “glamour” que ela representa em termos de “status social”. Já escrevi também muito sobre este assunto desinteressante aqui no Brasil e que pouca gente se importa: Que é o aumento absurdo dos crimes cometidos por jovens da classe média e alta. Mas quem se importa com este tema, não é mesmo?
A maioria destes jovens comete os crimes por identificação com o bandido e claro pelo uso de drogas.
Sobre a redução da maioridade penal já dei a minha opinião várias vezes, e não irei repeti-la aqui.
Bom, o que quero abordar hoje é um tema nevrálgico, e já aviso o texto é longo. Portanto, se você gosta de textos curtos, nem leia!
O tema foi vivido por mim, e aqui vou dar um depoimento que vai desagradar muita gente. E tem a ver com um tema fascinante chamado Ética.
Em 2002, na época em que a Marta Suplicy era a Prefeita da cidade de São Paulo, ela encomendou um trabalho à psicodramatista Marisa Greeb. A Marta queria ouvir a cidade, e o foco deste trabalho era: O que você faz para tornar a cidade uma melhor cidade? (algo do gênero). O trabalho foi intitulado de Psicodrama da Ética.
Para que o trabalho fosse realizado, nós o grupo de 150 psicodramatistas, fomos devidamente preparados, tanto conceitualmente quanto na prática. Afinal, estaríamos nas ruas, nas praças, ouvindo a população não de forma passiva, mas sim ativa, como, aliás, é o psicodrama.
A primeira palestra que tivemos foi lá na PUCSP com a Mestre em Filosofia e Doutora em Educação Therezinha Azerêdo Rios. Eu fiquei apaixonada pelo tema, tanto que ao sair da palestra comprei todos os livros que ela mencionou e posteriormente os estudei profundamente. Ressalto que naquela época o tema ética estava muito em voga nas empresas e era discutido com fervor nos grupos de RH que eu fazia parte na Internet. Descobri, porém, através da palestra da Therezinha e depois dos meus estudos, que se usava o conceito de ética erroneamente, e que ele era, no contexto empresarial confundido com moral. Ética e moral apesar de terem as mesmas raízes representam coisas diferentes, pois ética é a reflexão sobre a moral existente. A moral seria uma espécie de cristalização, mas ética é movimento, é livre pensar, é refletir no grupo que se faz parte. E não é à toa que ética e psicodrama combinem tão perfeitamente.
Bom, não vou aqui me estender falando sobre os resultados do Psicodrama da Ética que foram excelentes, mas sim, continuar com o tema principal: Ética.
Com a paixão pelo tema resolvi montar uma palestra para empresas ela se chamava “E por falar em ética”. Percebi que este tema não agradava muito o ambiente empresarial. Se ética é reflexão, percebi que o pessoal das empresas preferiam muito mais o conceito de moral, algo não questionado e que forma leis ou códigos. Lembre-se que eu sou psicóloga e psicodramatista, portanto, minhas palestras não eram do tipo em que eu falava e a plateia escutava, as pessoas participavam, e detestavam quando se percebiam antiéticas em seu dia a dia. O tema incomodava, já que para ser ético é preciso ser ativo, e não um sujeito passivo, ou escravo como diz o Fernando Savater, autor de um belo livro chamado “Ética para o meu filho”. Em algumas palestras que ministrei houve até um participante que se retirou, percebi que as pessoas no geral associam ética com políticos, e nunca com suas atitudes no dia a dia.
Não desisti do tema, e meu novo objetivo eram as escolas. E lá fui eu percorrer as escolas estaduais e municipais do bairro em que morava, o ano deveria ser 2004 ou 2005. Dessa vez optei por travestir o tema Ética e dar um título que gera interesse que é o mercado profissional. Pais e professores parecem só se preocupar com o futuro profissional de seus filho, e muito pouco pelo desenvolvimento integral dos adolescentes. Apesar do aparente foco profissional minha intenção era a reflexão sobre a vida, nossas escolhas em todos os papéis, através da ética.
O trabalho era gratuito, e mesmo assim não houve interesse por parte de nenhuma escola pública da minha região. A desculpa de todas as escolas (foram dezenas) era sempre a mesma: Não temos tempo!
Mas o que eu sentia conversando com diretoras e coordenadoras era: Nós temos medo, e não temos interesse!
A última escola em que fui, no passado era chamada de modelo, mas na época em que ofereci o trabalho mais se parecia com uma prisão. Havia um funcionário na porta que lia a Bíblia, e me deixou entrar com a maior facilidade, apesar das grades altas. Mais uma vez meu projeto não gerou interesse algum por parte da diretora. Ao sair vi que alguns adolescentes estavam sendo barrado pelo funcionário da entrada e resolvi perguntar por qual razão ele havia me deixado entrar, afinal, eu disse a ele, eu poderia ser uma assassina de crianças e conter uma arma em minha bolsa. E ainda disse: – O Senhor me deixou entrar só porque eu tenho carro, sou ruiva (na época eu era) e não tenho cara de pobre?
Ele me respondeu que os alunos ficavam fumando maconha na pracinha e depois chegavam atrasados. E eu argumentei: Mas não seria melhor deixá-los entrar, ao invés de na rua à mercê de traficantes? Ele não teve resposta e ainda disse: -À noite é pior, pois chegam atrasados. Novamente eu o questionei: Com o trânsito da cidade todos chegam atrasados, eu dou aulas num curso de pós-graduação e meus alunos também chegam atrasados.
Saí de lá com muita raiva, entrei no carro e me dirigi à minha casa, no caminho vi uma escola particular rodeada de seguranças por todos os lados protegendo os alunos. Tentei trocar de papel com os adolescentes dos colégios públicos e pensei: Acho que se eu tivesse 14 ou 15 anos também colocaria bomba na escola (havia acontecido isso com essa última escola), fumaria maconha e tentaria pular o muro. Não é justo ver gente rica tão bem protegida e pobre tão discriminada.
Conclui que minha percepção quanto às diretoras e funcionários da escola era correta: Há um problema de premissa, ou seja, uma crença de que estes adolescentes não tem jeito. Então é passar no concurso público e trabalhar na escola sem paixão, e sem querer modificar esta realidade. Se tivesse que fazer um trabalho hoje com professores, diretores e funcionários de escola seria algo relacionado ao que eles pensam de seus alunos. E esse trabalho seria pago, já que ninguém valoriza a gratuidade.
Rubem Alves uma vez disse algo brilhante: Nas várias discussões em que ele participou com professores um personagem sempre ficou de fora, os alunos. Como ser um professor ou funcionário se o elemento principal da relação sempre está de fora, se o aluno, tal como na escola que visitei fica de fora?
Há alguns poucos anos resolvi continuar o trabalho e fui para uma ONG que fica dentro de uma favela perto de minha casa. Meu objetivo era trabalhar a sexualidade dos adolescentes, mas minha premissa de trabalho eram as escolas relacionais e de novo a ética. O trabalho com os adolescentes ia bem, porém a ONG me cobrava uma postura de gritos e berros, tal como as professoras que lá trabalhavam faziam. Tentei explicar diversas vezes à dona da ONG que eu não sou professora, e sim psicóloga, e que meu trabalho é barulhento. Os adolescentes se manifestavam, e ela não gostava da zueira geral. Quem ouve ou apenas vê o psicodrama acha que é caótico, por este motivo a participação é fundamental.
Além desse problema com a dona da ONG vi que ela era demasiado focada em doações, e achava que eu tinha obrigação de fazê-las ou ir atrás delas a todo o custo. Também não gostei da relação de pobrismo estabelecida: As crianças e adolescentes frequentavam a ONG através de aulas, cursos, mas em nada contribuíam. Até a faxina ela tinha que fazer, pois nenhuma mãe de aluno se oferecia em fazê-la. Várias vezes indaguei: Mas por qual razão você não cobra das pessoas, ao invés de angariar apenas doações? Ela argumentava que ninguém mais frequentaria a ONG, e que ela queria ajudar as crianças. Sinceramente não sei se este tipo de pensamento e ação ajudam de fato alguém.
Além dos problemas citados houve outros mais delicados, como por exemplo, eu não poderia falar sobre drogas, pois muitos eram filhos de traficantes. E se tem uma coisa que não consigo é trabalhar com mordaças ou não me toques.
Apesar disso minha relação com os adolescentes durante o trabalho grupal e individual foi ótima, só isso mereceria um texto à parte contando esta experiência.
Eles acabaram me confessando muito chateados que a escola próxima à comunidade em que todos estudavam tinha um slogan: Entra burro e sai bandido!
Fiquei chocada ao ouvir isso e aprofundei o assunto. E vi que infelizmente, e novamente, a premissa: Eles não têm jeito, é verdadeira. Pouca gente que trabalha com adolescentes quer sua melhoria. Como pode uma escola ter uma crença e manter em seu quadro professores deste naipe, que não tem amor pela profissão e muito menos capacidade de desenvolver adolescentes para uma vida digna?
Muitas mães desses meninos e meninas foram a esta escola reclamar com a diretora, mas segundo o que soube ela não estava nem um pouco preocupada, e só queria o seu salário no final do mês!
Se acomodar em qualquer profissão, a meu ver, é a morte. Ganhar um salário e dar aulas no piloto automático me dá comichões só de pensar!
Então, qualificação prática de professores a meu ver, vem antes de se pensar em redução de maioridade penal. Na época em que eu era adolescente e estudei em colégios públicos, meus professores e não os bandidos eram meus ídolos. Eu queria ser como eles!
Meus professores eram elegantes, davam aulas em faculdades, eram cultos, e éticos, nos faziam refletir, e tinham uma linguagem que nos aproximava. Seus métodos eram também barulhentos, grupais e muito participativos. Se hoje sou o que sou, devo a eles. Sempre detestei aulinha dada pelo professor com alunos enfileirados como se fossem bois. Se antigamente isso não funcionava, imagine hoje.
Só que hoje até as aulas de MBA tem um mestre à frente que fala para os alunos, poucos os fazem pensar. Antigamente professor não precisava ter mestrado ou doutorado, mas tinha que ser bom na arte de ministrar uma aula envolvendo seus alunos, e ter uma crença irrefutável no desenvolvimento humano.
Hoje um professor de adolescentes esbarra com sérios problemas educacionais referente à casa destes meninos e meninas. Quando trabalhei na ONG me vi várias vezes falando de postura ao sentar, por exemplo. As meninas iam de saias e faziam questão de sentar com as pernas abertas mostrando as calcinhas, usavam palavreado chulo aprendido em músicas, e dançavam de forma provocativa, além de exigirem dos meninos comportamentos de homens cafajestes. Diziam que a única coisa que aprendiam na escola era como colocar camisinhas! Quando questionava estes comportamentos, que segunda elas, viam na TV, elas acatavam como se ninguém lhes tivesse mostrado outra forma de agir e pensar. Adolescentes precisam sair do mundinho viciado em que vivem.
Portanto, hoje o papel do professor, mais do que seu cargo é fazer pensar, refletir, e desta forma exercer a ética, a arte do bem viver, e que esse bem viver seja bom para todos. Aliás, esse é o sentido da ética.

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